14.10.07

"Liberdade e solidariedadeé esta a marca Europeia"

Daniel Deusdado, / Farol de Ideias, in Jornal de Notícias

Como é que acompanhou a integração de Portugal na União Europeia? Foi já com uma grande expectativa ou estava um pouco reticente, como era moda na época?


José Manuel Durão Barroso | Fiquei muito contente com a nossa adesão. Fiz parte, aliás, de um grupo de jovens universitários que lançaram a primeira associação universitária de estudos Europeus. Eu via na adesão de Portugal a hipótese do nosso país se tornar num país como os mais avançados da Europa, ou pelo menos avançar nesse sentido. A verdade é que, por coincidência, entrei para o Governo, precisamente, em finais de 85. E acompanhei, na altura nos governos do professor Cavaco Silva, os dez primeiros anos da adesão de Portugal. Sou testemunha da modernização que o nosso pais então conheceu. Claro que não estamos ainda ao nível dos países mais avançados. Mas para aqueles que se lembram do que era Portugal em 1985, do que era por exemplo o nosso interior, a falta de infra-estruturas, a própria falta de uma cultura moderna na administração e até nas próprias empresas privadas, e os comparam com a situação actual, todos eles só podem estar obviamente contentes com o progresso feito por Portugal.

Consegue deixar três ideias essenciais do que, nos últimos vinte anos, mudou radicalmente em Portugal?

A grande questão da mudança de Portugal é muito geral e tem a ver com a mudança cultural em sentido amplo. É o próprio país que deixou de se ver como uma espécie de país do Terceiro Mundo, que era mais ou menos aquilo que na altura correspondia à auto-imagem de Portugal, e passou a ser um país europeu. É um país com problemas, sem dúvida, ainda com um atraso em relação aos países mais desenvolvidos, mas um país europeu!

Não era assim a seguir à revolução, em que se falava sempre numa especificidade portuguesa, numa espécie de ponte entre o Terceiro Mundo e a Europa e coisas assim do género. Depois, as mudanças mais específicas têm a ver com o que Portugal ganhou em termos de fundos estruturais, nomeadamente para a modernização das suas infra-estruturas. Hoje já damos isso por adquirido, mas não era adquirido antes. Portugal modernizou-se e valorizou a sua posição no mundo! Hoje em dia, graças à sua participação na União Europeia, é um país que - podemos dizer - conta acima do peso que tem no contexto internacional, precisamente porque é um membro activo e respeitado no âmbito Europeu.

E agora que muito se fala do futuro desta Europa, que marca pode destacar a UE no contexto internacional?

A ideia que estamos a desenvolver é esta dar à Europa progressivamente uma identidade mais forte no campo político, no campo económico e dos valores, no campo ambiental, para ajudar a criar as regras desta globalização, para que a Europa não seja liderada, mas lidere o mundo no Século XXI, com os nossos valores. Destaco essencialmente dois: liberdade e solidariedade. Liberdade porque há muitas zonas do mundo onde não há liberdade. Onde jornalistas, que dizem coisas que o poder não gosta, são aniquilados. Mas também a solidariedade. Ajudar os que mais precisam, ajudar aqueles que não têm nada, aqueles que morrem de fome. Aqueles que morrem quando já estão perfeitamente disponíveis no mercado medicamentos que podem tratar a sua doença. E é esta a marca Europeia: Liberdade e Solidariedade. Não apenas para nós - Europa - mas ajudando a que estes sejam cada vez mais valores universais!

Sente que o ambiente é uma espécie de nova ideologia que possibilita um grande acordo de maiorias na UE?

Há uma diferença, para mim, entre ideal e ideologia. A defesa do Ambiente e do nosso planeta devem ser um ideal. Isso sim. Transformar isso numa ideologia acho negativo. Porque a ideologia é sempre uma forma de simplificação da realidade e a sua manipulação em relação a outras visões. Ora, a luta que hoje em dia travamos na Europa pela defesa do Ambiente e contra as alterações climáticas está baseada na melhor prova científica. Por isso, não a vejo como uma ideologia. E aborrece-me um pouco que alguns a queiram transformar numa ideologia redutora e sectária e até procurarem dar lições aos outros. Vejo sim como uma grande tarefa inspirada por um ideal deixarmos este planeta que habitamos em boas condições para os nossos filhos e para as futuras gerações. O ideal de amarmos a natureza e respeitarmos estes equilíbrios. Isso sim! E é verdade que isso transcende muito as clássicas barreiras ideológicas e as diferentes forças políticas.

Qual é a sua ideia de Europa?

Uma Europa que ajude a própria governação global. Uma Europa aberta, mas que, ao mesmo tempo que defenda a abertura, propugne e até exija regras para que o mundo não seja de facto apenas a lei do mais forte! Regras em termos da defesa do ambiente, de defesa dos trabalhadores, da defesa do Estado de Direito... Estes são os nossos ideais. Por isso, senti-me orgulhoso como europeu e é um dos casos em que acho que podemos dizer que a Europa está a desempenhar um papel muito positivo.