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11.7.22

Resposta do SNS à pandemia com "impactos profundos" nos cuidados de saúde

in TSF

O Conselho Nacional da Saúde aponta para uma redução de 700 mil cirurgias programadas e de 50 mil urgentes em 2020.

"A organização da resposta em cuidados de saúde à Covid-19 teve impactos profundos na prestação de cuidados de saúde não-Covid substanciados na alteração da atividade assistencial, na redução das atividades relacionadas com a prevenção da doença ou promoção da saúde", sublinha o relatório "Pandemia de Covid-19: Desafios para a saúde dos portugueses" esta segunda-feira divulgado.

Segundo o documento do Conselho Nacional da Saúde (CNS), comparando com a média de 2015 a 2019, em Portugal continental registou-se uma redução de 19% no número de intervenções cirúrgicas programadas em 2020, ou seja, menos cerca de 700 mil cirurgias, com redução superior (23,1%) nas cirurgias convencionais.

Mesmo as cirurgias urgentes tiveram uma diminuição de 8,3%, com menos cerca de 50 mil realizadas no primeiro ano da pandemia, refere o órgão independente de consulta do Governo, que concluiu ainda que pouco menos de 3/4 das consultas foram realizadas dentro do Tempo Máximo de Resposta Garantido em 2020, valor que voltou a subir para os valores pré-pandemia em 2021.

De acordo com o documento, durante 2020 e 2021 registou-se também uma quebra do número de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, comparativamente ao período de 2016 a 2019, assim como uma diminuição de 1,1 pontos percentuais da cobertura da população inscrita com médico de família, contrariando uma tendência crescente verificada em anos anteriores.

"Nos cuidados de saúde hospitalares a redução da proporção de utentes com acesso a cuidados foi um pouco mais marcada", refere o documento, ao avançar que, em 2020, houve uma redução de 12,2 a 21,6% das primeiras consultas hospitalares, sendo esta diminuição menos acentuada nas consultas subsequentes (entre 0,04% e 16,6%).

Também os cuidados de saúde preventivos sofreram uma "forte disrupção com a pandemia", particularmente evidente em 2020, indica o documento, alertando que, se a diminuição da atividade assistencial tem implicações profundas no imediato, os impactos na área dos cuidados preventivos e de promoção da saúde "certamente se encontrarão com maior evidência no avanço da linha do tempo".

De acordo com o relatório, a vigilância das pessoas com diabetes sofreu um "impacto significativo", com redução da proporção de vigilância do pé diabético ou controlo de hemoglobina glicada.

"Existiu igualmente uma redução de 102.812 pessoas rastreadas para a retinopatia diabética no ano de 2020", indica o CNS, que avança que menos 174.218 mulheres foram rastreadas para o cancro da mama, menos 124.835 mulheres para o cancro do colo do útero e menos 34.920 pessoas rastreadas para o cancro do cólon e reto.

"Quanto aos rastreios de âmbito populacional, em 2020, em Portugal continental, a proporção de população elegível rastreada para o cancro da mama decresceu quanto à média dos anos 2016-2019, com uma redução de cerca de 10 pontos percentuais relativamente a 2019", sublinha o documento.

O número de utentes com problemas relacionados com álcool em tratamento diminuiu de 2019 para 2020 em cerca de 8%, com uma redução de quase 50% do número de novos utentes em tratamento e 30% dos utentes readmitidos.

Apesar das reduções, o CNS assinala que "não houve paragem dos cuidados, embora estes tenham ficado fortemente comprometidos" durante a pandemia de Covid-19.

No que diz respeito aos recursos humanos, entre 2018 e 2021, verificou-se um aumento de 16,3% no número de trabalhadores no SNS, sendo que o grupo com maior aumento foi o dos assistentes operacionais (24,2%), seguido do dos técnicos de saúde (22,1%) e do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (20,9%).

O número de médicos - sem considerar internos de especialidade - cresceu 11,9% e o de enfermeiros 16,8% entre 2018 e agosto de 2021.

Relativamente à saúde mental, o relatório do CNS recorda que, em Portugal, existiram dois períodos de confinamento geral - de março a abril 2020 e de janeiro a março 2021 - que colocaram a questão do seu "impacto nos níveis de solidão, depressão, uso nocivo de álcool e outras drogas e comportamentos de auto-lesão".

"A generalização, quase instantânea, do teletrabalho provocou sentimentos de isolamento social e solidão que, por sua vez, reduziram a capacidade de lidar com as mudanças na carga de trabalho e no tempo de trabalho, afetando adversamente os níveis de stresse e o bem-estar mental e físico dos trabalhadores", refere o documento.

No geral, o CNS alerta que a pandemia poderá ter, direta e indiretamente, afetado a saúde mental da população e levado ao aumento de procura dos serviços relevantes.

"Medo, luto, isolamento, perda de rendimento poderão ter desencadeado novos problemas de saúde mental ou agravado os pré-existentes, assim como a própria Covid-19 poderá aumentar o risco de morbilidade psicológica e neurológica, a curto e médio prazo", adianta.

O documento, que é apresentado hoje numa sessão na Assembleia da República, analisa o impacto da pandemia nos principais indicadores sociodemográficos, na saúde mental da população e na prestação de cuidados de saúde.

Criado em 2016, o CNS é um órgão independente de consulta do Governo, que visa garantir a participação dos cidadãos na definição das políticas de saúde e promover uma cultura de transparência e de prestação de contas perante a sociedade.



5.7.22

SNS tem mais profissionais mas isso não se traduziu em maior produtividade

Ana Maia, in Público

O Observatório Português do Sistema de Saúde deixa possíveis explicações: a disrupção das equipas, o aumento do absentismo e a concorrência do sector privado. Relatório da Primavera destaca também importância da definição de uma estratégia para os cuidados domiciliários.

O Relatório da Primavera faz uma análise à sempre polémica e polarizada discussão entre a ideia de que “faltam profissionais” e a de que “nunca o SNS teve tantos como agora”. A conclusão é que de facto o número de profissionais no SNS aumentou, mas isso não se traduziu num crescimento da produtividade. As explicações avançadas para que tal tenha acontecido são a disrupção das equipas, o aumento do absentismo e a concorrência do sector privado.

Diz o relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde apresentado esta terça-feira que entre Março de 2016 e Março de 2022 registou-se um aumento de mais de 30 mil profissionais de saúde. Mas que os relatos de falta profissionais no terreno “têm sido contínuos”. É este cenário que leva Julian Perelman, autor deste capítulo, a fazer “um exercício simples” para perceber este fenómeno. O professor da Escola Nacional de Saúde Pública usou os dados do Portal do SNS para calcular o número de serviços prestados (consultas dos cuidados de saúde primários e hospitalares, cirurgias, internamentos, etc) e dividi-lo pelo total de profissionais do SNS, para calcular o valor da produtividade para cada ano. Calcularam também o custo médio por serviço.

Embora refira que a interpretação dos valores “deve ser cautelosa”, fala de “uma certa tendência, com diminuição da produtividade e aumento contínuo do custo médio”. O mesmo tipo de análise foi feito com base no total de horas anuais realizadas pelos profissionais de saúde. Neste caso, foram usados os dados do Relatório Social do Ministério da Saúde de 2018, o último publicado. Os resultados “confirmam a tendência de diminuição” da produtividade. Julian Perelman destaca que esta erosão “já se notava antes de 2020” e apresenta três possíveis explicações.

Por um lado, “a disrupção das equipas”. A passagem das 40 para as 35 horas semanais obrigou à contratação de novos profissionais, não sendo possível esperar “que todas as actividades possam continuar ao mesmo ritmo e com a mesma qualidade, como se nada tivesse acontecido”. Uma segunda explicação é o “aumento do absentismo”, que entre 2015 e 2019 aumentou de 11,2% para 12,4% e que chegou a mais de 20% durante a pandemia.

“Resta perceber quais as causas de um absentismo de tamanha dimensão” e que podem ser várias: o elevado desgaste dos profissionais, as condições de trabalho pouco satisfatórias, a falta de controlo da assiduidade. Há ainda uma terceira explicação: a “concorrência do sector privado”, motivada pelas condições menos satisfatórias do serviço público e o maior desenvolvimento do sector privado. Uma combinação que “poderá ter contribuído para uma excessiva rotatividade e para a destruição das equipas”.

Sendo o número de profissionais limitado, público e privado concorrem para a sua contratação. E o SNS sai a perder, porque ao contrário do privado o sistema de contratação é burocrático e sem liberdade para negociar valores e horários. Junta-se o facto de o privado se ter centrado prioritariamente em intervenções que são relativamente menos complexas, oferecidas a uma população mais saudável, traduzindo-se numa oferta de condições de trabalho mais favoráveis.

É a dedicação plena a solução?

No relatório, Perelman recorda que a dedicação plena tem sido apontada como a solução para reter profissionais. Para já, este modelo, que implica um compromisso assistencial a definir, será só para alguns médicos. O investigador aponta vantagens, como o facto de não se dirigir a profissionais em fim de carreira que já ficariam no SNS e de haver um compromisso que contribua para os objectivos do SNS. Mas deixa um aviso: este modelo poderá não atingir os benefícios esperados “sem uma verdadeira reforma profunda da governação do SNS”.

É preciso que cada hospital possa definir as metas a atingir com cada profissional, que estas sejam exequíveis, monitorizáveis e que os valores pagos “possam enfrentar a concorrência do sector privado”. Mas é preciso também que as condições de trabalho sejam melhoradas, com por exemplo maior flexibilidade nos horários, permitindo aos profissionais fazer investigação ou estudar. Fica ainda uma palavra para quem defende que o caminho é entregar o SNS ao privado. Perelman refere que esta solução teria custos exorbitantes e que seria preciso haver concorrência entre o sector privado, o que não está garantido com um sector dominado por três/quatro grupos privados e que deixaria de conviver com a concorrência do SNS.

Manuel Lopes, porta-voz da coordenação do Relatório da Primavera, salienta que “ainda ninguém percebeu qual o alcance da dedicação plena”, considerando que é preciso que existam indicadores que avaliem o impacto dos cuidados na saúde e que isso não depende apenas do número de actos. Afirma que esta opção não deve ser limitada apenas a uma área profissional. “Não conheço nenhum problema de saúde que seja simples. Problemas complexos requerem muitas competências de muitas pessoas”, diz, recordando que é esta a lógica das unidades de saúde familiar em que os contratos são feitos com equipas de saúde.

Salientando que o Observatório não é oposição e que está do lado das soluções, refere que “o discurso instalado é o de voltar aos números pré-pandemia”. “A nossa questão é se queremos fazê-lo da mesma forma. A pandemia deixou mazelas graves. Deixaram-se de procurar serviços ou procuraram-se mais tarde, as doenças ter-se-iam desenvolvido de outra forma se não fosse a pandemia. Oferecer a mesma coisa que antes da pandemia provavelmente não é resposta correcta”, diz.

Há uma outra questão. “O perfil epidemiológico está a mudar há 40 anos e o SNS ainda não mudou. Temos muitas pessoas com multimorbilidades e o perfil de consultas está desenhado para doenças agudas. O número de consultas pode crescer, mas os resultados em saúde poderão ser os mesmos. Temos de introduzir novas variáveis”, diz.

Cuidados em casa

O relatório também salienta a importância dos cuidados domiciliários como forma de garantir acesso aos cuidados de saúde. O apoio a doentes em casa é assegurado pelos cuidados de saúde primários, através de equipas na comunidade, na área hospitalar, com a hospitalização domiciliária, pelos cuidados continuados e também pela Segurança Social, com apoios sociais. A esta equação é fundamental juntar os cuidadores informais, salienta o relatório. Mas a articulação entre todos não se tem revelado fácil.

“O que está em causa é qual é a estratégia, a quem é que o cidadão precisa de se dirigir para pedir o quê. A proliferação de siglas é tão grande que até os profissionais têm dificuldade em saber o que significam todas. Organizemos esta oferta para que seja feita em proximidade e que responda ao princípio da continuidade de cuidados. É o serviço, estruturado, que oferece resposta ao que é preciso em cada momento”, defende Manuel Lopes, que foi coordenador para a área dos cuidados continuados integrados, afirmando que os cuidadores informais “são vitais nesta estratégia”. Quanto às dificuldades sentidas no terreno pelo terreno, resultantes de uma gestão que é feita pelos ministérios da Saúde e do Trabalho e Segurança Social “podem ser ultrapassadas por estratégias locais de saúde”, envolvendo as diversas entidades que estão no terreno e em proximidade e com indicadores que permitam medir resultados.

Olhando para os diferentes tipos de respostas, o relatório que o número de lugares afectos às equipas de cuidados continuados integrados diminuiu em todas as regiões, entre 2016 e 2019. Manuel Lopes explica que este modelo acabou por não ser desenvolvido de igual forma em todo o país e que por isso havia equipas que tinham um número definido de lugares que não estava de acordo com o número de recursos humanos disponíveis. Mas apesar desta redução, em algumas regiões a taxa de ocupação não aumentou, o que significa que os recursos não estão a ser usados na totalidade. “Temos potencial para melhorar muito. A comunicação tendente a criar percursos e continuidade é estratégica e carece muito de desenvolvimento”, aponta.

“A estratégia da saúde não é apenas do Ministério da Saúde, tem de ser do Governo”, diz Manuel Lopes, salientando que uma mudança estrutural do SNS “não é trabalho para uma legislatura”. “Tem de haver um trabalho de fundo para um pacto. A sociedade tem de ter ideias claras e decidir se quer ou não ter um SNS solidário, que é o que temos. E se não quiser, tem de ter consciência das consequências e a alternativa são seguros de saúde. Para nós, a saúde tinha de se assumir como uma estratégia nacional e de ter uma plataforma de entendimento que garanta reformas em continuidade no tempo em nome de um conjunto de princípios.”

3.3.21

António Vitorino: “Corremos o risco de uma fractura baseada nas questões de Saúde”

Nuno Ribeiro, in Público on-line

Em 2019, os imigrantes contribuíram em 800 milhões de euros para a Segurança Social portuguesa e obtiveram 100 milhões de benefícios sociais, o que contraria a retórica populista.

Director-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM), António Vitorino falou ao PÚBLICO a partir de uma Genebra com bom tempo. Mas o antigo comissário europeu para a Justiça e Assuntos Internos não confunde a bonança meteorológica suíça com o mundo que virá depois da pandemia planetária. Ainda assim, Vitorino não perde a esperança e considera, sem negar os riscos, acredita que esta crise é uma oportunidade de fazer algo novo e diferente.

Como vai a pandemia moldar o nosso futuro?
A pandemia vai alterar prioridades e deixar lastro durante anos. A humanidade é vulnerável, um pequeno vírus pôs-nos de joelhos. Tudo o que tem a ver com prevenção, saúde e com os impactos das alterações climáticas nos ecossistemas vai estar na primeira linha. Depois, temos as consequências duradouras que são, sobretudo, de ordem psicossocial e de saúde mental, depois desta provação. Em terceiro lugar, os impactos socioeconómicos. A pandemia agrava as desigualdades dentro de cada Estado, mas também entre Estados. Portanto, o efeito da pandemia é profundo e horizontal. Toca todas as áreas de actividade e todos os sítios do mundo.

Vai surgir uma geopolítica da covid-19?
A pandemia tornou algo incontestável: todos dependemos de todos. E como Guterres diz, ninguém está seguro enquanto não estivermos todos seguros. Enquanto não estiverem todos vacinados ou não houver uma significativa imunidade de grupo global. Nesse sentido, a interdependência e a colaboração internacional saíram reforçadas. Do ponto de vista político, é evidente que a vacinação já é um processo altamente politizado e que alguns países estão a utilizar, em função das suas agendas, o acesso às vacinas como forma de ganharem projecção em certas zonas do mundo, onde o acesso é mais difícil.

Também há o nacionalismo da vacina.
Há o nacionalismo da vacina muito evidente no Norte global. Mas vi que o Governo português decidiu que 5% das suas vacinas vão ser distribuídas pelos países africanos de expressão portuguesa e por Timor-Leste. Também o Canadá tem dito que as vacinas encomendadas em excesso poderão ser distribuídas por países com mais dificuldades de acesso. E há a iniciativa Covax que permitiu juntar 92 países para adquirir o acesso às vacinas de países de baixo e médio rendimento. Há nacionalismos e reforço da cooperação internacional. Além de haver países como a China e a Rússia que já estão a fazer uma diplomacia da vacina, permitindo vacinas a países em vias de desenvolvimento.

Já se interiorizou que sem vacinação global não há segurança sanitária?
Temos de distinguir entre o curto e o médio prazo. No curto prazo, acho que a resposta é a vacina. Também há avanços nos retrovirais que permitirão não apenas prevenir mas tratar dos casos mais graves da doença, mas neste momento a grande aposta a vacina. Todos esperamos que, quando atingirmos os 70% da população, isso signifique imunidade de grupo. Tal não nos deve dispensar de reflectir sobre como é que o mundo parou por causa de um pequenino vírus. E quais foram as causas e as origens e a estreita ligação entre alterações climáticas, o fim ou o decair da biodiversidade, entre o mundo animal e a alimentação humana. Todos esses elementos têm de ser tidos em conta. A única coisa de que eu tenho a certeza é de que haverá mais pandemias no futuro.

O vírus mudou a percepção das migrações?
Houve 200 países, regiões, áreas que decretaram fecho de fronteiras, confinamentos, restrições de viagens, a negação da mobilidade humana. Seja das migrações, do turismo, de negócios, até do transporte de mercadorias. A OIM teve de tratar, por exemplo, de uma fila de camiões de 150 quilómetros para garantir numa fronteira que os condutores eram testados antes de serem autorizados a passar. Houve uma redução dos fluxos migratórios regulares muito significativa. O departamento de Estudos Sociais e Económicos das Nações Unidas estima que, este ano, tenha havido menos dois milhões de migrantes do que no ano passado. Mas, em compensação, nós estimamos que haja cerca de 2,7 milhões de migrantes bloqueados nas fronteiras, com 1,2 milhões na região do Médio Oriente e do Norte de África e 1,1 milhões na Ásia do Sudoeste. Que em muitos casos iam regressar a casa por causa da pandemia e ficaram bloqueados em condições humanitárias difíceis. Quando as restrições se aligeirarem, tenderão a deslocar-se, haverá uma vaga migrações à medida que se restabeleça a mobilidade humana.

Corremos o risco de novos anátemas e de políticas securitárias e sanitárias?
O engenheiro Guterres falou sobre medidas autoritárias adoptadas a coberto da pandemia. Há uma coisa evidente: a economia do mundo não recuperará, se não houver liberdade de comércio, de transacções, mas também liberdade e mobilidade humana. Se deixarmos populações fora da vacinação, parte significativa da economia mundial ficará fechada sobre si própria, e isso não é útil para o crescimento mundial. Daí a importância da vacinação. O que vemos é que para atravessar fronteiras se exigem testes PCR, já se fala de um passaporte sanitário. Cada vez mais a liberdade de deslocação estará associada a critérios sanitários. Isto recoloca questões sérias, nem todas as pessoas e países do mundo terão o mesmo acesso aos mesmos cuidados de saúde, e nem todos terão acesso em igualdade à vacinação. É um exemplo que já estamos a viver: no dia em que falamos [24 de Fevereiro] houve a primeira distribuição de vacinas para um país africano, o Gana, quando já foram distribuídos uns 180 milhões de doses nos países do Norte global.

Haverá uma ordem mundial assente em doentes e sãos, sendo os primeiros pobres e os segundos ricos?
Corremos o risco de uma nova fractura baseada nas questões de saúde, que não podem ser isoladas das sociais. Muitas das razões de propagação do vírus entre as comunidades migrantes têm a ver com as suas condições de vida e de trabalho. Vivem concentrados em aglomerados — nas favelas do Brasil, nos bairros em redor da Cidade do México ou nos arredores da cidade de Lagos, na Nigéria — e há ligação entre vulnerabilidade sanitária e condições de vida, a pobreza, a desigualdade e a economia informal. São os que não podem ficar fechados em casa, porque, se não trabalham, não ganham e não têm protecção social. Essa fractura pode existir à escala global na mobilidade, no acesso a testes, à vacina e em exigências de que quem se desloque respeite esses critérios sanitários. As desigualdades já existiam, mas são agravadas pela pandemia, o que responsabiliza ainda mais as políticas públicas, incluindo a política de imigração, para combater a desigualdade como a primeira das prioridades. Por isso, o engenheiro Guterres fala em construir de novo, mas melhor, de forma mais respeitadora do ambiente e mais inclusiva do ponto de vista social.

A crise sanitária reforçou os populismos?
No início, houve a tentativa de imputar aos migrantes a “função” de distribuidores de vírus, mas essa retórica demagógica não funcionou. Foi rapidamente percebido que a expansão do vírus não tinha origem nos migrantes e que estes não potenciavam o impacto do vírus. Agora temos de ter consciência de que, com a recessão económica, os imigrantes continuam a ser para os populistas o bode expiatório fácil. Com as dificuldades económicas e sociais que vamos passar, admito um crescimento da retórica populista.

A administração Trump acabou há pouco. O medo da pandemia poderá ainda vitaminar esses sectores?
Não comento a vida interna de nenhum Estado, mas o que sublinho é que o Presidente Biden, na primeira semana em funções, tomou uma decisão fundamental: tornou claro que todos os imigrantes no território americano, incluindo os 11 milhões em situação irregular, eram abrangidos pela vacinação. Essa decisão corporiza a ideia de que é preciso respeitar a dignidade e os Direitos Humanos do acesso à saúde independentemente do seu estatuto legal. E que isso é feito não só pelo respeito aos imigrantes mas também pelo interesse da saúde pública da comunidade de acolhimento. Tenho expectativas de que esta administração siga uma política de migrações racional, ponderada, equilibrada, que permita responder às necessidades dos imigrantes mas também às da economia americana. Muita gente não sabe que, mesmo durante a pandemia, quando havia confinamento em muitos sítios do mundo, e não apenas nos Estados Unidos, houve autorizações para imigrantes trabalharem nas culturas sazonais, que senão estariam perdidas. Houve países que, para a colheita dos espargos, fretaram charters sem os quais a cultura seria perdida em 2020.

A reconstrução das relações transatlânticas deve ter uma vertente migratória?
Inevitavelmente. É importante que tenhamos consciência de que as migrações só são susceptíveis de serem boas para os imigrantes e para as sociedades de acolhimento se houver cooperação internacional. As declarações da nova administração norte-americana são no sentido de que o país está de volta à cooperação internacional expressa no Acordo de Paris, na Organização Mundial de Saúde e espero que os EUA possam vir a endossar o Pacto Global sobre Migrações Regulares, Seguras e Ordeiras adoptado em Marraquexe em 2018.

A compaixão desapareceu da prática social e política do Ocidente?
As sociedades estão cada vez mais polarizadas e fragmentadas do ponto de vista social, cultural, religioso, e o sentido de coesão social tem vindo a perder terreno. A questão é saber o que fazer para contrariar essa dinâmica negativa. Todos perdem, se se perderem os laços de solidariedade humana fundamentais à coesão da sociedade. Por isso, todas as discriminações baseadas na cor da pele, na religião, no território de origem, no género, ou na orientação sexual minam a coesão social a que há que dar resposta com políticas públicas e o envolvimento da sociedade civil.

O futuro é de esperança?
Quando há uma crise, muitas das questões que tínhamos por adquiridas são postas em causa. Isso também significa a oportunidade de pensarmos nos nossos erros. Se quisermos que prevaleça uma visão racional e responsável sobre o futuro, devemos olhar para a crise da pandemia como fonte de aprendizagem para fazer diferente. Quando temos de estar fechados em casa e só podemos ir ao supermercado, sabemos que no supermercado parte dos trabalhadores são imigrantes ou filhos de imigrantes. No sistema de saúde da Suíça, 50% dos médicos e enfermeiras são imigrantes ou filhos de imigrantes. Vemos que, para que haja produção agrícola, para comprarmos alimentos, alguém teve de continuar a trabalhar e que muitos desses trabalhadores são imigrantes. Talvez seja uma boa ocasião para pormos a mão na consciência, acabarmos com a retórica de que “eles vêm tirar-nos os nossos empregos” e compreendermos o contributo positivo que os imigrantes dão.

Como vê a sociedade portuguesa? Há riscos?
Está um pouco no mesmo comprimento de onda das sociedades europeias. Assiste-se a uma polarização acentuada e ao crescimento das desigualdades. Felizmente, até este momento, e espero que continue assim, há uma reserva de aceitação do papel que os imigrantes desempenham, fruto dos nossos laços históricos, mas também de gerações novas de imigrantes. Repare que a maior comunidade é a brasileira, mas em segundo lugar vem a indiana, que há cinco anos não era significativa. Espero que prevaleça a vocação universalista portuguesa de integrar com sucesso o contributo dos imigrantes. Em todo o lado há o crescimento da retórica populista, discriminatória, às vezes até com laivos de xenofobia e racismo. Em meu entender, tal tem de ser combatida com a evidência. Num recente relatório do Observatório das Migrações revelava-se que em 2019 os imigrantes contribuíram com cerca de 800 milhões de euros para a Segurança Social portuguesa e que dela retiraram 100 milhões de euros em benefícios sociais.

24.1.20

Grécia recusa cuidados de saúde a crianças refugiadas doentes em Lesbos

Por Cátia Carmo*, in TSF

Médicos Sem Fronteiras apelam o Governo do país para que as crianças sejam transferidas com urgência para a Grécia continental e para outros Estados-membros da União Europeia.

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) emitiu, esta quinta-feira, um comunicado a denunciar que o Governo grego está a recusar cuidados de saúde a pelo menos 140 crianças refugiadas gravemente doentes em Moria, o maior campo de refugiados da Europa, na ilha de Lesbos. A organização internacional apela a que o Executivo grego transfira todas as crianças doentes para o continente grego ou para outros Estados-membros da União Europeia onde possam receber cuidados médicos.

"Vemos muitas crianças que sofrem de doenças como diabetes, asma e doenças cardíacas que são forçadas a viver em tendas, em condições anti-higiénicas, sem acesso aos cuidados médicos especializados e medicação de que precisam", explicou Hilde Vochten, médico coordenador da MSF na Grécia.
Já no verão do último ano, o Governo grego revogou o acesso aos cuidados de saúde às pessoas sem documentos e requerentes de asilo que chegaram à Grécia, deixando mais de 55 mil pessoas sem assistência médica.

"A MSF está em negociações com as autoridades gregas com o objetivo de transferir as crianças para o continente, para receberem cuidados médicos urgentes. Apesar de algumas crianças já terem sido rastreadas, ainda nenhuma foi transferida", afirmou o mesmo representante da Médicos Sem Fronteiras na Grécia.

Há centenas de crianças com doenças complexas e crónicas - problemas cardíacos, epilepsia e diabetes, por exemplo - que exigem tratamentos especializados que nem a organização não-governamental nem o hospital público local conseguem fazer, por falta de equipamentos.

"A minha filha Zahra tem autismo e vivemos num pequeno espaço quase sem eletricidade. Muitas vezes, a meio da noite, ela tem convulsões e não está lá ninguém para nos ajudar. Só quero estar num espaço onde a minha filha possa brincar com outras crianças e ser tratada por um bom médico", acrescentou Shamseyeh, oriunda do Afeganistão e atualmente a viver no campo de refugiados de Moria.

6.9.19

Avança inquérito inédito para identificar lacunas nos cuidados a doentes de cancro hereditário

Cristina Martins, in Expresso

Até novembro será possível ter uma ideia mais próxima dos principais obstáculos encontrados pelos doentes com cancro hereditário e pelos familiares de quem já passou pela dura experiência de descobrir que carrega nos genes a possibilidade de desenvolver uma doença oncológica

Um inquérito disponível para todas as pessoas que já tiveram contacto com a realidade do cancro hereditário, sejam doentes ou familiares já foi lançado. A associação Evita - Cancro Hereditário, em colaboração coma consultora IQVIA, está a desenvolver um inquérito inédito em Portugal dirigido a doentes oncológicos e a portadores da mutação, mesmo que saudáveis, com o objetivo de apurar quais as principais dificuldades sentidas antes e mesmo após a realização do teste genético ou mesmo do diagnóstico.

"Não sabemos nada sobre a realidade do cancro hereditário em Portugal e atualmente o teste para verificar se uma pessoa é portadora da mutação genética que predispõe ao desenvolvimento do cancro pode ser feito de variadíssimas formas, inclusive comprando o teste pela internet, com os resultados a serem lidos sem qualquer acompanhamento especializado, o que é altamente desaconselhável", explica Tamara Hussong Milagre, presidente da associação Evita. Ela própria portadora de uma mutação, diz que é grande a falta de preparação, "com pessoas que chegam a interpretar o resultado 'positivo' como algo favorável".

Para aumentar o conhecimento da situação e ter acesso às dificuldades sentidas por quem já se confrontou com o problema do cancro hereditário, o inquérito visa combater a desinformação. Os resultados serão apresentados no fim de novembro, durante o 16º Congresso Nacional da Sociedade Portuguesa de Oncologia. "Queremos atingir uma elevada participação, pois é fundamental ter um número representativo de respostas para garantir consequências em prol do portador", afirma a presidente da Evita.
A falta de dados é assim um dos principais problemas para combater em Portugal a única forma de cancro que pode ser evitada preventivamente e que afeta entre 5 a 10% do total de doentes oncológicos. "Não temos informação nacional sobre o cancro hereditário em Portugal, não temos linhas orientadoras e desta forma não podemos elaborar uma estratégia para todo o país", alerta Tamara Hussong Milagre.

No desenvolvimento do inquérito estão envolvidos profissionais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora, além da consultora, que trabalha em regime de voluntariado, e a associação Evita. "Todos os dias recebemos contatos de pessoas preocupadas com o risco de desenvolver cancro devido à hereditariedade e é importante aumentar o nível de conhecimento", conclui a responsável.


5.7.17

“A pobreza é uma determinante da doença”

Tiago Oliveira, in Expresso

O momento mais alto da primeira edição do Health Parliament Portugal aconteceu ontem [sexta-feira, 30 de junho]. Os deputados do parlamento dedicado em exclusivo ao sector da Saúde, apresentaram as recomendações finais resultantes de intensas sessões de trabalho e visitas de campo por todo o país. Entre a utilização de dados e inovação tecnológica, houve ideias transversais que podem ser a face da saúde em Portugal no futuro próximo, como deu a entender o convidado de honra, o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. Na próxima edição, conheça as grandes medidas e o balanço do projeto

Seis meses, quatro plenários, e 60 parlamentares entre os 21 e os 40 anos. Assim se faz um pequeno resumo do Health Parliament Portugal (HPP), mas que acaba por ser só o ponto de partida deste projeto apadrinhado pelo Expresso, Janssen, Microsoft e Universidade Nova de Lisboa. No Palácio da Ajuda, em Lisboa, os representantes das seis comissões — Barreiras aos Cuidados de Saúde, O Doente no Centro da Decisão, Saúde Mental, Economia do Conhecimento, Ética em Saúde e Tecnologias de Informação em Saúde — apresentaram ontem, perante as figuras do conselho consultivo e os curadores do projeto, as grandes conclusões a que chegaram e as recomendações que deixam para o futuro. O encerramento desta primeira edição contou com o ministro da Saúde. Adalberto Campo Fernandes não escondeu a impressão positiva com que ficou dos trabalhos e a vontade em integrar as sugestões entregues com a rapidez possível. Um resumo da conversa.

Qual é a sua opinião sobre este tipo de projetos e se é bom para um ministro e a sua equipa serem confrontados com novas ideias, outras perspetivas?
É este tipo de projetos que faz falta à sociedade. Quem me dera que houvesse mais do género. Como disse alguém no vídeo, esta geração quer mudar, tem vontade e faz por isso. Vou mesmo desafiá-los para que, de dois em dois meses, venham ao meu gabinete. E não é por cortesia, é porque trazem ideias que quero receber. É um parlamento com muita qualidade.

Claro que surge sempre a questão do investimento possível. Que género de compromisso pode existir perante recomendações como estas?
A maior responsabilidade que um governo de um país tem é definir escolhas que podem comprometer gerações como a deles. Vemos ver quais são as cinco ou seis recomendações que podemos executar já e olhar para as outras com toda a atenção.

Mas o que falta, por exemplo, para colocar em prática a interoperabilidade entre todos os sistemas?
Nesta legislatura, temos de ver onde estamos agora e como evoluímos. Já temos, hoje, milhares de portugueses que utilizam a área do cidadão. A receita eletrónica é um belíssimo exemplo. Há um ano, menos de 5% utilizavam este recurso. Hoje esse número já subiu muito. A desmaterialização também é essencial, como já acontece com as radiografias.

É possível, então, haver integração eficaz de informação e sistemas?
Não só é possível como seria absurdo que tal não acontecesse. Queremos acabar com o circuito infernal de carregar informação de um lado para o outro constantemente. Entre privados, ADSE e SNS, tem de haver essa partilha para facilitar a vida de utentes e médicos.

Pode haver um percurso do cidadão entre as diferentes instituições, isto é, um ficheiro de doente acessível a todas as instituições de saúde, com a permissão dele, sem esquecer as questões de privacidade que isto levanta?
Faz todo o sentido. Lançámos recentemente no norte uma experiência que se chama SNS+ para evitar esta dependência quase tradicional das urgências, mas esse é um trabalho que demora muito tempo. O fundamental é que os utentes tenham uma relação direta com o seu meio de acesso à saúde primária, o médico de família. Vamos inaugurar o Centro de Contacto do Serviço Nacional de Saúde, que substitui a Linha de Saúde 24 e traz toda uma nova gama de serviços digitais de proximidade. Estamos a trabalhar melhor do que há um, dois anos. Há razões para ter orgulho. Quero referir a esperança média de vida. Já vivemos mais do que em alguns países do norte da Europa. Agora temos de dar mais qualidade aos últimos anos de vida. É o grande desafio. Quero pôr a mão na massa das propostas e ajudar a mudar o país com ideias frescas.

Há uma bomba demográfica a caminho, e isso vai refletir-se muito em Portugal. Nós não vamos ser confrontados com uma situação de rutura?
A resposta é sim, se não tivermos a ousadia de não pensar no país a 10, 15 anos. A reposição dos benefícios sociais tem de ser uma medida estratégica, porque pobreza é uma determinante da doença, pobreza potencia a doença. É precisar gerar mais emprego e mais economia. Sabemos que ninguém pode dar tudo a todos ao mesmo tempo, ou seja, o que colocamos num, tiramos do outro. Não quero pensar em passar por outra situação como a da intervenção da troika outra vez. Temos de aceitar que a epidemia demográfica está aí e temos que atuar. Em todo o lado por onde andamos, vemos que os nossos melhores estão lá. É preciso que fiquem por cá. Podemos ficar com o ónus na consciência de não termos sido suficientemente responsáveis para impedir este cenário para as gerações futuras. Precisamos de vocês, quero perceber quem está interessado em trabalhar connosco dentro do sistema.

O que é que se pode fazer no campo da saúde mental, é uma prioridade? Por vezes até parece algo escondido...
É um problema europeu, menos considerado e menos colocado na agenda política. Os países não têm investido tanto quanto necessário. Lançamos uma estratégia nessa área de tratamento e esse trabalho vai acentuar-se durante dois anos, até final da legislatura. Mas é importante perceber que esse domínio não está dissociado dos problemas sociais, como desemprego, isolamento ou pobreza. São situações que potenciam os desequilíbrios mentais. É preciso que o país encontre níveis de estabilidade. Aproveito para terminar com uma reflexão. A política de saúde não é uma gaveta isolada de um móvel. É uma parte flexível que só com uma política transversal pode melhorar. Espero que para o ano haja nova sessão legislativa.
A mensagem 
do Presidente

Apesar de não poder estar presente fisicamente, Marcelo Rebelo de Sousa garantiu estar com os participantes “em espírito.” O Presidente da República, que deu o alto patrocínio ao HPP, gravou uma videomensagem, onde realçou a importância do projeto. “Trata-se da primeira do género em Portugal”, recordou, que “junta jovens para debater as grandes do presente e do futuro da saúde.” Integra-se num quadro europeu, onde está “consagrado o Estado social que tem como componente essencial a saúde.” É uma das razões que sustentam o apoio institucional, a que se junta a discussão “da importância do conhecimento e da investigação” bem como o tratamento de um “domínio por vezes esquecido” como é a “saúde mental.” Fatores que levam Marcelo a olhar para este parlamento como “um passo muito significativo para todos nós”. Por isso, agradeceu a todos o seu “labor” nestes seis meses.
Seis meses, 58 medidas

Trabalho com Governo Os 60 deputados do HPP foram apoiados 
por curadores (ex-ministros, deputados, médicos e investigadores). As seis comissões reuniram em plenários 
e trabalharam em grupo para agora apresentarem recomendações. 
O Governo prometeu dar seguimento a algumas propostas e cumpriu: convidou a comissão de Barreiras aos Cuidados 
de Saúde a participar no projeto SNS+.

Visitas e 58 medidas Os parlamentares visitaram hospitais, centros de investigação e instituições para perceber o caminho que falta percorrer. Participaram em eventos — como o Health Summit — escreveram textos, fizeram inquéritos, entrevistas e vídeos para levar mais informação à sociedade civil. 58 medidas foram aprovados em plenário.

“O Doente no Centro da Decisão” 
Esta comissão concentrou-se no “futuro da formação” e no “percurso 
do cidadão no sistema de saúde”.

“Economia do Conhecimento” O foco deste grupo foi a “inovação” do SNS e as métricas para uma “estratégia de especialização inteligente”.

“Saúde Mental” Esta comissão atuou em quatro frentes: emprego, financiamento, inovação e um pacote 
de medidas simplex.

“Barreiras aos Cuidados de Saúde” Três áreas de ação: cuidados primários, hospitalares e continuados. Recomendam um índice que avalie 
as barreiras, o inSNS.

“Ética em Saúde” Recomendações desta comissão: criação da lei de dados em saúde, uma comissão nacional para a informação em saúde e uma entidade reguladora.

“Tecnologias de informação” O grupo procurou mais-valias de suporte à formação de políticas para os sistemas de informação, que permitam aos cidadãos partilharem os seus dados 
de saúde com proteção e privacidade.


21.11.13

Só a Grécia gasta menos que Portugal nos cuidados continuados de saúde

Romana Borja-Santos, in Público on-line

Relatório da OCDE analisa 26 países. Apesar de o país estar na cauda da lista é dos que mais tem conseguido crescer.

Portugal é, depois da Grécia, o segundo país que menos dinheiro público gasta nos cuidados continuados de saúde, de acordo com os dados da OCDE que comparou este indicador em 26 países.

Os números fazem parte do relatório Health at a Glance 2013, cujos dados preliminares tinham sido avançados em Junho pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), tendo o relatório final sido agora publicado.

No campo em concreto dos cuidados de longo termo, em 2011, Portugal gastou 0,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB) nesta área em termos de despesa pública, surgindo quase empatado com a Estónia e Hungria, que só por centésimas estão melhor. Pior apenas está a Grécia. Logo após a Hungria vem a República Checa, Polónia, Israel, Coreia do Sul, Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Eslovénia, Luxemburgo, Áustria, Canadá, Nova Zelândia, Suíça, Islândia, Japão, França, Bélgica, Finlândia e Dinamarca.

Os três países no topo da tabela são a Holanda, que ocupa o primeiro lugar com 3,7% do PIB, mas que agrega além da despesa pública em saúde a despesa com o lado social, que é apresentada de forma separada, e de que há dados para apenas nove dos 26 países (Portugal é um dos que fica de fora). Segue-se a Suécia com 3,6% e a Noruega com 2,4%. No caso da Suécia a despesa social tem um peso de mais de dois terços.

Necessidades vão continuar a crescer
No documento, a OCDE explica que a despesa com os cuidados continuados disparou nos últimos anos na maior parte dos países e é expectável que continue a crescer com o envelhecimento da população. A organização destaca as assimetrias no investimento entre países, dizendo que apesar de as diferenças entre Holanda ou Suécia e Portugal ou Grécia reflectirem distintas estruturas na população, demonstram sobretudo diferentes níveis de desenvolvimento entre “sistemas de cuidados continuados formais, por oposição a formais mais informais baseadas sobretudo em tratamentos providenciados por familiares não remunerados”.

A OCDE analisa, ainda, a taxa de crescimento anual da despesa pública nos cuidados continuados entre 2005 e 2011 e aqui percebe-se que, apesar de Portugal estar na cauda da lista em termos do PIB, foi dos que mais cresceu, conseguindo 14,4%, logo após a Coreia do Sul que obteve 43,9%.

Neste campo a OCDE apresenta também dados sobre os profissionais que trabalham na área dos cuidados continuados e o número de camas afectas a esta área nas instituições e hospitais, mas Portugal não é incluído nessa lista.

O PÚBLICO tentou ouvir a coordenadora da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Inês Guerreiro, até ao momento sem sucesso.

Mais camas até ao fim do ano
Os dados dizem ainda respeito a 2011 mas, ao longo de 2013, o Ministério da Saúde tem vindo a aumentar a oferta da área dos cuidados continuados – com alguns atrasos que têm merecido críticas por parte da oposição, que também acusa a tutela de estar a reduzir o número de camas em relação ao inicialmente prometido.

Até ao final deste ano a tutela prometeu abrir cerca de 30 unidades de cuidados continuados, com um total de cerca de 800 camas. São menos lugares de internamento do que aquilo que chegou a ser anunciado no início do ano (1169 camas), mas vão permitir aumentar de forma significativa a resposta nesta área tão carenciada. As unidades que vão começar a funcionar foram construídas por Misericórdias e outras instituições de solidariedade social. Algumas estavam prontas desde o ano passado e só permaneceram encerradas por falta de verbas.

Só neste ano, o custo de funcionamento destas novas estruturas totalizará cerca de sete milhões de euros, verba que deverá duplicar no próximo ano. De acordo com um despacho publicado em Julho, a maior parte dos lugares de internamento pertence a equipamentos destinados a longa duração, e Lisboa e Vale do Tejo é a região com mais novos lugares (280). Desta forma o número total no país aproxima-se das 6500 camas.

No início de Novembro a tutela também publicou em Diário da República que cerca de metade do valor das receitas dos jogos sociais atribuído ao Ministério da Saúde irá financiar, em 2014, a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.

Despesa transferida para as famílias
Em geral, o relatório Health at a Glance 2013 olha para vários indicadores e tira uma fotografia global aos impactos da crise na saúde, referindo que em Portugal, apesar dos cortes, a situação não está a ter um impacto muito forte, apenas com ligeiros aumentos dos tempos de espera nas cirurgias. Contudo, no campo da despesa, a redução das verbas públicas está a transferir muitos dos custos para o bolso das famílias.

Em 34 países, Portugal está entre os cinco que mais cortaram na despesa pública em saúde per capita entre 2009 e 2011 e as famílias portuguesas tornaram-se nas quartas a gastar mais dos seus rendimentos. Em 2011 as famílias portuguesas gastavam 4,3% do seu bolso em saúde quando a média da OCDE era 2,9%.

Do lado positivo há a queda no consumo do tabaco e do álcool, assim como a redução de acidentes rodoviários – indicadores também atribuídos ao menor poder de compra. No campo da mortalidade, as doenças cerebrovasculares continuam a matar mais que noutros países, mas com uma tendência progressiva de melhoria.

Portugal gastou menos 2,2% em saúde nos primeiros anos da crise

in Jornal de Notícias

Portugal gastou menos 2,2% na saúde entre 2009 e 2011, revertendo a tendência de aumento médio entre 2000 e 2009 de 1,8%, revela o relatório 'Health at a Glance 2013', da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.

Segundo a OCDE, os primeiros anos de crise económica internacional inverteram a tendência de aumento constante dos gastos com a saúde, com 11 dos 33 países da organização a chegarem a gastar menos neste setor.

"A despesa total em saúde caiu em um em cada três países da OCDE entre 2009 e 2011, com os mais atingidos pela crise a serem os mais afetados", lê-se no relatório agora divulgado.

Para a organização com sede em Paris, e que reúne a maioria dos países mais avançados do mundo, os dados comprovam a importância de "os países tornarem os seus sistemas de saúde mais produtivos, eficientes e financeiramente comportáveis".

A Grécia, o país mais afetado pela crise económica, viu os seus gastos com a saúde diminuírem 11,1% entre 2009 e 2011, e a Irlanda gastou menos 6,6% nesse período.

Entre as áreas mais afetadas por esta mudança na tendência de aumento dos gastos em saúde estão o preço dos bens médicos, especialmente medicamentos, restrições orçamentais e cortes nos gastos dos hospitais, diz o relatório, que sublinha ainda que mais de três quartos dos países da OCDE cortaram em programas de prevenção em 2011 face a 2010, e metade gastou menos do que em 2008.

"Os cortes em programas rentáveis [comparando o custo com o benefício] de combate à obesidade, uso abusivo do álcool e tabaco são uma fonte de preocupação", diz o relatório, lembrando que quaisquer benefícios de curto prazo nestes cortes são provavelmente anulados pelos gastos mais avultados a longo prazo não só na própria despesa do Estado, mas também na saúde dos cidadãos.

As reduções na oferta de cuidados de saúde e as alterações ao financiamento - chamando os cidadãos a pagarem mais - estão a afetar o acesso à saúde, nota a OCDE, exemplificando com os tempos de espera para algumas cirurgias em Portugal, Espanha, Inglaterra e Irlanda, que "depois de anos de melhoramento, estão agora a aumentar".

1.11.13

À flor da pele. Dermatologistas criam projectos para chegar a todos

Por Ana Tomás, in iOnline

Pela primeira vez, La Roche-Posay lançou o desafio em Portugal. Os médicos responderam com oito projectos para levar os cuidados de saúde a populações isoladas

Levar consultas de dermatologia às populações que residem no Interior do país, examinar infecções no couro cabeludo em alunos carenciados do 1.o ciclo, em Lisboa, acompanhar semanalmente os residentes de origem africana para poderem ter, por exemplo, mais informação sobre as características da sua pele. Estes são alguns dos projectos que médicos de vários hospitais espalhados pelo país ambicionam concretizar. Por outro lado, pôr o coração e os conhecimentos no terreno junto de populações com menor acesso a cuidados médicos especializados é o desafio lançado pela fundação La Roche-Posay a dermatologistas portugueses. Esta é a primeira vez que Portugal acolhe o programa "Dermatologist from the Heart". A iniciativa tem como objectivo chegar aos que têm menos acesso aos cuidados básicos de prevenção, rastreio e tratamento de problemas dermatológicos.

São oito os projectos nacionais a concurso, um indicador que, para a presidente da fundação, em Portugal, Antonieta Barros, é revelador de que a etapa nacional do programa, lançado em França em 2011, "tem tudo para correr bem".

"Todos perceberam o espírito de missão que é tornar a dermatologia mais acessível a todos, nomeadamente às populações carenciadas, isoladas ou de risco", contou ao i. O grande objectivo da acção, segundo a responsável, passa por apoiar médicos a tornar as suas competências acessíveis a um público alargado, através de cuidados de saúde, sensibilização para aceitar a doença e tratamentos e ainda promover o bem-estar ou a integração social das populações afectadas por este tipo de patologias.

Sem revelar o valor do prémio, Antonieta Barros adianta que o vencedor receberá uma bolsa para pôr o plano em prática e o "apoio da marca na implementação deste e de outros projectos que visem melhorar a qualidade de vida dos doentes". A ideia é reproduzir o que já acontece nos países por onde a campanha da La Roche passou. "Só no ano passado, 2600 dermatologistas rastrearam mais de 60 mil pessoas em 21 países. E depois das atribuições das bolsas, os especialistas têm conseguido avançar com os seus projectos", revela Antonieta Barros.

Dentro e fora do país Os projectos nacionais concorrentes ao prémio Dermatologist from the Heart apostam sobretudo em rastreios, campanhas de educação para a saúde e técnicas de acompanhamento online, dirigindo-se a populações de zonas insulares ou do Interior, à comunidade africana residente nos grandes centros urbanos e também a países africanos de língua oficial portuguesa. Há ainda candidaturas mais abrangentes, centradas na prevenção dermatológica de bebés e no tratamento e na aceitação social de problemas dermatológicos como a psoríase.

O júri, que vai avaliar os trabalhos e escolher o melhor projecto, que será conhecido no final do dia de hoje, é composto por três especialistas de três hospitais públicos portugueses, do Porto, Coimbra e área metropolitana de Lisboa. Além deste prémio, a Fundação La Roche-Posay entrega anualmente quatro bolsas de investigação, cinco para publicações e bolsas a projectos de investigação promissores, apresentados por dermatologistas mais jovens. "Actualmente, mais de 100 equipas de investigação receberam fundos que lhes permitiram financiar novos trabalhos", conclui Antonieta Barros.

Projectos a concurso

PALOP e comunidade africana
Há três projectos a concurso que têm na população de origem africana residente em Portugal ou nos PALOP o seu público-alvo: o projecto “Dermatologia para a África que fala português”, do Hospital CUF Descobertas, realizado em parceria com organizações de S. Tomé e Moçambique; o projecto “Rastreio de tinha do couro cabeludo em escolas do 1.º ciclo”, de João Pedro Vasconcelos, Hortência Sequeira e Paulo Filipe, que é dirigido a crianças de famílias dos PALOP, residentes nas freguesias limítrofes do concelho de Lisboa; e o projecto “A dermatologia do fototipo VI”, da autoria de Carla Rodrigues, que parte do trabalho com a comunidade africana da Amadora e Queluz

Ilhas e interior
Reduzir o impacto da interioridade e da insularidade no acesso aos cuidados médicos especializados de dermatologia é o objectivo, respectivamente, dos projectos “Dermatologia para Todos”, de Ana Brasileiro, Ana Fidalgo e Maria de Lurdes Lobo, e “Dermatologia na Ilha do Corvo”, de João Carlos Teles de Sousa e Maria Goreti Catorze. Se o primeiro caso propõe a teledermatologia para facilitar diagnósticos e tratamentos, no segundo, o projecto aposta na educação para a saúde, na prevenção
e na articulação com médico de família.

Psoríase
“Fim-de-semana da psoríase”, de Nuno Menezes, e “Educar o doente com psoríase”, de Manuela Selores, Tiago Torres, Glória Velho, Isabel Amorim e Mónica Caetano, são dois projectos distintos, mas ambos propostos por especialistas do Norte do país. Um visa quebrar mitos, o outro procura ensinar a população a conhecer os sintomas da doença e os seus efeitos.

Sensibilização nas maternidades
O projecto de António Fernandes Massa pretende sensibilizar as famílias para a fotoprotecção nos primeiros anos de vida das crianças e o seu impacto na vida adulta.

18.9.13

Older gay people still experience prejudice from care staff

Hazel Davis, in The Guardian

In some cases older LGBT people in sheltered housing and care homes have hidden their sexuality


When same-sex marriage became law in July this year it was a victory for gay rights and another step towards complete equality. But for a whole section of the LGBT community, it seems there is still some way to go.

A BBC report on the worrying issue of homophobia in the UK's care homes claimed that elderly gay and lesbian people are suffering homophobic bullying from care staff. The report highlighted the case of a woman who faced carers praying for her because she is a lesbian and another refusing to care for her because of her sexuality.

Many charities working to combat this believe that victims are too scared to speak out because of fear of repercussions and some researchers believe that one factor may be the care sector's increased reliance on foreign labour, including staff from strongly religious backgrounds, where homosexuality is taboo.

Currently, Opening Doors London (ODL) from Age UK is the biggest project providing information and support services to and with older lesbian, gay, bisexual and/or transgender (OLGBT) people in the UK. Age UK and Stonewall Housing are now working on a joint piece of work - developing a national LGBT charter mark for housing providers and other service providers working with OLGBTs.

Back in 2010, Stonewall commissioned pollster YouGov to survey a sample of 1,050 heterosexual and 1,036 lesbian, gay and bisexual people over the age of 55 across Britain. The survey asked about their experiences and expectations of getting older and examined their personal support structures, family connections and living arrangements.

The findings made for alarming reading. Three in five of the respondents were not confident that social care and support services, such as paid carers, or housing services would be able to understand and meet their needs. More than two in five were not confident that mental health services would be able to understand and meet their needs and one in six were not confident that their GP and other health services would be able to understand and meet their needs.

Nearly half of those canvassed said they would be uncomfortable being out to care home staff and a third would be uncomfortable being out to a housing provider, hospital staff or a paid carer.

It is estimated (according to Stonewall) that 5–7% of the population is gay or lesbian. The total population of people over the age of 55 living in the UK is 17,421,000 (based on 2009 mid-year statistics).

So the OLGBT population is a sizeable one. Yet a paper from the Joseph Rowntree Foundation earlier this year revealed a worrying number of horror stories. One lesbian couple talk of moving to a sheltered housing flat and not disclosing their sexuality. When they completed a standard "peace of mind" information form for their housing association they ticked the civil partners box, the tenant association chairman and his wife, who had previously been extremely friendly, started to avoid them. Other residents in the scheme also started to become hostile.

Another anonymous care home user says: "This fear can be on the part of care providers – staff have fantasies about our lives but no knowledge," adding: "There is a total incomprehension of why an old, gay man cannot be like an old straight man with family ties and grandchildren to keep him happy in life."

Roger Newman MBE, 72, is one of AgeUK's ambassadors and a founder of the Lesbian and Gay Carers Network. He says the problem is more about lack of empathy: "Discrimination is illegal so it's not helpful to talk about that. If discrimination takes place then one goes straight to the law. The problem is that the vast majority of older LGBT people are single people so it's very difficult to find whistle-blowers.

"One of the biggest issues is that homes tend to talk about treating everyone the same. That doesn't help anyone because as LGBT people we actually don't want to be treated the same, we want to be treated as LGBT people and all that involves."

What that involves, says Newman, who married his partner in March, "is often a huge amount of baggage. People of my age can remember what it was like to be illegal. We have lost jobs and been beaten up. Those experiences have made us build defensive walls around ourselves. Many people of our age won't even admit their sexuality." One of the issues, he says, is that people who have been partially out of the closet in later life, go back in when they go into a residential home.

He recounts the story of a friend: "To all of us he was as camp and vibrant as one would want but when he got dementia and went into a residential home there was suddenly nothing to suggest he might be gay or anything from his past. Where we would ordinarily have kissed and hugged him we were reduced to a handshake." As someone with dementia, his LGBT links were crucial to his wellbeing.

There is work being done. Care home provider Anchor is doing its best to make LGBT people feel welcome and three years ago set up an LGBT group for residents. Liverpool-based Rainbow Lives Project has developed a training package used by Liverpool's In-Trust Merseyside to provide diversity training for care workers and residential care home staff.

Newman believes residential homes should be more overt with their anti-discrimination policies: "It's no good having partial agreement, there needs to be something on the wall stating that discrimination will not occur. And residents should have to sign up to their acceptance of that. Simply because we are old doesn't give us the right to be homophobic."

It's also about being made to feel comfortable, Newman adds: "If I go into a residential home I should expect there to be magazines which relate to me and to be able to have photos of my ex-partners on display. We need to hear our language. We use the word "gay" not "homosexual", for example. If I want to know whether someone is "on my side" I would expect them to understand some of the ways we talk and what we say. If I go to my doctor and say 'I'm gay,' and he says, 'that's ok, it doesn't matter,' that's not what I want. It does matter."

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20.11.12

Cruz Vermelha oferece consultas e urgências low cost

Por Alexandra Campos, in Público on-line

A Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) vai disponibilizar no seu hospital em Lisboa consultas da especialidade a 25 euros e urgências a 30 euros, além de cirurgias e exames a “preços especiais” e “sem espera”.

Anunciada esta terça-feira em conferência de imprensa, esta campanha da CVP é justificada com “o actual momento de crise” em que o país se encontra e com as “responsabilidades humanitárias” da instituição.

“São preços muito mais baratos do que os praticados pelos hospitais privados”, destaca o presidente da CVP, Luís Barbosa, lembrando que nas cirurgias e exames são os mesmos que a instituição cobra ao Estado.

Para ter acesso a estes serviços low cost, os interessados terão de tornar-se associados da CVP, pagando dois euros por mês (o “chefe de família”) e um euro por cada elemento do agregado, até ao máximo de seis.

Intitulado Membro CVP+ Hospital, este programa vai ser alargado a todos os interessados a nível nacional, mas os preços acima referidos já estavam a ser praticados “há dois ou três meses”, afirma Luís Barbosa.

Sublinhando que está a ser mesmo estudada a possibilidade de permitir o pagamento a prestações aos doentes, o presidente da CVP defende que este programa só traz benefícios porque, além de responder às necessidades da população, vai “ajudar o Serviço Nacional de Saúde [SNS]”. Como? “Libertando o SNS de um peso”, responde.

Luís Barbosa não consegue precisar quantas cirurgias e consultas poderá o hospital fazer, mas lembra que, no Governo anterior, quando foi necessário dar resposta ao problema das listas de espera no tratamento das cataratas, o Hospital da CVP disponibilizou “seis mil consultas e três mil cirurgias”. Destaca ainda a capacidade da instituição na cirurgia cardiotorácica pediátrica, notando que em dois anos fizeram 800 intervenções deste tipo em Angola.

O Hospital da CVP e é detido em 45% pela Parpública e em 55% por esta instituição, que tem tutela do Ministério da Defesa.

Na semana passada, foi publicado em Diário da República o novo acordo firmado entre o Estado e a CVP, no valor de 7,6 milhões de euros, que permite ao hospital voltar a receber doentes do SNS, fazendo cirurgias em várias áreas e rastreio de cancro de mama. Este acordo estava suspenso desde 2011, depois de o Tribunal de Contas o ter posto em causa, por não se saber se a capacidade instalada dos hospitais públicos estava esgotada.

O novo protocolo esteve já para ser assinado no início deste ano, mas o ministro da Saúde decidiu pedir uma análise da capacidade instalada no SNS. O Bloco de Esquerda questionou, entretanto, “em que necessidades por satisfazer se fundamenta o protocolo”.

31.7.12

42% dos portugueses dizem não ter dinheiro para cuidados de saúde

Por Romana Borja-Santos, in Público on-line

Mesmo estabelecendo prioridades, 41,8% dos portugueses admitem que o orçamento familiar já não é suficiente para pagar todas as despesas de saúde que seriam necessárias. Ainda assim, acima da preocupação com o preço das taxas moderadoras ou dos medicamentos está a qualidade dos cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), segundo um estudo de opinião sobre a saúde em Portugal.

O estudo – feito pela Cegedim em parceria com a Netsonda – decorreu entre 2 e 10 de Maio de 2012 e recorreu ao painel online da Netsonda, constituído por mais de 100 mil participantes, registados voluntariamente desde o ano 2000. A convocatória foi aleatória dentro do painel e a amostra para o estudo foi definida como indivíduos de ambos os sexos com 18 ou mais anos de idade, de todo o território nacional tendo sido realizadas 1051 entrevistas validadas, o que corresponde a uma margem de erro de 3% para um intervalo de confiança de 95%.

As conclusões do relatório mostram que a maioria dos inquiridos (65,5%) ainda recorre ao SNS, seguindo-se os seguros privados (22,5%) e a ADSE (22,1%). Mas o grande peso da utilização dos serviços públicos não parece estar a ser suficiente para cobrir as despesas de saúde, com 35,8% dos inquiridos a admitir que, nos últimos seis meses, deixaram de comprar medicamentos prescritos pelo médico por motivos financeiros. Aliás, dentro da OCDE, Portugal já está entre os países onde a despesa privada mais pesa na saúde e onde a despesa com medicamentos tem maior proporção.

À questão relativa às maiores preocupações em relação à saúde, numa escala de zero a dez, os inquiridos deram 8,72 pontos ao "receio de perde de qualidade no SNS"; 8,2 pontos ao preço dos medicamentos; 7,9 ao preço das taxas moderadoras e das consultas no sector privado e 4,83 ao faltar ao trabalho para ir a consultas. Por isso, quando confrontados com as áreas onde cortariam para poder manter o investimento na saúde, as obras públicas e a defesa foram os sectores escolhidos, por oposição à educação e à segurança social.

Já numa escala de zero a 20, no que diz respeito à confiança nos profissionais de saúde e instituições, os enfermeiros foram os que recolheram mais pontos (14,13), seguidos dos farmacêuticos (13,76) e dos médicos (13,57). Menos credibilidade têm os centros de saúde (10,61), os laboratórios farmacêuticos (10,54) e o sector social (9,64).

No campo dos medicamentos, 69,1% preferem os fármacos genéricos. Dos 30,9% que optam pelos medicamentos de marca, 62,5% dizem que é por terem maior confiança e 50,5% por terem expectativa de maior eficácia. Segundo os últimos dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) o volume da quota de mercado dos genéricos em Portugal atingiu 25,2% em Junho e o seu preço médio atingiu o valor mais baixo dos últimos cinco anos. Os mesmos dados indicam que os portugueses estão a consumir mais medicamentos, mas os gastos do Estado em comparticipações continuam a baixar, o que significa que a factura é mais pesada para o bolso dos utentes.

Contudo, quando chega a hora de cumprir as recomendações médicas, só 45,3% dizem segui-las à risca. Entre as restantes, 66,3% revelam deixar de seguir o prescrito por se sentir melhor ao fim de alguns dias - o que pode ser especialmente perigoso em medicamentos como os antibióticos, onde Portugal tem uma das maiores taxas de uso indevido e de bactérias resistentes. Há ainda quase 38% de pessoas que admitem que têm por hábito automedicar-se.

A Internet é também, cada vez mais, um recurso utilizado para procurar mais informação sobre sintomas, doenças e tratamentos, com mais de 70% dos inquiridos a reconhecerem que após uma consulta procuram dados sobre os medicamentos receitados. A prática de exercício físico, a perda de peso e a redução de sal na alimentação foram alguns dos exemplos dados de medidas que os inquiridos estão a tomar para melhorar a saúde de forma mais natural.

20.4.12

Estado paga cuidados de saúde fora do país a partir de Outubro de 2013

Por Alexandra Campos, in Público on-line

Falta apenas um ano e meio, mas a maior parte dos portugueses desconhece que vai passar a poder aceder a cuidados de saúde nos outros países da União Europeia (UE), em unidades públicas ou privadas, a partir de Outubro de 2013. É para antecipar os riscos e perspectivar as oportunidades que decorrem da mobilidade transfronteiriça de doentes na UE que a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) organiza hoje, no Porto, uma conferência, depois de ter apresentado um estudo preliminar sobre esta matéria.

Aprovada em Março de 2011, a Directiva 2011/24/UE - a ser transposta pelos Estados-membros até 25 de Outubro de 2013 - assegura a mobilidade dos doentes relativamente a cuidados de saúde programados, desde cirurgias a consultas, tratamentos e exames. Na prática, isto significa que o Estado português passará a ter de pagar os cuidados prestados noutros países, no caso de não conseguir dar-lhes resposta em tempo útil. Ou seja, um português em lista de espera que ultrapasse o tempo máximo de resposta garantido em Portugal para uma cirurgia a uma catarata, por exemplo, pode ser operado em Espanha ou noutro país comunitário. Mas há condicionantes: apenas será reembolsado mais tarde (no valor da tabela do país de origem) e suportará os custos do transporte e estadia. Condições que, à partida, permitem antecipar que o novo modelo vai beneficiar sobretudo os cidadãos com maior capacidade financeira e informação.

"As pessoas não têm consciência do que pode acontecer. [A aplicação da directiva] pode representar uma enorme turbulência para o sistema de saúde português. E a turbulência tem riscos e oportunidades, que devemos antecipar. Não podemos esperar por 2013 e depois verificar que há centenas ou mesmo milhares de portugueses a procurar cuidados de saúde no exterior ou o inverso", explica o presidente da ERS, Jorge Simões, lembrando que cada Estado-membro deve fazer "o trabalho de casa, de modo a que não haja grandes surpresas".

Este novo modelo pode pôr em risco a sustentabilidade do SNS? "Esse risco existe se não houver um estudo, se não pensarmos nos pontos de fragilidade", admite Jorge Simões, que lembra, porém, que a directiva permite "escapatórias", ao prever que os países concedam autorização prévia (nos casos de internamento de mais de uma noite e tratamentos altamente especializados e onerosos).

No cenário actual, será Portugal atractivo para cidadãos de outros países? "Há várias áreas em que supostamente vamos conseguir atrair cidadãos de outros Estados-membros", acredita o presidente da ERS, que dá o exemplo da cirurgia cardíaca. Agora, o inverso - a saída de portugueses para tratamento no estrangeiro - também é previsível, "porque temos listas de espera com uma dimensão considerável", frisa.

No estudo preliminar feito em 2011 pela ERS, os cálculos feitos a partir de dados da Comissão Europeia (CE) indicavam que o aumento de circulação de doentes poderia render a Portugal 1,18 milhões de euros. De acordo com a CE, em 2008 havia cerca de 7,8 milhões de pessoas em lista de espera e, dessas, 10% estariam disponíveis para receber cuidados de saúde fora do país. Portugal, à data com 80 mil utentes em lista de espera, gastaria 320 mil euros, a que se juntariam 3,3 milhões de euros para as despesas de aplicação e monitorização da directiva e mais 1,3 milhões para a criação de pontos de contacto nacionais e actividades informativas.

Mas estes dados precisam de ser actualizados e enquadrados e é isso mesmo que vai ser feito hoje na conferência que a ERS organiza na Fundação Engenheiro António de Almeida, no Porto.

Portugal com dívidas a Espanha

Actualmente, os portugueses já podem obter cuidados de saúde no estrangeiro, mas o SNS só paga a factura quando os doentes necessitam de tratamentos especializados que não existem cá. Seja como for, há muitos portugueses que já fazem tratamentos em Espanha, usando o cartão de saúde europeu.

Aliás, um relatório do Tribunal de Contas espanhol divulgado esta semana revelava que Portugal devia a Espanha 6,5 milhões de euros no final de 2009 por assistência sanitária a cidadãos nacionais e notava que havia atrasos significativos no pagamento. O relatório destaca o "uso abusivo" que cidadãos portugueses e de outros países europeus terão feito da assistência médica em Espanha, usando o cartão de saúde europeu.

Com base em dados de 2009, compilados através de números da Segurança Social espanhola, o tribunal refere que França e Portugal registaram "uma média elevada" de acessos ao sistema sanitário espanhol, de 69 e 60,7 por cada 10 mil turistas, respectivamente.

4.3.12

Demora na reposta da Segurança Social aumenta dias de internamento

in Diário de Notícias

Uma maior demora na resposta da Segurança Social aos casos de internamentos por motivos sociais obriga a um acréscimo de dias dos doentes nos hospitais, segundo algumas instituições hospitalares.

As situações de protelamento de alta clínica por motivos sociais têm vindo a aumentar em muitos hospitais do país, como é o caso do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra).

Além do aumento do número de situações, tem-se "registado também atualmente uma demora maior, por parte da Segurança Social, na resposta a estas situações, o que traz um acréscimo de dias de internamento apenas por motivo social", disse à Lusa a coordenadora do Serviço Social do hospital.

"Trata-se de situações em que o apoio domiciliário (prestado por instituições da comunidade) se revela insuficiente face às necessidades de suporte social dos utentes" ou em que os doentes e os familiares não têm meios para suportar a mensalidade de um lar, explica Adélia Gomes.

Os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) referem que muitos destes casos são idosos que vivem sozinhos e sem familiares com condições para os acolher.

"Nesses casos, o ingresso em lar, comparticipado pela Segurança Social, é muito difícil e alguns ficam internados demasiado tempo", lamentam.

O Centro Hospitalar de Lisboa Central (São José, Capuchos, Santa Marta e Dona Estefânia) refere que, neste processo, há vários constrangimentos a considerar: "insuficiência económica do doente para se organizar uma resposta imediata, inexistência de uma rede suporte familiar, falta de condições habitacionais, estruturas comunitárias saturadas, a burocracia relacionada com autorização de subsídios sociais para integração em lar ou a própria dependência cognitiva do doente".

Contactado pela agência Lusa, o Instituto de Segurança Social (ISS) adiantou que, "apesar de existir uma grande preocupação por parte da Segurança Social no alargamento da rede de lar de idosos, nomeadamente através da celebração de acordos de cooperação com Instituições Particulares de Solidariedade Social, verifica-se que a procura tem sido superior ao número de vagas disponíveis".

Contudo, assegura, "nenhuma situação fica por responder quando se trata de intervir para colmatar uma necessidade de cariz social".

O ISS refere que "existe uma articulação direta e permanente entre os serviços sociais dos hospitais e os serviços sociais da Segurança Social no sentido de encontrar resposta aos casos que carecem de intervenção".

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) tem sido uma resposta para muitos destes casos, segundo os hospitais.

O ISS salienta que "a forma como a alta é gerida condiciona o sucesso da intervenção e a manutenção dos resultados obtidos" e que, por essa razão, "importa proceder à avaliação das necessidades dos doentes, atempadamente, envolvendo no processo de preparação os familiares/cuidadores dos mesmos de modo a garantir a continuidade de cuidados".

Relativamente aos processos de admissão e gestão de listas de espera, o ISS refere que estas instituições têm autonomia nesses processos, uma vez que a Segurança Social não procede à gestão direta das vagas.

"São as instituições que, pela proximidade geográfica e conhecimento aprofundado que têm das comunidades, melhor estão habilitadas a identificar as situações prioritárias para acolhimento nesta resposta social", acrescenta.