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13.9.17

Comunidades Ciganas. “A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito"

in Sol

Em Portugal são entre 40 a 60 mil os cidadãos de etnia cigana. São vários os estilos de vida e diferentes as condições em que cada comunidade vive. Uns têm conseguido remar contra a maré, formar-se na universidade, conseguido emprego. Outros ainda vivem em tendas e barracões. O i passou por três dessas comunidades e foi saber como é viver do outro lado do preconceito.

Monforte é uma localidade do distrito de Portalegre. É pequena, pacata e acolhedora. Veem-se poucas pessoas na rua, as casas estão todas fechadas. O calor também é o que se espera daquelas bandas, não estivessem mais de 30 graus e até estranhávamos. As casas são brancas, caiadas de amarelo e azul, no centro da vila há uma praça simpática e na esplanada só estão dois homens sentados.

O i veio ao interior alentejano, depois de receber um e-mail de um leitor que convidava os jornalistas a visitar algumas localidades, entre as quais Monforte, onde se passariam situações de teor negativo na relação dos habitantes ciganos e não ciganos. O convite partiu depois da polémica entrevista dada pelo candidato à Câmara de Loures, André Ventura, em que acusava as comunidades ciganas de sobreviverem à custa do Estado. O leitor estaria de acordo com o candidato. O i aceitou o desafio.

Estamos em pleno centro do município do país que tem maior percentagem relativa de presença de cidadãos de etnia cigana. Segundo o Estudo Nacional Sobre Comunidades Ciganas, a comunidade de etnia cigana em Monforte representa 75,90% da população geral. Quem confirma os dados, mais tarde em conversa com o i, é o presidente da Câmara, Gonçalo Lagem, de 40 anos e natural da terra. Orgulha-se de sempre ter convivido com a comunidade cigana que está fixada em Monforte há mais tempo do que o próprio. Os últimos números, atualizados pela Pordata em 2011, indicam que no município vivem 3.329 habitantes. Deles fazem parte 26 famílias de etnia cigana na vila de Monforte, 12 em Vaiamonte e quatro em Assumar.

Dirigimo-nos em primeiro lugar ao clube de futebol da terra, tem as portas abertas mas com um letreiro que avisa que só os sócios podem frequentar o interior do clube.

Entrámos e sentámo-nos na mesa de um senhor que não se quer identificar. “Falar de ciganos é sempre um assunto polémico e sensível. Eu sou dono de um estabelecimento e não quero confusões”, explica em tom baixo. Pedimos-lhe para contar as suas histórias. Já alguma vez teve problemas? “As partes positivas de viver numa vila com eles são muito poucas para quem tem contacto diário. A população cigana aqui é enorme, tendo em conta que é um meio tão pequeno. Lido com eles todos os dias, é um bocado ingrato. Nunca aconteceu nada, mas pode vir a acontecer”.

Medo do que pode vir, mas não veio ainda Segundo este adepto do Futebol Clube Monfortense, antigamente as pessoas tinham as casas abertas muito mais tempo, agora fecha tudo cedo porque há medo, “nunca se sabe”, diz em tom preocupado.

O medo fica-se pela possibilidade de um dia vir a acontecer alguma coisa que nunca aconteceu antes. Pelo que nos contam as pessoas, “nunca houve problemas”. Apenas entre os mais novos acontecem por vezes desacatos mas “gaiatos arranjam sempre confusão, isso é tanto os nossos quanto os de qualquer outra raça. Já não fomos todos gaiatos?”, pergunta o dono de um café central muito frequentado pela comunidade de etnia cigana. “A mim nunca me faltaram ao respeito e quem toma conta deles todos é a dona Bea, a mais velha do acampamento”, diz. Um cliente apoiado na janela que dá para a rua, onde está a beber uma mini, interrompe: “Lá na piscina estiveram ontem 14 miúdos dos deles, são irrequietos, tive de os pôr na ordem, têm de saber estar não é?”.

A discussão é amigável, tanto o cliente quanto os donos do café parecem concordar que nunca houve problemas na vila com qualquer cigano. “São gente educada”, concorda a dona do café.

A escola e os gaiatos No agrupamento de Escolas, falamos com o diretor António Barreira, de 55 anos. Vive em Portalegre, vem todos os dias até Monforte e já exerce funções na direção há nove anos. As crianças ciganas do município vão à escola, mas a instituição teve de se adaptar para conseguir manter os alunos e os cativar a manterem-se no ativo. Para isso criaram um sistema de intervenção, cujas medidas tiveram como principal foco “a disciplina, o sucesso e a prevenção do abandono escolar”. Entre as várias medidas deste programa, destaca-se uma das que teve mais sucesso: conseguiram atrair para o pré-escolar todas as crianças de etnia cigana a partir dos três anos de idade. “Pareceu-nos que seria mais fácil começar aos três e quatro anos a integração no sistema educativo português. Quando vêm para o primeiro ciclo já se nota que trazem os hábitos de saber estar na sala de aula, de trabalhar”. Em nove anos as várias medidas deste programa têm muitos resultados positivos, já que “o número de alunos no terceiro ciclo é hoje muio maior, embora ainda haja uma parte das meninas que deixa os estudos mais cedo que os rapazes, para começar uma família”. Todos os dados disponíveis apontam para “altos níveis de analfabetismo e absentismo escolar dos ciganos portugueses, mesmo em relação aos 6 anos de escolaridade, o que faz prever tratar-se de uma tarefa difícil a concretização dos 12 anos de escolaridade”, lê-se no Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas.

Para o diretor do Agrupamento de Escolas de Monforte, onde 80 alunos de etnia cigana estudam, representando um terço do total de alunos, o maior desafio em integrar os estudantes no sistema de ensino centra-se no facto de os pais não terem trabalho na região e, por isso, terem de se deslocar para Espanha e França por algumas temporadas. “Os miúdos vão com eles e perdem imenso tempo de escola”. A escola já viu formarem-se estudantes no ensino profissional e hoje uma ex-aluna, Ana Cristina, é funcionária da escola e mediadora com a restante comunidade. Não há registo de casos de indisciplina de maior gravidade. António Barreira apenas recorda um episódio no início do seu percurso como diretor – “Há o que é normal entre miúdos, sejam de que origem for”, conclui.

Um acampamento “temporário” Saímos do Agrupamento com as indicações sobre como chegar ao acampamento onde a maioria das famílias de origem cigana vive. O caminho para o Rossio é de terra batida, há alguns carros velhos parados e muito pó no ar. Do lado direito, cerca de sete barracas geminadas surgem, com escadas improvisadas feitas de tijolo. Um grupo enorme de homens senta-se em roda a conversar. Há crianças descalças, mas só os pés podem estar sujos. As roupas estão muitas vezes a combinar com os olhos claros e o contraste da pele morena. As meninas têm os cabelos bem penteados e soltam gargalhadas enquanto correm. Do lado esquerdo, uma roulote e à entrada uma senhora vestida de negro. Há cães a correr com as crianças. Todos nos olham com desconfiança, passaremos a saber mais tarde que é raro terem visitas. Uma jovem de vinte e quatro anos aborda-nos: “Que é que os senhores querem da gente?” Queremos conhecer a dona Bea. “Está ali na casinha dela, é minha avó”. A dona Bea é a matriarca da comunidade, é ela quem ouve os problemas, quem toma decisões, sabe os nomes de toda gente mas não se lembra das primaveras que já viu nascer. No acampamento é conhecida por Vó Bea, o que faz sentido quando se tem 119 netos e bisnetos.

A casinha da avó Bea não é uma casinha, é uma barraca com tijolos e cimento, plásticos e outros materiais que improvisam paredes. Não há chão e há apenas um compartimento que dá para cozinha, sala de estar e quarto de dormir. No acampamento não há casas de banho, todas as pessoas vão ao mato para fazerem as suas necessidades fisiológicas.
Maria Feliciana Fernandes procura o bilhete de identidade algures enfiado num dos poucos bolsos de plástico de uma carteira muito velha, cheia de papéis e cartões que pelo aspeto já cruzaram décadas. Quando o alcança, lá se lê : Maria Feliciana Fernandes. No lugar da assinatura tem um “x”, nunca aprendeu a assinar. Nasceu na freguesia de Santo André, em Estremoz, no mesmo ano em que surgia a segunda grande guerra, em 39, onde tantos da sua etnia foram chacinados por serem diferentes, relembra. Recebe-nos ao seu lado, de sorriso estampado no rosto. Continua a sua história. Em gaiata, passou por Ponte de Sor, onde foi criada. Chegou a Monforte aos 13 anos, terra onde o pai fora batizado, mas para onde não tinha tornado até então. Aos 78, ainda veste preto, cor que lhe ficará até que se volte a encontrar com o marido, numa dimensão longínqua. Acredita que sim, vai encontrá-lo no céu. “Eu era tão bonita, mas agora sou feia, feia”.
O olhar é triste, meigo e a memória está viva. “Vim para cá com 13 anos, já cá havia ciganos quando chegámos, casei-me e nunca mais saí”. De mãos no queixo relembra a primeira vez que foi mãe. “Peguei numa tesoura, queimei-a para desinfetar, peguei em panos e numa agulha com linhas. Fui ao mato, rasguei-me e tive o meu filho ali mesmo, sozinha. Cortei-lhe o cordão e vim com ele cheio de sangue nos braços”. A descrição é heróica, as netas ouvem-na com atenção. Vítor, de um mês de idade, está ao colo da mãe, Inácia, mas veio ao mundo num hospital. “As mulheres já não têm de passar por isso, credo” diz a jovem de 25 anos que casou aos 15 anos e tem três filhos. O mais velho com oito anos e o do meio quatro.

“Não queria ser cigana” Inácia, de olhos verde-água, enquanto abana o bebé desabafa para o ar: “Eu quando era pequena não queria ser cigana. As pessoas não gostam de nós nem dos nossos filhos. Por um cigano mau pagamos sempre todos”. Mas a avó não concorda. “Cá para mim, não tenho queixa de ninguém, nem guarda, nem presidente, é gente muito boa. Entro na casa de todos, se me perguntarem, nunca recuso”. E continua o discurso: “Fora com todos os que não sabem respeitar pessoas. E isto já não é Monforte, Monforte era antes. Agora há muitos gaiatos que tratam mal os nossos”. “Acha que é medo do que não conhecem?”, perguntámos. “Os gaiatos são parvos, eu fui criada de uma maneira, estes gaiatos hoje recebem outra educação. Já tenho um filho com 63 anos, são muitos anos a cuidar de gaiatagem. Conto-lhes muitas histórias, o que eu passei e vivi, e é isso”, sorri enquanto olha para os netos Zé, Ana Rita, Íris, Filomena, Francisco, alguns dos muitos netos que chegam e fazem uma roda à volta da Vó Bea. Riem-se quando lhes dizemos que somos jornalistas e que queremos ouvir as histórias da Avó Bea. “Ela só ralha connosco, só briga connosco”, diz um dos mais novos ao que Maria Feliciana responde zangada: “Eh! Brigo para que fiquem educados, vão brincar deixem a vó falar”.

Rossio dos pobres Neste acampamento, com as ratazanas, as cobras e as baratas, a Avó Bea vive já há 30 anos. Quando cá chegou só havia quatro barracas. Depois foi chegando gente até que a câmara teve de expulsar os que já estavam ali sem ligações familiares. No acampamento hoje vivem 27 casais e respetivos filhos.

Prometeram-lhes em 2001 que era um acampamento temporário. A avó Bea teve direito a casa mas cedeu-a ao filho mais velho e ficou a tomar conta do acampamento. Algumas das mulheres juntam-se também à plateia que escuta Maria Feliciana. Uma das filhas mais velhas, que já é bisavó comenta connosco: “A vida é difícil. Sem trabalho como é que se vive? Temos de sair, vai tudo para onde dão o que fazer”. A Vó Bea completa: “Sem trabalhar não dá para dar comidinha aos gaiatos. É a apanha da azeitoninha, dos tomates, é o que houver”. “Vão para Espanha trabalhar, para as vindimas, batatas, é o sustento da agricultura”. Um dos filhos de Bea também responde: “Falam do rendimento mínimo mas como é que os ciganos viviam antes do Guterres ter trazido isso? Não há rendimentos mínimos assim há tantos anos caramba”. No acampamento há quem tenha direito ao Rendimento Social de Inserção, mas segundo explica Carlos Alberto, de 62 anos, filho da matriarca “isso não alimenta a gente. Antigamente davam apoio até de comer, agora nada. Em Elvas fazem isso, a câmara ajuda as pessoas. Aqui temos de ir para fora senão há fome”.

Para uma das autoras do Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas, a ideia de que todos os ciganos portugueses vivem à custa do Estado é “limitada e falsa”. Manuela Mendes considera que o preconceito português para com este grupo é centenário, “esta diferença cultural e étnica, até de parecer físico, fez com que se construísse uma imagem negativa à volta desta comunidade com um contexto histórico muito forte, acabando sempre por ser marginalizado”, explica. Em Portugal, o que está documentado indica que a comunidade cigana terá chegado a território nacional no século XVI, bem na época em que Portugal navegador invadia países para os conquistar, como fez com o Brasil.
“As medidas e políticas nunca foram muito favoráveis aos ciganos. As coisas mudaram com o 25 de Abril, com a universalidade a nível de políticas de direitos e deveres em que se incluíam obviamente todos os cidadãos, incluindo pessoas ciganas”, diz a investigadora que explica que a entrada para a União Europeia veio permitir maior abertura de políticas, por exemplo, ao nível da habitação.

A especialista explicou ao i que o primeiro estudo nacional foi encomendado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e registou durante o ano de 2014 os dados de 1.599 pessoas ciganas, em todo o país.

“Eles não se querem integrar” Na zona do Beato, um grupo de amigos discute a problemática da integração das comunidades ciganas. Luís, designer de 32 anos, cresceu em Tomar e vive agora num bairro de ciganos em Lisboa. “Os meus pais eram comerciantes ambulantes e sempre tiveram problemas com ciganos. Chegaram a apontar-lhes uma garrafa de vidro partido para terem acesso à luz do meu pai”, conta. “No meu bairro há sempre problemas, falta de civismo, tudo destruído”, continua, enquanto um amigo que viveu no Monte da Caparica vários anos intervém: “Eu tive de sair de lá, porque passados tantos anos a viver com eles percebi que nunca iam mudar. Arrancavam portas para ir pedir apoios, havia tiros e mortes e tráfico de droga”. As generalizações apesar de perigosas, são uma constante numa sociedade em que a comunicação social tem um impacto forte na criação de estereótipos. Quando perguntamos aos dois rapazes se não conheciam não-ciganos que faziam o mesmo e famílias ciganas com comportamentos diferentes disseram que sim.

Em Monforte, as várias famílias ciganas mostravam interesse em integrar-se na sociedade, frequentando cafés e restaurantes na vila. “Só não vamos ao do senhor João, que não nos quer lá”. Ao visitarmos o restaurante, onde almoçamos no dia seguinte, o senhor João explica que uma vez teve uma zaragata porque queria fechar o estabelecimento e os clientes ciganos não queriam ir embora. “Não estavam a consumir, só cá estavam eles, eu queria fechar. Eles têm de se integrar, mas não querem integrar-se nem fazem esforço para se adaptarem às normas desta sociedade”, explicou na cozinha enquanto fritava batatas e estrelava ovos.

Um bairro riscado do mapa Seguimos em direção a Elvas onde sabemos existir uma grande comunidade cigana. Em Elvas são vários os funcionários da Câmara Municipal desta etnia. Chegámos ao Bairro das Pias. Procurámos pela Maria Fernandes, uma senhora irmã de Maria Cecília, nora da Vó Bea.

Quando chegámos ao bairro vemos várias casas baixinhas geminadas em condições degredantes. O esgoto está perto das casas, não há água da rede. Vemos esponja a sair das paredes que caem aos pedaços. Em cada casa chegam a morar três e quatro famílias. “Somos os esquecidos. Os senhores não têm nada de comer? Não como há dois dias”, pergunta-nos a senhora que procurávamos, que quase já não vê. Como Maria, também quase metade da população cigana representada no Estudo Nacional Com s, 48%, admitiu ter passado fome, dos quais 18,6% disseram que foi entre uma a duas vezes por ano e 13,7% entre uma a duas vezes por mês.

Um mar de crianças segue todos os passos que damos. A senhora não se lembra de quantos anos tem. Está muito magra, agradece-nos o lanche que lhe damos. “Olha que ela está a gravar oh”, diz uma das crianças mais rebeldes. Aqui “os gaiatos” são mais reguilas, não existe uma matriarca como a avó Bea. Um dos rapazes, com os seus doze anos apalpa o rabo de um dos jornalistas. “Porque é que fizeste isso?” perguntámos. “Porque me apeteceu e a dona é gira”. A criança é repreendida por uma adulta. “Nunca vamos conseguir educar com decência os miúdos a crescerem neste ambiente. Uma pessoa ensina, eles saem da porta e já esqueceram. Mas aí os vizinhos do lado conseguiram pagar os estudos aos gaiatos. Agora são grandes um até já é advogado”, conta de mãos à cintura Maria de 43 anos.

A perigosa tendência para generalizar Quanto à dificuldade de relacionamento entre pessoas ciganas e não ciganas, Manuela Mendes explica que “há obviamente preconceitos de parte a parte, reações que surgem em estilo boomerang. É uma comunidade muito grande a viver em diferentes contextos. Se falamos de uma comunidade que vive acantonada, em zonas de ninguém, isolados de serviços, fechados em si próprios com precárias condições de vida, obviamente que estas pessoas vão ter menos oportunidades e mais dificuldades em acompanhar os filhos”, explica. “Há muitas pessoas ciganas a trabalhar em grandes superfícies e que ninguém sabe que são ciganos, porque os próprios escondem do empregador essa informação. Não são nada raras as vezes em que estes têm formação adequada ao cargo mas sempre que dizem que são ciganos são postos de lado, não sendo escolhidos”, completa. O mesmo se passa com arrendamentos, explica Sofia de 30 anos, a viver no bairro que considera “completamente marginalizado”. “Uma pessoa junta dinheirinho, quer uma casinha e eles dizem ao telefone que há vaga. Mas quando a gente chega, perguntam se somos ciganos e de repente a casa já está alugada. Estão presos às coisas más que se dizem de nós, por uns pagamos todos. A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito”, diz enquanto pega no filho mais novo pela mão.

Loures, onde estão os ciganos? O percurso pelas comunidades ciganas só termina em Loures. Como não conseguimos dados sobre criminalidade, porque as autoridades não distinguem crimes por etnias, dirigimo-nos à PSPlocal. Um agente pede-nos que tenhamos cuidado ao visitar o bairro cigano. “É um assunto sensível, mas não andem lá com máquinas e telemóveis”. Sendo que se desconhecia o que havia de encontrar, tomámos alguns cuidados com o material. Ao chegar ao bairro social onde apenas vivem ciganos, já fora da cidade de Loures, damos de caras com um prédio sujo. Por fora, as escadas e a entrada do prédio estão maltratados. Mais tarde, apercebemo-nos que, ao contrário do que vimos dentro das casas de Monforte e Elvas, aqui as casas têm mobília, várias divisões, luz e água e não vivem cerca de dez pessoas concentradas em apenas um apartamento. Na parte de trás do prédio, uma senhora estende a roupa que vende na feira: “A máquina avariou tenho de lavar tudo à mão”, explica à vizinha.

“Que pena terem vindo a esta hora, está tudo a trabalhar”, diz-nos João, natural de Avis. Aos 54 anos, com a barriga empinada para fora das calças, é um vendedor de automóveis, orgulha-se de ter os filhos bem orientados e mostra-nos a casa limpa e arrumada enquanto nos convida para entrar e nos pergunta se bebemos alguma coisa. “Então vieram em reportagem, não costuma vir cá gente. Agora vai haver uma novela sobre ciganos na TVI, pode ser que haja menos racismo”. O filho, Joaquim, tem uma filha de quatro anos, está a ensiná-la a andar de bicicleta sem rodinhas. “Aqui o pessoal trabalha todo, a Science 4 You está cheia de ciganos a trabalhar lá na fábrica, não se entende como é que aquele André Ventura consegue ser assim limitado. Vê-se mesmo que nunca veio saber como é que a gente vive”, diz enquanto faz zapping na grande televisão.

Para Manuela Mendes, André Ventura teve uma participação “lamentável cujo discurso não é legítimo nem confirmado pelos dados disponíveis pelo Estado português, é apenas um discurso populista”. A professora universitária considera que o preconceito só se combate com a interacção, com a partilha de experiências e espaços. Só assim podem ser vencidos os estigmas. “Temos de saber o que queremos dizer quando falamos em integração”, explica a investigadora que acrescenta que se a sociedade portuguesa quer que os ciganos se adaptem, também ela tem de se adaptar e não responder à sua presença de forma negativa. “Não é possível combater a discriminação apenas com base em políticas. Podem ajudar a melhorar a situação das pessoas discriminadas. Mas se as pessoas não se conhecerem, nem conviverem, sem contacto e partilha de experiências será muito difícil combater o racismo, estereótipos e discriminação. É muito importante que existam espaços de intercâmbio de conhecimentos, diálogo para que as pessoas conheçam o outro e as barreiras sejam derrubadas”.

Quanto à probabilidade de Portugal acabar com o racismo, Manuela costuma perguntar aos seus alunos:“Quantos amigos ciganos tens com quem vás beber um café?”.



27.4.16

O que é que as RLIS fazem pelas pessoas? “Se for preciso vão a casa ver se têm comida”

Andreia Sanches, in Público on-line

Trabalhavam com crianças em risco, mas decidiram alargar o campo de acção. Esta é a história de como uma associação tomou conta da acção social de dois concelhos pertinho da fronteira com Espanha.

Passamos pelo edifício do Centro de Bem Estar e Social de Arronches — creche, lar de idosos, centro de dia... Não é aqui. Depois, paramos à porta do edifício onde funciona a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens e o Gabinete de Inserção Profissional. Não é aqui. Dizem-nos que poucos metros mais à frente encontraremos um outro edifício onde funciona a Segurança Social e depois outro que parece uma escola mas não é uma escola. Já foi uma cantina, depois passou a ser a sede da Confraria Gastronómica do Norte Alentejano e agora a confraria cedeu as instalações à RLIS. É a RLIS, exactamente, o que procuramos.

Arronches é uma vila onde os serviços e instituições sociais estão visivelmente presentes — são, aliás, dos principais empregadores do concelho. Há respostas para idosos, um lar que recebe crianças de todo o país, a santa casa da misericórdia... e há, agora, também a RLIS — sigla para Rede Local de Intervenção Social.

A ideia do anterior Governo era transferir algumas competências da Segurança Social para instituições particulares de solidariedade social (IPSS) — mais concretamente as competências relacionadas com o atendimento e acompanhamento social das famílias mais vulneráveis. No Verão de 2015 foi aberta numa linha de 50 milhões de euros no âmbito do novo ciclo de fundos comunitários Portugal 2020 para quem assumisse funções por até três anos.

“Os serviços distritais da Segurança Social lançaram o desafio a algumas entidades para pensarem se tinham condições para abraçar este tipo de projecto”, começa por contar Maria João Valentim, a presidente da Associação Casa Juvenil Nossa Senhora da Assunção, uma IPSS que gere o lar de infância e juventude de Arronches, denominado “PraCachopos”, o tal que recebe meninos de todo o país, retirados às famílias por se considerar que estavam em risco junto delas.

O lar “estava a correr bem — foi o primeiro especializado em crianças e jovens com problemas de saúde mental”, conta com orgulho. “Vêm pessoas de todo o país visitá-lo”, explica. Mas porque não pensar em novos desafios? “Somos pessoas abertas.” Candidataram-se, pois, a constituir uma RLIS — as regras pré-definidas pelo Governo diziam que quem tomasse conta de Arronches ficava também com Monforte. E assim foi.

Apresentaram a candidatura ao Programa Operacional Inclusão Social e Emprego a 23 de Julho do ano passado. “E a candidatura foi aprovada em Outubro”, diz Maria João. “Como bons alunos que somos, em Novembro começámos a contratar pessoas.”
Carro à porta, a qualquer hora

Contrataram uma psicóloga, uma técnica de reabilitação e inserção social e uma técnica de investigação social aplicada — a lei estabelece que a formação dos técnicos tenha de ser na área social mas não especifica mais do que isso — para actuarem nos dois concelhos. “São três novos postos de trabalho o que pode parecer pouco, mas para aqui é importante”, diz Maria João Valentim. O que é o mesmo que dizer que acha que a RLIS é útil em várias frentes.

“A RLIS veio substituir todo o serviço de acção social que dantes era feito pelas técnicas da Segurança Social [de Portalegre] que vinham cá apenas uma vez por semana”, sublinha, por seu lado, João Crespo que é, simultaneamente, vice-presidente da câmara municipal e da Associação Casa Juvenil.

“Para a ir a casa de uma família, numa situação mais complicada, as funcionárias da Segurança Social têm que requisitar um carro, esperar, etc. Nós temos o carro aqui à porta e, simplesmente, vamos”, acrescenta uma das colaboradoras da RLIS.

“O que esta equipa faz é um trabalho personalizado, de proximidade. Se for preciso, às oito da noite, as técnicas vão a casa das pessoas a ver se têm comida no frigorífico”, prossegue Maria João Valentim. E se não têm, “a RLIS articula com a Cáritas”, por exemplo, para arranjar uma solução, rapidamente.

E depois sim, vê-se com a família o que pode ser feito de mais estrutural, completa Glória Lopes, outra das técnicas da RLIS — que sublinhará várias vezes que a RLIS é muito mais do que ajudar a encontrar um apoio pontual. “Trabalhamos para a autonomia.”

Mais exemplos do que fazem? Se um idoso precisa de um lar, avaliam, vão ver que condições tem em casa, prepararam-lhe o processo, assinalam a eventual urgência, devidamente fundamentada, remetem-no a quem de direito.

“As pessoas que são vítimas de todos os tipos de exclusão precisam de ser acompanhadas de forma muito próxima. É muito mais difícil ir a Portalegre, àquele edifício enorme onde estão os serviços da Segurança Social, onde não sabem com quem vão falar”, diz Maria João.
“Um bocadinho autodidactas”

Da sede de distrito, Portalegre, a Arronches são quase 30 quilómetros de uma paisagem verde-primavera com muitas vacas a pastar.

O concelho tem pouco mais de 300km quadrados, 3000 habitantes, 60% dos quais pensionistas, segundo dados da Pordata. Há 387 idosos por cada 100 jovens — o que é um indicador de envelhecimento elevado, até para os padrões do Alto Alentejo. Há mais famílias com Rendimento Social de Inserção (RSI) do que a média. E uma população pouco escolarizada (a que não tem qualquer escolaridade representa 22,7% do total, ainda segunda a Pordata, duas vezes mais do que no resto do país).

Como todas as outras, a equipa da RLIS de Arronches fez uma formação fornecida pela Segurança Social (por exemplo, “técnicas de atendimento social” e “formação elearning” sobre como aceder à plataforma informática da Segurança Social para obter informações sobre os processos das famílias com que lidam, explica Patrícia Pinto, a coordenadora da RLIS).

Depois, foi preciso “preparar formulários” e manuais, “mapear os serviços que existiam” na zona, “articular” com as várias entidades, das câmaras às escolas, para que estas passassem a encaminhar para a RLIS os casos que caberiam à RLIS. “Fomos um bocadinho autodidactas”, dizem as técnicas com orgulho. Trabalhar na RLIS, acrescentam, não é ter um emprego das nove às cinco.

A 27 de Janeiro apresentaram-se à população. Em Fevereiro, começaram a atender. “Às segundas, terças e sextas estamos em Monforte, às quartas e quintas em Arronches”, em ambos os locais, em instalações cedidas. “O horário do atendimento é das 9h30 às 15h30, sem interrupção para almoço. Das 15h30 às 18h00 fazemos as visitas domiciliárias, por exemplo”, conta Patrícia Pinto. À noite uma fica com a tarefa de levar o telemóvel da RLIS e de atender se ele tocar, “pode ser urgente”.

Comprometeram-se com 50 atendimentos/mês, incluindo telefónicos — o financiamento das RLIS é feito, entre outros, em função dos atendimentos.
Sobreposição de tarefas?

Ali mesmo ao lado da antiga sede da confraria há um Serviço Local de Segurança Social, onde trabalham duas funcionárias da Segurança Social. Mas, garante João Crespo, não há nenhuma sobreposição de funções. “No Serviço Local de Segurança Social fazem o atendimento administrativo, mais burocrático, recebem pagamentos, formulários, etc. É um serviço público que se presta à população e que se deve manter.” A RLIS trabalha com acção social.

Mais estranho parece ser que tendo a RLIS como público alvo as vítimas de exclusão, não possa, contudo, acompanhar quem recebe RSI — uma prestação social destinada, precisamente, a casos mais agudos de pobreza. E porquê? “No distrito de Portalegre há já protocolos da Segurança Social com outra associação para esta acompanhar as famílias RSI”, diz Maria João Valentim. “É a associação Coração Delta [do Grupo Nabeiro], que tem esse protocolo com a Segurança Social e há vários anos que estão no terreno e fazem o acompanhamento das famílias que recebem o RSI em Arronches e Monforte, uns dias cá, outros lá.”

A pergunta que fazemos, de novo, é: mas não é uma duplicação de tarefas, não podia ser só uma equipa a fazer tudo? Quem sabe no futuro se “evolui para outra forma”, responde Maria João.
Almofada a esvaziar

Actualmente, a RLIS de Arronches/Monforte acompanha, de forma continuada, 20 famílias, muitas das quais pessoas desempregadas “que apresentam comprovada carência económica e todo um conjunto de problemas que advêm dessa situação, ao nível de alimentação, de medicação, de formação profissional”, explica Glória Lopes. Trabalham-se ainda “áreas como as competência parentais, ou a gestão eficaz dos orçamentos familiares”.

Para fazer tudo isto, a associação precisa de gastar entre 4500 euros e 5000 euros por mês, sobretudo em salários das técnicas. Era suposto que os fundos do Portugal 2020 pagassem tudo. “Mas a associação está a pagar salários desde Outubro. Comprámos equipamento informático, telemóveis, uma viatura, que custou 15 mil euros e que era mesmo necessária porque precisamos de nos deslocar até Monforte e fazer os atendimentos domiciliários”, diz Maria João. “Mas até agora ainda não houve qualquer apoio do Estado para cobrir despesas. Tem sido tudo por conta da associação.”

A candidatura que fizeram e que foi aprovada garante-lhe para três anos 186 mil euros. Maria João já teve a promessa de que uma parte da verba chegará em breve. E é isso que espera: “A associação tinha alguma almofada financeira, mas a almofada vai-se esvaziando.”

Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Segurança Social confirmou ao PÚBLICO que Arronches, tal como outras 41 RLIS, deverão receber em Maio “o financiamento correspondente ao primeiro adiantamento”. O Governo diz que os atrasos se devem ao sistema informático: “As razões que explicam os atrasos de pagamento que se verificam em alguns dos projectos aprovados radicam genericamente na incapacidade de o sistema de informação que suporta a medida realizar todas as tarefas que precedem à funcionalidade que determina o pagamento.”

12.9.14

Portalegre:”no distrito ninguém passa fome” – diretor Segurança Social

Susana Mourato, in Rádio Portalegre

O diretor distrital da Segurança Social João Carlos Laranjo, garantiu que “no distrito de Portalegre ninguém passa fome”.

João Carlos Laranjo falava aos jornalistas esta quarta-feira à tarde, a propósito da renovação de protocolos das cantinas sociais com 61 instituições do distrito de Portalegre.

O responsável revelou ainda atualmente as cantinas sociais das instituições estão a servir diariamente uma média de 2.280 refeições por dia, que se traduz num investimento por parte da Segurança Social de 525 mil euros.

Os Protocolos celebrados esta quarta feira no Centro Distrital da Segurança Social de Portalegre, estão integrados no Programa de Emergência Alimentar, no âmbito do qual o Governo pretende implementar uma Rede Solidária de Cantinas Sociais, para atenuar as situações de fome que existem no país.

Portalegre é o terceiro distrito do país com maior número destes equipamentos, antecedido de Santarém (115) e Lisboa (111), segundo o Instituto de Segurança Social.

31.10.13

A pobreza perdeu a vergonha

por Rosário Silva, in RR

Caritas quer combater desanimo e devolver esperança às famílias

“Se houver uma crise politica não há recuperação económica que lhe valha” alerta presidente da Cáritas de Portalegre-Castelo Branco. Instituição que perspectiva um 2014 duro para os portugueses, muitos dos quais já perderam a vergonha, “dão a cara” e pedem ajuda.

O presidente da Cáritas de Portalegre-Castelo Branco diz que “as medidas que estão a ser adoptadas em Portugal e o Orçamento para o próximo ano, perspectivam um agravamento da situação das famílias.”

Em declarações à Renascença, Elicídio Bilé sustenta que em 2014 “vai crescer o desemprego, vão diminuir os salários e as pensões e o poder de compra das famílias vai ser menor”.

Este responsável, a título de exemplo, sublinha que “só pelo simples anúncio de um Orçamento de maior austeridade “ é ainda mais notória “a sensação de desânimo, de desilusão e de falta de esperança que se vive no país”.

Mas há outra questão que preocupa o dirigente e para a qual é necessário alertar os portugueses menos esclarecidos.

“O problema é se também no campo politico nós temos uma crise e, se houver essa crise, não há recuperação económica que lhe valha. É isto que nós tememos”, invoca, para logo a seguir lembrar que a instituição tem um papel fundamental que é, precisamente, o de “devolver a esperança às pessoas através de uma intervenção e de um trabalho de proximidade para que estas não fiquem esmagadas pelo peso do sofrimento e que se abram novas perspectivas que têm de ser reais”.

O aumento da pobreza varre o país de Norte a Sul, sendo que na área da diocese de Portalegre-Castelo Branco, a instituição já apoia cerca de 4.500 famílias. Elicídio Bilé admite que há mais casos, dado que existem também outras instituições a prestar apoio a famílias carenciadas. Surpreendente, pelo lado negativo, é que a situação tornou-se de tal forma grave que “neste momento as pessoas que se tem dirigido a nós, e praticamente todos nos batem à porta, são também aquelas situações de pobreza envergonhada. Essas pessoas, essas famílias já estão a dar a cara porque a necessidade é crescente” lamenta o presidente da Cáritas diocesana.

Apesar de tudo, a mensagem tem de ser de esperança e, sobretudo, com a convicção de que esta “seja uma situação transitória, embora o próximo ano seja duro, mas que se consiga começar a vislumbrar alguma luz ao fundo do túnel. É preciso estarmos atentos”, refere, ao mesmo tempo que apela a “uma grande dedicação e ao dar as mãos para trabalharmos em conjunto pois só nesta medida é que podemos ajudar as pessoas a superar esta situação que é muito dura e muito difícil”.

Cáritas da Raia “trocam” conhecimentos e experiencias
É no âmbito de todas estas preocupações e com o desejo de concertar esforços para maior eficácia nas respostas sociais que há dois anos começou a ser preparado o projecto transfronteiriço “Rede de Apoio Mutuo de Cáritas Diocesanas da Raia”, que agora está em condições de avançar no terreno. Conta com o apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional e foi criado por três Cáritas portuguesas e quatro espanholas: Évora, Beja e Portalegre-Castelo-Branco e, do lado espanhol, de Ciudad Rodrigo, Coria-Cáceres, Mérida-Badajoz e Salamanca.

A vontade expressa passa pelo combate à pobreza e à exclusão social, com a ajuda desta plataforma informática que disponibiliza o maior número de recursos, nomeadamente ofertas de emprego e apoios complementares para quem mais precise. Várias instituições, como autarquias, forças de segurança, sindicatos, entre outras, já manifestaram desejo de se associar ao projecto que, diz Elicídio Bilé, “não vai gerar emprego, mas contribuir para dar a conhecer disponibilidades e ofertas de emprego, bem como acções de formação e de inserção”.

Se é relevante a vocação assistencialista da instituição, o que não está em causa, no momento actual torna-se também indispensável abrir novos horizontes e desenvolver acções direccionadas para a promoção e o desenvolvimento pessoal.

17.12.12

Desemprego e fome levam alentejanos às lojas sociais de Portalegre

in Jornal de Notícias

O desemprego e a fome são os dois principais fatores que têm contribuído para o aumento do número de pedidos de ajuda nas lojas sociais de Portalegre, no Alto Alentejo, segundo os responsáveis das instituições.

A presidente do município de Portalegre, Adelaide Teixeira, alerta que existem pessoas a "passar mal", sustentando que "90 por cento" dos casos que recebe no seu gabinete são relacionados com pedidos de ajuda.

Para fazer face aos problemas socioeconómicos, em tempos de crise, a autarquia desenvolve, desde 2009, o projeto de uma Loja Social do Município de Portalegre, tendo tido como beneficiários, numa primeira fase, cerca de 40 famílias, mas, ao longo dos tempos, o número tem vindo a aumentar.

A Loja Social apoia, atualmente, 106 famílias, num total de 306 beneficiários, tendo-se registado no último trimestre um "aumento de 20 famílias", indica Adelaide Teixeira, em declarações à agência Lusa.

O projeto do município tem "conseguido dar resposta aos pedidos de ajuda que surgem diariamente", graças também ao apoio de voluntários, o mesmo acontecendo no quotidiano da Loja Solidária da Caritas Diocesana de Portalegre e Castelo Branco.

Neste espaço, o presidente da Caritas Diocesana de Portalegre e Castelo Branco, Elícidio Bilé, quando questionado pela Lusa se existe ou não fome em Portalegre, não hesita em responder e assegura que esse "flagelo é uma realidade" na região.

"Quando falamos de fome, falamos de fome real, pessoas que durante a semana não têm uma refeição quente, têm alguns produtos que são distribuídos. As refeições quentes que vão recebendo é através do plano criado pelo Governo das cantinas sociais", explica.

Segundo a assistente social da Caritas Diocesana de Portalegre e Castelo Branco, Anabela Afonso, a loja solidária da instituição presta apoio regular a "92 famílias", num total de "286 pessoas", incluindo crianças.

"Os pedidos de apoio este ano têm aumentado substancialmente e nos últimos meses temos tido mais pedidos", sublinha.

A pobreza envergonhada é também uma realidade, e, segundo Anabela Afonso, têm surgido nos últimos tempos casos de país que aparecem na instituição a pedir ajuda por ter os filhos desempregados e a seu cargo.

As lojas sociais de Portalegre têm para disponibilizar aos mais carenciados alimentos, vestuário, brinquedos, eletrodomésticos, livros e mobílias, entre outros produtos.

Durante a época do Natal, os pedidos de ajuda aumentam, mas as instituições, com o apoio dos voluntários e das superfícies comerciais que fornecem produtos, garantem que conseguem dar resposta às pessoas mais carenciadas.