Helena Norte, in Jornal de Notícias
Ateliers de trabalhos com papel reciclado fazem parte do quotidiano de alguns doentes internados na instituição psiquiátrica
Na Casa de Saúde de S. José, em Barcelos, estão 215 homens internados com patologias mentais. Todos eles poderiam ter alta - já hoje - se tivessem retaguarda social e familiar e um emprego. Numa altura em que se procura reorientar os serviços de saúde para a comunidade, o Dia Mundial da Saúde Mundial faz-se no retrato de uma instituição pioneira na utilização do trabalho manual e agrícola como via para a reabilitação integral do doente. Os resultados são animadores, mas esbarram nos muros que a sociedade impõe a estes doentes.
Luís Daniel Fernandes, director daquela instituição psiquiátrica da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, é peremptório. Não é por razões clínicas que os doentes permanecem internados. Com o devido acompanhamento, todos poderiam viver fora da instituição. Sem soluções à vista, os internamentos eternizam-se. Nesta instituição, há registo de um doente em tratamento há, pelo menos, 47 anos.
O recurso excessivo ao internamento para tratamento das doenças mentais é precisamente uma das críticas apontadas pela comissão que elaborou o relatório preparatório da restruturação dos serviços de saúde mental. Se há evidência de que o modelo de intervenção centrado na comunidade é mais eficaz, porque continuam tantos doentes institucionalizados?
A resposta é simples não têm para onde ir. Falta tudo: residências, apoio domiciliário, equipas multidisciplinares e meios para subsistirem fora do amparo dos hospitais. Luís Daniel Fernandes dá um exemplo da complexidade desta questão: um doente institucionalizado está oficialmente de baixa. Esse estatuto impede-o de trabalhar ou frequentar cursos de formação profissional. Mesmo que essas actividades, não só favoreçam a reabilitação psicossocial do indivíduo, como abram portas à sua reinserção na sociedade.
Na Casa de Saúde de S. José, os doentes não estão confinados a quatro paredes. Nem aos 86 hectares de terreno da quinta agrícola localizada nos arredores de Barcelos. Muitos saem, sozinhos ou em grupo, para passear.
Armindo é um dos utentes com maior grau de autonomia. Tem 55 anos, 30 na instituição. Ele e outros cinco deixaram o internamento para viver numa residência localizada no perímetro da instituição. Com o apoio de uma assistente social e uma auxiliar, partilham a responsabilidade de articular as tarefas domésticas com os trabalhos que desenvolvem na quinta.
A Casa de Saúde de S. José foi pioneira, há 50 anos, na ergoterapia, um método que utiliza o trabalho manual como parte de uma estratégia terapêutica. Um quarto dos internados está envolvido nessas actividades. Não se trata apenas de mantê-los ocupados, explica Ricardo Campos, coordenador do serviço de reabilitação psicossocial. Desempenhar uma tarefa - no caso do Armindo, por exemplo, é barbeiro - ajuda os doentes a desenvolver competências pessoais e sociais, como a comunicação, a responsabilidade individual e a auto-estima. As oficinas de trabalhos manuais e as actividades desportivas, culturais e espirituais complementam o quotidiano dos utentes de S. José.
Acesso difícil
As unidades de saúde mental registam "graves problemas de equidade e acessibilidade" e os serviços têm uma qualidade "deficiente". A conclusão é da Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental que apresentou, em Abril último, um relatório onde faz o diagnóstico da situação em Portugal e aponta várias medidas.
Serviços na comunidade
A transferência dos serviços de saúde mental para a comunidade, de forma a combater o estigma associado aos hospitais psiquiátricos e promover uma intervenção mais próxima do doente, é uma das principais recomendações do relatório. A criação de equipas de saúde mental comunitárias, com base nas unidades locais de saúde (novos centros de saúde), e de unidades de internamento nos hospitais gerais (um por distrito, pelo menos) são algumas das medidas previstas até 2016.
Fecho de hospitais
Dos seis hospitais psiquiátricos existentes, a comissão recomenda que apenas três - Júlio de Matos (Lisboa), Sobral Cid (Coimbra) e Magalhães Lemos (Porto) - continuem a existir enquanto unidades regionais de saúde mental. Até 2016, doentes e médicos deverão ser progressivamente transferidos.
Plano aprovado
O Governo aprovou, no último Conselho de Ministros, o Plano Nacional de Saúde Mental e a Comissão Técnica de Acompanhamento da Reforma que operacionalizará as recomendações constantes no relatório.
6,1 milhões na Europa
O Dia Mundial da Saúde Mental é hoje assinalado com diversas iniciativas. Segundo um estudo da Alzheimer Europe, 6,1 milhões de pessoas sofrem de uma forma de demência na Europa. Todos os anos, há 1.4 milhões novos casos. O que significa mais um doente a cada 24 segundos.

