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18.7.22

A chave do armário e o orgulho da invisibilidade

Luísa Semedo, opinião, in Público

“Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”, escreve Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus (1921). Ora, se não há palavra para descrever quem sou, quem sou eu? Será que existo? Que existência me é permitida para mim própria, na sociedade, na democracia?No brilhante programa da Antena 1 Fora do Armário, criado e conduzido por Paulo Côrte-Real, a última pergunta feita às pessoas entrevistadas era sobre a sua chave do armário. 

O programa tinha por ambição, segundo o seu resumo, dar voz “a diferentes pessoas LGBT que quebram os silêncios que a discriminação tenta impor, partilhando as suas histórias de vida e de afirmação”. Esta pergunta final é inspirada do livro A chave do armário, do primeiro convidado, o antropólogo e ativista Miguel Vale de Almeida, e contou com a participação de pessoas ligadas à área da política, artes e ativismo.

A “saída do armário” ou coming out, nomeadamente de figuras públicas, é, como defende a jornalista e militante Alice Coffin no seu livro O génio lésbico (2020), um ato de coragem, de alegria e amor, um ato de ativismo que pode mudar a vida das pessoas. Permite ajudar a vários níveis, como nas questões de representação ou de modelo, quem já saiu ou “quem ainda está a sair dos seus armários”, mas também “dar a conhecer melhor o que isso significa” a todas as outras pessoas, “o que significa a discriminação que é viver em silêncio, para além das outras discriminações”, explica Paulo Côrte-Real numa entrevista à plataforma esQrever.

As saídas dos armários das pessoas LGBT+ são geralmente libertadoras, e um momento de alegria para quem as vive e para quem as acompanha, mas existem outras saídas, de outro tipo de armários, que parecem revestir um caráter particularmente doloroso para quem as experiencia e para quem as observa. Foi o que senti ao ler a sofredora “saída do armário” de José Pacheco Pereira no seu artigo Porque é que todes não é todos, nem todas?, em que revela ter descoberto algo “que nunca na vida lhe tinha passado pela cabeça”: é um “caucasiano branco, do sexo masculino, cisgénero”.

Pacheco Pereira junta assim a sua voz às da vasta comunidade das Pessoas Universais e Neutras (PUN) que beneficiavam (e continuam a beneficiar) da invisibilidade dos seus armários. A comunidade PUN está a viver um momento de crise identitária obsessiva, um pânico inexorável, podem tentar voltar para o conforto dos seus armários, mas a porta está agora aberta à vista do mundo. Perderam a chave. Pacheco Pereira deixou de passar despercebido enquanto homem quando fala de feminismo ou enquanto branco quando fala de colonialismo (sobretudo quando parece não compreender porque é que o insulto “preto” não é “atingido pelo mesmo opróbrio” que “branquela”). Nós, mulheres, pessoas negras e LGBT+ podemos compreender esse sentimento, visto ser o nosso quotidiano, não beneficiando nunca do armário da universalidade e neutralidade. Somos vítimas constantes da descredibilização das nossas vozes, das nossas produções.

Como descreve de forma lapidar Grada Kilomba em Decolonizing Knowledge (2016), somos vozes consideradas não científicas, específicas, subjetivas, pessoais, emocionais, pois “eles têm factos, nós temos opiniões, eles têm conhecimento, nós temos experiências”. “O neutro é o homem. (...) A mulher é o Outro”, denuncia Alice Coffin em O génio lésbico.

Enquanto a oprimida comunidade PUN se lamenta de já não poder dizer aquilo que quer, no preciso momento em que está a dizer aquilo que quer (por vezes até em meios de comunicação com grande audiência), vai continuando a impor aquilo que se deve ou não dizer, e quem tem autoridade ou não para falar. Que maravilhoso sentimento de omnipotência e de supremacia! Dizem às mulheres, pessoas negras ou LGBT+ como é que devem ser designadas, que identidades ou que direitos podem ou não ter e até que insultos devem ou não suportar. Eu, por exemplo, enquanto pessoa afrodescendente e bissexual terei de suportar que me insultem de “preta fufa” só para satisfazer as ansiedades linguísticas de Pacheco Pereira. Se assim não for, estarei a participar no terrível empobrecimento da linguagem.

Mas a democracia não é um dicionário desencarnado, as palavras importam porque estão por detrás pessoas, pessoas de “corpo e alma” e com direitos. Este é um clássico da visão antidemocrática da comunidade PUN, a liberdade de ofender de uns é mais importante do que a liberdade de não ser ofendido dos outros.

Este é um clássico da visão antidemocrática da comunidade PUN, a liberdade de ofender de uns é mais importante do que a liberdade de não ser ofendido dos outros

A comunidade PUN tem orgulho na sua invisibilidade, mas por vezes também na sua ignorância preguiçosa que exibe sem qualquer pudor: “Ena, tantas letras, quero lá saber o que isso significa! A comunidade LGBT+ tem uma história? Quero lá saber, para mim é uma moda, ouvi falar do assunto ontem e achei por bem dar a minha opinião fundamentada no mais puro ‘achismo'”. E, no entanto, diversas fontes de aprendizagem existem para não se cair na “absoluta idiotia”, como por exemplo, o belíssimo documentário Les invisibles (2012), de Sébastien Lifshitz, que conta a luta de pessoas LGBT nos anos 50 em França e que na altura da gravação com idades entre os 75 e 85 anos testemunham sobre a extrema importância da linguagem, da necessidade de existirem nomes com os quais se pudessem identificar.

Ou ainda o excelente documentário My name is Pauli Murry (2021), de Julie Cohen e Betsy West. Pauli Murry, incrível ativista dos direitos civis, nasceu em 1910, exercia a advocacia, tendo tido influência em várias leis nos EUA contra a segregação, pelos direitos das mulheres e pessoas LGBT+ mesmo depois da sua morte em 1985. Lutou toda a sua vida com a sua identidade e expressão de género, e provavelmente entraria, hoje, na categoria das pessoas transgénero ou não-binárias, segundo vários artigos de investigação, textos biográficos ou entrevistas da família. Pauli Murry descrevia-se como tendo um “instinto sexual invertido”, comportando-se como um homem atraído por mulheres

Não é uma moda, e justamente pessoas viveram tantos momentos dolorosos por falta de reconhecimento interno e externo. “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”, escreve Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus (1921). Ora, se não há palavra para descrever quem sou, quem sou eu? Será que existo? Que existência me é permitida para mim própria, na sociedade, na democracia?

Wittgenstein também defendia que “sobre aquilo de que não se pode falar devemos ficar em silêncio”, ao que podemos acrescentar que sobre aquilo de que não se sabe falar, deve-se aprender e, em primeiro lugar, aprender a ouvir. Até porque, como diz o povo, “o saber não ocupa lugar” e o LGBTTTQQIAA+ tem o todo o direito de ocupar o seu lugar numa democracia inclusiva que respeite os direitos de todas, todes e todos.

11.7.22

A melhor escola será sempre aquela que não desiste dos seus alunos

António Castel-Branco, opinião, in SIC 

Queremos fazer da Educação uma competição baseada nas classificações obtidas nos exames, que é, como vimos, absurdamente desigual, ou queremos continuar num caminho mais atento às necessidades individuais, que forme cidadãos ativos e preparados para viver em sociedade?Anualmente, o Ministério da Educação divulga os resultados dos exames nacionais, aproveitando a comunicação social para efetuar o seu tratamento e elaborar um ranking, ordenando as escolas por ordem decrescente dos resultados. Mais uma vez, aí o temos, com as classificações acompanhadas por dois novos indicadores, percurso direto de sucesso e equidade, destinados a dirimir as diferenças existentes resultantes das desigualdades sociais, variáveis de contexto que têm vindo a ser desenvolvidas para que as classificações possam ser compreendidas à luz das várias circunstâncias, sociais, económicas, geográficas ou institucionais.

Mas continuam a ser apenas resultados de exames. E é unânime, em quem conhece a realidade das escolas portuguesas, que estes dados nada permitem concluir sobre a qualidade das mesmas. Dizer que as escolas privadas são melhores que as públicas porque ocupam quase todos os cinquenta primeiros lugares dos rankings, ou que as escolas públicas situadas nos lugares cimeiros desenvolvem um melhor trabalho que as localizadas em lugares inferiores, é uma enorme falácia, e é o mesmo que fazer um ranking de hospitais por tempo de espera ou de internamento dos seus doentes, ou de tribunais pelo número de processos que os seus juízes despacham.

Não podemos escamotear o facto de existirem grandes diferenças entre as escolas. De qualidade? De professores? Também, claro, mas as principais são as diferenças socioeconómicas e socioculturais dos estudantes, em especial daqueles que residem em zonas menos desenvolvidas e com mais dificuldades de acesso a meios que os possam ajudar na aquisição e desenvolvimento das aprendizagens. Estes rankings denunciam, assim, as desigualdades sociais, misturando escolas privadas, onde os alunos são selecionados em função do maior poder económico e das superiores habilitações académicas dos pais, normalmente com melhores infraestruturas e recursos educativos, com escolas públicas situadas nos bairros privilegiados das grandes cidades, onde os alunos usufruem de explicações privadas a quase todas as disciplinas, e com as escolas dos bairros urbanos e suburbanos pobres e as do interior mais esquecido do país. Também se misturam escolas de menor dimensão, com rácio muito menor de número de alunos por professor, com escolas sobrelotadas, onde os recursos são escassos, ou escolas sem problemas de falta de professores com escolas onde não é possível garantir os professores durante todo o ano letivo.

Questionemo-nos: queremos fazer da Educação uma competição baseada nas classificações obtidas nos exames, que é, como vimos, absurdamente desigual, ou queremos continuar num caminho mais atento às necessidades individuais, que forme cidadãos ativos e preparados para viver em sociedade?

Os resultados ora tornados públicos têm já como base o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e as Aprendizagens Essenciais. A maior exigência destes alicerces do currículo origina provas de exame distintas, cujas competências críticas e de resolução de problemas terão de ser mais solicitadas.

Verificamos, como era esperado, que estes resultados traduzem uma acentuada melhoria relativamente a 2019, fruto, por um lado, de cada exame só ser realizado por quem dele necessita como prova de acesso, e, por outro, da existência de perguntas de opção. Simultaneamente, assiste-se a um ligeiro decréscimo para 2020, cuja razão poderá estar no facto de, em 2021, os alunos terem tido dois anos em que parte do ano letivo foi de ensino a distância.

Em suma, cada escola deve analisar os dados à luz da sua realidade, numa perspetiva de melhoria contínua para uma permanente superação.

Pois a melhor escola será sempre aquela que não desiste dos seus alunos e que utiliza a diversidade como oportunidade para providenciar melhores aprendizagens; uma escola inclusiva e plural, que valoriza os seus alunos potenciando as suas capacidades cognitivas e desenvolvendo a sua humanidade, a sua cidadania e o seu bem-estar mental.

5.7.22

Comentários de "ódio" e "discriminação" de docente geram indignação

in DN

Um estudante disse que os alunos se encontram descontentes pela "posição neutra" que a reitoria está a tomar perante a situação e querem que seja feita alguma coisa relativamente ao docente em questão.

Um grupo de estudantes da Universidade de Aveiro (UA) está a preparar uma ação para protestar contra o comportamento de um professor daquela instituição que dizem ter um discurso de "ódio" e "discriminação".

Em causa está uma publicação que o docente fez na sua página da rede social Facebook onde critica abertamente a comunidade LGBTQIA+, a propósito de uma campanha publicitária que dá a conhecer os vários termos relacionados com esta comunidade como "gay", "lésbica", "queer" ou "não binária".

"Acho que estamos a precisar urgentemente duma 'inquisição' que limpe este lixo humano (...) todo!", escreveu o docente, considerando que este ato publicitário "é uma agressão e merecia umas valentes pedradas nas vitrinas só para aprenderem".

Esta publicação junta-se a outras que o docente fez em 2021, onde terá feito comentários depreciativos com teor racista, homofóbico e contra as medidas decretadas pelo Governo para combater a pandemia provocada pela covid-19.

Na altura, o reitor da UA ordenou a abertura de um inquérito ao docente do departamento de física, devido à publicação nas redes sociais de mensagens com teor "discriminatório" com as quais a instituição "não pactua".

Desagradados com esta situação, vários alunos criaram um grupo na rede social Facebook que já conta com mais de 700 membros.

Em declarações à Lusa, um estudante disse que os alunos encontram-se descontentes pela "posição neutra" que a reitoria está a tomar perante a situação e querem que seja feita alguma coisa relativamente ao docente em questão.

"Este comportamento vem a acontecer desde o ano passado, altura em que se abriu um inquérito, mas que até hoje nada foi feito", afirmou o estudante universitário.

A Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv) também já manifestou o seu "total repúdio à conduta pessoal" do docente considerando que a mesma, ainda que exterior ao ambiente académico, "não deixa de afetar" os estudantes desta academia.


"A AAUAv não pode tolerar qualquer tipo de discurso de ódio ou de discriminação e muito menos de incitação à violência", referem os representantes dos estudantes que dizem que têm vindo a trabalhar conjuntamente com a Reitoria, no sentido de tomar "todas as diligências possíveis e resolver de vez a situação que há muito se tem arrastado".

Após a denúncia da situação, a Reitoria difundiu um comunicado dirigido aos membros da comunidade académica, onde defende a liberdade de expressão e de opinião, consagrada na Constituição da República Portuguesa, reconhecendo a separação das esferas pessoal e profissional.

"Ciente, porém, da importância que um ambiente de respeito e confiança tem para o bom funcionamento da Instituição, a Universidade saberá avaliar quaisquer condutas que possam interferir com esses últimos valores e propósitos e que se repercutam negativamente na imagem da instituição - e atuará em conformidade, com rapidez e firmeza", diz a Reitoria.

A mesma nota refere que atualmente convivem na UA espaço pessoas de "mais de 90 diferentes nacionalidades", não sendo por isso de tolerar "discursos de ódio, de discriminação ou de incitação à violência, qualquer que seja a sua natureza, origem ou contexto".

8.6.22

Homossexualidade não é crime há 40 anos, mas "ainda há muito a fazer"

in DN

Saúde, trabalho ou educação são áreas em que ainda se pode trabalhar.

Quarenta anos de despenalização da homossexualidade trouxeram a Portugal progressos sucessivos e conquistas, mas a evolução da sociedade nem sempre acompanha a legislativa e "ainda há muito a fazer" em áreas como a saúde, trabalho ou educação.

António Serzedelo recorda-se bem do momento da alteração ao Código Penal em 1982 que permitiu que a homossexualidade em Portugal deixasse de ser um crime punível por lei, um facto que acontece oito anos depois da revolução de 25 de Abril que derrubou o regime fascista do Estado Novo.

"Recordo-me desse momento e de o termos festejado, mas não foi propriamente um grande festejo, foi mais um aplauso político que lançámos para os partidos que votaram nesse momento. Não me recordo se houve em Lisboa alguma manifestação com alguma grandeza a propósito disso", contou à Lusa.

Ainda assim, lembra-se que essa alteração teve um efeito imediato: "Na rua, dizíamos uns para os outros 'somos livres, somos iguais' porque até aí não éramos".

Para o ativista e ex-presidente da Opus Gay (agora Opus Diversidades), foram "40 anos de progressos sucessivos, mas que não tiveram a réplica social que era esperável relativamente às leis que foram promulgadas", ressalvando que as mudanças foram sobretudo nas cidades e nos meios mais cosmopolitas.

Na opinião de António Serzedelo, "ainda há muito a fazer em termos de igualdade", mas salientou, por outro lado, as conquistas impulsionadas pela alteração do Código Penal, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2010, que trouxe "uma igualdade de direitos" para juntar à igualdade legislativa.

Manuela Ferreira, presidente da Associação de Pais e Mães pela Liberdade de Orientação Sexual (AMPLOS), concorda que "já se fez muito caminho" e que "ainda há muito por se fazer", apesar de entender que "a homossexualidade já está um bocadinho mais integrada na vida das pessoas".

Para a responsável, passados 40 anos, "faltam duas ou três coisas", nomeadamente "que estas questões sejam faladas com a maior abertura possível nas escolas", defendendo que quanto mais o assunto for falado mais ele será encarado com naturalidade.

Defende, por outro lado, a inclusão nos currículos dos cursos superiores, salientando que o que falta é "formação e educação", sobretudo "educação no respeito pela diversidade, educação no respeito pela pessoa num todo".

Da direção do Clube Safo, uma organização de defesa dos direitos das mulheres lésbicas, Alexandra Santos acha que "é incrível" que em 40 anos Portugal tenha conseguido "tantas leis e em algumas delas estar à frente de alguns países que se dizem mais desenvolvidos ou mais liberais", sublinhando que o "progresso é efetivo e real" e exemplificando com o casamento, a adoção ou a procriação medicamente assistida.

"As pessoas trans podem fazer todos os processos de transição sem precisarem de processar o Estado, é realmente um avanço tremendo nos últimos 40 anos", destacou.

Apontou, por outro lado, que "estes processos são depois muito mais demorados na sociedade" e deu como exemplo três áreas onde ainda faltam mudanças importantes, desde logo na saúde, defendendo formação para a diversidade, direitos laborais, onde denunciou o assédio laboral e sexual contra mulheres lésbicas, ou no sistema judicial.

Para Sérgio Vitorino, do coletivo de combate à discriminação da população LGBTI Panteras Rosa, os direitos laborais também são uma das principais áreas onde é preciso atuar para uma igualdade plena, salientando que "continua a haver muita resistência e muita dificuldade em aceitar que os direitos laborais não mexem apenas com os direitos no local de trabalho e que a precariedade é mais ampla e que se estende a outras dimensões da vida".

"Outro tema que ainda está por explorar é o das pessoas intersexo, que é o das pessoas com características sexuais físicas, genéticas ou hormonais que não permitem classificá-las dentro dos padrões binários de homem/mulher e o movimento LGBTI tem ainda muito caminho a fazer", defendeu.

Na opinião do ativista, falta conquistar direitos em quase todas as áreas e destacou a necessidade de formação na saúde, sublinhando que a formação médica "está inteiramente desfasada da realidade", que tem diversidade de pessoas, "não só sexual, de género, corporal, mas também de nacionalidade ou de língua".

A questão da saúde é também uma das áreas apontadas pela presidente da ILGA Portugal, além do apoio de emergência e tudo o que tenha a ver com asilo e imigração, defendendo que as soluções atuais não estão adaptadas às especificidades das pessoas LGBTI e que "há contextos que na prática não estão a corresponder ao que a lei obriga".

Ana Aresta concordou que as "grandes discriminações históricas foram sanadas pelas alterações legais mais recentes", mas recordou que "falta ainda garantir a proibição das chamadas terapias de conversão" ou "criar lógicas de interseccionalidade na lei", apontando que nos últimos anos a ILGA tem reivindicado por uma lei-quadro antidiscriminação, "que consiga uniformizar todos os diplomas que combatem a discriminação e tentar que todas as pessoas que sofrem múltiplas discriminações sejam protegidas".


Conferência pretende ser momento agregador


As terapias de conversão sobre pessoas LGBTI+ ou os problemas e a discriminação associados ao envelhecimento desta população são alguns dos temas em destaque na conferência sobre os 40 anos da despenalização da homossexualidade em Portugal.


A conferência "40 anos da despenalização da homossexualidade em Portugal: História LGBTI+ em Portugal" decorre entre sexta-feira e sábado, em Lisboa, e, em declarações à agência Lusa, um dos membros da comissão organizadora apontou que é preciso refletir sobre o que representa esta data e que progressos ela trouxe.


"Um grande tema que tem merecido preocupação é o das chamadas terapias de conversão, que na verdade não são terapias, outros países têm-nas equiparadas a tortura, é disso que se trata, de uma violência, ainda para mais de uma violência exercida sobre pessoas vulneráveis", apontou Ana Cristina Santos, que integra o Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra.

Sublinhou que são muitas vezes adolescentes e jovens que são levados a fazer estas terapias "muito violentas" e que não têm como resistir, e que este tema acaba também por estar ligado ao da saúde sexual e reprodutivas das pessoas transexuais.


De acordo com Ana Cristina Santos, outra das áreas que "tem estado muito ausente quer da discussão académica, quer das políticas, é a questão do envelhecimento".

"Fala-se muito da importância do envelhecimento, mas não na ótica das especificidades das pessoas LGBTI+ e isto levanta outras questões associadas como dar formação especifica às pessoas prestadoras de cuidados ou sensibilizar a população para a diversidade sexual e de género a partir dos 65 anos", salientou.


Nas palavras da responsável, esta conferência pretende ser "um ponto de partida agregador", afirmando não ter memória de uma outra conferência em Portugal centrada exclusivamente nas questões LGBTI+ (Lésbicas, Gay, Bissexuais, Trans e Intersexo) e admitindo a possibilidade de serem organizados mais eventos no decorrer do ano.


Ana Cristina Santos concordou que são precisos mais espaços de produção de conhecimento e de reflexão coletiva e que apesar da investigação na área dos estudos LGBTI+ ter conhecido um avanço significativos nos últimos anos, é preciso encontrar "ocasiões de partilha de pensamento e de resultados de uma forma mais alargada pelos membros da comunidade que faz investigação e de uma forma interdisciplinar".


"Com este evento vamos dar um salto de qualidade", garantiu.


Sobre os avanços de movimentos e de ideologias populistas e extremistas, que "incentivam a uma fortíssima ideologia antigénero e antidireitos LGBTI+", a investigadora reconheceu que também já têm expressão em Portugal e que são um "fortíssimo ataque à diversidade sexual e de género".


"É uma onda que merece a nossa atenção justamente para evitar que conquistas históricas ao nível da dignidade humana sejam postas em causa", defendeu.


Acrescentou que "não é compatível com a qualidade da democracia que haja um retrocesso que tira direitos às pessoas, direitos esses que representam maior qualidade de vida para todas as pessoas".


Ana Cristina Santos acrescentou que o universo académico está atento a esses desenvolvimentos e frisou que só é possível combater o extremismo com mais conhecimento, com mais espaço para reflexão conjunta e numa lógica de forte diálogo com a sociedade civil.


Relativamente à conferência, que é organizada em conjunto pelo CIES, pela Universidade Nova de Lisboa, pelo ISCTE, pelo Instituto de História Contemporânea e pela Câmara de Lisboa, Ana Cristina Santos destacou que vai ter dois momentos importantes, um mais voltado para o passado e outro para o pressente, com implicações no futuro.


A responsável apontou que "o facto de a despenalização ter acontecido significa, na prática, que a democracia não chegou ao mesmo tempo para todas as pessoas" e que houve um hiato de oito anos após o 25 de Abril "em que uma boa parte da população portuguesa vivia com o risco constante de ver os seus afetos criminalizados".


"Isto representou um atraso para a qualidade da nossa democracia, com impacto na nossa cidadania e por isso não podíamos deixar passar os 40 anos de um marco tão importante para a qualidade democrática", defendeu.

Por outro lado, apontou que Portugal está no topo da igualdade e do reconhecimento em termos internacionais, com avanços jurídicos em termos de direitos fundamentais e que, por isso, é também objetivo da conferência contribuir para que a memória não se perca e seja sempre valorizado o caminho que foi feito até aqui.


17.5.22

Inclusão e diversidade, uma necessidade de todas as organizações

Brand Story, in Dinheiro Vivo

São cada vez mais os profissionais que baseiam as suas escolhas no nível de compromisso das empresas em temas como a diversidade e a inclusão. É também por isso que o caminho das organizações tem de passar por uma abordagem extensiva e compreensiva.

diversidade é um tema que está cada vez mais presente na agenda pública e, por consequência, também tem de se estender às organizações. Foi um longo caminho que se fez até que os assuntos que dizem respeito à multiplicidade de existências, de identidades, de culturas chegassem a debate, mas ainda há muito a fazer. E esse trabalho é uma responsabilidade não só da sociedade como um todo, mas também das organizações e das suas gestões.

Esse imperativo está a expressar-se e a chegar às empresas não só através de fatores externos, como as políticas públicas, mas também através dos colaboradores e futuros colaboradores. Segundo o último Randstad Workmonitor, lançado no início de abril deste ano, a diversidade, a inclusão e a forma como as empresas abordam e incorporam estas problemáticas nos modelos de gestão são um motivo de preocupação para cada vez mais profissionais.

Traduzindo esta preocupação em números, pode dizer-se que, por exemplo, 51% dos inquiridos não aceitariam um emprego se a empresa para a qual se candidatam não tivesse em prática uma estratégia de promoção da diversidade e da inclusão. Este é um assunto especialmente fraturante para as gerações mais jovens: metade dos Millennials (48%) e da Geração Z (49%) afirma que não aceitaria um emprego que não estivesse alinhado com os seus valores sociais e ambientais.

Portugal tem feito um esforço impressionante no que diz respeito à diversidade de género, especialmente quando se fala do setor tecnológico. Numa análise profunda ao setor feita pelo fundo de capital de risco Atomico, o nosso país apresenta o melhor índice de diversidade de género na Europa, "com a proporção mais baixa de equipas exclusivamente masculinas que receberam financiamento".

No entanto, ao contrário do que se possa pensar, diversidade e inclusão não diz apenas respeito aos temas de género. Falar em equipas diversas e gestões inclusivas nas organizações é falar em igualdade de oportunidades para mulheres, minorias raciais e étnicas, membros da comunidade LGBTQ+, pessoas com deficiência e demais grupos minoritários. Torna-se então uma responsabilidade social, para além de boa prática, que a incorporação seja bem pensada, orientada pelo propósito e verdadeiramente compreensiva.

Ainda assim, contratar uma força de trabalho diversificada, pôr em prática processos de contratação inclusivos e gerir equipas com membros distintos é um desafio para organizações que perpetuam formas tradicionais de pensar. O primeiro passo é, exatamente, quebrar esse ciclo de pensamento e entender que pensar em diversidade é também pensar em prosperidade, em ambientes de trabalho mais saudáveis e em ganhos reputacionais.

3.5.22

Diversidade: esta quarta-feira é o último dia para candidatura a estágio profissional

in Público

É hoje o último dia para a candidatura ao estágio remunerado que começa a 16 de Maio, com apoio da Rede Aga Khan. Queremos que as redações representem de forma mais plural a sociedade portuguesa e que os seus textos possam contribuir para uma sociedade mais aberta e cosmopolita. Serão valorizados os candidatos que pertençam a comunidades étnico-raciais menos representadas nas equipas de jornalistas em Portugal.

Esta quarta-feira, dia 20 de Abril, é o último dia para aceitar candidaturas ao estágio profissional promovido pelo PÚBLICO. As candidaturas podem ser enviadas até às 23h59 para diversidade@publico.pt. Reconhecendo a falta de diversidade social na representação do jornalismo em Portugal, e também na sua redação, o PÚBLICO, que assume entre os seus valores a promoção de todos os segmentos que representam a sociedade portuguesa contemporânea, criou um programa de formação que vai decorrer este ano. Queremos que as redações representem de forma mais plural a sociedade portuguesa, e que os seus textos possam contribuir para uma sociedade mais aberta e cosmopolita, fomentando, por esta via, uma cultura de diversidade no local de trabalho para combater a discriminação.

Por isso, abrimos dois lugares para estágios profissionais, com o apoio financeiro da Rede Aga Khan, para jornalistas em início de carreira ou finalistas do curso de Comunicação Social, que pertençam a comunidades étnico-raciais menos representadas nas equipas de jornalistas em Portugal.

O estágio será remunerado, terá a duração de seis meses e vai ser orientado por profissionais da casa, dando ao candidato as ferramentas indispensáveis para adquirir competências jornalísticas de excelência.

Para concorrerem, os candidatos têm de enviar uma carta de motivação para o e-mail diversidade@publico.pt onde expliquem porque querem participar e apresentem uma proposta de tema livre, mas centrado na atualidade, que deve ser de interesse público e exequível. A proposta tem de conter uma descrição do projeto de reportagem ou notícia que o candidato pretende efectuar, o modo como o pretende fazer, que metodologias irá utilizar e a definição de um prazo. Pede-se ainda que enviem trabalhos jornalísticos que tenham efetuado, publicados ou não.

As candidaturas serão depois selecionadas por um júri para uma entrevista presencial. Este júri é composto por três elementos do PÚBLICO — a diretora adjunta Andreia Sanches, a editora da Sociedade Rita Ferreira e a jornalista Joana Gorjão Henriques —, pela jornalista Carla Fernandes, fundadora do Podcast Afrolis, e pelo dirigente da associação Letras Nómadas Bruno Gonçalves.

Os dois candidatos que mostrarem as melhores competências e o perfil que mais se enquadre no estilo jornalístico do PÚBLICO serão escolhidos para fazer um estágio profissional que começa a 16 de Maio. O programa está aberto a todos os candidatos que preencham as condições exigidas.

Guiamo-nos pelo Plano Estratégico para as Migrações (que visa o reforço de medidas de promoção da integração e inclusão de cidadãos), pela Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas no mercado de trabalho, através do desenvolvimento de competências e seguindo igualmente as indicações da Directiva Europeia (Directiva 2000/43/CE do Conselho, de 29 de Junho de 2000) que aplica o princípio da igualdade de tratamento entre as pessoas, sem distinção de origem racial ou étnica e que prevê a implementação de medidas positivas para compensar desvantagens relacionadas com a origem racial ou étnica.

Requisitos dos candidatos:
Frequentar os últimos anos de formação em Jornalismo ou ter experiência profissional na área de jornalismo.
Ter um projecto de reportagem, notícia, artigo de opinião para desenvolver e apresentá-lo.
Pertencer a uma comunidade étnico-racial menos representada nas redacções portuguesas.

Processo de selecção:

Enviar um pequeno ensaio (máximo de 3 mil caracteres com espaços) a explicar as motivações para participar.
Anexar um CV com fotografia.
Enviar uma descrição do projecto de reportagem ou notícia que pretende efectuar e o modo como o pretende fazer para diversidade@publico.pt
Consultar o regulamento aqui.

24.5.21

O mundo mudou, a humanidade está mais pobre

Por Nuno Olim Marote, in Dinheiro Vivo

A diversidade cultural é, sem qualquer dúvida, o maior ativo para o desenvolvimento e progresso da Humanidade. O mundo mudou de um modo demasiado abrupto e está agora enfraquecido nas suas expressões culturais e artísticas, por conseguinte, estamos expostos a fragilidades e perante uma ameaça real e preocupante, na relação com o outro e no diálogo, que são essenciais entre civilizações. A diversidade cultural é a base da economia, da política e da própria sociedade, é pilar essencial do desenvolvimento. Sempre foi e sempre será. É então fundamental estudar, mapear e documentar de um modo estratégico o seu valor e impacto. Dos governos à academia e à sociedade civil. Entenda-se que os governos não são a única resposta possível para um futuro que se antecipa dramático se ficarmos de "braços cruzados". A solução não está apenas na dimensão politica e governativa. Na verdade, dependerá de cada um e de todos nós. É neste tempo - porque não temos outro - que vamos ter de reagir e desafiar preconceitos universais, reagir à mesma velocidade que a sociedade híper conectada.

Hoje, Maio de dois mil e vinte um, o mundo está mais extremado. Isso não faz sentido. Essa evidente tendência terá de ser revertida através de responsabilidade e compromisso humano, cultural e social, enquanto indivíduos. É urgente gizar uma movimentação coordenada de ações e iniciativas, individuais e coletivas, usando criatividade, no sentido de protegermos este ativo, tão valioso quanto fundamental. Dois mil e vinte e um, à semelhança de dois mil e vinte espelha incerteza e ansiedade, e embora estejamos hoje mais bem preparados do que nunca, o mundo continua a polarizar-se e a não perceber a vantagem e riqueza que podemos designar da diversidade (cultural). Temos que decifrar a incerteza como uma oportunidade de nos renovarmos e nos focarmos no essencial. O mundo mudou e à 

As Nações Unidas instituíram, em Dezembro de 2002 e através da Resolução 57/249, o Dia 21 de Maio como o Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento.

Esta efeméride, é o pilar basilar do desenvolvimento e que incorpora e cruza os conceitos fundadores da Agenda 2030. Os famosos cinco "P"s estruturais. As Pessoas, o Planeta, a Paz, a Prosperidade e as Parcerias. Então, por que é que a diversidade cultural é tão importante? Vejamos. Três-quartos dos maiores conflitos de escala mundial têm a sua origem em diferenças culturais. Desenvolver pontes para diminuir esta tensão é tão urgente quanto necessário e indispensável para a redução da pobreza - e outras desigualdades que já não fazem sentido no mundo de hoje - e se alcançar o tão desejado desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas: Transforming Our World. "Enquanto fonte de troca, criatividade e inovação, a diversidade cultural é tão necessária para a humanidade, como a biodiversidade é para a natureza.", refere a Declaração Universal da Diversidade Cultural.

Repare-se que durante o confinamento, massivo e global, biliões de pessoas de todos os contextos, culturas e nacionalidades, usaram a cultura e as artes como forma de conforto, bem-estar e conexão. As tecnologias de informação e de comunicação tiveram aqui um papel fundamental. A base de tudo isto, o sentido da nossa existência é o diálogo e a conexão com o outro. E só existe um sentido, que é por si só inspirador e traduzido na fusão, na diferença e na pluralidade.

Nuno Olim Marote, Founder Give Peace a Voice

10.2.16

33 imagens deslumbrantes da beleza da espécie humana

in o Observador

Os olhos vibrantes no Médio Oriente, as famílias atacadas pelo Estado Islâmico, as pinturas que a cultura exige. Estas são 33 imagens da diversidade e da beleza da espécie humana.

Os olhos desta menina yazidi, numa foto captada na fronteira entre o Iraque e a Síria, parecem mostrar o céu interior por debaixo do cabelo loiro. Mas ela é uma das imagens da perseguição que esta tribo sofre por parte do Estado Islâmico. Esta é apenas uma das imagens que mostra o esplendor da espécie humana, em toda a sua diversidade de cores de pele e cultura, crenças e lutas que se travam pelo mundo fora.

Desde a mãe e o bebé queimados com ácido, até à beleza das mulheres palestinianas, passando pelas rugas de quem trabalha no campo e pelo mundo de quem nada vê: estas 33 imagens mostram a diversidade da espécie humana.

9.11.15

Nesta escola cabe o mundo inteiro

Marta Cerqueira, in iOnline

Não é preciso olhar para o rosto das crianças para perceber que se está num lugar multicultural. Basta ler os nomes no bengaleiro. No Jardim-de-Infância dos Anjos, em Lisboa, estudam crianças de 18 nacionalidades.

Cada degrau das escadas que dão acesso ao jardim-de-infância aproxima-nos de tudo o que é típico destes lugares: cores que nos enchem os olhos, o cheiro a papas que escapa da cozinha e o burburinho que atravessa corredores e une as salas divididas por idades e identificadas por cores. Na verde estão os de cinco anos, o que num infantário já dá direito a estatuto de “mais velhos”, mas tira a prioridade na fila para o almoço. Já perto do meio-dia, a fome é enganada com desenhos feitos a borrona e lápis coloridos. “Oh, Nicole, as árvores não são cor-de-rosa”, avisa Jéssica. “Mas eu pintei de cor-de-rosa, por isso estas árvores são cor-de-rosa”, resmunga Jéssica, recuperando o desenho que lhe tinha sido arrancado das mãos em protesto pelo aparente momento de daltonismo.

Nesta sala, as tintas misturam-se na caixa que guarda as canetas e nos desenhos assinados com o esforço de quem ainda não decorou o abecedário. Mas é à volta das mesas, em miniatura para qualquer adulto, que se dá a verdadeira miscelânea de tons. “A Jacinta é a mais escura de todos”, denuncia alguém. E ela agita as trancinhas coloridas do cabelo em sinal de concordância. “Pois sou. Eu e o Adriano.” Do outro lado da mesa, Adriano levanta a cabeça da plasticina que lhe ganha forma nas mãos, mas o assunto parece- -lhe demasiado irrelevante para o desviar da sua criação artística.

O Jardim-de-Infância dos Anjos, em Arroios, divide as 100 crianças por salas consoante as idades. Nada de novo no reino dos infantários, não fosse este em particular composto por miúdos de 18 nacionalidades, incluindo a portuguesa que, apesar de tudo, continua a predominar numa das freguesias mais internacionais da capital.

O que torna esta escola diferente começa a notar-se ainda nos corredores. Os cabides individuais têm pendurados os casacos e mochilas da Maria, da Joana e do Martim, mas também do Caleb, da Yasmine e do Alfa. Quando os nomes ganham corpo, chamam a atenção alguns olhos mais rasgados, as cores que vão do claro ao escuro ou os sotaques que denunciam outras raízes. “Eu já fui à Libéria”, grita Jacinta, sobrepondo-se às vozes que se confundem na sala. A mistura entre a terra da mãe e o Senegal do pai fazem dela a mais escura da sala, como já os colegas tinham denunciado, mas também a mais faladora. “Deixa-me falar a mim agora”, interrompe Adriano, que joga taco a taco com Jacinta na questão da cor da pele. A educadora dá-nos a indicação de que os pais são angolanos, mas à pergunta “de onde és”, Adriano solta um simples “sou do Benfica”. A partir daí, seguem-se alguns minutos de disputa por cores futebolísticas mais acesa do que alguma vez houve com as cores das suas peles.

Beatriz Gusmão é professora no Jardim--de-Infância dos Anjos há dez anos e são poucas as vezes que sentiu algum tipo de discriminação entre as crianças. É, aliás, fora das paredes do edifício que as diferenças são mais notórias. “Volta e meia vamos dar um passeio e um deles aponta para quem passa e comenta: ‘Este senhor é castanho como o meu pai.’” A educadora admite ter já ouvido uma ou outra vez um “não brinco contigo porque és preta”, mas foram casos pontuais e resolvidos no momento, explica. Para evitar divisões, são as educadoras que organizam os grupos, procurando assim impedir que não se associem sempre aos mesmos colegas. Além disso, a hora da história costuma ter sempre uma mensagem subliminar e é promovida a aprendizagem sobre as diferentes línguas e culturas.

Rodrigo, o mais pequeno da sala, arregala os olhos pestanudos enquanto se empoleira numa cadeira para chegar ao mais recente projecto que enche uma das paredes da sala. “Fui eu que fiz esta bandeira”, diz, apontando para um mapa- -mundo feito de massinhas onde os países estão identificados pelas respectivas cores. Rodrigo, como quase todos os outros colegas, é filho de uma mistura que se nota no cabelo curto escondendo uns caracóis em ascensão e o tom moreno da pele. “A minha mãe é castanha e o meu pai é branco”, resume antes de concluir: “E eu sou o Rodrigo.”

Cantina multicultural Um papel posto logo à entrada não deixa dúvidas quanto ao cheiro que chega da cozinha. O almoço vai ser simples: bife de frango com arroz e fruta para sobremesa. “Hoje é um bom dia”, atira Iolanda, a cabo-verdiana que, em conjunto com a brasileira Luciene, toma conta de uma cozinha que mais parece um caldeirão de culturas.
Os dias em que a ementa tem carne de porco ou de vaca são de algumas dores de cabeça para as cozinheiras. O mesmo para os pratos em que o acompanhamento é massa ou quando o lanche é feito com leite e pão. Aos cada vez mais comuns celíacos e intolerantes à lactose juntam--se as condicionantes de quem obedece a regras de outras culturas e religiões. “A sala vermelha é a pior”, conta Iolanda, apontando para a cábula afixada na parede, que a ajuda a não cometer erros.
Nesta turma há uma criança intolerante ao glúten, outra que não bebe leite com lactose, um muçulmano que não come porco e dois indianos, um que não come porco e outro que não come nem vaca nem porco. “Não é difícil”, garante a cozinheira, “é uma questão de hábito.” E, de facto, a ementa é preparada com antecipação para que não haja falhas. “Mas já aconteceram?” A directora da escola, Joana Marques Vidal, recorda apenas um deslize, “cometido há muitos anos”, garante. “Tinha cá uns miúdos ismaelitas que não comiam carne de porco. O problema foi que eu me esqueci que salsichas são feitas de porco”, lembra, entre risos.
Fundadora de uma escola com mais de 40 anos, Joana garante que não há nada mais fácil do que lidar com miúdos. “Para estas crianças não há cores”, garante. “Já viram como tudo seria melhor se fôssemos como eles?”

30.10.13

A escola face à diversidade

David Rodrigues, in Público on-line

A premência de assegurar uma educação que seja realmente “para todos” colocou em cheque a possibilidade de educar só alguns e rejeitar – pelo insucesso ou pelo abandono forçado – muitos dos outros. Hoje parece-nos quase incompreensível como é que, por exemplo, a cidade do Porto tivesse apenas há 50 anos atrás só dois liceus masculinos, dois femininos e umas poucas de escolas técnicas.

A massificação do ensino – termo que eu não gosto por me lembrar mais a construção civil do que a formação humana – isto é, o acesso de uma educação realmente básica para toda população, trouxe consigo, para além de outros, o problema de responder à diversidade. Hoje, é sabido que as escolas têm de lidar com uma grande heterogeneidade e isso configura-se como um problema. Problema porque os alunos que teriam um acesso muito restrito à escola se mantêm nela por muito mais tempo. Assim as diferenças entre cada um dos alunos são agora muito mais presentes e permanentes na escola e isso cria problemas inéditos e que frequentemente a escola tem dificuldade em resolver.

A minha pergunta é: como podem os sistemas educativos responder a esta exuberante diversidade de culturas, de conhecimentos, de ritmo de aprendizagem, de apoio familiar, de premência de suportes e de apoios para a aprendizagem, etc.? A resposta parece apontar para duas vias que se podem tornar complexas mas que são na sua raiz simples e claras: a) ou se criam vias educativas alternativas ou b) se desenvolvem apoios para vias unificadas. Vamos discutir brevemente uma e outra.

Criar vias alternativas significa que se reconhecem nos alunos – ainda precocemente – um conjunto de competências que aconselham desde logo currículos separados que eventualmente melhor servem o desenvolvimento das suas capacidades. A ideia não parece má, mas existem várias objeções poderosas a este pensamento aparentemente tão benigno. Uma destas objeções prende-se com o facto destes julgamentos sobre o encaminhamento destes alunos para um ou outro percurso escolar ser feito muito precocemente. Sendo feito precocemente pode ser injusto por não levar em conta todas as potencialidades do aluno (desafio o leitor a pensar no seu próprio caso, isto é, que diferente seria a sua vida se, por exemplo, aos 13 anos lhe fosse delineado o seu percurso escolar). Por outro lado sabemos que apesar de tudo o que é dito, a possibilidade de reverter as opções que são feitas nestas vias alternativas, são muito restritas: a percentagem de alunos que consegue “sair dos carris” em que foi colocado é muito diminuta. Até porque o aluno tende a assimilar o comportamento que pensa que dele se espera. Uma terceira objeção é a qualidade das vias alternativas. É sabido que a qualidade das escolas, dos professores, dos recursos e sobretudo das expectativas nestas vias alternativas é muito diferente. Desta forma, não se trata só de um ensino diferente mas sim de um ensino claramente pior. E isto fere gravemente a equidade e a qualidade que todos os sistemas educativos pretendem atingir.

A outra via é desenvolver um sistema unificado de ensino – semelhante ao que atualmente vigora nas nossas escolas – respondendo à diversidade através de um conjunto de serviços que permitam diversificar a oferta formativa. Este modelo evidencia vantagens claras: permite o desenvolvimento de comunidades de aprendizagem mais representativas da heterogeneidade social e encoraja a promoção de culturas mais abertas à diferença, à negociação e à solidariedade. Mas existem igualmente problemas neste modelo. Se a escola não mudar os seus métodos de ensino e os seus modelos de aprendizagem para acolher toda esta “nova” diferença, invalida este modelo unificado porque se alunos diferentes forem ensinados como se fossem iguais, isto hipoteca a possibilidade de sucesso. Por outro lado, a carência de recursos – indispensáveis para o apoio e para a diversificação do currículo – pode inviabilizar um sistema que, se procura manter uma cultura comum, também busca o respeito pela diferença e pela identidade cultural e de percursos de aprendizagem.

É muito importante refletir sobre as causas pelas quais o modelo do sistema unificado de ensino parece estar atualmente cada vez mais fragilizado. É claro que, se as escolas não forem eficazmente apoiadas para diferenciar o currículo e para criar sistemas efetivos de apoio aos alunos, poderá haver a tentação de dizer que o problema está no facto de o ensino ser unificado. Mas o tiro falha o alvo: é preciso visar não o modelo unificado mas as cada vez mais estranguladas condições que lhe são dadas para ele poder ser bem-sucedido.

Professor Universitário e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico.

23.3.12

Ciganos: Igreja pede abertura à diversidade

in Agência Ecclesia

Santuário de Fátima recebe Comité Católico Internacional responsável pelo acompanhamento destas comunidades

O encontro do Comité Católico Internacional para os Ciganos, que hoje começa em Fátima, é encarado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) como uma oportunidade de promover uma sociedade mais inclusiva e solidária.

Em declarações à Agência ECCLESIA, o padre Manuel Morujão, secretário da CEP, diz que “é fundamental ter o coração aberto para a diversidade” e recorda que estar em maioria nunca pode ser sinónimo de “exclusão ou menosprezo” pelas outras culturas.

“Os ciganos devem ser considerados cidadãos de primeira” e a sociedade portuguesa tem a responsabilidade de “facilitar a sua aproximação”, realça o sacerdote.

O evento, que até domingo vai juntar no Santuário mariano diversos representantes europeus, conta com a presença do presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, D. Jorge Ortiga; do bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto; e do diretor da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, frei Francisco Sales.

A iniciativa tem o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian e durante os trabalhos vai ser lida uma mensagem do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes (CPPMI), organismo da Santa Sé.

Entre as principais matérias que irão ser abordadas, destaque para o papel dos cristãos 'frente a uma sociedade cada vez mais estruturada, mas que cria marginalidade', matéria que vai ser abordada pelo economista João César das Neves.

Para a Alta-Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural em Portugal, “falta sobretudo educação para desconstruir preconceitos e estereótipos” que foram sendo criados ao longo dos anos.

“A população cigana é sem dúvida a mais discriminada no país”, aponta Rosário Farmhouse, em declarações à Agência ECCLESIA, sustentando que é preciso “trabalhar mais” para “conhecer” a realidade daquelas pessoas.

Nesse âmbito, a iniciativa organizada pelo Comité Católico Internacional para os Ciganos “será muito importante para potenciar esta mudança de atitude”.

No último Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos, que decorreu em Novembro de 2011, na diocese de Portalegre-Castelo Branco, os responsáveis católicos pediram ao Governo o “reconhecimento efetivo dos direitos básicos dos ciganos”.

O Comité Católico Internacional para os Ciganos, com sede na Bélgica, foi criado em 1976 para promover o debate entre as comunidades ciganas e atender às suas necessidades humanas e espirituais.

Desde o seu início, aquele organismo, atualmente com cerca de 50 elementos vindos de 14 países, trabalha em proximidade com a Igreja Católica, especialmente através do CPPMI e das capelanias nacionais ligadas aos ciganos e migrantes.

O encontro de Fátima vai concluir-se com uma missa presidida por D. Joaquim Mendes, bispo auxiliar de Lisboa e vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.

JCP/OC