17.10.07

Eutanásia: 41,5 por cento dos idosos já desejaram morrer

Andrea Cunha Freitas, in Jornal Público

Inquérito nacional revela que 63 por cento dos idosos pensam na morte "muito frequentemente" e 47 por cento são favoráveis à legalização da eutanásia


São homens da região de Lisboa/Vale do Tejo ou do Alentejo, sem irmãos, divorciados, sem ligação à religião católica e que se encontram há menos de seis meses ou há mais de cinco anos a viver num lar. Este seria o perfil de um idoso português que aprova a legalização da eutanásia, após a leitura dos resultados do inquérito nacional à prática da eutanásia, realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), apresentado ontem. Rui Nunes, docente na FMUP e presidente da Associação Portuguesa de Bioética, interpretou os resultados e, entre outras medidas, reclamou pela implementação da rede de cuidados continuados e paliativos para contrariar a tendência crescente de pessoas a pedir eutanásia.

Depois de ouvir a classe médica (40 por cento dos médicos declararam ser a favor da legalização da eutanásia), foi a vez de entrevistar 810 pessoas, com mais de 65 anos, institucionalizadas em 47 lares de todo o país e sem doença crónica ou terminal. Tal como o PÚBLICO já havia noticiado, 47 por cento dos idosos disseram aprovar a legalização da eutanásia, embora apenas 35 por cento tenham afirmado estar disponíveis para fazer tal pedido em seu nome. Ontem, Rui Nunes avançou com mais alguns dados. "Estatisticamente, os homens pedem mais do que as mulheres", sublinhou, adiantando ainda que o facto dos idosos terem ou não irmãos foi um factor mais determinante do que o ter ou não ter filhos. Por outro lado, o especialista voltou a sublinhar a evidente importância da igreja nesta discussão, mostrando que "os que se declaram católicos tiveram uma percentagem 50 por cento inferior aos outros na questão sobre o pedido de eutanásia". "O número de pessoas tenderá a crescer no futuro, se nada for feito, e de uma forma exponencial".

Antes que surjam "iniciativas mais radicais" como propostas legislativas, a FMUP quis contribuir com dados validados cientificamente. E num cenário com problemas da solidão, pobreza e envelhecimento agravados, Rui Nunes sublinhou ainda a responsabilidade de um sistema de saúde onde se assiste à "hospitalização da morte". "Os hospitais de agudos são locais onde os idosos são depositados e onde o acompanhamento e o alívio do sofrimento são remetidos para segundo plano." "A sensibilização que existe é que os pedidos de eutanásia serão substanciais nestes hospitais e residuais nos cuidados paliativos existentes", disse o especialista, defendendo que a rede seja posta em prática. Rui Nunes pediu ainda o reforço da responsabilidade da família e "maior acompanhamento espiritual".

58,5%
dos idosos inquiridos
referem nunca ter desejado morrer

13,3%
dos idosos inquiridos desejam "muitas vezes" morrer

1,1 %
dos inquiridos "desejam sempre a morte"

47 %
dos inquiridos aprovam a legalização da eutanásia