Mostrar mensagens com a etiqueta Requalificação urbana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Requalificação urbana. Mostrar todas as mensagens

18.7.18

Arquitetos e população unem-se para mudar bairros

Pedro Emanuel Santos, in Público on-line

Casa da Arquitetura, sediada em Matosinhos, pensou e concebeu o projeto Lugar de Partilha. Uma forma de juntar profissionais da área de várias partes do Mundo com cidadãos comuns e colocá-los no mesmo patamar de importância, na hora de idealizar e trabalhar um novo espaço público. No Conjunto Habitacional da Guarda, em Perafita (Matosinhos), uma nova realidade nascerá em breve graças a esta ideia inovadora.

O conceito é tão simples que parecia já inventado. Mas não estava. Pelo menos em Portugal. Chama-se Lugar de Partilha, foi concebido pela Casa da Arquitetura e a ideia é colocar moradores de bairros sociais a pensar projetos que gostariam de ver concebidos no espaço comum em que habitam. Não só pensá-los, mas fazê-los perdurar no tempo. Depois, em conjunto com uma equipa internacional de arquitetos, todos põem mãos à obra. Literalmente. No Conjunto Habitacional da Guarda, em Perafita (Matosinhos), uma nova realidade nascerá em breve graças a esta ideia inovadora.

"Um forno comunitário para fazer pão e pizas". "Isso não dá que é precisa muita coisa complicada, antes um espaço para os miúdos poderem brincar à vontade". "E uma tendazita para uns teatros e umas animações, que tal?". "Ou uns baloiços, também pode ser". "Uns aparelhos de ginástica, talvez". As propostas iam saltando de boca em boca dos moradores do Conjunto Habitacional da Guarda, enquanto um atento grupo de arquitetos tomava notas que podem vir a transformar-se em realidade num curto período do calendário. Foi o primeiro passo da segunda edição do Lugar de Partilha, o ponto de partida da interação direta entre arquitetos e cidadãos comuns, os quais, juntos, pensam, desenham e constroem um projeto que dará ar e vida nova a um espaço público descaraterizado mas com potencial de bom usufruto futuro depois de alterado.

Pode abrir portas para o futuro"
Antes de tomarem a palavra, os participantes escutaram o desafio da presidente da União de Freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo. "Deem luta aos arquitetos, mostrem aquilo que querem", pediu Maria de Lurdes Queirós. E os moradores não se fizeram rogados. Sentados numa bancada do rinque do complexo, enquanto crianças ensaiavam remates a uma das balizas até a bola subir a um telhado e acabar com os sonhos do dia dos imitadores de Ronaldo, cerca de 50 inquilinos da Guarda começaram tímidos e acabaram tão entusiasmados que quase se interrompiam durante a catadupa de ideias que iam transbordando.

Atrás deles, o local onde a obra vai ganhar forma. Um pequeno descampado, quadrado irregular com altos e baixos de vegetação pouco cuidada, de onde sobressaem enormes calhaus, autênticas rochas a marcar posição de destaque. É lá que, daqui a semanas, vão começar a trabalhar em conjunto os voluntários moradores do bairro e cerca de duas dezenas de jovens arquitetos vindos de várias partes do mundo expressamente para participar neste Lugar de Partilha.

Confirmadas estão já as presenças de profissionais provenientes da Austrália, do México, do Brasil e de Itália. "É interessante para ficarem a conhecer outras realidades bem diferentes das que encontram nos respetivos países. Um intercâmbio que pode abrir portas para que no futuro queiram regressar a Portugal, que tanto apreciam por aquilo que é a história que conhecem de nomes internacionalmente consagrados como Eduardo Souto Moura e Siza Vieira", diz Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitetura.

Ele e os colegas Roberto Cremascoli, Edison Okumura, Ivo Poças Martins e Dulcineia dos Santos são os rostos do Lugar de Partilha. Coordenam ideias, organizam, dão as boas-vindas a todos os contributos que possam acrescentar qualidade e dinamismo ao conceito. Sempre com os moradores da Guarda como parceiros. "Estamos em igualdade de circunstâncias. Aqui não há eles e nós, somos todos um só. Partilhamos tudo, até as ferramentas e a mão de obra", descreve Nuno Sampaio. Foi assim o ano passado no Porto, no Bairro da Campinas (ler texto na página 8), será assim este ano em Perafita.

Projeto global e local
A Câmara de Matosinhos também promete uma ajuda no que for necessário. "Dissemos logo que sim ao projeto da Casa da Arquitetura. Este bairro está muito enraizado na freguesia, daí ter sido o escolhido. É o centro de uma comunidade populacional muito trabalhada", explica Luísa Salgueiro, presidente da autarquia e entusiasta do Lugar de Partilha. Ela mesmo também ajudou a que os moradores deixassem a timidez de lado e expusessem planos para o espaço que é deles e que querem ver melhorado.

"Seria bom que ficasse algo que permaneça no tempo, que seja para continuar e que melhore a autoestima das pessoas. Um espaço para socialização, na tradução daquilo que é a expressão "pensar global e agir local", augura Luísa Salgueiro. Está previsto que a obra nasça definitivamente em meados de agosto. Quando concluída, há promessa de festa para marcar a preceito a inauguração daquele que será um dos momentos mais importantes da história do Conjunto Habitacional da Guarda, bairro social com mais de 30 anos, onde cabem 400 moradores perseguidos por um estigma difícil de eliminar.

"Ainda somos olhados de lado por sermos daqui. Infelizmente, por mais anos que passem, as pessoas continuam a ter uma ideia errada sobre nós. Na verdade, não não damos problemas a ninguém. Os outros, às vezes, é que veem coisas más onde elas não existem", lamenta Lurdes Costa, uma das inquilinas mais antigas do Conjunto da Guarda. Outro dos objetivos do Lugar de Partilha é mesmo esse, dar protagonismo a quem a vida não tem proporcionado os melhores horizontes de justiça social. Como que colocar no mapa da igualdade de oportunidades quem, por morar num bairro, é praticamente sentenciado como cidadão de segunda. E, sobretudo, doar a essas pessoas as chaves para que possam mandar no próprio espaço público com as suas ideias. "Dar-lhes razões para melhorar a autoestima", resume Nuno Sampaio.
A guardiã do Conjunto Habitacional da Guarda"

Chama-se Lurdes Costa e é das inquilinas mais antigas do Conjunto Habitacional da Guarda. E das mais ativas. Na falta de uma associação de moradores é ela quem dá voz, corpo e manifesto às queixas e ambições dos habitantes do bairro. "Quando para aqui vim, há 35 anos, nem luz elétrica havia. Passei o primeiro Natal a comer uma sopa cozinhada no fogo aceso nas traves de madeira de uma cama velha, sentada no chão com o meu falecido marido e os nossos filhos", recorda. Muita coisa mudou desde então. A eletricidade não demorou a surgir, as casas foram-se multiplicando, chegou gente aos magotes para emoldurar o complexo. Hoje, Lurdes é uma espécie de porta-voz informal do Conjunto da Guarda. Foram dela muitas das ideias para o Lugar de Partilha. "O que vamos fazer não é para estragar", foi, desde logo, avisando. Sem levantar a voz, apenas com a autoridade de alguém que ali todos respeitam como se fosse ela a guardiã natural do bairro. O sonho de Lurdes Costa é o de sempre. "Gostava que o Conjunto da Guarda se abrisse a todos. E que fôssemos respeitados, porque ainda há muitos que não nos olham com bons olhos por sermos de onde somos." Com o Lugar de Partilha sentiu um pequeno clique. "Pode ser que seja desta."
Bairro das Campinas deu o primeiro exemplo"

A primeira edição do Laboratório de Autoconstrução Lugar de Partilha decorreu no ano passado, também durante o verão. O local escolhido foi o Bairro das Campinas, em Ramalde, uma das freguesias mais desfavorecidas do Porto. Na altura, a participação ativa dos moradores superou as melhores expectativas da Casa da Arquitetura, tanta foi a adesão popular. Vieram ajudá-los arquitetos de todas as partidas do globo, até da Austrália e do Japão.

"De início, os habitantes do bairro estavam um pouco desconfiados, mas acabaram por ser excelentes. Forneceram grandes ideias e entusiasmaram-se bastante com o projeto que eles próprios idealizaram", recorda Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitetura. As desconfianças iniciais foram quebradas com o decorrer dos dias. As ideias surgiram, os projetos foram ganhando forma e quando todos deram conta havia propostas "interessantes para serem executadas em conjunto". Daí até escolher o que passaria do papel à prática "foi um passo curto" e rapidamente as máquinas entraram em ação. Com arquitetos e populares em igualdade de circunstâncias na hora de pegar nas ferramentas e de dar o corpo ao manifesto. Menos de um mês foi o suficiente para ver nascer o que todos esperavam. Novos espaços públicos com que muitos moradores sonhavam, mas que nunca tinham passado de ilusões.

Foram construídas três estruturas que mudaram por completo uma área antes quase inútil e hoje participada pela comunidade das Campinas: o Bicho - um parque infantil que corre entre as árvores -, o Teatrinho - um coreto construído à base de vigas e pilares de madeira - e o Fogo - um círculo que rodeia o espaço onde tradicionalmente se acende a tradicional fogueira da noite de São João. Ainda hoje estes equipamentos estão à disposição dos moradores, que deles cuidam da manutenção com afinco. E que deles usufruem, claro. A ideia, agora, é que o que correu bem nas Campinas também corra na perfeição, este ano, no Conjunto Habitacional da Guarda. E que o Lugar de Partilha volte a ser exemplo que fica na memória e perdura no espaço físico.
Partilhe este artigo no Facebook
Twitter

13.9.17

Lisboa apoia 38 projetos em zonas e bairros prioritários, num total de 1,6 milhões de euros

in Diário de Notícias</i>

A Câmara Municipal de Lisboa vai apoiar 38 projetos ao abrigo do programa BIP/ZIP - Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária para 2017, num total de 1,6 milhões de euros, e que envolve 152 entidades.

Na edição deste ano, a autarquia recebeu 107 candidaturas de 336 entidades promotoras, que abrangiam 67 territórios BIP/ZIP.

Destas, foram selecionados pelo júri do concurso 38 projetos que incidem sobre 66 territórios do programa, levados a cabo por 152 entidades.

A edição de 2017 do BIP/ZIP foi hoje apresentada numa cerimónia de assinatura dos protocolos entre o município e as entidades promotoras e parceiras, que decorreu nos Paços do Concelho.

Entre os projetos aprovados encontram-se: uma rede de produtos conscientes, que irá criar uma plataforma comum para divulgação e distribuição de produtos locais com impactos sociais, um programa de capacitação e formação de jovens e crianças imigrantes e das diásporas em risco de exclusão social, um levantamento das memórias do bairro do Casal Ventoso, ou uma livraria solidária em Carnide.

Estes programas serão apoiados pela Câmara em 1,6 milhões de euros (valor igual ao da edição passada), aos quais acrescem 612 mil euros assegurados por outras fontes de financiamento (como parcerias com privados).

Entre os destinatários destes projetos estão a comunidade (22), as crianças (três), a família (um), os idosos (cinco) e os jovens (dois), entre outros (cinco).

Já as temáticas dos projetos passam por melhorar a vida do bairro, competências e empreendedorismo, reabilitação e requalificação de espaços, inclusão e prevenção, promoção da cidadania, entre outras.

Este programa foi criado em 2011 por Helena Roseta, na altura vereadora responsável pela Habitação, e já apoiou um total de 270 projetos.

Presente hoje na cerimónia, a atual presidente da Assembleia Municipal de Lisboa destacou que "neste programa são as organizações que decidem o que fazer e quem recebe o dinheiro" para pôr mãos à obra.

"Quando fazemos coisas em conjunto criam-se laços de amizade e este programa permite isso", advogou Helena Roseta, salientando que "é isto que dá energia à cidade".

No final da sua intervenção, a também deputada socialista à Assembleia da República comprometeu-se a "convencer o Governo a fazer um programa como o BIP/ZIP a nível nacional".

Por seu turno, a atual vereadora da Habitação e do Desenvolvimento Local da Câmara de Lisboa vincou que "este programa está para ficar e para durar", constituindo um exemplo de uma "governação participada".

"Desde 2011 temos 270 projetos, 1015 entidades e quase 1700 atividades", explicou Paula Marques, apontando um "investimento público de mais de 12 milhões de euros nestes anos".

Falando perante os representantes das entidades envolvidas, Paula Marques afirmou que "nos sítios mais improváveis é possível encontrar a marca e a energia BIP/ZIP por toda a cidade".

30.3.16

Aitor quer ser o “arquitecto de família” da população do Bonfim

Texto de Mariana Correia Pinto, in Público on-line (P3)

Aterrou no Porto para fazer um doutoramento sobre o processo SAAL e terminou a criar um projecto de reabilitação no oriente da cidade. Arquitecto espanhol quer fazer da sua profissão uma ferramenta de mudança do mundo. Só no Bonfim, o Programa Habitar tem duas mil casas abandonadas para recuperar

É um dia importante no "PREC" do número 295 da Avenida Rodrigues de Freitas. Depois da demolição de paredes, da colocação de 1500 quilos de entulho em sacos e da substituição de vidros partidos, a electricidade foi finalmente instalada no quarto piso do típico edifício portuense. Fez-se luz neste "Processo de Reabilitação em Curso" — assim gosta de lhe chamar Aitor Varea Oro, o arquitecto espanhol que trocou Valência pelo Porto a sonhar transformar-se no “arquitecto de família” da freguesia do Bonfim. O Programa Habitar, por ele delineado, abre em Abril um gabinete de atendimento na junta local, mas tem já um projecto piloto a ganhar forma. Quer ser uma nova solução para proprietários de casas devolutas, profissionais da construção e inquilinos em busca de habitação a preço justo.

Neste “laboratório” chamado Bonfim, Aitor encontrou muita matéria-prima para ser trabalhada: são duas mil as casas devolutas, 20 por cento do total de habitação da freguesia, e ainda um número não calculado de residências que, apesar de estarem habitadas, se encontram em mau estado. Não é um panorama anormal no centro da cidade, que na última década viu um terço da sua população virar-lhe as costas. Mas a batalha não foi dada como perdida no Bonfim: “Temos consciência dessa deslocalização para a periferia e reverter essa saída é uma prioridade. Por isso, apoiamos este projecto”, explica o presidente da junta de freguesia, José Manuel Carvalho.

Aitor era ainda estudante de arquitectura em Valência quando se apaixonou pela arquitectura portuguesa, e pela escola do Porto em particular. Por isso, quando a oportunidade de fazer Erasmus surgiu, não podia ter escolhido outro destino. Estávamos em 2005. Por esta altura, uma pergunta já era persistente na cabeça dele: afinal, qual era a função do arquitecto? Seria “fazer modelos ou fazer outra coisa com os modelos?” Terminado o curso, o arquitecto que um dia sonhou ser jornalista envolveu-se num movimento de moradores e na plataforma “Salvem El Cabanyal”, um bairro de Valência, na altura em risco de ver 1651 casas demolidas para dar espaço a uma nova avenida.

Foi “uma experiência marcante”. Durante um ano, em simultâneo com o doutoramento que havia começado, Aitor “viveu” no bairro e percebeu como as concepções arquitectónicas estavam incompletas. “Estava a fazer-se um projecto que tinha a ver com identidade do território, mas não se identificava a pobreza urbana como parte desse território e não se viam as famílias ciganas como moradores legítimos.” A lição ficou-lhe.

Quando rumou ao Porto para se dedicar a tempo inteiro ao doutoramento sobre o Processo SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), o projecto arquitectónico e político criado poucos meses depois do 25 de Abril, Aitor trouxe esse pensamento na bagagem. Mas então outra realidade se cruzou com ele: o bairro de São Víctor, escondido entre as ruas de São Victor e das Fontainhas, um projecto menos conhecido do SAAL de Siza Vieira. E o objecto de investigação do doutoramento mudou.

“A questão estava ali. Não era tanto o que tinha acontecido, mas qual a relação entre o que se queria visar com o 25 de Abril e o SAAL e a mentalidade ainda existente e visível através das ilhas e do direito à cidade”, contou ao P3. Numa pergunta, a investigação explica-se assim: “De que maneira, através da arquitectura, podemos criar cidades mais inclusivas e mudar o mundo?”

"Criar redes, não simplesmente parcerias no papel"

A mudança inicial do seu Programa Habitar está ali, na Avenida Rodrigues de Freitas, vistas para o jardim de São Lázaro. O acordo foi simples: Aitor Varea Oro sugeriu ao proprietário do edifício parcialmente desocupado e em mau estado que cedesse o quarto piso e, em troca, ficasse com um espaço parcialmente refeito. “A recuperação fica muito cara e esta solução permitiu-lhe poupar numa fase prévia: fazer demolições, pôr vidros em falta, limpar o espaço e colocar electricidade”, explica o arquitecto. “Estas coisas mudam o ‘chip’. O proprietário já não pensa que tem uma ruína mas antes uma oportunidade.”

Liliana Lopes veio testemunhar o dia em que se fez luz na próxima morada da associação Espaços - Projetos Alternativos de Mulheres e Homens. Cruzou-se com Aitor em 2015 por um mero acaso. Moradora de uma ilha na Travessa do Campo 24 de Agosto, foi à junta do Bonfim pedir ajuda na recuperação dos espaços comuns. Descobriu que não havia nenhum programa para aquilo que queriam fazer, mas despertou o interesse de Alda Pena, responsável do pelouro da coesão social. “A Alda disse-me: o que eles estão a fazer é muito interessante. Vê se aprendes alguma coisa com eles e se podes aplicar ao resto do Bonfim”, graceja Aitor Varea Oro. A rede começava ali a ser criada.

O mentor do Programa Habitar foi conhecer a ilha e quando Liliana lhe falou da procura inglória de um espaço para a associação de promoção de igualdade de género e direitos humanos, da qual faz parte, deu-se o clique. Juntamente com a associação Critical Concrete, focada na intervenção arquitectónica sobre o espaço urbano numa perspectiva social, a Espaços será, em breve, o nova inquilina do quarto andar. “Foi muito importante porque precisávamos de um espaço para nos candidatarmos a um apoio e não tínhamos capacidade financeira para arrendar. Se tudo correr bem, esse projecto vai permitir dar trabalho remunerado durante seis meses a três jovens desempregados”, contou Liliana Lopes, docente na Escola Superior de Educação do Porto e voluntária neste projecto.

Esta parceria “improvável” entre as associações acabou por se alargar ao Habitar, do qual as associações se tornaram parceiras. E isso significa um dos objectivos do programa cumpridos: “Queremos criar redes, não simplesmente parcerias no papel.” Com uma candidatura a um apoio europeu, o Actors for Urban Change, vão receber no Verão deste ano estudantes do mundo inteiro para reabilitar um edifício do Bonfim. “No futuro queremos implementar esta estratégia no território não com estudantes mas com operários, com mão de obra local.”

No gabinete de atendimento do Programa Habitar, Aitor quer fazer os proprietários perceberem que além das opções óbvias — deixar a casa ao abandono ou vendê-la — há uma outra : “Encontrar financiamento público, ter uma equipa do Habitar a coordenar o projecto e, se for necessário, encontrar um inquilino através da junta”.

O momento para implementar a ideia, diz o presidente independente eleito na lista de Rui Moreira, não podia ser melhor. Em 2015, foram adicionadas à freguesia duas novas zonas de requalificação urbana e, na área destinada à vizinha Campanhã, há ainda uma parte significativa incluída no território do Bonfim, freguesia criada por um decreto de Costa Cabral a 11 de Dezembro de 1841. “Estar nessa zona de requalificação traz vantagens, nomeadamente no IVA, que numa reparação normal é de 23 por cento e nestas áreas é de 6 por cento”, realça.

A junta tem desde 2014 um outro projecto de apoio à reabilitação, “Casa Reparada, vida Melhorada”, através do qual foram já intervencionadas uma dezena de casas e há “mais duas ou três em curso”. A equação, diz Aitor Varea Oro, é simples e só traz ganhos: “Se há duas mil casas vagas significa que há muitas oportunidades económicas perdidas para os proprietários, para inquilinos que procuram habitação a preço justo e não encontram, e para os próprios trabalhadores da área da construção.” Para o espanhol, haver tantos arquitectos portugueses a emigrar numa cidade com quatro escolas de arquitectura e tanta necessidade de reabilitação é um completo contra-senso. “É um problema enorme e muito abrangente, tem a ver com economia local e uma cidade mais livre.”

Na rua de São Víctor está já em vista um segundo espaço a ser intervencionado pelo Habitar — agora em “stand-by”, à espera de ver resolvido um conflito entre vizinhos. Convencer a proprietária foi, neste caso, “um trabalho quase psicológico”, conta Aitor: “Foi dizer-lhe: ‘não se preocupe porque tem uma oportunidade, não um problema.” A ideia para esta casa é fazer uma reabilitação através do Reabilitar para Arrendar, do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), um programa de arrendamento em regime de renda condicionada. Com a ajuda do Habitar, a proprietária pode apresentar um orçamento para a recuperação e, com ele, ficar a saber quanto tem de pagar mensalmente pelo empréstimo, até um máximo de 15 anos. Se a prestação for superior àquilo que o proprietário cobrar por renda o empréstimo não é concedido, se for inferior é. “Isto significa que desde o primeiro dia, o senhorio tem alguém a habitar a casa e a pagar o empréstimo e o inquilino tem uma habitação a preço justo”, conta.

É apenas neste cenário que a arquitectura faz sentido para Aitor, vista não apenas como uma definição física do espaço, mas sobretudo um “serviço básico, como a educação e a saúde”. Por isso, gosta de imaginar um futuro onde haja uma espécie de “arquitecto de família” para as populações. Porque o direito à habitação, diz, “não é um problema das pessoas com poucos recursos”. “Diz respeito a todos nós e tem um impacto muito grande no funcionamento das cidades.”

Aitor já não tem dúvidas sobre o papel de um arquitecto na sociedade. E acredita que a arquitectura “está a evoluir” — como comprova o prémio Pritzker deste ano, o chileno Alejandro Aravena, conhecido pelos seus revolucionários projectos de habitação social. No processo SAAL, Aitor descobriu dois arquitectos que ganharam graças de “heróis” na lista dele. “O Nuno Teotónio Pereira e o Nuno Portas propunham uma coisa: organizar a procura em vez da oferta. Organizar as populações”, diz. É isso que o Habitar sonha fazer — agora no Bonfim, no futuro noutras freguesias da cidade. “Temos ferramentas para que isso aconteça agora, não precisamos de outro 25 de Abril.”

11.5.13

Worst Tours. Cumbite ao Porto que não vem nos guias turísticos

Por Joana Azevedo Viana, in iOnline

Três arquitectos entre part-times criaram a pior excursão do Porto para alertar para os problemas da cidade. “Não fazemos turismo de desastre. A realidade é que é um desastre”

Sobra sempre mês no fim do dinheiro dos três arquitectos que criaram as Worst Tours Porto. Não que eles as façam para rechear a carteira. Entre teletrabalho, distribuição de panfletos, ilustrações e outros biscates, Gui, Isabel e Pedro fazem deste turismo alternativo passatempo, não profissão. Quem responde ao “cumbite” no site é que decide o que quer pagar.

A ideia não é peregrina mas já peregrinou para outras bandas. “Há uns meses duas raparigas vieram fazer a tour. Estavam sem ideias para a tese do curso de Arquitectura e ocorreu-lhes viajar por cidades europeias para uma comparação arquitectónica. Depois da visita disseram que também há lugares destes na ilha delas e que iam montar a Worst Tours Taiwan”, contam Gui e Pedro a completar as frases um do outro, ao lado de Isabel, a arquitecta de poucas palavras, proferidas quase em surdina.

Estamos no Marquês, ponto alto do Porto, de onde partem todas as Worst Tours. Daqui é sempre a descer. “São as piores para não defraudar expectativas”, explica Gui com sotaque carregado do “Puorto”, a rir, quando questiono a origem do nome de baptismo das excursões – nascidas há “alguns meses” como “micro--resposta ao êxodo forçado, à austeridade e à destruição económica neoliberal”.

À nossa frente, três painéis de lona gigantes pendem da fachada de um edifício com a “cronologia recente e incompleta das mortes em operações policiais” dos últimos meses por todo o país: Ruben, Flávio, Elson, Tiago, Nuno, Álvaro, todos entre os 18 e os 30 anos, abatidos na Amadora, em Portimão, Setúbal, Gondomar...

É daqui que partimos. “Este prédio está no centro de uma disputa de heranças e um dos herdeiros decidiu criar uma associação, a Casa Viva, onde há encontros e concertos todas as semanas”, explica Gui quase aos berros, para se sobrepor às vozes das dezenas de jovens que hoje decidiram vir apanhar sol nesta praça. “Com que então é daqui que vem a música que ouço às vezes...”, observa um dos turistas do grupo.

Degradação Esperava-se uma visita intimista e é essa a primeira expectativa a sair defraudada. Não que nos importemos. “Ontem fomos contactados por um britânico para fazer a tour”, disse--me o trio antes de eu chegar ao Porto, achando que seríamos só nós. “Onde é que vamos encontrar-nos mesmo?”, envio por SMS. “Marquês!Linha Amarela.” “Ah, bem me parecia que não era a Praça da Liberdade...” “Não faz mal. Lisboetas perdidos são o nosso prato preferido!”

Ao britânico nem vê-lo. À hora marcada aparecem dois eslovacos, um francês, dois luso-descendentes do Luxemburgo e dois portugueses. “Despachem-se, são sete!”, grita Pedro num telefonema àGui, depois de nos ter deixado num café das redondezas a falar sobre o projecto.

Corremos para o Marquês. Feita uma curta apresentação, os três arquitectos começam a discutir que rumo tomar. É uma das marcas destas visitas: nunca há caminho predefinido. Avisados os presentes de que a discussão é “normal” – para adequar o passeio ao que cada um conhece e ao que cada um quer conhecer – Pedro agarra num mapa.

“Se repararem, parece uma mão aberta”, diz mostrando as cinco ruas assinaladas com marcador amarelo fluorescente, que desaguam na Baixa. “Estamos numa zona que há 200 anos era a fronteira entre a cidade e os campos dos arredores [agora subúrbios a abarrotar de prédios]. Hoje vamos descer por aqui”, explica a apontar o dedo indicador do mapa, a Rua do Bonjardim. A viagem a pé acabará na palma desta mão.

A caminho da rua passamos pelo “casino a céu aberto” numa das pontas da praça, onde grupos de reformados jogam cartas em frente à igreja do Marquês. Metros à frente, a primeira paragem de uma tour que vai provar-se demasiado curta: “Isto devia estar ocupado”, largam Pedro e Gui em frente ao edifício forrado de azulejos verdes, com uma estética que destoa dos demais.

Não será a única vez que os ouviremos dizer isto. Com a breve explicação sobre as diferenças entre esta mansão “show-off construída por uns portugueses retornados do Brasil” e os “prédios típicos do Porto, de granito, madeira e azulejos que, se não apanharem água dentro, duram séculos”, os guias parecem aperceber-se de que estão a perder a audiência.
A atenção é recuperada metros abaixo, quando voltam ao activismo e à ocupação. Estamos à porta do Musas do Bonjardim, uma associação bairrista com 70 anos que esconde uma pérola pouco conhecida de quem não é do Porto (e mesmo de quem é, a julgar pelo espanto do turista portuense). Dentro da casa joga-se xadrez, reúnem-se amigos do bairro, lêem--se livros emprestados pela biblioteca popular. Ao lado, uma portinhola de ferro esconde umas escadas tortas com uns cem degraus. “Querem entrar ou não vale a pena?”

A subida a custo neste sábado de calor vale muito a pena. A namorada do eslovaco – único repetente das Worst Tours – corre para o baloiço improvisado com uma grade de cervejas e cordas, pendurado no ramo de uma árvore. Os irmãos luxemburgueses acocoram-se para observar plantas, árvores de frutos e flores desta horta comunitária, que pela altitude oferece uma vista deslumbrante sobre a cidade, deixando-nos ao nível do cimo das torres da Lapa.

Custa a crer que estas plantas sejam um dos motivos para a acção de despejo que está a ser movida pelos senhorios contra os arrendatários do espaço, onde há até um galinheiro e uma estufa com morangos de aspecto apetitoso.

OMusas é um dos poucos exemplos de aproveitamento de espaços abandonados ao longo da visita – sempre feita a pé, “até porque os autocarros turísticos não encaixam nas ruas mais interessantes”. O edifício que observámos minutos antes, como muitos dos prédios que vamos vendo, estão ao abandono, questão que é destacada várias vezes na visita. Com a ressalva de que as excursões e tudo o que nelas se diz é a versão “deles” – os arquitectos feitos guias turísticos, que se recusam a aceitar os maus-tratos, a burocracia e a falta de investimento na arquitectura única da Invicta.

Melhor empreendedor do mundo “Se quisermos ser empreendedores no Porto”, lamenta-se Gui, “tudo tem de passar pela Câmara. E qualquer documento traz uma nota de rodapé a dizer que não podemos dizer mal da Câmara. Mas o que é isto?! Quem chega aos microfones a elogiar as oportunidades maravilhosas neste país só pode estar comprado. Nós por cá vemos pessoas a dormir em cada esquina, gente sem electricidade porque o dinheiro não chega, gente nossa forçada a emigrar... Ruas em que só os bancos sobreviveram ao rolo compressor austeritário.”
Exemplo disto é a Es.Co.La da Fontinha, famoso caso da ocupação de uma escola primária ao abandono, numa colina perto de onde estamos agora, que fez correr tinta nos jornais de norte a sul do país em 2012. Um grupo de activistas ocupou-a e criou um espaço de actividades comunitárias; Rui Rio despejou-os e falou com associações culturais, que assinaram papéis a prometer não falar mal da Câmara. “Agora parece um hospital, tudo muito branco, com umas secretárias vazias, completamente descaracterizado”, diz Pedro. “Foi de centro social a centro de escritórios”, acrescenta Gui.

OWorst Tours, sublinham, é também uma crítica irónica a este “empreendedorismo auto-elogiado, sempre brilhante, sempre o máximo, sempre o melhor bolo de chocolate do mundo”.

Contra os melhores empreendedores, as piores excursões. E, sem dar por ela, chegamos ao Guggenheim. Quem já visitou o museu de Nova Iorque entende o paralelismo com o Silo Auto, parque de estacionamento circular ao lado da Torre dos Clérigos, que hoje poucos ou ne-nhum carro alberga. Voltamos a ouvir a frase “Isto devia estar ocupado”. “Até já pensámos num nome”, diz Pedro. “Silo Arte! Esta fachada merecia umas pinturas e lá dentro faziam-se actividades...” O eslovaco, com os ombros a arder fora das mangas cavas, responde com ar sério:“Mas depois os bancos ficam sem ele e eles precisam tanto do dinheiro...”

Erro de um ditador Já em modo acelerado, para não alargar em demasia a visita de três horas, vamos saltando de zona em zona: do Silo Arte (ainda Auto) descemos a Santa Catarina, a rua do comércio, com paragem no mercado do Bolhão, onde é Pedro que adopta um tom falsamente sério. “Este edifício é arquitectonicamente tão inteligente que queriam fazer dele um centro comercial...”“Auch”, reage, com real dor, a luxemburguesa que veio estudar para o Porto para aprender a língua e a cultura dos pais e dos avós. “Há seis anos ganhámos a batalha contra a câmara”, diz-lhe Pedro em jeito de consolação. “Mas precisa de ser reabilitado.”

Enquanto os outros dois arquitectos continuam a explicação em inglês, Isabel vem segredar-me “oque se está a passar” com o Bolhão. “É o que chamamos estratégia de degradação. A câmara não renova licenças, então as novas gerações estão impedidas de vender aqui. E ao mesmo tempo vai tirando estátuas que embelezam a fachada, não recupera partes degradadas... Deixa propositadamente que o edifício morra para poder fazer dele o que quer.”

Entre opiniões sobre o capitalismo impiedoso – que leva chineses a atirarem-se de janelas de fábricas para não continuarem a ser escravos-produtores de iPads – e uma paragem para aplaudir Ozi – um australiano que manuseia um fantoche tocador de violino em Santa Catarina – vamos dar à Passos Manuel, famosa rua do Coliseu. “As paredes foram pintadas recentemente porque se há coisa para a qual não há limites de orçamento aqui no Porto é para tapar posters e graffiti políticos”, explica Pedro a apontar para as fachadas, de um amarelo suave, sem pingo de mensagens.
A piada do Coliseu – e aqui voltamos a falar de arquitectura – é que é fruto da ditadura de Salazar. Os mais atentos, portugueses ou não, reparam rapidamente que a arquitectura pouco tem a ver com quase tudo o que se vê na cidade; uma breve viagem pela história da arquitectura mostra que é da corrente modernista, quase a dar para o Art déco. “Salazar não sabia que o modernismo estava ligado aos princípios da transparência, do acesso à cultura, do comunitarismo...” Quando descobriu, o mal já estava feito. E hoje o pessoal agradece.

Volta, SAAL, estás perdoado A correria que se segue pede um regresso para segunda, terceira, quarta visitas. Da Passos Manuel à Praça dos Poveiros, daqui pela Rua das Fontainhas em direcção às margens do Douro e paramos num dos arquipélagos de “ilhas”, bairros típicos do Porto, com casas térreas e quintais partilhados, que hoje albergam cerca de 8% dos portuenses. A paragem leva os arquitectos a uma viagem no tempo, para lamentarem, como tantos outros, o abandono do projecto SAAL. Liderado por Nuno Portas (“Vénia a ele”) no pós-25 de Abril, foi, dizem, “um exemplo de desenvolvimento arquitectónico e urbanístico participado”, no qual “não só foram tidas em conta as necessidades das pessoas, como elas acompanharam todo o processo”.

Daqui, descida em velocidade até ao rio e à Calçada das Carquejeiras, para espreitar os tanques comunitários, as casas degradadas nas encostas do rio, as cinco pontes seguidas que o atravessam.

Num dos muros onde paramos para recuperar o fôlego, uma única mensagem sobreviveu às limpezas estratégicas da Câmara: “Somos todos imigrantes.” Neste grupo quase todos são. Antes da despedida chegamos ao maior arquipélago de ilhas da cidade.“Com quem então não fazemos turismo de desastre?”, comenta Isabel com os colegas, ao passearmos entre as casas de gente pobre, ali espremidas com vista para o Douro. “Nós não fazemos turismo de desastre”, responde Pedro. “O nosso turismo é neo-realista. A realidade é que é um desastre.”

9.4.13

Câmara do Porto transferiu 1,6 milhões para a Domus Social para esta fazer “reabilitação”

in iOnline

O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, afirmou segunda-feira à noite que a autarquia transferiu 1,6 milhões de euros para a empresa municipal Domus Social para esta poder fazer "reabilitação" de habitação camarária.

O autarca respondeu assim ao deputado municipal do Bloco de Esquerda (BE) José Castro, que quis saber por que motivo a Câmara transferiu aquela verba se o executivo municipal realça que a empresa "é autossuficiente".

Rio disse que as rendas que os inquilinos camarários pagam à Domus Social chegam para salários e "manutenção", mas não para fazer obras de reabilitação que custam "milhões de euros.

A reabilitação "jamais" podia ser custeada através das rendas, a menos que estas fossem muitos superiores, salientou.

José Castro colocou a questão durante a Assembleia Municipal, que discutiu e aprovou alterações aos contratos-programa da Câmara com três empresas municipais: Domus Social, Porto Lazer e GOP.

Tais alterações resultam da lei n.º 50/2012, de 31 de agosto, que aprova o regime jurídico da atividade empresarial local, e para Rui Rio são do "puro domínio da burocracia".

"Pelos vistos é uma lei mazinha, mas foi proposta pela coligação PSD-CDS", comentou José Castro.

A Assembleia aprovou também, e por unanimidade, uma "alteração ao mapa de pessoal" relacionada com a absorção de trabalhadores oriundos do Teatro do Campo Alegre, equipamento que passou a estar sob a alçada direta da Câmara porque a Fundação Ciência e Desenvolvimento foi extinta devido a imposição governamental.

O Bloco de Esquerda procurou saber a situação dos antigos trabalhadores daquele teatro e a vereadora Matilde Alves disse apenas que "alguns" mudaram-se para a câmara e outros para "outros sítios".

"Doze preferiram sair" da esfera municipal, segundo a vereadora Guilherma Rego. O BE estranhou que tal tenha acontecido.

Os deputados municipais aprovaram igualmente as propostas de cedência de dois terrenos, em direito de superfície, à Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral-Norte.

Pacíficos foram, ainda, os votos de pesar pelas mortes recentes do professor e ensaísta Óscar Lopes e do antigo vereador da Câmara e deputado da Assembleia Municipal do Porto Manuel Andrade.

6.11.12

Câmara de Lisboa quer vender prédios que serão pagos só depois de reabilitados

Por Liliana Pascoal Borges, in Público on-line

A Câmara de Lisboa vai colocar à venda 80 edifícios ao abrigo do programa Reabilita Primeiro, Paga Depois. Nos próximos anos esse número deverá ser acrescido de mais duas ou três centenas. A novidade deste programa reside no facto de os compradores, em troca da realização de obras de reabilitação definidas pela autarquia, poderem pagar o valor dos prédios apenas no final do prazo contratualizado para fazerem as obras. A câmara espera obter, no final do processo, uma receita da ordem dos 160 milhões de euros.

A Câmara de Lisboa vai colocar à venda 80 edifícios ao abrigo do programa Reabilita Primeiro, Paga Depois. Nos próximos anos esse número deverá ser acrescido de mais duas ou três centenas. A novidade deste programa reside no facto de os compradores, em troca da realização de obras de reabilitação definidas pela autarquia, poderem pagar o valor dos prédios apenas no final do prazo contratualizado para fazerem as obras. A câmara espera obter, no final do processo, uma receita da ordem dos 160 milhões de euros.

"Nesta primeira fase temos já 60 edifícios na cidade de Lisboa e até ao final do ano contamos ter mais 20. Ao longo dos próximos anos pretendemos colocar mais, num universo de 200 edifícios que temos neste momento", afirma o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa. Os edifícios já disponíveis, espalhados por toda a cidade, encontram-se devolutos e variam em área e número de fracções habitacionais e comerciais. O valor a cobrar pelo município dependerá da localização, área e estado de conservação.

De acordo com a câmara, a iniciativa destina-se a "investidores privados, colectivos, nacionais e internacionais", sendo os imóveis vendidos na sua totalidade. Isto é: quem quiser adquirir apenas um apartamento, só o poderá fazer se o prédio tiver uma única habitação.

O programa pretende estimular a reabilitação urbana, prorrogando o pagamento do imóvel adquirido à câmara por um prazo que, em média, não deverá ultrapassar os três anos - dois para aprovação do projecto e realização das obras e um para comercialização do imóvel.

O site do programa apenas disponibiliza, para já, informações sobre as áreas, número de pisos, localização e estado de conservação dos edifícios, sendo possível efectuar pesquisas por zonas e freguesias. Neste momento não estão ainda disponíveis os valores de venda.

"A Câmara de Lisboa é um grande senhorio, um dos maiores senhorios da cidade e nem sempre um bom senhorio. Temos muito património, nem sempre o conservamos e tratamos como deve ser", salienta a vereadora da Habitação, Helena Roseta. Dos 320 mil fogos habitacionais que existem em Lisboa, 26 mil pertencem à autarquia. Deste total, 23 mil localizam-se em bairros municipais construídos para a população carenciada, estando os restantes dispersos pela cidade, com uma forte concentração em zonas históricas.

Helena Roseta afirma que entre o dinheiro que a câmara recebe de rendas e o que gasta em conservação, se não se fizer nada, daqui a 10 anos o município terá "um saldo negativo de 500 milhões de euros". A vereadora nota, contudo, que a autarquia tem "a faca e o queijo na mão", podendo inverter esta tendência. "Se estes novos programas puderem ser realizados, os cálculos apontam para um fluxo de caixa anual que pode chegar aos 20 milhões de euros. Ao fim de 10 anos podemos conseguir um valor anual líquido que pode atingir os 160 milhões de euros", afirma.

Para facilitar a concessão de empréstimos aos investidores que irão comprar e recuperar estes edifícios, a câmara assinou ontem um protocolo de intenções com o sector bancário. As condições de acesso ao crédito não estão, no entanto, definidas no protocolo e serão analisadas caso a caso, tendo em conta as especificidades de cada uma das obras e de cada cliente.

António Costa afirma que este protocolo serve para auxiliar a compra, feita por pagamento diferido, e que as obras terão um IVA reduzido a seis por cento. O presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Faria de Oliveira, adiantou que à banca "compete analisar, em função dos potenciais compradores, a sua capacidade financeira", não havendo condições especiais de crédito para o efeito.

Maioria dos imóveis está no centro histórico

Dos 60 imóveis já disponíveis para venda nesta primeira fase, a grande maioria localiza-se no centro histórico da cidade, com um total de 36 edifícios. O programa pretende não só impulsionar a reabilitação do património edificado, como estimular o mercado de arrendamento habitacional e comercial, combatendo igualmente a desertificação de muitas zonas de Lisboa.

Entre os imóveis cujas fotos estão disponíveis no site Rehabitar Lisboa encontra-se o prédio com os números 129-137 da Rua da Madalena. O edifício, com um área bruta de 1257 metros quadrados, dispõe de cinco pisos, sótão e cave. Os usos permitidos são habitação, empreendimentos turísticos, comércio e serviços. A freguesia de Santo Estêvão é das que dispõe de mais imóveis camarários para venda, num total de sete. De acordo com o site da câmara, o Reabilita Primeiro e Paga Depois só entrará em vigor depois da sua aprovação pela Assembleia Municipal.

29.6.12

Franceses querem ver trabalho de reabilitação nos bairros

in Diário de Notícias

Várias instituições francesas ligadas à Habitação e Reabilitação visitaram hoje o Porto para "colher a experiência" da cidade nestas áreas, com particular interesse pela intervenção da Câmara nos bairros sociais, revelou o presidente da Câmara do Porto.

"Pelo que me apercebi, eles têm mais interesse no trabalho da Domus Social [responsável pela gestão do parque habitacional camarário], porque se trata de um modelo que deve ser muito difícil de encontrar no mundo", afirmou Rui Rio, em declarações aos jornalistas.

O autarca sublinhou ainda que a empresa municipal que gere as casas de 18 por cento da população residente no Porto "já tem uns anos" e foi-se "aprimorando", motivo pelo qual suscitará interesse fora do país.

"Fomos aperfeiçoando muito [o trabalho da Domus Social] e hoje temos um 'know how' grande na reabilitação dos bairros. Hoje fazemos melhor do que no início e as reclamações dos moradores relativamente às obras que vão sendo feitas são hoje muito menores, porque fomos aprimorando e fazendo exigências novas aos empreiteiros", descreveu o edil.

As várias instituições públicas e privadas francesas ligadas à Habitação e Reabilitação, hoje recebidas nos Paços do Concelho, são "responsáveis pelo alojamento de mais de cinco milhões de franceses", acrescentou

"Nesta visita vêm colher uma experiência, na vertente social e da reabilitação. Não quer dizer que seja melhor do que a deles, mas vêm perceber como as coisas funcionam, porque aquilo que é do conhecimento em França é que a cidade do Porto tem uma experiência grande em matéria de reabilitação", justificou Rui Rio.