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26.4.23

Roupa que fala, roupa de combate

Sara Dias Oliveira, in Notícias Magazine



O vestuário não é um simples adereço que tapa a pele. Nunca foi, nunca será. Os corpos são transmissores de mensagens, formas de expressão - diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és. Ontem, como hoje, como amanhã. Peças símbolos de resistência, modos de ser, maneiras de estar. A moda que não sai de moda.


Deem-me tempo e eu dou-vos uma revolução”, dizia Alexander McQueen, estilista britânico que revirava a moda do avesso, mostrando suas tripas e entranhas, numa exibição tantas vezes teatral, o feio que podia ser belo, o belo que podia ser grotesco. McQueen abriu caminhos e deixou lastro. Jean Paul Gaultier, estilista francês, l’enfant terrible, disse para quem o quisesse ouvir: “O meu design não é sobre a minha própria fantasia, é mais sobre aquilo que eu sinto que as pessoas querem e sentem”. Desafiou o sistema, desmontou-o, provocou-o, e questionou, tantas e tantas vezes, de tantas e variadas maneiras, estereótipos, clichés, códigos, tradições. Saias para homens e aquele corpete de cones pontiagudos que Madonna exibiu ao Mundo, em palco, todo o poder e toda a força da mulher condensados numa peça de roupa que não era apenas uma peça de roupa. É moda, é intervenção. É moda de intervenção.


A roupa de Vivienne Westwood, famosa estilista britânica, que morreu no fim do ano passado, era também ativismo. T-shirts de resistência contra a propaganda instalada, em defesa do feminismo, da proteção do Planeta, a essência do punk, o ser quem se é, não importa o que quer que seja. Ela marcou um tempo na indústria, na moda, na forma de vestir, na maneira de pensar.


Nos Estados Unidos da América, os gorros cor-de-rosa tornaram-se um símbolo do ativismo feminista, coloriram cidades norte-americanas em diversas marchas, do movimento #MeToo, contra a misoginia de Trump, quando era presidente, de defesa pelos direitos das mulheres, pelos direitos LGBT, em respeito pelos direitos humanos. Uma peça que não é um mero acessório.
Dino d’Santiago escreve frases nas suas t-shirts. A roupa como lugar de fala. “Não é sonho nenhum.” “Nossos corpos também são pátria.” “Preto estás na tua terra.” São frases, são orações. São mensagens. Vestiu a t-shirt “Preto estás na tua terra” nas celebrações do 25 de Abril do ano passado, quando cantou no jardim da residência oficial do primeiro-ministro. “É uma oração para mim: lembra-te, tu estás na tua terra, não tens de reclamar este chão que este chão também é teu. Não quero que o meu filho cresça com ‘preto vai para a tua terra”, disse o cantor na entrevista que deu à NM. Roupa com carga semântica, com carga simbólica. Para si e para os outros.


Miguel Januário, artista visual, designer gráfico, autor do projeto de intervenção artística MaisMenos, juntou vários ingredientes na conceção da campanha “O discurso de ódio não é argumento”, da Rede Europeia Anti-Pobreza. Chavões, preconceitos, discriminações, ofensas. O país estava confinado, o populismo não dava tréguas, decidiu criar um objeto vestível que diversas figuras públicas, e não só, partilhassem no mesmo dia à mesma hora nas redes sociais – cartazes nas ruas com toda a gente em casa não funcionariam, pelo menos numa primeira fase. O artista tinha uma ideia clara na sua cabeça. “É preciso dar a volta ao texto”, diz. Dar a volta ao texto tornou-se a hashtag mais usada para difundir as frases que deram corpo à campanha.

“Se tem algum jeito, uma pessoa ser aquilo que é.” “Toda a gente sabe que o lugar da mulher é onde ela quiser.” “Se vêm para cá têm é que respeitar e ser respeitados.” “Vai mas é para a tua terra, aqui não há lugar para o racismo.” “Faziam bem era se fossem trabalhar com ordenados dignos.” Frases escritas a duas cores para marcar a transição entre chavões e reflexões. Entre o ataque na primeira parte e o respeito na segunda. Miguel Januário sabia o que queria. “Joguei com vários elementos, peguei em vários temas, naqueles chavões, para tentar tirar o tapete debaixo dos pés com uma certa ironia”, revela. Preconceitos que batem de frente com a realidade. O ódio a tropeçar em si mesmo. A futilidade a cair por terra.

A campanha tornou-se viral, artistas com as mensagens ao peito e no peito – Capicua, Carlão, Surma, Salvador Sobral, Gisela João, Sara Barros Leitão, Marco Paulo, Selma Uamusse, Valter Hugo Mãe, Ágata, Pedro Laginha, o estilista Miguel Vieira, o chef Rui Paula, o médico Gustavo Carona, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, e muitos outros associaram-se à causa. Muitos pedidos de t-shirts e as frases depressa voaram para outros objetos: pacotes de açúcar, sacos de pano, cartazes, múpis.

“Com humor e inteligência, e alguma acidez, tentar destruir preconceitos, conseguir dar a volta ao texto”, reforça Miguel Januário. Não num desfile, não numa montra de uma loja, não debaixo de holofotes, não em corpos de modelos esguios. Na vida real. A roupa como objeto de alerta social. De intervenção. De resistência.
A linguagem, a expressividade, a mensagem

Na sua última coleção, Miguel Vieira inspirou-se na história de amor de Jacques Brel, na sua música-poema “Ne me quitte pas”, não me deixes, o tema da coleção do próximo outono-inverno. As suas peças desfilaram no Portugal Fashion, numa antiga garagem de automóveis na Rua de Latino Coelho, no Porto, no mês passado, ao som dessa canção. Fatos, vestidos, camisas, calças, cetim, seda, algodão reciclado, pura lã virgem, formas ora mais estruturas, ora mais fluidas, preto caviar, branco-neve, cinzento glaciar, amarelo vibrante. Em todas as peças, um detalhe que não se vê do lado de fora, que está no interior dos fatos, das camisas, dos casacos, dos vestidos, nos bolsos das calças, o tema escrito: “Ne me quitte pas”. Do lado de dentro.

“Todos nós, desde miúdos, passámos, pelo menos uma vez na vida, por isso, alguém nos deixou, alguém nos abandonou, um namorado, uma namorada, um homem, uma mulher.” O designer de moda amplia o título da música que colou à sua roupa como uma mensagem que ganha vida em diversos contextos. “Não me deixes, não me abandones, não esqueças a minha coleção, não esqueças de comprar o que é português, não deixes de beijar e de abraçar. Tento sempre passar a mensagem com pequenos detalhes”, afirma.

Paula Guerra, socióloga, professora e investigadora na Faculdade de Letras e Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, acompanha a evolução da moda, suas camadas e cambiantes, transformações, modos de estar, modos de ser. “A roupa sempre falou.” Não é de hoje, não é de agora, não é lá fora, também é cá dentro, basta recordar os movimentos hippies, os punks, os teddy boys, os rockabillies, até às recentes manifestações pelo bem-estar do Planeta, dos alertas dos perigos das alterações climáticas e a defesa da sustentabilidade, às greves dos professores, às t-shirts que mandam recados, que transmitem opiniões, que vincam posições. “Os corpos não são meros repositórios de roupa”, sublinha Paula Guerra. “A roupa, os acessórios ou o calçado têm uma expressividade social imensa, tiveram sempre.” De pertença social, de origem cultural, de status económico, de filiação musical. De outras e tantas formas de estar e de sentir.

Uma cor não é apenas uma cor. Uma cor é muito mais do que uma simples cor. É código, é mensagem, é história, é narrativa. A mais recente coleção de Katty Xiomara é vermelha, totalmente vermelha, apresentada no Grande Hotel do Porto, no mês passado, no âmbito do Portugal Fashion. O vermelho não será por acaso. Não é, claro. A designer de moda explicou o conceito. A escolha da cor “representa o Deus da Guerra, oferece coragem aos guerreiros e celebra a vitória”. Peças graciosas, femininas, materiais diversos, vermelhos ou pintados de vermelho. O vermelho de duas faces. O vermelho e sua dualidade. “Exprime vida, mas também morte, transmite alegria, mas também violência, revela ódio, mas também amor”, frisou. “O vermelho arde e queima, mas também estimula e vibra. É uma cor sem meias-medidas, faz-nos sentir bem ou mal de forma profunda”, acrescentava, na altura, a designer de moda com ateliê no Porto. A sua roupa é um mergulho nesses sentimentos, fortes e intensos, nesses contrastes.

A moda é uma linguagem. Cristina L. Duarte, socióloga, investigadora, interessada nas formas de cultura urbana, pela moda em particular, autora de vários livros na área, professora auxiliar convidada da Universidade da Beira Interior, lembra que a semióloga Patrizia Calefato vê na moda uma linguagem. “A sua pesquisa coloca-a na interseção dos estudos de moda, dos estudos feministas e da sociologia.” O corpo vestido, na aceção da Calefato, “é um sujeito ‘em processo’, que se constrói através do aspeto visível, do ser/aparecer no mundo com todas as suas subjetividades”. O corpo compreendido como performance. “Isto é, como uma construção aberta da identidade material, mas também como dimensão mundana da subjetividade.” Cristina L. Duarte diz mais: “Corpo da afirmação política”. “A frase das feministas ‘o pessoal é político’ cai aqui mesmo bem”, sustenta.

Para Miguel Januário, a roupa é mais do que um adereço, tem sumo, tem semântica. “O corpo é um dos principais elementos de intervenção e de passar mensagens. Os nossos corpos são, muitas vezes, a primeira forma de expressão. O que vestimos transmite muito de nós. O corpo é uma tela e a roupa também é uma forma de dizermos o que vai cá dentro”, refere.
Pensar, vestir, agir

“Somos, muitas vezes, outdoors ambulantes das marcas que conseguem criar um estatuto de graça”, observa Miguel Januário. O seu projeto MaisMenos surgiu para questionar essa força das marcas que colam os seus nomes e logos no vestuário que criam, não só nas etiquetas do lado de dentro, também de fora e de modo bem visível.

“As marcas criam um estatuto social que nos define, que nos inclui ou que nos exclui”, repara. O designer esmiúça essas questões, tenta secar um pouco essa publicidade que invade o que se veste e procura outras formas de dizer. “Criar mensagens políticas, muito mais honestas, muito mais fortes”, vinca. De várias formas, entre elas, com mensagens junto ao peito que mostram o que afeta ou preocupa uma sociedade, um país, o Mundo.

No ano passado, Katty Xiomara espremeu a definição habitualmente atribuída à palavra propaganda, palavra que escolheu para batizar a sua coleção primavera-verão deste ano. Não propaganda como uniformização social, mas propaganda como forma de propagar a liberdade de pensamento, o desejo de pensar. A designer de moda pegou num conceito e esvaziou-o de uma carga pré-concebida. Na altura, explicou o processo e a sua vontade: antagonizar a ideia de propaganda “associada à adulação dum indivíduo, neutralizando todos os outros através da uniformização social, que anula e penaliza o pensamento individual.” Com a sua roupa, deu a volta à palavra.

“Propaganda”, apresentada no exterior do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, em outubro do ano passado, é uma coleção feminina, colorida, com folhos, franzidos, rendas e laços, tecidos translúcidos, com o tule em destaque.

Para Paula Guerra, colocar a roupa num patamar de futilidade não faz sentido. “No fim da Segunda Guerra Mundial, a roupa e a moda tornaram-se mercados incontornáveis de consumo”, recorda. A roupa diz muito mais do que possa parecer à primeira vista. “Há um lastro cultural associado à roupa. Umas meras calças de ganga não são umas meras calças de ganga”, acrescenta.

“Cada vez mais, a roupa é transmissora de mensagens.” A arte e o ativismo de mãos dadas, as mensagens em desfiles que marcam momentos, a roupa como comunicação, como política. “A moda como opinião, de intervenção e transformação societal, a roupa como combate”, descreve Paula Guerra. Nunca como um mero adereço sem a mínima importância, sempre como transmissora de mensagens, mesmo sem palavras, mesmo sem desenhos.

A roupa tem poder, a moda reflete os tempos que vivemos. Não poderia ser de outra forma. Miguel Vieira reconhece essa força. O poder que tem nas mãos de criar, de transmitir alguma coisa, de mostrar ao Mundo o que pensa sobre o que quiser. “Tenho esse ‘poder’ na mão, de conseguir passar a mensagem que pretendo através da roupa.” Um trabalho, uma missão.

Cristina L. Duarte tem uma t-shirt que diz “Everybody should be feminist” (toda a gente deve ser feminista), de uma cadeia de pronto a vestir, e um colar com a palavra: feminista. “Como em tudo o que diz respeito ao consumo, usa quem pode, mas também quem é”, realça. Por várias razões, por uma questão de autenticidade. “Talvez se possa falar de um lugar de cidadania e mesmo civilizacional”, comenta a socióloga. A roupa que fala. A moda que não sai de moda.

29.7.22

Ministra da Justiça destaca “passos significativos” na consolidação da política de protecção da criança

in Expresso das Ilhas

A ministra da Justiça afirmou hoje que Cabo Verde tem dado “passos significativos” na consolidação da sua política de protecção dos direitos da criança, e exortou ao reforço das parcerias permanentes no combate aos crimes cometidos contra as mesmas.

Joana Rosa fez estas afirmações durante a cerimónia de apresentação pública dos resultados da segunda e terceira fases da parceria entre a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Unicef, realizada na Cidade da Praia, no âmbito da tramitação dos processos da jurisdição de família e menores e de crimes sexuais contra crianças.

Lembrou que a fuga à paternidade, que é um problema recorrente reconhecido pela sociedade e poder político em Cabo Verde, viola direitos fundamentais da criança consagrados no Estatuto da Criança e do Adolescente, nomeadamente o direito de conhecer os progenitores e o direito à convivência familiar.

De acordo com a governante, este fenómeno motiva anualmente centenas de processos judiciais, nomeadamente para efeitos de perfilhação, o que ao seu ver, tem contribuído no aumento das pendências processuais e para a morosidade, incomportáveis com o crescente número de processos de averiguação oficiosa de paternidade, com custos para o Estado e para o sistema judicial.

“É alarmante sabermos uma tendência para aumento de processos judiciais de averiguação oficiosa de paternidade, mas registamos, com satisfação, o impulso do Ministério Público em dar vazão a esses processos. Das estatísticas até 31 de Janeiro de 2021, haviam sido contabilizados 3.169 processos pendentes de averiguação oficiosa de paternidade”, apontou.

A ministra defendeu a necessidade de se apostar na informação jurídica, intensificação da sensibilização da população, criação de mecanismos visando reduzir as desigualdades sociais, empoderar as famílias e criação de mecanismos efectivos de responsabilização.

Salientou, por outro lado, que o projecto concebido entre a PGR e a Unicef tem um valor inqualificável porquanto, admitiu, não é concebível que num país com cerca de meio milhão de pessoas, haja um número significativo de processos de investigação de paternidade.

Por sua vez, o procurador-geral da República, José Luís Landim, enalteceu o interesse do Governo na busca conjunta de soluções para as causas de justiça, nomeadamente a questão da resolução de pendências e da morosidade processual.

“O relato sobre a frequência de crimes sexuais contra crianças impõe que medidas redobradas sejam adoptadas no sentido de proteger esses seres indefesos”, asseverou, realçando que o Ministério Público tem dado atenção especial a este fenómeno e tem sido implacável na perseguição dos crimes contra crianças.

Defendeu, neste sentido, a alocação de mais recursos, dedicação dos magistrados e oficiais de justiça, engajamento dos órgãos da polícia criminal e entre outros no cumprimento dos objectivos do referido projecto.

Por seu turno, o representante da Unicef em Cabo Verde, Steven Corsino, afirmou que Cabo Verde continua a demonstrar através das suas políticas, que a criança é prioridade absoluta no seu desenvolvimento sustentado, de não deixar nenhum para trás.

“Para a Unicef, a equidade significa que todas as crianças têm a oportunidade de desenvolver o seu potencial sem discriminação e preconceito. Temos acompanhado com muita satisfação as iniciativas levadas a cabo pelo Ministério da Justiça considerando a importância da justiça para a paz social”, declarou, garantindo a total disponibilidade da Unicef em continuar a colaborar com Cabo Verde na melhoria e qualidade de respostas aos direitos das crianças.

13.6.22

Antigos sem-abrigo usam teatro como alerta para preconceito

Maria Anabela Silva, in JN

Projeto do núcleo da Rede Europeia Anti-Pobreza luta contra a discriminaçãoDyana Kosta cresceu num orfanato na Bulgária. Aos 12 anos, começou a consumir drogas e quando atingiu a maioridade foi obrigada a sair. Conta que foi vítima de "tráfico humano" e que acabou em Leiria, a prostituir-se e a viver na rua. Também Jorge Cardinali foi sem-abrigo. Sobreviveu como arrumador de carros, agarrado ao vício da droga, o mesmo que, durante anos, amarrou Beatriz Passão. Conseguiram deixar a rua e refazer as suas vidas. Livraram-se do vício, mas não do preconceito. O "rótulo da discriminação" continuou a marcá-los. A eles e a Alice Catarino, agora reformada que foi desempregada de longa duração.

8.2.22

Na primeira pessoa: “Sim, eu já recebi RSI e nunca na vida fiz nada tão difícil, tão doloroso, tão humilhante…”

in Visão

A história de Teresa São Miguel, uma mãe com duas filhas que se viu na necessidade de recorrer ao Rendimento Social de Inserção, esse subsídio “tão malfalado, tão degradado, tão vilipendiado, que permite coisas tão simples como ir ao supermercado comprar pão e leite”

A grande memória é a de que a porta não fechava, estava estragada. Nós entrávamos, sentávamo-nos no gabinete minúsculo e, cá fora, nos bancos corridos, ficavam as outras famílias, à espera de entrarem, também elas, para o confessionário da drª Helena. Íamos virar a vida do avesso ali dentro, e a porta não fechava. Em surdina, se possível, que só por termos de entrar ali a vergonha já era muita.

Tive quase tudo o que a vida podia dar, como se costuma dizer: muito mais oportunidades do que o comum dos mortais, tirei até um curso superior e tive também aquilo que não pedi e que me levou, aos 50 anos, ao gabinete da porta que não fechava, ao confessionário da drª Helena, para fazer a primeira entrevista de candidatura ao Rendimento Social de Inserção (RSI). Chegar até ali foi fácil, um dia atrás do outro, a gerir o que ia aparecendo e desaparecendo, mas estar ali foi das coisas mais difíceis que fiz em toda a vida – e fiz algumas.

Saí do Algarve sem trabalho e duas filhas, uma delas com síndrome de Down, e voltei para a casa da minha mãe. Tinha teto, água, luz, internet não, comida na mesa. Tinha os abonos das miúdas, uma bonificação por deficiência, da Clara, e a vida ia-se fazendo. Até que deixou de haver mãe em casa, deixou de haver comida na mesa, água e luz ia havendo, internet não, mas os abonos e a bonificação davam para a comida, e nós lá íamos continuando a viver. E fomos vivendo até a Francisca ir para a universidade. Pediu bolsa e a resposta que veio foi a de que não tínhamos rendimentos suficientes; os abonos não contam, pagam comida, mas não contam, como se não fossem dinheiro a sério, e tínhamos de pedir RSI, era o mínimo. Pedimos e fomos parar ao gabinete da porta que não fechava.

“Estava presa numa armadilha”

Pedir RSI é, só por si, um estigma. O subsídio dos pobres mais pobres, o último recurso de que só precisa e a que só deverá ter direito quem esteja socialmente desinserido, é isso que aquilo quer dizer. Mas também quer dizer ajuda, também quer dizer uma tábua de salvação, um respirar de alívio. Éramos três; de RSI tivemos 300 e poucos euros por mês. Davam para respirar sem ter medo de gastar demasiado oxigénio, mas era preciso passar pelo confessionário da drª Helena e mendigar ajuda.



Contar como tínhamos chegado até ali, porque não tínhamos um ar esfarrapado e até estávamos bem vestidinhas, mas não tínhamos dinheiro para viver; como eu estava presa numa armadilha de que não conseguia sair. Tinha a Clara, tenho a Clara, estava sozinha com ela, sem opções, sem trabalho, sem hipótese de ter trabalho. A Clara tinha acabado o 12º ano, não havia mais escola para ocupar o tempo, e o tempo era ocupado em casa, onde eu tinha de estar porque ela não pode ficar sozinha por muito tempo.

Tivemos RSI um ano e, no ano seguinte, foi preciso recomeçar tudo, voltar ao confessionário da drª Helena, a família toda, para voltar a assinar o tal contrato de inserção que nunca foi connosco discutido; eram só uns papéis que nos punham na frente. Assinem. Assina, Clara, e a Clara assinava, assina, Francisca, e a Francisca assinava. E eu assinava, eu teria assinado tudo.

O problema é que era julho. A Francisca estava na universidade, a mais de 200 quilómetros, tal como se tinha comprometido no tal contrato de inserção que tinha assinado, tinha exames e as viagens eram um rombo grande no orçamento, e a Francisca no segundo ano não foi fazer prova de vida e assinar o contrato que já tinha assinado e continuava válido. Passou, por esse ano passou, a drª Helena foi boazinha e perdoou a falta.

No terceiro ano, não foi assim. A Francisca voltou a faltar, pelas mesmíssimas razões, e por mais que eu explicasse que ela estava a cumprir com tudo o que lhe tinha sido pedido, estava no terceiro ano da faculdade, tinha boas notas, estava em exames, deslocar-se era caro e nós não tínhamos dinheiro para isso, a drª Helena não perdoou. Ou ela estava ali ou não estava, o resto pouco interessava, se estava a cumprir ou não, isso pouco interessava; ela tinha era de estar ali, no gabinete da porta estragada, a prestar vassalagem. Não estando, a solução era simples: saía do agregado familiar. À nossa frente, a drª Helena pegou no telefone e ligou não sei para onde, Coimbra, disse ela, como se fosse o juízo final, e retirou-a do agregado familiar. Saiu a Francisca e saiu um terço dos nossos rendimentos, como se fosse coisa pouca.


Pedir RSI é, só por si, um estigma. O subsídio dos pobres mais pobres, o último recurso a que só deverá ter direito quem estiver socialmente desinserido. Mas também quer dizer ajuda, também quer dizer uma tábua de salvação, também quer dizer um respirar de alívio. Éramos três, tivemos 300 e poucos euros por mês, davam para respirar sem ter medo de gastar demasiado oxigénio

Recorri, fiz queixa, voltei a recorrer. Esperei todos os dias por uma resposta que devia ter vindo em três meses, e ia fazendo contas ao que tinha sido cortado e como, quando ganhasse o recurso, receberia tudo junto, um dinheirão. Passaram três meses e quatro meses e um ano e dois anos, e a resposta não vinha. E, quando veio, como se não tivesse sido essencial, já não era precisa.



Sim, eu já recebi RSI, e sim, nunca na vida fiz nada tão difícil, tão doloroso, tão humilhante. Nunca me senti tão frágil na frente de quem tinha a minha vida, e a das minhas filhas, nas mãos. O que se recebe não é uma esmola, é vida, é dinheiro que não tínhamos se não fosse isso, é o oxigénio de que se precisa, é um direito que quase temos vergonha de exercer, mas é um direito, e que continue a sê-lo, porque esse direito, tão malfalado, tão degradado, tão vilipendiado, permite coisas tão simples como ir ao supermercado comprar pão e leite, e permitiu, também, à Francisca, apesar de ter sido riscada do agregado familiar, terminar a licenciatura, mesmo que eu tenha tido de passar por gabinetes com portas estragadas e rogar por ele desvirando as tripas.

Esta é a minha história, a história de quem recebeu RSI sem Mercedes à porta, mas foi a miséria do RSI que fez a diferença e possibilitou levar a vida para a frente outra vez.

(Há quem receba, e quem passe pelos gabinetes de portas estragadas, sem se incomodar com isso e não leve a mal as drªs Helenas da vida? Talvez sim, tal como haja quem peça crédito a um banco sem dar o mínimo de garantias, mas nunca ouvi dizer, e duvido de que o oiça, que, para evitar fraudes nos créditos, o melhor é que os bancos deixem todos de emprestar dinheiro.)

7.10.21

É possível saber a percentagem de reclusos ciganos?

in SicNotícias

O Polígrafo SIC dá a resposta.

André Ventura garantiu que os ciganos enchem as prisões portuguesas sugerindo que podem representar "cerca de 15 ou 20%" do total da população prisional. Mas será que há dados confirmam esta alegação?

6.8.21

Vanessa Lopes: “Eu sou a amiga cigana”

 Miguel Feraso Cabral e Teresa Abecasis, in Público on-line

Com 25 anos, quer “quebrar as histórias repetitivas” das mulheres na comunidade cigana e acabar com os estereótipos entre os portugueses. Quarto episódio da série Nada contra, mas... Testemunhos na primeira pessoa para ver sem preconceitos e sem "mas".

Portuguesa e cigana “com muito orgulho”, Vanessa apresenta-se, aos 25 anos, como aquela que veio ao mundo para “quebrar as histórias repetitivas” das mulheres na comunidade cigana e acabar com os estereótipos entre os portugueses.

“Se fores ao dicionário ver o significado de 'cigano', é 'ladrão'”, conta Vanessa, que desde cedo aprendeu a lidar com as “perguntas estranhas” dos amigos. “Na escola, eu sempre fui reservada. Mas os meus colegas perguntavam sempre: quando é que te casas? Mais tarde, com 13, 14 anos, perguntavam-se: é suposto tu vires à escola?”

Contrariando estas ideias associadas à comunidade cigana, Vanessa prosseguiu os estudos e ainda não se casou. Ao início, foi difícil convencer os pais, mas a irmã mais nova já não precisa de implorar para poder continuar a ir à escola. As barreiras são para ser levantadas, uma a uma, primeiro em casa, depois na comunidade, mais tarde no país. Não é só o dicionário que Vanessa quer mudar.

Adaptou o seu estilo e a forma de falar para se integrar e ser aceite, mas não quer perder a sua essência. É a “amiga cigana” que quer tornar visível o lado bom da sua comunidade – aquele que não vê passar nos meios de comunicação social, mas pelo qual é julgada quando vai a uma entrevista de trabalho.

Vanessa prefere falar da música, da dança, do respeito pela família e pelos mais velhos. “Nós reunimo-nos sempre e estamos juntos, em partilha, em convívio, e eu acho que é uma coisa muito boa da comunidade cigana.”

E os sapos nas montras? Um dia, Vanessa entrou num cabeleireiro e perguntou sobre o batráquio à entrada. Tal como já suspeitava, era para afastar os ciganos. Vanessa ri-se quando recorda este episódio. Mexe no longo cabelo escuro, impecavelmente cuidado. “Os ciganos adoram tratar do cabelo. 'Querida, vais perder tanto dinheiro com o sapo aí'”.

15.6.21

Só 37% dos portugueses recusa ser governado por um regime autoritário

in SicNotícias

A percentagem tem vindo a diminuir nos últimos 20 anos.

Há cada vez mais portugueses a admitir serem governados por um líder autoritário. Só 37% dos cidadãos recusam um regime deste tipo. Um estudo realizado pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) mostra que a população cigana, os alcoólicos e os toxicodependentes são os mais rejeitados.

Se um português tiver de decidir quem não quer como vizinho, são os ciganos, os alcoólicos e os toxicodependentes quem aparece como mais indesejados. Por outro lado, os que causam menos rejeição são as pessoas de outra raça ou os trabalhadores imigrantes.

Portugal aparece em quarto lugar na lista de países que consideram que a imigração tem um impacto muito positivo no desenvolvimento do país. Quando a questão é se se deve dar preferência aos portugueses na escola para um emprego, Portugal surge em 13.º lugar.

A caminho das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, a democracia foi também uma das questões do inquérito. Só 37% dos portugueses recusa completamente ter um líder autoritário. Há mais de 20 anos, metade da população recusavam essa ideia.

Os portugueses não rejeitam tanto a ideia de ter um governo tecnocrático: só 28% rejeita a possibilidade de serem os especialistas, e não os governantes, a tomarem decisões. A grande maioria continua a recusar ter forças armadas no poder e quase 90% dos inquiridos entende que a democracia continua a ser o melhor caminho.

O estudo “Os valores dos Portugueses” foi realizado pelo ICS e apoiado pela Fundação La Caixa e a Fundação Gulbenkian. O trabalho integra-se no European Values Study, um projeto que abrange 34 países. O trabalho de campo é da GFK Metris e foi realizado entre 11 de janeiro e 31 de março, tendo por base 1.215 entrevistas. A margem de erro é de 2,8% o nível de confiança de 95%.


18.1.21

Quando a violência doméstica é agravada pelo preconceito

Ana Cristina Pereira (Texto) e Nelson Garrido (Fotos), in Público on-line

Estereótipo negativo sobre mulheres brasileiras foi usado para justificar mais controlo e violência. Primeiro, o ex-companheiro não quis que trabalhasse, depois fê-la perder emprego. Numa casa-abrigo, a técnica de enfermagem depressa encontrou lugar no mercado de trabalho. Quarto capítulo de uma série sobre inclusão laboral.

Não sai de casa sem a unidade de protecção da vítima, um pequeno aparelho que apita caso o ex-companheiro se aproxime. “Ele disse tantas vezes que me mata, que me arranca a cabeça.” Desde que ele usa pulseira electrónica, ela já não investiga perigo em cada esquina. Cruzando a porta do trabalho, sente-se segura. Na portaria têm o nome dele. Não o deixam entrar.

Os sinais estavam lá desde o princípio, ainda no Brasil. Era demasiado inexperiente para os ver. Tinha 16 anos. Num instante, ficou grávida. Ele pediu-lhe que não usasse saias curtas, nem blusas com decote. “Ele quer que eu seja aquela mãe de família, ele diz isso para me proteger”, pensou. Proibiu-a de ter amigos, só podia ter amigas. “Ele já foi casado. Isso é coisa de casado. Isso é amor”, pensou também.

Resistências a estudar e trabalhar

Já com uma criança nos braços, quis trabalhar. A avó sugeriu que estudasse enfermagem. Pagar-lhe-ia o curso técnico. “Teve ali um pouco de resistência”, recorda. “Não precisas, eu trabalho; não tem como conciliar tudo”, argumentou ele. A mãe e a avó contrapuseram: “Não, eu ajudo. Tens de ter uma profissão. Tens de trabalhar.” Muito lhes agradece esse passaporte para a libertação.

Nunca foi fácil. Acontecia ter de sair mais cedo ou chegar mais tarde para fazer algum trabalho. “Ele me insultava. Dizia que eu estava com homens.” Ligava-lhe, revistava-lhe o telemóvel, vigiava-a. As conversas com colegas e professores levaram-na a questionar aquele comportamento. E a contestá-lo. As discussões estouraram. Corria para casa da mãe ou da avó. “As coisas acalmavam. Ele ia lá.” Entretanto, já ia no segundo filho. Nem a avó, nem a mãe lhe diziam: “Separa, vem para cá, fica na minha casa, eu te ajudo.” Diziam-lhe: “É teu marido, tens tua casa, tens tuas coisas.” E ela voltava, com cada vez menos vontade.

Mantinha a cabeça baixa na sua presença. “Tinha medo de levantar a minha cabeça porque ele dizia que eu estava a olhar para algum homem. Às vezes, estávamos num restaurante e ele começava: ‘Vamos embora.’ ‘O que foi?’ ‘Não paras de olhar para aquele homem.’ ‘Que homem?’” Durante muito tempo, nem lhe permitia abrir uma conta numa rede social. Quando autorizou que aderisse ao Facebook, reservou-se ao direito de dizer que amizades podia ou não aceitar. Protegia o telemóvel dele com palavra-passe, mas o dela tinha de ficar desprotegido. “Ele chegava do trabalho e pegava no meu telemóvel e ficava olhando.”

Um dia, ela levantou a cabeça e disse que aquilo não estava certo, que ia bloquear o telemóvel. “Se tens tua privacidade, porque não posso ter a minha?” Uma explosão como nunca vira. “Teve uma agressão muito forte.” Quer a mãe dela, quer a irmã dele assistiram. “Foi quando nos separámos mesmo.” Não chegou a ser julgado. “Eu, com pena por conta dos meninos, fui lá e retirei a queixa.”

Organizou-se. A avó comprou uma pequena casa para ela e para os filhos, que já eram três. “Confesso que estava difícil conciliar. A casa era longe da família. Tive de colocar os meninos na escola pública. Os meninos odiavam. É horrível. Mal tem aulas.” O ex-companheiro resolveu tentar a sorte em Portugal e telefonava com frequência. As crianças choravam com saudades dele. Ele desafiou-a. “Vem para cá. Estou mudado. Estou mais tranquilo.”

Aquela conversa, repetida, acabou por ter efeito. “Ainda tinha algum sentimento. Meus meninos ficaram todos animados. Eu pensei: posso ir para Portugal e dar uma qualidade de vida melhor para eles.” Vendeu os móveis, arrendou a casa e ainda pediu dinheiro emprestado. Além dos passaportes, dos bilhetes, teve de comprar roupas de inverno. Não esperava que a violência escalasse, como veio a acontecer. “Lá no Brasil, quando tinha briga, eu agarrava nos meninos e ia para casa da minha família. Em Portugal, eu não tinha ninguém.”

Perseguições até perder o emprego

O preconceito que assombra as mulheres brasileiras tornou-o ainda mais obsessivo. “Aqui em Portugal, todas as brasileiras são putas”, dizia-lhe. “Os homens vão olhar para ti, vão pensar que tu és uma puta. Não fales com nenhum homem.”

Não queria que ela trabalhasse. Ela insistia. E arranjou trabalho num lar de idosos. Parecia-lhe perfeito. “Minha chefe era brasileira. Era pertinho de casa. Só tinha mulheres trabalhando.” Ele aceitou. Ao perceber que havia um fisioterapeuta a frequentar o lar duas a três vezes por semana, “enlouqueceu”.

Aproveitava o tempo livre para a vigiar. Viu-a cruzar-se com o fisioterapeuta e dizer bom dia. “Foi uma briga enorme.” As colegas viam-no horas em frente ao lar. Perguntavam-lhe: “O que é que teu marido faz ali?” Fê-la faltar várias vezes. “Ele saía na minha frente correndo e trancava a porta.” Ligava-lhe amiúde. Se não atendesse o telemóvel, por estar a dar banho a um idoso ou a fazer outra coisa qualquer, ligava para o telefone fixo. “Eram muitas chamadas. Até que conseguiu que a minha chefe chegasse para mim e dissesse: ‘Assim não dá. Vou ter de te demitir. Vai resolver a tua vida.’”

Uma vizinha, de quem se tornou amiga, incentivava-a a chamar a polícia. “Tenho muito medo”, respondia. Ainda não tinha autorização de residência. “Vão me mandar para o Brasil.” Antes de voltar, queria ganhar algum dinheiro para pagar as dívidas e recomeçar. “Fui levando isso.” Até que a vizinha chamou mesmo a polícia.

A polícia sugeriu-lhe que fosse para uma casa-abrigo para vítimas de violência doméstica. “Não vim para Portugal para isso”, reagiu. “Que vergonha!” Ia voltar para casa? Telefonou a um primo, tolhida pelo embaraço. E ele acolheu-a e à criança mais pequena. As outras tinham preferido ficar com o pai, o companheiro de jogos, pizza e pipocas. Foi buscá-las. Nova briga.

A polícia explicou-lhe que teria de iniciar um processo de regulação das responsabilidades parentais. Quando o processo deu entrada, ele descobriu que ela estava a ficar em casa do primo. “Não tive paz.” Uma agonia. “Tenho de sair daqui. Tenho de ir para um lugar que ele não saiba onde é”, disse ao primo. Uma amiga dele acolheu-a. Quando se apresentou em tribunal, não tinha emprego, nem casa. Recomendando-lhe que voltasse quando tivesse meios, a juíza retirou-lhe a criança e entregou-a ao pai. Nem consegue narrar a dor. “Sair de casa sem os meus filhos foi o maior erro da minha vida.”

Recuperou o trabalho. Arrendou um quarto. A cada visita aos filhos, uma briga. “Até que teve uma agressão enorme.” “Você sabe quantas vezes já apresentou queixa contra ele?”, perguntou-lhe o polícia.

Na esquadra, voltaram a falar-lhe na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica. Explicaram-lhe que a ajudariam a recuperar-se e a recuperar os filhos. E ela entendeu que talvez aquela fosse a sua única hipótese. Já com autorização do tribunal, foi com a polícia buscar a criança mais pequena à escola e seguiu com ela para uma estrutura de emergência, noutra cidade. Naqueles três meses, recompôs-se emocionalmente. Ainda ficou um ano e meio numa casa-abrigo, numa terceira cidade, até sair, com autonomia financeira, os filhos a cargo, alguma segurança.

Recomeçar a trabalhar

A não ser que consigam uma transferência do posto de trabalho, as vítimas entram nas casas-abrigo sem emprego ou em vias de o perder. O estatuto de vítima confere-lhes acesso preferencial aos programas de formação profissional. O Instituto de Emprego e Formação Profissional definiu interlocutores específicos.

Para lá de todo o desgaste físico, psicológico e emocional, há mulheres que chegam ali sem qualquer experiência de trabalho fora de casa. Algumas já têm mais de 45 anos. “Os reduzidos níveis de educação formal [...] constituem uma desvantagem importante”, lê-se no estudo “Processos de Inclusão de Mulheres Vítimas de Violência Doméstica”, organizado por Maria das Dores Guerreiro em 2015. “A aposta na formação pode constituir uma via de valorização”. E algumas fazem-no, mas o emprego “é a prioridade, dada a saída do relacionamento abusivo, o carácter temporário do acolhimento e a necessidade de responder aos encargos financeiros associados a uma vida autónoma, que implica em grande parte dos casos despesas com os filhos menores”.

A fuga, tantas vezes à pressa, sem nada ou com quase nada, para um sítio seguro, tende a deixar estas pessoas sem retaguarda familiar. O referido estudo aponta para os horários de trabalho “incompatíveis com os horários das crianças”. E para outros constrangimentos, como a “falta de transportes ou a distância alargada, a inexistência ou dificuldade de acesso a serviços de apoio às crianças”. E os baixos salários. E as falhas nos pagamentos.

Mas a economia vivia um bom momento. A taxa de emprego estava elevada. Como tem formação e experiência numa área vital, num instante arranjou lugar. A equipa da casa-abrigo incitava a procura online. E ela viu um anúncio. Respondeu. Compareceu na entrevista. “Eles pedem morada e eu não podia dar a morada da casa-abrigo [que tem de se manter confidencial, por uma questão de segurança]. Fiquei com vergonha, mas contei tudo. Foram bastante compreensivos.” Dão-lhe um dia extra sempre que precisa de ir ao tribunal.

Tinha a outra grande dificuldade: a da conciliação da vida laboral com a vida familiar. Enquanto esteve na casa-abrigo, a equipa deu-lhe apoio. “Quando o horário era um bocadinho depois, iam buscar meus filhos.” Quando saiu, já tinha uma amiga, a cabeleireira das crianças, disposta a fazer isso.

No pequeno apartamento, sente-se muito orgulhosa. Com a especulação que para aí vai, parecia impossível encontrar habitação a um preço que pudesse pagar. Não fosse a chefe tê-la ajudado, estaria em habitação social, como acontece a algumas vítimas com filhos.

Até há uns meses, não se sentia segura. Hesitava em cada passo. Ele aproveitava-se das crianças para obter informações. “A tua mãe está aí? O que está fazendo?” Apesar dos riscos, as crianças falavam com o pai ao telefone e iam visitá-lo. Já na pandemia, estando o concelho do pai em risco elevado, a mãe pediu ao tribunal que não fossem naquele fim-de-semana. Por telefone, a criança mais velha revelou que iam à praia. E o pai apareceu, com outros dois adultos, decidido a levar as crianças. Mais uma agressão. “Veio a polícia. Foi quando lhe puseram pulseira electrónica.”

A guarda tornou-se exclusiva da mãe. Os contactos com o pai passaram a ser intermediados pelo Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental. As crianças só vão a casa dele porque ela permite. A de sete anos fica confusa. A de nove chora quando se separa da mãe e chora quando se separa do pai. A de doze revolta-se. “Ele diz aos meninos que eu tinha homens e por isso me castigava. Chegou a mostrar vídeos pornográficos com pessoas de rosto coberto para dizer que eu fazia aquilo.” Crê que, com a ajuda das psicólogas, essa imagem se desfez na cabeça das crianças mais novas. Da mais velha não. “Acredita em tudo o que o pai diz. O medo que eu tenho é que cresça a achar que isso é certo.”

Às vezes, tem vontade de lhes dizer que o pai é um agressor, mas cala-se. “Acho que é conversa de adulto. Queria que esquecessem, que fossem crianças normais.” E o que iria ela acrescentar? “Ele dizia na frente deles: ‘Eu vou-te matar!’ Eles sabem, mas não querem dizer, porque não querem que o pai vá preso…”

Ter estabilidade laboral

Não sabe quando voltará a ter uma relação amorosa. Para já, nem quer pensar nisso. Ter autorização de residência e contrato sem termo ajuda-a a encarar o futuro.

“No começo, só queria juntar dinheiro para voltar para o Brasil”, diz. “Depois que eu passei por essas casas, me sinto capaz. Quando chegou a residência, vendo que os meninos gostam da escola, que temos médico de família, que estou efectiva, pensei: vou tentar fazer a minha vida aqui com os meus filhos. Se eu for para o Brasil, ele vai para lá e vai começar tudo de novo. Não me sinto segura de ir.” Aqui, sente-se. Pelo menos enquanto ele usar pulseira electrónica.

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.


7.4.20

Roma suffer under EU's 'environmental racism', report concludes

Jennifer Rankin in Brussels, in The Guardian

Thousands live in squalor due to policies of exclusion and deprivation, says study

Europe’s Roma communities are often living on polluted wastelands and lacking running water or sanitation in their homes as a result of “environmental racism”, a report has concluded.

The European Environmental Bureau (EEB), a pan-European network of green NGOs, found Roma communities were often excluded from basic services, such as piped drinking water, sanitation and rubbish collection, while frequently living at or near some of the dirtiest sites in Europe, such as landfills or contaminated industrial land.

As many as 10 million Roma people live in Europe, including 6 million in EU member states. While their social exclusion has been long documented, EEB researchers say denial of basic services and exposure to pollution has been overlooked.

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The EEB, in collaboration with researchers in central and eastern Europe, found 32 cases of “environmental racism” in five European countries: Hungary, Bulgaria, Romania, Slovakia and North Macedonia. The researchers also drew on existing work on living conditions of Roma people in Bosnia and Herzegovina, Serbia, Montenegro and Kosovo.

Absence of water, sanitation and rubbish collection were problems in more than half the case studies, such as Stolipinovo in Bulgaria, Europe’s largest Roma settlement and part of the city of Plovdiv. About 60,000 people are estimated to live in the district, but many are cut off from piped water and sanitation services from the rest of Plovdiv, a European capital of culture in 2019.

In Hungary, access to the public water supply for some Roma communities was shut down during summer heatwaves – decisions affecting 800 people in Gulács in August 2017 and 1,500 inhabitants of Huszártelep in 2013. The northern Hungarian city of Ózd received nearly €5.5m (£4.8m) from Switzerland to improve provision of running water to Roma communities, but researchers said many had not benefited from the scheme. Authorities claimed Roma households did not pay their bills.

Previous research concluded that only about 12% of Roma communities had functioning flush toilets and drainage systems.

One vivid example of the desperate conditions Roma people can find themselves living in is Pata-Rât, on the outskirts of Cluj-Napoca in Romania’s north-west, known for its gothic architecture and baroque palaces.

The isolated Roma community living in Pata-Rât
The isolated Roma community living in Pata-Rât. Photograph: Cronos/Alamy
At Pata-Rât about 2,000 Roma people live next to or on a landfill site. “It’s horrifying,” said the Roma rights activist Ciprian Nodis, who has visited several times. “It’s similar to what you can see in the favelas of Rio de Janeiro. People are living in extreme poverty with no access to utilities, no access to electricity, water. They live in improvised shelters made from recyclable materials that they find on the landfill – cardboard, or rotten wood, or things like that. Most of them work in the landfill.”

He identified four separate Roma communities living at Pata-Rât: the first group came in the 1960s, and the most recent arrivals in 2013 when Roma residents of Cluj-Napoca were evicted from the city centre. The least fortunate of the four communities live on the landfill itself, where the air, water and soil is deeply polluted. “It’s a living hell, especially for the children who are born there. It’s bad luck to be born in Pata-Rât,” Nodis said.

But Pata-Rât is not even exceptional. Researchers identified more Roma communities living on or next to landfill sites at Fakulteta, near Sofia. On the outskirts of the Transylvanian city of Turda, Roma families live on a former industrial site contaminated with mercury. Unsurprisingly Roma people in the 32 case studies were vulnerable to respiratory and infectious diseases, accidents and depression.

Meanwhile Roma communities not living on degraded land risk eviction, without legal recourse. About 100 Roma people living in Constanƫa in Romania were forced to move to allow for the creation of a holiday resort.

Patrizia Heidegger, one of the report’s authors and the director of global policies and sustainability at the EEB, said the 32 cases were only the tip of the iceberg.

Denial of basic services persisted, despite Roma communities having being settled in the same villages and cities for many years. Absence of water or sanitation was “not due to not having lived in the place for a long time. It’s really total neglect of neighbourhoods with Roma populations.”

The problem was compounded as Roma communities were often blamed for the pollution and land degradation, she said. “They are perceived as the environmental problem and not as communities that are disproportionately affected by exposure to pollution or the non-provision of environmental services, which then leads to the degradation of their environment.

Roma communities faced huge prejudices, she said, citing attitudes such as “‘they don’t care about a clean environment, they don’t care where they live, they work in waste dumps anyhow so they live there.’ These are racist prejudices.”

The EEB is now calling on EU authorities and member states to increase efforts to protect health, while urging them to recognise the scale of the problem. “We need to acknowledge that environmental racism exists in Europe. That is the first step,” Heidegger said.

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28.1.19

Crime, Silêncio e Preconceito

in SicNotícias

Duas mulheres sobreviventes de violação dão à Grande Reportagem SIC dois corajosos e poderosos testemunhos. Que nos obrigam a reflectir sobre a forma como lidamos, enquanto sociedade, com as vítimas e com os agressores de um dos mais graves crimes que pode ser cometido contra alguém. Estaremos, todos nós -- os que julgam nos tribunais e os que se sentem no direito de julgar fora deles -- a promover o silêncio das vítimas e a impunidade dos agressores? Crime, silêncio e preconceito alimentam-se mutuamente

Casas para a classe média em bairros sociais: fim do estigma ou engodo?

João Pedro Pincha, in Público on-line

Autarquia lisboeta e associações de moradores congratulam-se por "combate à guetização" dos bairros. Perdem-se casas para os mais pobres e falta oferta intermédia, alertam especialistas.

Neste prédio de “contornos finos”, a Foz do Douro esconde-se atrás de portadas
Ao incluir nestes sorteios casas que foram, quase todas, construídas originalmente com o propósito de realojar pessoas que viviam em barracas e cujos habitantes pagam, em média, rendas muito inferiores às que vão pagar os futuros moradores, a autarquia diz querer “tornar cada vez mais una a malha urbana”, “procurando combater a guetização e o desenvolvimento desigual na cidade”.

A estratégia não é nova e não é consensual. Há quem lamente que, por falta de investimento público na habitação para a classe média, tenham de ser as casas destinadas aos mais carenciados a suprir essa necessidade. Há igualmente quem diga que isto é como vender gato por lebre às classes médias. E também há esperança, de quem se habitou a viver com preconceitos, de que o futuro possa mesmo ser melhor.

“Eu moro em Marvila há 43 anos e não gostaria que esta freguesia só fosse conhecida pelos bairros sociais”, comenta Manuel Saraiva, da Associação de Moradores do Bairro das Amendoeiras. Neste concurso de renda convencionada não houve fogos atribuídos neste bairro, mas Manuel conhece bem Marvila. E diz que ela ainda “sofre algum estigma”, a seu ver injustificada. “Há muita gente desempregada, uma grande percentagem de pessoas nem-nem, que não trabalham nem estudam, mas é uma freguesia de gente séria e trabalhadora”, garante.

“Tudo o que for no sentido de trazer gente nova é positivo”, afirma Saraiva, acreditando que, mesmo nos locais mais problemáticos, a presença de novos moradores, com hábitos e rendimentos diferentes, pode ser uma alavanca de mudança. “A partir dos bons exemplos, as coisas podem melhorar.”

O problema não está aí, diz Manuel Saraiva, secundado por um membro de outra associação de moradores, esta do Bairro do Condado. “O problema é que há imensas casas fechadas”, diz esta pessoa, que prefere não se identificar. “Precisamos de acordar os bairros sociais e tirar-lhes o estigma. Eles deviam era ter mais casas disponíveis”, continua. Para Manuel Saraiva, que também diz existirem “muitas casas vazias”, “a câmara tem de agilizar alguns processos para recuperar património habitacional”.

Faltam respostas intermédias
Recentemente, depois de a autarquia ter entregado as chaves de uma casa num bairro social a um vencedor do sorteio de renda convencionada, muitas pessoas foram protestar para as redes sociais. A lista de espera para uma habitação municipal com renda apoiada é extensa e, por isso, “obviamente que isto pode gerar algum tipo de conflito”, comenta Gonçalo Antunes, investigador em políticas de habitação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova (FCSH).

Apesar de a autarquia se referir à habitação municipal como um todo, os programas de renda convencionada e de renda apoiada têm regras e destinatários diferentes. No primeiro, a câmara define uma renda para o fogo e os interessados podem candidatar-se se esse valor corresponder a entre 10% e 40% do seu rendimento mensal. Depois há um sorteio, com toda a gente em pé de igualdade, em que qualquer um pode ganhar. Na renda apoiada, os candidatos são avaliados consoante um conjunto de critérios (rendimento, agregado, etc.) e recebem uma pontuação. Quanto mais alta for, mais rapidamente recebem uma casa.
Neste último sorteio de renda convencionada, a Quinta do Ourives era o bairro com mais casas. Segundo a Gebalis, empresa que gere a habitação municipal, ali a renda média é de 60,87 euros. Os futuros moradores vão pagar pelo menos 215.

“A câmara, na prática, está a roubar casas às pessoas mais desfavorecidas. É uma política pública de segmentação da cidade”, critica Leonor Duarte, porta-voz do movimento Morar em Lisboa. “Se a classe média fica com rendas convencionadas e vai para bairros sociais, quem é que irá para o Programa de Renda Acessível?”, questiona.

“Se isto vai tirar algumas casas que deviam estar disponíveis para outras prioridades? Vai”, diz Gonçalo Antunes. Mas “a política de renda convencionada pode contribuir para que a homogeneidade social dos bairros possa ser diversificada”, argumenta.

Para o investigador, cuja tese de doutoramento se focou nas políticas públicas de habitação dos últimos 200 anos, há um problema de fundo: “O parque habitacional público é muito reduzido e foi quase todo construído para os programas de realojamento. Não existe nada intermédio entre o que foi construído para a população carenciada e a população que não pode candidatar-se a habitação social, porque tem rendimentos superiores, mas não consegue arrendar ou comprar no mercado privado.”

Combater o estigma
Já não é a primeira vez que estes bairros entram na geografia do Programa de Renda Convencionada. “A estratégia tem tido resultados positivos, nos pontos onde já aconteceu, na medida em que vem contribuir para a abertura e para a maior integração dos bairros municipais na cidade, ajudando a quebrar estereótipos que ainda marcam alguns destes núcleos habitacionais”, diz a câmara. “Historicamente, a construção de Lisboa assenta numa mistura de estratos sociais, num convívio que é desejável para todos e que sempre existiu. Queremos contribuir para uma cidade de diálogo e coesão.”

“Há estudos empíricos que revelam que, apesar de as pessoas estarem próximas no bairro, não há construção de rede social”, alerta Luís Mendes, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), da U. Lisboa. “Quando temos uma classe média com mais rendimento, melhor capacidade de mobilidade e capital cultural, estas pessoas fazem a vida fora do bairro. O bairro é apenas o sítio onde moram”, diz ainda.
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“Se a câmara tem um orçamento bastante confortável e imenso edificado devoluto, porque é que não o recupera ao serviço da população?”, pergunta este académico. Uma preocupação que é também a de Manuel Saraiva: “Tudo demora muito”, lamenta.
Desde que o Programa de Renda Convencionada foi lançado, em 2013, foram atribuídas 375 casas. Houve mais de 20 mil candidatos. Segundo a autarquia, no ano passado foram atribuídas 625 casas em todos os programas, uma subida de 45% face a 2017. Para este ano, disse Fernando Medina há dias, o objectivo é “recuperar casas mais rápido para entregar às famílias, incluindo o esforço de construir mais habitação”.
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15.11.17

Baixa natalidade na Europa é culpa das mulheres que trabalham, diz eurodeputado polaco

in Público on-line

Alguns eurodeputados admitem sancioná-lo. Frente Nacional defendeu-o da "deriva repressiva" do Parlamento Europeu.

Só há uma razão para a baixa natalidade na Europa: a mulheres que trabalham em vez de ficarem em casa. A tese é do eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke, que a tornou pública na segunda-feira à noite no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.  

Aproveitou o debate sobre a política de coesão europeia para, numa hora já tardia (segundo o jornal espanhol El País), expressar o machismo pelo qual é conhecido e dizer qual o papel que, na sua opinião, a mulher deve ter na sociedade.

O Parlamento Europeu debatia o capítulo da demografia - a Europa é o continente mais envelhecido do mundo -, quando o polaco pediu a palavra para dizer que ninguém estava a abordar o problema da forma correcta. "As mulheres não ficam em casa. Não têm crianças. Todos se empenham tanto para que a mulher trabalhe fora de casa. Se não resolvermos isto, não faz sentido debater", disse.

Korwin-Mikke já tinha proferido em Estrasburgo outras frases que provocaram indignação, recorda o jornal espanhol. Por exemplo, que as mulheres devem ganhar menos do que os homens pois "são mais fracas e menos inteligentes".  

O eurodeputado é presidente de um partido de extrema-direita chamado Wolnosc. Foi deputado na Polónia entre 1991 e 1992 e eleito para o Parlamento Europeu em 2014, não tendo aderido a qualquer grupo. 

Já esta terça-feira, vários eurodeputados pediram que Korwin-Mikke seja sancionado de alguma forma. 

Mas, por entre a indignação, houve quem defendesse o eurodeputado polaco - Bruno Gollnisch, da Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês dirigido por Marine Le Pen. Explicou que o fazia não por acreditar nas palavras de Korwin-Mikke mas pela "inquetante deriva repressiva" do Parlamento Europeu e da ideia de o sancionar.

20.9.17

Comunidades Ciganas. “A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito"

in Sol.pt

Em Portugal são entre 40 a 60 mil os cidadãos de etnia cigana. São vários os estilos de vida e diferentes as condições em que cada comunidade vive. Uns têm conseguido remar contra a maré, formar-se na universidade, conseguido emprego. Outros ainda vivem em tendas e barracões. O i passou por três dessas comunidades e foi saber como é viver do outro lado do preconceito.

Monforte é uma localidade do distrito de Portalegre. É pequena, pacata e acolhedora. Veem-se poucas pessoas na rua, as casas estão todas fechadas. O calor também é o que se espera daquelas bandas, não estivessem mais de 30 graus e até estranhávamos. As casas são brancas, caiadas de amarelo e azul, no centro da vila há uma praça simpática e na esplanada só estão dois homens sentados.

O i veio ao interior alentejano, depois de receber um e-mail de um leitor que convidava os jornalistas a visitar algumas localidades, entre as quais Monforte, onde se passariam situações de teor negativo na relação dos habitantes ciganos e não ciganos. O convite partiu depois da polémica entrevista dada pelo candidato à Câmara de Loures, André Ventura, em que acusava as comunidades ciganas de sobreviverem à custa do Estado. O leitor estaria de acordo com o candidato. O i aceitou o desafio.

Estamos em pleno centro do município do país que tem maior percentagem relativa de presença de cidadãos de etnia cigana. Segundo o Estudo Nacional Sobre Comunidades Ciganas, a comunidade de etnia cigana em Monforte representa 75,90% da população geral. Quem confirma os dados, mais tarde em conversa com o i, é o presidente da Câmara, Gonçalo Lagem, de 40 anos e natural da terra. Orgulha-se de sempre ter convivido com a comunidade cigana que está fixada em Monforte há mais tempo do que o próprio. Os últimos números, atualizados pela Pordata em 2011, indicam que no município vivem 3.329 habitantes. Deles fazem parte 26 famílias de etnia cigana na vila de Monforte, 12 em Vaiamonte e quatro em Assumar.

Dirigimo-nos em primeiro lugar ao clube de futebol da terra, tem as portas abertas mas com um letreiro que avisa que só os sócios podem frequentar o interior do clube.

Entrámos e sentámo-nos na mesa de um senhor que não se quer identificar. “Falar de ciganos é sempre um assunto polémico e sensível. Eu sou dono de um estabelecimento e não quero confusões”, explica em tom baixo. Pedimos-lhe para contar as suas histórias. Já alguma vez teve problemas? “As partes positivas de viver numa vila com eles são muito poucas para quem tem contacto diário. A população cigana aqui é enorme, tendo em conta que é um meio tão pequeno. Lido com eles todos os dias, é um bocado ingrato. Nunca aconteceu nada, mas pode vir a acontecer”.

Medo do que pode vir, mas não veio ainda Segundo este adepto do Futebol Clube Monfortense, antigamente as pessoas tinham as casas abertas muito mais tempo, agora fecha tudo cedo porque há medo, “nunca se sabe”, diz em tom preocupado.

O medo fica-se pela possibilidade de um dia vir a acontecer alguma coisa que nunca aconteceu antes. Pelo que nos contam as pessoas, “nunca houve problemas”. Apenas entre os mais novos acontecem por vezes desacatos mas “gaiatos arranjam sempre confusão, isso é tanto os nossos quanto os de qualquer outra raça. Já não fomos todos gaiatos?”, pergunta o dono de um café central muito frequentado pela comunidade de etnia cigana. “A mim nunca me faltaram ao respeito e quem toma conta deles todos é a dona Bea, a mais velha do acampamento”, diz. Um cliente apoiado na janela que dá para a rua, onde está a beber uma mini, interrompe: “Lá na piscina estiveram ontem 14 miúdos dos deles, são irrequietos, tive de os pôr na ordem, têm de saber estar não é?”.

A discussão é amigável, tanto o cliente quanto os donos do café parecem concordar que nunca houve problemas na vila com qualquer cigano. “São gente educada”, concorda a dona do café.

A escola e os gaiatos No agrupamento de Escolas, falamos com o diretor António Barreira, de 55 anos. Vive em Portalegre, vem todos os dias até Monforte e já exerce funções na direção há nove anos. As crianças ciganas do município vão à escola, mas a instituição teve de se adaptar para conseguir manter os alunos e os cativar a manterem-se no ativo. Para isso criaram um sistema de intervenção, cujas medidas tiveram como principal foco “a disciplina, o sucesso e a prevenção do abandono escolar”. Entre as várias medidas deste programa, destaca-se uma das que teve mais sucesso: conseguiram atrair para o pré-escolar todas as crianças de etnia cigana a partir dos três anos de idade. “Pareceu-nos que seria mais fácil começar aos três e quatro anos a integração no sistema educativo português. Quando vêm para o primeiro ciclo já se nota que trazem os hábitos de saber estar na sala de aula, de trabalhar”. Em nove anos as várias medidas deste programa têm muitos resultados positivos, já que “o número de alunos no terceiro ciclo é hoje muio maior, embora ainda haja uma parte das meninas que deixa os estudos mais cedo que os rapazes, para começar uma família”. Todos os dados disponíveis apontam para “altos níveis de analfabetismo e absentismo escolar dos ciganos portugueses, mesmo em relação aos 6 anos de escolaridade, o que faz prever tratar-se de uma tarefa difícil a concretização dos 12 anos de escolaridade”, lê-se no Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas.

Para o diretor do Agrupamento de Escolas de Monforte, onde 80 alunos de etnia cigana estudam, representando um terço do total de alunos, o maior desafio em integrar os estudantes no sistema de ensino centra-se no facto de os pais não terem trabalho na região e, por isso, terem de se deslocar para Espanha e França por algumas temporadas. “Os miúdos vão com eles e perdem imenso tempo de escola”. A escola já viu formarem-se estudantes no ensino profissional e hoje uma ex-aluna, Ana Cristina, é funcionária da escola e mediadora com a restante comunidade. Não há registo de casos de indisciplina de maior gravidade. António Barreira apenas recorda um episódio no início do seu percurso como diretor – “Há o que é normal entre miúdos, sejam de que origem for”, conclui.

Um acampamento “temporário” Saímos do Agrupamento com as indicações sobre como chegar ao acampamento onde a maioria das famílias de origem cigana vive. O caminho para o Rossio é de terra batida, há alguns carros velhos parados e muito pó no ar. Do lado direito, cerca de sete barracas geminadas surgem, com escadas improvisadas feitas de tijolo. Um grupo enorme de homens senta-se em roda a conversar. Há crianças descalças, mas só os pés podem estar sujos. As roupas estão muitas vezes a combinar com os olhos claros e o contraste da pele morena. As meninas têm os cabelos bem penteados e soltam gargalhadas enquanto correm. Do lado esquerdo, uma roulote e à entrada uma senhora vestida de negro. Há cães a correr com as crianças. Todos nos olham com desconfiança, passaremos a saber mais tarde que é raro terem visitas. Uma jovem de vinte e quatro anos aborda-nos: “Que é que os senhores querem da gente?” Queremos conhecer a dona Bea. “Está ali na casinha dela, é minha avó”. A dona Bea é a matriarca da comunidade, é ela quem ouve os problemas, quem toma decisões, sabe os nomes de toda gente mas não se lembra das primaveras que já viu nascer. No acampamento é conhecida por Vó Bea, o que faz sentido quando se tem 119 netos e bisnetos.

A casinha da avó Bea não é uma casinha, é uma barraca com tijolos e cimento, plásticos e outros materiais que improvisam paredes. Não há chão e há apenas um compartimento que dá para cozinha, sala de estar e quarto de dormir. No acampamento não há casas de banho, todas as pessoas vão ao mato para fazerem as suas necessidades fisiológicas.

Maria Feliciana Fernandes procura o bilhete de identidade algures enfiado num dos poucos bolsos de plástico de uma carteira muito velha, cheia de papéis e cartões que pelo aspeto já cruzaram décadas. Quando o alcança, lá se lê : Maria Feliciana Fernandes. No lugar da assinatura tem um “x”, nunca aprendeu a assinar. Nasceu na freguesia de Santo André, em Estremoz, no mesmo ano em que surgia a segunda grande guerra, em 39, onde tantos da sua etnia foram chacinados por serem diferentes, relembra. Recebe-nos ao seu lado, de sorriso estampado no rosto. Continua a sua história. Em gaiata, passou por Ponte de Sor, onde foi criada. Chegou a Monforte aos 13 anos, terra onde o pai fora batizado, mas para onde não tinha tornado até então. Aos 78, ainda veste preto, cor que lhe ficará até que se volte a encontrar com o marido, numa dimensão longínqua. Acredita que sim, vai encontrá-lo no céu. “Eu era tão bonita, mas agora sou feia, feia”.
O olhar é triste, meigo e a memória está viva. “Vim para cá com 13 anos, já cá havia ciganos quando chegámos, casei-me e nunca mais saí”. De mãos no queixo relembra a primeira vez que foi mãe. “Peguei numa tesoura, queimei-a para desinfetar, peguei em panos e numa agulha com linhas. Fui ao mato, rasguei-me e tive o meu filho ali mesmo, sozinha. Cortei-lhe o cordão e vim com ele cheio de sangue nos braços”. A descrição é heróica, as netas ouvem-na com atenção. Vítor, de um mês de idade, está ao colo da mãe, Inácia, mas veio ao mundo num hospital. “As mulheres já não têm de passar por isso, credo” diz a jovem de 25 anos que casou aos 15 anos e tem três filhos. O mais velho com oito anos e o do meio quatro.

“Não queria ser cigana” Inácia, de olhos verde-água, enquanto abana o bebé desabafa para o ar: “Eu quando era pequena não queria ser cigana. As pessoas não gostam de nós nem dos nossos filhos. Por um cigano mau pagamos sempre todos”. Mas a avó não concorda. “Cá para mim, não tenho queixa de ninguém, nem guarda, nem presidente, é gente muito boa. Entro na casa de todos, se me perguntarem, nunca recuso”. E continua o discurso: “Fora com todos os que não sabem respeitar pessoas. E isto já não é Monforte, Monforte era antes. Agora há muitos gaiatos que tratam mal os nossos”. “Acha que é medo do que não conhecem?”, perguntámos. “Os gaiatos são parvos, eu fui criada de uma maneira, estes gaiatos hoje recebem outra educação. Já tenho um filho com 63 anos, são muitos anos a cuidar de gaiatagem. Conto-lhes muitas histórias, o que eu passei e vivi, e é isso”, sorri enquanto olha para os netos Zé, Ana Rita, Íris, Filomena, Francisco, alguns dos muitos netos que chegam e fazem uma roda à volta da Vó Bea. Riem-se quando lhes dizemos que somos jornalistas e que queremos ouvir as histórias da Avó Bea. “Ela só ralha connosco, só briga connosco”, diz um dos mais novos ao que Maria Feliciana responde zangada: “Eh! Brigo para que fiquem educados, vão brincar deixem a vó falar”.

Rossio dos pobres Neste acampamento, com as ratazanas, as cobras e as baratas, a Avó Bea vive já há 30 anos. Quando cá chegou só havia quatro barracas. Depois foi chegando gente até que a câmara teve de expulsar os que já estavam ali sem ligações familiares. No acampamento hoje vivem 27 casais e respetivos filhos.

Prometeram-lhes em 2001 que era um acampamento temporário. A avó Bea teve direito a casa mas cedeu-a ao filho mais velho e ficou a tomar conta do acampamento. Algumas das mulheres juntam-se também à plateia que escuta Maria Feliciana. Uma das filhas mais velhas, que já é bisavó comenta connosco: “A vida é difícil. Sem trabalho como é que se vive? Temos de sair, vai tudo para onde dão o que fazer”. A Vó Bea completa: “Sem trabalhar não dá para dar comidinha aos gaiatos. É a apanha da azeitoninha, dos tomates, é o que houver”. “Vão para Espanha trabalhar, para as vindimas, batatas, é o sustento da agricultura”. Um dos filhos de Bea também responde: “Falam do rendimento mínimo mas como é que os ciganos viviam antes do Guterres ter trazido isso? Não há rendimentos mínimos assim há tantos anos caramba”. No acampamento há quem tenha direito ao Rendimento Social de Inserção, mas segundo explica Carlos Alberto, de 62 anos, filho da matriarca “isso não alimenta a gente. Antigamente davam apoio até de comer, agora nada. Em Elvas fazem isso, a câmara ajuda as pessoas. Aqui temos de ir para fora senão há fome”.

Para uma das autoras do Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas, a ideia de que todos os ciganos portugueses vivem à custa do Estado é “limitada e falsa”. Manuela Mendes considera que o preconceito português para com este grupo é centenário, “esta diferença cultural e étnica, até de parecer físico, fez com que se construísse uma imagem negativa à volta desta comunidade com um contexto histórico muito forte, acabando sempre por ser marginalizado”, explica. Em Portugal, o que está documentado indica que a comunidade cigana terá chegado a território nacional no século XVI, bem na época em que Portugal navegador invadia países para os conquistar, como fez com o Brasil.
“As medidas e políticas nunca foram muito favoráveis aos ciganos. As coisas mudaram com o 25 de Abril, com a universalidade a nível de políticas de direitos e deveres em que se incluíam obviamente todos os cidadãos, incluindo pessoas ciganas”, diz a investigadora que explica que a entrada para a União Europeia veio permitir maior abertura de políticas, por exemplo, ao nível da habitação.

A especialista explicou ao i que o primeiro estudo nacional foi encomendado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e registou durante o ano de 2014 os dados de 1.599 pessoas ciganas, em todo o país.

“Eles não se querem integrar” Na zona do Beato, um grupo de amigos discute a problemática da integração das comunidades ciganas. Luís, designer de 32 anos, cresceu em Tomar e vive agora num bairro de ciganos em Lisboa. “Os meus pais eram comerciantes ambulantes e sempre tiveram problemas com ciganos. Chegaram a apontar-lhes uma garrafa de vidro partido para terem acesso à luz do meu pai”, conta. “No meu bairro há sempre problemas, falta de civismo, tudo destruído”, continua, enquanto um amigo que viveu no Monte da Caparica vários anos intervém: “Eu tive de sair de lá, porque passados tantos anos a viver com eles percebi que nunca iam mudar. Arrancavam portas para ir pedir apoios, havia tiros e mortes e tráfico de droga”. As generalizações apesar de perigosas, são uma constante numa sociedade em que a comunicação social tem um impacto forte na criação de estereótipos. Quando perguntamos aos dois rapazes se não conheciam não-ciganos que faziam o mesmo e famílias ciganas com comportamentos diferentes disseram que sim.

Em Monforte, as várias famílias ciganas mostravam interesse em integrar-se na sociedade, frequentando cafés e restaurantes na vila. “Só não vamos ao do senhor João, que não nos quer lá”. Ao visitarmos o restaurante, onde almoçamos no dia seguinte, o senhor João explica que uma vez teve uma zaragata porque queria fechar o estabelecimento e os clientes ciganos não queriam ir embora. “Não estavam a consumir, só cá estavam eles, eu queria fechar. Eles têm de se integrar, mas não querem integrar-se nem fazem esforço para se adaptarem às normas desta sociedade”, explicou na cozinha enquanto fritava batatas e estrelava ovos.

Um bairro riscado do mapa Seguimos em direção a Elvas onde sabemos existir uma grande comunidade cigana. Em Elvas são vários os funcionários da Câmara Municipal desta etnia. Chegámos ao Bairro das Pias. Procurámos pela Maria Fernandes, uma senhora irmã de Maria Cecília, nora da Vó Bea.

Quando chegámos ao bairro vemos várias casas baixinhas geminadas em condições degredantes. O esgoto está perto das casas, não há água da rede. Vemos esponja a sair das paredes que caem aos pedaços. Em cada casa chegam a morar três e quatro famílias. “Somos os esquecidos. Os senhores não têm nada de comer? Não como há dois dias”, pergunta-nos a senhora que procurávamos, que quase já não vê. Como Maria, também quase metade da população cigana representada no Estudo Nacional Com s, 48%, admitiu ter passado fome, dos quais 18,6% disseram que foi entre uma a duas vezes por ano e 13,7% entre uma a duas vezes por mês.

Um mar de crianças segue todos os passos que damos. A senhora não se lembra de quantos anos tem. Está muito magra, agradece-nos o lanche que lhe damos. “Olha que ela está a gravar oh”, diz uma das crianças mais rebeldes. Aqui “os gaiatos” são mais reguilas, não existe uma matriarca como a avó Bea. Um dos rapazes, com os seus doze anos apalpa o rabo de um dos jornalistas. “Porque é que fizeste isso?” perguntámos. “Porque me apeteceu e a dona é gira”. A criança é repreendida por uma adulta. “Nunca vamos conseguir educar com decência os miúdos a crescerem neste ambiente. Uma pessoa ensina, eles saem da porta e já esqueceram. Mas aí os vizinhos do lado conseguiram pagar os estudos aos gaiatos. Agora são grandes um até já é advogado”, conta de mãos à cintura Maria de 43 anos.

A perigosa tendência para generalizar Quanto à dificuldade de relacionamento entre pessoas ciganas e não ciganas, Manuela Mendes explica que “há obviamente preconceitos de parte a parte, reações que surgem em estilo boomerang. É uma comunidade muito grande a viver em diferentes contextos. Se falamos de uma comunidade que vive acantonada, em zonas de ninguém, isolados de serviços, fechados em si próprios com precárias condições de vida, obviamente que estas pessoas vão ter menos oportunidades e mais dificuldades em acompanhar os filhos”, explica. “Há muitas pessoas ciganas a trabalhar em grandes superfícies e que ninguém sabe que são ciganos, porque os próprios escondem do empregador essa informação. Não são nada raras as vezes em que estes têm formação adequada ao cargo mas sempre que dizem que são ciganos são postos de lado, não sendo escolhidos”, completa. O mesmo se passa com arrendamentos, explica Sofia de 30 anos, a viver no bairro que considera “completamente marginalizado”. “Uma pessoa junta dinheirinho, quer uma casinha e eles dizem ao telefone que há vaga. Mas quando a gente chega, perguntam se somos ciganos e de repente a casa já está alugada. Estão presos às coisas más que se dizem de nós, por uns pagamos todos. A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito”, diz enquanto pega no filho mais novo pela mão.

Loures, onde estão os ciganos? O percurso pelas comunidades ciganas só termina em Loures. Como não conseguimos dados sobre criminalidade, porque as autoridades não distinguem crimes por etnias, dirigimo-nos à PSP local. Um agente pede-nos que tenhamos cuidado ao visitar o bairro cigano. “É um assunto sensível, mas não andem lá com máquinas e telemóveis”. Sendo que se desconhecia o que havia de encontrar, tomámos alguns cuidados com o material. Ao chegar ao bairro social onde apenas vivem ciganos, já fora da cidade de Loures, damos de caras com um prédio sujo. Por fora, as escadas e a entrada do prédio estão maltratados. Mais tarde, apercebemo-nos que, ao contrário do que vimos dentro das casas de Monforte e Elvas, aqui as casas têm mobília, várias divisões, luz e água e não vivem cerca de dez pessoas concentradas em apenas um apartamento. Na parte de trás do prédio, uma senhora estende a roupa que vende na feira: “A máquina avariou tenho de lavar tudo à mão”, explica à vizinha.

“Que pena terem vindo a esta hora, está tudo a trabalhar”, diz-nos João, natural de Avis. Aos 54 anos, com a barriga empinada para fora das calças, é um vendedor de automóveis, orgulha-se de ter os filhos bem orientados e mostra-nos a casa limpa e arrumada enquanto nos convida para entrar e nos pergunta se bebemos alguma coisa. “Então vieram em reportagem, não costuma vir cá gente. Agora vai haver uma novela sobre ciganos na TVI, pode ser que haja menos racismo”. O filho, Joaquim, tem uma filha de quatro anos, está a ensiná-la a andar de bicicleta sem rodinhas. “Aqui o pessoal trabalha todo, a Science 4 You está cheia de ciganos a trabalhar lá na fábrica, não se entende como é que aquele André Ventura consegue ser assim limitado. Vê-se mesmo que nunca veio saber como é que a gente vive”, diz enquanto faz zapping na grande televisão.

Para Manuela Mendes, André Ventura teve uma participação “lamentável cujo discurso não é legítimo nem confirmado pelos dados disponíveis pelo Estado português, é apenas um discurso populista”. A professora universitária considera que o preconceito só se combate com a interacção, com a partilha de experiências e espaços. Só assim podem ser vencidos os estigmas. “Temos de saber o que queremos dizer quando falamos em integração”, explica a investigadora que acrescenta que se a sociedade portuguesa quer que os ciganos se adaptem, também ela tem de se adaptar e não responder à sua presença de forma negativa. “Não é possível combater a discriminação apenas com base em políticas. Podem ajudar a melhorar a situação das pessoas discriminadas. Mas se as pessoas não se conhecerem, nem conviverem, sem contacto e partilha de experiências será muito difícil combater o racismo, estereótipos e discriminação. É muito importante que existam espaços de intercâmbio de conhecimentos, diálogo para que as pessoas conheçam o outro e as barreiras sejam derrubadas”.

Quanto à probabilidade de Portugal acabar com o racismo, Manuela costuma perguntar aos seus alunos:“Quantos amigos ciganos tens com quem vás beber um café?”.



13.9.17

Comunidades Ciganas. “A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito"

in Sol

Em Portugal são entre 40 a 60 mil os cidadãos de etnia cigana. São vários os estilos de vida e diferentes as condições em que cada comunidade vive. Uns têm conseguido remar contra a maré, formar-se na universidade, conseguido emprego. Outros ainda vivem em tendas e barracões. O i passou por três dessas comunidades e foi saber como é viver do outro lado do preconceito.

Monforte é uma localidade do distrito de Portalegre. É pequena, pacata e acolhedora. Veem-se poucas pessoas na rua, as casas estão todas fechadas. O calor também é o que se espera daquelas bandas, não estivessem mais de 30 graus e até estranhávamos. As casas são brancas, caiadas de amarelo e azul, no centro da vila há uma praça simpática e na esplanada só estão dois homens sentados.

O i veio ao interior alentejano, depois de receber um e-mail de um leitor que convidava os jornalistas a visitar algumas localidades, entre as quais Monforte, onde se passariam situações de teor negativo na relação dos habitantes ciganos e não ciganos. O convite partiu depois da polémica entrevista dada pelo candidato à Câmara de Loures, André Ventura, em que acusava as comunidades ciganas de sobreviverem à custa do Estado. O leitor estaria de acordo com o candidato. O i aceitou o desafio.

Estamos em pleno centro do município do país que tem maior percentagem relativa de presença de cidadãos de etnia cigana. Segundo o Estudo Nacional Sobre Comunidades Ciganas, a comunidade de etnia cigana em Monforte representa 75,90% da população geral. Quem confirma os dados, mais tarde em conversa com o i, é o presidente da Câmara, Gonçalo Lagem, de 40 anos e natural da terra. Orgulha-se de sempre ter convivido com a comunidade cigana que está fixada em Monforte há mais tempo do que o próprio. Os últimos números, atualizados pela Pordata em 2011, indicam que no município vivem 3.329 habitantes. Deles fazem parte 26 famílias de etnia cigana na vila de Monforte, 12 em Vaiamonte e quatro em Assumar.

Dirigimo-nos em primeiro lugar ao clube de futebol da terra, tem as portas abertas mas com um letreiro que avisa que só os sócios podem frequentar o interior do clube.

Entrámos e sentámo-nos na mesa de um senhor que não se quer identificar. “Falar de ciganos é sempre um assunto polémico e sensível. Eu sou dono de um estabelecimento e não quero confusões”, explica em tom baixo. Pedimos-lhe para contar as suas histórias. Já alguma vez teve problemas? “As partes positivas de viver numa vila com eles são muito poucas para quem tem contacto diário. A população cigana aqui é enorme, tendo em conta que é um meio tão pequeno. Lido com eles todos os dias, é um bocado ingrato. Nunca aconteceu nada, mas pode vir a acontecer”.

Medo do que pode vir, mas não veio ainda Segundo este adepto do Futebol Clube Monfortense, antigamente as pessoas tinham as casas abertas muito mais tempo, agora fecha tudo cedo porque há medo, “nunca se sabe”, diz em tom preocupado.

O medo fica-se pela possibilidade de um dia vir a acontecer alguma coisa que nunca aconteceu antes. Pelo que nos contam as pessoas, “nunca houve problemas”. Apenas entre os mais novos acontecem por vezes desacatos mas “gaiatos arranjam sempre confusão, isso é tanto os nossos quanto os de qualquer outra raça. Já não fomos todos gaiatos?”, pergunta o dono de um café central muito frequentado pela comunidade de etnia cigana. “A mim nunca me faltaram ao respeito e quem toma conta deles todos é a dona Bea, a mais velha do acampamento”, diz. Um cliente apoiado na janela que dá para a rua, onde está a beber uma mini, interrompe: “Lá na piscina estiveram ontem 14 miúdos dos deles, são irrequietos, tive de os pôr na ordem, têm de saber estar não é?”.

A discussão é amigável, tanto o cliente quanto os donos do café parecem concordar que nunca houve problemas na vila com qualquer cigano. “São gente educada”, concorda a dona do café.

A escola e os gaiatos No agrupamento de Escolas, falamos com o diretor António Barreira, de 55 anos. Vive em Portalegre, vem todos os dias até Monforte e já exerce funções na direção há nove anos. As crianças ciganas do município vão à escola, mas a instituição teve de se adaptar para conseguir manter os alunos e os cativar a manterem-se no ativo. Para isso criaram um sistema de intervenção, cujas medidas tiveram como principal foco “a disciplina, o sucesso e a prevenção do abandono escolar”. Entre as várias medidas deste programa, destaca-se uma das que teve mais sucesso: conseguiram atrair para o pré-escolar todas as crianças de etnia cigana a partir dos três anos de idade. “Pareceu-nos que seria mais fácil começar aos três e quatro anos a integração no sistema educativo português. Quando vêm para o primeiro ciclo já se nota que trazem os hábitos de saber estar na sala de aula, de trabalhar”. Em nove anos as várias medidas deste programa têm muitos resultados positivos, já que “o número de alunos no terceiro ciclo é hoje muio maior, embora ainda haja uma parte das meninas que deixa os estudos mais cedo que os rapazes, para começar uma família”. Todos os dados disponíveis apontam para “altos níveis de analfabetismo e absentismo escolar dos ciganos portugueses, mesmo em relação aos 6 anos de escolaridade, o que faz prever tratar-se de uma tarefa difícil a concretização dos 12 anos de escolaridade”, lê-se no Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas.

Para o diretor do Agrupamento de Escolas de Monforte, onde 80 alunos de etnia cigana estudam, representando um terço do total de alunos, o maior desafio em integrar os estudantes no sistema de ensino centra-se no facto de os pais não terem trabalho na região e, por isso, terem de se deslocar para Espanha e França por algumas temporadas. “Os miúdos vão com eles e perdem imenso tempo de escola”. A escola já viu formarem-se estudantes no ensino profissional e hoje uma ex-aluna, Ana Cristina, é funcionária da escola e mediadora com a restante comunidade. Não há registo de casos de indisciplina de maior gravidade. António Barreira apenas recorda um episódio no início do seu percurso como diretor – “Há o que é normal entre miúdos, sejam de que origem for”, conclui.

Um acampamento “temporário” Saímos do Agrupamento com as indicações sobre como chegar ao acampamento onde a maioria das famílias de origem cigana vive. O caminho para o Rossio é de terra batida, há alguns carros velhos parados e muito pó no ar. Do lado direito, cerca de sete barracas geminadas surgem, com escadas improvisadas feitas de tijolo. Um grupo enorme de homens senta-se em roda a conversar. Há crianças descalças, mas só os pés podem estar sujos. As roupas estão muitas vezes a combinar com os olhos claros e o contraste da pele morena. As meninas têm os cabelos bem penteados e soltam gargalhadas enquanto correm. Do lado esquerdo, uma roulote e à entrada uma senhora vestida de negro. Há cães a correr com as crianças. Todos nos olham com desconfiança, passaremos a saber mais tarde que é raro terem visitas. Uma jovem de vinte e quatro anos aborda-nos: “Que é que os senhores querem da gente?” Queremos conhecer a dona Bea. “Está ali na casinha dela, é minha avó”. A dona Bea é a matriarca da comunidade, é ela quem ouve os problemas, quem toma decisões, sabe os nomes de toda gente mas não se lembra das primaveras que já viu nascer. No acampamento é conhecida por Vó Bea, o que faz sentido quando se tem 119 netos e bisnetos.

A casinha da avó Bea não é uma casinha, é uma barraca com tijolos e cimento, plásticos e outros materiais que improvisam paredes. Não há chão e há apenas um compartimento que dá para cozinha, sala de estar e quarto de dormir. No acampamento não há casas de banho, todas as pessoas vão ao mato para fazerem as suas necessidades fisiológicas.
Maria Feliciana Fernandes procura o bilhete de identidade algures enfiado num dos poucos bolsos de plástico de uma carteira muito velha, cheia de papéis e cartões que pelo aspeto já cruzaram décadas. Quando o alcança, lá se lê : Maria Feliciana Fernandes. No lugar da assinatura tem um “x”, nunca aprendeu a assinar. Nasceu na freguesia de Santo André, em Estremoz, no mesmo ano em que surgia a segunda grande guerra, em 39, onde tantos da sua etnia foram chacinados por serem diferentes, relembra. Recebe-nos ao seu lado, de sorriso estampado no rosto. Continua a sua história. Em gaiata, passou por Ponte de Sor, onde foi criada. Chegou a Monforte aos 13 anos, terra onde o pai fora batizado, mas para onde não tinha tornado até então. Aos 78, ainda veste preto, cor que lhe ficará até que se volte a encontrar com o marido, numa dimensão longínqua. Acredita que sim, vai encontrá-lo no céu. “Eu era tão bonita, mas agora sou feia, feia”.
O olhar é triste, meigo e a memória está viva. “Vim para cá com 13 anos, já cá havia ciganos quando chegámos, casei-me e nunca mais saí”. De mãos no queixo relembra a primeira vez que foi mãe. “Peguei numa tesoura, queimei-a para desinfetar, peguei em panos e numa agulha com linhas. Fui ao mato, rasguei-me e tive o meu filho ali mesmo, sozinha. Cortei-lhe o cordão e vim com ele cheio de sangue nos braços”. A descrição é heróica, as netas ouvem-na com atenção. Vítor, de um mês de idade, está ao colo da mãe, Inácia, mas veio ao mundo num hospital. “As mulheres já não têm de passar por isso, credo” diz a jovem de 25 anos que casou aos 15 anos e tem três filhos. O mais velho com oito anos e o do meio quatro.

“Não queria ser cigana” Inácia, de olhos verde-água, enquanto abana o bebé desabafa para o ar: “Eu quando era pequena não queria ser cigana. As pessoas não gostam de nós nem dos nossos filhos. Por um cigano mau pagamos sempre todos”. Mas a avó não concorda. “Cá para mim, não tenho queixa de ninguém, nem guarda, nem presidente, é gente muito boa. Entro na casa de todos, se me perguntarem, nunca recuso”. E continua o discurso: “Fora com todos os que não sabem respeitar pessoas. E isto já não é Monforte, Monforte era antes. Agora há muitos gaiatos que tratam mal os nossos”. “Acha que é medo do que não conhecem?”, perguntámos. “Os gaiatos são parvos, eu fui criada de uma maneira, estes gaiatos hoje recebem outra educação. Já tenho um filho com 63 anos, são muitos anos a cuidar de gaiatagem. Conto-lhes muitas histórias, o que eu passei e vivi, e é isso”, sorri enquanto olha para os netos Zé, Ana Rita, Íris, Filomena, Francisco, alguns dos muitos netos que chegam e fazem uma roda à volta da Vó Bea. Riem-se quando lhes dizemos que somos jornalistas e que queremos ouvir as histórias da Avó Bea. “Ela só ralha connosco, só briga connosco”, diz um dos mais novos ao que Maria Feliciana responde zangada: “Eh! Brigo para que fiquem educados, vão brincar deixem a vó falar”.

Rossio dos pobres Neste acampamento, com as ratazanas, as cobras e as baratas, a Avó Bea vive já há 30 anos. Quando cá chegou só havia quatro barracas. Depois foi chegando gente até que a câmara teve de expulsar os que já estavam ali sem ligações familiares. No acampamento hoje vivem 27 casais e respetivos filhos.

Prometeram-lhes em 2001 que era um acampamento temporário. A avó Bea teve direito a casa mas cedeu-a ao filho mais velho e ficou a tomar conta do acampamento. Algumas das mulheres juntam-se também à plateia que escuta Maria Feliciana. Uma das filhas mais velhas, que já é bisavó comenta connosco: “A vida é difícil. Sem trabalho como é que se vive? Temos de sair, vai tudo para onde dão o que fazer”. A Vó Bea completa: “Sem trabalhar não dá para dar comidinha aos gaiatos. É a apanha da azeitoninha, dos tomates, é o que houver”. “Vão para Espanha trabalhar, para as vindimas, batatas, é o sustento da agricultura”. Um dos filhos de Bea também responde: “Falam do rendimento mínimo mas como é que os ciganos viviam antes do Guterres ter trazido isso? Não há rendimentos mínimos assim há tantos anos caramba”. No acampamento há quem tenha direito ao Rendimento Social de Inserção, mas segundo explica Carlos Alberto, de 62 anos, filho da matriarca “isso não alimenta a gente. Antigamente davam apoio até de comer, agora nada. Em Elvas fazem isso, a câmara ajuda as pessoas. Aqui temos de ir para fora senão há fome”.

Para uma das autoras do Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas, a ideia de que todos os ciganos portugueses vivem à custa do Estado é “limitada e falsa”. Manuela Mendes considera que o preconceito português para com este grupo é centenário, “esta diferença cultural e étnica, até de parecer físico, fez com que se construísse uma imagem negativa à volta desta comunidade com um contexto histórico muito forte, acabando sempre por ser marginalizado”, explica. Em Portugal, o que está documentado indica que a comunidade cigana terá chegado a território nacional no século XVI, bem na época em que Portugal navegador invadia países para os conquistar, como fez com o Brasil.
“As medidas e políticas nunca foram muito favoráveis aos ciganos. As coisas mudaram com o 25 de Abril, com a universalidade a nível de políticas de direitos e deveres em que se incluíam obviamente todos os cidadãos, incluindo pessoas ciganas”, diz a investigadora que explica que a entrada para a União Europeia veio permitir maior abertura de políticas, por exemplo, ao nível da habitação.

A especialista explicou ao i que o primeiro estudo nacional foi encomendado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e registou durante o ano de 2014 os dados de 1.599 pessoas ciganas, em todo o país.

“Eles não se querem integrar” Na zona do Beato, um grupo de amigos discute a problemática da integração das comunidades ciganas. Luís, designer de 32 anos, cresceu em Tomar e vive agora num bairro de ciganos em Lisboa. “Os meus pais eram comerciantes ambulantes e sempre tiveram problemas com ciganos. Chegaram a apontar-lhes uma garrafa de vidro partido para terem acesso à luz do meu pai”, conta. “No meu bairro há sempre problemas, falta de civismo, tudo destruído”, continua, enquanto um amigo que viveu no Monte da Caparica vários anos intervém: “Eu tive de sair de lá, porque passados tantos anos a viver com eles percebi que nunca iam mudar. Arrancavam portas para ir pedir apoios, havia tiros e mortes e tráfico de droga”. As generalizações apesar de perigosas, são uma constante numa sociedade em que a comunicação social tem um impacto forte na criação de estereótipos. Quando perguntamos aos dois rapazes se não conheciam não-ciganos que faziam o mesmo e famílias ciganas com comportamentos diferentes disseram que sim.

Em Monforte, as várias famílias ciganas mostravam interesse em integrar-se na sociedade, frequentando cafés e restaurantes na vila. “Só não vamos ao do senhor João, que não nos quer lá”. Ao visitarmos o restaurante, onde almoçamos no dia seguinte, o senhor João explica que uma vez teve uma zaragata porque queria fechar o estabelecimento e os clientes ciganos não queriam ir embora. “Não estavam a consumir, só cá estavam eles, eu queria fechar. Eles têm de se integrar, mas não querem integrar-se nem fazem esforço para se adaptarem às normas desta sociedade”, explicou na cozinha enquanto fritava batatas e estrelava ovos.

Um bairro riscado do mapa Seguimos em direção a Elvas onde sabemos existir uma grande comunidade cigana. Em Elvas são vários os funcionários da Câmara Municipal desta etnia. Chegámos ao Bairro das Pias. Procurámos pela Maria Fernandes, uma senhora irmã de Maria Cecília, nora da Vó Bea.

Quando chegámos ao bairro vemos várias casas baixinhas geminadas em condições degredantes. O esgoto está perto das casas, não há água da rede. Vemos esponja a sair das paredes que caem aos pedaços. Em cada casa chegam a morar três e quatro famílias. “Somos os esquecidos. Os senhores não têm nada de comer? Não como há dois dias”, pergunta-nos a senhora que procurávamos, que quase já não vê. Como Maria, também quase metade da população cigana representada no Estudo Nacional Com s, 48%, admitiu ter passado fome, dos quais 18,6% disseram que foi entre uma a duas vezes por ano e 13,7% entre uma a duas vezes por mês.

Um mar de crianças segue todos os passos que damos. A senhora não se lembra de quantos anos tem. Está muito magra, agradece-nos o lanche que lhe damos. “Olha que ela está a gravar oh”, diz uma das crianças mais rebeldes. Aqui “os gaiatos” são mais reguilas, não existe uma matriarca como a avó Bea. Um dos rapazes, com os seus doze anos apalpa o rabo de um dos jornalistas. “Porque é que fizeste isso?” perguntámos. “Porque me apeteceu e a dona é gira”. A criança é repreendida por uma adulta. “Nunca vamos conseguir educar com decência os miúdos a crescerem neste ambiente. Uma pessoa ensina, eles saem da porta e já esqueceram. Mas aí os vizinhos do lado conseguiram pagar os estudos aos gaiatos. Agora são grandes um até já é advogado”, conta de mãos à cintura Maria de 43 anos.

A perigosa tendência para generalizar Quanto à dificuldade de relacionamento entre pessoas ciganas e não ciganas, Manuela Mendes explica que “há obviamente preconceitos de parte a parte, reações que surgem em estilo boomerang. É uma comunidade muito grande a viver em diferentes contextos. Se falamos de uma comunidade que vive acantonada, em zonas de ninguém, isolados de serviços, fechados em si próprios com precárias condições de vida, obviamente que estas pessoas vão ter menos oportunidades e mais dificuldades em acompanhar os filhos”, explica. “Há muitas pessoas ciganas a trabalhar em grandes superfícies e que ninguém sabe que são ciganos, porque os próprios escondem do empregador essa informação. Não são nada raras as vezes em que estes têm formação adequada ao cargo mas sempre que dizem que são ciganos são postos de lado, não sendo escolhidos”, completa. O mesmo se passa com arrendamentos, explica Sofia de 30 anos, a viver no bairro que considera “completamente marginalizado”. “Uma pessoa junta dinheirinho, quer uma casinha e eles dizem ao telefone que há vaga. Mas quando a gente chega, perguntam se somos ciganos e de repente a casa já está alugada. Estão presos às coisas más que se dizem de nós, por uns pagamos todos. A nossa sina é viver na pele o vosso preconceito”, diz enquanto pega no filho mais novo pela mão.

Loures, onde estão os ciganos? O percurso pelas comunidades ciganas só termina em Loures. Como não conseguimos dados sobre criminalidade, porque as autoridades não distinguem crimes por etnias, dirigimo-nos à PSPlocal. Um agente pede-nos que tenhamos cuidado ao visitar o bairro cigano. “É um assunto sensível, mas não andem lá com máquinas e telemóveis”. Sendo que se desconhecia o que havia de encontrar, tomámos alguns cuidados com o material. Ao chegar ao bairro social onde apenas vivem ciganos, já fora da cidade de Loures, damos de caras com um prédio sujo. Por fora, as escadas e a entrada do prédio estão maltratados. Mais tarde, apercebemo-nos que, ao contrário do que vimos dentro das casas de Monforte e Elvas, aqui as casas têm mobília, várias divisões, luz e água e não vivem cerca de dez pessoas concentradas em apenas um apartamento. Na parte de trás do prédio, uma senhora estende a roupa que vende na feira: “A máquina avariou tenho de lavar tudo à mão”, explica à vizinha.

“Que pena terem vindo a esta hora, está tudo a trabalhar”, diz-nos João, natural de Avis. Aos 54 anos, com a barriga empinada para fora das calças, é um vendedor de automóveis, orgulha-se de ter os filhos bem orientados e mostra-nos a casa limpa e arrumada enquanto nos convida para entrar e nos pergunta se bebemos alguma coisa. “Então vieram em reportagem, não costuma vir cá gente. Agora vai haver uma novela sobre ciganos na TVI, pode ser que haja menos racismo”. O filho, Joaquim, tem uma filha de quatro anos, está a ensiná-la a andar de bicicleta sem rodinhas. “Aqui o pessoal trabalha todo, a Science 4 You está cheia de ciganos a trabalhar lá na fábrica, não se entende como é que aquele André Ventura consegue ser assim limitado. Vê-se mesmo que nunca veio saber como é que a gente vive”, diz enquanto faz zapping na grande televisão.

Para Manuela Mendes, André Ventura teve uma participação “lamentável cujo discurso não é legítimo nem confirmado pelos dados disponíveis pelo Estado português, é apenas um discurso populista”. A professora universitária considera que o preconceito só se combate com a interacção, com a partilha de experiências e espaços. Só assim podem ser vencidos os estigmas. “Temos de saber o que queremos dizer quando falamos em integração”, explica a investigadora que acrescenta que se a sociedade portuguesa quer que os ciganos se adaptem, também ela tem de se adaptar e não responder à sua presença de forma negativa. “Não é possível combater a discriminação apenas com base em políticas. Podem ajudar a melhorar a situação das pessoas discriminadas. Mas se as pessoas não se conhecerem, nem conviverem, sem contacto e partilha de experiências será muito difícil combater o racismo, estereótipos e discriminação. É muito importante que existam espaços de intercâmbio de conhecimentos, diálogo para que as pessoas conheçam o outro e as barreiras sejam derrubadas”.

Quanto à probabilidade de Portugal acabar com o racismo, Manuela costuma perguntar aos seus alunos:“Quantos amigos ciganos tens com quem vás beber um café?”.