16.3.10

Sacrifícios em nome de quê?

Paulo Lopes Marcelo, in Diário Económico

Portugal é um país cada vez mais desigual. Segundo os dados do Eurostat, estamos no fim da lista europeia em distribuição da riqueza. Pior só mesmo a Letónia.

Mas além do fosso crescente entre ricos e pobres, é ainda mais triste verificar que existem dois milhões de portugueses sem acesso às mínimas condições de vida.

Esta realidade é paradoxal com o discurso igualitário de esquerda, que nos habituámos a ouvir desde 1974. Atrevo-me mesmo a dizer que estes números traduzem o maior fracasso da democracia portuguesa. Não basta votar para sermos democráticos. Uma democracia é muito mais do que isso. Implica que seja possível a ascensão social, através do trabalho e de mérito, independentemente do meio social de origem.

Ora é precisamente isso que não está a acontecer. Segundo um novo estudo da OCDE (Intergenerationl Social Mobility: ‘a family affair'?) a mobilidade social em Portugal é muito baixa, uma das piores a nível europeu. O estudo mostra que o contexto económico e educacional da família de origem é o factor determinante para o sucesso futuro. Pais com educação superior tendem a ter filhos com educação superior. E com salários vinte vezes mais elevados do que os outros.

Ou seja: não só somos pobres como a pobreza, qual carga genética, tende a propagar-se de geração em geração. O que é profundamente injusto.

É neste contexto que devemos avaliar o PEC proposto pelo Governo. Ao contrário da mentira repetida por José Sócrates, vamos mesmo ter de pagar mais impostos. E trabalhar mais anos para receber menos benefícios sociais.

Ora depois de quase quinze anos de políticas socialistas, que ajudaram a construir uma sociedade com elevados níveis de pobreza, desigualdade e imobilismo, vale a pena perguntar: em nome de que sonho ou utopia são agora exigidos mais sacrifícios aos portugueses?

A pergunta faz sentido quando sabemos que o Estado já gasta metade da riqueza do país. E que continua a gastar mal o dinheiro, por exemplo, em mais autoestradas, no TGV ou numa terceira travessia do Tejo. A pergunta torna-se ainda mais dolorosa quando se percebe que são os mesmos de sempre a suportar o esforço fiscal: os que não conseguem fugir aos impostos, os trabalhadores da classe média, para quem as deduções e benefícios fiscais são importantes.

Claro que não há soluções milagrosas. Mas é perante o nosso profundo défice social e não apenas orçamental que devemos avaliar o PEC.
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