por Helder Robalo, com Reuters, in Diário de Notícias
"Valores estão aos níveis de 2009", defende António de Sousa. BCE manteve taxa de juro de referência em 1,25%.
António de Sousa acredita que a prestação do crédito à habitação vai continuar a subir. Isto apesar de ontem, após a reunião mensal, os governadores do Banco Central Europeu (BCE) terem mantido, como esperado, a taxa de juro de referência para a Zona Euro nos 1,25%.
"A prestação da casa está ainda a níveis de 2009", pelo que "vai aumentar mais", garantiu ontem o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), num almoço na Associação Comercial de Lisboa. "Não é normal" a taxa directora da Zona Euro estar fixada nos 1,25%, frisou este responsável.
Para António de Sousa, apesar de a habitação ser um "activo importante" das famílias, o crédito à compra de casa ultrapassou em Portugal o "nível do aceitável", pelo que se mostrou satisfeito com a aposta no mercado de arrendamento indicada no acordo entre o Governo e a troika de negociadores do pacote de ajuda externa.
O presidente da APB referiu que as rendibilidades dos bancos são "quase todas negativas no mercado do retalho em Portugal", o que se deve em grande parte ao crédito à habitação, devido aos crescentes custos de financiamento. A "maior parte [do crédito à habitação] dá prejuízo" aos bancos actualmente, na ordem de "3% a 4%", acrescentou.
Certo é que ontem, ao contrário do que esperava a maioria dos analistas, o presidente do BCE não deu indicações de nova subida da taxa de juro no próximo mês. Aos jornalistas, Jean-Claude Trichet referiu que o BCE "monitoriza muito de perto" todos os "desenvolvimentos no que diz respeito a um aumento dos riscos para a estabilidade dos preços". Ao não usar a expressão de "forte vigilância", os analistas acreditam que só em Julho deverá haver novo aumento da taxa de referência.
O certo é que a pressão inflacionista tem vindo a aumentar nos últimos tempos, com o preço das matérias-primas a subir 11% desde o início do ano e 31% desde Outubro passado, segundo um estudo do Instituto de Economia Internacional de Hamburgo. "Continuamos a assistir ao aumento da pressão sobre a inflação global, sobretudo devido aos preços da energia e matérias-primas", salientou Trichet, cujo mandato no BCE termina em Outubro.
"As expectativas de inflação devem permanecer firmemente ancoradas ao nosso objectivo de manter o nível abaixo dos 2% a médio prazo", acrescentou. Para Trichet, é importante que a inflação não origine efeitos secundários, "como um impacto sobre os salários, aumentando os temores de uma espiral inflacionista". Para os analistas é de esperar novo aumento da taxa de juro em Julho, até porque em Abril a inflação na Zona Euro subiu para os 2,8%, superando pelo quinto mês consecutivo a meta de 2% traçada pelo BCE. Trichet salientou a impor-tância de os países da Zona Euro realizarem "reformas estruturais urgentes" para aumentarem o seu potencial de crescimento e a sua competitividade, em especial "aqueles com um défice orçamental elevado". Sem mencionar os destinatários da mensagem, Trichet frisou que "a mensagem de estabilidade é dirigida a todos os Estados membros".


