9.10.07

Combater a pobreza no Tâmega

José Sá Reis, in O Primeiro de Janeiro

Está lançado o novo desafio da delegação portuguesa da Rede Europeia Anti-Pobreza, que prevê, mediante o empenho e ligação das instituições existente na sub-região, a melhoria das condições de vida dos mais pobres. O projecto será candidato a fundos do QREN.

O fecho maciço de empresas e a consequente perda do poder de compra das populações dos oito municípios que compõem a sub-região do Tâmega, que pertencem ao distrito do Porto, preocupa o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza de Portugal (REAPN). Para o padre Agostinho Jardim Moreira, “esta é a região mais pobre de todo o país e até da Europa”, com uma diminuição da competitividade.

Só no município de Paredes, e segundo o último Censos de 2001, existe “12, 38 por cento de desemprego”, que supera, “em muito, a média nacional”, de 9,4 por cento. “Este é um segmento geográfico que tem sentido uma depressão enorme, fruto dos encerramentos quase diários de muitas empresas”. Em muitos casos, são conhecidas “várias situações de emigração de muitos trabalhadores do concelho, com destino a Espanha, que oferece melhores condições e mais dinheiro ao final do mês”.

Para Jardim Moreira, “é necessário que não se esqueça este assunto e se enfrente estes problemas com humildade”. Por isso a candidatura a verbas do novo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) do projecto “O impacto do (des) emprego na pobreza e exclusão social no Porto – Tâmega”, da responsabilidade do REAPN, que visa “caracterizar as dinâmicas de emprego e desemprego nos oito concelhos em apreciação, analisar o papel dos diferentes agentes económicos nessas dinâmicas, identificar pistas de acção estratégicas que favoreçam e potenciem essas dinâmicas e reforçar os processos de cooperação entre os diferentes agentes sócio económicos locais”.

No fundo, criar sinergias entre os diferentes núcleos da região para que, juntos, possam contribuir para a erradicação da pobreza na região.

Contra a pobreza
“Este projecto não é para fazer mais um livro ou mais um estudo. Será um projecto de fundo que, com os fundos comunitários que nos serão dispensados, pretendemos empreender soluções para que se melhore a vida das populações locais”. O QREN seria aproveitado na luta contra a pobreza e pela inclusão dos mais desfavorecidos. “Não podemos estar dependentes de bandeiras partidárias, queremos apostar em propostas supra-municipais com respostas articuladas entre os vários concelhos envolvidos”, destaca Jardim Moreira.

Para isso, é necessário que “as várias instituições envolvidas não pensem apenas no seu umbigo, mas que olhem para o bem colectivo”. Jardim Moreira entende que este é um desejo “difícil”, já que se vive “um época em que o egoísmo é feroz”, mas o projecto que agora querem levar a cabo pretende “apostar na solidariedade e partilha de afectos”. E por isso a aposta em três pilares fundamentais que, complementares, podem ser fundamentais para lutar contra a pobreza: informação das populações, a formação dos profissionais e a investigação.

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Paredes
Projecto “prioritário”
“As questões sociais estão na ordem do dia no plano municipal”. Celso Ferreira, presidente da Câmara de Paredes, justifica assim o apoio dado a este projecto da REAPN, denominando-o de “prioritário” para o concelho. “Paredes é o concelho ideal para se desenvolver este projecto” e “terá no executivo municipal um total empenhamento e vontade de saber os resultados finais”.

Em Paredes fabrica-se “65 por cento do total de móveis a nível nacional”, empregando cerca de 1268 profissionais do concelho. Um número agradável mas que fica ainda aquém do desejável, já que “o desemprego na região situa-se em mais de 12 por cento do total de trabalhadores”.

Assim, e porque “o futuro não se prevê, prepara-se”, este será um passo decisivo para que se faça o diagnóstico e se identifiquem as áreas a actuar.

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Contra o “paternalismo bacoco e existencialista”

“Cerca de 17 por cento da população pobre existente em Portugal é de gente com emprego”. Fica assim desmentida a ideia que “todas as pessoas pobres estão sem emprego” e, por isso, é necessário actuar junto destas populações, permitindo que estes “sejam ouvidos pelo poder central e que possam responder, no terreno, às suas preocupações”.

Para isso muito contribuiu a criação, em 1991, desta rede europeia (REAPN), um modelo de intervenção integrada que pretende dar voz e ajudar os mais pobres junto dos órgãos responsáveis pelo desenvolvimento económico e social do país. E quando estamos próximos do Dia Mundial da Erradicação da Pobreza, que se comemora a 17 de Outubro próximo, o padre Jardim Moreira lembra que “toda a gente fala, mas ninguém ouve os pobres”.

“Ao contrário de muitas classes sociais e profissionais, [os pobres] não têm sindicatos que lhes defendam os interesses”. É por isso que “os pobres devem ter voz e a vez de dizerem o que querem”, substituindo-se, desta forma, aos deputados, que “não devem decidir por eles”. “É necessário combater esse paternalismo bacoco e existencialista” dos mais fortes que decidem sobre os mais fracos. “A solução para a pobreza não incide apenas num emprego”. Incide antes na “concentração de todas as condições [económicas, sociais e culturais] para que possa viver numa dada cidade”. E para isso muito contribui “a comunicação social, que deve informar de uma maneira real os problemas com a pobreza”. Os problemas da região são ainda muito mais graves e agravam o problema do desemprego e desertificação da zona: “Nota-se um envelhecimento da população, uma elevada taxa de analfabetismo e um baixo nível de qualificação”.