Por Bárbara Wong, in Jornal Público
Para o ano, há pelo menos mais um grande colégio em Lisboa, de inspiração jesuíta. Mas a crise económica pode obrigar os pais a optar pela escola pública
Diferenças entre escolas
Estado financia 44 por cento dos alunos do particular
A quebra da natalidade faz-se sentir nas escolas, mas isso acontece mais nas públicas do que nas privadas. Nos últimos dez anos, o ensino público perdeu mais de 98 mil alunos, do pré-escolar ao ensino secundário. No entanto, o número de estudantes nos colégios e externatos aumentou de 15 para 18 por cento do total da rede, em dez anos. Entre 1998 e 2004, fecharam cerca de cem de colégios. Mas o ensino privado ganhou um novo fôlego. E, de há seis anos para cá, surgem novos projectos anualmente.
As famílias que optam pelo privado procuram um ambiente seguro, um projecto educativo virado para o sucesso e um corpo docente estável, dizem os pais, os responsáveis pelas escolas, mas também os investigadores universitários.
No entanto, o ensino particular e cooperativo não tem um grande peso em Portugal. Segundo os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Educação, referentes ao ano lectivo de 2007/2008, o número de alunos representa apenas 18 por cento do total, entre o pré-escolar e o ensino secundário. Contudo, a procura é muito grande e a oferta tem tentado acompanhá-la, aponta Rodrigo Queiroz e Melo, director executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (Aeep).
Todos os anos, abrem novas escolas, sobretudo creches, jardins-de-infância e escolas do 1.º ciclo. Mas há também grandes projectos a inaugurar não só em Lisboa e no Porto, como noutras capitais de distrito.
Um exemplo: na última década, em Lisboa, a zona do Parque das Nações, a antiga Expo "98, cresceu exponencialmente e apenas uma escola pública dava resposta aos pais que ali vivem, com uma procura muito superior à oferta. Há muito que está prevista a construção de outra escola pública. Mas isso ainda não aconteceu e, a pouco e pouco, surgiram algumas creches e jardins-de-infância privados ou cooperativos. No último ano, o grupo GPS, com mais de 20 escolas em todo o país, abriu o Colégio Oriente, com uma oferta que vai do pré-escolar ao 9.º ano.
No próximo ano, o Externato João XXIII vai mudar de instalações, para o Parque das Nações, onde continuará a oferecer da creche ao final do 3.º ciclo. E, na mesma zona, também vai começar a funcionar, pela primeira vez, o Colégio Pedro Arrupe, uma colaboração do grupo de construção civil Alves Ribeiro e da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, ou seja, uma escola com todas as condições - piscina de 25 metros e campo de futebol incluído -, para alunos dos três anos ao final do secundário, de inspiração inaciana, como são os colégios dos jesuítas. Daqui a três anos, o novo colégio conta ter 1640 alunos. Para já, começará com 800, informa Ana Maria Vaz, directora pedagógica.
"As famílias procuram projectos de segurança e há muito a preocupação com a qualidade do ensino", refere a directora do Pedro Arrupe, dando como exemplo que algumas das perguntas que os pais fazem, no momento de fazer a inscrição, é sobre quem são os professores. "Para os pais, é importante que sejam competentes", reforça.
Os horários são outro factor que torna o ensino privado atractivo. A Pedro Arrupe vai estar em funcionamento das oito da manhã às 19h30; mas há creches e jardins-de-infância que estão abertas à noite ou que se oferecem para ficar com os bebés caso os pais queiram ir jantar fora ou sair.
"Os pais trabalham e os colégios têm as crianças até mais tarde do que as escolas públicas", avalia Stella Aguiar, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e autora de um estudo sobre os alunos do ensino particular. A especialista lamenta o cansaço das crianças e as consequências de estarem envolvidas em tantas actividades extra-curriculares.
O que dá a escola?
A música, o desporto ou o xadrez são algumas das ofertas a somar à mensalidade. "Os pais têm a consciência tranquila de que estão a dar a melhor educação ao pôr as crianças a fazer 50 coisas diferentes; mas estão a criar filhos sem autonomia, que não sabem estar sozinhos, incapazes da solidão e pouco independentes. Estão a criar carneiros e não homens e mulheres autónomos", alerta a professora da Universidade de Lisboa. "Os colégios cumprem a cultura do "dar" coisas, em vez do "ser"", critica.
Actualmente, a escola pública também oferece actividades extra-curriculares, mas "são soltas, sem continuidade", avalia João Muñoz, vice-presidente da Aeep. Além disso, todas as reformas que vão sendo introduzidas têm sempre a contestação dos professores, constata Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap).
"A maior procura [do ensino privado] está ligada a uma ideia que passou de haver instabilidade nas escolas públicas e os pais temem que essa possa vir a condicionar as aprendizagens dos alunos", acrescenta.
Apesar de os professores da escola pública serem "melhores" e de muitos irem trabalhar para o privado, o colégio "trata o aluno individualmente e toda a escola trabalha para o sucesso daquele aluno", analisa Maria José Viseu, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE). A escola pública "não tem hipótese de pôr a funcionar equipas multidisciplinares ou de ter horários para apoiar os alunos", reconhece.
"A escola pública também oferece apoio aos alunos mas com menos intensidade devido ao peso do horário dos professores", confirma João Barroso, professor da Universidade de Lisboa, investigador e defensor da escola pública. Uma coisa é certa: "Se a escola pública quer preservar a oferta, terá que encontrar soluções para responder às exigências dos pais", reconhece o investigador.


