5.3.10

Cresce número de relatos de violência na escola

Fernando Pires, in Jornal de Notícias

Corpo de rapaz que se lançou ao rio, vítima de bullying, não foi encontrado


Grupo de mães está a tentar reunir o maior número de possível de encarregados de educação descontentes para obrigar Direcção da escola a pronunciar-se sobre o caso de Leandro

Cresce o número de pais queixosos de casos de bullying na EB 2,3 Luciano Cordeiro, em Mirandela, apesar de a Direcção e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens garantirem não ter qualquer registo. Há quem tenha reclamado por escrito, mas deu em nada.

Numa altura em que ainda não foi encontrado o corpo da criança de 12 anos, que se atirou às águas do rio Tua, ao início da tarde de terça-feira, depois de um desentendimento na EB 2,3 Luciano Cordeiro, cresce a onda de indignação de alguns pais pelo silêncio da direcção do agrupamento sobre os vários casos de violência que têm vindo a ser denunciados. "Não conseguimos compreender como é possível que ninguém da direcção do agrupamento tenha dito nada sobre o caso, nem tão pouco tem estado no terreno a inteirar-se das operações de busca", diz Cecília Ferreira, mãe de uma criança da mesma idade e da turma de Leandro, que terá sido a primeira vítima mortal de bullying em Portugal.

"Estamos a tentar juntar o maior número possível de pais para exigir uma explicação junto da direcção da escola", explicou aquela mãe, que faz parte de um grupo de cerca de duas dezenas que já criou uma conta de solidariedade para ajudar a família de Leandro. "São pessoas carenciadas que precisam da ajuda de todos numa situação destas", conta.

Cecília Ferreira conta que, em Janeiro, a filha, de 12 anos, foi agredida na sala de aula por um aluno e esteve quatro dias em casa porque recusava ir para a escola. "Apresentei queixa, por escrito, e a Direcção respondeu que havia casos de agressões que não devíamos dar grande importância, porque são crianças que às vezes têm os seus desentendimentos", afirma. A mãe revela ainda que a filha relata "casos de miúdos que são assaltados, ficam sem os telemóveis e outros que são ameaçados".

Também Álvaro Guedes diz que o filho foi agredido por um aluno, no recinto da escola, há menos de um mês. "A violência foi tal que bateu com a cabeça na parede e teve de receber tratamento hospitalar", afirma. Quando diz ter dado a conhecer o caso à Direcção, afirma que não houve consequências para o agressor. "Estive reunido com o director e o pai do outro miúdo e colocou-se água na fervura", refere.

Durante o silêncio perturbador da escola, que apenas adiantou, até agora, que não tem registo de casos de bullying nas suas instalações, o Ministério Público já abriu um inquérito para apurar o que terá estado na origem do desaparecimento de Leandro. Também o Ministério da Educação já abriu um processo de averiguações ao caso.

Casos mais graves podem chegar ao MP

A prevenção de casos de bullying deve ser a primeira preocupação da escola. Os deputados dos diversos grupos parlamentares, assim como especilalistas em educação, contactados pelo JN, defendem a necessidade de todos os elementos da comunidade educativa estarem atentos aos sinais evidenciados pelos alunos vítimas de bullying.

Após a denúncia, a direcção da escola, juntamente com o director de turma, deve convocar os alunos envolvidos, assim como os encarregados de educação. Acredita-se que, num primeiro momento, uma simples chamada de atenção aos alunos agressores, assim como a informação dos castigos em que incorrem, pode ser suficiente para conter a situação. Aqui, a equipa da Escola Segura pode contribuir para alertar os alunos dos crimes que, sem saberem, estão a cometer.

Caso o bullying se mantenha, a direcção da escola pode tentar mudar os alunos de turma e providenciar apoio psicológico. Nos casos mais graves, deve denunciar os casos à Direcção Regional de Educação, assim como ao Ministério Público.

Buscas infrutíferas

Dois dias depois do desaparecimento de Leandro, as operações de busca no Tua voltaram a ser infrutíferas, apesar de terem sido alargadas em 40 quilómetros e envolveram perto de 130 operacionais. As equipas coordenadas pelo Comando Distrital de Operações de Socorro de Bragança percorrerem as margens até à foz do rio. Durante a tarde, houve a ajuda de um helicóptero "para buscas em locais que é impossível bater por terra e por água", explicou Melo Gomes, coordenador do CDOS.