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18.5.23

De carro, a pé, de transportes ou de bicicleta: concelho a concelho, saiba como as crianças vão para a escola em Portugal

Raquel Albuquerque e Carlos Esteves, in Expresso


Os Censos mostram que metade das crianças dos 6 aos 18 anos vai de carro para a escola. Mas há concelhos onde o peso é bem maior chegando a ultrapassar os 60% e 70%, como na Batalha, Oliveira de Azeméis ou em Oeiras e Cascais. Pelo contrário, em alguns pontos do país, um em cada dois alunos chega às aulas de autocarro, como em Boticas e Terras de Bouro. Os melhores exemplos no uso de transportes vêm do Alentejo. E embora a bicicleta seja usada por menos de 1%, há algumas exceções

AUTOMÓVEL

É de carro que a maioria dos alunos entre os 6 e os 18 anos vai para a escola em Portugal, mostram os dados dos Censos, relativos a 2021 e disponibilizados ao Expresso pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Só a partir do Secundário, com idades acima dos 15, é que a utilização dos transportes começa lentamente a aumentar. Mesmo que a nível nacional o automóvel seja a forma escolhida pelos pais para levar 52% das crianças à escola, há diferenças significativas entre os vários concelhos do país.

Conta-se cerca de uma centena de municípios, ou seja, um terço do total, onde a percentagem de alunos a ir de automóvel é mais alta, chegando mesmo a ultrapassar os 70% em concelhos como Batalha, Condeixa-a-Nova ou Oliveira de Azeméis. A realidade estende-se a grandes cidades como Viseu (67%), Coimbra (66%), Aveiro (63%), Cascais (63%), Oeiras (56%) ou Matosinhos (56%).

Nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, o cenário não é animador, apesar de terem as maiores redes de transporte do país. Entre as duas, a realidade é pior no Grande Porto (56% vão de carro) do que na Grande Lisboa (47%). O mesmo se verifica entre a cidade do Porto (47%) e de Lisboa (45%). Na área metropolitana de Lisboa, destacam-se três concelhos - Barreiro, Moita e Amadora - onde se contraria a tendência e cerca de 60% das crianças vão a pé ou de transportes.

A PÉ

Apenas 24% das crianças vão a pé para a escola e há um grande número de concelhos onde a percentagem fica abaixo de um quarto. Contudo, olhando para todo o país, também há uma dezena de locais onde essa é a forma de deslocação de mais de 40% dos alunos.

Alguns desses concelhos ficam no interior alentejano - como Barrancos, Mourão, Moura Castro Verde, Moura ou Serpa - e outros até ficam na Grande Lisboa, como é o caso do Barreiro, Moita ou Amadora. Já no Algarve, também Vila Real de Santo António é um dos bons exemplos (onde também 2% dos alunos vão de bicicleta).

Tanto o concelho de Lisboa como do Porto ficam acima da média nacional - com 34% dos alunos a irem a pé.

BICICLETA

Ir de bicicleta para as aulas é ainda muito pouco frequente. A nível nacional, menos de 1% das crianças vão a pedalar até á porta da escola (0,4%). E são só mesmo 27 os concelhos onde mais de 1% dos alunos arrancam de bicicleta.

A região de Aveiro destaca-se com municípios como Murtosa ou Ílhavo, além de Estarreja ou Mira, com percentagens acima dos 2%. E também há alguns casos algarvios - como São Brás de Alportel ou Vila Real de Santo António - onde a bicicleta é mais usada pelas crianças.

TRANSPORTES COLETIVOS

Autocarro, comboio, Metro ou transporte escolar é o meio de transporte usado por 23% das crianças entre os 6 e os 18 anos. Quanto mais velhos são, maior é o uso de transportes coletivos a caminho da escola, sobretudo a partir dos 15 anos, com a entrada no Secundário.

Há 19 concelhos onde o retrato até é bastante positivo porque mais de metade dos alunos vai de transportes para a escola. Por exemplo em Terras de Bouro (62%) e Alcoutim (59%) é essa a escolha de cerca de 60% das crianças.

O mapa mostra que em concelhos do Norte e, em geral, do interior do país, a ida para a escola de transportes é mais comum do que na zona litoral - onde a a densidade populacional é maior e há mais trânsito, podendo o receio dos pais com a segurança dos filhos ter mais peso. Além disso, em muitos locais do interior do país, onde as escolas quase só existem nas sedes de concelho, as autarquias dão apoio no transporte das crianças em autocarros, o que pode ajudar a explicar o peso deste transporte em vários destes municípios.

Se juntarmos as idas a pé ou de transportes para a escola, destacam-se alguns concelhos alentejanos como Gavião, Monforte, Alcoutim ou Alvito, onde essas são as formas de deslocação de três quartos dos alunos (entre 74% e 79%).

15.11.21

Exclusão dos ciganos da escola deve "envergonhar-nos" a todos

Catarina Paço Rodrigues, in JN

José Vítor Pedroso, diretor-geral da Educação, admite sentir-se "envergonhado" face aos números da não inclusão da comunidade cigana no meio escolar apresentados num ciclo de conferências sobre a inclusão destas comunidades na escola. "Estes números envergonham qualquer português", afirmou.

O diretor-geral da Educação, José Vítor Pedroso, lamenta a realidade que os números mostram, mas afirmou que o caso de Torres Vedras - que tem vindo a fazer vários esforços para a inclusão da comunidade cigana no meio escolar - deve ser partilhado.

Apesar dos vários planos, projetos e programas que existem , os vários participantes no encontro "Comunidades ciganas - Sucesso Educativo: Recuperar para Avançar", realizado na passada terça-feira, continua a existir um desfasamento educativo severo da comunidade cigana no geral, segundo os vários alertas deixados na conferência que teve lugar em Torres Vedras - cidade com uma forte presença da comunidade cigana.

Expectativas baixas

"O principal problema são as expectativas baixas", alertaram dois Investigadores da Universidade de Barcelona. Fernando Macias-Aranda, de origem cigana, e María Vieites Casado, apontaram que nalgumas escolas de territorios desfavorecidos existe uma redução do conteúdo curricular devido ao "mito" de que as crianças e jovens ciganos têm de ser motivados para ir à escola adaptando os currículos.

Para além disso, denunciam que em alguns locais há uma segregação da comunidade cigana em salas de aula consideradas de baixa produtividade. No entanto, o principal problema, afirmam os investigadores, é o facto de existirem expectativas baixas em relação a esta comunidade.

Mas há coisas positivas a acontecer: estão a ser feitas ações em mais de 9 mil escolas em vários pontos do mundo, contaram. Contornar a exclusão da comunidade cigana da escola passa, segundo estes investigadores, por integrar os ciganos dentro da sala de aula, promovendo a heterogeneidade e as diferenças culturais com expectativas iguais para cada aluno. Em paralelo, deverá haver uma aposta na formação dos familiares de modo a acompanharem os seus filhos.

No agrupamento de escolas do Padrão da Légua em Leça do Balio (Matosinhos), esta prática já existe. Os métodos adaptados na escola com as crianças de diversas culturas passam pela constituição de turmas culturalmente diversas, em que se fazem atividades de grupo, por exemplo, em que os alunos explicam elementos da sua cultura (como a bandeira e a história). Nesta escola não há alteração do currículo nacional escolar e o grau de exigência é o mesmo para todos os alunos, independentemente da sua origem, garantiram duas professoras do agrupamento presentes no encontro. Há também um envolvimento dos pais, através de reuniões na escola.

"É necessário quebrar o ciclo"

Emanuel Fernandes, membro da comunidade cigana e pertencente à Associação Sendas e Pontes, - associação intercultural e para inclusão das comunidades ciganas em Torres Vedras - sublinha que "é necessário quebrar o ciclo, porque uma vez que há um cigano formado, este vai garantir que os seus filhos se formem também".

Segundo dados de 2015, citados por Ana Umbelino, vice-presidente da câmara municipal de Torres Vedras, a tendência é para que as meninas ciganadas não passem do 1.º ciclo - 83.3% dos ciganos que têm apenas o primeiro ciclo são mulheres.

De acordo com as estatísticas publicadas pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, no "Perfil escolar das comunidades ciganas", no ano letivo de 2018/2019, dos 25 140 alunos ciganos matriculados, 76,4% dos alunos tiveram aproveitamento escolar, um aumento face ao último ano com dados. No ano letivo de 2016/2017, esta percentagem situou-se nos 56.2%.

3.9.21

Professores saltimbancos à espera de colocação. "É uma ansiedade enorme, nunca sabemos o que vai acontecer

Hélio Carvalho, in RR

Em agosto, o Ministério da Educação anunciou a colocação de 6.500 professores contratados e mais de 5800 na primeira reserva. Muitos mais ficaram sem colocação, à espera de mudar de vida em cima do joelho.

Sem colocação e o regresso às aulas está à porta. Outra vez a reserva. Daniela é professora e ainda aguarda por uma vaga numa escola. Não sabe se vai ficar perto da casa ou se terá de mudar de vida, novamente, a centenas de quilómetros de distância. Cristina está na mesma situação e, no último ano, Ana não ganhou para os gastos e teve de recorrer a poupanças para trabalhar. A "ansiedade" e a incerteza são denominadores comuns.

Como estas três professoras muitos milhares de docentes nas reservas de recrutamento, sem saber para onde vão, se ficam perto ou se terão de procurar um alojamento em poucos dias, quando serão colocados e que tipo de contrato e horário terão.

A duas semanas do novo ano letivo, muitos professores já sabem onde vão lecionar no próximo ano letivo, depois da primeira lista de colocações ter sido lançada a 13 de agosto e a primeira reserva de recrutamento ser anunciada no dia 1 de setembro. Segundo o Ministério da Educação (ME), mais de 13 mil professores mudaram de escola, cerca de 6.500 professores contratados foram colocados na contratação inicial e cerca de 5.800 foram colocados na primeira reserva.

E, em julho, o ME anunciou que 2.455 professores cumpriram os critérios para a vinculação.

No entanto, para os docentes na reservas de recrutamento que não viram o seu nome nas listas, as incertezas mantêm-se.

Daniela Neto é professora desde 2003, nunca conseguiu vincular e tem "andado a fazer substituições há quase 20 anos". A vinculação através da chamada 'norma-travão' é "uma luz muito longe ao fundo do túnel" e a docente de 40 anos fala de mais uma época, mais um concurso à contratação inicial e mais uma espera desgastantes.

"Só a questão do concurso é um desgaste incrível, porque nós ficamos muito ansiosos por saber se estamos a concorrer bem, se é a melhor forma de concorrer, se as opções que estamos a ter vão ser as melhores. Depois, até saírem as listas, é uma ansiedade enorme porque nunca sabemos o que vai acontecer. Como não ficamos logo colocadas, temos aquela ansiedade semanal de estarmos sempre à espera das reservas de recrutamento para saber se é nessa reserva ou não que vamos ter sorte", conta à Renascença a professora residente em Paredes, no distrito do Porto.

Na situação de Daniela estão centenas de professores que passam uma carreira longa a fazer contas à vida. Cristina Araújo, também ela com 40 anos e quase 20 anos a dar aulas, explica que "para quem é contratado e anda nisto, é uma ansiedade tremenda, porque tu pensas: 'se não ficaste colocada no dia 13, quando é que vais ficar e para onde vais?'"

Cristina, com residência em Famalicão, no Minho, já foi colocada no Algarve de um dia para o outro. Diz que ficar na bolsa das reservas é um situação extremamente difícil, especialmente pela volta que a vida pode dar, mas para quem fica nas reservas é "comum" o ter de fazer malas à pressa.


"As bolsas normalmente saem à sexta-feira e os professores têm de se apresentar numa terça-feira. Quem ficou agora em agosto, já teve todo o tempo de reajustar a vida nesta primeira colocação. Quando fiquei colocada no Algarve, fiquei colocada em Lagos. Eu soube numa sexta-feira e tive de ir logo no fim de semana para arranjar casa. A gente tem de se preparar e tem ali dois, três dias para orientar a vida de um ano. É acabar por ter de fazer as malas sem contar", recorda.

Já Ana Marta Couto, de 30 anos, repete a palavra "ansiedade" e conta que, depois de viajar do Porto para Lisboa no ano letivo anterior, pode estar a contar com a mesma volta para ensinar.

"Tenho uma ideia para onde irei, porque nas manifestações de preferências coloquei mais ou menos 50 concelhos para onde eu estou disposta a ir e pode ser que fique em Viana do Castelo, em Ovar ou então em Amarante."

Mas a incerteza é o nome do jogo. Ana Marta Couto conta que há também "a hipótese de, de um momento para o outro, ficar colocada em Lisboa e ter que viver para lá".

Foi o que aconteceu no último ano letivo. "Estava a trabalhar no Porto, numa sexta-feira à tarde soube que fiquei colocada e na terça-feira apresentei-me ao serviço. Tive um dia útil para poder organizar, para poder avisar a escola onde trabalhava que não podiam contar mais comigo, de forma a que, no dia seguinte, pudesse apresentar-me na escola", recorda a jovem docente natural de Paços de Ferreira, que dá aulas ao 3.º ciclo e ao Ensino Secundário.
"Os meus filhos sofrem imenso"

Cristina Araújo já deu aulas de Norte a Sul do país. Em 2012/2013, lecionou em Lagos, o que a obrigava a viajar recorrentemente daquela cidade até ao aeroporto de Faro (uma distância de quase 100 quilómetros), para depois ter de viajar do Porto para Famalicão (mais uns 30 quilómetros). Passou também pela Amadora e um pouco por todo o Baixo Minho.

Agora, com um filho de cinco anos, diz que não pode "correr o risco de me afastar dele e concorrer para Lisboa ou para o Algarve, onde aí há falta de professores".

"Foi há cinco anos que deixei de concorrer a todo o país. A partir do momento em que ele nasce, a vida muda e a prioridade passa a ser ele".

Em Paredes, Daniela Neto também tem dois filhos, um com 12 e uma com três. E admite que "esta instabilidade e esta mudança constante de nunca sabermos como vai ser o nosso futuro ano após ano" complica a gestão da vida pessoal e familiar.

"Eles têm os horários deles, eles dependem de nós e, muitas vezes, tenho de organizar a escola, os horários, o ATL de um dia para o outro, o que é uma coisa difícil, porque temos de procurar sítios para eles ficarem quando nós não podemos ir buscá-los. A nossa maior dificuldade tem sido essa. Eu nunca sei como é que vai ser a minha vida daqui a dois ou três dias".

Além disso, a possibilidade de ficar num contrato temporário e ter de mudar de escola a meio do ano letivo pode obrigar a começar tudo de novo. "Os meus filhos sofrem imenso com isso porque passam a vida a mudar de forma de viver o dia", lamenta.

"As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, fica tudo à espera"

Marta é a mais jovem das três professoras, mas já viu a sua quota parte de curvas e contracurvas no concurso das colocações. Em 2020/2021, deu aulas de Português nos Olivais, em Lisboa, e conta também com formação para dar Espanhol (Língua Não-Materna).

Com a vida toda no Porto, fala de uma experiência que a deixa menos disposta a voltar a viajar para longe. Falta "vontade, facilidade e disposição para ir para um horário temporário", onde as condições dificultam a vida social e familiar.

"Tenho todo um historial pessoal suspenso e à espera que eu tenha uma vida organizada e estável. Há imensa coisa que fica pendente. As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, a relação com a cultura, com a diversão, fica tudo à espera."

Durante a semana, Marta vivia em Lisboa. Todos os fins de semana, ia para o Porto, onde partilha casa com o namorado. O tempo perdido em viagens, fator que partilha com muitos professores que lecionam longe da sua área de residência - mesmo os que já foram colocados a 13 de agosto - é outra condicionante.

"Senti que estava em piloto-automático, que tinha de estar com o namorado ao fim de semana e à semana preparava as aulas. Foi um ano difícil, um ano em que passava grande parte do tempo em transportes públicos. Olho para o último ano letivo e vejo-me em transportes públicos."

Não só não se "sentia em casa em nenhuma das duas casas que tinha, porque não conseguia criar raízes de proximidade", como confessa que o esforço não compensou os gastos de viver em duas cidades.

"Economicamente, não foi nada estável. Eu tive de ir buscar dinheiro à minha conta-poupança para poder estar bem e continuar a vida que tinha. Eu saí do Porto, mas partilho um espaço com alguém. Portanto, ao ir viver em Lisboa, tinha que pagar duas casas, duas contas, duas Internets... Era tudo a dobrar. Na verdade, não compensou muito economicamente", disse.

Vinculação é caminho longo e exaustivo a percorrer

Para um professor poder efetivar contrato, tem de cumprir três anos seguidos em horário completo ou anual no mesmo Quadro de Zona Pedagógica, segundo o sistema de vinculação extraordinário, ou a chamada "norma-travão". No entanto, segundo as alterações recentes à legislação - fortemente criticadas pelos sindicatos - os professores elegíveis têm de concorrer na mesma a todo o país, sob pena de não poderem assinar um novo contrato.

São muitas as dificuldades para um professor efetivar contrato com uma escola ou agrupamento, a começar pelo facto de ser necessário cumprir um ano completo até ao dia 31 de agosto.

Cristina Araújo diz que esteve perto de passar aos quadros: esteve dois anos seguidos a substituir uma professora, começando sempre antes do dia 14 de setembro e indo sempre até ao dia 31 de agosto. No terceiro ano, Cristina tinha de ser colocada na contratação inicial, mas acabou por fazer uma nova substituição. Perdeu-se a oportunidade.

"Foram três anos que não foram contabilizados. Se por acaso fosse anual no meu contrato, já me contavam os dois para trás como sendo anuais. Aí conseguia efetivar. Nesses três anos, estive três anos consecutivos, 365 dias a trabalhar. No ano seguinte, como fui substituir uma professora de licença de maternidade, eu perdi os três anos para trás. Tenho de fazer novamente três anos para conseguir efetivar", explica.

E há ainda a questão de apenas os contratos até à segunda reserva de recrutamentos, anuais, poderem ser contados. Quem entrar numa escola mais tarde, estará a trabalhar o ano inteiro sem esse ano contar para uma possível vinculação.

Ana Marta Couto acredita que é "impensável" ser efetivada no Norte do país, onde há muitos mais professores, pelo que levará muito tempo a conseguir fazer três anos completos, seguidos. "É impossível acontecer isso. E só, eventualmente, poderia acontecer se eu me candidatasse para Lisboa, Algarve ou Alentejo, e para o interior, que é algo para o qual não estou disposta nem tenho de estar disposta a fazer, porque já percebi pela experiência que tive que não me compensa economicamente e pessoalmente tomar esse tipo de decisão".

Marta conta uma "má" experiência no ano transato. Entrou numa escola em outubro, com horário completo e temporário. Devia ter ficado até dezembro, mas acabou por continuar. Em vez de terminar o contrato a 31 de agosto, como tinha garantido a escola, foi dispensada em julho por não haver mais atividades letivas. "Pareceu-me pouco ético porque, havendo serviço e imensa coisa para tratar na escola, reuniões para organizar o próximo ano letivo, pessoalmente achei bastante incorreto por parte da escola de dispensar um professor a partir do momento em que as avaliações do terceiro período estão concluídas", critica a professora natural de Paços de Ferreira.
Efetivar só perto dos 50

As três professoras concordam que um professor só consegue imaginar uma possível vinculação definitiva já perto dos 50 anos. Daniela Neto, de Paredes, não se vê a efetivar de todo, por nunca tentar ficar longe dos dois filhos e da família, da qual é "muito agarrada".

"Costumo dizer que vou sair da carreira contratada, porque o tempo de serviço não corresponde aos 20 anos que eu trabalho. Tenho muito menos tempo de serviço, porque tenho andado em substituições, vou perdendo sempre dias e muitas vezes não fico até ao final do ano letivo. Por isso não tenho grandes esperanças", lamenta.

Marta também acredita que só ficará efetiva "aos 40 e muitos, 50 anos". Já Cristina, que diz contabilizar mais de 5000 dias de trabalho, que se traduzem em 15 anos de serviço (apesar de lecionar há quase 17), diz, esperançosa: "acredito que a minha vez esteja quase a chegar!"

"Isto para nós é uma angústia. Uma professora vai para uma empresa no setor privado, está dois, três anos, tem de efetivar. Aqui estão a tentar fazê-lo, mas criam ali uma alínea que causa um entrave enorme. Se tens o azar que eu tive de ficar a substituir uma professora que estava de licença de maternidade e se apresentou, aqueles três anos foram em vão. Não sei se isso é justo", questiona a professora famalicense.

8.10.20

40% dos pais dedicaram uma a duas horas por dia a ajudar os filhos nos estudos durante o ensino à distância

Nelson Marques, in Expresso

Investigação sobre o papel da escola e dos educadores em tempos de Covid-19 é apresentada esta quinta-feira, em Lisboa

40% dos pais portugueses dedicaram uma a duas horas por dia a auxiliar os filhos nos estudos durante o período de ensino à distância e 26% devotaram mais de duas horas à mesma tarefa, revela um estudo que será apresentado esta quinta-feira, em Lisboa. A investigação sobre “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 foi promovida pelo projeto Escola Amiga da Criança, em colaboração com a Porto Business School da Universidade Católica do Porto (UCP) e a Faculdade de Psicologia da mesma universidade, e envolveu mais de 23 mil inquiridos, que responderam a perguntas sobre o papel dos professores, a autonomia dos alunos, e a forma como os pais veem a missão das escolas.

Segundo o documento, o papel dos docentes saiu reforçado da experiência de ensino à distância: os pais passaram “claramente a valorizar mais os professores”, atribuindo-lhes um valor médio de 4,49 numa escala de 5, e reconhecem que o esforço destes foi adequado ao ensino em casa (4,05). Além disso, consideram que os docentes se revelaram determinantes na aprendizagem dos seus educandos (4,54), um resultado que contrasta com o de um estudo anterior, realizado também pela Escola Amiga da Criança, segundo o qual os progenitores apontavam o seu papel como sendo mais decisivo para o sucesso dos alunos do que o dos professores.

O documento revela ainda que o ensino à distância durante a pandemia levou os pais a descobrir lacunas nos seus filhos e a identificar “significativas dificuldades de autonomia”: 45% afirmaram que eles precisaram frequentemente de um adulto para a realização de tarefas escolares e 31% revelaram que os filhos tomavam a iniciativa e realizavam as tarefas por si, mas aguardando sempre a supervisão final por parte de um adulto. “As maiores dificuldades identificadas pelos pais foram a interpretação e a compreensão, por parte dos alunos, das tarefas que lhes foram atribuídas”, lê-se no estudo.

Dos mais de 23 000 encarregados de educação inquiridos, 90% têm entre 31 e 50 anos. 46,5% têm curso superior, 33% o 12º ano e cerca de um quinto o 9º ano ou menos. Quase metades (47%) dos seus educandos têm entre 7 e 10 anos e frequentam o primeiro ciclo. 8% estão no pré-escolar, 20% no segundo ciclo, 18% no terceiro e 7% no secundário.

O projeto Escola Amiga da Criança procura distinguir escolas que concretizem ideias extraordinárias para um desenvolvimento mais feliz da criança e tem como mentores o psicólogo Eduardo Sá, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) e o grupo editorial LeYa.

O estudo “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 é apresentado esta quinta-feira, a partir das 18h30, no canal de YouTube da Leya Educação.

14.9.20

A pandemia devia ser gatilho para “repensarmos a escola”

Natália Faria, in Público on-line

Durante o confinamento, os alunos portugueses gostaram de gerir melhor o seu tempo. Trabalharam mais mas sentiram-se menos exaustos. E mais autónomos. Numa semana em que cerca de 1,3 milhões de alunos regressam às aulas, estas são pistas para repensarmos a escola, defendem investigadores. Que deixam um alerta: um regresso “militarizado” à escola pode desencadear uma pandemia de saúde mental.

Os alunos portugueses são dos que menos gostam da escola, demonstram-no vários estudos anteriores à pandemia. Dos que se sentem mais cansados e mais stressados, sobretudo com as notas, também por terem das cargas lectivas mais pesadas num conjunto de 42 países analisados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). E agora, inquiridos durante o confinamento, um dos aspectos que apontaram como positivos foi a possibilidade que lhes foi dada de gerir melhor o seu tempo. “Disseram, logo à partida, que andavam muito menos exaustos”, aponta Margarida Gaspar de Matos, psicóloga, investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e coordenadora deste inquérito. Chama-se “A Voz dos Jovens”, foi conduzido por Cátia Branquinho, entre 14 de Abril e 18 de Maio, e permitiu ouvir 617 jovens entre os 16 e os 24 anos, devendo agora ser publicado no Journal of Community Psychology. E não se ouve nestes testemunhos o elogio da preguiça. “Os jovens até sentiram que trabalharam mais, a diferença foi que conseguiram gerir melhor o seu tempo e de forma mais autónoma. Se antes chegavam ao fim do dia tão cansados que nem lhes apetecia ir fazer mais uma pesquisa para a escola, durante o confinamento fizeram-no sem problemas”, explicita a investigadora, para concluir: a paragem forçada pela pandemia devia ser gatilho para repensarmos a escola.

“Os alunos portugueses sentem-se abalroados com uma quantidade de matéria. É algo que já sabíamos de estudos anteriores, e que o alívio que sentiram durante o confinamento veio confirmar”, exemplifica a psicóloga e investigadora, para quem este aspecto devia impor mudanças nesta semana em que quase 1,3 milhões de alunos começam a regressar presencialmente às escolas públicas, do pré-escolar ao secundário, preparando-se para enfrentar um ano lectivo que, no caso do pré-escolar e do 1.º e 2.º ciclo se estende até 30 de Junho, e num cenário que é radical e compreensivelmente diferente do de anos anteriores. E porque a necessidade de travar a propagação do coronavírus vai rigidificar trajectos e comportamentos e conter manifestações de afecto, privando as escolas daquilo que os alunos mais declaram gostar, é importante que aquelas saibam contornar o problema.

“Se não conseguirmos evitar o carácter dramático e militarista deste regresso à escola, podemos estar a mergulhar numa pandemia de saúde mental”, avisa ainda Margarida Gaspar de Matos, atendo-se ainda às conclusões do inquérito que demonstrou que os alunos não sentiram falta das aulas mas da escola sim, sobretudo dos amigos. E conseguir incutir-lhes “a confiança, a segurança e a tranquilidade” essenciais ao seu bem-estar, implica desde logo, segundo a investigadora, que nesta primeira semana de regresso às aulas seja dado tempo aos professores para ouvirem os alunos, esquecendo por momentos a pressa em recuperar aprendizagens. “Os miúdos são os ‘utentes’ disto tudo e têm ideias de como é que hão-de fazer. Por isso, devem poder ser ouvidos, sobre o que foi, o que lhes faz falta, no que é que podem ajudar”, reforça a investigadora.

Pôr os adolescentes a ajudar os mais pequenos

Claro que nada disto será possível se os currículos não forem depurados. “O secretário de Estado [adjunto e da Educação, João Costa] disse que os professores dos diferentes grupos disciplinares foram chamados a fazer um estudo das matérias e a separar o que é estruturante e o que é acessório. Isso pareceu-me óptimo, porque, se tivermos a matéria reduzida ao que é estruturante e útil para a continuidade do ensino, o professor fica mais descontraído e mais livre, em vez de estar com aquele stress todo nas aulas”, sublinha Margarida Gaspar de Matos. “Se o professor tiver de dar a matéria em 78 rotações, para conseguir dar tudo numa carga horária que ainda por cima é reduzida este ano, o resultado será calamitoso”, enfatiza, reportando-se ao resultado de estudos anteriores que mostram que o menor gosto dos alunos portugueses pela escola decorre em grande parte do peso das avaliações, do excesso de matéria e da pressão dos pais face às notas.

Idealmente, as mudanças impostas pela pandemia deveriam assim ser usadas para “avaliar o stress avaliativo”, ainda segundo aquela especialista, para quem “o foco exagerado nas notas” desvia a escola da sua função primordial. “Se os alunos só trabalham para as notas, perdem o gosto por aprender. Sabemos é que idealista e romântico, mas as avaliações deveriam funcionar como uma aferição das aprendizagens e não como o seu objectivo único”, acrescenta, para reforçar a ideia de que, assegurada a leccionação da matéria basilar, as escolas têm mesmo de dispor de tempo para, revendo métodos e objectivos, funcionarem como locais onde os alunos se sentem acolhidos e tranquilos.

Consoante as idades, as estratégias a adoptar devem ser diferentes. “Com miúdos de cinco e seis anos, é fácil tornar as regras numa coisa lúdica, numa brincadeira para todos ganharmos ao vírus. E os pais também têm de ser capazes de conter a sua própria ansiedade e de não a passarem aos miúdos quando os deixam na escola”, sugere a psicóloga, acrescentando que aos “oito, nove ou dez anos, as crianças gostam naturalmente de fazer sentido do mundo e tendem até a ser demasiado rígidos nas regras, o que pode ajudar”. Quanto aos adolescentes, “o mais inteligente será chamá-los a participar na definição do que é que se vai passar na escola”, preconiza. “Não devemos menosprezar a capacidade que o adolescente tem para nos surpreender na sua criatividade de ir contra o estabelecido. Nem estamos em condições de enfrentar um batalhão de adolescentes a pôr em causa as regras, pelo que o melhor será, por exemplo, chamá-los a participar na definição das regras e, por exemplo, a monitorizar e a ensinar os mais pequeninos”, conclui.

O estranho regresso à escola

Carolina Pescada e Vera Moutinho, in Público on-line

Três testemunhos num regresso a uma escola diferente.

Tiago Martinez, 8 anos
3ª ano, Centro Escola da Gandra, Maia
A minha escola é mesmo em frente à minha casa, mas este ano vai haver muitas coisas diferentes. Vou ter de usar máscara na escola, desinfectar as mãos. Tenho duas máscaras do FC Porto, duas azuis e duas pretas. Mas a máscara não é obrigatória no 1º ciclo! A minha mãe quer que eu tente usar, mas faz comichão e calor. Os meus pais são os dois enfermeiros. Acho que vou usar quando as pessoas estiverem perto de mim. No refeitório também vai ser cadeira sim, cadeira não. A minha mãe vai-me dar uma bolsinha com três partes para eu guardar as máscaras limpas, as usadas, o gel e lenços para o nariz. “Quando faltarem zero dias para ir para a escola vou sair da cama a correr”

Já sei que futebol não vai haver e educação física também vai ser diferente por causa do coronavírus. Também não posso levar a minha mochila, os livros ficam na escola, levo só a lancheira. Não sei como vai ser para trazer os trabalhos de casa! Nos intervalos quero correr, correr, correr mais! Mas não sei se podemos jogar ao “mata”. Só se cada uma tiver a sua bola, atira e vai buscar. Mas sei que também não vou poder ir à biblioteca e ainda tenho um livro para devolver! É sobre o Mundial de Futebol. Gostava de ser jogador de futebol ou professor. Gostava de jogar em qualquer clube, menos no Benfica e no Braga. Ou então no Barcelona, mas o Messi estragou tudo. Não estou preocupado com a escola, tenho saudades dos meus amigos. Vai custar acordar cedo, mas não tenho medo de ir para a escola. Eu confio, conheço toda a gente. Deu na televisão que a Suécia já acabou com o coronavírus. Eu gostava que acabasse rápido. Acho que no Inverno já não há coronavírus. Faço anos dia 2 de Janeiro e queria muitos amigos na minha festa, diversão total. Quando faltarem zero dias para ir para a escola vou sair da cama a correr.


Carolina Vilela, 11 anos
6.º ano, Escola Básica Integrada Dr. Joaquim de Barros, Oeiras
"Não vamos ter recreio, vamos ficar sempre na mesma sala"

Cá em casa vamos todos regressar às aulas. Os meus pais são professores e o meu irmão vai começar agora a faculdade. Só tenho algum medo de apanharmos o coronavírus e de passarmos à minha avó, que vive connosco e é uma pessoa de risco.
Quando soube que ia voltar à escola, fiquei feliz. Eu começo todos os anos entusiasmada, porque gosto das aulas, mas este ano vai ser estranho. Estar com máscara, sempre a desinfectar as mãos... Não gosto muito de estar com máscara. Faz embaciar os óculos, e dificulta-me a respiração. Também acho que vai ser mais difícil perceber quando os outros estão tristes ou contentes, não vai dar para ajudar. Eu vou para a escola a pé com uma amiga minha que mora perto de mim. Vamos tentar ir sempre pelo lado onde há menos gente. A primeira coisa que eu quero fazer é estar com as minhas amigas e amigos. Mas este ano vai ser diferente. Não vamos ter recreio, vamos ficar sempre na mesma sala. Os professores é que mudam, quando vão para outra turma. Nos intervalos, podemos estar nos telemóveis, lanchar e falar até o outro professor chegar. Só vou ter aulas à tarde num dia e nesse dia vou almoçar a casa, mas quem almoça na escola vai almoçar por turnos, e só vai ter 15 minutos no refeitório. Tenho falado muito com os meus pais sobre como vai ser. Eles dizem que é muito importante usarmos máscara, para nos protegermos a nós e aos outros, e lavarmos muitas vezes as mãos. Mas que, se formos responsáveis, não há que ter medo e vai correr tudo bem.

Berta Berton, 15 anos
10 º ano, Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, Almada
“Vou fazer novos amigos e não posso estar com eles normalmente. É estranho”

Vou para o 10º ano e estou um pouco nervosa, vai ser uma mudança de tudo: novo ano, nova escola, mais as novas regras. Vou fazer novos amigos e não posso cumprimentá-los, estar com eles normalmente, é estranho. Não conhecia a escola e fica mais longe da minha casa. Como os meus pais estão separados, quando estou na casa do meu pai o meu avô leva-me de carro até à estação do Metro Sul do Tejo e vou de metro para a escola. Quando estiver na minha mãe, vou a pé até à estação. Mas irei sempre de metro. Sei que tenho de usar sempre a máscara nos transportes, desinfectar as mãos, manter o distanciamento social. Eu nem me vou sentar, vou sempre de pé! Se o metro estiver cheio de gente tenho de entrar na mesma, não tenho outra opção. Estou um bocadinho nervosa em relação a isso, não me posso atrasar e terei de me levantar mais cedo. A minha turma tem 29 alunos e vou ter aulas sempre da parte da manhã, até à 13h30. Dá sempre para almoçar fora da escola, nos meus avós ou em casa, que era uma preocupação do meu pai. Na sala de aula tenho de usar máscara e de preferência também nos intervalos. Acho que vai ser difícil para os professores estarem sempre de máscara. Tenho de desinfectar as mãos, evitar partilhar materiais, comida, tudo! Para mim acho que vai ser difícil porque eu gosto muito de estar com as pessoas, sou muito afectiva, gosto de tocar, vai custar-me muito. Eu estava sempre com muita gente e isso mudou.

9.9.20

A educação elementar: desigualdades no ensino básico em Portugal

Leonardo Ferreira, in Público on-line

A justiça deverá ser, portanto, o principal valor a trabalhar na luta contra as desigualdades, principalmente quando falamos de desigualdades que influenciam de forma tão marcante a realidade social portuguesa.

Podemos e devemos entender que a educação é um tema bastante marcado por desigualdades a vários níveis, nomeadamente ao nível económico. A educação de uma criança é extremamente influenciada pela família onde esta nasce e pelas posses dessa mesma família, o que determinará o início do seu percurso escolar, isto é, se terá oportunidades de frequentar o ensino básico ou não e em que condições – ensino básico público ou privado.

Apesar disso, não são só a família e os seus rendimentos que contribuem para um dado desenrolar da vida escolar dos jovens. É verdade que o sucesso e o fracasso dos alunos no âmbito do percurso escolar até ao 9.º ano continuam a ser fortemente assinalados pelas diferenças classistas dos seus pais. No entanto, as próprias escolas contribuem para a existência desta desigualdade. Como o sociólogo Anthony Giddens refere, estas instituições educativas promovem uma “reprodução cultural”, já que, "conjuntamente com outras instituições sociais, contribuem para perpetuar as desigualdades económicas e sociais ao longo das gerações”.

Por outras palavras, a escola oferece um conjunto de aprendizagens, sobretudo teóricas, que existem enquanto supostamente necessárias e que os pais em melhores condições financeiras legitimam, incutindo-as nos seus filhos e valorizando-as socialmente. De forma inversa, o que ocorre com os filhos das classes operárias, bastante mais desprovidos de capital e orientados por conhecimentos facilmente renegados, é um grassar das dificuldades em apreender tais códigos escolares. Estes factores levam ao alastrar das desigualdades no acesso ao ensino básico e no percurso desse mesmo ensino em Portugal.

De forma a atenuar e a eliminar as divergências injustas neste ensino, torna-se necessário reformular, até certo ponto, o sistema de aprendizagem e de recursos humanos nas escolas. Para isso, poderão ser postas em marcha soluções dos seguintes géneros:

- Promover a criação de novas disciplinas de carácter mais prático (tendo em vista o desenvolvimento de competências digitais, de inovação, de relações humanas, entre outras);
- Possibilitar um maior debate das questões do nosso quotidiano, bem como um mais assíduo treino da escrita e da argumentação, em disciplinas como Português, Inglês, Francês ou Cidadania, com o propósito de amplificar e fortalecer a participação dos alunos em actividades e projectos que lhes digam respeito de forma mais íntima;
- Criar mais iniciativas de voluntariado e prosseguir com um acompanhamento mais assíduo das necessidades e aspirações dos estudantes ao nível, por exemplo, dos seus objectivos após o término do 9.º ano;
- Reforçar as linhas de psicólogos (e colaborar com profissionais de outras áreas afins, como sociólogos e antropólogos) nas escolas para que todos os alunos, através de um serviço gratuito, tenham a possibilidade de expor as suas dificuldades ao nível académico e pessoal.

Todas estas propostas são referidas com o intuito de que as competências dos alunos mais desanimados no presente sejam também utilizadas e valorizadas tanto agora como no futuro e de que todos os jovens possuam, pelo menos em ambiente escolar, um tratamento igualitário. Todavia, para que tais soluções sejam efectivamente uma resposta eficaz aos problemas, é preciso, acima de tudo, romper com o pensamento de que o ensino intelectual é superior ao ensino manual ou profissional e com a ideia de que alunos mais pobres são menos dotados de inteligência comparativamente aos alunos mais ricos, na medida em que todos possuímos diferentes tipos de inteligência que merecem ser tidos em conta sem qualquer preconceito. Só assim é que será possível começar um processo de combate às desigualdades associadas ao ensino, de modo a construir uma sociedade mais respeitadora de todos e assente no princípio da justiça.

A justiça deverá ser, portanto, o principal valor a trabalhar na luta contra as desigualdades, principalmente quando falamos de desigualdades que influenciam de forma tão marcante a realidade social portuguesa: as desigualdades na educação básica.

7.9.20

Um ano lectivo como nunca se viu: as dúvidas, inquietações e o entusiasmo de quem regressa à escola

Hugo Moreira e Samuel Silva, in Público on-line

No regresso às aulas, alunos, pais e professores partilham dúvidas e entusiasmos num “ano diferente”. “Vamos fazer com que corra pelo melhor”, prometem os professores. Enquanto ainda nem todas as escolas têm regras claras, os pais acumulam perguntas e os alunos preparam com mais afinco a mochila para voltar à escola. No primeiro dia… logo se vê como vai ser.

Os miúdos vão perceber o que dizem os professores, tendo estes uma máscara a tapar-lhes parte da cara durante a aula toda? E vão ter actividades se tiverem que ficar na escola até mais tarde? E vão resistir a dar beijos e abraços aos colegas, depois de tanto tempo sem os ter por perto? E é mesmo bom para a sua sanidade mental não darem beijos e abraços? E como vai ser com o transporte, a família vai conseguir organizar-se? A poucos dias do início das aulas, professores e pais acumulam interrogações. Não é um arranque de ano lectivo qualquer. É um começo de aulas em ano de pandemia.

Para Carlos Ferreira, começa “um dos maiores desafios”. É professor há 16 anos e nunca tinha chegado a Setembro com tantas incertezas sobre aquilo que vai viver no momento em que os alunos voltarem à escola. “Como é que as crianças vão criar uma ligação com um adulto que vai estar a usar uma máscara?”, questiona-se este docente do 1º ciclo no Centro Escolar de Crasto, que pertence ao Agrupamento de Ponte da Barca, no Alto Minho. Há seis meses que não vai à escola – “sinto falta do barulho, das crianças, e de entrar na sala, que é como se fosse minha, porque fui eu que a decorei e organizei”, conta. Quando ali voltar, terá diante de si uma turma completamente nova, do 1.º ano.

É verdade que já conhece alguns dos seus alunos, aqueles que frequentaram o pré-escolar no mesmo edifício. Todavia, com a maioria será um primeiro contacto: “Não temos nenhuma relação afectiva entre nós. Esse é o primeiro desafio, construir uma ligação.”

Tal como este professor do 1.º ciclo, também os alunos estiveram seis meses sem ir à escola. Muitos tiveram pouco ou nenhum contacto com outras crianças, pelo que as competências afectivas estarão “um bocadinho paradas”, antecipa. Por isso, as questões emocionais têm “uma importância ligeiramente maior” do que qualquer preocupação sanitária que Carlos Ferreira possa, neste momento, ter.

E tem-nas, não o esconde. Na sua família, há regras implementadas desde Março, aquilo a que chama “o nosso plano de contingência”. O calçado e a roupa usados no dia-a-dia não entram em casa e as máscaras são usadas nas áreas comuns do prédio onde vive, por exemplo. A mulher também é professora. E no círculo familiar há pessoas de risco e idosas. Os cuidados têm que ser redobrados.

Cristina Félix, 57 anos, é professora de Português no 2.º ciclo. Tal como Carlos Ferreira, também tem idosos a cargo, todos com perto de 90 anos. As orientações que a Direcção-Geral da Saúde enviou às escolas para a preparação do novo ano lectivo e as regras aplicadas no Agrupamento de Escolas dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, onde trabalha há oito anos, seriam suficientes para a deixar “confortável” antes do regresso às aulas, não fosse esta situação familiar.

“Em Julho e em Agosto, não fui de férias, nem contactei com quase ninguém. Agora, estou a ter cada vez mais cuidados, a partir do momento em que voltei a ir à escola para as reuniões. Quando vierem os alunos, maiores serão”, explica. Na pasta que leva diariamente para a escola, leva uma pequena bolsa com um kit pessoal onde estão uma embalagem com álcool-gel, toalhetes de desinfecção, uma máscara de reserva e um par de luvas descartáveis, “porque pode haver alguma emergência”.

Aos cuidados sanitários, somam-se as angústias sobre como será o dia-a-dia na sala de aulas. Nas primeiras reuniões de preparação do ano lectivo, sobravam perguntas entre os colegas: “Será que vamos poder mexer nos cadernos dos alunos? E circular entre eles? E fazemos ou não testes em papel?”.

“Isto assusta muito as pessoas”, afirma Cristina Félix, professora há 38 anos. Será preciso “bom senso” para cada professor encontrar as suas respostas. Da sua parte, começou a desenhar algumas estratégias. Por exemplo, os testes escritos vão passar por uma espécie de quarentena antes e depois de serem corrigidos: “Coloco tudo num saco de pano, higienizo as mãos e deixo 48 horas guardados. Depois corrijo. E farei o mesmo processo antes de os entregar aos alunos”.
Coloco tudo num saco de pano, higienizo as mãos e deixo 48 horas guardados. Depois corrijo. E farei o mesmo processo antes de os entregar aos alunosCristina Félix

Mário Oliveira, 41 anos, já tem resposta para algumas das questões que ainda afligem os seus colegas. Uma vez que é professor do ensino secundário, já teve que voltar, em Maio, ao contacto presencial com os alunos do 12.º ano que estavam a preparar-se para o exame nacional de Matemática. No início, “havia o medo que os alunos me transmitissem o vírus e eu o levasse para casa”, recorda. Essa experiência é agora vista como “um privilégio”: “Consegui minorar todos os meus medos e os dos alunos.”

Há cinco anos que este professor de Matemática dá aulas no Colégio do Ave, em Guimarães. As primeiras semanas de regresso à actividade lectiva, no final do ano lectivo passado, foram de teste para algumas situações que, antes da pandemia, aconteciam naturalmente. “Até que ponto me podia aproximar do lugar de um aluno? Será que os posso chamar ao quadro?”, eram algumas das questões com que se debatia. Mário Oliveira foi “modelando as soluções e percebendo” que, por exemplo, podia aproximar-se das secretárias, desde que mantivesse alguma distância de segurança e evitasse tocar no material escolar dos alunos.

No início, muitos dos estudantes saíam da aula, mal esta terminasse e preferiam fazer chegar as suas dúvidas através do grupo de turma criado pelo professor de Matemática na aplicação de mensagens Whatsapp. Depois, muitos desses alunos começaram também a ficar no final das aulas para conversar com Mário Oliveira.

Aos poucos, “restabeleceu-se um grau de confiança que em Maio julgava perdido”, sublinha este docente. Por isso, quando retomou as aulas no colégio de Guimarães, logo a 2 de Setembro, estava confiante. Nos próximos meses, “pode não correr tudo bem, mas vamos fazer com que corra pelo melhor”. 

“Desdramatizar” ou preocupar-se, desabafam os pais

“Neste momento é tudo uma grande incógnita”, desabafa Tiago Mira Delgado, consultor informático, pai de seis crianças, a mais nova com um ano e meio e a mais velha com 11. Três frequentam a creche e jardim-de-infância do Centro Social Sagrado Coração de Jesus, uma instituição particular de solidariedade social, duas estão no 1.º e 2.º anos na Escola Padre Bartolomeu Gusmão e uma no 6.º ano na Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos, todas em Lisboa.

Primeira inquietação: vai haver resposta dos espaços de actividades de tempos livres (ATL)? “É uma grande preocupação”, diz. Anda a tentar perceber se os ATL vão abrir e com que horários. É que em Junho, quando a creche dos três filhos mais novos reabriu, depois da pausa ditada pela covid-19, não foi nada fácil. Tiago Mira Delgado nunca conseguia ir buscar as crianças antes das 17h, quando era suposto elas saírem às 16h30. O seu próprio horário de trabalho não o deixava. “Todos os dias pedia imensa desculpa, mas não conseguia fazer melhor.” Admite que o cenário pode repetir-se de novo.

Por isso, era “fundamental” que o Ministério da Educação, em conjunto com as juntas de freguesia ou câmaras municipais, “arranjasse formas de ter respostas para os ATL, creches e infantários”. “Têm que ser encontradas soluções para ajudar as famílias”, sublinha.

Segunda inquietação: como vai ser na sala de aula? “A minha filha tem que aguardar para entrar numa loja onde só podem estar dez pessoas. Como é que é possível que numa sala tão pequena seja permitido estarem 29 pessoas?”, questiona Fátima Barbosa, professora, 42 anos. A filha de dez, quando regressar às aulas no Agrupamento de Escolas Professor Carlos Teixeira, em Fafe, vai ter mais 27 colegas na mesma sala.

“Ninguém sabe exactamente o que vai acontecer”, diz Ana Stilwell, cantora e compositora, de 34 anos, mãe de quatro filhos, entre os dois e os dez anos.
Ninguém sabe exactamente o que vai acontecer”Ana Stilwell

Mais inquietações e dúvidas: que impacto vão ter todas as regras, todos os receios, o medo do contágio, nas relações sociais na escola. “Preocupa-me muito mais a parte emocional e a saúde mental dos miúdos e dos professores” nesta fase em que vão voltar “a estar juntos”, diz Ana Stilwell, que com a mãe, Isabel Stilwell, escreve as crónicas Birras de Mãe no PÚBLICO. “Receio que o medo faça com que as pessoas se afastem e não dêem o apoio que as crianças sempre precisaram e que agora vão precisar ainda mais.”

“Sei que há muitas mães que têm outras visões, mas eu preferia mil vezes que [as crianças] brincassem todas livremente sem se preocuparem com o vírus”, refere. “Os riscos e as consequências para a saúde mental” da aplicação de medidas como encurtar os intervalos entre as aulas podem ser “muito mais perigosos do que o vírus” em si.


Para além disso, prossegue, o uso da máscara, que não tem dúvidas de que tem vantagens em termos de saúde pública, pode complicar a leitura da expressão facial dos professores por parte dos alunos, sobretudo dos mais novos.

Uma vez que “não se sabe quase nada ainda”, o que “dificulta a preparação”, esta mãe considera “fundamental” o diálogo em família. É preciso “desdramatizar” e “tirar a tónica de que eles podem ficar doentes ou trazer a doença para casa”. Mesmo com muitas questões práticas para resolver, como, no seu caso, perceber “quem é que vai levar e buscar à escola”, é preciso que os pais se “deixem levar pelo entusiasmo” dos filhos, largando assim “os próprios medos”.

Apesar de tudo, há também um enorme alívio entre os pais, depois de meses de aulas à distância para muitos dos jovens. O retomar das aulas e do contacto social é “uma necessidade básica”, diz Tiago Mira Delgado. Os seus filhos estão “ansiosos para voltar à escola e ver os amigos”, ainda que, acredita, possam vir a ficar “mais confusos, ansiosos ou tristes” quando lhes explicar as medidas que vão vigorar, “sobretudo aqueles que no ano passado tiveram a escola normal”.

Quanto ao perigo de infecção, este pai relativiza. O vírus “começa a fazer parte da nova normalidade”. Claro que tenta explicar aos filhos a importância de “evitar situações de risco” e “ter sempre atenção às medidas de segurança”. E é mais fácil com as crianças mais velhas. Mas, seja como for, não está à espera que todas as recomendações sejam cumpridas: “O que vimos na creche é que, no fundo, pode-se tentar educar para o distanciamento, mas é impossível cumprir”. As educadoras são as primeiras a admitir que “quando uma criança cai e começa a chorar, precisa de um abraço e não há nada que o substitua”.

“Os miúdos não conseguem brincar sem contacto”, afirma. “É esperar que nada aconteça.”

“As crianças vão estar tão excitadas por estar na escola e por rever os coleguinhas”, prossegue Fátima Barbosa, que mesmo se “as escolas cumprirem as medidas” ditadas pela Direcção-Geral da Saúde, “vai ser muito complicado” que os alunos as cumpram. “Já estou a ver que as máscaras vão andar espalhadas e trocadas umas com as outras.”

Os dois filhos de 16 e 12 anos de Susana Roche, consultora médica, 46 anos, regressaram esta semana ao Liceu Francês Internacional do Porto, antes do arranque oficial do ano lectivo na generalidade das escolas públicas, a partir de 14 de Setembro. Foram sem saber ao certo o número de alunos por turmas. A poucos dias do regresso à escola Susana Roche contava: “Vão saber mais no primeiro dia.” Mas nenhuma indefinição sobre o que se iria passar se sobrepunha ao sentimento de “alívio”. Os filhos “sofreram bastante” com os últimos meses de escola à distância. Sabiam que o espaço da cantina seria alargado, a escola garantiria a presença de um médico e apoio psicológico. E tudo isso tranquilizou a consultora médica. As crianças “vão ter de aprender uma nova forma de interagir com os colegas e com os professores”, diz. É isso que lhes tem explicado.

Tem ido levar e buscar os filhos nestes primeiros dias. E nota que os aglomerados de carros junto ao liceu, à hora de saída e de entrada, são maiores que em anos anteriores. Não sabe se é porque houve cortes nos transportes disponibilizados pela escola, se pelo medo dos pais em deixar os filhos andar de autocarro. “Mas aquilo é tanta gente toda junta para ir buscar os meninos que é pior do que um autocarro”, aponta. Antes da pandemia tinha decidido que os seus filhos, Luna e Nino, este ano iriam começar a ir de autocarro para a escola. “Queremos que eles sejam mais independentes. Só não foram ainda porque precisamos de algum tempo para lhes ensinar.” É um “passo importante”, “está na hora”. E a pandemia não a fez mudar de ideias. “Há que procurar uma normalidade apesar do risco.”
Alunos: saudades e entusiasmo

Aos dez anos, Clara Barbosa tem uma “receita criativa e original para combater o coronavírus”: máscaras, desinfectantes, respeito pelo próximo, distanciamento social e, por último, “mas não menos importante”, o amor. A mensagem faz parte do vídeo da jovem de Fafe que mereceu uma menção honrosa no concurso ABCovid, que, em preparação para o regresso às aulas, premiou vários alunos que ajudassem a divulgar informações e medidas de prevenção perante a pandemia de covid-19. Gravar os vídeos foi um divertimento para a aluna que pedia repetidamente à mãe para que gravassem mais.

“Estou muito entusiasmada por voltar à escola”, afirma com alegria na voz a aluna que terminou o 4.º ano no Agrupamento de Escolas Carlos Teixeira, em Fafe. As conversas regulares com a mãe fazem-na saber na ponta da língua as recomendações que vai ter que cumprir quando voltar à sala de aula. Por isso, não está preocupada com o regresso. “Eu acho que os meus amigos também vão estar todos entusiasmados e não preocupados”, analisa Clara, e adiciona: “Já não nos vemos há muito tempo, desde Março. Tenho saudades deles”.
Eu acho que os meus amigos também vão estar todos entusiasmados e não preocupados. Já não nos vemos há muito tempo, desde Março. Tenho saudades delesClara Barbosa

Luna e Nino Roche começam as aulas já esta semana no Liceu Francês Internacional do Porto. A jovem de 16 está “muito contente por voltar à escola”, uma vez que isso significa voltar a ver os amigos e “regressar à rotina habitual”. Já o irmão de 12 anos diz que sente “mais ou menos a mesma coisa” que a irmã.

Embora as aulas à distância não tenham corrido mal à família Roche, ninguém quer repetir a experiência, mesmo que a mãe os prepare para essa possibilidade. “Pode acontecer e a qualquer momento. É uma coisa que falamos aqui em casa para eles estarem preparados”, admite a mãe. “Estou preocupada quanto a isso, porque não sei se a escola vai voltar a fechar, mas espero bem que não”, refere Luna. Para além da ausência dos contactos sociais, as aulas em casa “não foram tão boas como as presenciais”, culpa em parte de existir “muito mais distracções”. “Eu não aprendi tanto como poderia ter aprendido na sala de aula”, conclui. Também Nino considera as aulas online “menos interessantes e eficazes” do que as presenciais. “Eu estou feliz por ver os meus amigos, por isso também não quero que a escola feche outra vez”, deseja o jovem que vai começar o 8.º ano.

Apesar do entusiasmo, ainda existe alguma contenção perante a possibilidade de contágio. “Estou um bocado triste por não poder abraçar os meus amigos e matar saudades de falar com eles sem ser a dois metros de distância”, conta Luna. Ainda que possa ser “difícil no início”, a aluna acha que se vai habituar. Existe o medo de que “outros alunos não respeitem as medidas”, mas acredita que “já todos conhecem as regras”. Para Nino, o regresso “pode ser um bocadinho mais triste”, mesmo que os amigos também estejam tão entusiasmados quanto o jovem para regressar. A escola no Porto vai limitar as actividades e jogos de maior proximidade e contacto durante os intervalos, conta a mãe.

Relativamente ao regresso ao ritmo das aulas presenciais, os alunos não estão preocupados. A estudante que segue para o 11.º ano admite que as aulas em casa “atrasaram um bocado ao programa”, mas está confiante que o regresso à escola trará um período de avaliação do ponto de situação académico de cada um dos alunos.

Em Lisboa, João Barbosa prepara o regresso ao Colégio Sagrado Coração de Maria que acontece a 14 de Setembro. Embora ainda não lhe tenham sido comunicadas as medidas que a escola vai instaurar, o estudante de 17 anos não espera uma redução na turma que transita para o 12.º ano, que só tem 18 alunos.

Vai ser um regresso “diferente”, talvez “estranho”, mas “é preciso ver o lado positivo das coisas”. Por exemplo, o estudante antecipa que vai ser mais fácil concentrar-se nos estudos porque não vão existir “tantas distracções”. Há colegas que estão mais entusiasmados para voltar, outros não, mas isso “também acontece num ano normal”,

Há uma “mistura de sentimentos”, mas sempre sabendo que “é um voltar com maior precaução”.

No ano passado, o jovem lisboeta voltou à escola para as aulas de preparação para os exames. Fê-los por “reserva”, já que para ingressar num curso superior na área de Informática, o que pretende fazer quando terminar o 12.º ano, precisa do exame de Matemática A, que só é feito no último ano do ensino secundário.

“Acho que faz algum sentido os alunos do 11.º ano só fazerem os exames que queiram”, considera João Barbosa, já que nesse ano, as disciplinas são mais específicas e quem precise daqueles exames “sabe que quer mesmo aquilo”. Porém, o mesmo não se deveria aplicar no 12.º ano: “Acho que aí já deveria ser obrigatório porque disciplinas como o Português e a Matemática são disciplinas base, as mais importantes”.

O que é facto é que a decisão de fazer os exames em Agosto deu-lhe “uma vantagem”. Já teve a experiência de voltar à escola em período de pandemia e, por isso, já sabe “mais ou menos como vai funcionar”. Resume a experiência: “É ir às aulas com precaução e vai correr bem”.

As maiores dificuldades nas aulas à distância encontraram-se na disciplina de Geometria Descritiva. Mesmo “tendo a professora feito um excelente trabalho”, o facto de o professor não estar “ao lado” dos alunos dificulta a tarefa. Ainda assim, João Barbosa admite que teve “um bom ambiente, com boa internet” e relembra que “muita gente teve ambientes péssimos” que tornaram as aulas virtuais “muito mais difíceis”. Também por isso, o aluno defende que os professores deveriam dedicar o período inicial das aulas “a fazer uma revisão e perceber como é que os alunos estão”, sobretudo nas disciplinas em que a maioria dos alunos não fizeram exame, e, por isso, não tiveram aulas presenciais presenciais no final do ano lectivo.

13.7.20

Quem pediu ferramentas pedagógicas para criar uma nova relação entre escolas e ciganos?

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

“Reflexo – Ferramenta pedagógica para uma nova relação entre a escola e as comunidades ciganas”, desenvolvido pela Coolabora, concentra conjunto de exercícios e actividades para várias disciplinas do 5.º e do 6.º anos.

Os estudantes podem ser desafiados a imaginar-se na pele de um cigano que se dedica à venda de vestuário. “Se venderes um par de meias a 1,5 euros, por quanto vendes dois pares de meias? E cinco pares? E dez pares?” Ou, ainda antes de ler um texto sobre como os ciganos chegaram a Portugal na segunda metade do século XV, ser chamados a responder a uma pergunta: “Os ciganos são portugueses?”

Não fosse a pandemia de covid-19, este seria o grande ano de teste do “Reflexo - Ferramenta pedagógica para uma nova relação entre a escola e as comunidades ciganas” na Covilhã. As escolas fecharam as portas em Março e os professores tiveram de ensinar à distância estudantes que, muitas vezes, não tinham computador. Perante tais condições, a coordenadora do projecto, Rosa Carreira, considera “muito difícil” avaliar o resultado.

O assunto está em cima da mesa. No princípio deste mês, o comité de ministros do Conselho da Europa recomendou aos seus 47 Estados-membros que incluam a história dos ciganos e dos travelers nos seus programas escolares e nos materiais pedagógicos. Em Portugal, o contexto parece favorável. Há dois anos, o Governo colocou a educação inclusiva entre as suas prioridades. O regime jurídico, aprovado há dois anos, lembra Maria José Casa-Nova, coordenadora do Observatório das Comunidades Ciganas, refere “a necessidade de cada escola reconhecer a mais-valia da diversidade dos seus alunos, encontrando formas de lidar com essa diferença, adequando os processos de ensino às características e condições individuais de cada aluno.”

Começam a aparecer as primeiras ferramentas. Em 2016, o “Kit Pedagógico Romano Atmo”, desenvolvido pela Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas, testado no Agrupamento da Arrentela, no Agrupamento de Santo António da Charneca e no Agrupamento de Augusto Louro. No ano passado, o “Reflexo”, de que fazem parte os dois exercícios mencionados no arranque deste texto-

Dez anos de intervenção

Há uma década que a Coolabora, uma cooperativa fundada por cinco mulheres, trabalha com crianças e jovens do Tortosendo, a freguesia que acolhe mais população cigana. Gere o projecto Quero Ser +, em parceria com o Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto, com financiamento do Programa Escolhas, do Alto Comissariado para as Migrações. E esse inclui equipa de estudo, formação parental, mediação familiar e outras medidas destinadas a promover a inclusão escolar, mas também a participação cívica e a inclusão digital. Ainda agora, com a pandemia a encerrar as escolas, a equipa desse projecto tratou de garantir que as tarefas e orientações dos professores chegavam aos estudantes que não têm computador. E que os trabalhos feitos por eles chegavam aos professores.

Embora o absentismo e o abandono estivessem a descer, permaneciam elevados na Escola Básica 2 e 3 do Tortosendo. Era evidente, diz Rosa Carreira, que “a escola teria de fazer um esforço diferente”. Para isso, precisava de ferramentas pedagógicas. “As crianças ciganas podiam sentir que a sua cultura também faz parte dos manuais e as crianças não ciganas podiam conhecer melhor aquela cultura”, explica.

Para já, ficaram pelo 2º ciclo. Esse nível de escolaridade constituiu uma primeira barreira inultrapassável para muitas crianças e jovens daquela comunidade. E a duração do projecto, financiado pelo Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, não dava para mais. Uns exercícios, todavia, são tão simples que podem ser usados no 1º ciclo e outros têm complexidade suficiente para o 3º ciclo (como a lista de alvarás ou decretos que ao longo dos séculos foram sendo decretados para impedir a entrada de ciganos ou para os expulsar, para os condenar ao trabalho forçado ou ao degredo, para os proibir de falar a sua língua ou de usar os seus trajes típicos​.

Entre Fevereiro de 2018 e Julho de 2019, uma equipa fez acontecer. Envolveu profissionais do agrupamento, do departamento de Psicologia e Educação da Universidade da Beira Interior, da Câmara da Covilhã, da Junta de Freguesia de Tortosendo e representantes da comunidade cigana do Tortosendo que defendem a importância da escola (Celeste Salgueiro, Mário Fernandes e Manuel Cardoso).

Celeste Salgueiro, de 49 anos, não tem dúvidas: “Foi por sermos líderes da comunidade que nos escolheram.” O marido, pastor evangélico, recomenda aos pais que deixem as crianças estudar. E ela faz mentoria a estudantes do básico. Participaram em várias reuniões. “Falámos do que as pessoas fazem, do que gostam mais de comer, da discriminação que sentem. O que sabemos toda a gente sabe. Foi mais para ficar melhor.”
Envolver a comunidade

A equipa começara por ouvir os professores a indicar os conteúdos que podiam ser explorados pelo projecto. Tendo isso em conta é que fez as pesquisas, conversou com os três membros da comunidade e outras pessoas. Além de um conjunto de exercícios e actividades que podem ser usadas nas várias disciplinas do 5º e do 6º anos, alinhou sugestões de actividades extracurriculares e estratégias a usar de forma complementar. E testou os materiais foram com diferentes turmas. Ao que conta Rosa Carreira, estas sessões mostraram que a exploração da temática mantém as crianças motivadas e que há um grande desconhecimento sobre esta comunidade.

Safira Gonçalves tem 13 anos e só se lembra “de algumas coisas”, mas valoriza o esforço. “Os ciganos não são muito de ir à escola, mas já estão a melhorar”, diz ela. Tem o exemplo do irmão, que conta 18 anos e acaba de terminar o 12º ano. Esse não é, porém, bem um exemplo que conte para ela. “Na nossa comunidade é diferente se és menino ou menina. Na comunidade ensinam assim. Os homens podem estudar. As mulheres, despede das famílias. Algumas estudam. Não sei porquê. Não sou muito de falar sobre isso. Ainda tenho tempo para pensar.” Talvez não, talvez esteja na hora de começar a pensar a sério no que quer fazer à vida. “Desde que entrei para o 6º, comecei a conviver mais com os meus primos e a faltar.” Por nada que pudesse justificar. “Para o convívio.” Teve notas para passar para o 7º, mesmo assim. “A minha directora de turma ajudou-me muito. Ela gostava muito que eu permanece na escola.”

Um dos grandes entraves ao cumprimento da escolaridade obrigatória, diagnóstica Rosa Carreira, é a “pressão do grupo”. “Se as famílias estivessem espalhadas não se controlavam tanto umas às outras. Morando no mesmo bairro, o controlo social é muito forte. É difícil contrariar a pressão”, observa. As raparigas abandonam a escola mais cedo, não vão encantar-se com algum não cigano, namorar, “desonrar” a família. Os rapazes não tardam a segui-las. A união adolescente continua a ser comum, às vezes contra a vontade dos pais.

Acredita que a falta de exemplos positivos não ajuda. “Muito dizem: ‘Para quê que vou estudar se não me dão trabalho?’ É um ciclo vicioso. Não estudam porque não lhes dão trabalho e não lhes dão trabalho porque não estudam”, conta. Para o romper, a Coolabora convida ciganos ilustres, como Carlos Miguel, que foi secretário de Estado, ou Olga Mariano, que preside à Letras Nómadas, ou mulheres que concluiriam o ensino superior, para que rapazes e rapariga percebam que nem por isso deixaram de se identificar como ciganas e de defender a história a e cultura cigana.