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5.8.20

Portugueses foram menos às compras mas gastaram mais até junho

in Dinheiro Vivo

Compras no online de bens de grande consumo cresceram 50% mas só representam 3,2% do mercado, segundo estudo da Kantar e Centromarca.

O mercado de grande consumo, que inclui alimentação, bebidas, higiene pessoal e do lar, cresceu, em valor, quase 12% no primeiro semestre, face a 2019, segundo um estudo da Kantar para a Centromarca revelado esta terça-feira.

“Nos primeiros seis meses do ano, o mercado dos ‘Fast Moving Consumer Goods’ (FMCG), que engloba as categorias de alimentação, bebidas, higiene pessoal e higiene do lar, apresentou um crescimento, em valor, de 11,8% face a igual período de 2019”, indicou, em comunicado, a Kantar.

De acordo com o estudo, “se cada lar realizou, durante o primeiro semestre de 2019, 64,6 idas a lojas para a compra de produtos de grande consumo”, nos primeiros seis meses de 2020, verificaram-se menos quatro visitas por lar, um decréscimo compensado por uma progressão de 14% no volume adquirido em cada compra, bem como pelo crescimento de 18,7% no valor gasto.

“Nos primeiros seis meses deste ano, ocorreram menos 15 milhões de ocasiões de compra em FMCG face ao mesmo período do ano passado.

O estudo mostra uma redução do número de visitas às lojas e uma duração menor de cada uma dessas idas às compras, mas também a resistência dos alimentos, das bebidas e dos produtos de higiene que registam até algum crescimento”, notou, citado no mesmo documento, a ‘manufacturers sector director’ da Kantar, Marta Santos.

Por sua vez, o consumo fora de casa tem registado um “regresso gradual” associado ao desconfinamento progressivo, verificando-se o crescimento do ‘snacking’ e do consumo de produtos de indulgência, como gelados e algumas bebidas alcoólicas.

Durante o confinamento, verificou-se uma estabilização dos preços médios e o crescimento das vendas em volume e valor, “bastante mais relevante no caso das marcas de distribuidor do que nas marcas de fabricante”. Conforme explicou a mesma responsável, nos primeiros meses da pandemia de covid-19, não se assistiu a um aumento dos preços, mas a uma redução do número de promoções dos produtos menos vendidos “na fase de maior confinamento”.

Já no que se refere aos locais de compra, os híper e supermercados “perdem algum espaço” para os ‘discounts’ e para o comércio tradicional. Por sua vez, no ‘online’ as vendas FMCG subiram cerca de 50%, passando a representar, no final do semestre, 3,2% das vendas totais. “A dinâmica do canal ‘online’ é um dos aspetos que marca mais este semestre e os comportamentos de consumo associados à pandemia, sendo expectável que o crescimento continue a verificar-se no curto/médio prazo.

É também interessante avaliar como a ‘performance’ do retalho apresenta altos e baixos, e verificar que alguns operadores relevantes mostram fortes dificuldades neste período, enquanto outros apresentam uma trajetória vencedora nos últimos meses”, considerou, por seu turno, o diretor-geral da Centromarca, Pedro Pimentel.

Os consumidores avançaram ainda que, nos próximos tempos, pretendem aumentar a compra de produtos locais, recorrer a estabelecimentos mais perto de casa, reduzir o tempo passado dentro das lojas e substituir, sempre que possível, as compras físicas pelas ‘online’. Este estudo baseou-se no painel de lares de Kantar, com uma amostra de quatro mil lares participantes, representativos de Portugal continental. Os resultados têm um nível de confiança de 95% e um erro amostral associado de 1,96%.

Economia 43% das empresas de restauração e bebidas pondera a insolvência

Ana Sofia Santos, in Expresso

Inquérito da AHRESP revela que a incapacidade para fazer face às despesas não deixa outra hipótese aos empresários. Cenário de crise no sector “intensifico-se”, apesar do início da retoma da atividade económica e de estarmos em período de época alta 

“No início da retoma, e em pleno período da tradicional ‘época alta’, a crise já instalada na restauração e no alojamento intensificou-se” é desta forma que a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) inicia um comunicado a dar conta dos “resultados verdadeiramente alarmantes” do seu inquérito mensal às empresas.

No total, a organização obteve 1377 respostas válidas, numa auscultação feita entre 31 de julho e 3 de agosto, que traçam um “cenário sem esperança para milhares de empresas e dezenas de milhares de postos de trabalho”.

No sector da restauração e bebidas, 43% das empresas ponderam avançar para insolvência, “dado que a esmagadora maioria refere que não irá conseguir suportar os encargos habituais, como pessoal, rendas, energia, fornecedores e outros, a partir do mês de agosto”. No caso dos espaços de animação noturna (bares e discotecas) a realidade é mais grave: 62% dos operadores estão à beira de atingir uma situação em que já não são capazes de fazer face às obrigações assumidas.

A AHRESP adianta ainda que os inquiridos frisam que “a faturação do mês de julho foi avassaladora”, com 75% das empresas a registarem perdas acima dos 40%. No que respeita aos salários devidos no mês que passou, o inquérito revela que mais de 16% dos empresários não conseguiram remunerar os trabalhadores e que 14% só pagou parcialmente.

“Com esta realidade, 16% das empresas já efetuaram despedimentos desde o início do estado de emergência e mais de 30% das empresas assumem que não vão conseguir manter todos os postos de trabalho até ao final do ano”, refere a associação.

Sobre os apoios ao sector, 44% dos inquiridos pretendem recorrer aos novos mecanismos de apoio à manutenção dos postos de trabalho e 52% destes irá optar pelo apoio à retoma progressiva e 48% pelo incentivo extraordinário à normalização da atividade (cujas candidaturas se iniciaram ontem, terça-feira). No que toca a medidas de âmbito financeiro, 54% das empresas recorreram a financiamento, com 84% a terem o processo aprovado. Por outro lado, 39% dos empresários indicam que irão recorrer à nova linha de crédito dos mil milhões de euros.

Alojamento turístico também permanece em maus lençóis

No sector do alojamento turístico o retrato não destoa e é “igualmente alarmante”. “Durante todo o mês de julho, 27% das empresas não registaram qualquer ocupação e 20% indicou uma ocupação máxima de 10%. Estes resultados traduzem-se numa quebra homóloga superior a 90% na taxa de ocupação, referida por cerca de 36% das empresas”, indicam os dados do inquérito da AHRESP.

E agosto não augura melhorias. Aliás, “indicia resultados muito preocupantes, pois 19% das empresas não esperam uma taxa de ocupação acima dos 10%, e mais de 24% das empresas perspetivam uma ocupação entre 10% e 30%”.

O que leva 17% dos agentes económicos a equacionarem ter de avançar para insolvência, “caso não consigam suportar todos os encargos”.

Quanto aos vencimentos devidos aos colaboradores, mais de 22% das empresas não conseguiram efetuar o pagamento dos salários em julho e 9% só o fez de forma parcial. Além disso, com esta realidade, “cerca de 15% das empresas assumem que não vão conseguir manter todos os postos de trabalho até ao final do ano, e 61% das empresas ainda não sabem se vão conseguir manter a totalidade dos seus trabalhadores”.

No caso dos apoios à manutenção dos postos de trabalho, apenas 25% sinaliza a intenção de usufruir deste mecanismo, enquanto 31% das empresas recorreram a financiamento (dessas, 86% tiveram luz verde da instituição financeira).

A AHRESP adianta ainda que os dados nacionais, quer da restauração e bebidas, quer do alojamento turístico, “não evidenciam diferenças muito significativas entre as várias regiões”, sendo que esta avaliação foi feita nas cinco regiões do continente (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve) e nas duas regiões autónomas (Açores e Madeira).

4.8.20

Há quatro anos que não havia tantos desempregados com o ensino secundário

Sónia M. Lourenço, in Expresso

O número de desempregados registados no centros de emprego subiu em força desde o início da pandemia e são os trabalhadores com habilitações ao nível do ensino secundário que mais estão a alimentar este aumento. São já mais de 129 mil, o valor mais elevado desde maio de 2016

São mais de 129 mil. É esse o número de desempregados inscritos nos centros de emprego com qualificações ao nível do ensino secundário. É o valor mais elevado dos últimos quatro anos.

O Expresso analisou os números do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e concluiu que são estes trabalhadores com qualificações intermédias que mais estão a alimentar a subida do desemprego registado desde o início da crise provocada pela pandemia de Covid-19.

Comparando o mês de junho (últimos dados disponíveis) com o mês fevereiro (pré-pandemia), o número de desempregados inscritos nos centros de emprego subiu em força. São mais 91.103 pessoas (29%), atingindo um total de 406.665 desempregados.

Ora, 42% deste aumento (mais 37.838 pessoas) é explicado por desempregados com qualificações ao nível do ensino secundário. São agora 129.059, mais 41% do que em fevereiro. E economistas ouvidos pelo Expresso alertam que o seu regresso ao emprego pode tardar.

Mais ainda, este é o valor mais elevado desde maio de 2016. Ou seja, há mais de quatro anos que não havia tantos desempregados registados em Portugal com habilitações ao nível do ensino secundário.

O peso destes profissionais no aumento do desemprego registado é, até agora, muito superior ao dos trabalhadores com o terceiro ciclo do ensino básico (9º ano de escolaridade), que, com mais 22.221 pessoas, ocupam o segundo lugar neste ranking.

Já os desempregados com qualificações mais elevadas (ensino superior) ou mais modestas (até ao segundo ciclo do ensino básico) sofreram, até agora, aumentos menos marcados no desemprego registado.

27.7.20

Quebra de rendimentos “empurra” famílias sobreendividadas para burlões do crédito

Rosa Soares, in Público on-line

O impacto económico da covid-19 veio agravar as dificuldades financeiras de muitas famílias para pagar os empréstimos, tornando-as alvos fáceis de falsos intermediários de crédito, que aumentaram exponencialmente nos últimos meses.

O Banco de Portugal (BdP) identificou, até meados de Julho, 21 entidades a actuar ilegalmente no país, mais do dobro do registado na totalidade de 2019, em que ascenderam a nove. Fazem-se passar por intermediários de crédito ou consultores, prometendo novos empréstimos ou a reestruturação dos já existentes, mas têm como único propósito a extorsão de dinheiro a famílias em dificuldades financeiras, muitas com empréstimos já em atraso e com dificuldade de recorrer a instituições de crédito autorizadas.

Os alertas do supervisor são apenas a ponta do icebergue de uma actividade fraudulenta, que prospera quando aumentam as dificuldades financeiras das famílias, como está a acontecer actualmente, pelo impacto económico da pandemia da covid-19.

Mas também por alguns constrangimentos legais, como as restrições no acesso às moratórias de crédito, que deixam de fora quem tem atrasos superiores a 90 dias no pagamento dos empréstimos, ou dívidas ao Estado, entre outras.

Preocupada com o crescimento dos falsos intermediários de crédito, que não estão registados no Banco de Portugal (BdP), está Natália Nunes, directora do Gabinete de Apoio Financeiro (GAF) da Deco, a quem têm chegado milhares de pedidos de aconselhamento financeiro, alguns deles de vítimas de burla dessas falsas entidades.

Natália Nunes disse ao PÚBLICO que, por semana, lhe chega “uma ou mais situações de burla”, que o gabinete de apoio a famílias endividadas da Associação de Defesa do Consumir vai encaminhando para o BdP e, em alguns casos, directamente para o Ministério Público.

Os falsos intermediários de crédito ou de consultoria financeira começam por pedir uma pequena soma de dinheiro para a abertura do processo, com vista à concessão de empréstimo ou consolidação de créditos existes (o que implica sempre um novo empréstimo), seguindo-se outros pedidos de montantes superiores, sem nunca concretizar as operações prometidas.

A título de exemplo, a responsável da Deco destaca o caso recente de um consumidor que pediu ajuda ao GAF depois de ter tentado obter um novo empréstimo junto de um falso intermediário de crédito. Este começou por lhe pedir 75 euros para abertura do processo, valor que pagou, seguindo-se novo pedido de 750 euros para a sua conclusão, quantia de que o consumidor não dispunha, acabando por pedir ajuda ao Gabinete de Apoio Financeiro da associação de consumidores.

Revelador das dificuldades recentes de muitas famílias, Natália Nunes adianta que entre 18 de Março e 30 de Junho, período em que foram decretados os estados de emergência e de calamidade no país, recebeu mais de sete mil pedidos de aconselhamento financeiro, muitos deles por parte de famílias que antes da pandemia conseguiam suportar os seus empréstimos, mas que, entretanto, sofreram fortes reduções no seu rendimento devido ao impacto da pandemia.


'Layoff' não pode perpetuar fragilidade dos precários, diz Filipe Lamelas

in o Observador

Recurso ao layoff pode continuar depois da pandemia, diz Filipe Lamelas. Investigador alerta que no futuro se deve proceder a uma reforma legislativa profunda.

O investigador Filipe Lamelas considera que o recurso ao layoff poderá continuar depois da pandemia de Covid-19, mas não deverá servir para aumentar as fragilidades dos trabalhadores com vínculos precários.

O regime de layoff não pode colocar os trabalhadores com vínculos precários numa situação de ainda maior fragilidade (como sucede atualmente ao impedir-se a renovação desses contratos quando haja recurso ao ‘ayoff)”, pode ler-se nas notas conclusivas de um artigo de Filipe Lamelas sobre esta medida laboral, publicado no dossiê do ISCTE “O Estado da Nação e as Políticas Públicas 2020”, coordenado por Ricardo Paes Mamede e Pedro Adão e Silva.

O investigador defende que devem “ser criados mecanismos no sentido de aproximar o âmbito de proteção destes trabalhadores aos demais (e não o contrário), nomeadamente procedendo à suspensão da contagem dos prazos dos contratos de trabalho a termo e do período experimental, determinando, paralelamente, a impossibilidade de cessação do contrato nestas situações, tal como sucede com os vínculos permanentes”.

O assistente de investigação no CoLabor – Laboratório colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social, considera que “é fácil prever que a massificação do recurso ao layoff no contexto da presente crise poderá dinamizar, no futuro, a utilização desta figura como efetiva alternativa aos despedimentos por razões objetivas, promovendo assim a proteção do emprego”.

Para tal, o também doutorando em Políticas Públicas no ISCTE antecipa que será “imperioso proceder a uma reforma legislativa profunda” quanto ao layoff, “particularmente quando este contexto excecional for ultrapassado”, de forma a evitar problemas.

Filipe Lamelas considera ainda que “a aferição da manutenção do nível de emprego não pode ter como referência inicial o momento do recurso ao layoff“, tendo de ser contabilizado num momento anterior, “sob pena de virmos a verificar uma ocorrência substancial de cessações de contratos”, por parte das empresas, imediatamente antes da adoção do layoff.

É igualmente importante que a proteção do emprego não seja circunscrita a um par de meses após o termo dos apoios relativos ao layoff, sob pena de, na prática, a segurança social estar a financiar futuros despedimentos por razões objetivas”, defende o investigador.

Numa nota de diagnóstico anterior ao artigo de Filipe Lamelas, elaborada pelo economista Ricardo Paes Mamede, o professor no ISCTE titula que a “instabilidade continua a ser a característica central” do emprego em Portugal, com “grandes oscilações ao longo das últimas duas décadas”.

Se o “momento mais favorável” para o emprego se verificou na viragem do século, com uma taxa de desemprego de 4% em 2000 e 2001 e volume de emprego a abranger 4,9 milhões de pessoas (em 2002), “a partir daí, a situação deteriorou-se gradualmente até 2008”.

Com as crises (financeira global, zona euro e implementação do programa de ajustamento em Portugal) verificou-se uma “quebra acentuada do emprego e rápido aumento do desemprego até 2013”, ano em que o volume de emprego tinha caído para 4,4 postos de trabalho e 16,2% da população ativa no desemprego, segundo o economista.

Até 2019, a taxa de desemprego baixou até aos 6,5% e o volume de emprego subiu para os 4,9 milhões de pessoas, mas “a retoma dos salários foi mais lenta”, e o rendimento médio mensal líquido, em termos reais, “só em 2017 regressou aos níveis do início da década”.

O aumento das remunerações foi mais pronunciado nas profissões onde os salários médios eram à partida inferiores (em especial, no caso dos trabalhadores não qualificados), sugerindo que a política de aumento do salário mínimo a partir de 2015 teve aqui um papel central”, refere Ricardo Paes Mamede, assinalando também o aumento dos salários médios em 2018 e 2019, respetivamente, de 2,7% e 2,0%.

No entanto, a percentagem de trabalhadores com contratos permanentes em 2018 (78,0%) era ainda menor à de 2013 (78,6%), o que “sugere que a retoma do emprego verificada a partir de 2013 não se traduziu num maior volume de relações de trabalho mais estáveis”, apesar de um aumento para 79,2% em 2019.

19.6.20

Cimeira de líderes: à falta de decisões, aumenta a pressão para que Fundo de Recuperação dure menos tempo

Susana Frexes, correspondente em Bruxelas, in Expresso

Os líderes europeus reúnem-se a partir das 9 horas da manhã desta sexta-feira, por videoconferência, num primeiro teste à flexibilidade das posições mais rígidas sobre o novo Fundo de Recuperação. Um guia para perceber a reunião que pode (ou não) ser decisiva

Holanda, Suécia, Dinamarca, Áustria (e também a Finlândia) pressionam para encolher a fatia de 500 mil milhões de euros a fundo perdido. Ao mesmo tempo, querem que o Fundo de apoio ao combate aos estragos causados pela pandemia covid-19 dure menos tempo do que os quatro anos propostos pela Comissão Europeia. Neste último ponto deverão contar com o apoio da Alemanha, o que pode levantar problemas na absorção de fundos. Os critérios e as condicionalidades na distribuição das verbas também podem gerar dores de cabeça. Mas como dizia esta manhã um alto responsável europeu numa conversa com jornalistas, "a União Europeia não é uma ciência exata" e a solução final está ainda por descortinar. Eis um guia possível para acompanhar a reunião.


Líderes estão perto de um acordo?
Não. São ainda várias as divergências de posições e ninguém espera um milagre da reunião desta sexta-feira, que servirá sobretudo para testar as águas e para pôr as diferentes posições frente-a-frente. Não será uma negociação, mas uma troca de pontos de vista. Vários países, incluindo Portugal, Espanha, Itália, França, Alemanha, Grécia ou Eslováquia apoiam a proposta da Comissão Europeia para criar um fundo de 750 mil milhões de euros, dos quais 500 mil milhões devem seguir para as regiões e sectores mais afetados pela pandemia na forma de subvenções. No entanto, os chamados quatro frugais - Países Baixos, Suécia, Dinamarca e Áustria - reclamam que o valor é demasiado elevado, não encontram benefícios nas transferências a fundo perdido e levantam questões sobre os critérios e condições para a atribuição do dinheiro. Mas as divergências não se ficam por aqui. A República Checa também questiona o volume global proposto pela Comissão Europeia e a Hungria não gosta dos critérios de distribuição do Fundo de Recuperação e tem perguntado por que há países (como Portugal) que recebem mais do que Budapeste, quando os países têm uma população semelhante. O governo de Viktor Órban deverá ainda pressionar para ver aumentadas as verbas da coesão. Outro assunto que não lhe agrada na proposta diz respeito à ligação entre o acesso às verbas e o cumprimento do Estado de Direito. Mas esta é questão fundamental que a maioria dos países - e os frugais de forma mais vocal - não deverão deixar cair.

Quem está a ganhar a batalha Subvenções vs Empréstimos?
O facto de Paris e Berlim concordarem com os 500 mil milhões de euros a fundo perdido desequilibra a balança a favor das subvenções e para já não estão dispostos a abdicar deste montante que tanto agrada aos países do sul como à Eslováquia e Polónia. Apesar da forte pressão dos frugais (a que se junta também a Finlândia) pelos empréstimos, parece nesta altura impossível a criação de um Fundo de Recuperação feito só de ajuda a crédito. No entanto, existe a possibilidade de que o compromisso a 27 obrigue a uma redução da percentagem de subsídios, com consequências para os 15,5 mil milhões que a Comissão propôs para Portugal neste formato. O equilíbrio entre subvenções e empréstimos é uma das grandes questões polémicas por resolver. Também a dimensão global de 750 mil milhões de euros não está fechada e pode encolher. Evitar cortes poderá obrigar a outras cedências e uma das possibilidades é encurtar o período de duração do Fundo de quatro para dois ou 3 anos.

Encurtar duração é bom, mau ou uma razoável moeda de troca?
A Comissão Europeia propôs que o Fundo de Recuperação durasse de 2021 a 2024, mas para os frugais isto é demasiado tempo. Entendem que o dinheiro deve servir para responder à crise e não para resolver problemas estruturais. Neste ponto contam não só com a Finlândia, mas também com a Alemanha. Ao que o Expresso apurou, Berlim tem defendido que o Fundo termine em 2022, o que implica que os países têm de acelerar o trabalho para apresentar os planos de recuperação e os projetos, investimentos e reformas a financiar. A Alemanha entende que um desembolso mais rápido das verbas é fundamental para que haja um impacto positivo no combate à crise. E se a crise for temporária, então é preferível um investimento reforçado em 2021 e 2022. No entanto, outros países fazem leituras diferentes e veem aqui o risco de não conseguirem absorver todas as verbas que lhes forem destinadas. A Comissão prevê que o desembolso das verbas dependa do cumprimento de objetivos estabelecidos pelos países nos seus planos de recuperação (que devem apresentar entre outubro e abril do próximo ano), uma redução do tempo de absorção coloca mais pressão na aprovação dos planos (mesmo que depois tivessem mais um ano ou dois para executar).

Quais as questões mais difíceis em aberto?
A dimensão final do fundo e a percentagem de empréstimos e subvenções estão entre as que causam maior fricção, tal como a duração do funcionamento do fundo. Outro problema diz respeito ao reembolso dos empréstimos contraídos pela Comissão Europeia junto dos mercados. Apesar de haver um consenso para que o executivo comunitário emita dívida, os frugais - e a Alemanha também - consideram que dinheiro deve começar a ser pagos durante o os próximos sete anos - que correspondem ao novo Quadro Financeiro Plurianual - e não apenas após 2028, como propõe o executivo da presidente Ursula von der Leyen.

A estas juntam-se as questões dos critérios de distribuição do dinheiro e da condicionalidade. Não é só a Hungria a questionar os critérios, também os frugais questionam a utilização de taxas de desemprego dos países (e os valores pré-crise utilizados). Mexer nas chaves de distribuição é possível, mas de acordo com algumas fontes não é o caminho mais simples a seguir e pode atrasar o processo de negociação. Mexer nos critérios poderia também reduzir a fatia para Portugal.

Como convencer os 4 frugais?
Uma das formas é aceitar que Países Baixos, Dinamarca e Suécia continuem a ter os chamados "rebates", ou seja, descontos na contribuição para o Orçamento Comunitário. E como a negociação do Fundo de Recuperação é feita num pacote conjunto com o próximo Quadro Financeiro Plurianal (QFP), esta questão pode servir de moeda de troca para contentar os frugais, incluindo Áustria. Com a saída do Reino Unido - que esteve na origem da criação deste mecanismo de desconto - a Comissão propôs que os rebates acabassem de forma faseada. França é um dos grandes defensores do fim deste sistema (Portugal também apoia), mas a Alemanha, pelo contrário, quer passar a ter também um desconto, uma vez que o peso da sua contribuição aumenta com a saída dos britânicos. Dificilmente um acordo acontece sem que os rebates sejam aceites e no caso de Copenhaga esta é uma das batalhas que pretende travar.

É preciso ter em conta que no final da negociação, os vários países terão de conseguir vender internamente o acordo como uma vitória. Os rebates podem ajudar, tal como a redução da duração do fundo, ou a clarificação das condicionalidades de acesso ao dinheiro: deverá ser usado para financiar reformas e investimentos ligados às prioridades da UE como as metas ambientais e a digitalização.

E já há acordo para o Orçamento para 2021-27?
Não. A proposta que está em cima da mesa não é muito diferente da que os líderes rejeitaram em fevereiro. É ligeiramente maior - cerca de 1,1 biliões de euros para sete anos - mas não muda o envelope nacional que estava destinado a Portugal, quer para a Coesão, quer para a Agricultura. Ou seja, mantém os cortes em relação ao atual quadro. A questão é que agora o Quadro Financeiro Plurianual é negociado juntamente com o Fundo de Recuperação e este prevê a atribuição de verbas adicionais para a Coesão, o Desenvolvimento Rural e para o Fundo para a Transição Justa. A estes montantes junta-se ainda a fatia maior para financiar reformas e investimentos públicos. No total, António Costa poderá ter de defender mais de 45 mil milhões de euros a fundo perdido: entre 29 a 30 mil milhões do QFP, mais 15,5 mil milhões do Fundo de Recuperação.

Acordo será em julho e em carne e osso?
É esse o objetivo de todos e Berlim está a fazer pressão para que assim seja. A presidência alemã arranca no primeiro dia do próximo mês e antes das férias de verão (leia-se agosto) quer ver o assunto resolvido para poder passar ao problema seguinte - conseguir um acordo de comércio com os britânicos até de meados de outubro. O tempo é cada vez mais curto para chegar a um entendimento sobre o Quadro Financeiro Plurianual (QFP) para 2021 a 2027 e o atual está quase a terminar. Além do mais, para que o Fundo de Recuperação possa entrar em vigor em janeiro juntamente com o QFP, será preciso que os parlamentos nacionais ratifiquem e validem a decisão que permite à Comissão Europeia ir buscar milhares de milhões de euros aos mercados e isso também exige tempo.

Em Bruxelas, há a certeza de que o assunto não se resolve sem uma reunião física dos chefes de Estado e de Governo A expectativa é que haja um encontro na capital belga em julho - ou eventualmente até dois. Algumas fontes apontam para 9 ou 10 de julho, outras mais para os meados do próximo mês. Fonte do Conselho Europeu, adianta que o edifício da instituição tem já as condições sanitárias para receber os líderes.

3.6.20

Confederação do Comércio quer prolongamento do lay-off simplificado até setembro

Por Nuno Domingues e Sara Beatriz Monteiro, in TSF

O novo modelo de regime de lay-off simplificado deve ser aprovado esta quinta-feira em Conselho de Ministros.

O presidente da Confederação do Comércio e Serviços defende a manutenção do regime de lay-off simplificado até setembro como a melhor forma de defender o emprego.

Depois de ouvir as propostas do Governo que passam pela substituição desse modelo por outro tipo de apoios, João Vieira Lopes diz à TSF que há o risco de se deitar fora uma experiência que teve bons resultados.

"Para nós não é muito claro que tipo de apoios são esses e temos bastante receio que alterar completamente o sistema neste momento seja complicado quer para as empresas perceberem quer para pôr a funcionar toda a máquina burocrática nesse sentido", sustenta.

O novo modelo de regime de lay-off simplificado deve ser aprovado esta quinta-feira em Conselho de Ministros, mas até lá a Confederação do Comércio e Serviços vau ainda fazer um esforço para convencer o Governo a manter o atual regime de lay-off: "Vai haver contactos com o Governo até amanhã nesse sentido. Nós manteremos a nossa posição e tentaremos, naturalmente, influenciar o Governo no sentido em que esta solução nos parece a mais adequada."

2.6.20

“Rapidamente percebi que iríamos passar fome”

Raquel Albuquerque e Ana Baião, in Expresso

Pobreza irá agravar-se e saber se recua aos níveis de 2013 depende da recuperação económica dos próximos meses

Josefa Jesus já conhece os militares que há dois meses distribuem refeições num ex-quartel da GNR, em Lisboa. Todos os dias, marca lugar na longa fila que se estende pelo quarteirão para ir buscar almoço e jantar. Quando chega à sua vez, desdobra o papel com a cópia do cartão de cidadão do filho como prova de que precisa de levar duas refeições para casa. Até há pouco tempo, Josefa, 51 anos, trabalhava como motorista da Uber e o filho, de 29, fazia biscates como eletricista. De um dia para o outro, ficaram sem trabalho e o pouco que tinham guardado chegou para pagar renda e comida durante um mês. “Depois disso rapidamente percebi que iríamos passar fome.” A solução foi recorrer à distribuição de refeições feita pelo Exército, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e a Santa Casa da Misericórdia.

À hora de jantar a fila fica ainda mais comprida do que ao almoço e são dadas cerca de 600 refeições por dia. Durante a semana é servida uma refeição quente ao almoço e sandes ao jantar. Durante o fim de semana, é a Santa Casa que confeciona duas refeições quentes. Como Josefa Jesus, milhares de outras famílias por todos o país viram-se sem trabalho de repente e sem qualquer rendimento. “Antes as pessoas vinham à procura de trabalho, agora vêm à procura de comida. Há quem pergunte como é que tanta gente ficou sem nada tão depressa. Uma grande parte das pessoas que conseguiu trabalho nos últimos anos ficou com salários muito baixos e só a renda levava 60% do que ganhavam. Nem mesmo com dois trabalhos estas pessoas conseguiram poupar dinheiro”, defende Eugénio da Fonseca, presidente da Cáritas, que recebeu quase 50 mil pedidos de ajuda alimentar e está a apoiar famílias a pagar renda, eletricidade ou gás.

“Antes as pessoas vinham à procura de emprego, agora procuram comida”, diz o presidente da Cáritas
“Não há dúvidas de que já temos um agravamento bastante expressivo da pobreza e exclusão social. Indicadores indiretos como os da Cáritas ou Banco Alimentar, os números do lay-off e do desemprego já dão uma ideia do impacto. Dizer que vamos ter um agravamento da pobreza para níveis de 2013 depende de quanto tempo isto vai durar”, diz Carlos Farinha Rodrigues, especialista em pobreza e desigualdades. “Se a situação epidémica se agravar em outubro, as consequências serão terríveis. Algumas das medidas tomadas agora não poderão ser prolongadas eternamente, porque os custos são gigantescos.”

Dados avançados no Parlamento pela Ministra do Trabalho apontam para 804 mil postos de trabalho abrangidos por lay-off simplificado, num total de €470 milhões. Mas é precisamente o lay-off que está a “conter” o impacto da situação atual no desemprego, sublinha Farinha Rodrigues. E o presidente da Cáritas concorda. “Os números de pedidos de ajuda que conhecemos estão aquém do que poderá vir a ser o problema. O desemprego ainda não inclui as empresas que não vão conseguir reequilibrar-se, seja na restauração ou outros serviços que deixem de ter tanta procura”, diz Eugénio da Fonseca. “A crise ainda vai ter uma expressão maior, mais grave, e os seus contornos devem preocupar-nos.”

Trabalhadores precários, com falsos recibos verdes ou sem contratos de trabalho viram-se em situações mais frágeis. “Na crise anterior, as famílias tinham algumas almofadas, como os rendimentos vindos da economia informal. Só que desta vez, a partir de março, tudo isso acabou. As famílias que tinham uma ligação precária ao mercado de trabalho e que recorriam a rendimentos informais do turismo ou restauração ficaram sem nada. Portanto, foi um choque imediato e os efeitos são devastadores”, diz Farinha Rodrigues.

Vírus expõe desigualdades
Na fila de refeições distribuídas todos os dias pelo Exército estão pessoas que já viviam com dificuldades económicas, mas muitas outras, como Josefa Jesus, nunca tinham precisado de ajuda para poder comer. Ao Banco Alimentar têm chegado famílias com filhos que até agora tinham emprego e alguma estabilidade. “Em zonas como Lisboa, Setúbal e Porto houve um choque maior. A população emigrante, sobretudo brasileira, foi muito afetada. E a maior parte dos casos são famílias com filhos que se viram numa enorme pressão, com as crianças em casa e sem salários, sem dinheiro para pagar despesas nem comprar comida”, descreve a presidente do Banco Alimentar, que recebeu cerca de 60 mil novos pedidos de ajuda, a somar às 380 mil pessoas que ajuda regularmente.

Tal como a epidemia expôs carências habitacionais, laborais e económicas, como estão à vista nos focos de contágio na região de Lisboa, o vírus pôs a nu outros problemas estruturais, como a pobreza da população migrante.
“Muitos migrantes, sobretudo oriundos da Ásia, estão totalmente desprotegidos. Vieram para Portugal sem conseguir regularizar a sua situação porque não chegaram a ter um contrato de trabalho”, alerta Eugénio da Fonseca.

Há mais de um mês que Josefa Jesus não consegue pagar a renda da casa. “Comprei vários jornais por causa dos anúncios de emprego, mas estão vazios. Ninguém quer ninguém. Vi um anúncio sobre um curso para ser motorista da Carris, mas depois percebi que tinha de pagar. Agora o meu objetivo é conseguir ter dinheiro para tirar o curso. E garanto que vou conseguir”, diz Josefa Jesus, que está sem trabalho pela primeira vez desde que veio do Brasil para Portugal, há 20 anos.

26.5.20

“Não podemos ir de crise em crise e haver pessoas que ficam sem nada”

Maria Caetano, in Dinheiro Vivo

“Miséria do Tempo”, de Renato do Carmo, prossegue um estudo que já deu voz a jovens precários. Desta vez, fala do desemprego à entrada de nova crise.

É a sequela de um mal-estar que se arrasta, pelo menos, desde a crise financeira. No ano passado, produziu “Retratos da Precariedade” e, agora, traz as vozes de quem, frente à economia que nos últimos anos progrediu para integrar milhares no mercado de trabalho, continua apesar de tudo a ficar para trás.

O livro “Miséria do Tempo – Vidas Suspensas pelo Desemprego”, publicado pela editora Tinta-da-China, chegará às livrarias dia 4, atrasado pela pandemia.

Entre os retratos do jovem precário de 2019 e os do desempregado de meia idade, neste ano, Portugal foi de uma recuperação na qual se iniciava a concertação para uma subida de rendimentos até uma nova crise no emprego que já começou a expulsar milhares. Serão em muitos casos os mesmos de antes, os mais vulneráveis, admite Renato Miguel do Carmo, autor deste estudo em conjunto com Maria Madalena d’Avelar. Numa semana em que o governo se prepara para desenhar com partidos e parceiros as novas medidas que terão de suportar postos de trabalho e quem ficou sem rendimentos, o livro do sociólogo serve para lembrar que há quem assista aos altos e baixos da economia sem nunca largar a condição de crise.

“O princípio de ninguém ficar para trás devia nortear as políticas desde já”, defende o coordenador do Observatório das Desigualdades do ISCTE. Para que a sociedade como um todo tenha mais capacidade de resistir.

A sociedade como um todo tenha mais capacidade de resistir. O livro “A Miséria do Tempo – Vidas Suspensa pelo Desemprego” apresenta uma nova parte da investigação que tem conduzido sobre o grande ajustamento que o mercado de trabalho teve após a crise financeira de 2008, olhando agora para a realidade dos desempregados de longa duração. Que tipo de testemunhos traz? Renato Miguel do Carmo – O objetivo foi fazer uma análise mais aprofundada do tipo de pessoas que, apesar da recuperação, continuavam na situação de desemprego, ou já estavam de tal maneira a ficar para trás que tinham grande dificuldade em regressar ao mercado de trabalho. Esse perfil estava mais ou menos identificado na estatísticas: uma população com níveis de escolaridade mais baixos e com idade tendencialmente mais avançada.

Foram 46 entrevistas aprofundadas para abarcar dimensões de caráter socioeconómico, de percurso de vida, da própria experiência subjetiva do desemprego, saúde mental, e perceber como a experiência de desemprego afeta o indivíduo e os seus próximos. As últimas estatísticas, antes da crise atual, demonstravam que havia uma incidência da pobreza na população desempregada. Apesar de o desemprego estar a diminuir, na população que continuava no desemprego o risco de pobreza estava a aumentar. No final do ano passado, quase metade das pessoas encontravam-se em situação de pobreza. Há este problema de privação que encontramos depois nos casos que fomos estudando.

São casos de pessoas que durante a última crise ficaram em situação de desemprego e que não conseguiram um regresso ao mercado de trabalho?
R.M.C. – São várias crises. Muitas daquelas pessoas têm trajetos cumulativos de vulnerabilidade social e económica. Isso é muito característico do mercado de trabalho em Portugal nas faixas do trabalho manual e menos qualificado. Durante os anos 1980 e até ao início deste século, eram pessoas que apesar de terem baixos salários, no fundo, tinham sempre emprego. O desemprego não era um problema. Aliás, no início do século tínhamos uma taxa de desemprego na ordem dos 4%. Ter emprego não era um problema, embora houvesse a questão dos baixos salários. Com a crise de 2008, começou a ser muito difícil e algumas destas pessoas conheceram o desemprego pela primeira vez, outras tinham trajetos de desemprego anteriores, e tiveram uma grande dificuldade em regressar ao mercado de trabalho com uma idade mais avançada e níveis de qualificação muito baixos. Ficaram presas numa situação muito vulnerável.

Nalguns testemunhos do Webdocumentário que acompanha o livro, “Demasiado Novo para Ser Velho”, as pessoas falam das respostas institucionais que encontraram. Nomeadamente, nos centros de emprego. Há dificuldade de a reinserção profissional, de a formação, responderem ao quadro específico destas pessoas?
R.M.C. – Há várias dificuldades na relação com os serviços, e que não são específicas do nosso país. Lembro-me sempre do filme do Ken Loach, “I, Daniel Blake”. É muito esse perfil que também em Portugal acontece. Há uma dificuldade de relacionamento com os serviços, também por alguma iliteracia, e outra coisa muito saliente é que as pessoas vivem percursos de desproteção social. Têm carreiras contributivas irregulares, muitas vezes porque a entidade patronal acabou por não fazer as contribuições que era suposto fazer e a pessoa só descobriu posteriormente, ou pelo facto de algumas destas pessoas – infelizmente, acontece em muitos destes grupos –, porque auferem baixos salários, para terem um pouco mais de rendimento ao fim do mês optarem por não fazer as contribuições à Segurança Social. Isto, dentro da lógica de que se tinha habitualmente emprego e, portanto, não se corria muito risco. O problema é que estes processos cumulativos de vulnerabilidade foram crescendo. Muitas destas pessoas caem no desemprego e têm dificuldade em acionar os subsídios de desemprego e os apoios habituais. Ou porque não descontaram, ou estavam em situação precária, ou porque foram enganados, o que também acontece.

Esta recuperação mais recente do emprego dos últimos anos, que criou mais oportunidades de trabalho nas áreas ligadas ao turismo e serviços, melhorou as condições para algumas destas pessoas?
R.M.C. – O que estava a acontecer é que o emprego estava a crescer de tal maneira, e o desemprego a diminuir, que mesmo com um perfil de menores qualificações e com idade mais avançada as pessoas estavam a entrar no mercado de trabalho. A questão que se levanta, e agora estamos a vê-lo de uma forma muito brutal, é que parte do emprego que foi criado foi emprego de natureza precária. Ou seja, com contratos a termo ou muitas vezes sem contrato. Nesses sectores ligados ao turismo as pessoas estavam até muitas vezes em situação informal. Num projeto que decorre deste, estávamos agora a fazer entrevistas a trabalhadores dessas áreas, com casos de trabalho completamente informal. Trabalhadores do tuk-tuk, por exemplo, ou aqueles que estão nas plataformas da tal gig economy de que se fala muito, com situações muito vulneráveis do ponto de vista contratual. O emprego que foi criado em muitos destes sectores relacionados com o turismo, mas não apenas, não era um emprego de qualidade. O que está a acontecer com a crise da pandemia é reflexo disso. No estudo identificamos esta ideia: há aqui um desemprego imediato que afetou, primeiramente, as pessoas que já estavam numa situação precária. Significa que vulnerabilidades anteriores se reforçaram com a crise e aqueles que conheceram o desemprego automaticamente, nos primeiros dias e semanas, foram as pessoas que estavam nesta situação. Não foram abarcadas pelo lay-off, e por outro lado nem sequer puderam acionar os apoios e subsídios habituais. Não são elegíveis. São pessoas que passam diretamente de uma situação de emprego desprotegido para a situação de desemprego desprotegido. Perdem rendimento e estão com uma grande dificuldade em encontrar alternativas. Ocorre nalgumas franjas do trabalho independente também, os falsos recibos verdes, e por aí fora.

De certa forma, antes da recuperação do emprego estas pessoas estavam invisíveis enquanto desempregadas, e agora voltam a essa condição de serem desempregados invisíveis?
R.M.C. – Neste momento estão ainda mais invisíveis dadas as características desta crise. Devido à questão do confinamento. Não têm expressão sequer física. A presença física que, infelizmente, os desempregados tinham noutros tempos, nas filas dos centros de emprego, da Segurança Social, pura e simplesmente desvaneceu-se do espaço da própria cidade, do espaço público. Os procedimentos com os serviços públicos passaram a ser mediados, fundamentalmente, a partir da Internet. É esta a resposta que devia ser dada, mas as próprias características da crise reforçam ainda mais invisibilidade.

Até há pouco tempo uma das discussões na agenda da Concertação Social era a questão da formação, não iniciada mas como objetivo…
R.M.C. – Essa é uma das questões que merece reflexão. Tivemos um programa, durante um determinado período, que foi o das Novas Oportunidades. Pode ter corrido melhor, pior, haver uma avaliação, mas de facto existia um programa que foi interrompido e que investia na formação ao longo da vida durante a crise anterior e período de austeridade. Não foi retomado, pelo menos, com a mesma envergadura e com a mesma ambição, num programa estruturado de formação profissional e de formação ao longo da vida. Está identificado há muito tempo em Portugal e é um dos grandes problemas que nós temos. Temos uma população empregada com níveis de idade intermédios, aquela população que está com mais de 45 anos, em que os níveis de escolaridade são ainda muito baixos comparando com outros países da Europa. Estamos a recuperar sobretudo na formação dos mais jovens, mas de facto uma parte considerável da população empregada tem ainda níveis de qualificação muito baixos. É algo que já vem muito de trás, fundamental, e em que era importante investir.

Ainda se irá a tempo de agarrar efetivamente estas gerações, sendo que o tempo corre, a demografia do mercado de trabalho muda e estas pessoas desaparecem?
R.M.C. – É o que tem acontecido. As pessoas vão para o desemprego e acabam por ser catalogadas, do ponto de vista estatístico, como inativos. Não devia acontecer. Temos um conjunto de pessoas aptas para trabalhar, com vontade de trabalhar, que valorizam muito o trabalho e com competências que demonstraram ao longo da sua vida, até com vontade de tirar cursos e formação desde que se concretizem em oportunidades de trabalho. Muitas vezes isso não acontecia. Tiravam-se cursos de formação sem retorno. É uma das críticas que surge também. O webdocumentário “Demasiado Novo para Ser Velho” é sobre pessoas que estão a ficar para trás, algumas delas interiorizaram que dificilmente regressam ao mercado de trabalho, mas com um potencial muito grande ainda do ponto de vista profissional. É algo que devia ser alterado, mas não sei se iremos a tempo, no contexto desta crise, para haver uma resposta a estas pessoas. É bastante preocupante.

Por outro lado, temos também a situação das gerações mais novas, que com a crise sofreram uma embate muito forte e tiveram de lidar com uma prevalência grande de vínculos precários no mercado de trabalho…
R.M.C. – Sabemos que a incidência da precariedade entre trabalhadores mais jovens é maior do que nas outras faixas etárias. É natural que sejam as pessoas mais precárias a sofrer primeiro o embate da crise. Por esta ordem de ideias, serão obviamente os mais jovens que estão em situação mais vulnerável. Não é exclusivo de Portugal. Também a própria Organização Internacional do Trabalho e outras organizações têm chamado a atenção para isso. Alguns indicadores já apontam para isso, ao nível por exemplo das perdas de rendimento. Alguns inquéritos têm demonstrado que na população mais jovem se identificam as maiores perdas de rendimento decorrentes da crise da covid-19. Estamos a falar de uma população jovem, qualificada, que estava a viver uma situação de precariedade que apesar de tudo permitia ter rendimentos, mesmo vivendo com alguma dificuldade, mas que agora se vê numa situação sem alternativa. Até a alternativa de emigrar, que sempre existia como opção. Nas entrevistas que fizemos também a jovens precários, num outro livro, “Retratos da Precariedade”, a emigração surgia como um cenário hipotético. Não é exclusivo dos jovens, mas sabemos que muitos emigraram não porque estavam desempregados, mas porque estavam numa situação de precariedade recorrente e sem grandes expetativas de carreira e aspirações. Foi muitas vezes o principal mote para emigrarem para outros países. A emigração – pelo menos, nestes próximos tempos – não é uma opção. Esta é uma crise generalizada, com impactos diferenciados nos vários países, e há uma mobilidade que só vai recuperar lentamente. O cenário da emigração não se põe. Do ponto de vista existencial, é bastante aflitivo perceber que se está a viver numa situação em que, por um lado, se deixou de ter rendimento, por outro lado há dificuldade de acionar os mecanismos habituais de proteção social como o subsídio de desemprego devido à condição precária que se tinha, e simultaneamente perceber que emigrar não é uma alternativa.

É angustiante. Há um confinamento das expetativas que é possível ter também?
R.M.C. – São múltiplos confinamentos que se cruzam. Se esta situação perdurar – e essa é que é a grande incógnita –, podem cavar muito fundo do pontos de vista económico, social, e também do ponto de vista da própria condição existencial e psicológica do indivíduo, atingindo a saúde mental. Já era um problema anterior e, neste momento, pode estar a agravar-se de uma forma exponencial.

– Neste primeiro momento da pandemia, houve uma conjunto de medidas extraordinárias introduzidas aos poucos, começando pelo lay-off simplificado e apoios à redução de atividade dos trabalhadores independentes, ainda que com críticas quanto à forma como foram implementadas. Neste momento está a ser discutido um segundo pacote de medidas para a retoma. Em termos de princípios, e das realidades do mercado de trabalho que agora ficam a descoberto, por onde devem seguir?
R.M.C. –. A questão é como se vai resolver estes problemas. Há várias questões. A primeira tem que ver com a identificação destes grupos mais vulneráveis. O facto de eles se tornarem invisíveis não quer dizer que não sejam um problema social e também um problema político. Estas pessoas precisam de uma resposta e ela não passa pelas políticas de apoio habitual. São pessoas muitas vezes de extrema situação de precariedade, vulnerabilidade, até de informalidade, e com uma incidência grande nos trabalhadores mais jovens. Tem de haver uma resposta política do ponto de vista da proteção social e do ponto de vista da transferência de rendimentos. É importante fazer a identificação destas situações e acionar mecanismos e políticas que deem uma resposta. É o princípio geral de ninguém ficar para trás e que devia nortear as políticas desde já. Depois há a questão do lay-off, saber até quando se prolonga. Obviamente, o país não tem capacidade financeira para que a situação se prolongue muito tempo. É insustentável. Mas pode prolongar-se mais, e não há dúvida de que o lay-off, apesar das suas limitações, significou um amortecedor. Estaríamos numa situação de maiores níveis de desemprego se não tivesse sido o recurso ao lay-off. Mas é preciso pensar no que vai acontecer a seguir. As empresas, apesar de terem recorrido ao lay-off vão conseguir ter sustentabilidade, manter os empregados? Deve haver a preocupação de pensar outro tipo de políticas que façam com que as empresas, já numa situação pós-lay-off, não caiam de um momento para o outro na insustentabilidade, tendo de fechar portas. Por outro lado, a ambição de médio-longo prazo deve ser a de aprender um pouco com o passado. É importante criar emprego, e vai ser um objetivo fundamental, mas sendo isso é necessário não é suficiente. É preciso criar emprego de qualidade, emprego que proteja as pessoas. Deve ser uma prioridade. Proteger o emprego é proteger a sociedade, e estamos a ver isso. Se tivéssemos uma sociedade em que as pessoas estivessem mais integradas no mercado de trabalho, mais enquadradas do ponto de vista laboral e da proteção social, o impacto da crise não seria tão forte. Teríamos mais capacidade de resistir. Não podemos continuar na situação de ir de crise em crise e, perante uma crise, perceber que há sectores que vão abaixo e nos quais as pessoas ficam de um momento para o outro sem nada. É bastante aflitivo. A recuperação anterior não foi acabada e algumas pessoas estavam ainda em situação bastante vulnerável em diferentes gerações. Se adotarmos este princípio, estamos a fazer com que as pessoas vivam melhor individualmente, nas suas famílias, mas ao fazermos isso estamos a fazer também com que a sociedade seja mais resistente.

E a vacina da pobreza é para quando?

in Público on-line

Agora, de repente, apesar das máscaras do nosso quotidiano, está tudo a descoberto. É uma pobreza envergonhada, mas já não se oculta. Bastaram dois meses e já não há dinheiro para as despesas básicas.

Tudo a correr como previsto. Primeiro foi a saúde pública. Saltámos do confinamento e do medo, para o desconfinamento e a incerteza durável, enquanto no horizonte vinga a ideia de que só estaremos a salvo quando uma vacina surgir numa qualquer manhã de nevoeiro.

Mariano Pascual ilustrou a “desorganização dos nossos pensamentos” durante o isolamento
E agora já estamos na crise económica e na instabilidade social. A diferença é que neste caso não existe perspectiva de vacina para a pobreza, a precariedade, os salários baixos, o desemprego e as desigualdades. Não é doença nova, apesar de essa ser a ideia que se quer passar. Digamos que a ferida abriu por completo com o novo bicho. A diferença é apenas essa.

Há muito que a enfermidade está identificada. Ainda não há muito, em 2018, os dados eram claros: dois milhões de portugueses eram pobres. Alguns com emprego. Outros excluídos de qualquer disposição social. E depois existiam ainda os outros, que intuíamos muitos, mas que não eram abrangidos pelas estatísticas, envolvidos em actividades a que por norma não associamos riscos de pobreza, embora se pressentisse que poderiam tombar nelas com grande facilidade.

Não eram pobres, no sentido de serem incapazes de participar nos mecanismos sociais, mas “novos pobres”. Não eram proletários, eram “novos proletários”. Não eram precários, eram os “novos remediados”. Eram todos aqueles que iam conseguindo disfarçar com dificuldade a sua condição. Uns por simples invisibilidade, outros por vergonha e outros camuflados nas redes sociais — sejam as digitais ou as de carne-e-osso — onde todos nos vamos encenando uns para os outros.

Agora, de repente, apesar das máscaras do nosso quotidiano, está tudo a descoberto. É uma pobreza envergonhada, mas impossível de ser oculta. Sentem-se humilhados. Muitos estão sós. Não há dinheiro para as rendas de habitação inflacionadas. Têm fome. Bastaram dois ou três meses e já não há dinheiro para as despesas básicas.

Ao contrário do que o momento actual faz acreditar, e a capacidade de obter visibilidade de algumas áreas de actividade faz supor, esta não é uma realidade sectorial. Alguns sectores serão mais afectados pelo contexto actual. Mas em muitas áreas existe, para lá das especificidades, quem permaneça mais confortável e quem esteja muito fragilizado. E são estes, independentemente de serem artistas, músicos, dentistas, da restauração, das fábricas, cuidadores, administrativos, jornalistas, enfermeiros, etc, que têm de ser tidos em conta. Quanto mais a luta for fragmentada, como tende a ser, mais quem detém o poder distribui pensos rápidos aqui e ali, ao sabor das circunstâncias, de alguns interesses concretos e da capacidade negocial de outros. Mas as necessárias e profundas mudanças não tendem a acontecer.

O que tende a suceder é o regresso de práticas assistencialistas ou de caridade, por vezes confundidas com apoio e solidariedade social, que não mudam o problema da pobreza, mas ampliam relações de dependência. Não nos deixemos enganar. Nunca o mundo produziu tanto. A pandemia veio expor um cenário cíclico de aflição, mas a nossa sociedade tem um nível de prosperidade suficiente para assegurar que ninguém viva na privação. É só preciso distribuir melhor a riqueza. Reforçando as mais-valias conhecidas contra a mesma. Os serviços públicos universais e gratuitos. Ou as prestações sociais abrangentes e apropriadas, financiadas por impostos progressivos.

Mas talvez seja necessário também experimentar. Propostas não têm faltado para uma economia mais justa. Rendimento mínimo garantido, como este momento de urgência talvez devesse contemplar, nem que fosse transitoriamente. Impostos sobre os mais ricos. Mudar a estrutura de distribuição da riqueza, que continua concentrada em poucos, o que implica alterar as disposições de poder, fomentando uma economia participativa ou circular, onde todos entram para que não exista hiperconcentração de poder (financeiro ou político), beneficiando apenas uma minoria.

É verdade. As desigualdades apesar de terem aumentado nas últimas décadas são menores do que há um século. Porém, nos últimos 30 anos, fomos longe de mais, acreditando que o livre fluxo de capitais, de bens e serviços, e a competição por mercados, seriam suficientes para alcançar a prosperidade de que todos viriam a beneficiar. Mas o que vislumbra agora é que os contemplados são apenas alguns. Até quando?