Reis Pinto, in Jornal de Notícias
Pintar ajuda os doentes a exprimir emoções e sentimentos, quebrando o isolamento próprio da doença
Uma em cada quatro famílias portuguesas tem um doente mental, mas a patologia, mesmo assim, "continua a ser estigmatizada", uma atitude que atrasa, em cerca de dois anos, o início do tratamento, afirmou, ontem, Jorge Bouça, director do departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.
Assinalando o Dia Mundial da Saúde Mental, foi inaugurada, no Hospital Eduardo Santos Silva, em Gaia, uma exposição de trabalhos desenvolvidos no ateliê de pintura do Grupo de Reabilitação do Hospital de Dia de Psiquiatria.
"Estes doentes perdem muito cedo as capacidades produtivas e vão-se isolando. Não falam com ninguém, fecham-se em casa e saem da sociedade. Tudo o que se pode fazer é integrá-los. Com esta terapia, eles não só convivem, como expressam emoções e sentimentos", referiu o especialista.
Apesar do grupo existir há cerca de seis anos, Jorge Bouça entende que "é um caminho que se começa a fazer".
Daí que esteja em preparação um programa para jovens psicóticos. "As preocupações já serão outras e criaremos um clube de emprego e de informática", revelou Jorge Bouça.
Essencial é, de acordo com aquele especialista, integrar os doentes para aliviar o fardo das famílias que é "enorme".
"A forma como encaramos a doença mental mudou muito. Dos asilos, passou-se para os hospitais psiquiátricos e que também já são um conceito ultrapassado. O doente mental é perfeitamente capaz de ser autosuficiente, de viver autonomamente num apartamento, de ter família e um emprego. Se não quisermos aceitar que uma, em cada quatro pessoas vai ter uma doença mental, a realidade irá impor-se", afirmou. Jorge Bouça lamentou, ainda, o "orçamento muito baixo para a saúde mental" e as "quase inexistentes respostas psicosociais".
E, no entanto, "muitos dos doentes são pessoas activas, têm emprego, são casados e têm filhos". "É necessário integrá-los para melhorar a sua qualidade de vida e das suas famílias. Eles constituem um fardo tão grande que, não raras vezes, os familiares desenvolvem depressões severas. Quanto mais autónomos os doentes foram, mais fácil se torna para as famílias", conclui Jorge Bouça.
"Fechou-se numa concha"
Carolina
Mãe de doente
O meu filho é doente há sete anos e este grupo ajuda-o muito. Ele era uma pessoa capaz, um profissional competente e quando se apercebeu das limitações que a doença lhe impunha ficou parado, fechou-se numa concha. Agora, que está entre iguais, já aceita a sua condição consegue expressar, através da pintura, emoções que estavam escondidas. Estive sempre ao lado dele e é bom vê-lo feliz.

