13.10.07

Ambiente não acerta o passo entre o que decide e as práticas

Eduarda Ferreira, in Jornal de Notícias

Ambiente não acerta o passo entre o que decide e as práticas


Da redução de gases com efeito de estufa aos esforços para parar a extinção de espécies e habitats, é insuficiente o que está a ser feito. A constatação surge num relatório da Agência Europeia do Ambiente que procede à análise de dados relativos a 56 países da região pan-europeia. Este critério geográfico das Nações Unidas cobre uma área desde Portugal à Ásia central. O documento foi apresentado em Belgrado, na 6ªa Conferência ministerial "Ambiente para a Europa" que ontem terminou.

Falta pôr no terreno as políticas integradas para o ambiente, ainda que tenha havido progressos no reconhecimento de que elas são necessárias. A Agência Europeia do Ambiente (AEA) resume assim a sua análise de dados relativa a 56 países, com uma população de 870 milhões e que se estende numa faixa que inclui a União Europeia até à Ásia central.

Os perigos persistem em áreas como a poluição atmosférica (sobretudo pelas partículas finas e pelo ozono). Só estes factores são responsáveis pela redução da esperança média de vida de centenas de milhares de pessoas. Sobretudo a Leste, falta qualidade nas águas (há 100 milhões de habitantes sem acesso a água potável e que não são servidos por redes de saneamento).

A saúde humana continua a pagar custos elevados à poluição com diversas origens produtos químicos, raios ultra-violeta, fenómenos climatéricos extremos como as ondas de calor e as cheias. O ruído, que na Europa só terá um programa de redução completo em 2018 tem custos sociais elevados. Só os efeitos do ruído do tráfego rodoviário custa 1% do Produto Interno Bruto dos países

Os solos continuam a ser afectados por diversos modos por produtos químicos, pelos resíduos e pela ocupação crescente pela construção. As emissões de gases com efeito de estufa aumentaram em quase todos os países europeus e o relatório afirma mesmo que "alguns terão dificuldade em cumprir os objectivos de Quioto (reduzir em 50% até 2050, para limitar ao máximo de 2º o aumento da temperatura). Por outro lado, na generalidade dos 56 países assiste-se ao declínio da biodiversidade e ao aumento de espécies invasivas, animais e vegetais. Neste capítulo, Portugal surge assinalado com 34 espécies invasivas (em Espanha há 38).

Algumas convenções internacionais ajudaram a melhorar a qualidade da água nos mares, sobretudo no que toca a substâncias perigosas, mas a sobrepesca e a escorrência dos produtos usados na agricultura ameaçam a sustentabilidade do meio marinho. A agricultura, em termos ambientais, só está a ter papel positivo, e em alguns casos, na preservação da paisagem e biodiversidade; a intensificação agrícola afecta a qualidade e quantidade da água, bem como a de muitos solos. Já o turismo, além de ter já degradado irreversivelmente alguns destinos em zonas costeiras, ilhas e montanhas, está a fomentar o uso do transporte aéreo e das viaturas particulares, aumentado as emissões de poluentes.

O documento da AEA, com mais de 400 páginas, foi uma base de trabalho da conferência "Ambiente para aEuropa", decorrente de uma iniciativa das Nações Unidas, e em que Portugal participou através dos seus ministro e secretário de Estado do Ambiente.

Esperança de vida

Uma projecção estatística constante no relatório indica que toda a Península Ibérica aumentará as emissões de partículas finas. Com isso, de taxas moderadas na perda de esperança média de vida, Portugal terá os seus habitantes a perder entre nove a 12 meses de vida devido a esse tipo de poluição.

Construção

O baixo preço da terra agrícola tem levado à expansão urbana não controlada na Europa ocidental.

Equilíbrio

Na Europa central e ocidental tem-se mantido, desde 1990, a proporção entre a população rural e a urbana. Só três países (Portugal, Noruega e Holanda) aumentaram a sua população urbana em 6%.

Heranças

A tendência para uma sociedade de serviços, em vez das economias assentes na produção primária e na indústria pesada, levou em muitos países a um decréscimo da poluição com essas origens. No entanto, sobretudo nos países de Leste, foi deixada uma herança pesada de contaminação. O relatório afirma também que está a ser exportado o fardo ambiental para países terceiros, por exemplo no caso da extracção de matérias primas.