16.3.10

Campanhã e Paranhos - Duas freguesias a precisar de ajuda

in Jornal Público

Sempre que o Diagnóstico Social do Porto (DSP) analisa dados discriminados por freguesia, Campanhã e Paranhos aparecem, de forma sistemática, no topo dos locais que encerram mais problemas. Seja o desemprego, a prevalência da tuberculose ou o número de pessoas a viver do rendimento social de inserção (RSI), a liderança triste é sempre destas duas freguesias, que são também das mais populosas do concelho.

Em 2008, o Pré-diagnóstico Social do Porto já apresentara o desemprego como "um problema especialmente grave no concelho do Porto". O DSP confirma uma tendência crescente do desemprego na cidade, que se prolongou ao longo do primeiro trimestre de 2009, quando estavam inscritos nos centros de emprego do Porto 13.926 cidadãos. Destes, 8044 estavam registados no centro de emprego que abarca as freguesias de Bonfim, Campanhã, Miragaia, Paranhos, Santo Ildefonso, São Nicolau, Sé e Vitória.

Ao mesmo tempo que aumentavam as situações de desemprego, a cidade do Porto via também crescer o número de pedidos do RSI. Dos 12.829 agregados familiares que beneficiavam deste apoio estatal, no primeiro trimestre de 2009, 3221 residiam em Campanhã, enquanto outros 1815 habitavam em Paranhos.

A estes dados não será estranho o facto de Campanhã possuir "quase metade da habitação social" da cidade, lembra o DSP. Moradores em bairros ou não, os cidadãos que requereram mais o complemento solidário do idoso também eram, na sua maioria, moradores em Paranhos (de onde saíram 18% dos pedidos) e Campanhã (17%).

As duas freguesias voltam a aparecer no topo das que têm maior incidência relativa de toxicodependentes - um dado novo, quando comparado com os resultados do Pré-diagnóstico, que colocava as freguesias de Miragaia e Vitória "na linha da frente", realça o DSP. Os dados do Instituto da Droga e da Toxicodependência indicam que, em 2008, no concelho do Porto, houve um aumento de mais de 10 por cento de "utentes activos", traduzido em 2178 casos. Destes, 337 estão registados em Campanhã, tendo Paranhos outros 329 casos.

Estes números estão intimamente ligados com outro conjunto de dados. Lembrando que, na região norte, a toxicodependência é a principal causa de transmissão de sida (seguida pelas relações heterossexuais), e que a principal indicadora desta doença é a tuberculose, não será de estranhar que, mais uma vez, dos 166 casos de tuberculose pulmonar registados na cidade em 2007, 21% se concentrassem em Campanhã e 18% em Paranhos.

Por fim, os dados relativos à criminalidade também apontam para uma incidência mais concentrada destes fenómenos naquelas duas freguesias. O Comando Metropolitano do Porto indica que no ano de 2008 a cidade registou um acréscimo da criminalidade na ordem dos 7,2%. De todos os crimes praticados, 2580 ocorreram em Paranhos e 2386 em Campanhã. A violência doméstica que, segundo o DSP, continua "no topo dos indicadores de alerta", também apresentou uma maior prevalência nestas freguesias. Campanhã registou 299 casos e Paranhos 266.

Os números

54,8% da população residente é do sexo feminino

13,52% é o aumento do número de inscritos nos centros de emprego, de Março de 2008 para Março de 2009

437 é o número de pedidos de RSI, feitos em Fevereiro de 2009

12.829 famílias beneficiavam do RSI no final do 1.º trimestre de 2009

32% da população dos bairros sociais da cidade tem entre 45 e 64 anos, e 25% mais de 65 anos

27% dos residentes dos bairros sociais encontram-se activos

30,8% dos alunos do pré-escolar e do primeiro ciclo auferem de benefícios de acção social escolar no escalão A

Grupos vulneráveis

Crianças e jovens

Os jovens queixam-se de dificuldades no acesso ao emprego e habitação e da falta de centros de convívio; e, se habitam num bairro social, da "segregação e discriminação negativa". As crianças não escapam aos dados nacionais que dizem que 21% delas vivem abaixo do limiar da pobreza. Em 2008, houve 273 denúncias de situações de emergência social, de menores dos 0 aos 17 anos.

Idosos

O concelho tem "um índice de envelhecimento muito superior à média nacional, denunciando uma tendência que tem vindo a ser agravada ao longo dos últimos anos". É uma população maioritariamente do sexo feminino, que vive só, e com poucos rendimentos. O DSP diz que 15% da população idosa requereram o complemento solidário do idoso, mas uma grande parte desconhece os benefícios sociais a que tem direito. Preocupam-se com a segurança, as condições de habitabilidade, acessibilidade e mobilidade.

Deficientes

Há um número "insuficiente" de equipamentos sociais, o que provoca "inúmeras listas de espera". A taxa de analfabetismo é "muito superior à média nacional" e o mesmo acontece com as taxas de desemprego. Dados que explicam por que este grupo é "excessivamente penalizador" para as famílias.

Sem-abrigo

O perfil do sem-abrigo continua a ser, na generalidade, o do homem, em idade activa e com baixo nível de escolaridade, mas há mais mulheres e crianças a viver na rua. Este é o grupo com mais respostas sociais, mas é necessária maior coordenação e sugere-se "um investimento no âmbito das iniciativas de habitação assistida".

Imigrantes


Entre os principais problemas está a dificuldade na aquisição de habitação, o desemprego, a ausência de retaguarda familiar e o receio de discriminação.

Novos pobres

Prevalece "a tendência para um aumento drástico do número de processos de sobreendividamento", o que mantém este grupo no topo das preocupações da cidade.