Patrícia Carvalho, in Público on-line
Nem todas as escolas oferecem a possibilidade de os alunos assistirem às aulas online. Líder dos directores de estabelecimentos de ensino públicos desvaloriza e diz que essa não é a única forma de os estudantes acompanharem as matérias
Com dois filhos a frequentarem diferentes anos do 1.º ciclo, numa escola de Lisboa, Nuno Januário encontra energia para se rir da situação actual das crianças, em isolamento e impedidas de se deslocarem à escola por a mãe estar infectada com covid. “Um deles, no 4.º ano, está a ter aulas por Zoom, o mais novo, que está no 2.º ano e anda na mesma escola, não, porque apesar da boa vontade, a escola não tem Internet que funcione no pavilhão onde ele tem aulas”, conta ao telefone. Não é caso único.
Nuno Januário salvaguarda que, apesar desta discrepância, os filhos estão a conseguir acompanhar as aulas, graças às “professoras fantásticas” que ambos têm, mas diz que não pode deixar de chamar a atenção para o que diz ser “o ridículo da situação”. E salvaguarda que, no caso da criança mais nova, a quem é enviado um plano de trabalho diário, para compensar a ausência das aulas, o tempo só não é dado por perdido porque há um acompanhamento permanente por parte da mãe.
Para Carmo Teixeira, com duas filhas a frequentar diferentes níveis de ensino — uma está no 1.º ano a outra no 6.º, em duas escolas do mesmo agrupamento do Porto —, a relação das crianças com as aulas por estes dias também está a ser complicada. Ela e a filha mais nova estão infectadas com covid, a filha mais velha não, mas também não pode ir à escola, por viverem todas juntas. Nenhuma está a ter aulas online. Rita, a mais velha, vai-se desenrascando com os resumos que “alguns” professores enviam do que vão dando nas aulas e com o material que vai sendo colocado na plataforma Classroom. Mas, apesar de o isolamento estar reduzido a sete dias, já percebeu que vai ter de fazer um esforço extra para não ficar para trás. “Os testes estão a aproximar-se. Tenho um de Português no dia 2 de Fevereiro e tenho imensa matéria de gramática que não estou a entender muito bem. Vou ter mesmo de aproveitar as últimas aulas”, diz a aluna, que espera regressar à escola nesta quinta-feira.
Para a irmã mais nova, ainda a aprender as primeiras letras, as coisas são um pouco mais complexas. Carmo Teixeira diz que é suposto a professora deixar na portaria algumas fichas para a criança ir praticando, mas como está infectada, a mãe da menina não as foi levantar, e – admite – com os sintomas com que ambas estão a lidar, não se sente capaz de dar o acompanhamento de que a menina precisaria. “Prefiro que ela não tenha aulas à distância, até porque, com as dores musculares que tenho tido, e a ter de garantir refeições e impedir que o caos se instale em casa, não me sentiria em condições de estar a garantir que ela estava atenta às aulas e a cumprir horários e respectivos trabalhos de casa”, admite. As perdas, contudo, são claras. “Fico com pena, porque ela estava num momento importante, a começar a ler, e, para mais, na aula tem-se avançado nas letras do abecedário. Ela está a perder isso”, diz.
Jorge Ascenção, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), diz que no primeiro período lhe chegaram mais queixas relacionadas com este tema do que agora, e que, sempre que isso acontece, tentam resolver o problema, nomeadamente através de um contacto directo com as escolas. “São casos relacionados com questões diferentes, por vezes por as condições técnicas não serem as melhores. Mas com os alunos em casa, o que está previsto é que possam assistir remotamente às aulas, e é isso que faz sentido. E os alunos já terão todos computador, portanto, havendo os meios, é uma questão de as escolas e os professores se organizarem”, diz.
O responsável da Confap realça que “o que se espera é que, quando um aluno vai para casa em isolamento, não fique desligado”, e deixa um apelo para que as escolas façam um esforço extra no sentido de garantir o acesso às aulas online. “A autonomia é muito bonita, mas é preciso ser responsável e às vezes parece existir alguma dificuldade [por parte das escolas] em fazer um esforço adicional. Esta situação [de necessidade de isolamento] é um constrangimento, claro, mas há que minimizar o impacto”, defende.
Já Filinto Lima, que preside à Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, desvaloriza a ausência de disponibilização de aulas online por parte de alguns estabelecimentos de ensino. “Cada escola tem, por causa da pandemia, o seu plano de ensino à distância. E ele não se resume às aulas online. Pode ser o uso frequente da Classroom, pode ser a visualização, complementar, de episódios do Ensino em Casa [telescola], e há outras estratégias que cada escola desenvolve, tendo em conta os conteúdos programáticos”, argumenta.
Para o também professor, “está-se a cair muito no erro de pensar que, se o computador estiver virado para o quadro e o professor a escrever aí a matéria, esse é o único método, o salvador da pátria”. E isso não é assim, defende. “O ensino à distância é muito redutor, mas se a escola tiver o computador virado para o quadro, os pais ficam mais satisfeitos, quando deviam dar mais valor à plataforma Classroom, às aulas assíncronas, que podem ser gravadas, e a outros métodos recomendados pelos professores”, diz.
O líder dos responsáveis pelas escolas públicas admite que a situação pode ser mais complexa para alguns níveis de ensino do que para outros, mas acredita que o segredo não está no acesso, ou não, às aulas online: “Em qualquer situação, [o ensino] terá mais sucesso se lá em casa tivermos pais que ajudem, sobretudo nas idades mais jovens. Ter um pai que possa acompanhar o aluno no seu estudo pode ser a chave do sucesso.”
Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Educação afirma que não recebeu quaisquer queixas relacionadas com esta questão, lembrando que as escolas devem dar resposta aos alunos que se encontrem em isolamento, de acordo com os planos que estabeleceram para o efeito no âmbito da pandemia.
Com 16 anos e a frequentar o 10.º numa escola da ilha Terceira, nos Açores, Matilde Silva vai estudando pelo material que alguns poucos professores enviam, mas percebe que os dias de isolamento – primeiro por a avó ter testado positivo, depois por ela mesma ter confirmado que estava também infectada – representarão muito trabalho extra. “A professora de Inglês mandou trabalhos, a de Físico-Química deu uma ficha, mais nenhum enviou nada. E faltei a testes que tinha”, lamenta-se. O regresso está marcado para esta terça-feira.
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23.4.21
Alunos que se distanciaram da escola “começam a pôr a cabeça de fora”. Interesse levará “anos a recuperar”
Maria João Lopes, in Público on-line
Linha Crianças em Perigo, criada na pandemia, recebeu, de Maio de 2020 até 4 de Abril, 875 chamadas. Pelo formulário online chegaram, desde Junho, 1456 alertas. Número de alunos que as CPCJ encaminharam, no primeiro confinamento, para as escolas de acolhimento foi de 194. No segundo, subiu para 1250.
Crianças a quem a escola perdeu o rasto no ensino à distância, situações em que tiveram de ser accionados diferentes meios para contactá-las. Jovens sem espaço ou secretária para estudarem em casa. Ou a quem faltava estabilidade e rotinas familiares. Alunos que, em vez de estarem nas aulas online, estavam a tomar conta dos irmãos mais novos, também sem creche ou escola. Jovens que se desligaram. Dois confinamentos depois, o impacto da pandemia em crianças em situações de maior vulnerabilidade, que já existiam antes, é mais um desafio a somar a outros que as escolas têm pela frente. “Em alguns casos”, admite o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, “vai demorar anos a recuperar” não só as aprendizagens, mas o interesse perdido.
As respostas do sistema para acautelar os direitos de crianças em situações de perigo ou risco de abandono escolar, entre outras, nos períodos em que as escolas estiveram fechadas, tiveram de ser afinadas. O número de alunos que as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) encaminharam para as escolas de acolhimento aumentou entre o primeiro e o segundo confinamentos, de 194 para 1250. Em causa estavam crianças em contextos de perigo agravado, por não lhes ser assegurado o direito à educação ou não lhes ser garantido um ambiente livre de violência.
Quanto à Linha Crianças em Perigo, criada na pandemia, recebeu desde Maio de 2020 e até 4 de Abril 875 chamadas; já o formulário online, disponível no site da mesma comissão, recebeu, entre Junho do ano passado e 4 de Abril deste ano, 1456 alertas. A maioria diz respeito a situações de perigo em que crianças e jovens se encontram, e que podem ir de violência doméstica, a maus-tratos físicos e psicológicos, até abandono escolar, entre outras, e são sobretudo feitos por vizinhos ou familiares.
“Os números são bastante significativos, relevantes, principalmente imaginando que não tínhamos estas respostas há um ano. Pode acontecer mais de uma comunicação para a mesma situação de pessoas diferentes, mas geralmente são situações diferentes. São números bastante elevados. Sem estas respostas muitas crianças estariam numa situação de perigo invisível, sem serem protegidas”, diz a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse.
De acordo com esta responsável, o aumento de crianças encaminhadas para escolas de acolhimento entre um confinamento e o outro pode ser explicado também pela afinação do sistema de resposta: “Neste segundo confinamento já havia critérios de triagem, foi mais fácil encaminhar para as escolas de acolhimento. Neste momento, a maioria destes alunos encaminhados já voltou à escola de origem.”
No início, foi preciso fazer uma “triagem” dos casos, criou-se um semáforo e aqueles que estavam no “vermelho” seguiram. “Em Março estávamos todos expectantes, esta medida de enviar para escolas de acolhimento veio em Maio, mais perto do final do ano lectivo. Era tudo novo, foi um ano atípico”, explica Rosário Farmhouse. Era, ainda, uma altura em que “também havia um maior receio de contágio por parte das famílias”, tendo-se tentado, em alguns casos, “em conjunto com as famílias”, encontrar outras “soluções para as crianças entre Maio e Junho”. Situações houve ainda, durante os períodos de ensino à distância, em que outras estruturas, como juntas de freguesia, apresentaram soluções, nota.
Aquelas crianças foram parte das encaminhadas. Houve mais a frequentar estes estabelecimentos, abertos inicialmente para receber os filhos dos profissionais essenciais. Na última semana de aulas do 2.º período foram para estas escolas uma média de 8500 estudantes por dia, cabendo aqui alunos com necessidades educativas especiais, bem como aqueles para quem o ensino à distância estava a ser considerado ineficaz ou que se encontravam em risco de abandono.
O presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, recorda que, num dos casos do seu agrupamento, foram os pais que pediram para o filho ir para aquelas escolas, explicando que em casa não tinha espaço “digno”, com uma secretária, para passar algumas “horas” a estudar. Num outro, por exemplo, tanto o director de turma como o próprio director do agrupamento ligaram para casa do aluno, mas havia “um total desinteresse” da parte dos pais, que “não queriam saber se havia aulas, se [o filho] estava online a acompanhar” ou não. A GNR, através da Escola Segura, foi “saber o que se passava”. O jovem tinha computador e acesso à Internet, mas foi preciso alertar os pais para a necessidade de exerceram algum “controlo parental”. O aluno, conta, regressou às aulas online.
Rosário Farmhouse reconhece o impacto que os confinamentos tiveram em crianças em situação de maior vulnerabilidade: “Tem consequências enormes, não são imediatas, mas em situações mais vulneráveis – que se encontram em qualquer estrato social, cultural e económico, como as de violência doméstica, de consumos, de saúde mental, que são transversais –, com o isolamento, o encerramento de postos de trabalho, as situações ficaram ainda mais frágeis. O ensino à distância exige não só ter equipamentos. Temos contextos familiares em que não há estabilidade suficiente nem organização para que as crianças possam estudar. Há famílias que não têm horários, rotinas, se são crianças muito pequenas, se os adultos têm de estar presentes, pode ser complicado. Houve situações em que as CPCJ entenderam que não tinham condições, mesmo que tivessem as condições físicas para esse estudo”, diz. Admite preocupação com eventuais casos de abandono escolar: “É verdade que, em crianças que já não tinham relação de grande proximidade com a escola, a probabilidade de se desligarem no ensino à distância é maior.”
Casos triplicaram
No agrupamento de escolas Manuel da Maia, em Lisboa, o número de casos de alunos em situação considerada vulnerável e em risco de abandono escolar praticamente triplicou: no início do ano lectivo, em Setembro, o agrupamento tinha identificado cerca de dez alunos e sinalizado esses casos à CPCJ. A partir do confinamento iniciado em Janeiro e até ao início de Abril, o número passou para cerca de 30, embora a maioria não tivesse sido sinalizada àquela entidade e se tivessem tentado outras estratégias para resolver as situações. Ainda assim, houve casos em que, mesmo estabelecendo contacto, os alunos continuavam a não demonstrar a assiduidade esperada no ensino à distância. Este agrupamento, com 863 alunos do pré-escolar ao 9.º ano, está abrangido pelo programa TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária).
“Há situações em que deixámos de saber onde andavam e o que faziam. Mas conseguimos recuperar a maioria, com uma equipa de três psicólogas, uma assistente social e os directores de turma. Quando alguém dava por falta dos alunos muitos dias, nas aulas online, soavam os alarmes e contactávamos por vários meios, emails, telefone, deslocações a casa de alunos, tentando chegar a pessoas que os conheciam. Quando não temos sucesso, sinalizamos à CPCJ, mas, mais cedo ou mais tarde, acabamos sempre por saber algo dos alunos que não estavam a aparecer”, relata o director do agrupamento, Luís Mocho. Este responsável acredita que, com o regresso ao ensino presencial, o número de casos deverá voltar a ser cerca de dez: “E vamos tentar que esses reduzam também.”
O director garante continuar a monitorizar a situação, tentando verificar se os alunos em causa estão a regressar à escola. Muitos dos que se poderão ter isolado ou distanciado nos confinamentos, “com o regresso às aulas presenciais, começam a pôr a cabeça de fora”, diz. “Mesmo nos alunos mais desmotivados ou que perderam o fio à matéria, quando regressam às aulas presenciais, começam a retomar aos poucos o ritmo, e os que tinham dificuldade são mais fáceis de apoiar.” Neste momento, o “importante é estabilizar estes alunos”, defende, admitindo, no entanto, ser “dificílimo recuperar, agora, o interesse, o gosto pela escola, a utilidade da escola”. E acrescenta: “Em educação não se faz nada de um dia para o outro.”
O presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, não tem dúvidas de que, quando os alunos “estão à distância, naturalmente, há mais probabilidades de escaparem” do “radar”. Apesar de, “por norma”, se conseguir “resolver o problema”, admite que possa haver situações “em que as escolas tentaram tudo, recorreram à CPCJ”, e que, mesmo assim, estejam “por regularizar.” O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, também nota que, durante os confinamentos, houve meios para ir ao encontro dos alunos que estavam em risco de abandono ou que não apareciam nas aulas à distância e que tal “foi feito”. Ainda assim, reconhece que o ensino à distância poderá ter afastado, “em termos de interesse e de preocupação”, alguns alunos da escola, sobretudo entre aqueles que já estavam em situações de vulnerabilidade. “Em alguns casos”, reconhece, “vai demorar anos a recuperar” o interesse e as aprendizagens perdidos.
Apesar de, no ano passado, a taxa de abandono escolar precoce ter atingido, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o valor mais baixo de sempre (8,9%), o risco é reconhecido pela tutela, em contexto de pandemia. Numa resposta conjunta do Ministério da Educação (ME) e do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), enviada ao PÚBLICO, a tutela recorda que, no ano passado, foram sinalizadas pelas escolas 1900 situações às CPCJ – mais 200 do que ano anterior – e garante que “o processo de matrículas acompanhou, com rigor, a verificação dos números de alunos, para se detectar uma eventual redução”. A mesma resposta sublinha ainda que, “no âmbito da prevenção do abandono, e para fazer face à possível subida no contexto de pandemia, o ME desenvolveu um conjunto de medidas”, envolvendo municípios, juntas de freguesias, CNPDPCJ, entre outras entidades, bem como, e em articulação com o MTSSS, “uma metodologia integrada de actuação com as escolas com o objectivo de identificação e sinalização de situação de risco/perigo”.
Linha Crianças em Perigo, criada na pandemia, recebeu, de Maio de 2020 até 4 de Abril, 875 chamadas. Pelo formulário online chegaram, desde Junho, 1456 alertas. Número de alunos que as CPCJ encaminharam, no primeiro confinamento, para as escolas de acolhimento foi de 194. No segundo, subiu para 1250.
Crianças a quem a escola perdeu o rasto no ensino à distância, situações em que tiveram de ser accionados diferentes meios para contactá-las. Jovens sem espaço ou secretária para estudarem em casa. Ou a quem faltava estabilidade e rotinas familiares. Alunos que, em vez de estarem nas aulas online, estavam a tomar conta dos irmãos mais novos, também sem creche ou escola. Jovens que se desligaram. Dois confinamentos depois, o impacto da pandemia em crianças em situações de maior vulnerabilidade, que já existiam antes, é mais um desafio a somar a outros que as escolas têm pela frente. “Em alguns casos”, admite o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, “vai demorar anos a recuperar” não só as aprendizagens, mas o interesse perdido.
As respostas do sistema para acautelar os direitos de crianças em situações de perigo ou risco de abandono escolar, entre outras, nos períodos em que as escolas estiveram fechadas, tiveram de ser afinadas. O número de alunos que as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) encaminharam para as escolas de acolhimento aumentou entre o primeiro e o segundo confinamentos, de 194 para 1250. Em causa estavam crianças em contextos de perigo agravado, por não lhes ser assegurado o direito à educação ou não lhes ser garantido um ambiente livre de violência.
Quanto à Linha Crianças em Perigo, criada na pandemia, recebeu desde Maio de 2020 e até 4 de Abril 875 chamadas; já o formulário online, disponível no site da mesma comissão, recebeu, entre Junho do ano passado e 4 de Abril deste ano, 1456 alertas. A maioria diz respeito a situações de perigo em que crianças e jovens se encontram, e que podem ir de violência doméstica, a maus-tratos físicos e psicológicos, até abandono escolar, entre outras, e são sobretudo feitos por vizinhos ou familiares.
“Os números são bastante significativos, relevantes, principalmente imaginando que não tínhamos estas respostas há um ano. Pode acontecer mais de uma comunicação para a mesma situação de pessoas diferentes, mas geralmente são situações diferentes. São números bastante elevados. Sem estas respostas muitas crianças estariam numa situação de perigo invisível, sem serem protegidas”, diz a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse.
De acordo com esta responsável, o aumento de crianças encaminhadas para escolas de acolhimento entre um confinamento e o outro pode ser explicado também pela afinação do sistema de resposta: “Neste segundo confinamento já havia critérios de triagem, foi mais fácil encaminhar para as escolas de acolhimento. Neste momento, a maioria destes alunos encaminhados já voltou à escola de origem.”
No início, foi preciso fazer uma “triagem” dos casos, criou-se um semáforo e aqueles que estavam no “vermelho” seguiram. “Em Março estávamos todos expectantes, esta medida de enviar para escolas de acolhimento veio em Maio, mais perto do final do ano lectivo. Era tudo novo, foi um ano atípico”, explica Rosário Farmhouse. Era, ainda, uma altura em que “também havia um maior receio de contágio por parte das famílias”, tendo-se tentado, em alguns casos, “em conjunto com as famílias”, encontrar outras “soluções para as crianças entre Maio e Junho”. Situações houve ainda, durante os períodos de ensino à distância, em que outras estruturas, como juntas de freguesia, apresentaram soluções, nota.
Aquelas crianças foram parte das encaminhadas. Houve mais a frequentar estes estabelecimentos, abertos inicialmente para receber os filhos dos profissionais essenciais. Na última semana de aulas do 2.º período foram para estas escolas uma média de 8500 estudantes por dia, cabendo aqui alunos com necessidades educativas especiais, bem como aqueles para quem o ensino à distância estava a ser considerado ineficaz ou que se encontravam em risco de abandono.
O presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, recorda que, num dos casos do seu agrupamento, foram os pais que pediram para o filho ir para aquelas escolas, explicando que em casa não tinha espaço “digno”, com uma secretária, para passar algumas “horas” a estudar. Num outro, por exemplo, tanto o director de turma como o próprio director do agrupamento ligaram para casa do aluno, mas havia “um total desinteresse” da parte dos pais, que “não queriam saber se havia aulas, se [o filho] estava online a acompanhar” ou não. A GNR, através da Escola Segura, foi “saber o que se passava”. O jovem tinha computador e acesso à Internet, mas foi preciso alertar os pais para a necessidade de exerceram algum “controlo parental”. O aluno, conta, regressou às aulas online.
Rosário Farmhouse reconhece o impacto que os confinamentos tiveram em crianças em situação de maior vulnerabilidade: “Tem consequências enormes, não são imediatas, mas em situações mais vulneráveis – que se encontram em qualquer estrato social, cultural e económico, como as de violência doméstica, de consumos, de saúde mental, que são transversais –, com o isolamento, o encerramento de postos de trabalho, as situações ficaram ainda mais frágeis. O ensino à distância exige não só ter equipamentos. Temos contextos familiares em que não há estabilidade suficiente nem organização para que as crianças possam estudar. Há famílias que não têm horários, rotinas, se são crianças muito pequenas, se os adultos têm de estar presentes, pode ser complicado. Houve situações em que as CPCJ entenderam que não tinham condições, mesmo que tivessem as condições físicas para esse estudo”, diz. Admite preocupação com eventuais casos de abandono escolar: “É verdade que, em crianças que já não tinham relação de grande proximidade com a escola, a probabilidade de se desligarem no ensino à distância é maior.”
Casos triplicaram
No agrupamento de escolas Manuel da Maia, em Lisboa, o número de casos de alunos em situação considerada vulnerável e em risco de abandono escolar praticamente triplicou: no início do ano lectivo, em Setembro, o agrupamento tinha identificado cerca de dez alunos e sinalizado esses casos à CPCJ. A partir do confinamento iniciado em Janeiro e até ao início de Abril, o número passou para cerca de 30, embora a maioria não tivesse sido sinalizada àquela entidade e se tivessem tentado outras estratégias para resolver as situações. Ainda assim, houve casos em que, mesmo estabelecendo contacto, os alunos continuavam a não demonstrar a assiduidade esperada no ensino à distância. Este agrupamento, com 863 alunos do pré-escolar ao 9.º ano, está abrangido pelo programa TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária).
“Há situações em que deixámos de saber onde andavam e o que faziam. Mas conseguimos recuperar a maioria, com uma equipa de três psicólogas, uma assistente social e os directores de turma. Quando alguém dava por falta dos alunos muitos dias, nas aulas online, soavam os alarmes e contactávamos por vários meios, emails, telefone, deslocações a casa de alunos, tentando chegar a pessoas que os conheciam. Quando não temos sucesso, sinalizamos à CPCJ, mas, mais cedo ou mais tarde, acabamos sempre por saber algo dos alunos que não estavam a aparecer”, relata o director do agrupamento, Luís Mocho. Este responsável acredita que, com o regresso ao ensino presencial, o número de casos deverá voltar a ser cerca de dez: “E vamos tentar que esses reduzam também.”
O director garante continuar a monitorizar a situação, tentando verificar se os alunos em causa estão a regressar à escola. Muitos dos que se poderão ter isolado ou distanciado nos confinamentos, “com o regresso às aulas presenciais, começam a pôr a cabeça de fora”, diz. “Mesmo nos alunos mais desmotivados ou que perderam o fio à matéria, quando regressam às aulas presenciais, começam a retomar aos poucos o ritmo, e os que tinham dificuldade são mais fáceis de apoiar.” Neste momento, o “importante é estabilizar estes alunos”, defende, admitindo, no entanto, ser “dificílimo recuperar, agora, o interesse, o gosto pela escola, a utilidade da escola”. E acrescenta: “Em educação não se faz nada de um dia para o outro.”
O presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, não tem dúvidas de que, quando os alunos “estão à distância, naturalmente, há mais probabilidades de escaparem” do “radar”. Apesar de, “por norma”, se conseguir “resolver o problema”, admite que possa haver situações “em que as escolas tentaram tudo, recorreram à CPCJ”, e que, mesmo assim, estejam “por regularizar.” O presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, também nota que, durante os confinamentos, houve meios para ir ao encontro dos alunos que estavam em risco de abandono ou que não apareciam nas aulas à distância e que tal “foi feito”. Ainda assim, reconhece que o ensino à distância poderá ter afastado, “em termos de interesse e de preocupação”, alguns alunos da escola, sobretudo entre aqueles que já estavam em situações de vulnerabilidade. “Em alguns casos”, reconhece, “vai demorar anos a recuperar” o interesse e as aprendizagens perdidos.
Apesar de, no ano passado, a taxa de abandono escolar precoce ter atingido, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o valor mais baixo de sempre (8,9%), o risco é reconhecido pela tutela, em contexto de pandemia. Numa resposta conjunta do Ministério da Educação (ME) e do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), enviada ao PÚBLICO, a tutela recorda que, no ano passado, foram sinalizadas pelas escolas 1900 situações às CPCJ – mais 200 do que ano anterior – e garante que “o processo de matrículas acompanhou, com rigor, a verificação dos números de alunos, para se detectar uma eventual redução”. A mesma resposta sublinha ainda que, “no âmbito da prevenção do abandono, e para fazer face à possível subida no contexto de pandemia, o ME desenvolveu um conjunto de medidas”, envolvendo municípios, juntas de freguesias, CNPDPCJ, entre outras entidades, bem como, e em articulação com o MTSSS, “uma metodologia integrada de actuação com as escolas com o objectivo de identificação e sinalização de situação de risco/perigo”.
3.3.21
Rede DLBC Lisboa dá apoio escolar a alunos do 7º ao 12º ano
Rafael Tomaz Albuquerque, in Público on-line
A associação criou a iniciativa “Apoio Escolar Online” na tentativa de reduzir assimetrias sociais existentes e possíveis impactos que confinamento pode causar nas actividades lectivas dos jovens
Na tentativa de responder às possíveis lacunas provenientes do ensino à distância, a Rede DLBC Lisboa – Associação para o Desenvolvimento Local da Base Comunitária de Lisboa lançou em Fevereiro uma nova campanha que pretende dar apoio educativo aos alunos que estão a ter aulas online.
De acordo com a associação, o projecto “Apoio Escolar Online”, que tem como lema “Ninguém pode ficar para trás”, pretende aliar a disponibilidade de adultos com competências nas disciplinas chave do 7º ao 12º ano de escolaridade, às necessidades dos alunos em risco de insucesso escolar agravado pelo menor suporte familiar em contexto de confinamento covid-19.
A rede DLBC Lisboa é uma federação de organizações que trabalha nos territórios do município de Lisboa, em particular sob os territórios mais carenciados. A rede tem cerca de duzentas organizações associadas – desde a Câmara Municipal de Lisboa, a várias universidades, à grande maioria das juntas de freguesia do concelho, passando pela Fundação Gulbenkian ou a Santa Casa da Misericórdia, bem como uma grande maioria de organizações de base local (associações de pais, associações de moradores, entre outros). A estrutura foi criada em 2015 e desde então constitui-se como uma entidade gestora de fundos europeus, como é o caso do Fundo Social Europeu (FSE) ou do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), no território de Lisboa, aplicando-os nas áreas da educação, emprego e inclusão.
Rui Franco, presidente da Rede DLBC Lisboa, confirmou ao PÚBLICO que o novo projecto pretende mobilizar explicadores voluntários para um “programa de apoio educativo online de grande escala”. A associação assegura que o programa é totalmente gratuito para os alunos e assegurará mecanismos de monitorização de qualidade e segurança.
De acordo com Rui Franco, os alunos inscritos serão divididos em grupos, no máximo de cinco estudantes, que serão atribuídos a um explicador voluntário. Cada grupo terá duas sessões semanais, sendo que cada explicador pode vir a ser responsável por três grupos.
O presidente da associação sublinha que, com recurso a financiamento já aprovado pelo FSE, cada voluntário irá receber uma compensação pecuniária no valor de cerca de 120 euros mensais.
Dependendo da quantidade e diversidade da procura dos alunos, bem como da oferta de voluntários, o presidente garantiu que a iniciativa poderá assegurar cerca de 200.000 horas de apoio educativo só para alunos da cidade de Lisboa, no presente ano lectivo. A associação já está em contactos com outras organizações espalhadas pelo país, com o intuito de expandir o programa para outras localidades. Assim, ainda não existe uma noção concreta do número de alunos que poderá vir a usufruir desta iniciativa, contudo, só no concelho de Lisboa poderão ser “20, 30, 40 mil” confirmou Rui Franco.
O presidente da associação focou ainda dois objectivos fulcrais a alcançar para que o projecto vá ao encontro das expectativas. Por um lado, a DLBC Lisboa está a “trabalhar com o departamento de educação da Câmara Municipal de Lisboa para que a plataforma online que a autarquia disponibilizou para alunos do 1º ciclo, seja adaptada para ser usada pelos alunos deste programa” (2º e 3ºciclos, ensino secundário). Deste modo, a iniciativa poderá contar com uma plataforma online gratuita que permita aos voluntários ter mais recursos pedagógicos e maior proximidade com os estudantes. Por outro lado, “em articulação com o Ministério da Direcção Regional de Educação e com os agrupamentos de escolas, pretende-se que cada grupo de alunos possa vir da mesma escola, e desejavelmente da mesma turma, de modo a que o explicador que vai acompanhar o estudo dos jovens se mantenha em articulação constante com o professor dos respectivos alunos”.
Os formulários de inscrição no programa já estão disponíveis para os alunos, podendo aceder a eles aqui. Para além das inscrições via online, a Rede DLBC Lisboa celebrou protocolos com os agrupamentos de escolas do concelho, de modo a que divulgação do projecto aos alunos possa acontecer com um maior dinamismo. Já os voluntários interessados em participar na iniciativa podem fazê-lo através deste link.
Todo o programa, assim como o processo de contratação dos voluntários, será da responsabilidade da Rede DLBC Lisboa, em articulação com a Câmara Municipal de Lisboa, o Programa Operacional Regional de Lisboa e o Ministério de Educação.
A iniciativa pretende assim disponibilizar um programa de auxílio educativo gratuito e online, que permita de algum modo colmatar as deficiências do ensino à distância, apoiando os alunos através de estudo conjunto, da realização de trabalhos de casa e do aprofundamento do programa indicado pelos professores, até ao final do presente ano lectivo e respectivas avaliações e exames.
Texto editado por Ana Fernandes
A associação criou a iniciativa “Apoio Escolar Online” na tentativa de reduzir assimetrias sociais existentes e possíveis impactos que confinamento pode causar nas actividades lectivas dos jovens
Na tentativa de responder às possíveis lacunas provenientes do ensino à distância, a Rede DLBC Lisboa – Associação para o Desenvolvimento Local da Base Comunitária de Lisboa lançou em Fevereiro uma nova campanha que pretende dar apoio educativo aos alunos que estão a ter aulas online.
De acordo com a associação, o projecto “Apoio Escolar Online”, que tem como lema “Ninguém pode ficar para trás”, pretende aliar a disponibilidade de adultos com competências nas disciplinas chave do 7º ao 12º ano de escolaridade, às necessidades dos alunos em risco de insucesso escolar agravado pelo menor suporte familiar em contexto de confinamento covid-19.
A rede DLBC Lisboa é uma federação de organizações que trabalha nos territórios do município de Lisboa, em particular sob os territórios mais carenciados. A rede tem cerca de duzentas organizações associadas – desde a Câmara Municipal de Lisboa, a várias universidades, à grande maioria das juntas de freguesia do concelho, passando pela Fundação Gulbenkian ou a Santa Casa da Misericórdia, bem como uma grande maioria de organizações de base local (associações de pais, associações de moradores, entre outros). A estrutura foi criada em 2015 e desde então constitui-se como uma entidade gestora de fundos europeus, como é o caso do Fundo Social Europeu (FSE) ou do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), no território de Lisboa, aplicando-os nas áreas da educação, emprego e inclusão.
Rui Franco, presidente da Rede DLBC Lisboa, confirmou ao PÚBLICO que o novo projecto pretende mobilizar explicadores voluntários para um “programa de apoio educativo online de grande escala”. A associação assegura que o programa é totalmente gratuito para os alunos e assegurará mecanismos de monitorização de qualidade e segurança.
De acordo com Rui Franco, os alunos inscritos serão divididos em grupos, no máximo de cinco estudantes, que serão atribuídos a um explicador voluntário. Cada grupo terá duas sessões semanais, sendo que cada explicador pode vir a ser responsável por três grupos.
O presidente da associação sublinha que, com recurso a financiamento já aprovado pelo FSE, cada voluntário irá receber uma compensação pecuniária no valor de cerca de 120 euros mensais.
Dependendo da quantidade e diversidade da procura dos alunos, bem como da oferta de voluntários, o presidente garantiu que a iniciativa poderá assegurar cerca de 200.000 horas de apoio educativo só para alunos da cidade de Lisboa, no presente ano lectivo. A associação já está em contactos com outras organizações espalhadas pelo país, com o intuito de expandir o programa para outras localidades. Assim, ainda não existe uma noção concreta do número de alunos que poderá vir a usufruir desta iniciativa, contudo, só no concelho de Lisboa poderão ser “20, 30, 40 mil” confirmou Rui Franco.
O presidente da associação focou ainda dois objectivos fulcrais a alcançar para que o projecto vá ao encontro das expectativas. Por um lado, a DLBC Lisboa está a “trabalhar com o departamento de educação da Câmara Municipal de Lisboa para que a plataforma online que a autarquia disponibilizou para alunos do 1º ciclo, seja adaptada para ser usada pelos alunos deste programa” (2º e 3ºciclos, ensino secundário). Deste modo, a iniciativa poderá contar com uma plataforma online gratuita que permita aos voluntários ter mais recursos pedagógicos e maior proximidade com os estudantes. Por outro lado, “em articulação com o Ministério da Direcção Regional de Educação e com os agrupamentos de escolas, pretende-se que cada grupo de alunos possa vir da mesma escola, e desejavelmente da mesma turma, de modo a que o explicador que vai acompanhar o estudo dos jovens se mantenha em articulação constante com o professor dos respectivos alunos”.
Os formulários de inscrição no programa já estão disponíveis para os alunos, podendo aceder a eles aqui. Para além das inscrições via online, a Rede DLBC Lisboa celebrou protocolos com os agrupamentos de escolas do concelho, de modo a que divulgação do projecto aos alunos possa acontecer com um maior dinamismo. Já os voluntários interessados em participar na iniciativa podem fazê-lo através deste link.
Todo o programa, assim como o processo de contratação dos voluntários, será da responsabilidade da Rede DLBC Lisboa, em articulação com a Câmara Municipal de Lisboa, o Programa Operacional Regional de Lisboa e o Ministério de Educação.
A iniciativa pretende assim disponibilizar um programa de auxílio educativo gratuito e online, que permita de algum modo colmatar as deficiências do ensino à distância, apoiando os alunos através de estudo conjunto, da realização de trabalhos de casa e do aprofundamento do programa indicado pelos professores, até ao final do presente ano lectivo e respectivas avaliações e exames.
Texto editado por Ana Fernandes
25.2.21
Ansiedade, exaustão e disciplina: um auto-retrato da vida académica em casa
Carolina Amado, in Público on-line
Durante este novo confinamento, há quem tenha subido notas, e até prefira o ensino online, mas é caso raro. Os futuros profissionais ouvidos pelo P3 dizem sentir-se ansiosos, não conseguem dormir, já pensaram desistir do curso — e não ajuda pensar que as aulas presenciais no ensino superior só deverão ser retomadas a partir de Abril, como admitido esta semana pelo presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Cinco estudantes contam a sua experiência, na primeira pessoa.
“Estou literalmente a sobreviver. Os meus pais trabalhavam ambos no sector do turismo, em hotelaria, agora estão em lay-off, e eu tive duas opções. Congelar a minha matrícula e voltar para Lagos, ou arranjar trabalho em Lisboa e continuar lá a minha vida. Como voltar para Lagos permanentemente não era opção, fui para Lisboa e encontrei um trabalho que me pagasse a casa e as propinas.
Enquanto aluna deslocada, também tive alguns problemas com a habitação. Estava numa casa onde não tinha um contracto. No primeiro confinamento, quando fui para casa dos meus pais, o senhorio concordou que pagaria apenas metade da renda enquanto não voltasse, mas depois mudou de ideias. Entretanto, já troquei de casa duas vezes. Vivo com o meu namorado, num T1, e é apertado. Preciso de claridade, luz natural para estudar e esta casa não tem.
Para me conseguir manter de pé preciso de sair de casa, conversar, conhecer pessoas novas. A vida académica era a minha vida social. A única pessoa com quem interajo agora é o meu namorado, e depois tenho os meus gatos. Não vejo a minha família há imenso tempo, e não sei quando vou ver.
Tem sido um esforço imenso. Trabalhar das nove às seis num call center, a partir de casa, e estudar para a faculdade até me deitar é cansativo. Antes tinha tempo para estar com amigos, fazer teatro, tudo e mais alguma coisa, e agora tenho de escolher: hoje arrumo a casa ou vou estudar? Tanto que vou demorar mais um semestre do que era suposto a terminar a licenciatura.
Já tive covid-19, estive um mês de baixa. Aí comecei a sentir mais ansiedade até que fui, de emergência, para o hospital. Agora sou acompanhada por psicólogos e psiquiatras, e tomo medicação. Sem dúvida que é uma consequência da pandemia. Sempre fui uma pessoa positiva, contente, nunca pensei que as coisas se fossem agravar desta forma.”
“Ninguém quer ser conhecido como o médico que foi formado durante a pandemia da covid-19. Preocupa-nos a carga diminuta que temos de aulas práticas em relação a anos anteriores. A mudança para o online tira-nos a percepção de que estamos a lidar com seres humanos, e que nós próprios somos seres humanos, parecemos máquinas ligadas a um computador a teclar. É desmotivador, destrutivo.
Tivemos uma diminuição das horas de contacto com os pacientes e cortaram-nos a urgência e o bloco operatório, para criar um modelo que reduza ao máximo as cadeias de contaminação. Os riscos que corremos são os mesmos, ou até menores, do que antes da pandemia. Aqui, no Centro Hospitalar Universitário de São João, médicos e enfermeiros já estão vacinados, e os alunos de sexto ano também serão, e isso dá-nos outro alívio. Se mantivermos todos os cuidados, à partida, estamos bem.
Nos anos básicos do curso de Medicina, o regime é online e nos anos clínicos é misto: a prática clínica é no hospital, e tudo o que for teórico é online. Será assim durante todo o semestre. O ano passado, no primeiro confinamento, estive o tempo todo em frente a um ecrã, parecia que vivia através de uma caixa, e eu adoro fotografia, gosto muito de ver através de lentes e caixas! Mas de um computador, por favor, não.
Comparando com Março, sem dúvida que a faculdade e os professores estão muito melhor preparados. Antes alguns nem sabiam como criar uma chamada Zoom, tive aulas com um professor a quem só vi a testa durante meio semestre. Todos fizeram um esforço para que tivéssemos mais material de apoio caso fosse necessário um segundo confinamento. Infelizmente, aconteceu.
Na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina temos trabalhado para cativar os alunos e dar-lhes a conhecer o que é a vida académica para além disto, mas é muito difícil estarmos a par das realidades de 3 mil pessoas. Tentamos dar a conhecer entidades que os possam ajudar, e dar-lhes a mão para dizer que, se precisarem, estamos aqui.”
"O meu rendimento escolar e as minhas notas subiram bastante, porque deixei de ter as pequenas distracções com colegas e pausas alongadas, as pausas para cafezinhos. Se todo o semestre for online, estou tranquilo. O cenário perfeito era a pandemia acabar e conseguirmos conciliar o ensino à distância com a liberdade para fazer o que queremos nos tempos livres.
Em casa, consigo prestar atenção às aulas e poder gravá-las ajuda bastante, para as rever depois. No meu melhor semestre presencial fiz cinco cadeiras, e no semestre passado, que foi online, fiz nove.
Acho que, em alguns exames, o grau de dificuldade aumentou, para compensar o facto de os fazermos com consulta. A meu ver, é melhor para os alunos. A única desvantagem é que presencialmente tínhamos uns minutos extra dados pelo professor, e o computador não permite mais tempo.
Não estou preocupado com a perda de experiências da vida académica porque aproveitei bastante os meus dois primeiros anos de faculdade. Agora quero é acabar o curso, estou mais focado em trabalhar e fazer as cadeiras com boas notas. E, para compensar a distância, faço muitas vezes videochamadas com os meus amigos.
Tenho uma rotina definida, acordo sempre entre as 7h e as 8h, trabalho até ao meio-dia, e depois, de novo, até ao final da tarde. Estar mais tempo no computador não me faz confusão. À noite é o meu tempo, consigo fazer passeios porque não há tanta gente na rua.
Acho muito importante manter um plano de estudo e de trabalho bem definidos. Para quem se consegue adaptar, ter disciplina e cumprir os seus horários, a produtividade aumenta bastante.”
“No semestre passado, tive aulas em regime misto, presencial e online. Existiam imensos problemas técnicos, não acho que os professores estivessem preparados as aulas à distância. Perdíamos muito tempo, a abrir o Zoom, enviar links, ligar as câmaras... Aulas de uma hora passavam a 25 minutos. Honestamente, foi mais confuso do que o primeiro confinamento, em Março de 2020.
Por causa do meu problema de saúde – um macroadenoma na hipófise – tenho de controlar muito bem o tempo que passo em frente ao computador. Ter aulas todos os dias, fazer trabalhos, pesquisar na Internet... Todas estas horas tornaram-se incomportáveis para mim. Não conseguia concentrar-me, à noite não tinha sono.
Os professores aumentaram extraordinariamente a carga de trabalhos. Entendo que tivessem de substituir a participação nas aulas por outra actividade, mas tínhamos de escrever ensaios atrás de ensaios... Já para não falar de quem tem dificuldades económicas ou não tem um bom ambiente familiar. Eu tenho a sorte de ter. Mas sinto que alguns professores tiveram uma certa falta de sensibilidade. Há uma desigualdade que tem de ser considerada pelas escolas, não estamos todos na mesma posição.
Eu era muito ligada ao desporto, era a minha maior paixão, e deixei de fazer tudo. Parecia que me levantava da cama e não tinha vontade para nada. Sinto que me desinteressei, que perdi a paixão que tinha pelo curso quando me candidatei. Só não congelei a matrícula porque em 2018, quando fui diagnosticada com esta doença, tive de o fazer, e não queria perder mais um ano.
No meu grupo de amigos da faculdade as queixas eram sempre as mesmas. Sentíamo-nos ansiosos, não conseguíamos dormir e, mesmo quem nunca tinha tido pensamentos mais depressivos, começou a tê-los. Mas temos de ser pacientes, tentar dar o nosso melhor e aguentar até que isto acabe, porque vai acabar, só não sabemos quando.”
“Eu não consigo ter um laboratório em casa, não tenho uma sala escura, não tenho os químicos para trabalhar a fotografia. O essencial do curso de Fotografia está em suspenso por tempo indefinido. Parece que existem planos para tudo, menos para as aulas práticas. E isto relaciona-se com o apoio à cultura. O que já estava mal agravou-se, e chegou a um ponto em que, para muitas pessoas, as dificuldades são extremas.
Já as aulas teóricas têm corrido muito bem. O curso está bem organizado, surpreenderam-me imenso. Temos um horário novo, em que os vários anos de Fotografia podem assistir a todas as aulas que queiram, o ensino é mais completo e acabamos por contactar com mais pessoas. Até os professores das aulas práticas dão o seu melhor, vão para os laboratórios exemplificar o que deveríamos fazer, para dar continuidade ao nosso trabalho.
Ao mesmo tempo, a carga horária é maior. E temos de reter muita informação a partir do computador. Em casa, tenho insónias e durmo muito mal. E, no dia seguinte, é complicado acompanhar as aulas. Eu gosto mesmo do meu curso e quero aprender o máximo possível. Quando não estou a ser produtiva e a aprender tanto quanto podia, sinto ainda mais pressão.
Há dias vi alguém dizer: “Quando fazes o que amas, é impossível entrar em burnout”. Mas não! Quando gostas do que fazes, queres evoluir, fazer mais e melhor, ser criativo e às vezes perdes noção das horas, do cansaço, do descanso, deixas-te guiar pela paixão. Pode dar para o torto.
Acho que o maior desafio ao estudo em confinamento é lidar com o ambiente doméstico. Não é tão simples como dizer: “sentem-se no sofá e fiquem em casa, não custa nada!”. Há muitas pessoas com ambientes extremamente tóxicos em casa.
As janelas que estavam cheias de papelinhos a dizer “Vamos todos ficar bem!” agora estão sujas, encardidas. Já não é verdade. Já ninguém tem paciência para isto. Às vezes sinto ansiedade porque quero tanto aprender neste curso, mas não estou a conseguir tirar dele o maior proveito possível.”
Durante este novo confinamento, há quem tenha subido notas, e até prefira o ensino online, mas é caso raro. Os futuros profissionais ouvidos pelo P3 dizem sentir-se ansiosos, não conseguem dormir, já pensaram desistir do curso — e não ajuda pensar que as aulas presenciais no ensino superior só deverão ser retomadas a partir de Abril, como admitido esta semana pelo presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Cinco estudantes contam a sua experiência, na primeira pessoa.
“Estou literalmente a sobreviver. Os meus pais trabalhavam ambos no sector do turismo, em hotelaria, agora estão em lay-off, e eu tive duas opções. Congelar a minha matrícula e voltar para Lagos, ou arranjar trabalho em Lisboa e continuar lá a minha vida. Como voltar para Lagos permanentemente não era opção, fui para Lisboa e encontrei um trabalho que me pagasse a casa e as propinas.
Enquanto aluna deslocada, também tive alguns problemas com a habitação. Estava numa casa onde não tinha um contracto. No primeiro confinamento, quando fui para casa dos meus pais, o senhorio concordou que pagaria apenas metade da renda enquanto não voltasse, mas depois mudou de ideias. Entretanto, já troquei de casa duas vezes. Vivo com o meu namorado, num T1, e é apertado. Preciso de claridade, luz natural para estudar e esta casa não tem.
Para me conseguir manter de pé preciso de sair de casa, conversar, conhecer pessoas novas. A vida académica era a minha vida social. A única pessoa com quem interajo agora é o meu namorado, e depois tenho os meus gatos. Não vejo a minha família há imenso tempo, e não sei quando vou ver.
Tem sido um esforço imenso. Trabalhar das nove às seis num call center, a partir de casa, e estudar para a faculdade até me deitar é cansativo. Antes tinha tempo para estar com amigos, fazer teatro, tudo e mais alguma coisa, e agora tenho de escolher: hoje arrumo a casa ou vou estudar? Tanto que vou demorar mais um semestre do que era suposto a terminar a licenciatura.
Já tive covid-19, estive um mês de baixa. Aí comecei a sentir mais ansiedade até que fui, de emergência, para o hospital. Agora sou acompanhada por psicólogos e psiquiatras, e tomo medicação. Sem dúvida que é uma consequência da pandemia. Sempre fui uma pessoa positiva, contente, nunca pensei que as coisas se fossem agravar desta forma.”
“Ninguém quer ser conhecido como o médico que foi formado durante a pandemia da covid-19. Preocupa-nos a carga diminuta que temos de aulas práticas em relação a anos anteriores. A mudança para o online tira-nos a percepção de que estamos a lidar com seres humanos, e que nós próprios somos seres humanos, parecemos máquinas ligadas a um computador a teclar. É desmotivador, destrutivo.
Tivemos uma diminuição das horas de contacto com os pacientes e cortaram-nos a urgência e o bloco operatório, para criar um modelo que reduza ao máximo as cadeias de contaminação. Os riscos que corremos são os mesmos, ou até menores, do que antes da pandemia. Aqui, no Centro Hospitalar Universitário de São João, médicos e enfermeiros já estão vacinados, e os alunos de sexto ano também serão, e isso dá-nos outro alívio. Se mantivermos todos os cuidados, à partida, estamos bem.
Nos anos básicos do curso de Medicina, o regime é online e nos anos clínicos é misto: a prática clínica é no hospital, e tudo o que for teórico é online. Será assim durante todo o semestre. O ano passado, no primeiro confinamento, estive o tempo todo em frente a um ecrã, parecia que vivia através de uma caixa, e eu adoro fotografia, gosto muito de ver através de lentes e caixas! Mas de um computador, por favor, não.
Comparando com Março, sem dúvida que a faculdade e os professores estão muito melhor preparados. Antes alguns nem sabiam como criar uma chamada Zoom, tive aulas com um professor a quem só vi a testa durante meio semestre. Todos fizeram um esforço para que tivéssemos mais material de apoio caso fosse necessário um segundo confinamento. Infelizmente, aconteceu.
Na Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina temos trabalhado para cativar os alunos e dar-lhes a conhecer o que é a vida académica para além disto, mas é muito difícil estarmos a par das realidades de 3 mil pessoas. Tentamos dar a conhecer entidades que os possam ajudar, e dar-lhes a mão para dizer que, se precisarem, estamos aqui.”
"O meu rendimento escolar e as minhas notas subiram bastante, porque deixei de ter as pequenas distracções com colegas e pausas alongadas, as pausas para cafezinhos. Se todo o semestre for online, estou tranquilo. O cenário perfeito era a pandemia acabar e conseguirmos conciliar o ensino à distância com a liberdade para fazer o que queremos nos tempos livres.
Em casa, consigo prestar atenção às aulas e poder gravá-las ajuda bastante, para as rever depois. No meu melhor semestre presencial fiz cinco cadeiras, e no semestre passado, que foi online, fiz nove.
Acho que, em alguns exames, o grau de dificuldade aumentou, para compensar o facto de os fazermos com consulta. A meu ver, é melhor para os alunos. A única desvantagem é que presencialmente tínhamos uns minutos extra dados pelo professor, e o computador não permite mais tempo.
Não estou preocupado com a perda de experiências da vida académica porque aproveitei bastante os meus dois primeiros anos de faculdade. Agora quero é acabar o curso, estou mais focado em trabalhar e fazer as cadeiras com boas notas. E, para compensar a distância, faço muitas vezes videochamadas com os meus amigos.
Tenho uma rotina definida, acordo sempre entre as 7h e as 8h, trabalho até ao meio-dia, e depois, de novo, até ao final da tarde. Estar mais tempo no computador não me faz confusão. À noite é o meu tempo, consigo fazer passeios porque não há tanta gente na rua.
Acho muito importante manter um plano de estudo e de trabalho bem definidos. Para quem se consegue adaptar, ter disciplina e cumprir os seus horários, a produtividade aumenta bastante.”
“No semestre passado, tive aulas em regime misto, presencial e online. Existiam imensos problemas técnicos, não acho que os professores estivessem preparados as aulas à distância. Perdíamos muito tempo, a abrir o Zoom, enviar links, ligar as câmaras... Aulas de uma hora passavam a 25 minutos. Honestamente, foi mais confuso do que o primeiro confinamento, em Março de 2020.
Por causa do meu problema de saúde – um macroadenoma na hipófise – tenho de controlar muito bem o tempo que passo em frente ao computador. Ter aulas todos os dias, fazer trabalhos, pesquisar na Internet... Todas estas horas tornaram-se incomportáveis para mim. Não conseguia concentrar-me, à noite não tinha sono.
Os professores aumentaram extraordinariamente a carga de trabalhos. Entendo que tivessem de substituir a participação nas aulas por outra actividade, mas tínhamos de escrever ensaios atrás de ensaios... Já para não falar de quem tem dificuldades económicas ou não tem um bom ambiente familiar. Eu tenho a sorte de ter. Mas sinto que alguns professores tiveram uma certa falta de sensibilidade. Há uma desigualdade que tem de ser considerada pelas escolas, não estamos todos na mesma posição.
Eu era muito ligada ao desporto, era a minha maior paixão, e deixei de fazer tudo. Parecia que me levantava da cama e não tinha vontade para nada. Sinto que me desinteressei, que perdi a paixão que tinha pelo curso quando me candidatei. Só não congelei a matrícula porque em 2018, quando fui diagnosticada com esta doença, tive de o fazer, e não queria perder mais um ano.
No meu grupo de amigos da faculdade as queixas eram sempre as mesmas. Sentíamo-nos ansiosos, não conseguíamos dormir e, mesmo quem nunca tinha tido pensamentos mais depressivos, começou a tê-los. Mas temos de ser pacientes, tentar dar o nosso melhor e aguentar até que isto acabe, porque vai acabar, só não sabemos quando.”
“Eu não consigo ter um laboratório em casa, não tenho uma sala escura, não tenho os químicos para trabalhar a fotografia. O essencial do curso de Fotografia está em suspenso por tempo indefinido. Parece que existem planos para tudo, menos para as aulas práticas. E isto relaciona-se com o apoio à cultura. O que já estava mal agravou-se, e chegou a um ponto em que, para muitas pessoas, as dificuldades são extremas.
Já as aulas teóricas têm corrido muito bem. O curso está bem organizado, surpreenderam-me imenso. Temos um horário novo, em que os vários anos de Fotografia podem assistir a todas as aulas que queiram, o ensino é mais completo e acabamos por contactar com mais pessoas. Até os professores das aulas práticas dão o seu melhor, vão para os laboratórios exemplificar o que deveríamos fazer, para dar continuidade ao nosso trabalho.
Ao mesmo tempo, a carga horária é maior. E temos de reter muita informação a partir do computador. Em casa, tenho insónias e durmo muito mal. E, no dia seguinte, é complicado acompanhar as aulas. Eu gosto mesmo do meu curso e quero aprender o máximo possível. Quando não estou a ser produtiva e a aprender tanto quanto podia, sinto ainda mais pressão.
Há dias vi alguém dizer: “Quando fazes o que amas, é impossível entrar em burnout”. Mas não! Quando gostas do que fazes, queres evoluir, fazer mais e melhor, ser criativo e às vezes perdes noção das horas, do cansaço, do descanso, deixas-te guiar pela paixão. Pode dar para o torto.
Acho que o maior desafio ao estudo em confinamento é lidar com o ambiente doméstico. Não é tão simples como dizer: “sentem-se no sofá e fiquem em casa, não custa nada!”. Há muitas pessoas com ambientes extremamente tóxicos em casa.
As janelas que estavam cheias de papelinhos a dizer “Vamos todos ficar bem!” agora estão sujas, encardidas. Já não é verdade. Já ninguém tem paciência para isto. Às vezes sinto ansiedade porque quero tanto aprender neste curso, mas não estou a conseguir tirar dele o maior proveito possível.”
19.2.21
“A digitalização vai ficar como ferramenta para um ensino presencial mais activo”
Ana Sá Lopes e Eunice Lourenço (Renascença), in Público on-line
A presidente do Conselho Nacional da Educação, Maria Emília Brederode Santos, teme que a pandemia venha a ter efeitos no abandono escolar.
Maria Emília Brederode Santos, a presidente do Conselho Nacional da Educação, acha que a escola digital, mesmo quando voltarem as aulas presenciais, veio para ficar. Na entrevista PÚBLICO/Renascença, que pode ouvir esta quinta-feira às 23 horas, está preocupada com as consequências no abandono escolar.
Já é possível identificar as consequências da pandemia na educação?
Provavelmente já é possível identificar alguns efeitos. Acho que nos demos todos conta do agravamento das desigualdades. De certa maneira, “descobrimos” as desigualdades que já existiam. Foram desocultadas, até parece que ninguém tinha dado por elas antes. Isso tornou-se muito mais evidente agora. Mas além dessa desocultação de uma coisa que já existia, é evidente que também nos demos conta que isto veio agravar as desigualdades. Há uma brecha digital, uma desigualdade perante os dispositivos digitais. Há muitas pessoas que não têm computador, nem acesso à rede. Não basta distribuir computadores, é preciso assegurar que a rede chegue a toda a parte. E sabemos que fora das grandes cidades, a rede não chega a toda a parte. Essa conclusão já se pode tirar. Mas há outras, que até podem ser positivas. Acho que nos demos conta de uma muito maior valorização da educação. Toda a gente está de acordo que a educação é muito importante e é um direito que é preciso assegurar. E eu não tenho a certeza de que, aqui há uns anos, a população portuguesa valorizasse tanto a educação. Isso com a pandemia revelou-se mais.
E há uma revalorização da educação como, pelo menos, equilibrador social, já que nem sempre é elevador.
Sim. E também uma valorização da escola, nas suas várias funções. De repente, a escola não é só para aprender e ensinar. Desempenha imensos papéis. Penso que aquilo de que os miúdos sentem mais falta é o seu papel na socialização, que é muito importante, porque eles também aprendem muito uns com os outros. Mas também o papel de “misturador” social, apesar do nosso urbanismo não ser muito conducente a isso.
Mas há uma maior mistura social do que noutras instituições e um papel de coesão da sociedade. E há um papel de custódia, que está a ser muito evidente com os miúdos pequeninos, para que os pais que estão a trabalhar saibam que há um sítio onde podem deixar os filhos em segurança e a aprender. Um papel também de âncora social, por exemplo, para imigrantes que chegam e não conhecem nada, a escola é um meio de contacto.
Mas não foi um ano perdido, pelo menos para os mais desfavorecidos?
Num contexto mais favorecido, não é desgraça nenhuma que a pessoa perca uns meses. Está a aprender outras coisas igualmente importantes. Mas para as crianças de meios desfavorecidos e em que os pais não possam estar a apoiar é muitíssimo mais grave. Há outro papel que a escola tem, felizmente para poucas crianças: as que são vítimas de maus-tratos ou de negligência e para quem a escola é o único contacto possível para saírem de uma situação terrível. E isso também nesta pandemia se revelou bastante. Daí que neste reconfinamento tenha havido o cuidado de abrir as escolas de acolhimento, que da outra vez foram só para filhos de profissionais da linha da frente e desta vez foram também abertas a crianças com necessidades específicas e a crianças sinalizadas pelas CCPJ. Abriram-se também às crianças em risco de abandono escolar. Acho que isso é positivo mas tem que se ter imenso cuidado... se o pôr essas crianças na escola não é estigmatizante para elas.
E eu gostava de apelar à comunicação social para se ter imenso cuidado quando se trata desse assunto. Estou a dizer isto porque saiu esta semana num jornal de referência uma fotografia na primeira página de uma criança em cima de um computador em que se dizia o nome, a idade, a escola que frequentava... É importante que se chame a atenção para que esta realidade existe, mas tem que se ter imenso cuidado para não dar esses factores de identificação porque podem ser muito estigmatizantes para a criança.
Mas esta revolução que aconteceu vai para um ano mostrou que a escola é capaz de dar o salto ou ainda ficou longe do que era necessário?
Sei que a escola foi muito capaz de responder quando ninguém estava à espera. Não havia computadores para todos, as pessoas não estavam formadas. E apesar de tudo houve um movimento muito grande da escola e da sociedade para conseguirem arranjar computadores ou outros meios - podem não ser computadores, os telemóveis são um meio fantástico e os miúdos usam mais. Houve movimentos muito interessantes de professores em rede. Os professores de informática ajudaram os outros. Foi um salto fantástico e a escola mostrou muito bem que era capaz de lidar com o imprevisto e com situações muito complicadas. Agora, claro que também houve problemas, desde os meninos que não se conseguiram encontrar, que deixaram de ter contacto com as escolas, até ao equipamento que não chega para todos, a rede...
Respondeu-se muito bem ao imprevisto, mas ao previsível já não se respondeu tão bem?
Passámos da fase heróica, em que todos respondemos o melhor possível e em que havia uma ilusão de que ia ser rápida, a uma fase de um grande cansaço, uma grande exaustão...
Mas isso não explica porque é que os computadores não chegaram a tempo...
Não sei dizer porque é que os computadores não chegaram a tempo. Acho que todos podíamos fazer melhor. Aqui não há boas soluções. Creio que era o Pacheco Pereira que dizia que caímos numa “indústria da indignação”. Há um excesso de indignação e insatisfação. Andamos à procura de culpados e de bodes expiatórios. Pessoalmente, não queria ir por aí.
Uma das coisas que dizia que se podia fazer melhor era a criatividade. O relatório do Conselho Nacional de Educação dizia que as aulas online não podiam ser uma repetição daquilo que existia presencialmente. Deram-se saltos digitais mas falta dar o salto da criatividade. Como é que se dá este salto numa altura em que está toda a gente cansada?
É difícil. E não é só o salto da criatividade. A própria formação não pode ser só digital. Acho que esta solução também veio reforçar muito o modelo um bocadinho antigo, o modelo muito transmissivo, muito centrado nos conteúdos. Mas mesmo nesse modelo, não o pondo em causa, sabemos que tem que ser mais pequeno, mais adequado à idade dos miúdos - se no presencial tem que ser adequado, à distância ainda mais. O tempo de atenção deles não é o mesmo. Tem que haver muito mais estímulos, um feedback muito mais imediato, tem que se estar sempre em cima, criar muitas interacções. Tem que se dar tempo para pensar. Tudo isso são conhecimentos de uma literacia digital.
Estes novos instrumentos digitais são muito úteis. São ferramentas que podem ser utilizadas na escola em ensino presencial e que são um excelente instrumento. Temos que pensar um bocadinho para quê. Para saber procurar informação, ter pensamento crítico para avaliar se aquela informação é fidedigna ou não. Depois, estes instrumentos também são muito bons para criar redes, contactos. E há outra dimensão que acho que é fantástica: a de qualquer pessoa poder produzir as suas mensagens...
Imagina uma escola mista, no futuro, que tenha as duas componentes?
Quase que diria que tenho a certeza de que a digitalização vai ficar como ferramenta de um ensino presencial que pode ser muito mais activo e muito mais autonomizante. O professor pode combinar com o aluno no início da semana as aprendizagens que vai fazer nessa semana e o miúdo fica responsável por essas aprendizagens. E no fim da semana faz o balanço com o professor. E isso tenho a certeza de que a digitalização da escola vai fornecer um instrumento precioso para que a pedagogia seja mais activa e criativa.
Mas isso também exige uma formação ainda maior dos professores?
A tal formação mediática que não é só técnica, não é só didáctica.
E quem fica para trás neste salto? Já falámos aqui das desigualdades... Como recuperar os que estão para ficar para trás nestes dois anos lectivos?
A preocupação é muito séria, esse é o problema grande. Mas acho que não é incompatível com estes métodos mais activos de utilizar o digital. Com mais ou menos atrasos, há-de se chegar ao apetrechamento tecnológico.
A parte da rede já me parece mais complicada, mas espero que se resolva. Esta parte de formação é a escola que vai ter que proporcionar. E é melhor para todos. Permite trazer questões polémicas - para as quais ainda não há uma resposta única e consensual - e acho que isso para os miúdos em condições mais vulneráveis é mais interessante. Pode agarrá-los mais. É menos normativo, não é uma coisa autoritária, é um saber em construção. Eles podem participar muito mais.
Está optimista? Mesmo que este tempo tenha deixado alguns em situação de desigualdade, é recuperável? Ou vamos precisar de um plano de recuperação para os que ficaram para trás por questões económicas e sociais?
Sim. Eu acho que é recuperar “quem”. Vamos tentar chegar a esses miúdos. Uma das coisas que se revelaram neste período é a falta que fazem os outros profissionais das escolas que não são só os professores. Os assistentes sociais, os mediadores, os psicólogos. Mas é preciso que haja profissionais que vão tentar encontrar esses meninos que desapareceram, que não mais foram vistos nas escolas. É obvio que é uma prioridade tentar reencontrá-los.
Aumentou o abandono escolar?
Ainda não se sabe. Os resultados de 2020 foram muito positivos, mas se calhar só mais tarde é que se vai saber os efeitos negativos sobre o abandono.
Estávamos com uma evolução positiva relativamente ao abandono escolar...
Óptima.
Os números do INE demonstram o número mais baixo de sempre de abandono escolar...
É fantástico, 8%, mais baixo que a meta da União Europeia.
Mas a pandemia pode inverter esta situação?
Exactamente. Confesso que estava à espera que nestes últimos dados isso já se sentisse. Mas não. Mas certamente que se vai sentir nos próximos anos.
É preciso ir à procura desses alunos... mas como se recupera mesmo aqueles que não desapareceram do radar da escola?
Havia um projecto que me parecia muito interessante e que não pôde ser posto em prática com a pandemia, que eram as tutorias ou mentorias, com miúdos mais velhos ligados a miúdos mais novos. Havia esse projecto como forma de combater o insucesso escolar e as dificuldades de aprendizagem. Espero que se possa retomar quando isto passar. Não sei se mesmo com a pandemia não se poderá utilizar... É uma questão de condições sanitárias seguras. Acho que é uma via muito interessante.
Às vezes critica-se muito as escolas que têm alunos de várias idades na mesma turma, sobretudo no primeiro ciclo. Mas as investigações em psicologia social mostravam que não era muito negativo. Claro que depende da organização. Mas o facto de um miúdo de menor desenvolvimento estar a trabalhar com um miúdo um bocadinho mais desenvolvido era muito positivo para os dois. Para o mais pequeno, porque o outro lhe tornava as coisas mais acessíveis do que um adulto. E muito positivo para o que ensina. A gente sabe isso: não há melhor maneira de aprender do que ter que ensinar. Essa ideia das tutorias, além de ser muito solidária, também é eficaz.
Já são cerca de 40% os alunos do secundário que estão na via profissional. Isto tem ajudado a combater o abandono escolar?
Tem ajudado imenso. Dedicámos a segunda parte do último “Estado da Educação”, que é uma espécie de retrato do sistema educativo do ano anterior, ao ensino profissional ou às vias de dupla certificação. De facto, a conclusão a que chegámos quando vimos a redução do abandono escolar e o aumento das vias da dupla certificação é que uma coisa contribuiu muito para a outra.
Uma curiosidade: tive a visita de uma investigadora japonesa que veio a Portugal para descobrir como é que nós tínhamos conseguido reduzir tão depressa o abandono escolar. E fizemos um levantamento: o aumento da escolaridade obrigatória, a diminuição do insucesso escolar - uma pessoa que está em insucesso tem mais tendência para abandonar. O próprio alargamento do pré-escolar. Sabe-se que tem influências a longo prazo no percurso educativo. Há vários factores, mas as vias de dupla certificação foram um dos factores mais importantes.
Mas o ensino profissional não é ainda visto como o “parente pobre"?
Ainda é, mas eu acho que devia ser visto como o parente rico. Os alunos que escolhem essa via ficam com o diploma do ensino secundário e um diploma profissional reconhecido a nível europeu.
A presidente do Conselho Nacional da Educação, Maria Emília Brederode Santos, teme que a pandemia venha a ter efeitos no abandono escolar.
Maria Emília Brederode Santos, a presidente do Conselho Nacional da Educação, acha que a escola digital, mesmo quando voltarem as aulas presenciais, veio para ficar. Na entrevista PÚBLICO/Renascença, que pode ouvir esta quinta-feira às 23 horas, está preocupada com as consequências no abandono escolar.
Já é possível identificar as consequências da pandemia na educação?
Provavelmente já é possível identificar alguns efeitos. Acho que nos demos todos conta do agravamento das desigualdades. De certa maneira, “descobrimos” as desigualdades que já existiam. Foram desocultadas, até parece que ninguém tinha dado por elas antes. Isso tornou-se muito mais evidente agora. Mas além dessa desocultação de uma coisa que já existia, é evidente que também nos demos conta que isto veio agravar as desigualdades. Há uma brecha digital, uma desigualdade perante os dispositivos digitais. Há muitas pessoas que não têm computador, nem acesso à rede. Não basta distribuir computadores, é preciso assegurar que a rede chegue a toda a parte. E sabemos que fora das grandes cidades, a rede não chega a toda a parte. Essa conclusão já se pode tirar. Mas há outras, que até podem ser positivas. Acho que nos demos conta de uma muito maior valorização da educação. Toda a gente está de acordo que a educação é muito importante e é um direito que é preciso assegurar. E eu não tenho a certeza de que, aqui há uns anos, a população portuguesa valorizasse tanto a educação. Isso com a pandemia revelou-se mais.
E há uma revalorização da educação como, pelo menos, equilibrador social, já que nem sempre é elevador.
Sim. E também uma valorização da escola, nas suas várias funções. De repente, a escola não é só para aprender e ensinar. Desempenha imensos papéis. Penso que aquilo de que os miúdos sentem mais falta é o seu papel na socialização, que é muito importante, porque eles também aprendem muito uns com os outros. Mas também o papel de “misturador” social, apesar do nosso urbanismo não ser muito conducente a isso.
Mas há uma maior mistura social do que noutras instituições e um papel de coesão da sociedade. E há um papel de custódia, que está a ser muito evidente com os miúdos pequeninos, para que os pais que estão a trabalhar saibam que há um sítio onde podem deixar os filhos em segurança e a aprender. Um papel também de âncora social, por exemplo, para imigrantes que chegam e não conhecem nada, a escola é um meio de contacto.
Mas não foi um ano perdido, pelo menos para os mais desfavorecidos?
Num contexto mais favorecido, não é desgraça nenhuma que a pessoa perca uns meses. Está a aprender outras coisas igualmente importantes. Mas para as crianças de meios desfavorecidos e em que os pais não possam estar a apoiar é muitíssimo mais grave. Há outro papel que a escola tem, felizmente para poucas crianças: as que são vítimas de maus-tratos ou de negligência e para quem a escola é o único contacto possível para saírem de uma situação terrível. E isso também nesta pandemia se revelou bastante. Daí que neste reconfinamento tenha havido o cuidado de abrir as escolas de acolhimento, que da outra vez foram só para filhos de profissionais da linha da frente e desta vez foram também abertas a crianças com necessidades específicas e a crianças sinalizadas pelas CCPJ. Abriram-se também às crianças em risco de abandono escolar. Acho que isso é positivo mas tem que se ter imenso cuidado... se o pôr essas crianças na escola não é estigmatizante para elas.
E eu gostava de apelar à comunicação social para se ter imenso cuidado quando se trata desse assunto. Estou a dizer isto porque saiu esta semana num jornal de referência uma fotografia na primeira página de uma criança em cima de um computador em que se dizia o nome, a idade, a escola que frequentava... É importante que se chame a atenção para que esta realidade existe, mas tem que se ter imenso cuidado para não dar esses factores de identificação porque podem ser muito estigmatizantes para a criança.
Mas esta revolução que aconteceu vai para um ano mostrou que a escola é capaz de dar o salto ou ainda ficou longe do que era necessário?
Sei que a escola foi muito capaz de responder quando ninguém estava à espera. Não havia computadores para todos, as pessoas não estavam formadas. E apesar de tudo houve um movimento muito grande da escola e da sociedade para conseguirem arranjar computadores ou outros meios - podem não ser computadores, os telemóveis são um meio fantástico e os miúdos usam mais. Houve movimentos muito interessantes de professores em rede. Os professores de informática ajudaram os outros. Foi um salto fantástico e a escola mostrou muito bem que era capaz de lidar com o imprevisto e com situações muito complicadas. Agora, claro que também houve problemas, desde os meninos que não se conseguiram encontrar, que deixaram de ter contacto com as escolas, até ao equipamento que não chega para todos, a rede...
Respondeu-se muito bem ao imprevisto, mas ao previsível já não se respondeu tão bem?
Passámos da fase heróica, em que todos respondemos o melhor possível e em que havia uma ilusão de que ia ser rápida, a uma fase de um grande cansaço, uma grande exaustão...
Mas isso não explica porque é que os computadores não chegaram a tempo...
Não sei dizer porque é que os computadores não chegaram a tempo. Acho que todos podíamos fazer melhor. Aqui não há boas soluções. Creio que era o Pacheco Pereira que dizia que caímos numa “indústria da indignação”. Há um excesso de indignação e insatisfação. Andamos à procura de culpados e de bodes expiatórios. Pessoalmente, não queria ir por aí.
Uma das coisas que dizia que se podia fazer melhor era a criatividade. O relatório do Conselho Nacional de Educação dizia que as aulas online não podiam ser uma repetição daquilo que existia presencialmente. Deram-se saltos digitais mas falta dar o salto da criatividade. Como é que se dá este salto numa altura em que está toda a gente cansada?
É difícil. E não é só o salto da criatividade. A própria formação não pode ser só digital. Acho que esta solução também veio reforçar muito o modelo um bocadinho antigo, o modelo muito transmissivo, muito centrado nos conteúdos. Mas mesmo nesse modelo, não o pondo em causa, sabemos que tem que ser mais pequeno, mais adequado à idade dos miúdos - se no presencial tem que ser adequado, à distância ainda mais. O tempo de atenção deles não é o mesmo. Tem que haver muito mais estímulos, um feedback muito mais imediato, tem que se estar sempre em cima, criar muitas interacções. Tem que se dar tempo para pensar. Tudo isso são conhecimentos de uma literacia digital.
Estes novos instrumentos digitais são muito úteis. São ferramentas que podem ser utilizadas na escola em ensino presencial e que são um excelente instrumento. Temos que pensar um bocadinho para quê. Para saber procurar informação, ter pensamento crítico para avaliar se aquela informação é fidedigna ou não. Depois, estes instrumentos também são muito bons para criar redes, contactos. E há outra dimensão que acho que é fantástica: a de qualquer pessoa poder produzir as suas mensagens...
Imagina uma escola mista, no futuro, que tenha as duas componentes?
Quase que diria que tenho a certeza de que a digitalização vai ficar como ferramenta de um ensino presencial que pode ser muito mais activo e muito mais autonomizante. O professor pode combinar com o aluno no início da semana as aprendizagens que vai fazer nessa semana e o miúdo fica responsável por essas aprendizagens. E no fim da semana faz o balanço com o professor. E isso tenho a certeza de que a digitalização da escola vai fornecer um instrumento precioso para que a pedagogia seja mais activa e criativa.
Mas isso também exige uma formação ainda maior dos professores?
A tal formação mediática que não é só técnica, não é só didáctica.
E quem fica para trás neste salto? Já falámos aqui das desigualdades... Como recuperar os que estão para ficar para trás nestes dois anos lectivos?
A preocupação é muito séria, esse é o problema grande. Mas acho que não é incompatível com estes métodos mais activos de utilizar o digital. Com mais ou menos atrasos, há-de se chegar ao apetrechamento tecnológico.
A parte da rede já me parece mais complicada, mas espero que se resolva. Esta parte de formação é a escola que vai ter que proporcionar. E é melhor para todos. Permite trazer questões polémicas - para as quais ainda não há uma resposta única e consensual - e acho que isso para os miúdos em condições mais vulneráveis é mais interessante. Pode agarrá-los mais. É menos normativo, não é uma coisa autoritária, é um saber em construção. Eles podem participar muito mais.
Está optimista? Mesmo que este tempo tenha deixado alguns em situação de desigualdade, é recuperável? Ou vamos precisar de um plano de recuperação para os que ficaram para trás por questões económicas e sociais?
Sim. Eu acho que é recuperar “quem”. Vamos tentar chegar a esses miúdos. Uma das coisas que se revelaram neste período é a falta que fazem os outros profissionais das escolas que não são só os professores. Os assistentes sociais, os mediadores, os psicólogos. Mas é preciso que haja profissionais que vão tentar encontrar esses meninos que desapareceram, que não mais foram vistos nas escolas. É obvio que é uma prioridade tentar reencontrá-los.
Aumentou o abandono escolar?
Ainda não se sabe. Os resultados de 2020 foram muito positivos, mas se calhar só mais tarde é que se vai saber os efeitos negativos sobre o abandono.
Estávamos com uma evolução positiva relativamente ao abandono escolar...
Óptima.
Os números do INE demonstram o número mais baixo de sempre de abandono escolar...
É fantástico, 8%, mais baixo que a meta da União Europeia.
Mas a pandemia pode inverter esta situação?
Exactamente. Confesso que estava à espera que nestes últimos dados isso já se sentisse. Mas não. Mas certamente que se vai sentir nos próximos anos.
É preciso ir à procura desses alunos... mas como se recupera mesmo aqueles que não desapareceram do radar da escola?
Havia um projecto que me parecia muito interessante e que não pôde ser posto em prática com a pandemia, que eram as tutorias ou mentorias, com miúdos mais velhos ligados a miúdos mais novos. Havia esse projecto como forma de combater o insucesso escolar e as dificuldades de aprendizagem. Espero que se possa retomar quando isto passar. Não sei se mesmo com a pandemia não se poderá utilizar... É uma questão de condições sanitárias seguras. Acho que é uma via muito interessante.
Às vezes critica-se muito as escolas que têm alunos de várias idades na mesma turma, sobretudo no primeiro ciclo. Mas as investigações em psicologia social mostravam que não era muito negativo. Claro que depende da organização. Mas o facto de um miúdo de menor desenvolvimento estar a trabalhar com um miúdo um bocadinho mais desenvolvido era muito positivo para os dois. Para o mais pequeno, porque o outro lhe tornava as coisas mais acessíveis do que um adulto. E muito positivo para o que ensina. A gente sabe isso: não há melhor maneira de aprender do que ter que ensinar. Essa ideia das tutorias, além de ser muito solidária, também é eficaz.
Já são cerca de 40% os alunos do secundário que estão na via profissional. Isto tem ajudado a combater o abandono escolar?
Tem ajudado imenso. Dedicámos a segunda parte do último “Estado da Educação”, que é uma espécie de retrato do sistema educativo do ano anterior, ao ensino profissional ou às vias de dupla certificação. De facto, a conclusão a que chegámos quando vimos a redução do abandono escolar e o aumento das vias da dupla certificação é que uma coisa contribuiu muito para a outra.
Uma curiosidade: tive a visita de uma investigadora japonesa que veio a Portugal para descobrir como é que nós tínhamos conseguido reduzir tão depressa o abandono escolar. E fizemos um levantamento: o aumento da escolaridade obrigatória, a diminuição do insucesso escolar - uma pessoa que está em insucesso tem mais tendência para abandonar. O próprio alargamento do pré-escolar. Sabe-se que tem influências a longo prazo no percurso educativo. Há vários factores, mas as vias de dupla certificação foram um dos factores mais importantes.
Mas o ensino profissional não é ainda visto como o “parente pobre"?
Ainda é, mas eu acho que devia ser visto como o parente rico. Os alunos que escolhem essa via ficam com o diploma do ensino secundário e um diploma profissional reconhecido a nível europeu.
8.2.21
Agora com Internet e computador, Samuel já pode fazer mais de três fichas por dia
Cristiana Faria Moreira (Texto) e Nuno Ferreira Santos (Fotografia), in Público on-line
Depois de um ano em que muito ficou para trás, Samuel tem finalmente um computador e Internet para ter aulas à distância, ainda que isso vá ser um grande desafio para ele e para a mãe. Em Lisboa, há alunos que vão recomeçar a escola sem o equipamento prometido, que não está a ser distribuído de forma uniforme em todas as escolas e agrupamentos.
Se Samuel pudesse decidir, o mundo seria feito de Matemática. Contas de somar, subtrair, multiplicar ou dividir a revestir as paredes de todos os prédios, numa espécie de quebra-cabeças constante. “E nós podíamos desenhar com uma caneta o resultado das contas.” E, quem sabe, cantarolar a cantiga que a mãe lhe ensinou para ajudar nas contas de Matemática. “Sete e sete são 14 com mais sete 21, tenho sete namoradas e não gosto de nenhuma.”
Samuel tem oito anos e anda no 2.º ano na Escola Básica Luísa Ducla Soares, no centro de Lisboa. É também naquela zona, a escassos metros da Avenida da Liberdade, que vive com a mãe numa casa pequenina, com paredes enegrecidas e tomadas pela humidade, onde, normalmente, não tem computador nem Internet. Foi assim que passou os últimos meses do ano lectivo passado. Sem aulas online, só com as fichas que ia fazendo com a ajuda da mãe e com o “Estudo em Casa” na RTP. Foi assim que aprendeu a fazer contas, mas deixando o Português um bocadinho mais para trás.
O regresso às aulas esta segunda-feira será, desta vez, diferente: já há lá em casa um computador com Internet para ajudar ao estudo. Agora, a preocupação da mãe, Ana Paula Carvalho, é outra: “Se a gente mal tem dinheiro para sobreviver, e se ele me estraga o computador, como é que vou ter dinheiro para pagar?”
Quando, em Março do ano passado, as escolas encerraram para tentar controlar o “bicho” foi “fixe porque assim já não tinha de fazer trabalhos”, recorda Samuel. Sem computador e sem Internet, mãe e filho acabaram por ficar votados à sua sorte, sem grandes contactos com a professora. A solução era ir acompanhando as aulas do “Estudo em Casa”, na RTP, mas depressa Samuel sentiu que eram difíceis de acompanhar. “Eles falavam muito rápido e eu sentia-me para trás.” Acabou por firmar “um contrato” com a mãe: fazer “três folhas por dia,” que é como quem diz três fichas — uma de Português, uma de Matemática e outra de Estudo do Meio — dos cadernos de actividades que tinha lá por casa.
Era o primeiro ano de escola de Samuel, que já adiara a entrada por um ano por ser hiperactivo e ter défice de atenção. Apesar de gostar muito de Matemática, a “coisa mais difícil do mundo”, de ser “o mais rápido da turma”, o Português é que ainda não o convence. Sabe ler “mais ou menos”, ainda com muita dificuldade. “Mas posso dizer como se escreve ‘lupa’. É um ‘l’ e um ‘u’ e um ‘p’ e um ‘a’. Lu-pa.”
Neste ano que passou, muita coisa ficou para trás, por aprender. Como na escola juntaram na mesma turma alunos do 1.º e do 2.º ano, a dificuldade de alguns exercícios vai-lhe causando ansiedade. “Isto para eles é muita confusão”, observa Ana Paula, que carrega ainda o peso de sentir que não o consegue ajudar nas matérias por ser tudo “muito diferente” do seu tempo de escola.
Faltam computadores
Na semana passada, a professora ligou para dar a boa notícia de que, pelo menos por agora, teria um computador com Internet para seguir as aulas. No entanto, é apenas um empréstimo até ao regresso das aulas presenciais. E, por isso, a mãe logo se encheu de preocupação. “Tenho um papel para assinar que diz que a responsabilidade fica sobre mim. Mas se a gente tem o azar de o computador cair… ele, como é assim um bocado despistado, vai a correr, leva tudo à frente e eu não tenho hipótese de pagar”, sofre Ana Paula por antecipação.
Samuel é um dos cerca de 300 alunos do Agrupamento de Escolas Passos Manuel — que integra a EB Luísa Ducla Soares — que já recebeu um computador para este regresso ao ensino à distância. Neste agrupamento com cerca de 1400 estudantes, a prioridade na entrega dos equipamentos que foram disponibilizados pelo Ministério da Educação, no âmbito do programa Escola Digital, foi para os cerca de 500 que são beneficiários da Acção Social Escolar (ASE), escalões A e B. Entre esses, os mais velhos, do ensino secundário, tiveram prioridade, mas já chegaram equipamentos a alunos do 1.º ao 12.º ano, diz o director João Paulo Leonardo. No entanto, nem todos vão arrancar o ano lectivo com computadores, admite o responsável.
Essa distribuição é, na verdade, mais complexa do que se imagina, uma vez que “há famílias com três e quatro filhos” e, apesar de os alunos que têm ASE terem prioridade, há quem não beneficie desses apoios e também não tenha um computador com que possa ter aulas online. E também é preciso chegar a essas famílias, diz o director. Por isso, o levantamento feito pelas escolas no ano passado relativo às necessidades das famílias teve de voltar a ser feito. “Tivemos de voltar a passar o filtro por professores e famílias. Andamos à procura delas”, diz. É o caso de Sílvia Canoa, que está em teletrabalho, apenas com o computador que a empresa lhe disponibilizou, e que não sabe como há-de fazer para conciliar com as aulas de Guilherme, colega de turma de Samuel. Requereu esse apoio à escola, mas ainda não sabe se conseguirá tê-lo.
Entregues os 300 que recebeu, para já, do Ministério da Educação, o agrupamento tem agora cerca de mais 100 para distribuir, que fazem parte do conjunto de equipamentos que a Câmara de Lisboa comprou em Maio do ano passado. O município entregou então 3319 computadores portáteis e routers aos agrupamentos, para que os distribuíssem pelos alunos do 3.º e 4.º ano, beneficiários da ASE. Ao Agrupamento de Escolas Passos Manuel foram entregues cerca de 100. A maior parte dos equipamentos foi devolvida no final do ano lectivo. Serão agora, numa segunda fase, distribuídos por quem ainda não tem. “Vamos fazer o esforço máximo possível para atender a todos. Neste momento, é escolher o pedaço do braço que podemos cortar”, lamenta o director.
“Vai haver recreio, mãe?”
Perante a demora na chegada dos equipamentos do programa Escola Digital, alguns municípios e juntas de freguesia avançaram com a compra de computadores e routers para que os alunos pudessem estar preparados para este regresso às aulas. No caso de Lisboa, a câmara sublinha que “a distribuição de computadores é da responsabilidade do Ministério da Educação” e que já no ano passado adquiriu equipamentos que foram então colocados “à disposição das escolas”, que os estão “a distribuir autonomamente”, conforme as necessidades que identificam no terreno.
Em resposta ao PÚBLICO, o gabinete do vereador da Educação, Manuel Grilo, refere que a distribuição desses equipamentos tem estado a acontecer “diariamente, mas não de forma uniforme em todas as escolas e agrupamentos”: “Há alguns que já têm quase todos os computadores e routers previstos, enquanto outros continuam a aguardar parte desse equipamento.”
Além do risco de estragar o computador emprestado pela escola, Ana Paula preocupa-se por não saber trabalhar com a máquina. “Sei que vai exigir muito porque aquilo é chinês para mim. Ele [o Samuel], se calhar, desenrasca-se melhor do que eu.” Ao mesmo tempo pensa nos miúdos que vivem com os avós, pessoas mais velhas que nunca tocaram num aparelho daqueles: “Como é que vão ensinar os netos? É um bocado complicado.”
Mãe e filho estão também curiosos por saber como vão correr as aulas, se a professora conseguirá dar a matéria. “É que nós, às vezes, portamo-nos mal e ela põe-nos de castigo. Mas aqui não vai pôr, porque estamos no computador”, ri-se Samuel, também ansioso por reencontrar os colegas, mesmo separados por um ecrã. Ainda não sabe bem como será, mas já vai imaginando: “Como aquilo deve estar dividido em imagens para eu ver os meus colegas, vou conseguir ver o Guilherme, que é o meu melhor amigo.” Se é para ter aulas “a sério”, há ainda uma dúvida que o está a deixar ansioso: “Vai haver recreio, mãe?”
Depois de um ano em que muito ficou para trás, Samuel tem finalmente um computador e Internet para ter aulas à distância, ainda que isso vá ser um grande desafio para ele e para a mãe. Em Lisboa, há alunos que vão recomeçar a escola sem o equipamento prometido, que não está a ser distribuído de forma uniforme em todas as escolas e agrupamentos.
Se Samuel pudesse decidir, o mundo seria feito de Matemática. Contas de somar, subtrair, multiplicar ou dividir a revestir as paredes de todos os prédios, numa espécie de quebra-cabeças constante. “E nós podíamos desenhar com uma caneta o resultado das contas.” E, quem sabe, cantarolar a cantiga que a mãe lhe ensinou para ajudar nas contas de Matemática. “Sete e sete são 14 com mais sete 21, tenho sete namoradas e não gosto de nenhuma.”
Samuel tem oito anos e anda no 2.º ano na Escola Básica Luísa Ducla Soares, no centro de Lisboa. É também naquela zona, a escassos metros da Avenida da Liberdade, que vive com a mãe numa casa pequenina, com paredes enegrecidas e tomadas pela humidade, onde, normalmente, não tem computador nem Internet. Foi assim que passou os últimos meses do ano lectivo passado. Sem aulas online, só com as fichas que ia fazendo com a ajuda da mãe e com o “Estudo em Casa” na RTP. Foi assim que aprendeu a fazer contas, mas deixando o Português um bocadinho mais para trás.
O regresso às aulas esta segunda-feira será, desta vez, diferente: já há lá em casa um computador com Internet para ajudar ao estudo. Agora, a preocupação da mãe, Ana Paula Carvalho, é outra: “Se a gente mal tem dinheiro para sobreviver, e se ele me estraga o computador, como é que vou ter dinheiro para pagar?”
Quando, em Março do ano passado, as escolas encerraram para tentar controlar o “bicho” foi “fixe porque assim já não tinha de fazer trabalhos”, recorda Samuel. Sem computador e sem Internet, mãe e filho acabaram por ficar votados à sua sorte, sem grandes contactos com a professora. A solução era ir acompanhando as aulas do “Estudo em Casa”, na RTP, mas depressa Samuel sentiu que eram difíceis de acompanhar. “Eles falavam muito rápido e eu sentia-me para trás.” Acabou por firmar “um contrato” com a mãe: fazer “três folhas por dia,” que é como quem diz três fichas — uma de Português, uma de Matemática e outra de Estudo do Meio — dos cadernos de actividades que tinha lá por casa.
Era o primeiro ano de escola de Samuel, que já adiara a entrada por um ano por ser hiperactivo e ter défice de atenção. Apesar de gostar muito de Matemática, a “coisa mais difícil do mundo”, de ser “o mais rápido da turma”, o Português é que ainda não o convence. Sabe ler “mais ou menos”, ainda com muita dificuldade. “Mas posso dizer como se escreve ‘lupa’. É um ‘l’ e um ‘u’ e um ‘p’ e um ‘a’. Lu-pa.”
Neste ano que passou, muita coisa ficou para trás, por aprender. Como na escola juntaram na mesma turma alunos do 1.º e do 2.º ano, a dificuldade de alguns exercícios vai-lhe causando ansiedade. “Isto para eles é muita confusão”, observa Ana Paula, que carrega ainda o peso de sentir que não o consegue ajudar nas matérias por ser tudo “muito diferente” do seu tempo de escola.
Faltam computadores
Na semana passada, a professora ligou para dar a boa notícia de que, pelo menos por agora, teria um computador com Internet para seguir as aulas. No entanto, é apenas um empréstimo até ao regresso das aulas presenciais. E, por isso, a mãe logo se encheu de preocupação. “Tenho um papel para assinar que diz que a responsabilidade fica sobre mim. Mas se a gente tem o azar de o computador cair… ele, como é assim um bocado despistado, vai a correr, leva tudo à frente e eu não tenho hipótese de pagar”, sofre Ana Paula por antecipação.
Samuel é um dos cerca de 300 alunos do Agrupamento de Escolas Passos Manuel — que integra a EB Luísa Ducla Soares — que já recebeu um computador para este regresso ao ensino à distância. Neste agrupamento com cerca de 1400 estudantes, a prioridade na entrega dos equipamentos que foram disponibilizados pelo Ministério da Educação, no âmbito do programa Escola Digital, foi para os cerca de 500 que são beneficiários da Acção Social Escolar (ASE), escalões A e B. Entre esses, os mais velhos, do ensino secundário, tiveram prioridade, mas já chegaram equipamentos a alunos do 1.º ao 12.º ano, diz o director João Paulo Leonardo. No entanto, nem todos vão arrancar o ano lectivo com computadores, admite o responsável.
Essa distribuição é, na verdade, mais complexa do que se imagina, uma vez que “há famílias com três e quatro filhos” e, apesar de os alunos que têm ASE terem prioridade, há quem não beneficie desses apoios e também não tenha um computador com que possa ter aulas online. E também é preciso chegar a essas famílias, diz o director. Por isso, o levantamento feito pelas escolas no ano passado relativo às necessidades das famílias teve de voltar a ser feito. “Tivemos de voltar a passar o filtro por professores e famílias. Andamos à procura delas”, diz. É o caso de Sílvia Canoa, que está em teletrabalho, apenas com o computador que a empresa lhe disponibilizou, e que não sabe como há-de fazer para conciliar com as aulas de Guilherme, colega de turma de Samuel. Requereu esse apoio à escola, mas ainda não sabe se conseguirá tê-lo.
Entregues os 300 que recebeu, para já, do Ministério da Educação, o agrupamento tem agora cerca de mais 100 para distribuir, que fazem parte do conjunto de equipamentos que a Câmara de Lisboa comprou em Maio do ano passado. O município entregou então 3319 computadores portáteis e routers aos agrupamentos, para que os distribuíssem pelos alunos do 3.º e 4.º ano, beneficiários da ASE. Ao Agrupamento de Escolas Passos Manuel foram entregues cerca de 100. A maior parte dos equipamentos foi devolvida no final do ano lectivo. Serão agora, numa segunda fase, distribuídos por quem ainda não tem. “Vamos fazer o esforço máximo possível para atender a todos. Neste momento, é escolher o pedaço do braço que podemos cortar”, lamenta o director.
“Vai haver recreio, mãe?”
Perante a demora na chegada dos equipamentos do programa Escola Digital, alguns municípios e juntas de freguesia avançaram com a compra de computadores e routers para que os alunos pudessem estar preparados para este regresso às aulas. No caso de Lisboa, a câmara sublinha que “a distribuição de computadores é da responsabilidade do Ministério da Educação” e que já no ano passado adquiriu equipamentos que foram então colocados “à disposição das escolas”, que os estão “a distribuir autonomamente”, conforme as necessidades que identificam no terreno.
Em resposta ao PÚBLICO, o gabinete do vereador da Educação, Manuel Grilo, refere que a distribuição desses equipamentos tem estado a acontecer “diariamente, mas não de forma uniforme em todas as escolas e agrupamentos”: “Há alguns que já têm quase todos os computadores e routers previstos, enquanto outros continuam a aguardar parte desse equipamento.”
Além do risco de estragar o computador emprestado pela escola, Ana Paula preocupa-se por não saber trabalhar com a máquina. “Sei que vai exigir muito porque aquilo é chinês para mim. Ele [o Samuel], se calhar, desenrasca-se melhor do que eu.” Ao mesmo tempo pensa nos miúdos que vivem com os avós, pessoas mais velhas que nunca tocaram num aparelho daqueles: “Como é que vão ensinar os netos? É um bocado complicado.”
Mãe e filho estão também curiosos por saber como vão correr as aulas, se a professora conseguirá dar a matéria. “É que nós, às vezes, portamo-nos mal e ela põe-nos de castigo. Mas aqui não vai pôr, porque estamos no computador”, ri-se Samuel, também ansioso por reencontrar os colegas, mesmo separados por um ecrã. Ainda não sabe bem como será, mas já vai imaginando: “Como aquilo deve estar dividido em imagens para eu ver os meus colegas, vou conseguir ver o Guilherme, que é o meu melhor amigo.” Se é para ter aulas “a sério”, há ainda uma dúvida que o está a deixar ansioso: “Vai haver recreio, mãe?”
São precisos 300 mil computadores para o ensino à distância, segundo os directores
Samuel Silva, in Público on-line
Famílias perceberam que “não chega ter um computador em casa” e houve mais pedidos de equipamentos do que no primeiro confinamento
Há pelo menos 300 mil estudantes que não têm um computador próprio para poder acompanhar as próximas semanas de aulas à distância, aponta uma estimativa feita pela Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Este número tem por base os inquéritos sobre a acessibilidade digital que têm sido feitos pelas escolas para preparar o regresso do ensino remoto, a partir de segunda-feira. Há mais pedidos de equipamentos do que no primeiro confinamento.
Em Março, quando as escolas tiveram, pela primeira vez, que a adoptar o regime de ensino à distância, a mesma ANDE estimava que seriam 200 mil os alunos do básico e secundário que não tinham um computador com acesso à Internet para acompanhar as aulas. Seria expectável que, quase 11 meses volvidos, e depois de no 1.º período já terem sido entregues 100 mil equipamentos no âmbito do programa Escola Digital, o cenário fosse mais favorável.
Os números avançados pela ANDE apontam para um mínimo de 300 mil estudantes sem equipamento informático em casa, mas o número pode até ser maior e aproximar-se dos 350 mil, antecipa o presidente daquela associação de directores de escolas, Manuel Pereira. A aprendizagem que, tanto as escolas como as famílias, fizeram nos últimos meses sobre a forma como pode funcionar o ensino remoto explica esta evolução.
Desta vez, a generalidade dos directores não perguntou se havia um computador com ligação à Internet em casa, antes quis saber se cada aluno tinha um equipamento com o qual pudesse acompanhar as aulas síncronas e ter acesso aos conteúdos disponibilizados online pelos professores.
As próprias famílias perceberam que “não chega tem um computador em casa”, afirma Manuel Pereira. Os pedidos de empréstimo de equipamento que chegaram às escolas aumentaram em comparação com o que aconteceu em Março. “Numa família de cinco, com três filhos na escola e os dois pais em teletrabalho, todos precisam de computador, caso contrário a situação é complicada”, ilustra o presidente da ANDE.
Os 300 mil computadores que a ANDE diz serem necessários para as próximas semanas aproximam-se do número de equipamentos já garantidos pelo Ministério da Educação – a compra de mais 15 mil unidades aprovada esta semana eleva para 350 mil os portáteis adquiridos.
O ministério “prevê que [os computadores] comecem a ser distribuídos no segundo período lectivo”. Ou seja, até ao final de Março. A maior ordem de compra (três contratos, que totalizam cerca de 240 mil equipamentos), que foi recentemente tornada pública, tem como prazo de entrega 25 de Março.
O primeiro-ministro chegou a anunciar, em Abril, que “o acesso universal à rede e aos equipamentos a todos os alunos dos ensinos básico e secundário” estava assegurado no início do ano lectivo, mas depressa o Governo reviu a promessa e anunciou que o programa Escola Digital seria faseado.
O Ministério da Educação definiu então que a prioridade na entrega seria dada aos alunos carenciados. Foi isso que aconteceu com os 100 mil equipamentos já entregues no ensino secundário. Os computadores a ser entregues no 2.º período têm também como destinatários os beneficiários de escalão A e B da Acção Social Escolar.
Entre os computadores entregues ou já comprados, somam-se 450 mil equipamentos, que serão suficientes para todos os alunos carenciados – cerca de 366 mil estudantes, segundo o relatório Estado da Educação 2019. Ou seja, depois de distribuídos estes portáteis, ainda vão sobrar cerca de 85 mil, permitindo iniciar a terceira fase de distribuição que abrange os restantes alunos.
Mas não são só os alunos carenciados a precisar de um computador com ligação à Internet, alerta Manuel Pereira: “Há famílias que não cumprem os critérios da Acção Social Escolar, mas que não têm possibilidade de comprar um equipamento que faz falta”. O presidente da ANDE lembra que “há outros problemas” além da falta de computadores, nomeadamente com a Internet que, em muitas zonas do país, “não existe ou não é boa”.
“Se amanhã todos tiverem os computadores em cima da secretária seria óptimo, mas não vai resolver tudo”, concorda o investigador da Nova School of Business and Economics Pedro Freitas. Nas casas de muitos alunos faltam também “as condições físicas e o acompanhamento adequado”, acrescenta Hugo Reis, investigador da Universidade Católica.
Estes dois economistas foram autores de um artigo, publicado no portal Iniciativa Educação na primeira fase da pandemia, em que apontavam que cerca de 50 mil alunos do ensino básico não teriam acesso à Internet a partir de casa. Essa estimativa tinha por base dados do Instituto Nacional de Estatística do final de 2019. A última actualização desse indicador, feita em Novembro, mostra que a proporção de famílias com filhos até aos 15 anos sem acesso à Internet baixou de 5,5% para 1,8%. Ou seja, apenas perto de 18 mil alunos do ensino básico continuam a não poder navegar a partir de casa.
Dados de uma investigação da Nova School of Business and Economics, de que faz parte Pedro Freitas, mostram também que houve um aumento no número de alunos com acesso a um computador com Internet em casa desde o início da pandemia. Em Março, 22% diziam não ter um equipamento com conectividade, o que corresponderia a cerca de 300 mil alunos do básico e secundário. Dois meses depois, este indicador baixou para 13% (quase 180 mil alunos). A amostra é, porém, relativamente pequena, tendo respondido ao inquérito em ambos os meses 356 professores.
Famílias perceberam que “não chega ter um computador em casa” e houve mais pedidos de equipamentos do que no primeiro confinamento
Há pelo menos 300 mil estudantes que não têm um computador próprio para poder acompanhar as próximas semanas de aulas à distância, aponta uma estimativa feita pela Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Este número tem por base os inquéritos sobre a acessibilidade digital que têm sido feitos pelas escolas para preparar o regresso do ensino remoto, a partir de segunda-feira. Há mais pedidos de equipamentos do que no primeiro confinamento.
Em Março, quando as escolas tiveram, pela primeira vez, que a adoptar o regime de ensino à distância, a mesma ANDE estimava que seriam 200 mil os alunos do básico e secundário que não tinham um computador com acesso à Internet para acompanhar as aulas. Seria expectável que, quase 11 meses volvidos, e depois de no 1.º período já terem sido entregues 100 mil equipamentos no âmbito do programa Escola Digital, o cenário fosse mais favorável.
Os números avançados pela ANDE apontam para um mínimo de 300 mil estudantes sem equipamento informático em casa, mas o número pode até ser maior e aproximar-se dos 350 mil, antecipa o presidente daquela associação de directores de escolas, Manuel Pereira. A aprendizagem que, tanto as escolas como as famílias, fizeram nos últimos meses sobre a forma como pode funcionar o ensino remoto explica esta evolução.
Desta vez, a generalidade dos directores não perguntou se havia um computador com ligação à Internet em casa, antes quis saber se cada aluno tinha um equipamento com o qual pudesse acompanhar as aulas síncronas e ter acesso aos conteúdos disponibilizados online pelos professores.
As próprias famílias perceberam que “não chega tem um computador em casa”, afirma Manuel Pereira. Os pedidos de empréstimo de equipamento que chegaram às escolas aumentaram em comparação com o que aconteceu em Março. “Numa família de cinco, com três filhos na escola e os dois pais em teletrabalho, todos precisam de computador, caso contrário a situação é complicada”, ilustra o presidente da ANDE.
Os 300 mil computadores que a ANDE diz serem necessários para as próximas semanas aproximam-se do número de equipamentos já garantidos pelo Ministério da Educação – a compra de mais 15 mil unidades aprovada esta semana eleva para 350 mil os portáteis adquiridos.
O ministério “prevê que [os computadores] comecem a ser distribuídos no segundo período lectivo”. Ou seja, até ao final de Março. A maior ordem de compra (três contratos, que totalizam cerca de 240 mil equipamentos), que foi recentemente tornada pública, tem como prazo de entrega 25 de Março.
O primeiro-ministro chegou a anunciar, em Abril, que “o acesso universal à rede e aos equipamentos a todos os alunos dos ensinos básico e secundário” estava assegurado no início do ano lectivo, mas depressa o Governo reviu a promessa e anunciou que o programa Escola Digital seria faseado.
O Ministério da Educação definiu então que a prioridade na entrega seria dada aos alunos carenciados. Foi isso que aconteceu com os 100 mil equipamentos já entregues no ensino secundário. Os computadores a ser entregues no 2.º período têm também como destinatários os beneficiários de escalão A e B da Acção Social Escolar.
Entre os computadores entregues ou já comprados, somam-se 450 mil equipamentos, que serão suficientes para todos os alunos carenciados – cerca de 366 mil estudantes, segundo o relatório Estado da Educação 2019. Ou seja, depois de distribuídos estes portáteis, ainda vão sobrar cerca de 85 mil, permitindo iniciar a terceira fase de distribuição que abrange os restantes alunos.
Mas não são só os alunos carenciados a precisar de um computador com ligação à Internet, alerta Manuel Pereira: “Há famílias que não cumprem os critérios da Acção Social Escolar, mas que não têm possibilidade de comprar um equipamento que faz falta”. O presidente da ANDE lembra que “há outros problemas” além da falta de computadores, nomeadamente com a Internet que, em muitas zonas do país, “não existe ou não é boa”.
“Se amanhã todos tiverem os computadores em cima da secretária seria óptimo, mas não vai resolver tudo”, concorda o investigador da Nova School of Business and Economics Pedro Freitas. Nas casas de muitos alunos faltam também “as condições físicas e o acompanhamento adequado”, acrescenta Hugo Reis, investigador da Universidade Católica.
Estes dois economistas foram autores de um artigo, publicado no portal Iniciativa Educação na primeira fase da pandemia, em que apontavam que cerca de 50 mil alunos do ensino básico não teriam acesso à Internet a partir de casa. Essa estimativa tinha por base dados do Instituto Nacional de Estatística do final de 2019. A última actualização desse indicador, feita em Novembro, mostra que a proporção de famílias com filhos até aos 15 anos sem acesso à Internet baixou de 5,5% para 1,8%. Ou seja, apenas perto de 18 mil alunos do ensino básico continuam a não poder navegar a partir de casa.
Dados de uma investigação da Nova School of Business and Economics, de que faz parte Pedro Freitas, mostram também que houve um aumento no número de alunos com acesso a um computador com Internet em casa desde o início da pandemia. Em Março, 22% diziam não ter um equipamento com conectividade, o que corresponderia a cerca de 300 mil alunos do básico e secundário. Dois meses depois, este indicador baixou para 13% (quase 180 mil alunos). A amostra é, porém, relativamente pequena, tendo respondido ao inquérito em ambos os meses 356 professores.
2.2.21
Estudantes voltam ao ensino à distância ainda sem tarifa social de internet
in o Observador
O acesso à conectividade em banda larga foi prometido para 2020, mas a tarifa social de acesso à internet não foi garantida. O Governo espera concluir processo “o mais brevemente possível”.
A partir de 8 de fevereiro, terminado o período de suspensão de atividades letivas nas escolas, alunos e professores vão voltar às aulas à distância. Mas as dificuldades em assegurar o acesso à internet e garantir aos estudantes um computador mantêm-se. Estas eram metas prometidas pelo Governo para 2020.
No que se refere à entrega de computadores, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, garantiu que vão começar a chegar às escolas mais 335 mil computadores, mas ainda não se sabe muito sobre a ajuda financeira para garantir a conectividade em banda larga aos estudantes. Questionado pelo jornal Público, o gabinete do secretário de Estado para a Transição Digital, André Azevedo, remeteu “qualquer comentário sobre a criação da tarifa social da Internet para momento oportuno e em coordenação com o Gabinete do SEAC”.
Ao mesmo jornal, o gabinete do Secretário de Estado Adjunto e das Comunicações (SEAC), Hugo Mendes, respondeu que “o Governo está a trabalhar para que a operacionalização da tarifa social de acesso a serviços de Internet, inscrita no Programa do XX Governo Constitucional, ocorra o mais brevemente possível, ao longo de 2021”.
Além da indefinição do Governo sobre os prazos em que tudo isto se processará, também ainda nada se sabe sobre o modelo de atribuição desta tarifa, mais concretamente quem serão os seus potenciais beneficiários, os critérios de elegibilidade e a forma de financiamento.
Também em declarações ao Público, a associação que representa os operadores das telecomunicações, a Apritel, lembrou que os “enormes benefícios” de “uma política social que visa garantir um acesso adequado à Internet de banda larga a todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica” alcança toda a economia e não apenas o sector das telecomunicações, pelo que o seu financiamento “deve ser assegurado por fundos públicos”.
De acordo com a Apritel, os operadores de telecomunicações desconhecem ainda as “características fundamentais” da tarifa social de internet que o Governo pretende criar, bem como “a sua articulação com outras políticas tão ou mais importantes para combater” o risco de exclusão digital de parte da população portuguesa.
O acesso à conectividade em banda larga foi prometido para 2020, mas a tarifa social de acesso à internet não foi garantida. O Governo espera concluir processo “o mais brevemente possível”.
A partir de 8 de fevereiro, terminado o período de suspensão de atividades letivas nas escolas, alunos e professores vão voltar às aulas à distância. Mas as dificuldades em assegurar o acesso à internet e garantir aos estudantes um computador mantêm-se. Estas eram metas prometidas pelo Governo para 2020.
No que se refere à entrega de computadores, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, garantiu que vão começar a chegar às escolas mais 335 mil computadores, mas ainda não se sabe muito sobre a ajuda financeira para garantir a conectividade em banda larga aos estudantes. Questionado pelo jornal Público, o gabinete do secretário de Estado para a Transição Digital, André Azevedo, remeteu “qualquer comentário sobre a criação da tarifa social da Internet para momento oportuno e em coordenação com o Gabinete do SEAC”.
Ao mesmo jornal, o gabinete do Secretário de Estado Adjunto e das Comunicações (SEAC), Hugo Mendes, respondeu que “o Governo está a trabalhar para que a operacionalização da tarifa social de acesso a serviços de Internet, inscrita no Programa do XX Governo Constitucional, ocorra o mais brevemente possível, ao longo de 2021”.
Além da indefinição do Governo sobre os prazos em que tudo isto se processará, também ainda nada se sabe sobre o modelo de atribuição desta tarifa, mais concretamente quem serão os seus potenciais beneficiários, os critérios de elegibilidade e a forma de financiamento.
Também em declarações ao Público, a associação que representa os operadores das telecomunicações, a Apritel, lembrou que os “enormes benefícios” de “uma política social que visa garantir um acesso adequado à Internet de banda larga a todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica” alcança toda a economia e não apenas o sector das telecomunicações, pelo que o seu financiamento “deve ser assegurado por fundos públicos”.
De acordo com a Apritel, os operadores de telecomunicações desconhecem ainda as “características fundamentais” da tarifa social de internet que o Governo pretende criar, bem como “a sua articulação com outras políticas tão ou mais importantes para combater” o risco de exclusão digital de parte da população portuguesa.
29.1.21
Directores preocupados com alunos que não têm condições para estudar em casa
Daniela Carmo, in Público on-line
Governo abre a porta a alterações nas datas de exames. “Existindo ajustamento será oportunamente anunciado”, disse o ministro da Educação.
Para os directores de escolas públicas e associações de pais o regresso ao ensino não presencial no próximo dia 8 de Fevereiro já era de esperar. Contudo, não é a possível falta equipamentos digitais que os preocupa mais, mas sim o facto de “alguns alunos não terem condições em casa”, em termos de ambiente familiar e de estudo, disse ao PÚBLICO Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Escolas Públicas (Andaep).
As escolas vão continuar encerradas até 5 de Fevereiro. E o ensino à distância regressa na segunda-feira seguinte. O anúncio foi feito pelo ministro da Educação e pela ministra do Estado e da Presidência, em conferência de imprensa, após reunião do Conselho de Ministros para decidir novas medidas de combate à pandemia. Depois de uma pausa lectiva de 15 dias, as aulas vão, assim, voltar a ser dadas online, desta vez com uma melhor preparação do que no ano lectivo passado, garante o Governo.
“Depois de termos distribuído mais de 100 mil computadores, de estarem mais 335 mil a caminho, de a sociedade civil se ter organizado, estamos naturalmente mais bem preparados”, assegurou Tiago Brandão Rodrigues. Apesar disso, reconheceu que há problemas logísticos relacionados com os computadores. A escassez de componentes tem criado dificuldades na indústria da tecnologia e os processos de exportação estão mais demorados, como efeito da pandemia, algo que se tem verificado também noutros países europeus.
A Andaep considera que esta é a falha mais visível do Governo. “No dia 9 de Abril, o primeiro-ministro prometeu que cada aluno ia ter um computador no arranque do ano lectivo e não cumpriu essa promessa porque só em Novembro ou Dezembro é que começaram a chegar às escolas os primeiros 100 mil computadores”, recorda Filinto Lima.
Apesar disso, e com os actuais números da pandemia no país, tanto os directores de escolas como a Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) concordam que o ensino à distância era “a solução possível neste momento”, como referiu ao PÚBLICO Jorge Ascenção, dirigente da Confap. Filinto Lima lembra, contudo, o que tem sido dito sobre o ensino à distância: ele acentua as desigualdades sociais.
Associações de pais pedem ensino misto em três semanas
Ainda que o Governo não tenha feito previsões relativas ao regresso às aulas presenciais — as medidas serão reavaliadas a cada 15 dias de forma a determinar se há a possibilidade de reabrir as aulas presenciais para alguns alunos —, Jorge Ascenção espera que dentro de três semanas já seja possível ter um regime de ensino misto. “Era bom que os mais pequenos já pudessem voltar [às escolas] com um ensino misto”, exemplificou.
Também o calendário escolar foi alterado. Nesse sentido, a interrupção lectiva do Carnaval (15, 16 e 17 de Fevereiro) será afinal de actividade escolar, “presencial ou não”, ainda não está decidido, confirmou Tiago Brandão Rodrigues. Já as férias da Páscoa vão ser mais curtas, “pelo menos o dia 25 e 26 de Março serão de actividades lectivas”. Por fim, será utilizada ainda mais uma semana no Verão para compensar e recuperar matéria. No que toca aos exames e às provas de aferição, o ministro da Educação assumiu que ainda não há datas fechadas e que uma decisão final está dependente da evolução da pandemia. “Existindo ajustamento será oportunamente anunciado”, disse. As creches vão continuar encerradas nos próximos 15 dias.
Com o regresso da escola à distância, os alunos que têm como encarregados de educação os trabalhadores de serviços essenciais vão ter as escolas abertas, tal como acontece actualmente.
No regime a vigorar a partir do próximo dia 8 aplicam-se as regras previstas para o modelo não presencial aprovadas em Julho do ano passado em que se mantêm as respostas sociais em curso (apoios terapêuticos por exemplo) e a disponibilização de refeições a alunos da acção social escolar (só na quarta-feira foram servidas mais de 20 mil refeições, disse o ministro). As novas medidas decididas esta quinta-feira fazem parte do novo período de estado de emergência que irá vigorar a partir das 00h de 31 de Janeiro.
Texto editado por Andreia Sanches
Governo abre a porta a alterações nas datas de exames. “Existindo ajustamento será oportunamente anunciado”, disse o ministro da Educação.
Para os directores de escolas públicas e associações de pais o regresso ao ensino não presencial no próximo dia 8 de Fevereiro já era de esperar. Contudo, não é a possível falta equipamentos digitais que os preocupa mais, mas sim o facto de “alguns alunos não terem condições em casa”, em termos de ambiente familiar e de estudo, disse ao PÚBLICO Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Escolas Públicas (Andaep).
As escolas vão continuar encerradas até 5 de Fevereiro. E o ensino à distância regressa na segunda-feira seguinte. O anúncio foi feito pelo ministro da Educação e pela ministra do Estado e da Presidência, em conferência de imprensa, após reunião do Conselho de Ministros para decidir novas medidas de combate à pandemia. Depois de uma pausa lectiva de 15 dias, as aulas vão, assim, voltar a ser dadas online, desta vez com uma melhor preparação do que no ano lectivo passado, garante o Governo.
“Depois de termos distribuído mais de 100 mil computadores, de estarem mais 335 mil a caminho, de a sociedade civil se ter organizado, estamos naturalmente mais bem preparados”, assegurou Tiago Brandão Rodrigues. Apesar disso, reconheceu que há problemas logísticos relacionados com os computadores. A escassez de componentes tem criado dificuldades na indústria da tecnologia e os processos de exportação estão mais demorados, como efeito da pandemia, algo que se tem verificado também noutros países europeus.
A Andaep considera que esta é a falha mais visível do Governo. “No dia 9 de Abril, o primeiro-ministro prometeu que cada aluno ia ter um computador no arranque do ano lectivo e não cumpriu essa promessa porque só em Novembro ou Dezembro é que começaram a chegar às escolas os primeiros 100 mil computadores”, recorda Filinto Lima.
Apesar disso, e com os actuais números da pandemia no país, tanto os directores de escolas como a Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) concordam que o ensino à distância era “a solução possível neste momento”, como referiu ao PÚBLICO Jorge Ascenção, dirigente da Confap. Filinto Lima lembra, contudo, o que tem sido dito sobre o ensino à distância: ele acentua as desigualdades sociais.
Associações de pais pedem ensino misto em três semanas
Ainda que o Governo não tenha feito previsões relativas ao regresso às aulas presenciais — as medidas serão reavaliadas a cada 15 dias de forma a determinar se há a possibilidade de reabrir as aulas presenciais para alguns alunos —, Jorge Ascenção espera que dentro de três semanas já seja possível ter um regime de ensino misto. “Era bom que os mais pequenos já pudessem voltar [às escolas] com um ensino misto”, exemplificou.
Também o calendário escolar foi alterado. Nesse sentido, a interrupção lectiva do Carnaval (15, 16 e 17 de Fevereiro) será afinal de actividade escolar, “presencial ou não”, ainda não está decidido, confirmou Tiago Brandão Rodrigues. Já as férias da Páscoa vão ser mais curtas, “pelo menos o dia 25 e 26 de Março serão de actividades lectivas”. Por fim, será utilizada ainda mais uma semana no Verão para compensar e recuperar matéria. No que toca aos exames e às provas de aferição, o ministro da Educação assumiu que ainda não há datas fechadas e que uma decisão final está dependente da evolução da pandemia. “Existindo ajustamento será oportunamente anunciado”, disse. As creches vão continuar encerradas nos próximos 15 dias.
Com o regresso da escola à distância, os alunos que têm como encarregados de educação os trabalhadores de serviços essenciais vão ter as escolas abertas, tal como acontece actualmente.
No regime a vigorar a partir do próximo dia 8 aplicam-se as regras previstas para o modelo não presencial aprovadas em Julho do ano passado em que se mantêm as respostas sociais em curso (apoios terapêuticos por exemplo) e a disponibilização de refeições a alunos da acção social escolar (só na quarta-feira foram servidas mais de 20 mil refeições, disse o ministro). As novas medidas decididas esta quinta-feira fazem parte do novo período de estado de emergência que irá vigorar a partir das 00h de 31 de Janeiro.
Texto editado por Andreia Sanches
26.1.21
Ministério da Educação garante que computadores começam a ser distribuídos no segundo período
Samuel Silva, in Público on-line
Há mais 335 mil equipamentos comprados, a juntar aos 100 mil já distribuídos no 1.º período. Número é suficiente para todos os alunos carenciados.
Os 335 mil computadores que o Ministério da Educação (ME) anunciou já ter comprado, no âmbito do programa Escola Digital, vão começar a chegar ainda no segundo período, assegura a tutela. Estes equipamentos juntam-se aos 100 mil que foram entregues no 1.º período e serão suficientes para todos os alunos carenciados, a quem foi dada prioridade na distribuição.
Nas últimas semanas foram dadas duas ordens de compra – uma de 260 mil unidades, ainda em Dezembro, outra de 75 mil, anunciada há duas semanas –, que ainda aguardam entrega por parte dos fornecedores. A escassez de componentes tem criado dificuldades na indústria da tecnologia, assim como na automóvel. Os processos de exportação também estão mais demorados, como efeito da pandemia.
O ME garante que a “contratualização” com os fornecedores “prevê que [os computadores] comecem a ser distribuídos no 2.º período lectivo”. Ou seja, até ao final de Março. Os alunos deviam ir de férias de Páscoa a 24 de Março, mas a data vai ser protelada por uma semana, devido às mudanças no calendário escolar na sequência da suspensão das aulas.
Estes 335 computadores juntam-se aos 100 mil já entregues durante o 1.º período. Esta remessa permitiu dotar de equipamentos a generalidade dos alunos do ensino secundário que são beneficiários de acção social escolar. Em algumas regiões sobraram umas centenas de dispositivos, que já puderam ser destinados a alunos do ensino básico.
O primeiro-ministro chegou a anunciar, em Abril, que o ano lectivo ia começar com “o acesso universal à rede e aos equipamentos a todos os alunos dos ensinos básico e secundário” assegurado, mas depressa o Governo reviu a promessa e anunciou que o programa Escola Digital seria faseado. O Ministério da Educação definiu então que a prioridade na entrega seria dada aos alunos carenciados, começando pelos mais velhos e terminando nos do 1.º ciclo.
Entre os computadores entregues ou já comprados, somam-se 435 mil equipamentos, que serão suficientes para todos os alunos com Acção Social Escolar. Segundo os dados mais recentes, publicados no relatório Estado da Educação 2019, há cerca de 366 mil estudantes carenciados no ensino obrigatório. Ou seja, depois de distribuídos estes portáteis, ainda vão sobrar cerca de 70 mil, permitindo iniciar a terceira fase de distribuição que abrange os restantes alunos.
Texto actualizado às 8.00. ME esclareceu através do gabinete de comunicação que nem todos os computadores podem chegar até ao final de Março.
Os 335 mil computadores que o Ministério da Educação (ME) anunciou já ter comprado, no âmbito do programa Escola Digital, vão começar a chegar ainda no segundo período, assegura a tutela. Estes equipamentos juntam-se aos 100 mil que foram entregues no 1.º período e serão suficientes para todos os alunos carenciados, a quem foi dada prioridade na distribuição.
Nas últimas semanas foram dadas duas ordens de compra – uma de 260 mil unidades, ainda em Dezembro, outra de 75 mil, anunciada há duas semanas –, que ainda aguardam entrega por parte dos fornecedores. A escassez de componentes tem criado dificuldades na indústria da tecnologia, assim como na automóvel. Os processos de exportação também estão mais demorados, como efeito da pandemia.
O ME garante que a “contratualização” com os fornecedores “prevê que [os computadores] comecem a ser distribuídos no 2.º período lectivo”. Ou seja, até ao final de Março. Os alunos deviam ir de férias de Páscoa a 24 de Março, mas a data vai ser protelada por uma semana, devido às mudanças no calendário escolar na sequência da suspensão das aulas.
Estes 335 computadores juntam-se aos 100 mil já entregues durante o 1.º período. Esta remessa permitiu dotar de equipamentos a generalidade dos alunos do ensino secundário que são beneficiários de acção social escolar. Em algumas regiões sobraram umas centenas de dispositivos, que já puderam ser destinados a alunos do ensino básico.
O primeiro-ministro chegou a anunciar, em Abril, que o ano lectivo ia começar com “o acesso universal à rede e aos equipamentos a todos os alunos dos ensinos básico e secundário” assegurado, mas depressa o Governo reviu a promessa e anunciou que o programa Escola Digital seria faseado. O Ministério da Educação definiu então que a prioridade na entrega seria dada aos alunos carenciados, começando pelos mais velhos e terminando nos do 1.º ciclo.
Entre os computadores entregues ou já comprados, somam-se 435 mil equipamentos, que serão suficientes para todos os alunos com Acção Social Escolar. Segundo os dados mais recentes, publicados no relatório Estado da Educação 2019, há cerca de 366 mil estudantes carenciados no ensino obrigatório. Ou seja, depois de distribuídos estes portáteis, ainda vão sobrar cerca de 70 mil, permitindo iniciar a terceira fase de distribuição que abrange os restantes alunos.
Texto actualizado às 8.00. ME esclareceu através do gabinete de comunicação que nem todos os computadores podem chegar até ao final de Março.
25.1.21
Regresso do ensino à distância preocupa dirigentes escolares
Patrícia Carvalho, in Público on-line
A Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares enviou às escolas uma comunicação com “instruções e recomendações” para este período.
Com as aulas suspensas em todos os níveis de ensino até ao dia 5 de Fevereiro, a pergunta que paira neste momento sobre os responsáveis pelas escolas é: o que vai acontecer a seguir? Desde o início do ano que os estabelecimentos de ensino estão preparados para, caso seja necessário, regressarem ao ensino à distância, mas essa é uma solução a que os dirigentes escolares preferiam não ter de voltar.
“Este tipo de ensino à distância, se formos para ele, é muito injusto, muito desigual e não tem só que ver com os computadores, mas com as condições de trabalho que estes jovens têm em casa e que em muitos casos não são nenhumas”, diz Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. “Em todas as circunstâncias, o ensino presencial é melhor de longe e não há nada que o substitua. Não gostaríamos que os mais novos ficassem em casa, são crianças que precisam do ensino presencial”, defende também Manuel Pereira, da Associação Nacional de Dirigentes Escolares.
Na semana passada, depois do anúncio do primeiro-ministro António Costa de que todos os estabelecimentos de ensino iriam encerrar durante duas semanas, face à evolução da pandemia, a Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares, enviou às escolas uma comunicação com “instruções e recomendações” para este período. Entre elas, recordava-se o papel das escolas de acolhimento, indicava-se que o calendário escolar poderá vir a sofrer “alterações”, para “compensar e apoiar os alunos” e recomendava-se que “tendo as escolas, na preparação do ano lectivo, previsto o funcionamento em regime não presencial, este deve estar preparado para poder ser activado”. Nada que tenha surpreendido Filinto Lima ou Manuel Pereira.
“As escolas estão preparadas para isso desde o início de Setembro. Nessa altura preparámos três cenários: ensino presencial, misto e à distância. E poderíamos avançar na semana seguinte [para qualquer um]. Este documento serve para nos recordar que há altíssimas probabilidades de avançarmos a 8 de Fevereiro para o ensino à distância”, diz Manuel Pereira. Filinto Lima é da mesma opinião: “Nós pensávamos todos que o primeiro-ministro, na semana passada, ia dizer que a partir desta segunda-feira as escolas iam passar para o regime não presencial. Era disso que estávamos à espera, não da suspensão da actividade, por isso estávamos todos preparados”, afirma.
Os dois dirigentes aguardam, agora, para ver o que será decidido no final desta interrupção das aulas. Salvaguardando que a decisão final deverá ser ditada pelo que disserem “os cientistas e outros especialistas” sobre a evolução da pandemia, nenhum gostaria de ver o ensino à distância regressar nos mesmos moldes do ano passado, quando todos os níveis de ensino foram enviados para casa. Para ambos, se possível, essa modalidade deveria ser restringida aos alunos do secundário.
“Por um lado, temos o problema dos computadores. Foram entregues cem mil e estão adjudicados mais 335 mil. Se for apenas o secundário a ficar em casa, o problema está resolvido, porque os alunos carenciados desse nível de ensino já receberam computadores. Mas o problema nem é só esse. Muitos alunos, mesmo tendo agora um computador, não têm sequer um espaço digno para o colocar e para estudar, nem um ambiente familiar salutar para ouvir as lições ou a garantia de que vão ter uma refeição quente para almoçar. Isto é que são as desigualdades de que falamos. São estes miúdos mais débeis que, com ou sem computador, são prejudicados”, insiste Filinto Lima.
Manuel Pereira também relembra que, mesmo a situação estando “bem melhor” do que em Março do ano passado, ao nível do acesso a material informático, “continua a haver franjas de crianças e jovens a que não foi possível dar resposta e zonas do país onde a rede é fraca ou quase não existe”, o que poderá aumentar as desigualdades entre os alunos.
Pior do que isso, refere, é mesmo tirar os mais novos das escolas. “No caso dos alunos mais novos, do 1.º ciclo, pararmos agora no quilómetro 10 não significa que iremos recomeçar nesse ponto. É sempre preciso voltar atrás. Os alunos do 1.º e do 2.º ano estão agora no processo de desenvolvimento e mecanização da escrita e leitura. Esta paragem de duas semanas é uma verdadeira catástrofe, vai ser preciso recomeçar praticamente do início. Espero que se decida [depois do dia 5 de Fevereiro] que os mais novos podem estar na escola”, defende.
A Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares enviou às escolas uma comunicação com “instruções e recomendações” para este período.
Com as aulas suspensas em todos os níveis de ensino até ao dia 5 de Fevereiro, a pergunta que paira neste momento sobre os responsáveis pelas escolas é: o que vai acontecer a seguir? Desde o início do ano que os estabelecimentos de ensino estão preparados para, caso seja necessário, regressarem ao ensino à distância, mas essa é uma solução a que os dirigentes escolares preferiam não ter de voltar.
“Este tipo de ensino à distância, se formos para ele, é muito injusto, muito desigual e não tem só que ver com os computadores, mas com as condições de trabalho que estes jovens têm em casa e que em muitos casos não são nenhumas”, diz Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. “Em todas as circunstâncias, o ensino presencial é melhor de longe e não há nada que o substitua. Não gostaríamos que os mais novos ficassem em casa, são crianças que precisam do ensino presencial”, defende também Manuel Pereira, da Associação Nacional de Dirigentes Escolares.
Na semana passada, depois do anúncio do primeiro-ministro António Costa de que todos os estabelecimentos de ensino iriam encerrar durante duas semanas, face à evolução da pandemia, a Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares, enviou às escolas uma comunicação com “instruções e recomendações” para este período. Entre elas, recordava-se o papel das escolas de acolhimento, indicava-se que o calendário escolar poderá vir a sofrer “alterações”, para “compensar e apoiar os alunos” e recomendava-se que “tendo as escolas, na preparação do ano lectivo, previsto o funcionamento em regime não presencial, este deve estar preparado para poder ser activado”. Nada que tenha surpreendido Filinto Lima ou Manuel Pereira.
“As escolas estão preparadas para isso desde o início de Setembro. Nessa altura preparámos três cenários: ensino presencial, misto e à distância. E poderíamos avançar na semana seguinte [para qualquer um]. Este documento serve para nos recordar que há altíssimas probabilidades de avançarmos a 8 de Fevereiro para o ensino à distância”, diz Manuel Pereira. Filinto Lima é da mesma opinião: “Nós pensávamos todos que o primeiro-ministro, na semana passada, ia dizer que a partir desta segunda-feira as escolas iam passar para o regime não presencial. Era disso que estávamos à espera, não da suspensão da actividade, por isso estávamos todos preparados”, afirma.
Os dois dirigentes aguardam, agora, para ver o que será decidido no final desta interrupção das aulas. Salvaguardando que a decisão final deverá ser ditada pelo que disserem “os cientistas e outros especialistas” sobre a evolução da pandemia, nenhum gostaria de ver o ensino à distância regressar nos mesmos moldes do ano passado, quando todos os níveis de ensino foram enviados para casa. Para ambos, se possível, essa modalidade deveria ser restringida aos alunos do secundário.
“Por um lado, temos o problema dos computadores. Foram entregues cem mil e estão adjudicados mais 335 mil. Se for apenas o secundário a ficar em casa, o problema está resolvido, porque os alunos carenciados desse nível de ensino já receberam computadores. Mas o problema nem é só esse. Muitos alunos, mesmo tendo agora um computador, não têm sequer um espaço digno para o colocar e para estudar, nem um ambiente familiar salutar para ouvir as lições ou a garantia de que vão ter uma refeição quente para almoçar. Isto é que são as desigualdades de que falamos. São estes miúdos mais débeis que, com ou sem computador, são prejudicados”, insiste Filinto Lima.
Manuel Pereira também relembra que, mesmo a situação estando “bem melhor” do que em Março do ano passado, ao nível do acesso a material informático, “continua a haver franjas de crianças e jovens a que não foi possível dar resposta e zonas do país onde a rede é fraca ou quase não existe”, o que poderá aumentar as desigualdades entre os alunos.
Pior do que isso, refere, é mesmo tirar os mais novos das escolas. “No caso dos alunos mais novos, do 1.º ciclo, pararmos agora no quilómetro 10 não significa que iremos recomeçar nesse ponto. É sempre preciso voltar atrás. Os alunos do 1.º e do 2.º ano estão agora no processo de desenvolvimento e mecanização da escrita e leitura. Esta paragem de duas semanas é uma verdadeira catástrofe, vai ser preciso recomeçar praticamente do início. Espero que se decida [depois do dia 5 de Fevereiro] que os mais novos podem estar na escola”, defende.
28.12.20
Ministério testa aprendizagens de 30 mil alunos no início do 2.º período
Samuel Silva, in Público on-line
Estudo inédito vai perceber impactos da suspensão das aulas sobre os conhecimentos de Matemática, Ciências e Leitura, envolvendo estudantes do 3.º, 6.º e 9.º anos.
Cerca de 30 mil alunos do ensino básico vão ser testados no início do 2.º período para perceber de que forma a suspensão das aulas, durante o ano lectivo passado, afectou as suas aprendizagens. Não se trata de um exame nem de uma prova de aferição, mas de um estudo, pedido pelo Ministério da Educação (ME), que envolve alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos. O objectivo é dar informação às escolas para que possam ajudar os alunos a recuperar as matérias atrasadas.
O Diagnóstico de Aferição das Aprendizagens – que arranca a 6 de Janeiro, dois dias depois do regresso às aulas, após as férias – será feito em moldes semelhantes aos de provas internacionais como o PISA (Programme for International Student Assessment) ou o TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study). É testada uma amostra da população escolar e são avaliadas “literacias transversais”. As questões que serão colocadas aos estudantes têm por base competências que estão previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, em dimensões como linguagens e textos, raciocínio e resolução de problemas, pensamento crítico e pensamento criativo ou ainda saber científico, técnico e tecnológico.
Este estudo nacional, que tinha sido anunciado pelo ME em Julho, quando apresentou o plano de regresso às aulas depois da suspensão motivada pela pandemia, vai focar-se em três áreas: Matemática, Ciências e Leitura e Informações. Será feito um único teste, dividido em três partes, uma para cada disciplina, sendo dedicados 30 minutos a cada tarefa, com intervalos entre cada uma. No final, os estudantes respondem também a um questionário de contexto, onde se pretende recolher dados sobre a forma como cada escola lidou com o ensino à distância.
O teste diagnóstico está desenhado para “tirar uma fotografia do estado das aprendizagens”, avança ao PÚBLICO o presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), Luís Pereira dos Santos, a quem o ME entregou a responsabilidade de preparar o estudo diagnóstico, que é inédito em Portugal.
Os alunos vão ser testados até 22 de Janeiro. Ou seja, durante as três primeiras semanas do 2.º período lectivo. As escolas terão margem para estabelecer os dias em que cada turma vai responder ao teste. O diagnóstico não implica que todos respondam ao mesmo tempo, como acontece com os exames nacionais, desde logo porque os alunos não terão acesso a um enunciado em papel. As tarefas são respondidas online, através de um computador. Além disso, o sistema informático define aleatoriamente as questões apresentadas a cada estudante.
Resultados conhecidos em Março
Os resultados serão divulgados através de um relatório público, que deverá ser conhecido em Março. Os alunos serão divididos por níveis de desempenho, à semelhança do que acontece com os estudos internacionais como o PISA ou o TIMSS. A intenção é permitir às escolas e ao próprio ME, “tomar decisões relativamente às literacias que estejam em maior défice”, avança Pereira dos Santos.
Essas aprendizagens podem ser recuperadas “durante este ano e também no próximo”, defende, mas a questão é especialmente crítica para os alunos do 9.º ano, que, no final do ano lectivo, têm provas finais a Matemática e a Português. Os resultados do diagnóstico das aprendizagens “ainda vêm a tempo de permitir aos professores, no 3.º período, trabalhar mais intensamente alguma parte do currículo”, acredita o presidente do Iave.
Vão participar no estudo 30 mil alunos, 10 mil por cada um dos anos de escolaridade em que este será realizado (3.º, 6.º e 9.º anos). São, grosso modo, os mesmos estudantes que, no ano passado não puderam realizar as provas de aferição (no 2.º, 5.º e 8.º anos) – que, tal como as provas finais do 9.º ano, foram canceladas no ano passado, como consequência da pandemia. O teste vai ser aplicado em 154 agrupamentos públicos (que totalizam 1247 estabelecimentos de ensino) do continente, e outras 79 escolas nos Açores e Madeira, bem como 102 colégios. A escolha da amostra teve em conta três aspectos, de modo a manter a representatividade da população escolar: o número de alunos por região (NUT II), os que frequentam escolas públicas e privadas e ainda os estudantes com Acção Social Escolar.
O teste de diagnóstico pedido pelo ME esteve previsto para o 1.º período e chegou a ter as duas primeiras semanas de Dezembro previstas para a sua realização, mas acabou por ser adiado para Janeiro. Isso aconteceu, por um lado, porque o Iave decidiu fazer alterações à amostra inicialmente definida, optando por incluir menos turmas de cada escola, de modo a ter mais estabelecimentos de ensino a participar no estudo. Por outro lado, foi resultado da decisão do Governo de encerrar as escolas nas vésperas dos feriados do início deste mês, que reduziu o tempo disponível nas escolas, numa fase em que as atenções de alunos e professores estavam já centradas nas avaliações de final de período.
Estudo inédito vai perceber impactos da suspensão das aulas sobre os conhecimentos de Matemática, Ciências e Leitura, envolvendo estudantes do 3.º, 6.º e 9.º anos.
Cerca de 30 mil alunos do ensino básico vão ser testados no início do 2.º período para perceber de que forma a suspensão das aulas, durante o ano lectivo passado, afectou as suas aprendizagens. Não se trata de um exame nem de uma prova de aferição, mas de um estudo, pedido pelo Ministério da Educação (ME), que envolve alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos. O objectivo é dar informação às escolas para que possam ajudar os alunos a recuperar as matérias atrasadas.
O Diagnóstico de Aferição das Aprendizagens – que arranca a 6 de Janeiro, dois dias depois do regresso às aulas, após as férias – será feito em moldes semelhantes aos de provas internacionais como o PISA (Programme for International Student Assessment) ou o TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study). É testada uma amostra da população escolar e são avaliadas “literacias transversais”. As questões que serão colocadas aos estudantes têm por base competências que estão previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, em dimensões como linguagens e textos, raciocínio e resolução de problemas, pensamento crítico e pensamento criativo ou ainda saber científico, técnico e tecnológico.
Este estudo nacional, que tinha sido anunciado pelo ME em Julho, quando apresentou o plano de regresso às aulas depois da suspensão motivada pela pandemia, vai focar-se em três áreas: Matemática, Ciências e Leitura e Informações. Será feito um único teste, dividido em três partes, uma para cada disciplina, sendo dedicados 30 minutos a cada tarefa, com intervalos entre cada uma. No final, os estudantes respondem também a um questionário de contexto, onde se pretende recolher dados sobre a forma como cada escola lidou com o ensino à distância.
O teste diagnóstico está desenhado para “tirar uma fotografia do estado das aprendizagens”, avança ao PÚBLICO o presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), Luís Pereira dos Santos, a quem o ME entregou a responsabilidade de preparar o estudo diagnóstico, que é inédito em Portugal.
Os alunos vão ser testados até 22 de Janeiro. Ou seja, durante as três primeiras semanas do 2.º período lectivo. As escolas terão margem para estabelecer os dias em que cada turma vai responder ao teste. O diagnóstico não implica que todos respondam ao mesmo tempo, como acontece com os exames nacionais, desde logo porque os alunos não terão acesso a um enunciado em papel. As tarefas são respondidas online, através de um computador. Além disso, o sistema informático define aleatoriamente as questões apresentadas a cada estudante.
Resultados conhecidos em Março
Os resultados serão divulgados através de um relatório público, que deverá ser conhecido em Março. Os alunos serão divididos por níveis de desempenho, à semelhança do que acontece com os estudos internacionais como o PISA ou o TIMSS. A intenção é permitir às escolas e ao próprio ME, “tomar decisões relativamente às literacias que estejam em maior défice”, avança Pereira dos Santos.
Essas aprendizagens podem ser recuperadas “durante este ano e também no próximo”, defende, mas a questão é especialmente crítica para os alunos do 9.º ano, que, no final do ano lectivo, têm provas finais a Matemática e a Português. Os resultados do diagnóstico das aprendizagens “ainda vêm a tempo de permitir aos professores, no 3.º período, trabalhar mais intensamente alguma parte do currículo”, acredita o presidente do Iave.
Vão participar no estudo 30 mil alunos, 10 mil por cada um dos anos de escolaridade em que este será realizado (3.º, 6.º e 9.º anos). São, grosso modo, os mesmos estudantes que, no ano passado não puderam realizar as provas de aferição (no 2.º, 5.º e 8.º anos) – que, tal como as provas finais do 9.º ano, foram canceladas no ano passado, como consequência da pandemia. O teste vai ser aplicado em 154 agrupamentos públicos (que totalizam 1247 estabelecimentos de ensino) do continente, e outras 79 escolas nos Açores e Madeira, bem como 102 colégios. A escolha da amostra teve em conta três aspectos, de modo a manter a representatividade da população escolar: o número de alunos por região (NUT II), os que frequentam escolas públicas e privadas e ainda os estudantes com Acção Social Escolar.
O teste de diagnóstico pedido pelo ME esteve previsto para o 1.º período e chegou a ter as duas primeiras semanas de Dezembro previstas para a sua realização, mas acabou por ser adiado para Janeiro. Isso aconteceu, por um lado, porque o Iave decidiu fazer alterações à amostra inicialmente definida, optando por incluir menos turmas de cada escola, de modo a ter mais estabelecimentos de ensino a participar no estudo. Por outro lado, foi resultado da decisão do Governo de encerrar as escolas nas vésperas dos feriados do início deste mês, que reduziu o tempo disponível nas escolas, numa fase em que as atenções de alunos e professores estavam já centradas nas avaliações de final de período.
23.11.20
Que futuro para o ensino pós-pandemia? Governantes e especialistas procuram respostas
Nuno Rafael Gomes, in Público on-line
A conferência internacional online organizada pela Virtual Educa acontece nesta segunda e terça-feira. Ministro da Educação será um dos oradores. Especialistas prevêem modelos de ensino “híbridos” e personalizáveis, apontando ainda que o acesso à Internet deve ser gratuito na educação.
Uma escola não é, por si só, apenas um edifício: por detrás das paredes, “há cadeiras, mesas, letreiros com indicações, quadros”. Por isso, “o e-learning não é só dar um computador, estabelecer conectividade e dar aulas” — especialmente com as alterações que a pandemia da covid-19 trouxe à rotina de milhões de estudantes e professores espalhados pelo mundo, numa adaptação forçada e a “diferentes velocidades”. Mas, afinal, que hábitos de ensino e aprendizagem, iniciados durante o confinamento, permanecerão após a pandemia? E que preocupações devemos ter?
No “Fórum Global — Educação Conectada”, organizado pela Virtual Educa, governantes europeus e latino-americanos, empresas, investigadores e pedagogos procurarão responder a (e reflectir sobre) estas questões. A conferência virtual está marcada para estas segunda e terça-feira e substituiu o Congresso Global: o evento estava pensado para decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, participará na sessão “As políticas educativas na Europa”. A ele juntar-se-á o vice-presidente da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, e a ministra da Educação de Espanha, Isabel Celaá. O painel fica completo com Francesc Pedró, director do IESALC (Instituto de Educação Superior para América Latina e Caribe), da UNESCO.
Para Adelino Sousa, director executivo da organização, que estabelece a comparação entre edifícios e e-learning, “espera-se mais” do processo de digitalização do ensino. “O Virtual Educa fala há 20 anos sobre a importância da tecnologia. E agora, mais do que nunca, é uma necessidade falarmos sobre isto”, aponta. Muito porque as escolas “não tiveram tempo para se adaptar” ao salto tecnológico agora exigido.
Já Rui Grilo, director do sector de Educação da Microsoft para a Europa Ocidental, diz que a pandemia evidenciou, também, um outro problema: “É demasiado fácil para os governos continuar a gerir a educação como se a revolução tecnológica não existisse, como se pudéssemos ensinar com os mesmos recursos dos anos 70.”
O director do sector de educação da Microsoft para a Europa Ocidental, que participará no painel “Ecossistemas educativos digitais”, acredita que há “instrumentos ignorados” na escola do século XXI — não é por acaso que “os alunos agarram no telemóvel e conseguem descobrir tudo e mais alguma coisa”. Assim, acrescenta Adelino Sousa, o mundo digital em contexto escolar “tem de ser activo e interactivo”, acompanhando os alunos. Mas, mais uma vez, não se pense o smartphone apenas como recurso: há camadas a explorar e “estamos só na superfície”. “Se fizermos isso, estaremos a abandonar esta geração, porque não a ajudamos a ter pensamento crítico face à informação encontrada. É fácil a qualquer pessoa difundir informação fidedigna ou publicar o que lhe passar pela cabeça”, nota Rui Grilo.
O acesso à Internet “não deve ser uma mensalidade”
Juntar “instrumentos mais inovadores” aos habituais livros e PDFs poderá ser o caminho para uma “aprendizagem mais personalizada” na própria sala de aula. Até porque “o contacto físico e presencial nas instituições de ensino” continua a ser importante para o “desenvolvimento social e cognitivo dos alunos”. “Numa situação normal, penso que não haverá razão para que as instituições não tenham essa componente”, opina Rui Grilo; ainda assim, “há uma tendência para encontrar modelos híbridos”.
E isso poderá passar por plataformas desenhadas estritamente para o ensino e não para consumo usual. “Se a escola deixar ao livre-arbítrio de cada professor utilizar a plataforma que quiser, a receita para o desastre é total”, indica.
Em Abril, a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) alertou para a possibilidade de se gerarem “perfis automáticos dos alunos, com informações sobre ‘as suas aptidões intelectuais e dados de saúde’”. Tal poderá “estigmatizar as crianças e jovens”, lia-se no conjunto de “orientações para utilização de tecnologias de suporte ao ensino à distância”. Para evitar essas situações, Rui Grilo sugere a utilização de plataformas “pensadas para organizações”, que requerem autenticação. Porque, “embora as pessoas reajam a momentos como este depressa, o melhor é escolher ferramentas adequadas”. E que permitam a consulta do livro de ponto ou a submissão dos trabalhos de casa, por exemplo.
Não chega definir metas, é preciso investir nas universidades
Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, espera que os discursos que venham a ser proferidos no “Fórum Global — Educação Conectada” se materializem em algo mais, que não sejam apenas “palavras inconsequentes”, mas se traduzam em “prioridades políticas” e “recursos humanos e financeiros”. A actual reitora do ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa) participará no painel “Reimaginar a Universidade”, marcado para terça-feira.
Para a reitora do ISCTE-IUL, a aposta na “qualificação dos recursos humanos” e na “robustez das instituições públicas” é essencial, uma vez que a pandemia revelou de “forma aguda” as “desigualdades, as fragilidades, os défices de recursos humanos” e os atrasos “nas tecnologias e nas questões do trabalho”.
Mas, nota Maria de Lurdes Rodrigues, “não chega estabelecer metas” para o ensino superior e apontar para a formação “de uma percentagem da população”. Isso “é muito importante, mas não pode estar descolado do investimento e dos recursos do Governo”, acrescenta. Para a ex-governante, as instituições de ensino superior são “simultaneamente conservadoras e inovadoras” — e é nessa justaposição que, ao mesmo tempo, se defendem e produzem “conhecimento e difusão de informação”. “O segredo da inovação está na sua grande autonomia e liberdade. E no pluralismo, na diversidade interna e na abertura ao mundo”, conclui.
Mas isso levanta mais uma questão: a igualdade de acesso à Internet. Jorge Sá Couto afirma que todas as tecnologias “devem ser equipadas com conectividade para que um aluno da aldeia mais remota possa usufruir dos mesmos conteúdos que um aluno do centro da cidade usufrui”.
Mais: “É importante que o acesso à Internet não implique uma mensalidade, mas que esteja incluída no projecto”, frisa o presidente da JP Inspiring Knowledge (JP.IK), que dividirá o painel com Rui Grilo e com Cigdem Ertem (directora global das vendas para o sector público da Intel). Ou seja, quando se pensam projectos pedagógicos que envolvem tecnologias, é preciso garantir que aos alunos não é dado apenas um computador ou um tablet, mas que quando os levam para casa vão conseguir usá-los. Adelino Sousa recorda, nesse contexto, uma conversa com Miguel Ángel Cañizales, ex-ministro da Educação do Panamá, um dos oradores do Fórum Global: “Se o direito à educação é universal, então há muitos países a violarem a sua constituição”.
O evento (basta a inscrição neste link) contará com participações de oradores de vários países, o que permitirá que se observem as diferentes velocidades na digitalização do ensino em territórios distintos. “Portugal e Espanha estão muito próximos nesse sentido”, diz o director executivo da Virtual Educa, referindo ainda que “ambos têm uma agenda para a transformação digital a nível da educação, da economia e do próprio governo, mas cada um com as suas especificidades”. “A União Europeia está a fazer um bom papel e os governos estão a seguir, mas é muito diferente do que se passa na América Latina”, aponta.
O congresso mundial, organizado pela Virtual Educa, adiado por duas vezes, será concretizado entre 3 e 5 de Março. No fórum online desta segunda e terça-feira, participarão ainda o secretário de Estado para a Transição Digital, André de Aragão Azevedo, bem como João Costa, secretário de Estado da Educação.
A conferência internacional online organizada pela Virtual Educa acontece nesta segunda e terça-feira. Ministro da Educação será um dos oradores. Especialistas prevêem modelos de ensino “híbridos” e personalizáveis, apontando ainda que o acesso à Internet deve ser gratuito na educação.
Uma escola não é, por si só, apenas um edifício: por detrás das paredes, “há cadeiras, mesas, letreiros com indicações, quadros”. Por isso, “o e-learning não é só dar um computador, estabelecer conectividade e dar aulas” — especialmente com as alterações que a pandemia da covid-19 trouxe à rotina de milhões de estudantes e professores espalhados pelo mundo, numa adaptação forçada e a “diferentes velocidades”. Mas, afinal, que hábitos de ensino e aprendizagem, iniciados durante o confinamento, permanecerão após a pandemia? E que preocupações devemos ter?
No “Fórum Global — Educação Conectada”, organizado pela Virtual Educa, governantes europeus e latino-americanos, empresas, investigadores e pedagogos procurarão responder a (e reflectir sobre) estas questões. A conferência virtual está marcada para estas segunda e terça-feira e substituiu o Congresso Global: o evento estava pensado para decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, participará na sessão “As políticas educativas na Europa”. A ele juntar-se-á o vice-presidente da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, e a ministra da Educação de Espanha, Isabel Celaá. O painel fica completo com Francesc Pedró, director do IESALC (Instituto de Educação Superior para América Latina e Caribe), da UNESCO.
Para Adelino Sousa, director executivo da organização, que estabelece a comparação entre edifícios e e-learning, “espera-se mais” do processo de digitalização do ensino. “O Virtual Educa fala há 20 anos sobre a importância da tecnologia. E agora, mais do que nunca, é uma necessidade falarmos sobre isto”, aponta. Muito porque as escolas “não tiveram tempo para se adaptar” ao salto tecnológico agora exigido.
Já Rui Grilo, director do sector de Educação da Microsoft para a Europa Ocidental, diz que a pandemia evidenciou, também, um outro problema: “É demasiado fácil para os governos continuar a gerir a educação como se a revolução tecnológica não existisse, como se pudéssemos ensinar com os mesmos recursos dos anos 70.”
O director do sector de educação da Microsoft para a Europa Ocidental, que participará no painel “Ecossistemas educativos digitais”, acredita que há “instrumentos ignorados” na escola do século XXI — não é por acaso que “os alunos agarram no telemóvel e conseguem descobrir tudo e mais alguma coisa”. Assim, acrescenta Adelino Sousa, o mundo digital em contexto escolar “tem de ser activo e interactivo”, acompanhando os alunos. Mas, mais uma vez, não se pense o smartphone apenas como recurso: há camadas a explorar e “estamos só na superfície”. “Se fizermos isso, estaremos a abandonar esta geração, porque não a ajudamos a ter pensamento crítico face à informação encontrada. É fácil a qualquer pessoa difundir informação fidedigna ou publicar o que lhe passar pela cabeça”, nota Rui Grilo.
O acesso à Internet “não deve ser uma mensalidade”
Juntar “instrumentos mais inovadores” aos habituais livros e PDFs poderá ser o caminho para uma “aprendizagem mais personalizada” na própria sala de aula. Até porque “o contacto físico e presencial nas instituições de ensino” continua a ser importante para o “desenvolvimento social e cognitivo dos alunos”. “Numa situação normal, penso que não haverá razão para que as instituições não tenham essa componente”, opina Rui Grilo; ainda assim, “há uma tendência para encontrar modelos híbridos”.
E isso poderá passar por plataformas desenhadas estritamente para o ensino e não para consumo usual. “Se a escola deixar ao livre-arbítrio de cada professor utilizar a plataforma que quiser, a receita para o desastre é total”, indica.
Em Abril, a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) alertou para a possibilidade de se gerarem “perfis automáticos dos alunos, com informações sobre ‘as suas aptidões intelectuais e dados de saúde’”. Tal poderá “estigmatizar as crianças e jovens”, lia-se no conjunto de “orientações para utilização de tecnologias de suporte ao ensino à distância”. Para evitar essas situações, Rui Grilo sugere a utilização de plataformas “pensadas para organizações”, que requerem autenticação. Porque, “embora as pessoas reajam a momentos como este depressa, o melhor é escolher ferramentas adequadas”. E que permitam a consulta do livro de ponto ou a submissão dos trabalhos de casa, por exemplo.
Não chega definir metas, é preciso investir nas universidades
Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, espera que os discursos que venham a ser proferidos no “Fórum Global — Educação Conectada” se materializem em algo mais, que não sejam apenas “palavras inconsequentes”, mas se traduzam em “prioridades políticas” e “recursos humanos e financeiros”. A actual reitora do ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa) participará no painel “Reimaginar a Universidade”, marcado para terça-feira.
Para a reitora do ISCTE-IUL, a aposta na “qualificação dos recursos humanos” e na “robustez das instituições públicas” é essencial, uma vez que a pandemia revelou de “forma aguda” as “desigualdades, as fragilidades, os défices de recursos humanos” e os atrasos “nas tecnologias e nas questões do trabalho”.
Mas, nota Maria de Lurdes Rodrigues, “não chega estabelecer metas” para o ensino superior e apontar para a formação “de uma percentagem da população”. Isso “é muito importante, mas não pode estar descolado do investimento e dos recursos do Governo”, acrescenta. Para a ex-governante, as instituições de ensino superior são “simultaneamente conservadoras e inovadoras” — e é nessa justaposição que, ao mesmo tempo, se defendem e produzem “conhecimento e difusão de informação”. “O segredo da inovação está na sua grande autonomia e liberdade. E no pluralismo, na diversidade interna e na abertura ao mundo”, conclui.
Mas isso levanta mais uma questão: a igualdade de acesso à Internet. Jorge Sá Couto afirma que todas as tecnologias “devem ser equipadas com conectividade para que um aluno da aldeia mais remota possa usufruir dos mesmos conteúdos que um aluno do centro da cidade usufrui”.
Mais: “É importante que o acesso à Internet não implique uma mensalidade, mas que esteja incluída no projecto”, frisa o presidente da JP Inspiring Knowledge (JP.IK), que dividirá o painel com Rui Grilo e com Cigdem Ertem (directora global das vendas para o sector público da Intel). Ou seja, quando se pensam projectos pedagógicos que envolvem tecnologias, é preciso garantir que aos alunos não é dado apenas um computador ou um tablet, mas que quando os levam para casa vão conseguir usá-los. Adelino Sousa recorda, nesse contexto, uma conversa com Miguel Ángel Cañizales, ex-ministro da Educação do Panamá, um dos oradores do Fórum Global: “Se o direito à educação é universal, então há muitos países a violarem a sua constituição”.
O evento (basta a inscrição neste link) contará com participações de oradores de vários países, o que permitirá que se observem as diferentes velocidades na digitalização do ensino em territórios distintos. “Portugal e Espanha estão muito próximos nesse sentido”, diz o director executivo da Virtual Educa, referindo ainda que “ambos têm uma agenda para a transformação digital a nível da educação, da economia e do próprio governo, mas cada um com as suas especificidades”. “A União Europeia está a fazer um bom papel e os governos estão a seguir, mas é muito diferente do que se passa na América Latina”, aponta.
O congresso mundial, organizado pela Virtual Educa, adiado por duas vezes, será concretizado entre 3 e 5 de Março. No fórum online desta segunda e terça-feira, participarão ainda o secretário de Estado para a Transição Digital, André de Aragão Azevedo, bem como João Costa, secretário de Estado da Educação.
8.10.20
40% dos pais dedicaram uma a duas horas por dia a ajudar os filhos nos estudos durante o ensino à distância
Nelson Marques, in Expresso
Investigação sobre o papel da escola e dos educadores em tempos de Covid-19 é apresentada esta quinta-feira, em Lisboa
40% dos pais portugueses dedicaram uma a duas horas por dia a auxiliar os filhos nos estudos durante o período de ensino à distância e 26% devotaram mais de duas horas à mesma tarefa, revela um estudo que será apresentado esta quinta-feira, em Lisboa. A investigação sobre “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 foi promovida pelo projeto Escola Amiga da Criança, em colaboração com a Porto Business School da Universidade Católica do Porto (UCP) e a Faculdade de Psicologia da mesma universidade, e envolveu mais de 23 mil inquiridos, que responderam a perguntas sobre o papel dos professores, a autonomia dos alunos, e a forma como os pais veem a missão das escolas.
Segundo o documento, o papel dos docentes saiu reforçado da experiência de ensino à distância: os pais passaram “claramente a valorizar mais os professores”, atribuindo-lhes um valor médio de 4,49 numa escala de 5, e reconhecem que o esforço destes foi adequado ao ensino em casa (4,05). Além disso, consideram que os docentes se revelaram determinantes na aprendizagem dos seus educandos (4,54), um resultado que contrasta com o de um estudo anterior, realizado também pela Escola Amiga da Criança, segundo o qual os progenitores apontavam o seu papel como sendo mais decisivo para o sucesso dos alunos do que o dos professores.
O documento revela ainda que o ensino à distância durante a pandemia levou os pais a descobrir lacunas nos seus filhos e a identificar “significativas dificuldades de autonomia”: 45% afirmaram que eles precisaram frequentemente de um adulto para a realização de tarefas escolares e 31% revelaram que os filhos tomavam a iniciativa e realizavam as tarefas por si, mas aguardando sempre a supervisão final por parte de um adulto. “As maiores dificuldades identificadas pelos pais foram a interpretação e a compreensão, por parte dos alunos, das tarefas que lhes foram atribuídas”, lê-se no estudo.
Dos mais de 23 000 encarregados de educação inquiridos, 90% têm entre 31 e 50 anos. 46,5% têm curso superior, 33% o 12º ano e cerca de um quinto o 9º ano ou menos. Quase metades (47%) dos seus educandos têm entre 7 e 10 anos e frequentam o primeiro ciclo. 8% estão no pré-escolar, 20% no segundo ciclo, 18% no terceiro e 7% no secundário.
O projeto Escola Amiga da Criança procura distinguir escolas que concretizem ideias extraordinárias para um desenvolvimento mais feliz da criança e tem como mentores o psicólogo Eduardo Sá, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) e o grupo editorial LeYa.
O estudo “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 é apresentado esta quinta-feira, a partir das 18h30, no canal de YouTube da Leya Educação.
Investigação sobre o papel da escola e dos educadores em tempos de Covid-19 é apresentada esta quinta-feira, em Lisboa
40% dos pais portugueses dedicaram uma a duas horas por dia a auxiliar os filhos nos estudos durante o período de ensino à distância e 26% devotaram mais de duas horas à mesma tarefa, revela um estudo que será apresentado esta quinta-feira, em Lisboa. A investigação sobre “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 foi promovida pelo projeto Escola Amiga da Criança, em colaboração com a Porto Business School da Universidade Católica do Porto (UCP) e a Faculdade de Psicologia da mesma universidade, e envolveu mais de 23 mil inquiridos, que responderam a perguntas sobre o papel dos professores, a autonomia dos alunos, e a forma como os pais veem a missão das escolas.
Segundo o documento, o papel dos docentes saiu reforçado da experiência de ensino à distância: os pais passaram “claramente a valorizar mais os professores”, atribuindo-lhes um valor médio de 4,49 numa escala de 5, e reconhecem que o esforço destes foi adequado ao ensino em casa (4,05). Além disso, consideram que os docentes se revelaram determinantes na aprendizagem dos seus educandos (4,54), um resultado que contrasta com o de um estudo anterior, realizado também pela Escola Amiga da Criança, segundo o qual os progenitores apontavam o seu papel como sendo mais decisivo para o sucesso dos alunos do que o dos professores.
O documento revela ainda que o ensino à distância durante a pandemia levou os pais a descobrir lacunas nos seus filhos e a identificar “significativas dificuldades de autonomia”: 45% afirmaram que eles precisaram frequentemente de um adulto para a realização de tarefas escolares e 31% revelaram que os filhos tomavam a iniciativa e realizavam as tarefas por si, mas aguardando sempre a supervisão final por parte de um adulto. “As maiores dificuldades identificadas pelos pais foram a interpretação e a compreensão, por parte dos alunos, das tarefas que lhes foram atribuídas”, lê-se no estudo.
Dos mais de 23 000 encarregados de educação inquiridos, 90% têm entre 31 e 50 anos. 46,5% têm curso superior, 33% o 12º ano e cerca de um quinto o 9º ano ou menos. Quase metades (47%) dos seus educandos têm entre 7 e 10 anos e frequentam o primeiro ciclo. 8% estão no pré-escolar, 20% no segundo ciclo, 18% no terceiro e 7% no secundário.
O projeto Escola Amiga da Criança procura distinguir escolas que concretizem ideias extraordinárias para um desenvolvimento mais feliz da criança e tem como mentores o psicólogo Eduardo Sá, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) e o grupo editorial LeYa.
O estudo “O papel da escola e dos educadores” em tempos de Covid-19 é apresentado esta quinta-feira, a partir das 18h30, no canal de YouTube da Leya Educação.
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