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14.9.23

Tamanho dos sapatos afeta o desenvolvimento das crianças e adolescentes e pobreza infantil é o maior agravante

DANIEL SUZUMURA, in Jornal Dia Dia


Estudo da UNICEF revela que 63% das crianças brasileiras vivem na pobreza, e o tamanho inadequado dos sapatos pode acentuar a situação

No Brasil, um alarmante número de crianças enfrenta as duras realidades da pobreza. Segundo uma pesquisa recente da UNICEF, intitulada “As Múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil”, cerca de 63% do total de meninas e meninos no país, o equivalente a aproximadamente 32 milhões de crianças, vivem em múltiplas dimensões de pobreza. Em um ambiente familiar onde a renda é incerta, itens básicos como alimentação, saúde e vestuário tornam-se verdadeiros desafios.

Enquanto a falta de recursos financeiros já é uma preocupação por si só, um aspecto frequentemente negligenciado desse cenário é o impacto que o tamanho inadequado dos sapatos pode ter no desenvolvimento físico e emocional dessas crianças. A falta de roupas e sapatos adequados para as crianças pode parecer um problema menor, mas seus efeitos podem ser profundos, tanto a curto quanto a longo prazo.

De acordo com a fisioterapeuta e osteopata Fabrizia Souza, o uso de calçados que não se ajustam corretamente aos pés das crianças pode ter sérias consequências. “Quando os dedos dos pés não ficam bem acomodados no calçado, isso resulta em uma restrição no contato do pé com o solo, levando a desconforto e, em muitos casos, dor. Isso, por sua vez, pode afetar a capacidade da criança de se concentrar em suas atividades diárias, como brincar e interagir com os outros, o que pode levar a um ciclo de isolamento social e desânimo”, avalia.

Mas não é apenas o tamanho pequeno dos sapatos que é problemático. Às vezes, os pais, na tentativa de economizar, compram sapatos maiores para que durem mais tempo ou passam calçados de irmãos ou primos mais velhos para os mais novos. O professor do curso de Fisioterapia da UCDB, Carlos Alberto Eloy Tavares, explica que isso também pode causar danos. “Para bebês que estão na fase de engatinhar, é crucial que eles usem calçados flexíveis que permitam que seus pés respirem livremente. No entanto, à medida que começam a andar, os sapatos devem ter solados lisos para evitar quedas. Calçados que se prendem ao solo podem aumentar o risco de acidentes”, ele ressalta.

Para crianças mais velhas, a qualidade e o conforto dos calçados também são essenciais. Tavares alerta que é fundamental prestar atenção ao espaço entre o dedão do pé e a ponta do sapato. “Ele deve ser de aproximadamente a largura de um polegar da criança, não mais do que isso. Espaços menores podem causar deformidades e lesões que afetarão a postura e a saúde a longo prazo”, alerta.

A pesquisa da UNICEF lança luz sobre a interseção entre pobreza, acesso a itens básicos e bem-estar infantil. Para muitas crianças brasileiras, a falta de sapatos adequados é apenas um dos muitos desafios que enfrentam diariamente. Essas descobertas destacam a importância de abordar a pobreza infantil em todas as suas dimensões e garantir que as crianças tenham acesso não apenas a alimentos e cuidados médicos, mas também a roupas e calçados que lhes permitam crescer saudáveis e felizes.

Por esse motivo, uma iniciativa inovadora no Brasil está buscando coletar pares de sapatos para crianças, adolescentes, jovens e adultos que enfrentam situações de vulnerabilidade social, residentes em comunidades carentes, favelas, periferias e áreas de ocupação. A campanha nacional de Solidariedade “O Seu Pezinho Virou Pezão” é uma colaboração entre a empresa Pezinho & Cia e a CUFA (Central Única das Favelas).

Em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, a campanha já está em andamento na loja, localizada no Shopping Campo Grande, e se encerra dia 15 de setembro. Para participar, basta doar sapatos em bom estado diretamente na loja, ou no SAC do Shopping, que fica embaixo das escadas rolantes, próximo ao Banco do Brasil.

21.11.22

Racismo e discriminação contra crianças e adolescentes são comuns em países de todo o mundo

in UNICEF

Novo relatório descreve como as crianças e os adolescentes são discriminados na educação, nos serviços de saúde e no acesso a recursos do governo; a análise de 22 países mostra que os grupos mais favorecidos têm duas vezes mais chances de ter habilidades

Nova Iorque, 18 de novembro de 2022 – Racismo e discriminação contra crianças e adolescentes com base em sua raça, etnia, idioma e religião são comuns em países de todo o mundo, de acordo com um novo relatório do UNICEF publicado às vésperas do Dia Mundial da Criança, comemorado em todo mundo em 20 de novembro, e do Dia da Consciência Negra, celebrado no mesmo dia no Brasil.

Direitos negados: O impacto da discriminação em crianças e adolescentes (Rights denied: The impact of discrimination on children – disponível somente em inglês) mostra até que ponto o racismo e a discriminação afetam a educação, a saúde, o acesso de meninas e meninos a um registro de nascimento e a um sistema de justiça justo e igualitário, e destaca disparidades generalizadas entre minorias e grupos étnicos.

“O racismo estrutural e a discriminação colocam crianças e adolescentes em risco de privação e exclusão que podem durar a vida toda”, disse a diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell. “Isso prejudica todos nós. Proteger os direitos de cada criança – seja ela quem for, venha de onde vier – é o caminho mais seguro para construir um mundo mais pacífico, próspero e justo para todos”.

Entre os novos achados, o relatório mostra que crianças e adolescentes de grupos étnicos, linguísticos e religiosos marginalizados em uma análise de 22 países estão muito atrás de seus pares em habilidades de leitura. Em média, os estudantes de 7 a 14 anos do grupo mais favorecido têm duas vezes mais chances de ter habilidades básicas de leitura do que os do grupo menos favorecido.

Uma análise dos dados sobre a taxa de crianças registradas ao nascer – um pré-requisito para o acesso aos direitos básicos – encontrou disparidades significativas entre crianças de diferentes grupos religiosos e étnicos. Por exemplo, no Laos, 59% das crianças menores de 5 anos no grupo étnico minoritário mon-khmer têm seus nascimentos registrados, em comparação com 80% entre o grupo étnico lao-tai.

A discriminação e a exclusão aprofundam a privação e a pobreza intergeracional e resultam em piores resultados de saúde, nutrição e aprendizado para as crianças e os adolescentes, maior probabilidade de encarceramento, taxas mais altas de gravidez entre as adolescentes e taxas de emprego e rendimentos mais baixos na idade adulta.

Embora a covid-19 tenha exposto profundas injustiças e discriminações em todo o mundo e os impactos das mudanças climáticas e dos conflitos continuem a revelar desigualdades em muitos países, o relatório destaca como a discriminação e a exclusão persistem há muito tempo para milhões de crianças e adolescentes de grupos étnicos e minoritários, incluindo acesso a imunização, serviços de água e saneamento e um sistema de justiça justo.

O relatório também destaca como crianças, adolescentes e jovens estão sentindo o fardo da discriminação em seu dia a dia. Uma nova pesquisa do U-Report, que gerou mais de 407 mil respostas, descobriu que quase dois terços sentem que a discriminação é comum em seus ambientes, enquanto quase metade sente que a discriminação afetou de maneira significativa sua vida ou a de alguém que conhecem.

No Brasil

O racismo persiste no cotidiano das crianças e adolescentes brasileiros e se reflete nos números das desigualdades entre negros, indígenas e brancos. Meninos e meninas que vivem em contexto de desigualdade e são vítimas do racismo nas escolas, nas ruas, nos hospitais deparam-se constantemente com situações de discriminação, de preconceito ou segregação.

O relatório inclui exemplos de programas para melhorar as oportunidades de crianças e adolescentes de grupos que sofrem de discriminação, entre eles a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial no Brasil.

Um decreto em 2003 levou à criação da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial no Brasil, prevendo ações afirmativas com base em raça e etnia. Desde 2004, existem cotas em algumas universidades que possibilitam maior acesso ao ensino superior e, em 2012, foi aprovada a Lei de Cotas que estabelece uma cota mínima de 50% de acesso às universidades federais.

O exemplo reforça como é fundamental fortalecer e criar políticas públicas que assegurem a representação de grupos historicamente com maior dificuldade de acesso a espaços políticos e institucionais para lidar com a problemática da desigualdade racial, que o Brasil ainda enfrenta.

“No Dia Mundial da Criança e em todos os dias, cada criança, cada adolescente tem o direito de ser incluído, protegido e ter a mesma chance de atingir todo o seu potencial”, disse Russell. “Todos nós temos o poder de lutar contra a discriminação contra crianças e adolescentes – em nossos países, nossas comunidades, nossas escolas, nossos lares e nosso próprio coração. Precisamos usar esse poder”.

6.7.22

“A pobreza no Brasil é sinónimo da herança da escravidão”, diz Laurentino Gomes

Maria João Costa, in RR

O escritor brasileiro está a lançar na Bienal do Livro de São Paulo o terceiro volume da trilogia dedicada à escravidão. Numa altura em que o Brasil celebra 200 anos de Independência, o autor revela que o seu livro tem “a História não contada do Brasil”

Sempre sorridente, Laurentino Gomes distribui autógrafos. No ambiente festivo da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, encontramos o autor brasileiro que agora reside em Portugal, em Viana do Castelo, a lançar o terceiro volume da trilogia dedicada à escravidão.

No espaço da editora Globo, onde os livros estão em exposição lado-a-lado com os de Valter Hugo Mãe, Laurentino Gomes começa por explicar que este novo livro “é a História não contada do Brasil” e que sai “em boa hora”, numa altura em que o país celebra dois séculos de independência .

Em entrevista à Renascença, Laurentino Gomes que já se tornou num biografo do seu próprio país, critica o facto de “muitas vezes a História do Brasil é narrada pela ótica do colonizador europeu”. O autor do sucesso “1808” aponta mesmo existir “um branqueamento da História”. Isso levou ao “anonimato de uma parcela muito expressiva e maioritária da população brasileira, que são os descendentes de africanos escravizados”.

“O meu livro mostra que há uma outra independência. Há um Brasil que ficou abandonado à sua sorte durante a rutura entre Portugal e Brasil em 1821 e 1822”, indica o autor que acrescenta: “O Brasil manteve inalterada a estrutura social vigente, não acabando com o tráfico negreiro”.

A olhar o país gerido hoje por Jair Bolsonaro, Laurentino Gomes diz que a herança da escravidão “é um preço pago até hoje”. Questionado sobre a oportunidade deste livro neste ano eleitoral, o escritor refere que “a escravidão não é um assunto dos livros de História, ela é uma realidade presente no Brasil nesse início do século XXI”.

Laurentino Gomes dá como prova do que afirma, o exemplo do que acontece nas grandes cidades brasileiras. “Quem mora nos bairros nobres, com infraestrutura e segurança é a população branca descendente de europeus. Quem mora nas periferias insalubres, abandonadas pelo Estado Brasileiro é, na sua maioria, a população descendente de africanos”.

“A pobreza no Brasil é sinónimo de negritude, e é sinónimo de herança da escravidão”, afirma Laurentino Gomes que pega em mais um exemplo. “O atual presidente da República durante a campanha eleitoral de 2018 usou diversas vezes expressões, comportamentos e ideias racistas e, mesmo assim, as pessoas votaram nele”.

Questionado se pode ou não haver uma viragem nas presidenciais de outubro, o autor lembra como é importante haver debate e diz esperar que haja uma mudança política. “Essa segunda abolição da escravidão que o Brasil jamais fez e dar oportunidade à África brasileira para que ela se realize plenamente nas suas decisões, será feita no voto”.

Enquanto fala para a Renascença, Laurentino Gomes tem já mais um leitor à espera de um autografo. Na sua editora brasileira os livros da trilogia sobre a escravidão, estão colocados ao lado de outra trilogia sua de sucesso com a obras 1808, 1822 e 1889. No espaço da editora, muitos leitores, a fila para as 6 caixas de pagamento é longa, mas todos esperam para levar para casa mais livros.

6.5.21

Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”? Quando as palavras são motivo de discriminação

Mariana Durães, in Público on-line

O que o Atlântico separa a língua portuguesa une. Ou não? Matias foi alvo de chacota por causa do sotaque; Jullyana foi avisada para fazer um exame em português europeu e a Thalita disseram que os brasileiros só têm “meia língua portuguesa”. A todos pedem (ou exigem?) que falem “português correcto”. Mas, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, perguntamos: o que é o português correcto?

“Por favor, façam o exame em português de Portugal, porque eu não entendo nada do que vocês escrevem”: a ordem foi dada antes de um exame do curso de História da Arte, mas não havia sido a primeira vez que Jullyana Rocha se tinha sentido confrangida por não falar português europeu.

Antes, quando foi mudar a morada a uma repartição de Finanças, teve o mesmo problema. “Fui com todos os documentos e expliquei à senhora que precisava de mudar a morada fiscal. Tentei-me explicar umas quatro vezes e ela simplesmente dizia que não entendia o que eu estava a falar. Ainda nem usávamos máscara, por isso não havia nenhum impedimento”, recorda a brasileira de 25 anos, a viver em Portugal desde 2017.

Não é caso único: os relatos de brasileiros a viver em Portugal que dizem ser discriminados por “não falarem português correcto” multiplicam-se nas redes sociais. Na página de Instagram Brasileiras não Se Calam, por exemplo, em que são partilhados relatos de xenofobia, é recorrente encontrar denúncias de discriminação por causa da língua: em situações do quotidiano, nos locais de trabalho, e, diversas vezes, nas faculdades.

Foi lá que Jullyana e os colegas brasileiros foram avisados para realizar o exame em português europeu, e foi esse momento, aliado a muitos outros de discriminação, que a fizeram sair do curso e optar por estudar Marketing remotamente, numa universidade brasileira: “Não quis voltar para o sistema de ensino de aqui.”

Também Matias Guimarães foi alvo de chacota quando chegou atrasado a uma aula. “Quando entrei na sala, o professor começou a fazer uma série de críticas e piadas sobre o meu sotaque, sobre eu ser burro pelo meu sotaque, por não falar direito”, relata. Pelo que tem ouvido, refere, “há pelo menos um professor em todas as faculdades que reclama que os brasileiros não falam da maneira mais correcta”. Mas o que é, afinal, o português correcto?
“A língua pode ter diversas cores”

“Desde que somos crianças, a escola diz-nos que certas formas são correctas e outras são incorrectas”, começa por enquadrar Ronan Pereira, doutorando em Linguística pela Universidade Nova de Lisboa. Há, no entanto, uma premissa que é importante não esquecer: “As línguas não são elementos estáticos. Elas variam territorialmente, ao longo do tempo, de acordo com as classes sociais, etárias... Mas, por algum motivo, temos na nossa cabeça que a língua é uma coisa só.”

Ora, quando uma criança vai para a escola, não é possível abordar todas as formas que uma língua pode ter. O ensino foca-se, então, no ensino da gramática normativa, aquela que nos diz as regras a seguir para escrever e falar correctamente. É essa gramática que estabelece o padrão, e é importante que seja ensinada, “porque, se todos começássemos a escrever como nos apetece, a coisa ficava confusa”, refere o linguista.

Quando falamos de português europeu e português brasileiro, estamos a falar de “duas variedades linguísticas” — o que mostra que “a língua é uma definição algo abstracta e, neste caso, vemos como a língua portuguesa pode ter diversas cores”. E nem é preciso atravessar um oceano para encontrar estas variedades: dentro do território continental encontramos muitas formas de falar português. A diferença é que “uma pessoa de Évora vai ter muito mais em comum na sua gramática mental com alguém de Coimbra do que com alguém de São Paulo”.

Os “entraves” linguísticos começaram a sentir-se no dia-a-dia de Mônica Santos logo desde que veio para Portugal, há três anos. “Uma atitude quotidiana como ir a uma padaria era muito difícil, porque o meu simples pedido de um pão era pouco percebido pelas pessoas, porque não queriam”, conta. “Existia uma certa necessidade de demonstrar que não estava a falar da melhor forma, era satirizada”, continua.

Foi também na faculdade que experienciou situações “mais fortes”. Ainda que seja necessário apresentar uma declaração de proficiência em língua portuguesa ao ingressar na faculdade, esta não especifica a necessidade de ser em português europeu. E, quando as aulas começam, “os professores são bastante críticos na forma como escrevemos relatórios, trabalhos, etc.”, lamenta. Chegam até a descontar pontos pela escrita, refere.

“Ouvir dizer todos os dias que falamos brasileiro em vez de português é o mesmo que dizer que nos Estados Unidos se fala ‘americano’ e que na Austrália se fala ‘australiano’, quando na verdade todos falam a língua inglesa.”

Alguns portugueses “olham com estranheza” quando Thalita Meros diz que dá aulas de Português. A viver em Portugal desde 2019, veio fazer mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, como já tinha experiência em dar aulas no Brasil, começou a dar aulas voluntariamente a estrangeiros em Portugal. Quando alguns alunos lhe dizem que “não querem aprender português brasileiro”, a professora de 38 anos explica que “não funciona assim”, que há materiais didácticos e que “a regra é comum para todos”.

“O português é uma língua multicultural. As pessoas que vão para a minha aula vão ouvir o sotaque do português de Portugal todos os dias na rua, vão acabar por pegar um pouco”, afiança. Mas pergunta: “Que estrangeiro fala realmente com o sotaque português de Portugal? Se ensinar português a um espanhol, ele vai falar com o sotaque espanhol.”

Também ela já viveu situações de preconceito por causa da língua. Numa ida ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, quando teve de indicar o número de telemóvel, disse “meia”, em vez de “seis”, como é comum no Brasil. Do outro lado ouviu: “Os brasileiros têm meia língua portuguesa.”

A globalização da língua portuguesa “traz muitos desafios”, começa por dizer Patrícia Ferraz de Matos, antropóloga e investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Em primeiro lugar, porque o português que se fala em vários continentes não é exactamente o mesmo e tem muitas variantes — nacionais, regionais e locais. Em segundo lugar, porque este movimento para criar um Dia da Língua Portuguesa não se centra apenas nesta e parece querer estender-se a outros fenómenos culturais, ou seja, parece ser mais ambicioso.”

E porque não olhar para essas variantes como um factor de enriquecimento? Afinal, como relembra a investigadora, “é devido ao Brasil e ao seu tamanho que o português é hoje uma das cinco línguas mais presentes no espaço digital”.

Também inserida no espaço académico, a antropóloga refere que, “embora o português do Brasil seja admirado na literatura” (veja-se “a riqueza do vocábulo dos livros de Jorge Amado, por exemplo”), o mesmo não acontece nas aulas ou avaliações. No doutoramento em Antropologia, onde é docente, aceita teses escritas em português do Brasil ou português africano, por exemplo. Mas nem sempre é assim, como a experiência de Jullyana mostra.
A variedade mantém a língua viva

Mas de onde vem, afinal, a ideia de que o português do Brasil não é correcto? “Durante o processo evolutivo do português brasileiro, surgiram formas coloquiais que são violações à gramática mental dos falantes de português europeu”, explica Ronan Pereira. Um exemplo: “Eu vi-o”, como diz um português, versus “eu vi ele”, dito por um brasileiro. “Para a gramática mental de um português, [a segunda formulação] soa mal, mas isso não quer dizer que o falante de português brasileiro fale mal. Ele fala a sua variedade, que tem essa estrutura.”

Na verdade, quanto mais portugueses e brasileiros se aproximarem da norma gramatical — ou, por outras palavras, quanto mais correctamente falarem —, mais próximos ficam. Se assim fosse, “teríamos sotaques diferentes, o que é completamente natural e acontece em todas as línguas, mas a questão estrutural seria basicamente a mesma”, explica o linguista. “A regra é comum para todos”, acrescenta Thalita.

“Alguns dos preconceitos actuais podem ainda ser resquícios do passado”, refere Patrícia Ferraz de Matos. Podem estar relacionados “com as várias influências que o português do Brasil recebeu”. “É como se o português do Brasil fosse menos puro do que o português europeu, ao qual se associa por vezes uma identidade própria, associada à antiguidade do país na Europa, à sua permanência como país independente ao longo de vários séculos, sem nunca se ter subjugado ao poder (e língua) espanhol”, contextualiza.

A herança cultural, marcada por séculos de colonialismo, é, para Matias Guimarães, a principal justificação para esta discriminação. “Sinto que existe uma parcela da população portuguesa que vê as ex-colónias como inferiores de diversas formas”, atira. E essa percepção é generalizada. “Os mais velhos têm um sentimento de nacionalismo muito forte, acham que estamos para reconquistar o que nos foi tirado na época dos descobrimentos, como já ouvi muitas vezes”, refere Jullyana.

Thalita chama-lhe “saudosismo da língua”. Acredita que o pensamento comum é, muitas vezes, este: “Eu levei a língua para esse país e eles estragaram-na, deviam mantê-la como é aqui.” Ou, em forma de pergunta, como já fizeram a Mônica: “Quem é que inventou a língua?”

Esse saudosismo, acredita Thalita, poderá estar prestes a acabar, com ajuda das gerações futuras. “Os alunos de hoje já têm questões sobre a variação linguística nos seus manuais”, afirma. “A variação agrega muito. Tem algumas palavras que são diferentes? Tem. E isso só vai acrescentar”, atira. Patrícia Ferraz de Matos vai mais longe: “É talvez essa riqueza que mantém a língua viva — a de um conjunto diversificado de pessoas que a utiliza há vários séculos, mas que a vai adaptando e fazendo evoluir.”


16.1.20

Os “novos” brasileiros: de exilados políticos a profissionais qualificados

Joana Gorjão Henriques, in Públio on-line

Exilados políticos, activistas políticos e de direitos humanos, estudantes, profissionais qualificados que não encontram trabalho na sua área chegam a Portugal. Um activista, uma estudante de Direito e uma trabalhadora em recursos humanos contam a sua história.

Há “novos” perfis de imigrantes brasileiros que chegam a Portugal, notam os analistas e quem trabalha no terreno. Alguns começaram a aparecer agora, outros antes de 2010. Exilados políticos, activistas políticos e de direitos humanos, estudantes, profissionais qualificados que não encontram trabalho na sua área e têm dificuldade com o reconhecimento do seu diploma mas também que a entidade empregadora reconheça o seu percurso profissional, analisa a presidente da Casa do Brasil, Cyntia de Paula. Em 2019, o número de brasileiros subiu 43% em relação ao ano anterior: são já quase 151 mil, o maior de sempre.

Paulo Illes, 44 anos, pertence a este perfil mais recente. Militante na área das migrações e dos direitos humanos desde 2004, ex-seminarista envolvido na luta contra o trabalho escravo, foi coordenador da política para imigrantes na prefeitura de São Paulo, com Fernando Haddad, entre 2013 e 2016. Chegou a Lisboa em Março do ano passado. Filiado no Partido dos Trabalhadores, diz-se autor de políticas que beneficiaram os imigrantes, mas que prejudicaram quem os explora, e sentiu-se perseguido quando terminou o mandato. “Com a vitória do [presidente Jair] Bolsonaro a forma de actuar com violência era maior.”

Trabalha actualmente para uma organização francesa, a Organização para uma Cidadania Universal, que faz articulação de cidades que trabalham com inclusão de imigrantes, e a vinda para Portugal tornou-se natural: “A rede é muito forte na América Latina e França, mas não tinha inserção na Península Ibérica [algo que estão a fazer agora]. As coisas encaixaram-se.” Além disso, os membros de outra organização que fundou, Rede Sem Fronteiras, querem criar uma sede em Portugal porque “é onde há o maior número de brasileiros migrantes”.

Sobre a presença de brasileiros em Portugal diz que “é perceptível que há um aumento no fluxo” e consegue identificar a existência de “um grupo de exilados”, do qual faz “parte”. “Há pessoas que vêm para a academia, mas no fundo vêm-se exilar porque há uma pressão muito forte em relação aos professores progressistas, esse sentimento de estarem a ser vigiados”, diz. Ainda não consegue identificar qual é a dimensão desse grupo, “mas é um número expressivo, acho que são centenas de brasileiros.” Porque escolhem Portugal? “Pelo idioma, pela proximidade cultural, pela documentação”, responde. “É mais fácil para nós, brasileiros, inserirmo-nos em Portugal do que em outros países da região europeia. E há muitos netos de portugueses.” Este é um grupo que tem conseguido integrar-se e “inclusive participar e actuar na vida política de Portugal”, analisa.
Do Direito para uma loja

Com outro perfil há Mayagara Goerg, 27 anos, licenciada em Direito pela Pontífice Universidade Católica de Rio Grande do Sul, original de Porto Alegre, que quis fazer mestrado em Direito na Universidade de Coimbra, depois de ouvir alguns professores seus elogiarem a faculdade. Guardou economias para imigrar. “Quando cheguei a Coimbra parecia que tinha mudado de um estado para outro no Brasil. Sentia-me bem acolhida. Comecei a apaixonar-me pelo país, pela forma de vida, pela educação.”

Em Julho de 2016 decidiu, assim, que iria ficar e começou a procurar emprego na área jurídica, enviou currículos para vários escritórios, mas não recebeu resposta. “Não havia retorno.” Acabou por arranjar emprego numa loja num centro comercial onde ficou durante nove meses e aprendeu o quanto é duro ter horário e folgas rotativas e comer a refeição “num banquinho num canto do armazém”. Encarou-o como “um amadurecimento”.

A tese acabou por ser adiada. Ainda se mudou para o Algarve, onde ficou como gerente de uma loja durante um ano, regressou a Coimbra em Abril do ano passado para finalmente terminar a tese. Fez part-times e limpezas em casas particulares. Neste momento está prestes a mudar-se para Lisboa para ser gerente de loja numa marca de jóias e malas.

Desistir de encontrar um emprego na área onde se formou? “Jamais”, afirma. “Bem sei o esforço que foi pagar a minha licenciatura, tudo o que foi o meu percurso académico. Esta mudança [para Lisboa] pode abrir novos horizontes, talvez direccionar para outra área de Direito.” Diz que se voltasse ao Brasil teria emprego, mas há que “ponderar outras coisas”: por enquanto está disposta a trabalhar noutra área porque compensa “em relação à qualidade de vida, que inclui segurança, tranquilidade, lazer e outros aspectos que no Brasil que estão complicados”. Mas “não estou disposta a desistir, sei que vou conseguir”, afirma.

Tirar “brasileira” do currículo
Mab Marques, 34 anos, está em Portugal desde Agosto de 2017. Original de Salvador, mudou-se para Lisboa para fazer um mestrado em Psicologia Social e das Organizações, no ISCTE. Licenciada na Faculdade de Tecnologia e Ciências em Salvador, está neste momento a finalizar a tese. Procura trabalho desde Junho na área de recursos humanos, onde trabalhou durante mais de cinco anos no Brasil. Percebeu, pelos anúncios de jornal, que é uma área onde há vagas publicadas constantemente. “Com a minha experiência já teria habilitações para trabalhar em recursos humanos em Portugal. Tenho enviado currículos e não tenho sido chamada, nem sequer para entrevistas. Em Dezembro tirei do CV informações como o facto de ser brasileira, porque a minha impressão é que isso estava-me prejudicando e enviei novos currículos. Fiz uma candidatura na segunda-feira e ontem fui a uma entrevista para recursos humanos numa imobiliária”, conta.
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Número de brasileiros a viver em Portugal subiu 43%. Já são 151 mil

SEF confirma "aumento significativo" de brasileiros em Portugal
Não estava à espera que fosse tão difícil arranjar emprego, até porque a taxa de desemprego em Portugal tem vindo a baixar. “Na faculdade não senti apoio para me ajudarem a fazer estágio curricular: não conheço as empresas e quem me devia dar apoio seriam eles, tive que pedir ajuda aos professores.”
De uma coisa tem a certeza: “Não quero voltar ao Brasil”. Por isso, tem “procurado trabalhos em lojas ou telemarketing”, se for preciso trabalha noutra área.“É difícil, mas faz parte.”

14.1.20

Igreja evangélica suspeita de tráfico de pessoas defende-se: “Fazemos ajuda humanitária”

Joana Gorjão Henriques (Texto) e Sara Jesus Palma (Fotografias), in Público

Num armazém entre outros tantos na Amadora fica a igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério do Avivamento. Ali vivem 25 pessoas, em 15 quartos, divididos por paredes em pladur e com bolor. A renda são 300 euros cada, mas a igreja diz que há quem esteja lá sem pagar nada. Três pastores foram detidos pelo SEF suspeitos de tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal. Caso está em segredo de justiça.

Passa-se por armazéns de vários tipos, alguns com discotecas nocturnas, outros com venda de materiais para carros ou de iluminação. Há camiões a atravancar o trânsito que se concentra nesta manhã de segunda-feira na zona industrial da Amadora. Chega-se ao edifício azul claro e branco onde está a igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério do Avivamento: não parece, mas este é um local de culto e de residência para cerca de 25 pessoas. Em letras grandes, na fachada, uma placa anuncia-o no topo. Não há ninguém para abrir, também não há uma campainha. Arriscamos empurrar o portão.

Numa zona que serve de parque de estacionamento estão vários carros, uma camioneta com um colchão lá dentro, algum entulho. Ao fundo, coberta por uma telha, fica aquilo a que chamam lavandaria, mas tem uma mesa, um frigorífico, há também uma mota estacionada. Aparece a missionária brasileira Ana Silva, de quase 70 anos, que está a preparar café. Vive há seis anos naquele lugar. “Coopero com a obra, como todos. É assim que Jesus ensina.” Diz que veio para Portugal ter com o filho. “Nem conhecia a igreja.”

Foi aqui que, na quinta-feira passada, uma equipa do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) fez buscas e deteve três pastores por indícios de auxílio à imigração ilegal e tráfico de pessoas. Presentes a um juiz na sexta-feira de manhã, os pastores, um casal e um homem brasileiros, foram libertados, ficando com interdição de saída de Portugal e apresentações semanais à justiça.

Gonçalo Rodrigues, director central de investigação do SEF, disse na sexta-feira ao PÚBLICO que a investigação, que durou três meses, teve origem numa denúncia que relatava actividades “enquadradas na prática de tráfico de seres humanos”, por causa “das condições do alojamento”, pela “forma como as pessoas viviam ali” e porque “o rendimento que deviam supostamente auferir regressava à igreja”. “Havia ali claramente indícios de exploração”. Apesar de haver crianças no grupo não foi identificada nenhuma situação preocupante, disse, por isso as pessoas mantiveram-se a viver no local. Se forem sinalizadas como vítimas accionam-se os mecanismos da lei, diz o SEF, mas é preciso que as próprias queiram. Há outras questões na base da investigação que o SEF não pode revelar por o processo estar em segredo de justiça.

Segundo o comunicado do SEF na sexta-feira, os pastores convenciam os imigrantes a vir para Portugal, prometendo-lhes trabalho e regularização, o que não aconteceria. A igreja é ainda suspeita de gerir “a permanência das pessoas em território nacional”.

No mesmo dia em que surgiram as notícias, a Aliança Evangélica Portuguesa demarcou-se desta entidade, publicando uma nota em que dizia que a referida Assembleia de Deus Ministério do Avivamento não fazia parte da sua associação.

SEF detém três pastores evangélicos na Amadora suspeitos de tráfico de pessoas

A missionária Ana Silva também viu as notícias desse dia. “Saiu para o mundo inteiro”, comenta. “Estamos acostumados. Deus disse que a igreja é perseguida na terra, é normal isso acontecer. A igreja tem que ser perseguida, se não for perseguida não é de Jesus”, acrescenta em pé, na zona da lavandaria.

“Dízimo é voluntário”
A sair do armazém vem Carol, empregada doméstica que há um ano e meio vive ali, com a filha e o marido.

Ninguém quer aparecer na fotografia. Todos dizem que vivem bem, que os pastores estão presentes quando eles precisam. “O nosso serviço na igreja é voluntário. Se eu posso ajudar, porque não vou ajudar?”, interroga, retoricamente. Pelo quarto faz “uma doação de 300 euros” não é “para a igreja”, mas é para o senhorio. Também dá o dízimo porque “a Bíblia diz” para doar a décima parte do que a gente tem. “A história está mal contada”, critica, comentando as notícias. E vai embora porque tem que “resolver coisas”.

Um outro membro da igreja que não quer ser identificado diz que “a gente faz por seguir o que está na Bíblia” e o dízimo “é voluntário”. “Eu dou o meu dízimo espontâneo.”
Não querem mostrar o interior do armazém. Pedem para sairmos. Ligamos ao pastor e este remete para o seu advogado, Paulo Santos, que por seu lado afirma que os clientes não se revêm na prática dos crimes dos quais são acusados e têm todo o interesse em ver esclarecidas as acusações. “Confiam na justiça”, afirma.

Na fachada lateral do armazém há poucas e pequenas janelas. David Ramos, de 31 anos, trabalha no armazém colado à igreja que vende artigos de iluminação. De vez em quando vê os miúdos a brincar na rua, não sabe quem entra e sai. Mas vê as portas do culto abertas. E ouve-os cantar frequentemente. Do outro lado da estrada, Paulo Almeida, que costuma fazer uns biscates por aquela zona, diz que via frequentemente pessoas a chegar de malas e em carros com o dístico TVDE, mas não percebia porquê – percebeu quando viu as notícias.

“Deus cura. O que o médico não pode fazer, Jesus faz: cura aids [sida], coração, coluna. É maravilhoso”, diz a missionária Ana Silva, dentro do espaço que agora é improvisado para o culto pois a igreja está em obras, a renovar o chão.
O pastor Mike chega perto do meio-dia para a celebração, pede para abrirem a Bíblia no salmo 121. Há três mulheres na assistência, pelo menos duas delas vivem ali, e aparece um terceiro residente. Ajoelham-se. O cheiro a fritos inunda a sala. Não nos deixam subir a um primeiro andar, uma espécie de mezanino, mas aquela também é uma zona com residentes. Ao longe, por cima de uma mesa vê-se uma garrafa de óleo e tupperwares. Saberemos depois que vivem no armazém 25 pessoas, em 15 quartos.

Aparece então a filha do casal de pastores, já naturalizados portugueses, segundo diz: Ludmylla Pereira, de 23 anos. Com cabelo escuro e liso, calças de ganga e casaco amarelo, Ludmylla Pereira conta que estão implementados ali há 15 anos, e têm mais dois locais de culto, em Cascais e na Costa da Caparica. Ao contrário do que acontece na Amadora, lá não há alojamento. Têm ainda uma quinta no Montijo, mas serve apenas para reuniões sociais, afirma.

Ela vive com os pais na linha de Sintra e trabalha como auxiliar num hospital em Lisboa. Os pais já eram pastores no Brasil, “independentes”. As acusações são “completamente falsas”, afirma. “Não têm nenhuma prova disso. Há várias pessoas que chegam do Brasil e nem sequer conheciam os meus pais antes, nem sabem o que é essa igreja. Quando chegam, os brasileiros não têm dinheiro para alugar uma casa, e por conhecimento de outros sabem que estamos aqui, deixamos ficar até se estabilizarem, até arranjarem trabalho e casa. Mas muitos quando arranjam trabalho não querem sair porque é mais acessível.”
Segundo Ludmylla Pereira, os que ali vivem dão aquilo que podem para “ajudar a pagar a renda” do armazém. Outra moradora, além de Carol, também diz pagar 300 euros.
A filha dos pastores nega que ajudem na regularização dos imigrantes, ou que prometam o que quer que seja – garante que à excepção de uma pessoa que acabou de chegar, todos os outros têm um pedido de autorização de residência feito no SEF. “Acho que há um pouco de discriminação. A nossa igreja não tem ajuda da Segurança Social, não tem ajuda de ninguém. Pagamos cinco mil euros de renda e mil e tal euros de água e luz.”. E defende-se: “Fazemos ajuda humanitária.”

Quartos divididos com pladur
No espaço improvisado como igreja, que segundo Ana Silva era uma antiga discoteca, há um balcão onde estão pousados os panfletos para a doação do dízimo e de votos, com o número do NIB da conta bancária em baixo.
São cerca de 100 crentes que vão à igreja semanalmente. Nem todas dão o dízimo, diz Ludmylla Pereira. E há quem esteja alojado naquele espaço, mas não pertença à igreja, afirma. Todos pagaram o seu bilhete de avião para Portugal, garante.

Subimos ao primeiro andar do armazém, onde vivem sete adultos, e crianças – uma delas não terá mais de dois anos. Passamos por um corredor escuro, sem luz, onde há uma pequena sala com brinquedos, desenhos pintados nas paredes. As casas de banho são partilhadas, nas paredes vêm-se manchas de bolor. Numa das zonas que dá acesso aos lavabos está um grande fogão, encostado à parede, inactivo.
Os quartos são divididos por paredes em pladur - entre si, mas também da parede que os separa do corredor. O quarto dos filhos de Elisabete Azevedo, de 54 anos, que diz estar de visita como turista, tem um grande sofá e uma televisão plasma enorme onde estão a passar bonecos animados. Atrás da cama de casal há uma zona de arrumação da roupa, junto da janela está um armário que é usado para produtos de mercearia. Há uma janela para a rua, e mais bolor.

“Fiquei chocada [com as notícias]. Porque ele [o pastor] ajuda. Se fosse tráfico de pessoas eu como mãe teria denunciado, não ia vir do Brasil!”, diz Elisabete Azevedo. “A minha filha [de 24 anos] jamais iria deixar-se passar por uma situação dessas”, afirma.

A missão desta igreja é pregar o evangelho e a ajuda humanitária, afirma a filha dos pastores. “Fazemos cesta básica [cabaz de alimentos] para quem precisa, se tem gente doente os pastores vão a casa deles. É como se fosse uma família, se um não tem, o outro ajuda”.

O pastor Mike, de 35 anos, chegou a viver naquele espaço durante um ano, enquanto a sua casa estava em obras e “nunca” pagou “um cêntimo”, afirma. Diplomata de carreira, diz que fala sete línguas – é tradutor intérprete. Francês, filho de pais angolanos, converteu-se noutra igreja evangélica. “Quando vim para aqui [para a Assembleia de Deus Ministério do Avivamento] senti algo diferente”. Isso foi em 2008. Só há cerca de um ano é que Mike – que não quer dizer o apelido – é pastor.

Elogia o trabalho com as crianças, conta que fazem várias actividades e aprendem a tocar instrumentos, da bateria ao órgão. Sobre o posicionamento daquela igreja em relação a temas como as relações sexuais antes do casamento afirma: “Não condenamos as pessoas, condenamos o acto. Aconselhamos os jovens a conservarem a vida sexual para depois do casamento.” Já sobre a homossexualidade diz: “A ordem divina condena a prática, não as pessoas. A nossa regra de fé é o amor.” Afirmam que aceitam todos: “Temos ex-prostitutas, ex-toxicodependentes, ex-homossexuais.” Mike nega também que defendam posições políticas durante o culto. “Oramos por eles [políticos]. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa tem feito tudo ao seu alcance, o primeiro-ministro António Costa também.”
Quanto à investigação judicial, comenta: “Acreditamos que vai ser feita justiça”.


6.11.19

Adeus casas de repouso! A nova tendência é coabitação com amigos

Por Revista Saber é Saúde

Os lares de idosos têm sido a única opção real disponível para idosos, idosos aposentados que não podem mais morar sozinhos, mas também não têm família por perto que possa adicioná-los ao seu lar. Apesar do fato de que esta é uma opção comum, ninguém gosta de encarar a decisão de ter que se mudar (ou remover um de seus pais) para uma casa de repouso potencialmente solitária e pouco acolhedora. É isso que faz com que essa nova evolução na moradia de idoso, a Senior Cohousing (Coabitação), seja uma ótima alternativa!

A proposta do conceito cohousing sênior, nada tem a ver com casas de repouso para a terceira idade ou hotéis especializados em receber esse público. O projeto consiste em um grupo que opta por abrir mão dos modelos de residência tradicionais para unir moradia individual a um espaço comunitário.

Há, nesse ideal, pequenas habitações de uso particular (dormitório, minicozinha e banheiro) e uma área de uso comum com espaços de lazer, refeitório, salas de TV e lavanderias coletivas, por exemplo. Tudo em um mesmo terreno (uma gleba de terra) ou condomínio projetado para estimular o convívio, a sustentabilidade e a solidariedade.
Já sucesso de público e crítica na Dinamarca, EUA e Espanha, o conceito, que não é restrito à comunidade sênior – o filósofo grego Epicuro falava dele e difundiu seus propósitos três séculos antes de Cristo –, vem, aos poucos, chegando ao Brasil.

Segundo especialistas, o modelo cohousing sênior é um reflexo do que vem ocorrendo em todo o planeta: aumento da expectativa de vida da população e, com isso, o surgimento de uma comunidade madura cada vez maior, autônoma, ativa e carente de soluções para anseios e demandas.

Benefícios do Cohousing Senior em comparação com lares de idosos
Ambas as casas, tanto de repouso quanto cohousing sênior, têm suas listas de prós e contras. É importante considerar todos os pontos positivos e negativos antes de tomar a decisão de usar uma delas. Todo idoso tem necessidades e exigências únicas, muitas das quais as tornam mais adequadas para um tipo de casa do que para outro. Então faça sua pesquisa, entenda suas opções e tenha em mente os prós e contras básicos! Aqui estão alguns aspectos a serem considerados:

1. Comunidade
A coisa legal sobre os lares de idosos e cohousing sênior é que ambos fornecem comunidade e eventos para os moradores para desfrutar. Oportunidades sociais são comuns em lares de idosos e coabitação sênior. O que torna a coabitação sênior tão atraente, no entanto, é que os idosos são facilmente capazes de ter seus próprios amigos próximos por perto, em vez de uma sala cheia de estranhos.

2 – Privacidade
Enquanto os lares de idosos e a cohousing sênior oferecem residência privada, a cohousing sênior tem um pouco mais de privacidade. Isso porque os residentes não são colocados em locais tão próximos uns dos outros. Você pode ter sua própria casa ou apartamento com cohousing sênior, enquanto casas de repouso tendem a oferecer quartos menores muito mais perto

3 – Despesas e cuidados
Um ponto negativo dos lares de idosos é a despesa que eles acarretam. Os lares de idosos tendem a ser instalações de tempo integral, com pessoal bem treinado e muito cuidadoso. No entanto, tudo isso tem um preço. A co-habitação sênior acaba sendo menos caro, já que muitos dos moradores compartilham recursos. Dito isto, lares de idosos, muitas vezes têm cuidadores mais experientes e atenciosos. Ambas, as casas de repouso e a coabitação sênior, são mais seguras do que um idoso que mora sozinho, mas uma boa casa de repouso com boa equipe pode ser mais atenta do que uma vizinha observadora em uma comunidade sênior de coabitação.
A Cohousing sênior pode não ser para todos, mas é definitivamente uma oportunidade maravilhosa para muitos idosos. Especialmente se eles acham que a idéia de um asilo é triste, solitária ou deprimente . A coabitação sênior permite que os idosos mantenham algum controle sobre o que fazem, estabeleçam seus próprios horários e mantenham suas próprias amizades. Poderia ser o ajuste perfeito para muitos idosos que não precisam de cuidados constantes!

Outras fontes: healt hyholistic living

18.7.19

Amnistia Internacional preocupada com "pobreza extrema" e "demonização" de pobres no Brasil

in Sapo24

Fome no mundo continua a crescer e em 2018 afetou mais de 821 milhões de pessoas

O diretor executivo da Amnistia Internacional/Portugal, Pedro Neto, identificou hoje, como principais preocupações sobre o Brasil, a "pobreza extrema" e "demonização dos pobres", defendendo a necessidade de medidas para ajudar esta população.

Preocupações estas que são semelhantes às que a Amnistia Internacional tem em Portugal, embora a uma escala diferente, adiantou Pedro Neto em declarações à Lusa, após a sua intervenção no lançamento da nova série da Globo "Aruanas", sobre a Amazónia, e que conta com a parceria de mais de 28 organizações não-governamentais, que decorreu hoje em Lisboa.
"Há muito aquele discurso de que os pobres são malandros e não querem trabalhar e contribuir, e portanto é a demonização de uma classe económica que talvez necessitasse era de ajuda e de capacitação para sair da pobreza", sublinhou.

Para Pedro Neto, este discurso é dirigido sobretudo aos jovens dos subúrbios das grandes cidades brasileiras, para onde as pessoas migram à procura de trabalho e de oportunidades, mas "onde só encontram a exclusão".
"Esta é uma preocupação grave", reforçou.
A segunda preocupação em relação àquele país recai sobre "a militarização da segurança", acrescentou.

No Brasil, resolvem-se os problemas sociais e o crime pela força, comentou, e apesar de considerar que, às vezes, o "uso da força é necessário", Pedro Neto salientou que o preocupante é que "o outro lado da moeda não existe", ou seja, não há políticas de apoio à capacitação das pessoas para saírem da pobreza, e "até para os que cometem crimes para saírem desse mundo, mas convém separar as águas", ressalvou.
O terceiro aspeto preocupante é o das alterações climáticas, meio-ambiente e exploração dos recursos naturais.

E para o responsável da Amnistia Internacional, no Brasil existem duas ameaças neste domínio: "a das más políticas e a da perda de tempo para tentar travar essas más políticas".

Pedro Neto admitiu que o atual Governo do Brasil, liderado por Jair Bolsonaro, não tem conseguido implementar as suas ideias graças às lutas da sociedade civil, mas advertiu que a luta para as travar representa tempo que podia estar a ser aplicado na promoção de políticas de sustentabilidade.

"Estamos a consumir demasiado e a pôr em causa a nossa prosperidade por causa disso", disse ainda sobre o usso de recursos no planeta.
No Brasil, também há preocupações nesse domínio do uso dos recursos.

"Com a política do atual Governo e atual política muito liberal economicamente, receia-se que isso implique um uso abusivo dos recursos naturais”, de que o Brasil dispõe, concluiu.

5.11.18

Entrevista Boaventura de Sousa Santos

Camilo Soldado (texto) e Adriano Miranda (fotografia), in Público on-line

“A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir sapos”
Antes da primeira volta das eleições brasileiras, visitou Lula na prisão, onde encontrou um polícia que tinha lido os seus livros. O Brasil preocupa-o. Portugal deixa-o optimista. A “inovação” portuguesa tem todas as condições para se repetir, entende. Sobre os críticos, diz que apenas o insultam, mas que não discutem as suas ideias. “No fundo, a mediocridade grandiloquente é muito grande em Portugal”

Aos 77 anos, Boaventura de Sousa Santos continua a dividir o tempo entre Portugal, onde dirige o Centro de Estudos Sociais (CES), e os Estados Unidos, onde lecciona na Universidade de Wisconsin-Madison. Pelo meio, o sociólogo e jurista é um observador atento da América Latina, tendo participado na elaboração das constituições do Equador e Bolívia. É dos académicos portugueses de maior projecção internacional e mantém-se atento aos desenvolvimentos no Brasil, onde a eleição de Jair Bolsonaro representa mais um episódio no “ciclo reacionário global”. Falou ao P2 no seu gabinete no CES, em Coimbra, organização que ajudou a fundar e que assinala esta semana 40 anos.

Sobre Bolsonaro disse que “é mau, grotesco, grosseiro, sexista e racista”. E, agora, Presidente do Brasil. Como vê os próximos quatro anos?
Com muita preocupação. Muito do discurso e da retórica usada nos momentos de campanha, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, é extremamente violenta, agressiva e que tem uma característica nova, antidemocrática. Nestes casos, há uma recusa em discutir as ideias dos adversários. Como disse Bolsonaro na campanha, “os meus rivais políticos só têm dois caminhos: ou a prisão ou o exílio”. Bem, isto é o fim da democracia. Mas isto é o que se diz em campanha. O que é que se vai realizar depois é diferente. O próprio Trump manteve o seu discurso, mas teve de se articular com o sistema político que está no terreno. No Brasil, o problema é saber qual vai ser o sistema político com que ele vai ser recebido. Vai ser Presidente num Congresso onde 75% da câmara dos deputados é conservadora.

O partido de Bolsonaro é a segunda maior bancada, a seguir ao Partido dos Trabalhadores. Mas, no conjunto, são mais os partidos conservadores. Dentro deles há partidos de extrema-direita, que hoje têm alguma representação. Pelo menos na câmara dos deputados ele vai ter um Congresso consonante com as políticas que promete pôr em vigor. A preocupação é a de saber como é que esta consonância entre um Presidente que é obviamente de extrema-direita e um Congresso muito conservador vai enfrentar uma sociedade em que 47 milhões de pessoas votaram em Fernando Haddad e em que 30% não quis a polarização — não votou, votou nulo ou branco. É muita gente. Este Presidente não só elevou o nível de medo daqueles que são seus opositores, mas criou expectativas altíssimas entre aqueles que são seus apoiantes. É uma lógica militar que volta ao poder pela via democrática. A transição [para a democracia] foi muito controlada pelos militares e eles têm não só uma visão política diferente da população civil e dos partidos, mas uma ideia de superioridade moral. Esta superioridade moral vai ser transferida para dentro do governo, com ministros militares.
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Essa ideia é perigosa?
É, porque toda a diferença é estigmatizada. Se eu me considero superior moralmente e penso que uma família é um homem e uma mulher, tenho toda a justificação para liquidar os homossexuais. É uma lógica repressiva. O Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, tem uma sociedade civil bastante organizada, com muitos movimentos sociais. É evidente que vai haver resistência. Há uma sociedade civil que não está desarmada social e politicamente. Nas últimas semanas houve uma mobilização extraordinária, que não foi suficiente, mas mostra um apego à democracia que o Latinobarómetro não previa. Como é que vai ser enfrentada? Pela concertação ou pela repressão? Se acreditarmos no discurso do Bolsonaro, será pela repressão.


O Brasil de Bolsonaro quer ser o melhor amigo de Trump
Tendo em conta essas preocupações, a eleição de Jair Bolsonaro significa mais um passo na erosão da democracia ou a evolução para uma ditadura a curto prazo?
É difícil de prever. Costumo dizer que os sociólogos são bons a prever o passado. Está a preocupar-me uma confusão cada vez maior entre os conceitos de “ditadura” e de “democracia”. Estamos a entrar em regimes híbridos. Têm elementos de democracia, na medida em que há partidos, e continua a haver uma disputa eleitoral. Mas são democracias truncadas ou de baixíssima intensidade. Por exemplo, os militares, neste momento, falam da nova democracia, que é uma democracia sem o PT, sem a esquerda. Isto não é novo. Tivemos isso na Europa, depois da II Guerra Mundial, na parte Ocidental, a partir de 1945, na Itália e depois na Grécia. Os comunistas tinham a maioria devido à sua luta contra o nazismo e houve uma política de contenção desses partidos.


Falava da composição do Congresso. Mecanismos como o Supremo Tribunal Federal ou a imprensa são suficientes para combater esse ímpeto autoritário? Por exemplo, nos EUA, fala-se no sistema de checks and balances.
Um meu colega de Harvard, Steve Levitsky, acaba de publicar um livro fabuloso, How Democracies Die. Basicamente é [sobre] o fim do checks and balances que está a acontecer. A partir da nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA, temos uma maioria conservadora. Vão começar a surgir as decisões contra o aborto. Um retrocesso. Os checks and balances estão a ser postos em causa devido à retórica e trabalho de Donald Trump. É um problema mundial. Estamos a passar por um ciclo reaccionário global. Não é apenas o Brasil, também na Europa e noutros países da América Latina. A minha esperança é que esses sistemas de controlo sejam accionados. Podemos pensar nos meios de comunicação. É curioso que Bolsonaro diga da Globo e da Folha de S. Paulo o que Trump diz da CNN, do New York Times e do Washington Post. A lógica é a mesma, porque [o ex-conselheiro principal de Donald Trump] Steven Bannon lá vai dando as mesmas dicas do que se deve dizer. Quanto à imprensa, vamos ver: 120 milhões de utilizadores do Whatsapp têm como única fonte de informação o Facebook e o Whatsapp. Isto significa uma capacidade tóxica muito grande. Por outro lado, quanto aos tribunais, a minha preocupação também é grande. Vejo que foi a fraqueza dos checks and balances que levou Bolsonaro ao poder. Isto é, toda a operação Lava-Jato e atropelos à legalidade que se cometeram nesta investigação fizeram com que ela não fosse apenas uma luta contra a corrupção — que é perfeitamente legítima — mas uma luta de desestruturação do sistema político. Já tínhamos assistido a isso nos anos 1990, em Itália, e deu no [Sílvio] Berlusconi. Aqui deu no Bolsonaro. A direita ganharia tranquilamente as eleições de 2018 se deixasse estar Dilma Rousseff no poder. Não haveria destruição do sistema.

Disse já que um dos problemas do governo de Lula e do PT foi não ter promovido uma efectiva redistribuição de riqueza, mas antes canalizou o excedente.
Fui solidário, mas muito crítico em relação aos governos do PT exactamente por isso. Foi uma oportunidade histórica que se perdeu, porque tinha uma grande aceitação popular e podia ter feito uma reforma do sistema politico. Conseguiu-se reduzir o financiamento das campanhas eleitorais pelos empresários, que já não foi mau de todo. Havia realmente possibilidades. Por exemplo, quando se dá o grande boom da China, ninguém pensa que em 2009-2010 ia cessar.


Boaventura de Sousa Santos no seu gabinete do CES. “Há uma ciência que acha que, para ser objectiva, tem de ser neutra social e politicamente e outra que acha que pode ser objectiva, mas não neutra”
Disse que o julgamento de Lula tinha sido politicamente instrumentalizado para evitar a sua candidatura. Com a eleição de Bolsonaro, qual espera que seja o desfecho?
Tenho um grande apreço pelo primado do direito e pelo respeito da legalidade nas democracias. No caso do presidente Lula, acho que não foram respeitadas. Se estivesse solto, tinha ganho as eleições, o que significava que o golpe tinha sido um fracasso. O grande erro que o PT cometeu [na campanha eleitoral] foi só ter visto o lado bom da história. Mesmo na prisão, Lula era o candidato mais popular. Mas o segundo candidato mais popular era aquele que tinha o ódio mais visceral e mais primário ao PT, que subestimou a demonização do petismo. Foi um erro absolutamente histórico. Visitei o presidente Lula na prisão, li as sentenças e não há nenhuma argumentação jurídica que justifique aquela decisão. Por outro lado, temos de construir uma política democrática no futuro que não pode repetir os erros do passado. Isto é, o “lulismo” não pode voltar. Mas a figura do presidente Lula não pode ser condenada historicamente e morrer na prisão. Será de uma injustiça histórica enorme em relação a um homem que, com todos os erros que cometeu, conseguiu tirar 50 milhões de pessoas da miséria e da fome. Por outro lado, se as outras forças se concentrarem exclusivamente no slogan “Lula livre”, que eu próprio tenho defendido bastante, é uma luta em relação ao passado.
Não apresenta uma alternativa de futuro.

E, bem ou mal, esta política foi rejeitada. Penso que é um novo capítulo que está a inaugurar-se. Neste momento há Fernando Haddad, um homem honesto, muito moderado.
Mas falta-lhe o carisma de Lula.
Não sou grande adepto de carismas. O Hugo Chávez também tinha um grande carisma. O problema do carisma é que se cria uma grande desertificação à sua volta, depois só há o líder. Agora é preciso reconstruir. Prevejo que possa haver um novo partido de esquerda, um partido-movimento, a partir dos movimentos sociais, que mostraram o que houve de melhor nesta candidatura. A grande liderança [que surgiu], no meu entender, foi o Guilherme Boulos, do PSOL.

O Brasil vai ter de jogar uma coisa muito difícil em democracia, que é manter a memória. Perderam a memória da ditadura. Agora podem correr o risco de perder a memória dos anos de alguma inclusão social. Obviamente por causa da corrupção — e eu fui crítico na altura própria do modo como se estava a fazer a governação. A esquerda devia ter tolerância zero para com a corrupção, mas não foi essa a linha seguida. O futuro é esta ideia de que todas as esquerdas têm de se unir, mas não devem privilegiar uniões com a direita. A direita brasileira mostrou que só é democrática quando se pode servir da democracia para manter os seus privilégios.

Visitou Lula na prisão no final de Agosto. Sobre o que falaram?
A minha visita foi de meia hora, antes do Martin Schulz. Entro no edifício da Polícia Federal, que foi inaugurado pelo Presidente Lula há 11 anos. Está lá uma grande placa. Sou levado para a cela, por um jovem polícia federal, cujos quadros superiores têm formação universitária. No caminho, diz-me: “Professor, eu sou um devorador dos seus livros.” Fico com um sorriso amarelo e digo que os meus livros não dão para justificar a prisão do presidente Lula. Ele diz-me: “Pois é, professor, mas eu tenho de obedecer a ordens.” A cela é solitária, bastante arejada e grande, com uma passadeira para fazer ginástica, televisão, etc. Já o conhecia. Ele perguntou-me sobre a conjuntura da América Latina. Dei-lhe a minha perspectiva, de que o continente estava a mudar de uma certa esquerda — problemática, é certo — para uma direita. Depois perguntei-lhe porque não liberava o seu sucessor. Eu fui adepto de que ele liberasse Haddad o quanto antes. Achava que uma coisa é o afecto que o povo tem a Lula. Mas a adesão a Lula não era uma adesão às pessoas indicadas por Lula. Depois, o presidente Lula disse-me que está inocente e que vai lutar toda a vida para provar a sua inocência.

"A direita brasileira mostrou que só é democrática quando se pode servir da democracia para manter os seus privilégios"

Sobre Bolsonaro, preocupa-o mais a atitude autoritária ou a política económica?
A política económica. No fundo, é isto: o ciclo reaccionário global é o capital financeiro, que não precisa de gente, que cria riqueza a partir do dinheiro e não da produção industrial. O Brasil desindustrializou-se muito nestes últimos anos. O capital financeiro vai ser o Paulo Guedes. É um homem que esteve com a política económica do Pinochet, é dos Chicago Boys [grupo de economistas chilenos que estudaram nos EUA nos anos 70 e 80] e que conhece muito bem a política neoliberal. Começa agora um capitalismo financeiro que é concentrador de riqueza — como vimos em Portugal durante a troika — e um ataque aos direitos sociais. Como eles já são fracos no Brasil, vai ser muito fácil destruí-los. O meu alarme foi quando o grupo de Nouriel Roubini — o economista turco que previu a crise de 2008 — apresentou um estudo a dizer que os mercados nada tinham contra Bolsonaro. Vi que era o certificado de legitimação, não de Bolsonaro, mas da política dele. Sobre economia, ele manda para o Paulo Guedes.

Durante a ditadura militar, o crescimento económico ajudou a legitimar o regime. Receia que aconteça o mesmo?
A política económica liderada pelo capital financeiro não está a aumentar o nível de desenvolvimento em nenhum país. A própria Europa tem vindo penosamente a ver isso. Não prevejo um grande boom económico porque não vejo a China a promover a mineração como antes. Steve Bannon ainda agora veio dizer que o Brasil estava dominado pela China e que tem que articular-se é com os EUA. Mas os EUA são tão predadores quanto a China. Qualquer um quer o seu máximo de lucro. Na área extractivista pode haver mais algum crescimento, mas nada do que aconteceu no tempo da ditadura. Nesse tempo foi possível um desenvolvimento de infra-estruturas nacionalista. A Embraer é produto da ditadura. Vai ser comprada pela Boeing e vai desaparecer. A Petrobras era uma grande empresa. Claro que houve corrupção, mas era bom eliminar a corrupção e manter a empresa. Mas a empresa está a vender ao desbarato praticamente toda a riqueza do Brasil.

Estamos a assistir a uma mudança de ciclo regional na América Latina? Há uns anos tínhamos um grupo de países alinhados à esquerda.
Penso que não é regional. A tendência parece-me global. Estamos num interregno entre duas globalizações. A que começou em 1989, com a queda do muro de Berlim e que veio até ao dia de hoje, que assentou em grandes níveis de rentabilidade para os EUA, com a cooperação satélite da Europa, foi a Internet dos computadores pessoais. Essa fase está a entrar em crise. Os computadores e programas são baratos, os smartphones cada vez custam menos. A rentabilidade desta inovação caiu. Quando cai, termina a fase da globalização e aumenta a rivalidade entre países. Foi assim de 1870 a 1914 e depois tivemos duas guerras praticamente seguidas. Neste momento, estamos a ver quem vai controlar a próxima globalização. A inovação tecnológica da próxima globalização vai ser a robótica, a automação e a inteligência artificial. Quem é que está bem posicionado para a controlar? A China. Neste momento, toda a política internacional é a rivalidade entre os Estados Unidos e a China. Só que a China é credora da dívida americana e muitas empresas americanas funcionam à custa do seu investimento na China. Portanto, não pode ser atacada directamente. Tem de ser atacada através dos seus aliados. Basta ver o que diz Steve Bannon na Folha de São Paulo desta semana: era preciso neutralizar a China na América Latina. Quando há rivalidade entre países, o império em decadência quer lealdade total. Não aceita autonomias. Por exemplo, a União Europeia ainda tem lógicas que não são totalmente amigas dos negócios dos EUA. A política dos EUA, neste momento, é destruir a UE. É muito mais fácil lidar com uma Europa dividida do que com uma Europa unida.

Mas acredita que a ascensão do eurocepticismo está relacionada com isso?
Exactamente. Não é teoria da conspiração. Porque é que o “Brexit” foi apadrinhado pelos Estados Unidos? Para criar a primeira fractura na Europa. Porque é que os EUA dizem que os únicos países que estão a seguir um caminho correcto são a Polónia e a Hungria? São os que estão a contestar a UE. O objectivo é criar nas próximas eleições — e Steve Bannon está aí com o seu The Movement — uma maioria de eurocépticos que desmembre a União Europeia e os Estados Unidos possam negociar país a país. E, nessa altura, isolam a Alemanha, a grande potência económica da Europa. Na América Latina, é o alinhamento total. É Macri na Argentina, é Piñera no Chile e é agora Bolsonaro no Brasil. Nós conhecemo-la menos, mas a China também está a ter uma estratégia de hegemonia. Aquela grande infra-estrutura continental, a iniciativa belt and road, é para criar aliados. Para dar a última chave disto: onde é que a guerra de tarifas com a China está a incidir? Nas transferências de alta tecnologia. Os estudos da CIA, altamente sofisticados, dizem claramente no Global Trends 2030 que a China será a primeira economia mundial em 2030. Toda a política dos EUA é para impedir que isso ocorra.

Estamos a chegar ao fim da legislatura. Continua a ver com bons olhos esta solução governativa?
Continuo. Acho que tem todas as condições para continuar. Portugal é uma inovação. O efeito desta aliança de esquerda foi puxar um bocado a direita para o centro. O PSD teve de se passar para o centro. Perdeu o excesso neoliberal de Passos Coelho como única solução de poder. Penso que uma direita neoliberal que se opõe a qualquer política social, como foi a política de Passos, por agora, está neutralizada.

"Sou o alvo preferido de alguma direita do país, mas sou apenas o director científico do CES. O CES são 800 pessoas, 150 investigadores. É muita gente"
A actual solução teve por base “convergências mínimas” para chegar ao poder em 2015. Passava por afastar Passos Coelho, por exemplo. Não havendo essa circunstância, acha que mesmo assim é repetível?
Não vejo nenhuma razão para não acontecer. Na Alemanha, uma coligação de outro tipo, que era o SPD com uma direita muito moderada e do centro, durou muito tempo. Está agora em crise, mas é ao fim de muitos anos. Não vejo nenhuma razão para que ela tenha de ser apenas uma solução de emergência contra a austeridade.
Mas teria de alargar as convergências.

Provavelmente. E teria de haver um pouco de mais ousadia e de cumprir as promessas de 2016. A ideia é que a partir de 2018 teríamos alguma folga para fazer investimento nas infra-estruturas e na função pública. Isso tem de ser cumprido. A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir alguns sapos. Por exemplo, no caso da legislação laboral, que foi negociada com a direita. Depende um pouco do PS, que continua a ter dentro de si próprio uma corrente mais à direita. Não é a corrente de Mário Soares, que António Costa representa, mas são outras correntes que se foram construindo na lógica de Tony Blair. Um deles é Augusto Santos Silva, meu colega sociólogo. [Agora] É-lhes mais difícil, porque tudo o que diziam da grande desgraça que seria o PS articular-se com a esquerda não aconteceu. A esquerda tem mostrado contenção, um sentido de regime democrático e de defesa da democracia, embora com divergências. O PCP é contra a NATO, o PS é a favor, o PCP é contra o euro, o PS é a favor. Mas vão-se entendendo. São alianças pragmáticas.
A questão sobre a possibilidade de repetir a solução ia nesse sentido, de haver diferenças em que não há convergência possível.

Sim, mas onde há convergência ainda há muita matéria. Foi para parar a austeridade.
... que agora já não se coloca.
Coloca. Não chegámos ainda aos níveis de vida que tínhamos antes da crise. Ao nível de desemprego, sim. Portugal estava a aproximar-se da média europeia até 2000. Quando Portugal entrou para a UE em 1986, tínhamos 50% do rendimento médio da União. Em 2000, estávamos em 75%. Desde 2000 temos vindo a regredir. Nem sequer começámos uma aproximação. Estancámos e agora era preciso começar uma aproximação. Para isso, uma solução de esquerda era melhor.

De uma perspectiva de esquerda, acha que foi feito o suficiente nos últimos quatro anos. Houve uma política de reversões das medidas da troika. Mas isso é suficiente?
Não é. O que estava nos acordos era que uma primeira fase da articulação parlamentar fosse conter a austeridade. Era parar a privatização do que ainda era possível privatizar. Estancar também o empobrecimento das classes médias e baixas. Isso fez-se. Temos vindo a ver que, ao nível da função pública, há alguma tentativa de repor os rendimentos perdidos. Há limitações europeias muito graves e aqui é que a UE vai ter uma palavra decisiva. O facto de a legislação laboral ser votada à direita não é apenas por vontade do PS, é uma política da UE, que quer a flexibilização, ou seja, a precarização das relações do trabalho. Acho que os portugueses ficaram muito ofendidos com a agressividade de 2011, sobretudo jovens, mandados emigrar, que não tinham lugar no país... Ficaram com uma má memória daqueles tempos.
"Não vejo nenhuma razão para que [a aliança de esquerda em Portugal] tenha que ser apenas uma solução de emergência contra a austeridade"
Boaventura de Sousa Santos
Ainda assim, a direita teve a maior parcela dos votos em 2015.
Mas isso sempre foi tradicional em Portugal. Desde 1974 que a maioria vota à esquerda e somos governados à direita porque a direita está unida e a esquerda está dividida. Não digo em todos, mas em grande parte dos ciclos eleitorais o país tem votado à esquerda. Agora há uma unidade de esquerda e tem de haver a mesma vontade dos três partidos em manter a coligação. Não vejo nenhuma razão para que seja impossível. Sobretudo pela credibilidade que a experiência portuguesa teve na UE. Quando está a ser atacada pelos Salvinis, pelos Kaczynskis e pelos Orbáns, vai dar um tiro no pé e virar-se contra estes, que são os que estão a defender a UE? Portugal tem todas as condições para que as instituições europeias facilitem a continuação desta experiência. O que eu prevejo, e posso estar a ser optimista, é que a própria UE está a começar a olhar para si própria e a ver esta política neoliberal, que é construída por mais de 600 lobbyistas em Bruxelas.

Em 2017, também se mostrava optimista em relação a uma eventual exportação da “geringonça”.
Mantenho-me optimista. Este livrinho [puxa da prateleira o livro Esquerdas do Mundo, Uni-vos!] saiu no Brasil e vou lançar agora a edição espanhola. Estão a pedir edições em Itália, no México, na Colômbia e na Argentina, para já. Esta ideia da unidade de esquerda está a fervilhar na política. Não como soluções de governo, mas como articulação. É uma vitória contra o dogmatismo e o sectarismo que dominou a esquerda durante muito tempo. Penso que as esquerdas começam a ver que têm de se unir, porque qualquer dia é tarde demais.

Falou do papel central da Alemanha. Agora que a saída de Angela Merkel está no horizonte, há a hipótese de a crise das democracias chegar a Berlim? O AfD, de direita radical, está a crescer.
É um perigo real. A Alemanha destruiu a Europa duas vezes pela guerra. Quando veio a crise da Grécia, o meu medo era que a Alemanha destruísse a Europa por via financeira. Temos muito medo da Alemanha. No entanto, ao contrário do que acontece no Brasil, a memória do nazismo foi muito forte. Não houve um branqueamento.

Terminou o doutoramento em Yale em 1973 e voltou nesse ano para Coimbra. Cinco anos depois fundou o CES, que está agora a comemorar 40 anos.
Estava contratado para ficar na Universidade de Nova Iorque, mas vim a Portugal, para ver como estava. Era um período de abertura do regime marcelista e tinha-se criado em Coimbra uma faculdade nova [a de Economia] pelo ministro mais liberal, Veiga Simão. Comecei a dar aulas sem compromisso em Setembro e a 25 de Abril do ano seguinte veio a Revolução. Nessa altura, decidi voltar a Portugal e desvinculei-me da Universidade de Nova Iorque. Depois fui liderar a Faculdade de Economia, que ainda não tinha Sociologia. Em 1978, criámos aqui o CES, para começar a fazer investigação na área das ciências sociais. Na altura, havia apenas o gabinete do doutor [Adérito] Sedas Nunes, em Lisboa, que deu origem depois ao Instituto de Ciências Sociais (ICS).

Havia um défice de estudos académicos nessa área?
Absolutamente. O único grupo era o Gabinete de Investigações Sociais, de Sedas Nunes, que era tolerado. Quando vim dos EUA, tive uma conversa com ele, que me convidou para ficar. Eu disse-lhe que queria fazer alguma coisa em Coimbra. O CES surge tardiamente na Europa, mas hoje somos um dos maiores centros de ciências sociais, uma comunidade de 800 pessoas. Na altura, éramos meia dúzia. Juntámo-nos e tentámos fazer do atraso uma força.

O atraso social do país justificava que surgisse um centro do género?
Todas as teorias sociológicas que tinha estudado nos EUA não se aplicavam a Portugal, que não era um país do primeiro mundo, nem era do terceiro mundo. Era um país intermédio, a que chamámos depois a “semiperiferia”. O objectivo era mostrar que a especificidade sociológica e política exigia uma análise feita por nós próprios com base em quadros teóricos feitos por nós a partir do conhecimento internacional. Fizemos do atraso um avanço. Somos hoje uma instituição muito internacionalizada, de tamanho médio, com publicações científicas muito fortes e com uma responsabilidade cidadã. Durante a crise, o Observatório das Crises e Alternativas foi uma alternativa ao pensamento único.

O CES confunde-se com a sua actividade cívica?
Não. O CES é extremamente plural. Tem gente que está próxima de praticamente todos os partidos e actividades cívicas muito diferentes. Sofremos um bocadinho de “Lisboa-centrismo”, que cria estereótipos. Alguns cientistas sociais conservadores não gostam da posição que nós temos no país. É uma posição de compromisso com a cidadania e com a democracia. Sou o alvo preferido de alguma direita do país, mas sou apenas o director científico do CES. O CES são 800 pessoas, 150 investigadores. Muita gente.

O facto de se posicionar à esquerda influencia a forma como as pessoas percepcionam o seu trabalho?
Não. Há outras esquerdas aqui dentro, tem outras pessoas que não têm a minha posição. Gostaria de saber porque é que sou o alvo preferido de alguma direita na comunicação social. Talvez porque lhes cause alguma impressão. Normalmente não discutem os meus argumentos, insultam-me.

"A mediocridade grandiloquente é muito grande em Portugal"
Tem que ver com posicionamento político ou com uma ideia de ciências sociais?
Temos nas ciências sociais duas correntes que convivem democraticamente há muitos anos em todo o mundo: há uma ciência que acha que, para ser objectiva, tem de ser neutra social e politicamente e outra que acha que pode ser objectiva mas não neutra. A segunda até vem da física quântica. Quando observamos os átomos, ou observamos a sua velocidade ou a sua posição. Não podemos analisar as duas coisas. Com os cientistas sociais é o mesmo. Eu quero ser objectivo, mas tenho de saber de que lado estou. Aprendi isto nos EUA e em Yale, num centro conservador do conhecimento. Eu estou do lado dos oprimidos ou dos opressores? Do lado de quem discrimina ou de quem é discriminado? Há uma corrente, que se baseou no positivismo, que diz que objectividade é neutralidade. Se olhar para o comportamento cívico desses cientistas sociais, são todos de direita. Portanto, consideram-se cientistas sociais objectivos e neutros e têm uma posição cívica de direita. Porquê? Porque não são neutros.

Diz que os seus críticos não discutem as suas ideias, insultam-no. É mesmo assim?
Pois claro. Dei uma entrevista à Análise Social [uma publicação do ICS, em 2012] e dois membros do conselho consultivo, a doutora [Maria] Filomena Mónica e o doutor António Barreto, demitem-se por me terem feito uma entrevista? Isto é ciência? Não podemos aceitar a pluralidade? Eu nem gosto de pôr nomes, mas quando uma dessas pessoas diz numa sua croniqueta que o CES é a instituição de ciência mais nefasta do país, acha que não é um insulto? Não têm coragem de discutir. Os meus livros estão aqui [mostra um livro da sua autoria, The End of The Cognitive Empire, da Duke University Press], eu publico nas melhores editoras norte-americanas. Portugal é muito provinciano. Essas pessoas nunca aceitaram que houvesse ciências sociais fora de Lisboa. Sou um grande amigo da actual directora do ICS, da Karin Wall. São coisas que passaram com uma certa corrente nessa instituição rival, que já não está presente sequer. Foram coisas do passado que eu gostava que ficassem no passado. Se eu quero unir as esquerdas, não quero também unir os cientistas sociais na sua diversidade? Não quero que sejam todos antipositivistas, mas que mostrem o que falam. No fundo, a mediocridade grandiloquente é muito grande em Portugal.

Boaventura rima com ditadura
Não é só na academia que tem críticos.
Há um de estimação na última página do seu jornal que aproveita qualquer oportunidade. Depois, como têm alguma influência, tenho de responder a jornalistas estrangeiros coisas que ouvem e pensam que são verdade. Por exemplo, converteram-me num defensor da Venezuela. Eu fui muito crítico de Hugo Chávez.
Isso foi por causa do artigo que escreveu Em Defesa da Venezuela.
Contra a demonização e o embargo! Mas nunca foi uma defesa total do regime da Venezuela. Enfim, uma crónica no seu jornal, “Boaventura rima com ditadura”, diz tudo. É um insulto, não é uma análise. De modo que, meu caro, temos de estar preparados, porque isto é uma luta política.

20.7.18

Existem 26 mil “escravos modernos” em Portugal

in o Observador

Existem 26 mil "escravos modernos" em Portugal. Angola, Brasil e Moçambique são os países lusófonos com mais habitantes nestas condições, totalizando 720 mil.

Existem 26 mil “escravos modernos” em Portugal, segundo um relatório da fundação australiana Walk Free apresentado esta quinta-feira nas Nações Unidas. Angola, Brasil e Moçambique são os países lusófonos com mais habitantes nestas condições, totalizando 720 mil.

O relatório, denominado “Índice de Escravatura Global 2018” e que analisou 167 países, estima que o Brasil tenha 369 mil “escravos modernos”, seguindo-se Angola com 199 mil e Moçambique com 152 mil. No ‘ranking’ dos países lusófonos seguem-se Portugal, com 26 mil, Guiné-Bissau, com 13 mil, Timor-Leste, com 10 mil, Guiné Equatorial, com 7 mil e Cabo Verde, com 2 mil “escravos modernos”. São Tomé e Príncipe não foi reportado.

O relatório revela ainda que, embora tenha o maior número de “escravos modernos”, o Brasil é o país lusófono que apresenta menor percentagem de habitantes nesta situação, com 0,18%. Timor-Leste, com 0,77%, é o país lusófono que apresenta mais “escravos modernos” por habitante, ocupando o 31.º lugar do ‘ranking’ presente no relatório.

O ‘ranking’, que ordena os países por ordem decrescente da taxa de “escravos”, coloca a Guiné-Bissau, com 0,72%, na 36.ª posição, à frente de Angola que, com 0,75%, se encontra no 39.º lugar. A Guiné Equatorial, com 0,64%, é a 50.ª da tabela, seguindo-se Cabo Verde em 86.º, com 0,41%. Brasil, com os já mencionados 0,18%, e Portugal, com 0,25%, são os países de língua portuguesa melhor classificados, ocupando, respetivamente, as posições 142 e 120.

No contexto do relatório, a “escravatura moderna” abrange um conjunto de conceitos jurídicos específicos, incluindo trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado, tráfico de seres humanos, escravidão e práticas semelhantes à escravidão.

No número absoluto de pessoas consideradas como integrantes da “escravatura moderna”, a Índia (7,99 milhões de indivíduos estimados), China (3,86 milhões), Paquistão (3,19 milhões), Coreia do Norte (2,64 milhões), Nigéria (1,39 milhões), Irão (1,29 milhões), Indonésia (1,22 milhões) e República Democrática do Congo (1,05 milhões) são os oito países acima do milhão de “escravos”, embora tal resulte do facto de serem dos países mais populosos do mundo.

Por outro lado, Mauritânia, Luxemburgo, Suriname e Barbados são os quatro países com um número de casos estimados igual ou inferior a mil.

21.2.18

“Não podemos depender da chuva para produzir alimentos”

in Expresso

O engenheiro agrónomo que pôs em marcha o programa Fome Zero no Brasil — que em 2003 tirou da fome milhões de brasileiros — esteve em Lisboa para participar numa reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) sobre agricultura familiar: “Em África, deveríamos estar a criar dez milhões de empregos por ano; como só são gerados três a quatro milhões”, o défice é enorme, e isso leva muitos jovens a arriscar a vida na “travessia do Sara e do Mediterrâneo. Por isso é que tentamos convencer os doadores a investir em África em vez de andarem a criar muros” na Europa.

As Nações Unidas defendem o Direito Humano à Alimentação Adequada, mas ainda existe fome em muitos locais do mundo. Porquê?
A fome passa pela guerra, pelos conflitos, e também pela falta de dinheiro que resulta do desemprego. Há produtos disponíveis ao contrário do que acontecia nos anos 60 em que países como a Índia, o Bangladesh, e outros tiveram grandes crescimentos populacionais e falta de alimentos para tantas pessoas. Só que agora muitos não têm dinheiro para os comprar.

Isso significa que os chamados países ricos deviam ajudar, investindo nesses países e ajudando a inverter o ciclo?
Em países como o Mali, o Chade, a Eritreia e outros há conflitos mas também há falta de emprego para os jovens. Nos países africanos temos um défice de seis milhões de empregos por ano; se formos à causa última, faltam políticas de desenvolvimento rural. O caminho passa por uma aposta na agricultura familiar que produz 80% dos alimentos consumidos no mundo e cria postos de trabalho.

A resposta alimentar aos refugiados de guerra está a ser suficiente?
O que conseguimos fazer em situações de emergência é dar a alimentação básica. Mas não conseguimos fazer mais do que isso por falta de recursos; as crianças e mulheres são as grandes vítimas destes processos...

Comida em quantidade significa alimentação apropriada?
Não, não significa. Basta lembrar que Portugal tem um problema de obesidade; já teve fome, agora não tem, mas a obesidade é sinal de má alimentação.

A CPLP está preocupada com o papel da indústria alimentar no combate à obesidade e ao desperdício alimentar?
A CPLP é a segunda comunidade de países a ter uma política agrícola comum, e quero lembrar que a primeira foi a União Europeia. Ao ter uma política agrícola comum considera a alimentação uma prioridade e a prova é que um país como Angola fez grandes progressos em termos de autonomia alimentar, embora tenha o problema de ter minas nos terrenos, que dificultam a agricultura em certas áreas. Mas há que estar atento ao desperdício alimentar; o que se desperdiça quase que daria para alimentar a população mundial que tem falta de alimentos.

Como é que se combate o desperdício?
Com educação alimentar. A indústria tem de ter um papel ativo; hoje fabricam-se porções muito grandes de alimentos, incluindo as bebidas, que quase ninguém consome por inteiro. Vai fora e é um desperdício.

A agricultura biológica é mesmo mais saudável?
Esperamos que sim. Eu próprio sinto diferença quando consumo produtos biológicos, porque tenho algumas alergias.

Pode vir a ser mais barata?
O preço ainda é alto porque se produz pouca quantidade. Se se produzir mais e os canais de distribuição mudarem, o preço cai. Em Itália, existe o programa Km 0, que incentiva restaurantes a utilizarem produtos locais isentos de impostos.

O clima está a mudar e isso vai afetar a produção de muitos alimentos. Como se faz agricultura com menos água?
Não podemos continuar a depender da chuva para produzir alimentos. Tem de se usar o sistema gota a gota que consome mil vezes menos água do que a rega por inundação.

Portugal é um exemplo em termos agrícolas?
Melhorou muito. Soube acrescentar valor aos produtos que produz tornando-os competitivos.

O homem da luta contra a fome é neto de um português
Nasceu nos EUA, filho de brasileiros, e a biografia oficial também lhe estabelece uma ligação a Itália. Mas José Graziano da Silva, “um brasileiro na elite da ONU”, como o retratou a revista “IstoÉ”, diz com orgulho que o seu tio-avô, António Gomes do Céu, foi “guarda dos Pinhais Reais de Leiria”. Tem 68 anos, é neto paterno de Maria Gomes do Céu e José Gomes da Silva, dois portugueses da zona de Leiria que emigraram para o Brasil. Quando era estudante trabalhou como fotógrafo no estado de São Paulo.

8.2.18

Brasil. FAO admite que crise económica volte a colocar o país no “mapa da fome"

in RR

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, disse esta quarta-feira, em Lisboa, que o crescimento económico é uma das formas para o Brasil não correr o risco de voltar a integrar o mapa da fome.

“Eu tenho discutido muito isso (da possibilidade do Brasil voltar a integrar o mapa da fome, organizado pela FAO) e acompanhado, muito de perto, os números.
O Brasil tem mostrado números muito ruins nos últimos meses (…). O crescimento é um caminho, poderá ajudar o Brasil a sair desta dificuldade neste momento”, disse o brasileiro, eleito diretor-geral daquela agência da ONU em 2011.

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) falou aos jornalistas depois da sessão de encerramento da Reunião de Alto Nível sobre Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que se realizou entre segunda-feira e este dia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O Brasil saiu do mapa da Fome (elaborado pela FAO desde 1990) pela primeira vez em 2014, quando 3% dos brasileiros sofriam de uma restrição alimentar severa. Um país com mais de 5% da população subalimentada entra para o mapa da FAO.

De acordo com o Banco Mundial, cerca de 28,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2004 e 2014, mas também avalia que, em 2016, entre 2,5 milhões e 3,6 milhões de pessoas voltaram a viver abaixo do nível de pobreza.

José Graziano da Silva referiu, recentemente, aos meios de comunicação brasileiros que estes 2,5 a 3,6 milhões de pessoas fazem parte de uma população flutuante que vive em torno da linha da pobreza. São pessoas que não conseguiram vencer ainda a pobreza extrema.

“Agora aparece uma nova esperança com as projeções de crescimento para este ano de 2018 e para o próximo. O Brasil tem uma população muito jovem, então o país tem de crescer num ritmo maior em relação à taxa de crescimento da população jovem. Isso significa crescer, pelo menos, 2% ao ano, coisa que não acontece há três anos”, referiu Graziano da Silva.

“O crescimento do desemprego preocupa-nos muito e principalmente, preocupa-nos os cortes dos programas sociais por dificuldade fiscal que o Governo enfrenta neste momento. Estas situações é que são a grande ameaça”, indicou o diretor-geral da FAO, que foi um dos principais elementos da elaboração do programa Fome Zero, lançado no Governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), com o objetivo do combate à fome e as suas causas estruturais.

No Brasil em 2003, existiria cerca de 44 milhões de pessoas ameaçadas pela fome. Hoje, o programa do Governo de Lula da Silva chama-se Brasil Sem Miséria — criado em 2011 ainda no Governo de Dilma Rousseff (2011-2016) — e continua a implementar uma série de medidas do Fome Zero, como o Bolsa Família (programa de transferência de renda para famílias carenciadas).

Entretanto, com a crise económica que abala o Brasil, o Governo do Presidente Michel Temer fez cortes significativos nos programas sociais.

Na sessão de encerramento da Reunião de Alto Nível sobre Agricultura Familiar e Desenvolvimento Sustentável na CPLP foi assinada pelos membros de cada país do bloco lusófono, e também por José Graziano da Silva, a Carta de Lisboa pela Agricultura Familiar na CPLP.

9.8.17

Casa de Repouso, que nada! A moda agora é envelhecer com os amigos!

in Perfeito Guru

Sabemos que a população mundial está envelhecendo. A previsão é de que em 2050, o mundo tenha o triplo de pessoas com mais de 60 anos. O envelhecimento pode ser tratado de diversas formas para que seja algo bem vivido e com qualidade de vida.

A nova moda agora é Cohousing, um esquema de moradia criado na Dinamarca, que valoriza o contato com os amigos em comunidade. Trata-se de uma espécie de vila privada. Cada morador ou casal tem sua casa e conta com espaços comuns para convivência, lazer, entre outros.

Cada Cohousing tem regras próprias de convivência e o modelo deu tão certo que já existe em vários países da Europa, Estados Unidos e chega no Brasil, em Piracicaba.

23.1.17

Prato de Rua: autocolantes sinalizam doações de comida

in Público on-line

No Brasil, qualquer pessoa pode deixar um saco com comida ou artigos de mercearia para aqueles que mais precisam. Basta imprimir um autocolante de sinalização

“Para tentar ajudar quem tem fome a encontrar com facilidade a comida, sem precisar de revirar o lixo, sinalizamos um ponto para doações de comida em condições de consumo”. Esta é a descrição do projecto brasileiro Prato de Rua, recentemente posto em marcha por um grupo de cidadãos anónimos.

A premissa é simples: qualquer pessoa com comida em excesso pode deixá-la acessível a quem não a tem e, assim, diminuir o desperdício alimentar. Basta imprimir um autocolante — disponível para download — para ser colocado no ponto de acessibilidade (contentores do lixo, sobretudo) e deixar, aí, um saco de comida para ser consumida. Assim, quem tem fome não precisa de abrir os contentores em busca de algo comestível.

O colectivo de anónimos responsável pelo Prato de Rua chama-se Makers Society e a ideia é que também restaurantes ou supermercados possam decidir doar comida e artigos de mercearia.

4.12.15

Jovem portuguesa dedica a vida a ajudar crianças e famílias na maior favela do mundo

In "RTP"

O sonho de fazer voluntariado internacional levou Marta Baeta ao Quénia, onde se apaixonou por Kibera e percebeu que a sua missão era ajudar as crianças e famílias que vivem em condições desumanas na maior favela do mundo.

Para o conseguir, Marta, 26 anos, criou o projeto "From Kibera With Love", que apoia 65 crianças e jovens, mas também os seus pais na criação e gestão de negócios para poderem dar algum suporte aos filhos e comprando-lhes camas e colchões para deixarem de dormir no chão e mesas para as refeições.

Em entrevista escrita à agência Lusa, a propósito do Dia Internacional do Voluntariado, que se assinala no sábado, Marta recorda como nasceu a vontade de ser voluntária e os obstáculos que encontrou quando em 2012 chegou sozinha a Kibera para três meses de voluntariado.

Marta sempre acreditou que podia mudar o mundo: "sempre tive esse impulso e hoje em dia é maravilhoso todos os dias ao acordar aperceber-me que isso realmente está a acontecer" e poder "gritar que estou a mudar a vida de mais de 100 pessoas".

Quando reuniu o dinheiro necessário, Marta fez uma pausa de um semestre na faculdade e partiu para o Quénia. "A verdade é que não tinha nada que me prendesse a Portugal".

Não sabia bem o que a esperava e como iria dar aulas e brincar com crianças com o seu "terrível inglês", mas "o mais engraçado foi ver que aquelas crianças ainda diziam menos" do que ela.

"Falavam em swahili que hoje é um idioma que domino o suficiente para sobreviver todos os dias em Kibera, onde vivo" e onde "a corrupção e o oportunismo" são "um desafio constante".

Após regressar a Portugal, a vida de Marta deu uma volta de 180º e passou a viver em função do projeto. Havia muita gente a querer ajudar em Portugal mas não sabia como.

"Eu estava entre as pessoas que precisavam de ajuda e as que queriam ajudar e a partir daí foi como uma bola de neve", a história destas crianças foi-se espalhando através do Facebook, as doações começaram a crescer e o projeto nasceu oficialmente em 2013 para chegar a mais pessoas.

Em três anos, o projeto "cresceu imenso", afirma Marta, que não tem "mãos a medir" para conseguir cumprir as tarefas do dia-a-dia, entre as quais falar com os professores dos miúdos, ir ao banco pagar as contas das escolas, comprar o que as crianças precisam e ir ao médico quando alguma está doente.

"Olhando para trás e entre ameaças de morte, vários problemas e obstáculos, relembro a cara satisfeita e ao mesmo tempo assustada das 16 crianças que coloquei no 1.º ano em 2013" e que hoje já têm a companhia da família e dos amigos e acesso a "educação de nível", cuidados médicos, alimentação e atividades extracurriculares.

O que mais a fascina nesta aventura é "ter a certeza que está "a mudar a vida" destas crianças, que não tinham a infância que mereciam, não sabiam brincar, não sorriam e não demonstravam os seus sentimentos.

Mas, diz, nada disto seria possível "sem a ajuda de milhares de pessoas" que confiam no seu trabalho, entre os quais se encontram voluntários portugueses, como Daniela Carvalho.

Para Daniela Carvalho, a experiência em Kibera foi "arrebatadora". Como a Marta disse `Kibera é o sítio mais feio do mundo mas com as crianças mais lindas do mundo`, e "é verdade", diz à Lusa.

Apesar de a favela ter "um nível de miséria" como nunca viu noutras missões, Daniela diz que "as crianças são felizes, têm fogo e vida dentro delas".

A jovem contou que a vontade de fazer voluntariado nasceu do facto de ter sido adotada com seis anos e crescido "numa família em que os valores morais sempre foram os de ajudar o próximo".

"O meu maior sonho e objetivo na vida é fazer a diferença, a mesma diferença que fizeram quando me adotaram, porque para mim esses gestos são os que vão mudando o mundo e tornando-o um lugar melhor", diz, rematando: "ser voluntário faz-se com amor, damos tudo o que somos".

7.5.15

Campanha critica 'notícias fúteis' e alerta para pobreza

in Exame.com

São Paulo - A nova campanha da ONG Teto, (também conhecida como "Um Teto Para Meu País"), que constrói novas moradias para famílias em localidades de extrema pobreza, alfineta as "notícias fúteis" que dominam o noticiário e alertam para a pobreza no país.

Criados pela agência Leo Burnett, os anúncios trazem imagens de moradores da comunidade Malvinas (Guarulhos, em São Paulo). Eles seguram cartazes com frases que remetem às manchetes de notícias de celebridades.

"Cantor estaciona o carro na vaga" e "Atriz é vista atravessando a rua" são algumas das "notícias".

Segundo a ONG, o objetivo não é questionar o que vira notícia, sim o que deixa de ser. Se há muito espaço para notícias sobre o cotidiano das celebridades, falta espaço para notícias sobre faltas de moradia, pessoas em situação de risco e extrema pobreza.

"A pobreza e a desigualdade social são problemas evidentes da nossa sociedade. Ainda assim, poucas vezes são pauta de notícias, poucas vezes surgem nas conversas cotidianas", diz Carolina Mattar, Diretora Executiva do Teto.

Além de chamar a atenção para a pobreza no país, o objetivo da campanha é buscar voluntários para a "Coleta", evento que pretende colocar cinco mil voluntários nas ruas de cidades como São Paulo, Campinas, Rio, Curitiba e Salvador para arrecadar recursos nos dias 22, 23 e 24 de maio.

Em janeiro, a ONG já tinha feito uma campanha com celebridades para atrair a atenção do público.

Confira, nas imagens acima, todas as manchetes da campanha.