13.10.07

Falta integração social aos adultos com paralisia cerebral

in Jornal Público

Dos adultos que frequentam o Centro Regional de Paralisia Cerebral de Lisboa vivem
em casa dos pais


72,4%
A grande maioria da população adulta com paralisia cerebral não tem um emprego dignamente remunerado, habitação própria ou vida conjugal, afirmou ontem a directora do Serviço de Neurologia Pediátrica do Hospital D. Estefânia (Lisboa), no Porto.
"Os poucos casos que conseguem obter e manter uma integração social adequada são os que beneficiam em regra de um forte e duradouro apoio familiar", afirmou Eulália Calado, no seminário internacional Novas Idades Velhas: Envelhecimento das Pessoas com Deficiência, a decorrer no Porto.

Eulália Calado coordenou um estudo comparativo entre dois inquéritos realizados, em 1991 e em 2007, ao mesmo grupo de 32 indivíduos, com idades actuais entre os 35 e os 53 anos e que fizeram seis anos de escolaridade no Centro Regional de Paralisia Cerebral de Lisboa.

"Os resultados, quanto à sua integração social, são desanimadores", disse, citada pela Lusa, acrescentando que a paralisia cerebral ainda é considerada como uma doença pediátrica, o que "não corresponde minimamente à verdade".

"Estes indivíduos envelhecem tal e qual como nós, mas os médicos de adultos não estão familiarizados com os seus problemas", lamentou. Quando chegam à idade adulta, "são entregues aos médicos de família que não os conhecem de lado nenhum e muitas vezes não estão preparados para lidar com a situação".

Na sequência dos inquéritos realizados, a médica constatou que estes doentes têm dez vezes mais probabilidades de doença oncológica do que a população normal. "A principal causa é que este grupo não entra no esquema da prevenção, ou seja, não faz os rastreios que a maioria da população faz, nomeadamente aos cancros que mais matam em Portugal".

A neurologista realçou que, do grupo estudado, 64 por cento frequentaram formação profissional, mas 85,7 por cento destes estão sem emprego. Segundo o mesmo estudo, em 1991, 40,6 por cento dos indivíduos estava a trabalhar, mas este ano o número ronda apenas os 29,2 por cento. Os números invertem-se no capítulo da habitação: em 1991, apenas 6,9 por cento tinham casa própria (20,8 em 2007), 72,4 por cento viviam em casa dos pais (50 por cento em 2007) e 20,7 por cento em unidades residenciais (29,2 em 2007).

Actualmente, 58,3 por cento dos indivíduos questionados não têm qualquer relacionamento afectivo. "Esta amostra é a expressão da realidade", sublinhou a neurologista, lamentando a inexistência de dados epidemiológicos desta situação em Portugal.