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27.6.23

A (a)normalidade de ser queer

Ana Teresa Fonseca, opinião, in P3

Ser queer ainda não é normal. Por muito que nos tentemos convencer do contrário, existe todo um conjunto de práticas e crenças a desconstruir, para além do género que nos atrai.

O que é a verdade e quem a define? Foucault concluiu que o poder e a verdade são interdependentes. Consideremos o conhecimento científico – a ciência define o que é normal num corpo, e a sua credibilidade é reconhecida, pois advém de uma figura de autoridade (médico ou cientista).

Foi a ciência que designou a não-heterossexualidade como “anormal”, logo, a ser medicamente curada. É esta relação de poder e verdade que, através de um conjunto de construções sociais que julgamos “naturais”, estabelece a hegemonia.

No fundo, é disto que se trata a heterossexualidade: uma ordem sexual (e não só) dominante, que rege os comportamentos como os mais normais possíveis, devido à sua ilusão de naturalidade. Porém, há quem alegue que a comunidade LGBTQ+ é já tão “normalizada” como a heterossexual.

Logicamente, a aprovação de leis como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2010, e a adopção por casais homossexuais, em 2016, são inevitáveis indicadores de progresso e, por isso, um aparente passo em direcção à “normalidade”.

O problema com a aprovação de tais leis é que prevêem que os sujeitos actuem de acordo com a ordem heterossexual, que não se foca apenas num regime sexual, mas também num regime sociopolítico.

Ser heterossexual não pressupõe apenas atracção por alguém do sexo oposto. Pressupõe, precisamente, o binarismo de género presente na frase anterior, tal como os seus papéis. Pressupõe um casamento, cujo fim deverá ser a formação de uma família nuclear.

Pressupõe um amor monogâmico e romântico, que repudia o casual e informal. Pressupõe até uma cidadania sexual restrita e uma economia política neoliberal. Encontramo-nos, portanto, perante a “homonormatividade”.

Significa que serão concedidos mais direitos aos gays e lésbicas que melhor imitarem a hegemonia heterossexual, passando a ser vistos como “bons cidadãos sexuais”! Logo, um pouco mais “normais”, um pouco mais aceites. E os outros?

Os trans, não binários e restantes corpos, por resistirem à directriz heterossexual, não merecem as regalias de um bom comportamento sexual e identitário?

Em 2011, entrou em vigor em Portugal a lei que cria o procedimento de mudança de sexo e nome no registo civil. Em 2018, com a lei da autodeterminação, deixa de se exigir um relatório médico, e permite-se a escolha de sexo, a partir dos 16. Mas não esqueçamos que antes de 2011 – há apenas 12 anos – para se alterar o nome, era obrigatório realizar “esterilizações compulsivas”, ou seja, cirurgia.

Não esqueçamos ainda que foi em 2006 – há apenas 17 anos – que Gisberta foi agredida, violada e assassinada por um grupo de jovens entre os 12 e os 16 anos. Hoje, estes têm entre 29 a 33 anos. Integram uma geração que, como de forma tão forçadamente ingénua se julga, aceita a comunidade queer.

Alterações à lei são cruciais para avanços em relação a qualquer direito, mas a sua necessidade é também prova de que a normalidade é um longo processo de consolidação de comportamentos, que rege gerações atrás de gerações. A aceitação de um corpo, sexualidade e identidade torna-se um direito exclusivo ao grupo de privilegiados que consegue reproduzir esses comportamentos, seja por motivos de sobrevivência ou alienação.
"Significa que serão concedidos mais direitos aos gays e lésbicas que melhor mimicarem a hegemonia heterossexual"

Mas serão mesmo as lésbicas e os gays os privilegiados que mais facilmente acedem aos direitos heterossexuais? Descurando questões de classe, género e etnia, sim, são. Ainda assim, estão longe de ser “normais”.

No mês passado, Mariana Mortágua assumiu publicamente a sua orientação sexual. Numa entrevista, questionaram se não teria atravessado uma “linha vermelha” com a sua posição pública. Mariana respondeu que, em nome da luta pela igualdade, era da sua responsabilidade fazê-lo, não olhando para a sua orientação sexual como uma fragilidade.

O jornalista insiste: “O que é que as pessoas têm a ver com as opções da vida privada de cada um?”. Numa simples pergunta, reflecte-se o que ainda falta para aceder à “normalidade” de ser. Ser heterossexual é o “natural”, e tudo o que não o seja, só poderá ter a ver com as “opções de cada um”.

Se a nossa inteligibilidade passa por uma performance de género, então essa pode provar-se consonante ou resistente à heteronormatividade. Por outras palavras, é possível resistir. É possível criar outra normalidade à margem do normal, onde todos os corpos são verdadeiramente livres de apenas ser. Relembremos o mês do orgulho enquanto mês de resistência, onde os “anormais” lutam por aquilo que desejam ser. Apenas isso: ser.

27.4.21

Como pode ser a vida sexual depois dos 65? Feliz, mostra esta campanha

in Público on-line

A sexualidade pode manter-se até ao fim da vida e ganhar múltiplas formas, dizem as pessoas com mais de 65 anos fotografadas em momentos íntimos para uma campanha no Reino Unido.

Pessoas com mais de 65 anos a abraçarem-se, beijarem-se, usarem brinquedos sexuais ou a fazerem sexo. A organização Relate achou que o desejo sexual e a intimidade deixam de ser representados quando começa a velhice — o que não é o mesmo que dizer que pára de existir, respondem os cinco casais e a mulher solteira fotografados para a campanha no Reino Unido.

Desde um relacionamento de longa data até novas descobertas, as imagens mostram o “que muitas vezes é escondido” ou percepcionado como “desconfortável”. Segundo a Relate, uma organização sem fins lucrativos que presta serviços de terapia sexual, mediação e aconselhamento para casais, famílias e individuais, apenas “um quinto dos britânicos pensa que a sociedade não tem problemas em falar de sexo e intimidade entre pessoas com mais de 60 anos”. Quando lhes perguntaram a eles, cita a organização, menos de 10% dos com mais de 65 anos pensam que o tema não é tabu.

“Pode parecer que apenas jovens com corpos ‘perfeitos’ têm relacionamento sexual e são íntimos, mas é óbvio que isto não é verdade”, escreve Gail Thorne, terapeuta sexual da organização britânica. As fotografias de Rankin, conhecido fotógrafo de moda, foram transformadas em cartazes e estão a ser distribuídas por mupis no Reino Unido, acompanhadas por mensagens divertidas e positivas sobre sexualidade. Sozinha, uma mulher com uma expressão de prazer dá corpo ao trocadilho: “Nunca se é velha de mais para brincar com brinquedos.” Noutro, dois homens nus abraçam-se ao lado da frase: “Alguns homens descobrem que adoram golfe. Outros descobrem que adoram homens.”

“A família e os amigos ficaram espantados, mas foram muito encorajadores”, partilha Mark, um dos homens representados, numa relação com Andrew há 31 anos. “Os sobrinhos e sobrinhas mais novos já nos vêem como um casal de velhos excêntricos de qualquer maneira, e pensam que isto é apenas mais uma coisa estranha que fizemos. Provavelmente vão levar os amigos a ver-nos num painel publicitário”, diz, ao The Guardian.

Para expressarem diferentes formas de intimidade, as pessoas fotografadas trabalharam com um coordenador de intimidade, profissionais cada vez mais usados no teatro e na televisão para deixarem os actores e equipa mais confortáveis durante e após as gravações de cenas com nudez. Aos casais reais, foi pedido que representassem o que, para eles e naquele momento, significava ser íntimo e sexual.


19.5.20

Covid-19 trouxe solidão e desconforto aos jovens LGBT+

Por Marisa Macedo / REIT, in UP

Estudo conduzido por investigadores da FPCEUP está a analisar a saúde psicológica e as redes de apoio social de jovens LGBT+ durante a pandemia.

Isolados(as) dos amigos(as) e desconfortáveis no núcleo familiar. Segundo o estudo desenvolvido pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da U.Porto (FPCEUP) estas foram as principais dificuldades apontadas pelos jovens LBGT+ durante a pandemia de Covid-19. O objetivo da investigação, que está na sua primeira fase, é avaliar a saúde psicológica e as redes de apoio social de jovens LGBT+, que vivem com os pais, ou outra configuração familiar, durante este período.

No estudo, intitulado “REDES DE APOIO SOCIAL E SAÚDE PSICOLÓGICA EM JOVENS LGBT+ DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19”, participaram mais de 630 jovens LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e outras minorias sexuais e de género), com uma média de idade de 23 anos. Do total de inquiridos, 95% tem nacionalidade portuguesa, mas o estudo conta com participantes do Brasil e de outras. A maioria dos/as jovens é estudante reside numa área urbana e é maioritariamente proveniente das regiões Norte, Lisboa e Vale do Tejo e Centro.

Grande parte dos jovens participantes reside com a família. No entanto, dada a situação de pandemia de Covid-19 e o confinamento recomendado, 1 em cada 5 regressou a casa dos pais. Segundo os dados, “6 em cada 10 consideraram que a situação afetou muito ou severamente a sua vida” e a maioria sente-se “limitado para realizar as atividades habituais”.

Perto de 60% não se sente “confortável” com a família
De acordo com os resultados – que dizem respeito ao período entre 17 de abril e 4 de maio – cerca de um em cada quatro inquiridos sentiu-se “muito isolado” dos seus amigos(as). Perto de 60% dos jovens confirmou que a situação de confinamento com a família representou também um desafio por não se sentir confortáveis no núcleo familiar.

Face aos resultados encontrados, os investigadores recomendam que os serviços de apoio, abrigos e demais redes de apoio social permaneçam particularmente atentos e disponíveis durante este período para atender às necessidades dos/as jovens LGBT+.

O estudo, liderado por Jorge Gato, investigador da FPCEUP, conta com a colaboração da Ordem dos Psicólogos Portugueses, da CIG – Comissão Para a Cidadania e Igualdade de Género, Associação ILGA Portugal – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo, Rede Ex-Aequo – Associação de jovens LGBTI+ e apoiantes, It Gets Better, Casa Qui, e Associação Plano i.
Marcadores: Covid-19, FPCEUP, LGBT, saúde, saúde mental, sexualidade

14.5.20

SexLab lança inquérito sobre o impacto da pandemia na saúde sexual em Portugal

in Público on-line

Grupo de investigação ligado à Universidade do Porto quer analisar as consequências da pandemia em várias problemáticas relacionadas com sexualidade.

O objectivo é “avaliar o estado da saúde sexual e o impacto das alterações provocadas pela pandemia” Prostock-Studio/Getty Images

O Grupo de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto lançou um questionário online sobre o impacto da pandemia de covid-19 na saúde sexual em Portugal.
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“Ele está zangado, ela é só histérica”: como vemos as iras feminina e masculina?
Podem responder adultos maiores de 18 (que possam dar consentimento) e o objectivo é “avaliar o estado da saúde sexual e o impacto das alterações provocadas pela pandemia”. Entre as várias questões de saúde sexual que se pretende analisar estão, por exemplo, as dificuldades sexuais, a insatisfação sexual, a violência sexual e os direitos sexuais, bem como problemáticas relacionadas com saúde mental, como a depressão e a ansiedade.

O SexLab, liderado por Pedro Nobre, que é também presidente da Associação Mundial de Saúde Sexual, já produziu vários estudos sobre sexualidade humana e ministra o único doutoramento em sexualidade da Europa.
O estudo “O Impacto da COVID-19 na Saúde Sexual” estará sob a responsabilidade científica de Pedro Nobre e de Ana Quinta-Gomes, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. A investigação já foi aprovada pela Comissão de Ética da mesma faculdade.

9.7.19

Aos nove anos, Keegan sonha tornar-se drag queen

Ana Marques Maia, in Público on-line

Com apenas quatro anos, Keegan já pedia aos pais para usar vestidos. Sente-se mais “na sua própria pele” quando o faz, diz-lhes. O menino, hoje com nove anos, frequenta o terceiro ano numa escola em Austin, no Texas, e considera-se “de género criativo”. Quando crescer, como já revelou na sala de aulas, gostava de ser drag queen.

As manifestações de género não-binário de Keegan não assustam os pais, que consideram a identidade de género “uma construção cultural”; por esse motivo, permitem que Keegan se expresse livremente, sem quaisquer constrangimentos. "É importante que Keegan possa ser quem deseja ser", explicou a mãe da criança, Megan, à agência Reuters. Considera vital que o filho se sinta aceite em casa e fora dela. Megan e Chris, ambos sobreviventes de tentativas de suicídio, estão cientes de que, segundo dados da organização não-governamental The Trevor Project, 39% dos jovens americanos LGBTQ (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e queer) com idades entre os 13 e os 24 anos “consideraram seriamente cometer suicídio” nos últimos 12 meses — e que, para jovens transgénero e de género não-binário, este número atinge mesmo os 50%.

Foi com surpresa que constataram que a escola que o filho frequenta, que a Reuters diz situar-se numa área geográfica particularmente conservadora de Austin, apoia a livre expressão de Keegan e se esforça por conter qualquer manifestação de repúdio por parte dos colegas do jovem aluno. “Uma vitória”, consideram pais e professores, uma vez que, no passado, o menino já tinha sido vítima de bullying por usar maquilhagem, perucas e vestidos em contexto escolar.

No universo do transformismo, Keegan é Kween-Kee-Kee, personagem que tem sido desenvolvida sob a orientação de Robby, drag queen de 25 anos. Além de ter participado no Festival de Drag Queens do Texas, em 2018, Keegan é hoje um performer remunerado, e a sua conta de Instagram reúne mais de 2.700 seguidores. Um ano após tê-la aberto, com a supervisão dos seus pais – e com a colaboração de um fotógrafo profissional – Keegan assumiu a sua homossexualidade. “Foi bom sentir que o meu filho retirou esse peso dos ombros”, confessou a mãe, Megan, à Reuters.

Roby, contratado pelos pais da criança, tenta passar uma mensagem de confiança. “Transmitir a uma criança de nove anos que o sucesso se define quando insistimos em sermos quem somos, quando crescermos fiéis a nós mesmos e quando praticamos o bem”, disse à Reuters. O drag queen acredita que a sua presença terá efeitos positivos na vida de Keegan. “Enquanto homossexuais, podemos escolher a nossa família e acho que eu estou a ganhar isso mesmo, uma família. No fim do dia, é isso mesmo que importa, não é? Criar uma mudança positiva para um menino que talvez não soubesse que ser como é é uma opção.”

18.3.19

Atenção. Quando o sexo deixa de ser fonte de prazer e não é saudável

in Lifestyle ao Minuto

A Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu recentemente o comportamento sexual compulsivo como um transtorno mental. O sinal de alarme surge quando o prazer desaparece e dá lugar à ansiedade.

Comportamento sexual compulsivo foi incluído como um distúrbio de saúde mental na lista da Classificação Internacional de Doenças (CID) da OMS. É definido como "um padrão persistente de falta de controlo sobre os desejos sexuais ou intensos e repetitivos impulsos sexuais que resultam num comportamento sexual repetitivo".

Ainda não foi considerado um transtorno ou um vício, e o polémico debate ainda está em aberto, como relata a publicação El País.

A verdade é que para o ser humano tudo o que gera prazer é suscetível de criar um comportamento compulsivo e viciante. Tal é comum com drogas, álcool, açúcar ou tabaco. O sexo também. Para todos, a tentação pode estar lá. Há pessoas mais sexuais do que outras, e ser mais ou menos capaz de controlar o impulso sexual é algo que preocupa a todos.

Todavia, onde o vício e o descontrolo começam?
Quando o prazer sexual não é mais o motor que o leva a repetir o comportamento, mas a evitar o desprazer. Quando não ‘consumir’ produz sofrimento intenso: ansiedade e angústia. Quando a sua vida começa a ser afetada porque a sua meta de consumo se torna uma prioridade.

Uma pessoa viciada em sexo pode tornar-se extremamente insistente com o parceiro ou masturbar-se com mais frequência. Dedica mais tempo ou dinheiro à pornografia todos os dias. Pode começar a negligenciar tarefas em casa e no trabalho, ou trancar-se numa divisão e deixar de brincar com os filhos ou jantar com a família. Chegar sempre atrasado ao trabalho ou assistir a pornografia no escritório. Pode gastar todo o dinheiro em prostituição e abandonar completamente as suas obrigações. Em suma uma pessoa viciada em sexo tem um comportamento profunda e perigosamente auto-destrutivo.
A patologia do foro íntimo afeta cerca de 6% da população ocidental e é mais frequente nos homens.

Parecem ser mais vulneráveis aqueles que já tiveram outros vícios, como o jogo ou drogas.

28.6.16

Dez anos, quinze parceiros sexuais

Laurinda Alves, in o Observador

Conhecer raparigas usadas e abusadas sexualmente que vivem a sua história no segredo ameaçador imposto pelos agressores carrega-nos de culpas. Somos culpados do silêncio e da apatia de não agir.

Uma coisa é falarmos de violações e agressões a raparigas que ainda são crianças; outra coisa é conhecer as caras destas crianças. Uma coisa é generalizarmos e conceptualizarmos sobre o abuso sexual de menores; outra coisa bem diferente é conhecermos os nomes e as histórias de vida de algumas destas raparigas menores.

São menores de idade, é certo, mas muitas delas revelar-se-iam maiores, se medíssemos o tamanho da sua coragem e a altura da sua estatura moral. Foram abusadas, mas não se converteram em castigadoras. Muito pelo contrário! Lutam e agem incansavelmente todos os dias para que outras raparigas não passem pelo mesmo que elas passaram.

Conheci numa semana muitas dezenas de raparigas vulneráveis que passaram ou correm o risco de passar por situações de abuso sexual. E também conheci a autora de um estudo que ainda está em fase de conclusão e validação, mas aponta para dados terríveis: em algumas zonas de Moçambique há raparigas com pouco mais de 10 anos já submetidas a 15 homens diferentes e forçadas a 3 contactos sexuais por semana. Parece demasiado brutal para ser real, mas infelizmente esta realidade ultrapassa qualquer ficção.

As estatísticas relativas à gravidez precoce em crianças moçambicanas são igualmente assustadoras, e tudo isto revela um cenário discricionário, no qual as mulheres têm um estatuto muitíssimo secundário. Podem até trabalhar mais que os homens e ter um papel essencial nas suas famílias e comunidades, mas isso não lhes dá estatuto nem direitos.

Sabemos que a realidade de que falo não é um exclusivo de certas zonas de Moçambique, pois em todo o continente africano alastram tremendas desigualdades entre homens e mulheres. Em mais de meio mundo é assim, aliás. As raparigas abandonam a escola ainda muito novas e são forçadas a casar cedo demais. Houve até há pouco tempo leis que protegiam os violadores, obrigando as raparigas a casar com o agressor. Arrepia, só de pensar.

Ser mulher é também estar em comunhão com as mulheres que sofrem, são maltratadas ou abusadas. Não é preciso ser feminista nem activista dos direitos das mulheres e, muito menos, defensora de quotas em contexto político-social para ter consciência de que a assimetria entre géneros é esmagadora para as mulheres em demasiadas latitudes do globo. Vivemos os mesmos séculos, os mesmos tempos de guerra e de paz, atravessamos juntos as mesmas crises e tempos de progresso, mas a história das mulheres é uma e a dos homens é outra, completamente diferente. E o fosso entre umas e outros é abissal.

Conhecedores de tudo isto, muitos homens e mulheres lutam pela igualdade de género e pelos direitos fundamentais, criando movimentos e organizações focados na educação das novas gerações, dando-lhes critérios e ferramentas para agirem de forma mais consciente, mas também para despertarem a consciência geral, pois a apatia que prevalece em muitos políticos e decisores chega a ser desumana.

Conhecer raparigas usadas e abusadas sexualmente que vivem a sua história no segredo ameaçador imposto pelos agressores carrega-nos de culpas. Somos culpados do silêncio, da indiferença e, porque não dizê-lo, da mesma apatia que identificamos nos que podem agir, mas não agem.

Escrevo a pensar especialmente numa dessas raparigas. Uma criança que podia ser minha filha, se eu tivesse nascido em África. Uma menina muito bonita, reservada e de olhos tristes, mesmo quando ri. Uma mwarusi, que na língua Macua significa donzela, rapariga que ainda não é mulher. Estavamos a chegar para uma sessão com as mwarusi (apoiadas por mentoras pós-universitárias do projecto Girl Move) numa comunidade rural da Província de Nampula, quando esta menina chegou. Trazia com ela apenas um caderno e vinha a conversar com duas amigas.

Durante um par de horas, as mentoras Girl Move orientaram uma sessão criativa, divertida e incisiva sobre a responsabilidade individual e o contributo positivo para o colectivo. Depois, as mwarusi dividiram-se em grupos para trabalhar um tema específico que tem a ver com básicos essenciais para elas: saberem defender-se, atreverem-se a dizer ‘não!’ e protegerem-se umas às outras para não serem agredidas e abusadas.

A última hora da sessão com as donzelas da comunidade de Napipine, perto de Nampula, foi passada a fazer teatro. Sob a supervisão das mentoras Girl Move, as raparigas improvisaram role-plays muito eloquentes dos seus medos e urgências, mas também dos seus anseios e sonhos de futuro. Todas se envolveram nas breves peças de teatro acabadas de ensaiar, e todas foram complementares acrescentarando muito umas à outras. Fizeram-nos rir às gargalhadas, mas também nos fizeram chorar lágrimas que tentamos a todo o custo conter e esconder.

Assisti a todas as peças, vi e ouvi os argumentos que usaram, e comovi-me profundamente com a verdade de cada uma, mas também com a aparente leveza com que falaram de temas pesados. Muitas delas estão no auge da sua catarse (a rapariga de que falo, de olhos bonitos mas trites, é uma delas) e, por isso, a teatralização de situações ameaçadoras, bem como a capacidade de nomear sentimentos permite essa purga, essa purificação interior. As raparigas servem de filtro umas às outras e as mentoras são essenciais para orientar essa catarse.

Nos teatrinhos improvisados, as raparigas dão sucessivos alertas umas às outras e reforçam noções e laços que as protegem dos perigos reais. Nada do que dizem é fútil ou acessório. Mantêm o foco nos temas essenciais porque sabem que dele depende a sua sobrevivência emocional, mas também a sua integridade física. No fim, em conversas mais íntimas, a duas, olhos nos olhos, soube que esta menina de que falo assumiu há pouco tempo que só está a conseguir sobreviver ao trauma da violação por estar a ser ajudada pelas outras mwarusi e pelas mentoras Girl Move.

Aquilo que vi e ouvi em Napipine, mas também na comunidade rural de Marrere, onde a sessão foi igualmente animada, mas desta vez sobre noções elementares relativas ao aparelho reprodutor feminino, feita a partir de danças e canções, mas também de desenhos infantis e pulseiras que as próprias miúdas fazem com missangas de várias cores, de forma a poderem usá-las sempre no pulso para perceberem o seu ciclo menstrual, bem como os dias em que correm perigo real de engravidar, deu para perceber o que fazem as mentoras do Girl Move no terreno. Ou seja, fora da Academia que frequentam em Nampula e onde cumprem um programa avançado de liderança pelo serviço e empreendedorismo social.

Estas raparigas foram, elas próprias, mwarusi e sentiram na pele essa mesma vulnerabilidade, mas tiveram a coragem de sonhar e lutar por um futuro diferente. O seu exemplo é altamente motivador para as mwarusis com quem trabalham actualmente, ajudando-as a ganhar coragem para procurarem elas mesmas o seu futuro. A forma como tocam a vida destas mwarusis vai fazer com que muitas se tornem líderes no futuro e é este sistema de vasos comunicantes e contagiantes que já está a colher muitos frutos.

Podia ter começado por escrever sobre a Academia Girl Move e tudo o que as jovens recém-licenciadas moçambicanas aprendem lá, mas acabei por deixar para o fim, pois a realidade-real que atravessam e sobre a qual se debruçam semestre após semestre é brutalmente urgente. Citando Maria Eitel, presidente e CEO da Fundação Nike, que serve de inspiração ao projecto Girl Move, “a educação das raparigas é transformadora e muda o curso da história. Se investirmos nos 72 milhões de jovens raparigas que estão fora da escola e elas passarem a estudar e a viver de acordo com o seu potencial, teremos um mundo totalmente diferente. É hora de actuarmos!”

Foi exactamente esta urgência que determinou a fundação e construção da Academia Girl Move, criada para promover a educação das mulheres. Na Girl Move só entram jovens licenciadas com potencial de liderança ao serviço das comunidades, porque a missão é essa mesma: liderar pelo serviço e transformar a realidade. “Quando melhoramos a vida de uma rapariga através da educação, saúde e segurança, dando-lhe mais oportunidades, estas mudanças têm sempre um efeito multiplicador na sociedade e quebram os ciclos de pobreza e exclusão” assume Alexandra Machado, portuguesa de Lisboa e fundadora do Girl Move que largou uma vida de sucesso como gestora de topo numa empresa multinacional para estar ao serviço desta causa, em Moçambique.

Num ciclo virtuoso de mentoria, de rapariga para rapariga e mulher para mulher, criou uma equipa sólida e uma rede de apoio, capacitação e mudança que transforma Nampula, em Moçambique, mas vida a vida poderá transformar o mundo. Preparar uma nova geração de mulheres que contribui para a mudança da realidade implica envolvê-las com o problema. Dotá-las de competências e forças para sonhar, tornar os sonhos realidade e fazer com que muitas mais mulheres se atrevam a sonhar.

Passei uma semana em Nampula, com a turma de raparigas Girl Move, na Academia onde têm aulas e recebem formação no âmbito do extraordinário Programa Avançado de Liderança e Empreendedorismo, mas também estive com elas no terreno, onde são mentoras de dezenas de Guias do projecto Mwarusi, que por sua vez trabalham com centenas de mwarusis. Fiquei impressionada com esta rede que toca mais de 600 raparigas só na Província de Nampula. Em apenas dois anos a Girl Move já está a fazer toda a diferença na paisagem a norte, num país como Moçambique, onde milhares e milhares de raparigas correm risco de abandono escolar, gravidez precoce, pobreza (miséria!) e exclusão social. Grande parte desta sucessão de conquistas deve-se ao envolvimento das próprias autoridades moçambicanas e também este contágio quase imediato acaba por ser muito inspirador e gratificante para todos. Trata-se da chamada win-win situation, em que todos ganham.

O programa parte desta ideia inovadora de mentoria em rede, e de um programa altamente inovador, inspirado por Paulo Freire, que recorre às metodologias pedagógicas mais recentes e experienciais como as comunidades de prática, os estágios de Vida, as tutorias de carreira, o service-learning, o dragon dreaming e o design thinking. Ou seja, metodologias mais que testadas no mundo das organizações, agora aplicadas também naquela latitude para transformar a sociedade.

Fui como voluntária participar na formação e voltei como se também eu pertencesse ao projecto. A paixão de alunas e professores, mentoras e guias, mwarussis e voluntários é absolutamente contagiante. Percebo a fundadora do Girl Move, quando assume que o seu sonho é formar formadoras, incentivar líderes e capacitar mentoras para chegarem a todas as raparigas em risco de abandono escolar e exclusão. Soa a utopia? Talvez, mas como dizia Sebastião da Gama, é pelo sonho que vamos. E é pelo exemplo que continuamos, na certeza de que são realmente as minorias que fazem avançar o mundo.

12.6.15

Sexualidade e deficiência: o direito ao sexo

autoria Alex Liverani, in Público on-line

A longa série de doenças que afectou Nicola desde a infância foi um entrave ao seu normal relacionamento afectivo e sexual. Aos cinco anos, foi-lhe diagnosticada leucemia linfóide aguda. Os passeios de bicicleta e a bola foram então substituidos por sessões de quimioterapia, punções lombares e transplantes de medula óssea. Aos sete, a doença foi dada como extinta. Mas, logo de seguida, desenvolveu cancro testicular, levando-o a novas rondas de radio e quimioterapia que o deixaram praticamente irreconhecível. Sobreviveu. Aos 11 anos desenvolveu uma nova doença: esclerodérmia. Os sintomas desta doença crónica incluem rigidez da pele, perda de cabelo, rigidez dos dedos, mãos ou antebraço, feridas nas pontas dos dedos das mãos e dos pés. Nicola, actualmente com 25 anos, face a tudo isto não cruzou os braços. No dia em que se formou pela Academia de Belas Artes de Brescia, Itália, ofereceu a si próprio um presente: comprou uma sessão com Carmen. Esta assistente sexual tem uma ligação informal a uma organização não governamental chamada "LoveGiver", e presta serviço de cariz sexual a pessoas com deficiência de forma não-oficial, devido ao não reconhecimento deste tipo de profissão pelo Governo. O italiano Alex Liverani acompanhou Nicola e Carmen durante dois meses e criou o projecto "Homemade". Em entrevista ao P3, Alex Liverani, um dos vencedores do "Leica Talent Italia" de 2014, contou ter conhecido os dois através do Facebook: "Tinha visto o filme 'The Session' e fiquei muito interessado na história. Eles mostraram-se bastante receptivos. Só tive dois meses para completar o projecto, mesmo a tempo da final do concurso da Leica." Na descrição de "Homemade", Alex observa que "outra pessoa talvez escolhesse outro local, um quarto de hotel suburbano, anónimo e estéril, mas, para Nicola, não seria a mesma coisa." "Quatro paredes que nada sabem sobre ele não lhe podiam oferecer a sensação de segurança de que necessitava", acrescenta o fotógrafo. "Esta nova experiência, que o levou ao conhecimento do prazer sexual e do corpo feminino, deveria ser inesquecível. Foi por isso que decidiu viver a experiência dentro de sua casa, em Brescia, onde passa a maior parte do tempo na companhia dos seus pais, onde estuda, pinta, toca guitarra". De algum modo, "Homemade" retrata esse espaço, "ali, onde sempre se sentiu protegido." Ana Maia

30.10.13

70 mil raparigas morrem todos os anos com problemas relacionados com a gravidez

in Público on-line

Relatório das Nações Unidas apela a mudança de mentalidades e alerta que todos os anos ainda há 7,3 milhões de crianças a nascerem de mães menores de idade.

Cerca de 70 mil raparigas com idades entre os dez e os 19 anos morrem todos os anos por complicações durante a gravidez e o parto, indica um relatório das Nações Unidas que apela a uma mudança de políticas e mentalidades.

O relatório, do Fundo de População das Nações Unidas, divulgado na terça-feira, revela que, nos países em desenvolvimento, cerca de 7,3 milhões de raparigas menores de idade dão à luz todos os anos, a maioria das quais na África subsaariana e no sul da Ásia, com uma em cada dez raparigas do Bangladesh, Chade, Guiné, Mali, Moçambique e Níger a revelarem terem um filho antes dos 15 anos.

O fundo alerta que este é um “enorme problema global” que exige atenção e defende que os governos e grupos civis devem perceber que as raparigas em causa não são as únicas responsáveis, lembrando o papel da pobreza, da baixa escolaridade, da falta de aconselhamento sobre métodos contraceptivos, da prática do casamento infantil e da violência sexual.

“Muitas vezes a sociedade culpa apenas a rapariga por engravidar”, afirmou o membro do fundo Babatunde Osotimehin, durante a apresentação em Londres do relatório “Maternidade na Infância”. E acrescentou que, na realidade, “a gravidez na adolescência não é o resultado de uma escolha deliberada, mas de uma falta de escolhas e fruto de circunstâncias que fogem ao controlo da rapariga”.

O responsável defendeu ainda ser necessário reflectir e exigir “alterações nas políticas e normas familiares e de governos que muitas vezes não deixam outra alternativa que não seja seguir o caminho de uma gravidez precoce”.

De acordo com vários inquéritos, 19% das mulheres entre os 20 e os 24 anos dos países em desenvolvimento tiveram o seu primeiro filho antes dos 18 anos, o que equivale a 36,4 milhões de mulheres, segundo dados de 2010.

Destas, cerca de 17,4 milhões são oriundas do sul da Ásia, 10,1 milhões da África subsaariana e 4,5 milhões na América Latina e Caraíbas, revela o fundo das Nações Unidas.

Segundo o estudo, estas raparigas correm maiores riscos de morte materna ou de fístula obstétrica. Muitas das menores ficam incontinentes e enfrentam um futuro difícil ao serem pressionadas a abandonar precocemente a escola.

4.5.12

Namoro e sexo em Portugal: a ruptura deu-se entre avós e adolescentes

Por Natália Faria, in Público on-line

Sociólogo José Machado Pais ouviu jovens "queixarem-se de excesso de liberdade". Está tudo num livro que é lançado hoje em Lisboa.

Vivem numa era em que tudo parece descartável, nomeadamente as relações. Mas será que a forma como os adolescentes namoram é assim tão diferente da dos seus pais? E quanto ao primeiro beijo, ao sexo e às traições amorosas? "Não há muitas diferenças a assinalar", concluiu o sociólogo José Machado Pais, autor do livro Sexualidade e Afectos Juvenis, que é lançado hoje à tarde no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Depois de vários meses a discutir com jovens e respectivos pais questões como o casamento, divórcio e traições amorosas, o coordenador do ICS concluiu que a grande ruptura não se deu entre quem tem hoje entre 15 e 17 anos e os seus pais, mas entre estes e os seus predecessores, ou seja, os avôs.

"Os pais destes jovens teriam à volta de 20 anos, quando se deu o 25 de Abril, e tendem a demonstrar em relação aos seus filhos uma permissividade que surge como reacção à repressão de que foram vítimas, quando eram jovens, sobretudo as raparigas", adianta Machado Pais. O sociólogo diz mesmo ter ouvido nos grupos de discussão que promoveu em três escolas do país "alguns jovens queixarem-se de um excesso de liberdade".

"A forma de tratamento entre os jovens entrevistados e os seus pais é 'tu', enquanto estes tratavam os pais por 'você' ou mesmo 'vossemecê' e isso é significativo de uma mudança de um relacionamento verticalizado para um mais horizontalizado, em que os pais assumem um estatuto de amigos. E isso, às vezes, confunde-se com uma quase demissão da obrigação de disciplinar e orientar."

Quanto às semelhanças, na geração dos rapazes mais novos "persistem tiques de um machismo que não desapareceu". "Na geração predecessora, a iniciação sexual, nomeadamente nos meios rurais, fazia-se com recurso a prostitutas, onde a dimensão afectiva está ausente", contextualiza Machado Pais. "Entre os rapazes de agora continua a haver uma pressão para a iniciação sexual dirigida aos rapazes que ainda não se iniciaram sexualmente, e isso leva a que alguns se sintam impelidos à iniciação sexual desvinculada dos afectos." Já entre as raparigas, e agora como dantes, mantém-se "uma maior propensão para valorizarem a dimensão romântica e afectiva".

Quanto ao divórcio, consenso geral entre os jovens. "Todos dizem que, se um casamento não resulta, não vale a pena estar a prolongar uma situação de sofrimento", relata o investigador, admitindo que tal unanimidade poderá advir parcialmente do facto de alguns destes jovens "serem filhos de casamentos infelizes e não se sentirem confortáveis com as discussões quotidianas que presenciam".