6.9.21

Pandemia rendeu a alguns dos grandes laboratórios de análises lucros quatro vezes superiores aos de 2019

Mariana Oliveira, in Público on-line

Em 2020, grupo Germano de Sousa passou dos seis milhões de lucro para mais de 23, enquanto o de Joaquim Chaves aumentou resultados líquidos de um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros em 2019 para 11,6 milhões no ano passado. Synlab apresenta prejuízos de milhões há cinco anos seguidos e Unilabs ainda não entregou as contas.

As grandes redes de laboratórios privados do país melhoraram as contas com a pandemia e, pelo menos duas, viram os lucros disparar, chegando a quadruplicar no ano passado os resultados líquidos face a 2019. No sector e, independentemente da dimensão, a maioria parece ter lucrado com o novo coronavírus. Apesar de terem sofrido com o primeiro confinamento que fechou muitos postos de colheitas devido a uma redução abrupta da procura das análises clínicas habituais, os laboratórios conseguiram compensar as perdas com os testes para detectar a infecção pelo novo coronavírus.

Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 87 laboratórios privados realizaram 6,5 milhões de testes moleculares até ao final de Agosto e integram o grupo de 1246 entidades privadas que realizou 3,7 milhões de testes rápidos de antigénio. Aqui, incluem-se não apenas laboratórios, mas também clínicas e farmácias.

Das quatro maiores redes de laboratórios privados do país — a Germano de Sousa, a Joaquim Chaves, a Unilabs e a Synlab —, a Germano de Sousa foi a que registou um lucro mais elevado. O resultado líquido passou de pouco mais de seis milhões de euros em 2019 para quase 23,3 milhões de euros no ano passado, ou seja, um acréscimo de 286% face ao ano anterior. E tal já entra em consideração com o brutal aumento de impostos, praticamente na mesma proporção (passou de dois milhões de euros para 7,7 milhões). Curioso é que o volume de negócios não cresceu na mesma proporção, tendo passado de 35,6 milhões para 74,4 milhões. Conclusão: a margem de lucro aumentou muito face a 2019.

Apesar de o grupo Germano de Sousa ter sido o que apresentou os lucros mais elevados, a rede de Joaquim Chaves foi a que mais viu crescer os resultados líquidos. Em 2019, o lucro tinha ficado um pouco abaixo dos 2,8 milhões de euros, tendo subido até aos 11,6 milhões no ano passado, o que representa um aumento de 319%. Também neste grupo o volume de negócios cresceu numa proporção muito menor (42%), passando de 40,7 milhões para 57,7 milhões.

No grupo Joaquim Chaves Saúde foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. “O grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia"

Mais difícil é analisar os resultados do grupo Synlab, uma multinacional presente em 36 países que se apresenta como líder na prestação de serviços de diagnóstico médico e de análises clínicas laboratoriais na Europa. Com uma estrutura empresarial complexa, que ninguém do grupo esteve disponível para clarificar, a Synlabhealth Portugal apresentou prejuízos no nosso país nos últimos cinco anos, com resultados negativos que variaram entre 5,5 milhões (2017) e os 13,8 milhões (2019). Em 2020, registou um prejuízo de 7,6 milhões de euros (44%) abaixo do contabilizado no ano anterior. O ano passado o resultado operacional chegou a ficar em terreno positivo (quase 27 mil euros), mas os nove milhões gastos com juros empurraram a empresa para os prejuízos.

Já a Unilabs, outra multinacional presente em 16 países e com sede na Suíça, ainda não apresentou as contas, apesar de o prazo legal para entregar a declaração anual da Informação Empresarial Simplificada ter terminado a 30 de Julho. Contactada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Unilabs adiantou que as contas das empresas do grupo “serão depositadas brevemente'’.

“Relativamente ao exercício de 2020, verificou-se um muito ligeiro crescimento das receitas consolidadas do grupo, que teve, no entanto, uma quebra acima de dois dígitos percentuais nos seus resultados no ano transacto”, refere a mesma fonte. Tal, pode estar relacionado com o facto de o negócio do grupo abarcar outras áreas além das análises clínicas, áreas essas como a imagiologia, que sofreram quebras acentuadas na procura, fruto da concentração do SNS no combate à pandemia.

O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”

Uma análise sectorial da Informa D&B, uma firma especializada na recolha de informação de empresas, que avaliou 187 laboratórios de análises clínicas, conclui que em média este tipo de sociedades aumentou o volume de negócio 11,3% entre 2019 e 2020. No entanto, dá conta que os lucros médios subiram de forma bem mais significativa (113%), para quase 321 mil euros. A análise inclui duas grandes empresas, três médias, 23 pequenas e 159 micro, que empregam em média 19 pessoas.

O médico Germano de Sousa, o principal dono da rede de laboratórios com o seu nome, admite que “ganhou dinheiro'’, mas realça que também “gastou muito”. “Comecei a comprar a 90 euros o kit [testes PCR], que agora custam entre 20 a 30 euros”, afirmou. Foi necessário investir em equipamento, como por exemplo “extractores de RNA” e montar uma “plataforma de biologia molecular”. “Comprei cinco extractores que custaram 150 mil euros cada. Passada esta onda [diz que chegou a fazer entre 13 a 15 mil testes PCR por dia e agora faz entre dois a três mil], não tenho quem me fique com isto. E tive que contratar muitas equipas.”

Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano. Grande parte dos lucros, adianta, investiu na comprar de um grande edifício no Pólo Tecnológico de Lisboa, ao lado das actuais instalações que projecta expandir.

Germano de Sousa explica que além dos 14 meses salários que é obrigado a pagar decidiu desembolsar mais dois ordenados aos mais de 1200 funcionários do seu grupo. Um já foi pago e o outro será entregue no final deste ano

Numa resposta escrita enviada ao PÚBLICO, o grupo Joaquim Chaves Saúde (JCS), que reúne clínicas médicas, oncologia, radiologia, medicina nuclear e análises clínicas, dá conta que em 2020, parte das suas operações foram “severamente abaladas pela pandemia”, com quedas de actividade muito significativas. “À semelhança de outros sectores de actividade na área da saúde, críticos durante esta fase, o grupo adaptou a sua actividade para dar uma resposta segura e rápida, contribuindo, assim, para minimizar os efeitos devastadores da pandemia”.

Para isso, diz o grupo JCS, foram adquiridos vários equipamentos que permitiram alargar em nove vezes a capacidade de resposta específica a testes de PCR. Além de toda a capacidade tecnológica instalada, foi fundamental a resiliência, adaptação e colaboração da equipa para a dimensão da operação implementada, em tempo recorde, para responder à procura e necessidades das várias entidades. “Paralelamente ao aumento dos nossos resultados líquidos, houve um investimento do grupo superior em 37% face ao período homólogo”, nota-se na resposta, que também adianta que o grupo conta com mais 22% dos colaboradores nos laboratórios, comparativamente a 2019, num total de 2.500 pessoas em todo o grupo. Com Alexandra Campos