6.12.07

As propostas dos jovens estão quase prontas

Raquel Albuquerque, in Jornal Público

A Cimeira da Juventude África-Europa, de 5 a 7 de Dezembro, junta cerca de 250 jovens africanos e europeus para definir novas formas de cooperação


Admirado com o nevoeiro do início da manhã de ontem, Bertin Sitini lembra que é a primeira vez que está na Europa. Lisboa é a cidade que lhe transmite esse impacte inicial. É coordenador da Associação de Estudantes Sobreviventes ao Genocídio no Ruanda e representa na Cimeira da Juventude África-Europa, assim como todos os outros jovens presentes, a vontade de criar uma relação de cooperação entre os dois continentes.

"Gosto muito deste contraste que se vê e aprende-se muito com este contacto", disse Sitini ao PÚBLICO. O ambiente que se vivia na sala do centro Ismaili, na Fundação Aga Khan, denotava a mistura de culturas e, sobretudo, de línguas. Dezenas de jovens tentavam conhecer-se, conversando rápida e efusivamente, partilhando experiências, trocando contactos. O inglês e o francês confundiam-se, num atropelar de palavras, e quase sem se dar conta do salto de uma língua para outra. "Não oiço muito português aqui", confessou Sitili, antes de começar a sessão de abertura da cimeira.

Assim que se deu início à sessão, os auscultadores que tinham sido distribuídos permitiram que os intérpretes dessem sentido às palavras que se ouviam. Um burburinho redundante criava uma estranha sensação de estarmos envolvidos entre várias línguas, que anunciavam diferentes culturas, hábitos e tradições.

"Nós queremos poder vir à Europa estudar, investigar e levar conhecimentos para os nossos países", retomou Bertin Sitini.

"Interessa que este encontro seja um começo. E que daqui se leve muito", disse ao PÚBLICO Lévis Ntabiriho, presidente do Colectivo de Promoção das Associações de Estudantes do Burundi. "A relação a criar entre África e a Europa deverá basear-se na igualdade e parceria, não num sentimento de superioridade", acrescentou.
Ntabiriho fala do seu pequeno país, envolvido nessa esperança de que a nova relação se efective, mas com noção das dificuldades e riscos. O Burundi, situado entre o Ruanda, a Tanzânia e a República Democrática do Congo, "regista progressos", mas é necessário um desenvolvimento e este encontro deverá servir para "descobrir os obstáculos existentes".

Alguns dos jovens - e o limite de idade das associações juvenis africanas vai até aos 40 anos - já se conheciam. E as pausas entre as sessões servem para que os que ainda não se conheciam ajam como eternos vizinhos. No entanto, ficam a faltar aqueles quem não foi dado o visto de entrada.

"Sabemos que a imigração clandestina é uma preocupação legítima, mas houve jovens que não puderam sair do país para vir à cimeira", destacou Maquento Lopes, secretário-geral da União Pan-africana da Juventude. Essas dificuldades levaram a que alguns países africanos não estivessem representados, como o Chade, Malawi, Zâmbia e República Democrática do Congo.

Um ano e meio de trabalho e a dedicação de muitas centenas de jovens estão por trás deste encontro, segundo Carla Cruz Mouro, presidente do Conselho Nacional para a Juventude. "Será entregue na cimeira UE-África um documento onde estão as propostas concretas, outras medidas e algumas sugestões procurando que se concretize esta cooperação", concluiu.

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, esteve presente na sessão de abertura da Cimeira da Juventude. Cavaco Silva destacou o papel de Portugal como interlocutor entre a Europa e África e o seu desejo "de promover o reforço das relações" entre os dois continentes. Para que essa relação seja possível, os direitos humanos devem ser respeitados. "É particularmente significativa a importância atribuída aos direitos humanos, a liberdade, a democracia, a igualdade, a justiça e a solidariedade", disse o Presidente, referindo ainda o papel fundamental dos jovens e a necessidade de um "melhor conhecimento do mundo".