20.4.07

"Sem problemas, até três anos e brancas"

Leonor Paiva Watson, in Jornal de Notícias

A secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, considerou ontem essencial uma reflexão nacional sobre a adopção de crianças num país onde as pessoas só querem adoptar crianças "sem problemas, entre os zero e os três anos, sem doenças e brancas".

Idália Moniz reiterou a mensagem de que as pretensões dos candidatos estão longe das necessidades do sistema. Segundo dados oficiais revelados pelas listas nacionais de adopção - a tal base de dados prometida desde 2003 mas que só ficou operativa há um ano, a 1 de Junho de 2006 - a grande maioria dos 2.113 candidatos que aguarda resposta da Segurança Social quer adoptar crianças entre os zero e os três anos anos e de preferência sem qualquer problema de saúde.

Segundo Idália Moniz, que falava ontem em Lisboa no Encontro "Pela Defesa dos Direitos da Criança", as pretensões dos candidatos estão longe das necessidades, tendo em conta que apenas 29,3% das 15 mil menores insti tucionalizados tem entre os zero e os três anos."Não é compreensível que os candidatos queiram apenas crianças sem problemas, entre os zero e os três anos, sem doenças e brancas", corroborou, acrescentando que "há uma necessidade de reflectir sobre a adopção em Portugal".

Segundo as listas, dos mais de dois mil candidatos à adopção em Portugal, apenas 123 estão dispostos a adoptar crianças com ligeiros problemas de saúde. Os números descem exponencialmente quando se fala de crianças com problemas de saúde maiores, sendo 14 os que não se importam de adoptar uma com uma qualquer deficiência; e apenas um disposto a adoptar um menor com problemas graves.

Dos cerca de 15 mil institucionalizados, apenas 806 - entre os zero e os 15 anos - estão sinalizadas e em condições legais para serem adoptadas. Destas 806 crianças, 236 têm entre os zero e os três anos, 195 entre os quatro e os seis, 215 entre os sete e os dez, 158 entre os 11 e os 15; e duas com 15. Em suma, apenas uma minoria tem menos de três anos o que significa que não há bebés para todos e que se toda a gente os quer, a lista e o tempo de espera aumentam drasticamente.