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1.2.23

Em 2022, houve mais queixas, mais ocorrências e mais homicídios em contexto de violência doméstica

Por Lusa,  in Expresso

Em 2022, as crianças que morreram em contexto de violência aumentaram, uma vez que nos anos anteriores tinham ocorrido duas vítimas mortais e em 2019 foi uma

As queixas por violência doméstica registaram em 2022 o valor mais elevado dos últimos quatro anos, com a PSP e a GNR a contabilizarem 30.389 ocorrências no ano passado, segundo o portal da violência doméstica.

O portal, publicado na página da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), revela também que as ocorrências por violência doméstica registadas pela Polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana aumentaram 14% no ano passado em comparação com 2021.

A CIG avança igualmente que em 2022 se registaram 28 vítimas mortais em contexto de violência doméstica, 24 das quais eram mulheres e quatro crianças.

Em comparação com 2021, ocorreram mais cinco homicídios, mas em 2020 registaram-se 32 vítimas mortais e em 2019 foram 35.

Em 2022, as crianças que morreram em contexto de violência aumentaram, uma vez que nos anos anteriores tinham ocorrido duas vítimas mortais e em 2019 foi uma.

De acordo com o portal da violência doméstica, a PSP e a GNR registaram 29.223 queixas em 2019, números que descem para 27.619 e 26.651 em 2020 e 2021, respetivamente (dois anos marcados por confinamentos devido à pandemia de covid-19), e voltaram a subir em 2022 para 30.389.

O portal, que publica trimestralmente estatísticos relativos aos crimes e homicídios voluntários em contexto de violência doméstica, dá conta que no período de outubro a dezembro de 2022 foram contabilizadas 7.129 ocorrências pela PSP e GNR.

Durante o ano passado foi no terceiro trimestre que se registaram mais crimes, num total de 8.887, seguido do segundo trimestre (7.641), do quarto e do primeiro (6.732).

Segundo os dados, a Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica acolheu, entre outubro e dezembro do ano passado, 1.455 pessoas, das quais 54,2% eram mulheres e 44,7% crianças.

Segundo a CIG, no ano passado foram realizados transportes de 967 vítimas e foram aplicadas 16.736 medidas de proteção por teleassistência no âmbito do crime de violência doméstica.
No último trimestre de 2022 foram aplicadas 1.151 medidas de coação no âmbito do crime de violência doméstica e estão integradas em programas para agressores 3.078 pessoas.

19.11.21

Combate à violência doméstica tem “evidente défice” de recursos

in Público on-line

Procuradora-geral da República considera “prioritário” estender os gabinetes de apoio às vítimas no DIAP a todo o país.

A procuradora-geral da República, Lucília Gago, criticou nesta quarta-feira o “evidente défice” de meios e recursos humanos para o combate à violência doméstica, considerando “prioritário” estender os gabinetes de apoio às vítimas no DIAP a todo o país.

“É de reconhecer hoje em Portugal evidente défice fundamentalmente de recursos humanos, quer nas forças de segurança especializadas para a actividade de coadjuvação na investigação, quer na liderança da investigação criminal, na magistratura do Ministério Público (MP), mas também, com muito séria expressão, os oficiais de justiça nas secções dos DIAP [Departamentos de Investigação e Acção Penal], disse a Procuradora-Geral da República (PGR) na sessão de abertura do 1.º Fórum Portugal Contra a Violência, que decorre hoje e quinta-feira na reitoria da Universidade Nova de Lisboa.

Lucília Gago defendeu que o país tem hoje um ordenamento jurídico “de um arsenal legal robusto e de ferramentas de actuação funcional” que permitem crer “em mais e melhores resultados”, mas salientou que, como “enfatizou” uma resolução recente do parlamento europeu a exortar os estados-membros a dedicarem mais fundos ao combate à violência doméstica, “para se alcançar eficácia e qualidade são necessários meios”.

A PGR lembrou que os gabinetes de apoio à vítima que actualmente funcionam em seis DIAP estavam previstos na lei desde 2009, mas só foram criados em 2019 e têm apenas um técnico de apoio à vítima alocado.

A situação “patenteia clara insuficiência para fazer face ao volume de trabalho, que não é apenas de apoio e estabilização emocional e social das vítimas, mas também de assessoria técnica aos magistrados do MP, afigurando-se prioritário estender os modelos experimentais a toda a realidade nacional, reforçando também o número de técnicos”, defendeu.

“Somos capazes de fazer mais e muito melhor. Todos sem excepção”, defendeu a PGR a encerrar a sua intervenção, perante a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, que tutela no Governo o combate à violência doméstica.

À saída da sessão de abertura, Mariana Vieira da Silva respondeu às críticas da falta de meios com o crescimento do investimento no combate à violência doméstica nos últimos anos, algo que diz ser mensurável na evolução de uma medida específica do Orçamento do Estado (OE) dirigida a esta matéria.

“[A medida 082] cresceu mais de 25% nos últimos seis anos. Nós podemos sempre considerar que pode haver mais meios, mas o crescimento tem sido muito significativo. O crescimento da rede, dos recursos, isso é visível no OE com um grande aumento de medidas para esta área. Podemos sempre continuar a crescer, o próprio OE para 2022 tinha mais um passo nesse crescimento, mas julgo que na lei e nos instrumentos de resposta temos vindo a evoluir e é isso que é necessário”, disse a ministra.

Citando o relatório anual de segurança interna (RASI) de 2020, Lucília Gago referiu que nesse ano de pandemia as forças policiais receberam em média, por mês, mais de 2.300 participações de violência doméstica, 76 por dia, três por hora, num total de 27.637 denúncias.

“Por seu turno, o número de mortes por violência doméstica persiste teimosamente inalterável: três dezenas de vítimas anuais, entre as quais crianças e jovens, a par do suicídio de uma significativa percentagem das pessoas agressoras”, acrescentou a PGR, sublinhando que a Procuradoria-Geral se mantém empenhada no combate à violência doméstica.


25.11.20

Violência doméstica. "Julgo que começa a desaparecer o sentimento de impunidade"

in SicNotícias


A ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, na Edição da Manhã da SIC Notícias.

O Governo lança hoje uma nova campanha de combate à violência doméstica que vai estar espalhada por transportes públicos, rede multibanco, hipermercados, estações de serviço e órgãos de comunicação social.

Mariana Vieira da Silva, ministra de Estado e da Presidência, esteve na Edição da Manhã da SIC Notícias para falar sobre os objetivos da campanha e o que está a ser feito em Portugal para combater a violência doméstica.

"Estamos desde agosto de 2019 a trabalhar intensamente com todos os setores do Governo: Justiça, Administração Interna, Segurança Social e organizações de apoio às mulheres, numa ação integrada que permite a todas as mulheres que apresentem queixa que tenham nas primeiras 72 horas a resposta que precisam", disse à SIC Notícias.

A ministra diz que o objetivo desta ação é "gerar confiança a quem quer apresentar queixa".



Mariana Vieira da Silva afirma que o momento mais difícil com que uma vítima de violência doméstica se confronta é "o momento até ao qual decide que vai apresentar queixa" e destaca por isso a importância das campanhas para que todas saibam como é que se podem queixar e a quem, e saber que há "um caminho de segurança a partir daí".

"JULGO QUE COMEÇA A DESAPARECER O SENTIMENTO DE IMPUNIDADE"

A ministra de Estado e da Presidência considera que em Portugal começa a desaparecer o "sentimento de impunidade" e explica que isso deve-se aos números de mulheres mortas que, apesar de serem muito elevados, são mais baixos em relação a 2019, "há menos casos, mais pessoas protegidas, mais agressores com pulseiras eletrónicas e mais agressores que foram presos e estão a cumprir pena".

Diz também crer que as pessoas hoje em dia conhecem melhor a rede que as suporta.

REDE DE APOIO ÀS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ACOLHEU 625 PESSOAS NA 2.ª VAGA DA PANDEMIA

A Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica acolheu 625 pessoas na segunda vaga da pandemia, e fez mais de 12 mil atendimentos, tendo havido ainda 150 pessoas que conseguiram terminar o processo de autonomização.

Mariana Vieira da Silva diz que desde a primeira vaga, reforçaram o número de vagas nos espaços de acolhimento e as forças policiais contactaram as pessoas que tinham apresentado queixa para saber como é que estavam. "Na primeira vaga não se sentiu esse aumento de procura das nossas respostas, na segunda vaga aparentemente sim. Estamos atentos e à procura de novas soluções", remata.


17.9.18

Governo garante empenho na luta contra a violência doméstica

in RR

"Uma mulher assassinada bastaria para nos indignar e mobilizar", diz a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade.

O Governo afirma estar empenhado na luta contra a violência contra as mulheres, sublinhando que bastava que houvesse apenas uma mulher assassinada para justificar indignação e mobilização coletiva, tendo destinado 25 milhões para esta área.

Em comunicado, enviado às redações através do gabinete da secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, o Governo diz que "a violência contra as mulheres é um crime que envergonha o país".
"Uma mulher assassinada bastaria para nos indignar e mobilizar coletivamente", lê-se no comunicado.

A reação surge depois de na quinta-feira a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) ter revelado que já contabilizou, através do seu Observatório de Mulheres Assassinadas, 21 mulheres mortas pelos ex ou atuais companheiros ou familiares muito próximos.

À Lusa, Elisabete Brasil, uma das responsáveis da UMAR, criticou a postura dos poderes públicos e dos poderes políticos sobre esta matéria, acusando-os de estarem em silêncio e de não tomarem uma posição pública "face a esta mortandade".

No comunicado, o Governo destaca o financiamento público destinado neste ano à prevenção e combate à violência contras as mulheres e contra a violência doméstica, que ascende a 25 milhões de euros, além de mais 5 milhões de euros de financiamento europeu para projetos para apoio a estruturas e respostas da rede nacional de apoio a vítimas.

Aproveita também para elencar as várias iniciativas que tem posto em prática no combate à violência contra as mulheres, "desde a análise das situações de homicídio (com o arranque da Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídio em Violência) e deteção de falhas, à abertura e apoio a estruturas de acolhimento e proteção das mulheres e crianças até ao reforço do apoio à sua autonomização".

Por outro lado, adianta que "serão apoiados programas de prevenção da violência doméstica" e destaca o trabalho feito com as autarquias no sentido de melhorar as respostas locais de atendimento, de modo a que haja este tipo de serviço em todo o país.

Acrescenta que existe também a intenção que todas as esquadras da PSP e postos da GNR tenham salas de atendimento às vítimas, lembrando que isso já é uma realidade em cerca de 60% dos casos.
Ao nível da formação, o Governo adianta que está em curso um projeto de formação de oficiais de justiça e forças de segurança que atuam na área da violência doméstica, havendo também um projeto para formadores na administração pública, nas áreas da saúde, educação, forças de segurança, justiça e segurança social.

Mais recentemente, em julho, foram distribuídos folhetos informativos nas caixas de correio de norte a sul do país.

"O Governo tem estado, assim, empenhado na consolidação e reforço da prevenção e combate à violência contra as mulheres, assumida como prioridade na Estratégia Portugal + Igual 2018-2030, através do novo plano de ação nesta área, que assenta numa articulação estreita entre todos os setores da Administração Pública e a sociedade civil", conclui.

11.7.18

Mudança cultural é o desafio mais complexo do combate à violência doméstica

in Público on-line

Eduardo Cabrite esteve nesta segunda-feira presente na assinatura do protocolo que vai permitir que oficiais de justiça e as forças de segurança tenham formação na área jurídica e psicossocial sobre violência doméstica e violência de género. Formação arranca em Setembro.

O ministro da Administração Interna admitiu nesta segunda-feira que o desafio mais complexo do combate à violência doméstica e à violência de género é a mudança cultural, sublinhando que este é um tema central de toda a sociedade.

No entender de Eduardo Cabrita, é preciso olhar para a violência doméstica "do ponto de vista global", não deixando que a resposta surja apenas nas situações que culminam com a morte da vítima.

"Se a transformação em crime público foi decisiva, se a colocação desta área como acção prioritária das forças de segurança, a formação de agentes, guardas e oficiais passou a integrar a resposta às questões da violência doméstica, julgo que o desafio da mudança cultural é o desafio mais complexo", defendeu.

O ministro da Administração Interna discursava no final da assinatura do protocolo entre a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), a Procuradoria-geral da República (PGR), a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna e a Direcção-geral da Administração da Justiça, a GNR e a PSP para a formação de oficiais de justiça e forças de segurança sobre violência doméstica e violência de género.

Eduardo Cabrita apontou que a análise retrospectiva dos casos de violência é fundamental e garantiu que o combate é uma prioridade para a administração interna, desde logo na formação de oficiais, agentes e guardas. "Este ganho na formação é o que nos permite hoje ter espaços dedicados em mais de dois terços das instalações policiais um pouco por todo o país e ter programas específicos em zonas em que se verificam taxas de incidência de violência doméstica superiores ao que é a media nacional", defendeu.

Relativamente às instalações policiais que não têm estes espaços, o ministro adiantou que há actualmente cerca de 50 novas esquadras em projecto ou já em fase de obra e que em todas as remodelações está prevista uma área dedicada ao atendimento de vítimas de violência doméstica.

Instituto da Habitação atribuiu 15 casas a vítimas de violência doméstica em 2018
"Quando estamos a falar de instalações antigas, onde não existe o espaço dedicado, a orientação é que o atendimento seja feito no espaço do comandante da unidade", sublinhou.

Referiu, por outro lado, que as forças de segurança são as primeiras a actuar nestes casos e que os cerca de 50 mil agentes espalhados pelo país "estão atentos a este fenómeno".

Acrescentou que, em conjunto com o Ministério da Justiça e da Modernização Administrativa, estão a avaliar experiências de outros países no que diz respeito a uma intervenção mais precoce e que se possa concretizar no afastamento do agressor.

A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, frisou que o trabalho da Equipa de Análise Retrospectiva de Homicídios em Violência Doméstica "tem sido fundamental".
dentificar os momentos ou os espaços em que, eventualmente, do ponto de vista institucional, a resposta possa não ter sido a adequada", disse.

21.4.16

Combate à Violência Doméstica: a urgência de um trabalho de proximidade

In "Jornal do Algarve"

Frequentemente somos confrontados com a morte violenta de mais uma mulher. Uma mulher assassinada. Muitas destas mulheres foram vítimas de maridos ou companheiros com quem viviam.

Outras morreram às mãos de quem julgavam já ter conseguido fugir.

No último ano, em Portugal, morreram 29 mulheres. Em 2014 foram 45 as que perderam a vida devido a maus tratos.
Em 2013 tinham sido 38 e, em 2012, 42 mulheres...Mas estes são números não terminam'aqui. Nos últimos 11 anos foram assassinadas 432 mulheres no nosso País. Com estes homicídios, ficaram órfãos muitas centenas de pessoas, a maioria talvez crianças e jovens menores de idade.
Este é um drama social que atinge todo o País, apesar dos muitos progressos em termos de legislação e de medidas específicas de prevenção e de combate a este flagelo.

Foi com um Governo do Partido Socialista, há 16 anos, que a Violência Doméstica assumiu a natureza de crime público, o que levou a uma maior sensibilização para este tipo de crime por parte da comunidade. Graças a esta alteração aumentou o número de denúncias. Em 2009, introduziram-se iniciativas como a vigilância eletrónica para os agressores e a teleassistência para as vítimas. o que representa um avanço legislativo assente no principio de que a violência doméstica corresponde a uma violência de género firmada em diferenças estruturais entre homens e mulheres. Este é o princípio sobre o qual a Convenção de Istambul está assente, considerando a violência doméstica como uma grave violação dos Direitos Humanos. Portugal foi o primeiro país da União Europeia a ratificar a Convenção de Istambul, em 11 de Maio de 2011.
Mas apesar de todas estas medidas, não aumentámos a eficácia na prevenção nem no combate a este tipo de crime. Este continua a ser um dos maiores flagelos na nossa sociedade. É um problema grave, estrutural e generalizado para o qual este Governo está a trabalhar com medidas especificas e integradas, quer de prevenção, avaliação de risco, de proteção e assistência a vítimas de violência doméstica. Medidas com um cariz de proximidade e transversalidade, que permitirão um acompanhamento mais cuidado e imediato.

Uma das soluções deverá passar pela elaboração de Planos Municipais de Prevenção de Violência Doméstica, que poderão integrar os atuais Planos Municipais de Igualdade, aproveitando a oportunidade da existência das redes concelhias já existentes e a trabalhar no terreno nas diferentes áreas da igualdade. São redes transversais em termos de competências e abrangências que contem com a participação de ONGs, associações, entidades nas áreas da saúde, justiça, segurança, educação, segurança social e autarquias, parceiros sociais fundamentais para o sucesso de intervenções articuladas. Caso se justifique, poderão até ser Planos Intermunicipais articulando e rentabilizando os recursos de diversos concelhos.
A proximidade e territorialização das intervenções, aumentará a eficácia na prevenção e no combate à violência doméstica, assim como assegurará um melhor apoio e assistência às suas vítimas. Desta forma estaremos a contribuir também para uma maior consciencialização da própria mulher para a necessidade de defesa dos seus direitos. Estaremos a dar-lhe ferramentas, força, coragem e condições para também ela lutar pelos seus direitos. Para que esses direitos sejam respeitados e cumpridos! Por todos! E o primeiro desses direitos, não nos podemos esquecer, jamais, é o seu Direito à Vida

10.3.16

Violência doméstica - Governo promete medidas

In "CM TV"

Neste dia da mulher, o primeiro-ministro inaugurou uma exposição sobre a violência doméstica.
Declarações de António Costa, primeiro-ministro.

11.12.15

Prémio da APAV para estudo sobre justiça e violência doméstica

In "Diário de Coimbra"

Tese de doutoramento estudou tratamento dado pelos magistrados à questão da violência doméstica

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) decidiu atribuir o Prémio APAV para a Investigação a Madalena Duar te, da Universidade de Coimbra, com uma tese de doutoramento sobre o tratamento da violência doméstica por parte dos magistrados.
A tese de doutoramento da investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES), defendida em 2014, centra-se na forma como a violência doméstica é tratada pelos juízes e procuradores do Ministério Público, encontrando diversas “falhas” no sistema judicial português.
Apesar de haver «uma evolução muito grande da sensibilidade dos magistrados para este tema», «há ainda muitos preconceitos sobre aquilo que é uma vítima de violência doméstica», considerou a investigadora. «Há uma série de questões que deveriam ser trabalhadas, mas acima de tudo formação dos magistrados», frisou, recordando que se investiu «muito na formação dos polícias e as magistraturas ficaram esquecidas».
De acordo com Madalena Duarte, ainda se verificam «sentenças judiciais que não dignificam a vítima», exemplificando com casos em que «a recusa de relações sexuais por parte das mulheres» foi uma «atenuante» na definição da pena do agressor. Para a investigadora, ainda subsiste uma ideia «muito tradicional da mulher», as agressões psicológicas e sexuais «são muito desvalorizadas» e é muito usado o estereótipo de que o álcool «é a causa da violência doméstica».
A investigadora do CES afirmou à agência Lusa que as mulheres, quando são vítimas de violência doméstica e têm carências económicas, têm um advogado oficioso para cada processo no tribunal: queixa-crime, divórcio e responsabilidades parentais. «Deveria ser atribuído um advogado para todos os processos», defendeu.
Outra situação preocupante, alerta, é a aplicação das medidas de protecção das mulheres quando apresentam a queixacrime, considerando que o termo de identidade e residência «não é suficiente», devendo-se recorrer «mais à vigilância electrónica» e «não ter medo de aplicar a medida de prisão preventiva, quando há risco».
A tese de doutoramento de Madalena Duarte, intitulada “Para um Direito sem Margens: representações sobre o Direito e a violência contra as mulheres”, envolveu mais de 200 entrevistas a procuradores e juízes de todo o país, entrevistas a vítimas de violência doméstica e organizações de apoio à vítima, inquérito a 100 futuros magistrados, análise da jurisprudência em torno de homicídios e levantamento de mais de 200 processos relacionados com violência doméstica de cinco comarcas.
O prémio APAV para a Investigação, que tem este ano a sua primeira edição, «é um incentivo» para continuar, contou, referindo que está de momento a fazer um pós-doutoramento sobre os homicídios nas relações de intimidade.
A cerimónia de atribuição decorre amanhã, às 15h00, na sede da APAV, em Lisboa.
O prémio contou com 43 candidaturas, sendo que são também entregues duas menções honrosas, à investigadora da Universidade de Coimbra Neusa Patuleia e à investigadora da Universidade do Minho Cátia Fernandes.

4.12.15

PSP e Junta de Freguesia juntos pela eliminação da violência

Isabel Rodrigues Monteiro, in "Verdadeiro Olhar"

No Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, 25 de Novembro, a Esquadra da PSP de Ermesinde e a Junta de Freguesia assinalaram a efeméride com acções de sensibilização ao longo do dia e com uma sessão de técnicas de defesa pessoal que juntou crianças, adolescentes e adultos.

Para que o lema popular mude e passe a ser “quanto mais me respeitas mais gosto de ti”, os elementos da equipa de proximidade da Esquadra de Ermesinde, que integra a Divisão Policial da Mais, percorreram a cidade numa acção de sensibilização junto do público feminino e masculino, alertando para a importância da denúncia das situações de violência, sejam elas de ordem pessoal ou de conhecidos, como explicou ao VERDADEIRO OLHAR o subcomissário Dias Canário, comandante da Esquadra de Ermesinde. “Algumas pessoas ainda não têm conhecimento que este não é apenas um problema das vítimas”, disse, salientando que a violência doméstica é um crime público. Ainda segundo o comandante da Esquadra de Ermesinde têm-se registado mais denúncias, o que, sublinha, não significa que o número de casos tenha aumentado. “Há mais à vontade para denunciar as situações. Fruto da mediatização há mais conhecimento e predisposição para denunciar o crime”, acrescentou.

Também Luís Ramalho, presidente da Junta de Freguesia de Ermesinde, sublinhou a natureza de crime público e a obrigação de apresentar queixa, mesmo que não seja a pessoa ofendida. “Tem o dever de apresentar a queixa. Ninguém tem o direito de bater em ninguém. Temos de agir”, disse, realçando que as mulheres ainda são o maior número de vítimas.

DEFESA PESSOAL ENVOLVE TÉCNICAS PARA MINORAR AGRESSÃO

Depois do contacto individual da parte da manhã, seguiu-se uma sessão de técnicas de defesa pessoal, ministrada por dois agentes da Unidade Especial de Polícia. A assistir à sessão dinamizada no exterior da Junta de Freguesia de Ermesinde esteve um público bastante heterogéneo, desde crianças de uma escola do 1º ciclo, alunos da Escola Secundária de Ermesinde e seniores utentes da Associação Ermesinde Cidade Aberta e Associação de Promoção Social de Ermesinde. Durante mais de uma hora aprenderam-se algumas técnicas para minorar a agressão que é dirigida à vítima, concluindo-se que mesmo sendo mais fraco fisicamente é possível a defesa e até dominar o agressor. Regina Diegues, reformada e utente da Associação de Promoção Social de Ermesinde, não quis deixar de experimentar as técnicas de defesa que, diz com armagura, “devia ter aprendido há 20 anos”. Com outro ânimo, até pelo gosto que tem pelas artes marciais, esteve Sofia Rijo, técnica da Associação Ermesinde Cidade Aberta. “É bastante gratificante que se preocupem com esta problemática”, disse, lamentando, porém, que este tipo de sessão não chegue a mais público, já que são práticas que apenas são ministradas em instituições privadas.

No final da sessão, em que participou a PSP de Ermesinde e Corpo de Intervenção, a Associação Ermesinde Cidade Aberta, a Escola Secundária de Ermesinde, o Agrupamento de Escolas de S. Lourenço-Valongo e a Associação Promoção Social e Cultural de Ermesinde, houve uma largada de balões em que cada participante escreveu uma mensagem contra a violência.

FENÓMENO ABRANGE VÍTIMAS DE TODAS AS CONDIÇÕES E ESTRATOS SOCIAIS

O Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres celebra-se todos os anos, desde 1999, como designado pela ONU, a 25 de Novembro, numa data que visa alertar a sociedade para os vários casos de violência contra as mulheres, nomeadamente casos de abuso ou assédio sexual, maus tratos físicos e psicológicos. De referir que, em média, uma em cada três mulheres é vítima de violência doméstica. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima o fenómeno da violência doméstica contra as mulheres abrange vítimas de todas as condições e estratos sociais e económicos, sendo que os seus agressores também são de diferentes condições e estratos sociais e económicos. De acordo com os dados da Associação, as mulheres representam mais de 81 por cento das pessoas atendidas. Entre 2013 e 2014 a APAV registou um total de 12402 de mulheres vítimas de violência doméstica. Destas situações reportadas à APAV, em cerca de 45 por cento das mesmas não existia apresentação de queixa criminal.

3.12.15

Uma música contra a Violência Doméstica

João Martins, in "Cais"

Oito cantoras portuguesas juntaram-se para dar voz à APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, sensibilizando o público para o problema da Violência Doméstica. "Cansada" é o título da original canção, com letra e música do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho.

Com o objectivo de alertar as pessoas para a realidade (ainda significativa) da violência doméstica em Portugal, a APAV celebra os 25 anos de actividade com o lançamento de uma música inédita, que junta oito vozes conhecidas dos portugueses. "Cansada" é o nome da canção interpretada por Aldina Duarte, Ana Bacalhau, Cuca Roseta, Gisela João, Manuela Azevedo, Marta Hugon, Rita Redshoes e Selma Uamusse. O tema original, com letra e música a cargo do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, foi gravado inicialmente com a voz de Débora Henriques, também jornalista.

Depois foi apresentada à APAV e a Associação propôs que a música fosse o seu "hino", cumprindo a função de despertar consciências para o problema da violência doméstica e transmitindo a mensagem de que é importante dizer "não". "Uma abordagem pela coragem" "É um problema que começa logo na educação para a igualdade de direitos que temos de dar aos nossos filhos, desde muito cedo, e no qual a escola deveria desempenhar um papel mais importante", defende Filipe Lourenço, Brand Strategy da Agência de Publicidade Brave, que escolheu a campanha "Cansada" para conteúdo desta secção da Revista CAIS na edição de Novembro. "Por isso, este tema da Violência Doméstica justifica todos os esforços e mais alguns", acrescenta. Filipe Lourenço destaca ainda originalidade da campanha. "É uma abordagem pela coragem, pelo 'grito', pelo 'basta', e não pelo cliché da "cara esmurrada", porque esse é sempre o caminho mais óbvio e o que menos contribui para a consciencialização do agressor ", explica.

A música, lançada no passado mês de Março, conta com a interpretação da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo. Filipe Melo tratou dos arranjos e da produção musical. A vontade e pertinência desta causa foi o que moveu todos os responsáveis pela música, que resultou de trabalho voluntário. O tema está disponível no site da APAV e é acompanhado por vídeo promocional com as oito cantoras, sempre com o mote da campanha subjacente: "Nem que o meu grito seja só uma canção".

26.2.15

Oito cantoras portuguesas cansadas da violência doméstica

in SicNotícias

"Cansada" é o título da nova canção-hino da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Tem como tema o problema da violência doméstica e junta Aldina Duarte, Ana Bacalhau, Cuca Roseta, Gisela João, Manuela Azevedo, Marta Hugon, Rita Redshoes e Selma Uamusse.
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A APAV acredita que o tema "vai funcionar como um "hino", "cumprindo a função importantíssima de despertar consciências para o problema da violência doméstica, transmitindo a mensagem de que é importante dizer 'não'".

Cantada por oito vozes femininas portuguesas, a canção original tem letra e música de Rodrigo Guedes de Carvalho, com arranjos e produção musical de Filipe Melo. A música é interpretada pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo. Conta ainda com Filipe Melo no piano, Nelson Cascais no contrabaixo, Alexandre Frazão na bateria, e Ana Castanhito na harpa. Som e imagem gravados nos Estúdios Atlântico Blue.

O videoclip tem assinatura do realizador Tiago Guedes.

"Cansada" será divulgada pouco antes do Dia Internacional da Mulher e ficará disponível no site APAV e plataformas digitais.

7.11.14

«Escolas vão ter formação contra a violência doméstica» - Entrevista a Teresa Morais

Joana Ferreira da Costa, in Sol

Este ano já morreram 32 mulheres vítimas de violência. O que continua a falhar?
Ainda não tenho dados sobre os homicídios conjugais deste ano. Os números oficiais mostram que morreram 30 mulheres em 2013, ano em que também dez homens foram vítimas deste tipo de homicídio, mas tinham morrido 38 em 2010 e 40 em 2008. Não há uma subida de casos, mas estes são números pesados e persistentes...

Mas o que é que falha para nenhum governo ter ainda conseguido combater eficazmente este crime?
Apesar de todas as políticas públicas e de todos os progressos ainda há uma cultura secular de silêncio e de sujeição da mulher em que a violência é tolerada e vista com normalidade. Isto tem de ser combatido. Por outro lado, nunca será possível evitar todas as situações porque a violência doméstica é das mais difíceis de eliminar e de prevenir Mesmo melhorando a capacidade de resposta e o alerta às vítimas, mesmo melhorando a avaliação de risco pelas forças de segurança.

Há mulheres que fazem queixas nas esquadras e nada acontece. É preciso mais formação dos agentes?
A formação existe. Em dois anos, foi dada formação específica a 20 mil elementos da PSP e GNR, 11 mil dos quais este ano. Aliás, duplicaram os casos em que os processos foram instaurados pelas forças de segurança de 2012 para 2013. Isso quer dizer que abriram processos mesmo quando não houve queixa. Há também um esforço para as forças de segurança terem melhores instrumentos de avaliação de risco que as mulheres correm.

Há novas instruções para se avaliar estes casos?
No início deste mês entrou em vigor uma nova ficha [documento com critérios para os agentes avaliarem o grau de risco da mulher que apresenta queixa], num trabalho que envolveu, durante dois anos, o Ministério da Administração Interna, a Procuradoria-Geral da República e a Universidade do Minho. Esta é uma área crítica porque uma queixa desvalorizada hoje pode ser uma mulher morta amanhã. Mas é preciso lembrar que as associações que estão atender estas mulheres também têm de fazer a avaliação correctamente.

É comum essas associações falharem na avaliação?
As falhas podem existir a muitos níveis, mas está a dar-se cada vez mais formação a estes técnicos para as evitar Não tenhamos dúvidas de que, apesar de todo o investimento, haverá sempre situações inesperadas, que não são possíveis de prevenir Como aquela que àconteceu neste recente caso mediático [em que o pai matou a mulher e a filha em Soure] em que ninguém se apercebeu de antecedentes.

Nos casos recentes os agressores mataram ou tentaram matar os filhos. Há uma alteração de padrão?
Nalguns deles, os filhos não seriam o alvo principal, mas ao atravessarem-se para defender a mãe acabam por ser vítimas. Estes casos têm que ser estudados para se perceber se há um padrão. O que já sabemos, de uma análise feita a 19 homicídios conjugais, é que a única causa comum a todos os casos era o facto de a vítima ter-se separado ou ameaçado separar-se. Há um perfil de homens que não suporta perder o controlo, ser deixado. Por outro lado, há mulheres que se expõem ao perigo demasiado tempo, porque acreditam que o agressor vai mudar. Muitas demoram décadas a tomar a decisão de se libertar.

Não é um problema de informação...
As mulheres em Portugal estão muito bem informadas. O problema é que têm ainda dificuldade em queixarem-se por razões emocionais e económicas. E depois há o problema cultural, pois hoje ainda há quem considere uma vergonha uma mulher sair de casa. Temos de trabalhar mais junto das novas gerações, para que não tenham tolerância para com a violência.

O que está a ser feito na escola?
Há um conjunto de medidas novas para a Educação, que é uma das áreas onde o país menos investiu nos últimos anos. Em 2015, teremos acções de formação e promoção nas escolas, materiais pedagógicos novos para formação de docentes e pessoal auxiliar e instrumentos que os professores podem usar para servir de guião nas aulas do básico e secundário. O próprio Programa Escola Segura vai sofrer uma transformação para começar a detectar sinais de violência familiar.

Os estudos mostram que um em cada quatro jovens já é vítima de violência no namoro...
Mas eles não se consideram agressores, nem vítimas. Não percepcionam como violentos certos comportamentos como, por exemplo, espreitarem as mensagens do telemóvel, fazerem exigências sobre a forma como os outros se vestem ou controlarem os movimentos das namoradas ou namorados. Temos de mostrar que não é aceitável que uma pessoa controle outra.

A maioria dos agressores saído tribunal com pena suspensa ou muita. Os Juízes deviam ter mão mais pesada?
Há demasiadas situações em que a pena é suspensa e essa suspensão mantém uma situação de risco para as vítimas. Esta é uma questão da competência dos senhores juízes e o poder judicial é independente do poder político.

As penas para a violência não deviam ser mais pesadas?
Não me chocaria que a moldura penal fosse mais elevada. Mas o principal problema não está na moldura penal. O que me parece é que a lei é concretizada numa pena baixa porque juízes e magistrados assim o entendem.

Acha que falta formação para Juízes e magistrados?
Não, a formação tem sido feita. As nossas magistraturas precisam de maior especialização e sensibilização para o sofrimento que a violência traz às vítimas. Em 2013, fizemos acções de formação em todas a procuradorias distritais e temos mais seis agendadas. Existe um manual sobre a violência doméstica que será disponibilizado a todos os magistrados. Mas também há dados positivos: só havia, em 2008, 13 detidos por violência e agora há 495.

É pouco face ao número de processos. Só uma minoria de juízes decreta, por exemplo, que o agressor deve estar afastado da vítima...
As medidas de afastamento do agressor também têm subido, através das pulseiras electrónicas, cuja utilização cresceu cinco vezes de 2011 até agora. Mas não chega. Ainda há magistrados que não conhecem os sistemas de teleassistência da vítima, que têm altíssimas taxas de sucesso. Eram 13, em 2002, e agora são 222.

Mas continuam a sobrar sistemas de teleassistência.
Temos 300 disponíveis e só 222 em utilização. Só não são mais usados porque os senhores magistrados assim o entendem. Pode haver ainda muitos que não sabem como o sistema funciona. Por isso, vamos fazer seis acções junto das magistraturas.

Este mês, dia 25, a Secretaria de Estado da igualdade lança uma nova campanha de sensibilização contra a violência. Qual será a mensagem?
Será destinada a mulheres mais velhas. É uma das 22 iniciativas previstas no âmbito das III Jornadas contra a Violência Doméstica, que este ano duram um mês inteiro, de 4 de Novembro a 5 de Dezembro.

Têm aumentado os casos de violência em mulheres mais velhas?
Não, mas são mais difíceis de detectar. As mulheres mais velhas, sobretudo nas regiões mais isoladas e rurais, têm dificuldade em quebrar o silêncio, assumir que são vítimas e pedir ajuda. Estão menos informadas. Queremos dizer-lhes que nunca é tarde para se libertarem da violência e terem apoio.

Os cortes orçamentais não obrigaram a reduzir os apoios?
Nunca houve tantos apoios. No final das jornadas vamos atribuir mais de um milhão de euros a uma lista de entidades que actuam na área da violência doméstica. Vamos também apoiar projectos de acolhimento de emergência e apoiar a abertura de novas estruturas de acolhimento no Algarve e no Minho.

A proposta de alteração das penas para o crime de violência doméstica está em cima da mesa?
A matéria é da competência da ministra da Justiça, que tem uma sensibilidade evidente para a questão.

A propósito, o que pensa da Ideia de Paula Teixeira da Cruz sobra a base de dados de pedófilos?
Estou absolutamente de acordo. Perante eventuais direitos de um agressor sexual e a protecção das crianças não há que hesitar. Tem havido demasiadas dúvidas sobre os direitos que devem prevalecer, até porque a vítima não poderia ser mais vulnerável.

Sheik Munir contra a mutilação feminina

O líder da comunidade muçulmana de Lisboa, Sheik Munir, vai participar nas Jornadas Contra a Violência Doméstica para condenar a prática da mutilação genital feminina. «O Islão proíbe a mutilação de qualquer parte do corpo e é preciso acabar com os mitos que envolvem esta prática violenta que é feita pelas mulheres sobre meninas», explica ao SOL o responsável da Mesquita Central de Lisboa, que foi convidado pela secretária de Estado da Igualdade para falar no colóquio sobre a Convenção de Istambul e os Crimes Sexuais, no dia 19 na Faculdade de Direito de Lisboa. No último ano, foram detectados nos hospitais portugueses 34 casos de mulheres vítimas de mutilação. «Têm em média 31 anos e foram mutiladas na Guiné, Guiné Bissau, Benim, Senegal e Nigéria», esclarece Teresa Morais, dizendo não ter conhecimento de casos feitos no país que estejam em investigação. J.F.C.

22.9.14

Portugal tem leis para combater violência contra mulheres

in Notícias ao Minuto

Portugal tem um quadro jurídico que permite combater a violência contra as mulheres, portanto "o desafio do futuro é mudar as mentalidades", salientou hoje a deputada Elza Pais.

Em declarações à Lusa no final de uma reunião da Subcomissão de Igualdade da Assembleia da República, a que preside, a deputada socialista defendeu que é preciso "passar à igualdade de facto".

"Temos já um quadro jurídico muito musculado na prevenção e no combate à violência de género", frisou, reconhecendo que "são sempre possíveis aperfeiçoamentos".

O "desafio" de "mudar mentalidades" implica que as autoridades colaborem com as organizações não-governamentais, "que precisam de apoio, dado que chegam a sítios e desenvolvem trabalhos que o próprio Estado não consegue sem essas parcerias", sustentou Elza Pais.

O trabalho ao nível das escolas "é absolutamente central" e a violência de género deve ser tratada como "uma questão de saúde pública", assinalou ainda.

"Não podemos olhar para os 40 homicídios conjugais por ano como se fosse uma fatalidade que não conseguimos contornar", alertou.

"O número de mulheres que morre por ano não decresce", recordou, afirmando estar convencida de que se o Estado não tivesse adotado medidas como a vigilância eletrónica e a teleassistência "às tantas [os casos] estavam a aumentar".

A Subcomissão de Igualdade ouviu hoje a perita Joanna Goodey, da Agência dos Direitos Fundamentais (FRA, na sigla em inglês), que explicou os resultados do mais recente estudo sobre violência de género realizado na União Europeia (UE), divulgado em março.

Aos deputados portugueses, a perita britânica aconselhou a adoção de "uma resposta holística, que envolva todos os setores da sociedade e se debruce sobre todos os tipos de violência".

O problema da violência de género "não é apenas um assunto de polícia, até porque poucas mulheres se dirigem à polícia e poucos casos chegam aos tribunais", lembrou.

Por outro lado, Goodey reconheceu a importância de lidar com assuntos como a mutilação genital feminina e os casamentos forçados, mas defendeu que "este foco não pode retirar a atenção" da violência "que afeta todas as mulheres e em muito maior número".

Sublinhando que a mutilação genital feminina e os casamentos forçados afetam "desproporcionadamente grupos migrantes e étnicos", apelou aos deputados portugueses para "não perderem a visão global".

Nos comentários à intervenção da perita internacional, o diretor do Observatório Nacional de Violência e Género, Manuel Lisboa, destacou o facto de o estudo da FRA mostrar que "a violência atinge todos os países, independentemente de serem economicamente ricos ou pobres", apresentando-a como "um problema estrutural, de natureza sociocultural".

A presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Maria José Magalhães, sublinhou a importância de existirem respostas para "outras formas de violência que não apenas a doméstica".

Segundo o estudo da FRA, as mulheres portuguesas são, na União Europeia, as "mais bem informadas" sobre a violência de género, mas ainda denunciam pouco.

O estudo da FRA, o maior sobre violência de género alguma vez realizado na UE, com 42 mil inquiridas (entre as quais 1.500 portuguesas) nos 28 Estados-membros, concluiu que uma em cada três mulheres europeias foi ou será vítima de pelo menos um episódio de abuso sexual, físico ou psicológico.

23.4.14

"Um Passo Mais" contra violência doméstica com 2 mil diligências no primeiro ano

in iOnline

A “estreita interação” entre todas as entidades permite a criação de novos procedimentos e a delineação de estratégias concretas para cada caso, tendo sido contabilizadas 1.748 diligências

Um ano depois da apresentação, o projeto do Departamento de Investigação de Ação Penal (DIAP) do Porto “Um Passo Mais” contra a violência doméstica contabilizou mais de 1.740 diligências e continua a apelar à denúncia para uma intervenção imediata.

Desenvolvido pela 1.ª Secção DIAP do Porto, o “Um Passo Mais” está vocacionado para a desburocratização dos processos de violência doméstica, “no sentido de se poder dar uma resposta rápida a situações de risco para a vítima”, explicou hoje à Lusa a procuradora Teresa Morais.

A coordenadora do projeto, apresentado a 18 de abril de 2013, acrescentou que “neste tipo de casos privilegia-se uma intervenção imediata, tendente a conduzir o agressor para Processo Sumário no dia seguinte e cujo julgamento é adiável apenas por dias”.

O importante, destacou, é “difundir a mensagem que ninguém” está isento do dever de denunciar, sinalizar, contactar a polícia, ou seja, “não pactuar por silêncios cúmplices”.

A denúncia permite uma rápida intervenção e assim a detenção em flagrante delito, ou quase flagrante delito, encaminhando logo o agressor para o tribunal.

“Caso não seja possível a detenção em flagrante delito (ou quase flagrante delito) para tal tipo de julgamento, impõe-se a sinalização dos casos de gravidade”, assinalou Teresa Morais, sublinhando que “a investigação deste tipo de processos, não tem ultrapassado, em média, 4 meses”.

A sinalização de risco é feita por magistradas do DIAP e elementos da PSP do Porto, em atuação “coordenada e conjunta” e “sem distâncias burocráticas”, sendo essa “estreita ligação” – acompanhada de “uma forte motivação de todos” – a “grande mais-valia do projeto”.

Só entre maio de 2013 e fevereiro de 2014 foram emitidos 110 mandados de detenção fora de flagrante delito, cumpridos pela Polícia de Segurança Pública em menos de 24 horas, tendo sido apreendidas 11 armas.

Também durante esse período foram efetuadas 11 prisões preventivas, “traduzindo-se as restantes medidas no afastamento do agressor, proibição de contactos (com vigilância eletrónica) ou em apresentações periódicas, não havendo registo de incumprimentos dos arguidos”, referiu a procuradora.

Segundo a coordenadora, existe também o compromisso do INML (Instituto Nacional de Medicina Legal) de realizar exames médicos “no imediato”, tendo esta entidade “prestado um apoio direto e extraordinário”, nomeadamente em “exames especializados, opiniões médicas e acompanhamento nas diligências de busca”.

A “estreita interação” entre todas as entidades permite a criação de novos procedimentos e a delineação de estratégias concretas para cada caso, tendo sido contabilizadas 1.748 diligências.

O projeto visava também a eventual recuperação dos agressores, sendo que “nos casos em que a relação afetiva se afigura viável, tem-se recorrido ao programa da Direção-Geral de Reinserção Social”, onde é privilegiada a “reaprendizagem inter-relacional”, com vista à suspensão provisória do processo.

13.3.14

País investiu fortemente no combate à violência doméstica

por Lusa, texto publicado por Isaltina Padrão, in Diário de Notícias

A secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, Teresa Morais, garantiu hoje na Organização das Nações Unidas que Portugal investiu fortemente no combate à violência doméstica.

"Investimos fortemente na prevenção da violência doméstica e de género e na proteção das suas vítimas", disse Teresa Morais no debate geral da Comissão sobre o Estatuto da Mulher da ONU, lembrando que o país aumentou a capacidade de acolhimento de emergência para vítimas de violência doméstica, criou um sistema de transporte seguro e acompanhado para as vítimas e encontrou soluções para o acesso à habitação a baixo custo para as vítimas.

Os últimos dados da Associação de Apoio à Vítima (APAV) indicam que em 2013 foram registadas em Portugal 17.384 denúncias de violência doméstica, mais 414 face ao ano anterior.

Ainda assim, a secretária de Estado lembrou que "Portugal se encontra entre os 10 países da União Europeia em que a situação é menos grave."

Num discurso que serviu, sobretudo, para fazer um balanço sobre a situação de Portugal, Teresa Morais garantiu que o programa do atual governo reafirma "o compromisso com os objetivos fundamentais da Plataforma de Ação de Pequim", o documento que define os direitos das mulheres como direitos humanos e se compromete com ações específicas.

A responsável informou os seus colegas que, no ano passado, Portugal foi o primeiro país da União Europeia a ratificar a Convenção do Conselho da Europa para a prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica.

"Ainda assim, a violência contra as mulheres continuar a constituir uma forte preocupação", garantiu.

Teresa Morais disse ainda que "a situação de crise económica da Europa teve um forte impacto em Portugal e levou à necessidade de uma atenção redobrada sobre a matéria das mulheres no mercado de trabalho."

A esse propósito, a responsável apresentou ainda uma nova medida do governo português: instituir como critério de seleção de projetos candidatos a fundos comunitários da União Europeia a valorização das empresas com mais mulheres nos seus conselhos de administração, bem como a valorização da prática da igualdade salarial.

"Portanto, no novo quadro comunitário de apoio financeiro da União Europeia 2014-2020, em Portugal as empresas que não apresentem mulheres nos conselhos de administração e que não pratiquem o princípio da igualdade salarial entre homens e mulheres terão dificuldades de acesso aos fundos comunitários", explicou.

Esta semana, a secretária de Estado já tinha pedido na ONU que a prevenção e combate à violência sobre as mulheres fosse considerada uma meta da organização nos objetivos após 2015.

"Defendemos, na linha das posições assumidas pela EU, que na agenda pós-2015 deve ser explícito o propósito da prevenção e combate a todas as formas de violência sobre as mulheres, expresso de forma autónoma e clara, num compromisso intenso que deve ser servido pelos meios apropriados a esse combate", defendeu a responsável.