Andréia Azevedo Soares, in Jornal Público
Indicadores diminuíram a um ritmo inferior a um por cento ao ano entre 1990 e 2005. África e Ásia são as regiões mais afectadas
Os indicadores de mortalidade materna nos países em desenvolvimento pouco mudaram ao longo dos últimos 15 anos, revela um estudo publicado hoje na revista científica britânica Lancet. Mais de meio milhão de mulheres morrem anualmente no planeta em decorrência de complicações na gravidez e no parto, sendo que cerca de 99 por cento dos óbitos têm lugar em países em desenvolvimento.
"De todos os indicadores de saúde, a mortalidade materna é aquele que revela o maior fosso entre as mulheres pobres e ricas, seja a comparação feita entre ou dentro dos países", afirma Thoraya Ahmed Obaid, responsável do Fundo das Nações Unidas para as Populações. Na sua opinião, é urgente promover "a ideia de que nenhuma mulher deveria morrer por dar à luz".
De acordo com a Lancet, foram registadas em todo mundo quase 536 mil mortes durante (ou logo após) a gravidez no ano de 2005. A actual taxa de mortalidade materna é de 402 óbitos para cada cem mil nascimentos, quando em 1990 o rácio era de 425. A maior parte dos óbitos está concentrada na África subsariana (270.500, ou seja, cerca de metade do número global de mortes) e na Ásia (240.600, valor que corresponde a 45 por cento).
O estudo coordenado por Ken Hill, docente da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostra que a mortalidade materna caiu num ritmo inferior a um por cento ao ano entre 1990 e 2005. É incrivelmente pouco, avaliam os especialistas, para um planeta que há sete anos fixou metas ambiciosas para os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Até 2025, pretendia-se reduzir em 75 por cento os indicadores de 1990.
Fosso entre Europa e África
Há muitas formas não geográficas de medir a distância entre Europa e África. Um exemplo: por cada cem mil nascimentos anuais, morrem 900 africanas e nove europeias por complicações da gestação ou do parto.
A situação em países de língua portuguesa, como Angola e Moçambique, "é dramática", admite Nuno Montenegro, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Comissão Nacional da Sub-especialidade de Medicina Materno-fetal. "Há relatos de mulheres a dar à luz numa maca, tendo outras mortas ao lado. Não há gente que chegue para acudi-las, existe uma enorme necessidade de quadros especializados e uma total falta de recursos", descreve Montenegro. O médico defende como aposta a qualificação de profissionais no terreno, evitando assim que os formados não regressem ao país de origem.
Os estudos publicados indicam caminhos de intervenção: nos locais onde há planeamento familiar, métodos contraceptivos e a realização de abortos nas circunstâncias clínicas adequadas, a mortalidade materna cai em média para um terço e a infantil reduz em 20 por cento.
A Lancet publica não só vários estudos sobre mortalidade materna, mas também um editorial sobre o tema. Vinte anos após o arranque do programa de cuidados materno-infantis da Organização Mundial de Saúde, a revista britânica sublinha que as mulheres não podem continuar a ser vistas "apenas como mães".
Número de interrupções voluntárias da gravidez em locais inadequados não diminuiu, diz a Lancet. Cerca de 20 milhões de abortos são realizados anualmente em condições clínicas inadequadas, refere um estudo liderado por Iqbal Shah, investigador da OMS publicado também ontem na Lancet.
O números apresentados revelam que as taxas globais de aborto caíram 17 por cento entre 1995 e 2003, uma redução que provavelmente se deve à maior difusão dos métodos anticoncepcionais.
As taxas mais baixas foram registadas na Europa Ocidental (12 abortos por cada mil mulheres), embora também seja neste mesmo continente que se registe o indicador mais alto: a Europa de Leste apresenta uma proporção de 44 interrupções voluntárias da gravidez (a média da África e da Ásia, por exemplo, é de 29 por cada milhar de mulheres).
Se o número de abortos com assistência clínica caiu, o mesmo não se verifica no número de interrupções voluntárias da gravidez realizadas em locais inadequados: os valores mantiveram-se praticamente inalterados ao longo de uma década, correspondendo a quase metade de todos os abortos registados. A maioria destas intervenções clandestinas são realizadas em países em desenvolvimento.
Um outro estudo liderado por Carine Ronsmans, da Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres, mostra ser possível conseguir bons resultados mediante a adopção de determinadas medidas de saúde pública.
A mortalidade feminina por aborto foi reduzida em 74 por cento ao longo de 30 anos no Bangladesh. Tais resultados, refere a Lancet, derivam de uma aposta em serviços de planeamento familiar e de interrupção voluntária da gravidez com apoio médico. A ausência deste tipo de oferta, segunto a BBC, acarreta quase 80 milhões de gravidezes indesejadas todos os anos.
270.500
mulheres da África subsariana morrem todos os anos em decorrência de complicações no parto ou na gravidez
240.600
é o número homólogo na Ásia
48
por cento das mortes em consequência da gravidez concentram-se em apenas cinco países: Índia, Nigéria, República Democrática do Congo, Afeganistão e Etiópia

