Sofia Branco, in Jornal Público
Passar das palavras aos actos, alargar a prevenção à sociedade e focar-se
no longo prazo. Esta deve ser a nova estratégia de combate à sida
3 milhões
de pessoas morrem anualmente com HIV-sida.
25%
das pessoas infectadas com HIV-sida têm, actualmente, acesso a tratamento.
10%
das três milhões de crianças infectadas com HIV-sida têm, no presente, acesso a tratamento.
15 milhões
de crianças são órfãs de sida.
13,7 milhões
de pessoas precisarão de tratamento dentro de três anos. Mas, se o investimento continuar a ser o mesmo, apenas 4,6 milhões terão acesso aos medicamentos.
O vice-presidente do programa das Nações Unidas para o combate e a prevenção do HIV teme uma normalização da epidemia, que a transforme num problema africano de que o mundo não quererá saber. Michel Sidibe está em Lisboa para a reunião dos coordenadores dos programas nacionais de HIV-sida da União Europeia, que decorre hoje e amanhã, no CCB.
O que vai estar em cima da mesa neste encontro promovido pela presidência portuguesa da União Europeia (UE)?
É uma conferência única. Por três razões: porque pretende trazer os migrantes para a agenda do combate à sida, revisitar as políticas europeias existentes e fazer a ligação com os países de origem. Não temos incluído a população migrante nos alvos da campanha contra o HIV-sida.
Quais os obstáculos, e o que mudou, para que as migrações tivessem mais relevo?
A sida era considerada um problema dos outros. De África, de toxicodependentes e de homossexuais. Hoje é um assunto global. O índice de infecção mais rápido está hoje na Europa de Leste e não em África. Começámos por nos concentrar na disponibilização de medicamentos e de preservativos. Mas hoje é importante lidar com as causas estruturais - a pobreza, as desigualdades, a injustiça social. Por isso é que o tema das migrações se tornou central.
Os migrantes são mais vulneráveis a certas doenças, incluindo o HIV-sida?
São um grupo particular, com vulnerabilidades particulares. Não têm acesso a cuidados de saúde básicos e vivem fora de um contexto familiar. São necessárias políticas específicas. Estamos num cruzamento: é tempo de acelerar a acção, de forma a garantir que chegamos a todos os sectores da população. Por isso insistimos no acesso universal aos cuidados de saúde. O custo da inacção será muito pesado, em termos de mortes, de novas infecções, para os sistemas de saúde. Se não agirmos hoje, pagaremos o preço amanhã.
A prevenção tem funcionado?
Temos um grande problema. Por cada pessoa que começa a receber tratamento, seis são infectadas. Como impedir a transmissão? Não é possível controlar a epidemia sem uma aliança global. Temos lidado com a prevenção na sua dimensão individual. O grande desafio é passarmos ao colectivo e actuar sobre práticas, valores, aspectos culturais. A prevenção tem sido muito mecânica: "se tiver preservativos, está a salvo". Entre o preservativo e a sociedade, há toda uma dimensão cultural. Os programas de prevenção têm falhado por não terem em conta as normas sociais, o papel das mulheres na sociedade e a pobreza. É importante recentrar a prevenção.
Que moldes deve assumir essa nova estratégia?
Não podemos continuar a falar do HIV-sida como uma realidade homogénea. Precisamos de lidar com a sua complexidade. "Conhecer a sua epidemia" é o nosso novo slogan. Cada país tem de saber que tipo de epidemia tem e agir sobre esse tipo. Reforçar as capacidades da sociedade civil é crucial para que a resposta à sida seja eficaz. Os maiores desafios são passar das palavras aos actos e de uma gestão de crise para uma resposta a longo prazo. Combater o estigma e a discriminação e assegurar a responsabilidade mútua são outros desígnios. O acesso aos medicamentos, a preços acessíveis, continua a ser uma meta, mas precisamos de uma decisão global. Precisamos de uma globalização da justiça social, de uma melhor redistribuição, de mais solidariedade.
Já passou de problema exclusivo de saúde a problema político. Como é que o mundo olha hoje para o HIV-sida?
Conseguimos quebrar a conspiração do silêncio e a sida é hoje tratada como um assunto político e de segurança. O meu medo é que, nos próximos anos, se assista a uma normalização. Que se pense que é uma doença como outra qualquer. Uma doença que mata três milhões de pessoas todos os anos não pode ser combatida como uma doença natural.
O que espera da cimeira UE-África, em matéria de HIV-sida?
Seria um grande erro se a cimeira não incluísse na agenda a sida e a tuberculose. Estamos a falar de um continente com 28 milhões de pessoas infectadas, com seis milhões de pessoas que não têm acesso a medicamentos, com 13 milhões de órfãos de sida... Seria um gigantesco fracasso. E o risco de que isso aconteça é elevado.
Do ponto de vista da Onusida, faz falta uma política comum na UE?
A UE deve trabalhar na harmonização de políticas, principalmente no que respeita ao acesso aos cuidados de saúde por parte das populações imigrantes.
No quadro da reforma da ONU, o que pode mudar no combate ao HIV-sida?
A ONU-Sida tem estado na linha da frente da reforma das Nações Unidas. É a única organização que junta dez outras agências, que tem um orçamento único, que está a tentar criar uma plataforma de advocacia e uma equipa conjunta para o combate à sida. A reforma é uma boa oportunidade para agir a uma só voz, reforçar o nível de responsabilidade de cada organização e melhorar a eficácia da cooperação.
O que o preocupa mais actualmente?
África. A América Latina está a estabilizar e não se espera uma explosão epidémica na Ásia. Na Europa de Leste, está a crescer entre os grupos mais vulneráveis. África permanecerá o grande desafio. O perigo da normalização é também o de que o HIV-sida passe a ser olhado como um problema africano. E aí teríamos menos disponibilidade do mundo para investir no seu combate.
Seria um grande erro se a agenda da cimeira UE-África não incluísse a sida e a tuberculose, diz Sidibe.

