13.10.07

CM pela inclusão: Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza - 17 de Outubro - Vivemos à rasca, longe de tudo e quase sem nada

Luís Oliveira, in Correio da Manhã

Os aldeões vivem da agricultura e dos animais
O sorriso fácil e inocente de Maria do Céu, de 48 anos, espelha os sentimentos de uma mulher feliz mas também a resignação a uma vida solitária e limitada, onde o horizonte da vivência termina no cimo dos montes. Residente em Frágua, aldeia encravada na Serra do Caramulo, junto a Viseu, Maria do Céu, solteira, vive cingida àquilo que a terra lhe dá, longe de uma realidade que não faz questão em conhecer.

Nasceu e cresceu ali e só sai de quatro em quatro anos para renovar o bilhete de identidade a Tondela. A vida desta agricultora resume-se a pouco. “Nasci pobre e assim vou morrer, sem nunca conhecer nada que não seja o trabalho no campo”, desabafa quem só se ausentou do concelho “para ir uma vez ao Santuário de Fátima”. “Foi um sonho realizado”, dos poucos que teve e que não tem mais.

Trata-se de um exemplo paradigmático dos milhares de pessoas que persistem em dar vida a aldeias do Interior do País onde falta quase tudo. Não admira que muitas tenham sido votadas ao abandono, por falta de condições sociais e económicas, mas, sobretudo, de gente. Nestes povoados, muitos sem água canalizada nem rede de esgotos, as estradas não passam de caminhos alcatroados, estreitos e sinuosos, onde os poucos automóveis que ali circulam têm de parar quando se cruzam.

Nas aldeias de Frágua e Mosteirinho, separadas por um quilómetro na Serra do Caramulo, residem duas dezenas de pessoas que não têm onde comprar os alimentos que a terra não lhes dá. Não existe farmácia nem cafés onde se possam encontrar, muito menos lojas para comprar roupas. Farmácia ou multibanco são uma miragem. Duas vezes por semana recebem a visita do padeiro, do peixeiro e do merceeiro ambulante. São eles que lhes trazem novidades do resto do Mundo, alterando a rotina diária de trabalhar duro no campo e tratar dos animais que são o ganha-pão.

Estão longe de tudo: do médico, do padre, dos grandes centros de decisão. “Vivemos à parte do Mundo”, lamenta Henrique Fruela enquanto escalpela as espigas de milho que irão transformar-se em pão. “Vivemos à rasca, longe de tudo e quase sem nada. Não passamos fome porque temos terras. Se não fosse isso, não sei o que seria de nós.”

Estes resistentes da ruralidade não baixam os braços e negam a pobreza, tanto material como de espírito. “Como sempre, vivemos limitados, não podemos dizer que somos pobres. É claro que por detrás destes montes há um mundo completamente diferente que nos passa completamente ao lado”, admite Manuel dos Santos, taxista a quem escasseiam clientes.

TRÊS PERGUNTAS A MOISÉS ESPÍRITO SANTO (Sociólogo e Etnólogo)

- As aldeias isoladas podem vir a desaparecer?

- Certas aldeias pequenas e isoladas vão desaparecer. Os jovens saem porque não há condições e, sem renovação das pessoas, mais tarde ou mais cedo as aldeias morrem.

- Os mais novos podem optar pelo isolamento?

- Não. Podem procurar a tranquilidade mas não o isolamento. Escolhem esses locais para férias mas não lpara se fixarem. Só se forem grupos minoritários, como os ecologistas.

- Que medidas fiscais podem ajudar?

- Facilidades fiscais ou prémios por nascimentos podiam ajudar a fixar gente.

DEPOIMENTOS

"SÓ SAIO PARA RENOVAR O BI" (Maria do Céu Pereira, 48 anos)

“A minha vida resume-se a esta aldeia [Frágua] e ao trabalho. Só vou a Tondela [sede de concelho] de quatro em quatro anos para renovar o bilhete de identidade. Só fui uma vez a Fátima numa excursão. Foi lindo.”

"QUEM TIVER SAÚDE VIVE BEM" (Manuel dos Santos, 58 anos)

“Nestas aldeias vive-se o dia-a-dia sem grandes planos para o futuro. No entanto, quem tiver saúde vive sem problemas. A terra dá-nos os alimentos de que precisamos para matar a fome. O resto para nós não existe, porque não conhecemos.”

"HABITUEI-ME A TER POUCO" (Ersília Fruela, 70 anos)

“Desde sempre que me habituei a ter pouca coisa. O resto também não me faz falta. Estamos longe de tudo e sabemos que contamos pouco para os políticos. Aquilo que se passa para além da serra só sabemos pela televisão e rádio.”

"VOU TER DE SAIR DAQUI" (Ana Fruela, 19 anos)

“Foi nesta aldeia que nasci e cresci, mas tenho a noção de que vou ter de sair daqui para ser feliz. Além da minha família não há mais nada que me prenda aqui. Infelizmente, esta aldeia vai acabar por falta de tudo.”

NÚMEROS

38 Número de eleitores, em 2005, na freguesia de S. Bento de Ana Loura, no concelho de Estremoz, considerada a freguesia menos povoada do País, com 46 habitantes.

399 É a população da ilha do Corvo, nos Açores. Vila do Corvo é a única povoação daquele que é o concelho menos habitado de Portugal. Em 1849, viviam aí 850 pessoas.

20 por cento é a percentagem do território do Continente definido pelo Instituto de Segurança Social como estando envelhecido e desertificado.

56 é o número de concelhos desertificados e com forte tendência de exclusão. Representam cerca de 4,9 por cento da população portuguesa.

128 freguesias, das 4259 existentes em Portugal, têm menos de 150 eleitores. Cinquenta destas possuem menos de cem eleitores.