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11.9.23

Lisboa: leiloa-se à maior licitação

João Rochate da Palma, in Público

Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação.


Poucas palavras me restam para expressar o estado da capital portuguesa. A cada dia surgem novas evidências de que toda a cidade está num estado perpétuo de se leiloar à maior licitação. A piorar a situação, as condições materiais e morais de habitar Lisboa têm vindo a deteriorar-se de tal modo que um retorno à Lisboa de personalidade que atraiu a onda turística que agora a destrói parece cada vez menos viável.

Agora é a Casa Independente, lugar de passagem obrigatório no largo do Intendente, que fechará portas dado que a intenção dos proprietários do edifício é vendê-lo, provavelmente a quem mais oferecer. E quem é que mais oferece? Sempre uma grande empresa que procura “modernizar” espaços, isto é, transformá-los em alojamentos locais, hotéis ou espaços mais apetecíveis ao novo modelo de turista americanizado que o governo da cidade parece procurar.


Aquele turista ou nómada que usa, abusa, cospe na cara, não pergunta o que a cidade quer ou de que gosta. Aquele turista que está ali só para satisfazer os seus interesses e não quer personalidade ou diálogo com as ruas, com os espaços tradicionais da cidade, aqueles que lhe conferiam, outrora, estatuto de cidade histórica. É assim que Lisboa se vende.

Já este ano se perdeu, no mesmo largo, outro espaço, pelo mesmo motivo, “O das Joanas”, encerrou permanentemente. Outro espaço icónico de um largo que tanto demorou a ser reabilitado, ao ponto de hoje atrair interesses que não são locais, mas sim com a mente posta no lucro desenfreado, na expulsão da personalidade do centro da cidade.


Há uns anos, expulsaram o que restava do Imaviz, o “MetropolisClub”, que mantinha a vida acesa no centro comercial histórico de Lisboa. Agora, cerca de três ou quatro anos depois, nem existe a obra que era prevista para o espaço, nem há provas do começo da construção.


Quem dá estes exemplos dá incontáveis mais. A cidade continua a vender-se, como se vendeu à JMJ, cujo retorno foi posto em tom de humilhação na expressão de que é “espiritual”. A abdicação da cidade à devassidão Católica surgiu apenas poucas semanas antes de Lisboa ser galardoada com o prémio de ultrapassar Amesterdão como a cidade mais cara da Europa. Um prémio acompanhado da miséria e pobreza do estado da habitação, à qual não há pacote deste Governo que pareça ter qualquer efeito.

Os preços aumentam, a cidade torna-se hostil e surgem notícias de que os nómadas já nem a procuram tanto, e o ritmo de chegada chegou a abrandar, nem que temporariamente. De tanto despersonalizar a cidade, de tanto a vender, ela arruinou-se, a fim de atrair a chegada de mais cifrões. Tanto o fez que até estes perderá. E depois, que restará? Uma cidade economizada? Sem personalidade? Sem locais?

Enquanto estas perguntas surgem, a cidade continua a vender-se, sem resistência ou protesto que valha. Sem a violência de discurso necessária.

Porém, o turismo não acabará e desta onda não se vê o fim. E diga-se, o problema não é o turismo, mas sim a incapacidade de tornar Lisboa senhora que atrai turista, em vez de a vender ao turista que mais pagar, que mais vier, que mais quiser aparecer, moldando-a ao gosto do freguês. Lisboa, turística e de locais, é aquela que sempre foi: histórica, cultural, com identidade.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]



10.8.23

Algarve vazio: vá para dentro, lá fora

Manuel Cardoso Humorista, opinião, in Expresso

O Algarve já foi destino, agora é fado: é do agrado dos portugueses, mas vê-lo ao vivo só está ao alcance do bolso dos estrangeiros


Pelintramente, requeri junto de familiares o usufruto temporário de uma casa de férias e, no início deste mês, consegui passar uns dias no Algarve. Na semana da Jornada Mundial da Juventude, tinha sido pressagiado um imparável movimento migratório pela A2 abaixo - não de “todos, todos, todos”, mas de alguns, alguns, alguns. Não ocorreu; o Sul estava efetivamente calminho. Escandalosamente calminho, até. O alerta de fraca adesão turística confirma-se: neste verão, a região tem dado ares de destino para onde as pessoas viajam quando querem evitar a confusão do Algarve.

Calculo que muita gente não se reveja neste Algarve em que não é preciso estar 45 minutos à espera de mesa para comer, em que não se tem de estacionar a dois quilómetros da praia, em que não nos é dada a oportunidade de escutar a totalidade da conversa íntima da família que estendeu a toalha a meio metro da nossa. Este não é o Algarve a que fomos habituados; exigimos o regresso do maralhal! É que o Rio Trancão tinha mais gente do que a Ria Formosa. Pela primeira vez na história das quinzenas de Agosto, foi pertinente alguém dizer "bom, a Bobadela está impossível, vou mas é desfrutar da quietude de Quarteira".

O Algarve não tem estado vazio necessariamente por causa da ausência de estrangeiros: a afluência de irlandeses, por exemplo, cresceu uns impressionantes 25% face ao período de pré-pandemia. É possível que o único irlandês que não veio para o Algarve tenha sido o ator Cillian Murphy, protagonista de “Oppenheimer” - provavelmente, porque já estaria suficientemente bronzeado em virtude da radiação atómica.

Segundo os dados da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, quem faltou à chamada foram os turistas nacionais. Ou seja, se o Sul do país já foi o segredo mais bem guardado da Europa, hoje é o segredo mais bem guardado de Portugal. Não por ser um local desconhecido, mas porque está tão caro que, para não ser tido como um magnata, quem lá vai guarda sigilo. O Algarve já foi destino, agora é fado: é do agrado dos portugueses, mas vê-lo ao vivo só está ao alcance do bolso dos estrangeiros.

Paulo Futre, em 2011, estava parcialmente correto quando profetizou "vão vir charters". Na verdade, "estão a sair charters". De Portugal, em direção a destinos turísticos mais em conta. Segundo a edição da semana passada do Expresso, os voos para países como Cabo Verde, Caraíbas, Marrocos, Tunísia, Egito ou Senegal têm tido imensa procura. A razão? Os preços são muito mais competitivos do que os do Algarve. Ou seja, passar férias em Boliqueime é atualmente mais extravagante do que ir para as Bahamas. Isto terá consequências trágicas, como o aumento do número de pessoas que nos dirão que "não há melhor do que um hotel com pulseirinha" e que nos tentarão convencer que um curso de mergulho "vale mesmo a pena".

Eu não percebo nada de hotelaria, mas julgo que os operadores turísticos do Algarve se entusiasmaram nos preços face à competição. Note-se que a maioria dos destinos supracitados são banhados por água quentinha. Ao português não lhe falta vontade de ir para o Algarve e é até capaz de desafiar um estrangeiro para um duelo, caso lhe ouça uma crítica às praias portuguesas.

Agora, um destino de praia cuja temperatura do mar é frequentemente definida pela frase "custa a entrar, mas depois habituas-te" de modo algum justifica 200 euros por uma noite num hotel. Uma vez que os portugueses parecem estar a escolher destinos de praia porque o Algarve está muito inflacionado, o novo lema do Turismo de Portugal devia ser "vá para dentro, lá fora".

Portanto, Lisboa estava a abarrotar de beatos, o Algarve ficou demasiado caro e o interior lida, como sempre, com os incêndios. Onde é que os portugueses se enfiaram no verão de 2023? No cinema. O ICA revelou que julho foi o melhor mês em receitas brutas para as salas de cinema desde que há registos. Faz sentido, é o único local com ar condicionado em que podemos dormir no verão que custa menos de dez euros. Parte desta faturação terá acontecido graças ao filme “Oppenheimer”. É curioso que, para fugirem ao calor, os portugueses tenham ido ver uma película que se debruça sobre uma bomba que atinge temperaturas de 50 milhões de graus Celsius.

Nesta quinta-feira, estreou o filme “Gran Turismo”. Ainda não vi, mas é melhor não esperar grande coisa: parece que tudo o que está relacionado com turismo em Portugal tem ficado aquém das expectativas.

14.7.23

Ainda há resistentes no mercado da Sé nas vésperas da despedida

Mariana Correia Pinto (texto), Paulo Pimenta (fotografia), in Público online

Câmara do Porto anunciou indemnizações e encerramento até ao fim de Junho, mas comerciantes não receberam e não arredam pé. Fechar o mercado será “matar mais um bocadinho a Sé”?

As notícias da sua morte foram manifestamente exageradas. E trouxeram danos a quem por ali ainda resiste: “A gente já vendia pouco, mas ficou ainda pior depois de a câmara [do Porto] ir dizer para a rádio que isto ia fechar.” O protesto é de Maria Vitória, mais conhecida como Maria Comunista, e encontra eco em quase todas as conversas no Mercado de São Sebastião, na Sé do Porto. “Isto está como se vê”, diz a vendedora a apontar o estado degradado do edifício com quase todas as bancadas vazias: “Está mau, mas fechado ainda não está. Enquanto não nos pagarem aqui estaremos.”

No início de Junho, o vereador Ricardo Valente garantiu, numa reunião do executivo, encerrar o processo até ao fim desse mês, indemnizando as comerciantes e fechando portas. “A partir daí iremos ver o que fazer naquele espaço”, afirmou, recusando dar mais pormenores. As quatro vendedoras que ali permanecem já aceitaram sair, mas souberam desse prazo pelos jornalistas e, até agora, não foram chamadas pelo município. O PÚBLICO questionou a Câmara do Porto sobre o assunto, mas o gabinete de comunicação limitou-se a informar de que levará uma proposta sobre o assunto à próxima reunião do executivo, na próxima segunda-feira. Até quando estará o mercado aberto não se sabe. Se a autarquia pretende reabilitá-lo (tendo em conta que recuperou os 75 mil euros que havia dado à junta local para o fazer) e para que fim o vai usar permanece no segredo dos gabinetes dos Paços do Concelho.

Sentada ao lado da sua bancada, Maria Barbosa confirma a sua disponibilidade para pôr um ponto final numa história de muitas décadas. Não com alegria, mas entregue à resignação. “Tenho 82 anos e estou cansada. Se vendesse, valia o esforço. O problema é não haver gente: ainda ontem fui embora sem me estrear.”

A decadência do Mercado de São Sebastião, inaugurado nos anos 1990, não é de agora. E na Sé conhecem-se as costuras da história. “Desde que começaram a mandar gente para os bairros e para fora do Porto, isto foi morrendo.” O lamento é de Albertina da Liberdade, ex-vendedora, moradora na Travessa de São Sebastião e testemunho vivo de tempos em que a artéria era do povo ali nascido. “Isto estava sempre cheio de gente, agora somos quatro ou cinco e o resto é hostels.”

[...]

O fecho do mercado entristece-a. Que fará, depois, às flores colhidas no seu campo, nos Carvalhos, do lado de lá da ponte? Às cinco da manhã, sem dias de folga, já está a regá-lo. Pouco depois, põe-se a caminho do Porto. “Gostava de manter o meu ritmo, ainda me sinto jovem. Às vezes, a minha filha pergunta-me se não estou cansada. Não estou! Levo a vida a brincar e isto passa.”

O movimento é fraco. Mas não cessa. Tal como a conversa, parte da delicadeza do mercado. “A gente aqui distrai-se”, comenta Carminda Nobre. Os clientes fiéis incentivam a resistência: “Espero ver-vos aqui mais vezes. Muita saúde”, acena um homem já a caminhar para a saída. Maria Barbosa, ou Maria do 21, alcunha de casamento por ter dado o nó com um homem que era o número 21 na tropa, pede a palavra: “Acha que isto fecha para sempre ou não?”, pergunta em jeito de remate, como se buscasse solução para a sua ânsia. Ela tem um palpite: “As pessoas hoje vão ao supermercado e compram tudo. Mais cedo ou mais tarde, fecham isto, depois há-de ser o Bolhão. Ou então é como o Bom Sucesso. Vai ser outra coisa.”

[artigo disponível na íntegra para assinantes aqui]

4.7.23

Os trabalhadores inesperados que os hotéis portugueses estão a empregar: matemáticos, engenheiros, atrizes ou mesmo vaqueiros

Conceição Antunes, in Expresso


Num sector em crescimento, os hotéis estão a contratar pessoas com profissões inusitadas para a área, vindas de mundos diversos, da ciência às artes, da tecnologia à agricultura, entre outros. Histórias de quem encontrou uma segunda oportunidade de carreira, ou nunca imaginou “trabalhar em turismo”


Foi um trabalhador escolhido a dedo, pela sua experiência, num ofício pouco comum para um grupo de raiz hoteleira - mas que está apostado em fazer pontes com o mundo rural. José Candeias, vaqueiro desde sempre, foi contratado pela Vila Galé para tratar das vacas em pasto na sua herdade alentejana que integra três hotéis. Pela primeira vez tem de lidar no seu trabalho com constantes visitas de turistas. “É muito movimento aqui, normalmente os pastores e vaqueiros gostam de estar sossegados, mas os animais já se habituaram”, nota

O Expresso contactou uma série de trabalhadores com perfil ‘fora da caixa’ contratados a tempo inteiro pelos dois maiores grupos hoteleiros em Portugal - Pestana e Vila Galé - cujos capitais são exclusivamente nacionais, empregam no país cerca de 5 mil pessoas, e têm, no conjunto, mais de uma centena e meia de hotéis.


Numa realidade extensível a outros grupos hoteleiros nacionais, o que se constata é que o turismo está de forma crescente a contratar profissionais de diferentes áreas, quer porque a operação hoteleira está a expandir-se e absorve pessoas com os mais variados perfis, porque o contratado não encontra alternativas com a formação de base ou ainda porque a acelerada transição tecnológica nos hotéis obriga a recrutar trabalhadores que há uns anos eram impensáveis no sector, como matemáticos, engenheiros ou especialistas em sistemas digitais, conforme explica o presidente executivo do grupo Pestana, José Theotónio.

“O perfil das pessoas que têm entrado para os nossos departamentos é muito diferente do que até há uns anos precisávamos para estas áreas. Temos hoje um engenheiro aeroespacial na área comercial, ou uma senhora formada em medicina molecular na área de revenue management (gestão de preços). Há aqui de tudo”, exemplifica o CEO do grupo Pestana.

“Por outro lado, temos visto chegar às áreas operacionais pessoas com formações muito distantes da hotelaria, que conseguimos formar internamente e se tornam bons profissionais, trazendo até um refrescamento às equipas”, nota José Theotónio. “O mais importante é terem a atitude correta, o gosto em contactar com clientes e vontade de aprender”.

UMA ATRIZ A DIRIGIR O HOTEL PESTANA CR7 NA MADEIRA

Um caso emblemático é o de Alexandra Viveiros, de 37 anos, atriz formada em interpretação pela Escola Superior de Teatro e Cinema, que fez parte do elenco de peças no Teatro Nacional D. Maria II (como ‘Esta Noite Improvisa-se’, de Luigi Pirandello) e é atualmente diretora do hotel Pestana CR7 no Funchal.

“A hotelaria é como um teatro: existe a cena, existe o palco, tudo é feito para proporcionar ao hóspede uma experiência de vida que possa ser única”, descreve Alexandra Viveiros. “Há também toda a estrutura de serviço, que para mim é o backstage de um espetáculo, a alegria do show must go on. O que se faz num teatro é de facto muito semelhante ao que se faz em operação hoteleira”.

“Tenho o privilégio de poder trabalhar todos os dias artisticamente”, resume a atriz, lembrando estar a dirigir “um hotel com um conceito mais jovem, ligado à grande figura do Cristiano Ronaldo", que, como ela, também é madeirense.

O serviço no Pestana CR7, onde Cristiano Ronaldo vai “bastantes vezes”, carateriza-se por seguir uma linha de turismo de padrão alto mas "descontraído, com muitos detalhes entre as várias unidades. Por exemplo, o ‘check in’ no hotel do Funchal é feito com as pessoas sentadas num sofá”.

“Temos de ser um bocadinho personas no quotidiano de trabalho, é o que eu gosto de transmitir às minhas equipas, e trago isso do teatro”, destaca Alexandra Viveiros. As performances também têm um lugar especial nos eventos que organiza no hotel. “É o know-how que trago das artes, e esta marca permite criar algo que tem mais a ver com espetáculo, numa linha de lifetsyte”

A atriz garante estar a trabalhar em hotelaria por vontade assumida, e não por falta de opções profissionais. Foi ela própria que, nos tempos em que vivia em Lisboa, concorreu à vaga de guest service manager do hotel Pestana CR7 que abriu na baixa em 2016, assumindo funções que descreve como “do tipo Relações Públicas: tratar de pedidos especiais de clientes VIP, e também da parte de eventos”.

A sua vontade de ‘voar’ para áreas complementares aos palcos já a tinha levado a uma passagem anterior pela aviação, em que trabalhou na Emirates Airlines no Dubai, no lounge de primeira classe, que tem um serviço de luxo a clientes “por contrato direto com o sheik”

Com a reabertura pós-pandemia, Alexandra Viveiros foi desafiada, em junho de 2021, a voltar à Madeira como diretora do CR7 Funchal. Segundo a atriz, que teve João Perry como padrinho de cena e Lia Gama como madrinha (cabendo-lhes dar as 'deixas' a quem está em primeira atuação), “isto na hotelaria também acontece". "O primeiro diretor foi para mim um grande padrinho ao passar-me o testemunho”, diz.

“Num hotel há procedimentos que para mim são como um guião. Mas temos de ser maleáveis, há sempre coisas que fogem ao guião, todos os dias acabam por ser um improviso”, frisa Alexandra Viveiros, garantindo levar isso com prazer. “Esta capacidade traz-se das artes de observação humana, o que é fundamental é gostar de pessoas”.

EX-JOGADOR DE FUTEBOL TORNA-SE DIRETOR DE F&B NA POUSADA DO PORTO

Já para Mauro Almeida, a entrada na hotelaria foi como uma segunda vida após dar por terminada a carreira de jogador profissional de futebol, durante a qual conquistou vários títulos. Aos 34 anos, decidiu parar “por opção”. "Mas sem deixar de pensar: “o que vou fazer agora?”

"Quando acabou a carreira no futebol, senti a necessidade de me requalificar. Em 2018 fiz um curso de empreendedorismo, o meu plano era criar um hostel ou uma unidade hoteleira, porque tinha alguma ligação com o que tinha feito tendo em conta os países por onde passei, a falar vários idiomas. Tudo isso desenvolveu em mim uma paixão", conta.

Foi a fazer esse curso que entrou como estagiário na Pousada de Portugal na sua terra-natal, Viseu, instalada no edifício que era o antigo hospital e maternidade da cidade - e onde ele próprio veio ao mundo. Durante um ano e meio assumiu funções de rececionista, após assinar contrato com o grupo Pestana em 2019.

“Nasço para uma nova vida profissional no lugar onde literalmente nasci”, constata Mauro Almeida. "Sou uma pessoa ambiciosa, e percebi desde o início que estava a entrar na maior equipa de Portugal na hotelaria".

Entretanto ocorreu a pandemia, que obrigou o pessoal a ir para casa. Na reabertura Mauro mudou para empregado de mesa, passando de segunda a primeira categoria. Um salto na carreira veio em maio de 2023, com a possibilidade de se candidatar internamente ao cargo de chefia de F&B (alimentação e bebidas) da Pousada do Porto na Rua das Flores, funções que hoje ocupa.

"Na posição em que estou, quero solidificar o meu trabalho, crescer dentro do grupo Pestana, onde estão sempre a surgir oportunidades, incluindo a mobilidade para trabalhar em hotéis no estrangeiro”, considera.

Mauro Almeida começou a jogar futebol aos nove anos - “até fui campeão nacional de juniores pelo FC Porto, em 1999, com o João Pinto como treinador” -, mais tarde assinou contrato com os dragões para integrar a equipa B de futebol profissional, “onde estava o Bruno Alves, o Ricardo Costa e o Tonel". "Sabia de antemão que não ia jogar, e isso é tudo o que queremos naquela idade.”

Por isso, decidiu ir para o Académico de Viseu, emprestado pelo FC Porto, passando depois pelo Sporting da Covilhã e pelo Estrela da Amadora. Em 2004 a sua carreira tornou-se internacional e jogou em cinco países: Holanda, Inglaterra, Irlanda, Bulgária e Angola (jogando no Recreativo do Libolo, campeã da supertaça em 2015).

“A minha vida foi andar de país para país, o que me deu capacidade para lidar com diferentes culturas”, faz notar. “Tenho bem presente que o futebol foi uma vida que eu tive, teve o seu término, e agora estou a criar raízes na hotelaria, onde estou a ir passo a passo e quero chegar mais além”.

Mauro também gosta de dar palestras sobre a sua história de vida, “para mostrar aos mais jovens a ilusão de pensar que qualquer jogador profissional de futebol tem muito dinheiro e a vida feita". E avisa: "a percentagem de jogadores que o consegue é muito pequena.”

“Ao fim da carreira, há que arregaçar as mangas e não ter medo de ir à luta, porque é isso que nos faz crescer”, defende. “Fui campeão de futebol em Portugal e em Angola, agora quero ser campeão na hotelaria."

ESPECIALISTA EM DESIGN PÕE AS PAREDES ‘A FALAR' NOS HOTÉIS VILA GALÉ

Da lista de 1750 trabalhadores que os hotéis Vila Galé têm em Portugal faz parte Olga Carmo, licenciada em design e com mestrado em cultura visual - constituindo um exemplo vivo que não é só por requalificação de funções que profissionais de diferentes áreas estão a chegar ao sector.

Olga Carmo foi contratada pela Vila Galé na perspetiva de trazer as suas qualificações especializadas para o grupo, dando corpo à aposta dos hotéis serem temáticos, onde ‘as paredes também falam’.

Poesia, literatura, música, pintura, cinema, reis de Portugal ou fortificações portuguesas no mundo são alguns dos temas dos hotéis Vila Galé distribuídos pelo país, onde nas paredes de cada quarto é narrada uma história diferente, numa solução gráfica a cargo de Olga Carmo.

Este trabalho começa pela “pesquisa sobre o tema proposto, passando depois por muitos desenhos e pinturas manuais e digitais, tratamento de imagens, composições e o enquadramento histórico e visual destes elementos”, explica a especialista em design.

“Acaba por ser decorativo e também didático. Transmitimos uma mensagem, é interessante que quem nos visita saia dos nossos hotéis a saber um pouco mais sobre o tema que serviu de mote à decoração”, nota.

Com as recentes aberturas de hotéis do grupo, Olga Carmo tem andado ‘a mil’, destacando-se o novo Vila Galé Nep Kids, em Beja, onde adultos só podem entrar acompanhados de crianças e cujos quartos relatam “as mais famosas histórias infantis", às quais também se pode aceder, através de QRCode que conduz a páginas de internet contendo mais pormenores.

O destaque vai ainda para o novo Vila Galé Collection, em Tomar, que abre a 1 de julho para a Festa dos Tabuleiros, e “partiu da recuperação de um edifício que se encontrava muito degradado”, tendo um tema que “acompanha a história da cidade: os Templários”, expresso também nas paredes dos quartos.

“Inicialmente, quando me formei, não me imaginava a trabalhar em turismo, mas o meu objetivo sempre foi que o meu trabalho chegasse a muitas pessoas”, refere Olga Carmo. “No turismo é possível, porque tem imensa visibilidade, os clientes elogiam a decoração e tiram fotos junto aos quadros e painéis que desenhei, e isso é muito gratificante”, frisa.

“O fundamental é fazermos o que gostamos", sublinha. “E o meu trabalho é sempre diferente, como cada hotel tem um tema na sua decoração, não há monotonia, é uma descoberta e aprendizagem constante”.

‘REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA’ TRAZ AOS HOTÉIS ENGENHEIROS, ANALISTAS DE SISTEMAS OU MATEMÁTICOS

A chegada de novas profissões ao sector deve-se ainda à necessidade de contratar especialistas - bem pagos - de diferentes áreas científicas e tecnológicas para fazer face à profunda alteração que os hotéis enfrentam nos últimos anos, associada à transição digital.

“O modelo de negócio alterou-se radicalmente, e não tendo os hotéis uma resposta para esta nova realidade, em que a maior parte das pessoas faz reservas através de plataformas digitais, hoje quem mais dinheiro ganha com o turismo são empresas 100% tecnológicas, como a Google, a Booking ou a Expedia”, explica o presidente executivo do Pestana.

Este grupo continua a apostar em canais próprios, o que implica “investir muito em software". "Mas o maior custo acaba por ser ter equipas preparadas para gerir estes sistemas”, pelo que está a recrutar de forma crescente “muita gente da área digital, de diferentes áreas de engenharia, da gestão e da tecnologia” pela sua capacidade em análise de dados.

“É necessário esta gente chegar ao turismo para conseguirmos ter canais diretos, e não dependermos em excesso de plataformas de terceiros, senão tornamo-nos meros prestadores de serviços destas plataformas”, adverte José Theotónio.

Neste lote de novos profissionais do grupo Pestana inclui-se Mafalda Brilhante, engenheira química formada pelo Instituto Superior Técnico, que trabalha na área de inovação e business intelligence ("tratamento de dados que são relevantes para se tomarem decisões no dia a dia", conforme descreve, de forma simplificada).

“Sou a criança que sempre quis ser cientista, mas quando acabei o curso percebi que em Portugal não era um tipo de negócio que me atraía”, refere a engenheira química, que ao sair da Faculdade foi trabalhar como consultora na Accenture e desenvolveu projetos que a levaram a uma mina de diamantes em Angola. Em 2011 entrou no grupo Pestana - “por um anúncio que vi no Expresso” -, com a missão de implementar sistemas SAP nos hotéis do Brasil, onde passou três anos e meio.

“E apaixonei-me pela hotelaria, é um negócio de pessoas para pessoas, tem tudo a ver comigo”, refere Mafalda Brilhante, que desde então já passou por várias áreas dentro do grupo, incluindo a financeira, de compras ou de logística. Em 2015 tratou de um dos primeiros projetos em todos os hotéis de revenue management (estratégia de gestão de preços, “que mudam todos os dias, e às vezes no mesmo dia”), área em que se tornou diretora das Américas (hotéis do grupo no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina).

O que tem isto a ver com engenharia química? “O que é importante ter é uma lógica de pensamento matemático, e sermos resilientes para nos adaptarmos às várias situações”, realça Mafalda Brilhante, garantindo ter tido abertura dentro do grupo para se ir formando ou mudando de área.

“Eu aqui tenho oportunidade de falar com pessoas, o que adoro, na minha área nunca ia ser a mesma coisa”, reconhece. “E entretanto também tive três filhos. Estou super feliz por trabalhar em hotelaria”.

TRABALHADORES QUE RESULTAM DO ‘CASAMENTO’ ENTRE TURISMO E AGRICULTURA

Os próprios hotéis estão com os seus conceitos a evoluir e procuram cada vez mais “proporcionar experiências diferentes” aos hóspedes, pelo que também precisam de trabalhadores para as proporcionar, frisa Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da Vila Galé.

Um dos exemplos são os “monitores especializados em lidar com crianças” que o grupo está a recrutar, a par de profissionais de atividades equestres, para passeios a cavalo, complementando a estada em hotéis como o Vila Galé Alentejo Vineyards.

“Além de hotelaria, temos também atividade agrícola e de produção de vinhos, azeite e gado na nossa herdade no Alentejo, perto de Beja, pelo que é essencial ter profissionais destas áreas, como um enólogo, um vaqueiro ou um engenheiro agrónomo”, detalha Gonçalo Rebelo de Almeida.

A aposta no interior e a ligação ao mundo rural também levou a Vila Galé a contratar um falcoeiro, Rui Fortunato, tendo o grupo reabilitado a falcoaria que estava desativada na coudelaria de Alter do Chão, ao fazer o hotel Collection Alter Real, na sequência da concessão daquele património ganha por concurso público.

O grupo hoteleiro criou aqui um museu de falcoaria vivo, que recebe visitas guiadas, tendo 40 aves em exposição, incluindo falcões, águias e espécies noturnas, como um bufo real. Dentro do espaço do hotel, há todos os dias voos de demonstração, de manhã e a meio da tarde, consoante as condições climatéricas.

“É o único hotel em Portugal que tem um museu de falcoaria, com exposição e este tipo de visita”, refere Rui Fortunato, enfatizando ser uma forma de “preservar a tradição da falcoaria portuguesa, classificada como património imaterial da humanidade”.

Ver os falcões a voar, ou providenciar a sua alimentação ‘à luva’, são experiências que têm sido apreciadas pelos visitantes, em particular crianças.

As visitas não põem os falcões em stress. “Não são aves selvagens, já nasceram em contacto com humanos, confiam em nós, vêem-nos como alguém que as está a proteger e alimentar, e nós não invadimos o seu espaço vital, há sempre uma linha de respeito”, esclarece Rui Fortunato.

“Zelar pelo bem estar das aves”, encontrando "as condições ideais para poderem voar”, é uma preocupação permanente do falcoeiro, que enfatiza a atenção especial que é preciso dar na altura da reprodução, de janeiro a agosto. “Isto é um trabalho por 24 horas, e todos os dias da semana”, sublinha.



Também o vaqueiro da Vila Galé, José Candeias, diz dar atenção, de manhã à noite, às 350 vacas de que tem de cuidar na herdade de Santa Vitória, em Beja, acompanhando-as no pasto de moto-4 - uma “modernice” para quem começou este ofício a pé, tal como faziam o seu pai e o seu avô.

“Ele não tem descanso, vive cá no monte, é um trabalho que não tem horas para entrar ou sair”, constata Ricardo Palma, engenheiro agrícola da Vila Galé, responsável pela herdade. “Quando vai de férias tem de vir um substituto. É complicado, porque os animais já o conhecem, e é muito difícil encontrar pessoas a trabalhar com gado.”

“As vacas são como a gente, precisam de atenção todos os dias. Acordo de manhã e vou ver cada uma, a ver se está tudo bem. Sigo-as de mota nas pastagens, falo com elas”, descreve José Candeias, frisando ser “o gosto pela vida de campo” que o move. “Cada vez há menos vaqueiros na região, é preciso gostar muito de fazer isto, dedicamos a nossa vida ao gado.”

O que mais o preocupa é a seca. “E com as alterações climáticas está cada vez pior, a chuva veio tarde, as ervas e os fenos não têm consistência”. A falta de feno para alimentar o gado, que costumava vir da Rússia ou da Ucrânia, também está a fazer mossa.

“O que as vacas comem não dá para pagar os lucros que dão, isto nos dias de hoje tem de ser muito bem gerido, e muita gente está a levar os animais para o matadouro porque os custos estão caríssimos. É uma dor para quem lida com gado", refere José Candeias. “Nós aqui conseguimos gerir a comida para as vacas, vamos mudando de pastagem para pastagem, para os custos serem o menos possível”. O problema, constata, é que ”não há água".

Para o grupo Vila Galé, que está em fase acelerada de aberturas de hotéis, conviver com diferentes perfis de trabalhadores já é habitual.


"Devido à falta de mão de obra no sector, há pessoas que eram de outras áreas e agora estão a entrar na hotelaria, nota Gonçalo Rebelo de Almeida. “Temos uma grande diversidade de situações”, realça ainda o administrador da Vila Galé, enfatizando a entrada crescente de “especialistas em marketing digital, revenue management, inteligência artificial e realidade aumentada, análise de dados (big data) ou cibersegurança.

22.5.23

Turismo à espera de um Verão de recordes em receitas e dormidas

Luís Villalobos, in Público


Crescimento incide mais no preço, mas deverá haver também subidas ao nível do número de turistas. Banco de Portugal prevê uma subida de 14%, superando os 24 mil milhões de euros de receitas.


Para o sector do turismo, o Verão que se aproxima deverá ser “excelente”, prevendo-se que sejam batidos novos recordes em receitas e, provavelmente, também em número de turistas e dormidas, depois de o ano passado ter sido já superior em receitas face a 2019 (quando tinham sido batidos novos máximos em vários indicadores).

Os primeiros dados oficiais deste ano sinalizam já a manutenção da tendência de crescimento , com uma subida de dois dígitos entre Janeiro e Março tanto em hóspedes como em dormidas nos alojamentos turísticos contabilizados pelo INE face a idêntico período de 2019.


O maior crescimento, no entanto, registou-se nas receitas totais, que subiram 35%, para perto dos 800 milhões de euros, com todas as regiões a registar melhorias face ao período pré-pandemia.

Os números do trimestre, diz a secretária-geral da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (Ahresp), Ana Jacinto, “dão algum alento para o que se perspectiva ser um ano turístico de novos recordes, tal como foi 2022, que superou os resultados de 2019, aquele que foi o melhor ano turístico de sempre”.


A Páscoa (em Abril), diz, foi um “sucesso” e tudo indica que haverá novos máximos no Verão, o que “é o reconhecimento do trabalho árduo de todos os agentes económicos ligados à actividade turística”.


A vice-presidente da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira, cita o inquérito feito por esta entidade, o qual revelou que os hoteleiros antevêem que todos os trimestres deste ano sejam melhores face a 2019 e a 2022 nos principais indicadores (como taxa de ocupação e receitas).

Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (Alep), nota que o Verão “tem boas perspectivas”, mas que “o aumento do número de turistas não deverá ser a variável principal”, apontando antes para a subida “das receitas por noite, em especial no segmento médio alto dos turistas estrangeiros, reflexo que Portugal está a conquistar o mercado pela qualidade e não pelo preço”.

No entanto, defende, “toda a estratégia e bom desempenho do turismo vai ter os seus dias contados se estas medidas desproporcionais do Mais Habitação” em relação ao alojamento local “avançarem”.


Este será o último Verão antes de serem aplicadas as novas leis propostas pelo Governo, que implicam medidas como uma contribuição extraordinária, a suspensão de novas licenças (e revisão das actuais em 2030) e poderes para os condomínios encerrarem os AL existentes.
Sector a puxar pela economia

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, afirma também esperar um crescimento do turismo em geral neste Verão, que se antevê como “excelente”.

“Ainda que continuemos infelizmente em situação de guerra, Portugal continua a ser visto como um país seguro, reconhecido pela sua diversidade de oferta e pelo serviço de qualidade, pelo que os turistas nos continuam a escolher”, acrescenta.

Do lado do Governo, o secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Nuno Fazenda, diz que, “considerando os resultados já conhecidos, o aumento do indicador de confiança dos consumidores e do clima económico e, sobretudo, as perspectivas positivas dos empresários baseadas nas reservas turísticas”, tudo aponta “para um ano francamente positivo, que se traduzirá, muito provavelmente, num novo recorde turístico nacional”. “Estes resultados”, acrescenta, “têm impacto na economia real do país: criação de riqueza, emprego e salários para as pessoas”.

De acordo com Nuno Fazenda, “a expectativa é que este Verão seja um dos melhores de sempre”, seguindo a tendência observada neste primeiro trimestre do ano. A Jornada Mundial de Juventude (JMJ) será “um ponto alto deste Verão, que contribuirá para a projecção internacional de Portugal”, assegurando que o Governo “está atento e a monitorizar a potencial pressão aeroportuária e no sector dos transportes”.


A perspectiva positiva dos agentes do sector é acompanhada por análises de instituições como a Comissão Europeia, FMI e Banco de Portugal, que reviram em alta o crescimento da economia para este ano devido ao forte impulso do turismo.

No caso do Banco de Portugal, a instituição liderada por Mário Centeno subiu, no boletim económico de Março, a previsão de receitas (exportações) para o sector este ano. Assim, estas “deverão aumentar 14,5% em 2023, desacelerando posteriormente, num quadro de dissipação dos efeitos da procura adiada durante a pandemia”.

Com esta taxa de crescimento, as receitas deverão chegar aos 24.252 milhões de euros este ano. Para se ter uma ideia de como a recuperação foi mais rápida do que o esperado, em Maio de 2021 a previsão apontava para 18.291 milhões em 2023, ou seja, menos seis mil milhões de euros.

Para este ano, o Banco de Portugal destaca o contributo extraordinário da JMJ, que se realiza em Agosto na região de Lisboa. Também uma análise do departamento de estudos económicos do BPI feita este mês refere que, tendo por base a JMJ, e “o crescimento do turismo originário dos EUA”, associado ao incremento do número de voos, “2023 deverá reunir condições para superar os anteriores máximos quer ao nível de hóspedes, quer de proveitos”.
“Nem tudo é um mar de rosas”

A secretária-geral da Ahresp, Ana Jacinto, não deixa de destacar que “nem tudo é um mar de rosas” no sector, confirmando que a falta de trabalhadores permanece como “um dos problemas centrais”, embora adiante que tem havido melhorias.

O mesmo é sublinhado pela vice-presidente da (AHP), Cristina Siza Vieira: “A grave escassez de recursos humanos na hotelaria mantém-se como um ponto crítico, apesar de se estar a sentir um regresso, ainda que tímido, de pessoas para trabalharem no nosso sector, e a um volume crescente de trabalhadores estrangeiros, como é notório”.

A capacidade do aeroporto de Lisboa em lidar com o aumento do número dos voos é outro dos receios suscitados pelos agentes do sector.

Questionada sobre se, com o aumento de preços, não há o risco de afastar os turistas portugueses das zonas mais procuradas, nomeadamente do Algarve, Ana Jacinto diz que, apesar dos sinais positivos do sector, é preciso ter “muito cuidado no que à rentabilidade das empresas diz respeito, porque é imprescindível assegurarmos a sustentabilidade dos negócios e da manutenção dos postos de trabalho”. Ana Jacinto diz ainda que, no sector da restauração, as empresas continuam “a absorver custos e a não repercutir no consumidor aumentos em igual proporção”.

No caso da AHP, Cristina Siza Vieira começa por destacar que, tradicionalmente, o mercado interno está sempre muito aquém do internacional na hotelaria. “Não obstante o aumento de preços, no Verão o nosso país é, sem dúvida, destino de excelência para os residentes em Portugal”, acrescenta.

Sobre se se corre o risco de haver novamente demasiada pressão turística em algumas áreas, o secretário de Estado do Turismo, Nuno Fazenda, sublinha que o objectivo é que haja um “turismo mais sustentável, mais inclusivo e mais coeso”.

Nas zonas com maior densidade turística, diz, “importa assegurar um equilíbrio entre a actividade turística e a vida nas cidades/destinos, de modo a garantir qualidade de vida para os residentes e, simultaneamente, uma experiência turística positiva e com autenticidade”.

“Por isso”, acrescenta, “o planeamento, a regulação ou a gestão sustentável e dispersão de fluxos turísticos são alguns dos aspectos que devem ser considerados na gestão de destinos turísticos à escala local”.

Em paralelo, diz, “importa ter mais turismo em todo o território, nomeadamente no interior do país”, que pesa apenas 10% da procura do turismo total e 5% do turismo internacional, destacando a aplicação da Agenda do Turismo para o Interior, que conta com 200 milhões de euros e está agora a chegar ao terreno.

15.5.23

Workaway: como funciona? É mesmo férias e trabalho ao mesmo tempo?

Bárbara Baltarejo, in Público


Há quem opte por trabalhar nas férias a troco de alojamento e refeições. Gastam menos dinheiro, fazem amigos para a vida e trazem na bagagem experiências novas — palavra de quem já o experimentou.

Já te imaginaste a dar uma mãozinha nas obras de um espaço de retiro na Eslovénia ou ajudar com as tarefas diárias de um santuário animal no Havai (EUA), em troca de alojamento e refeições? É mais ou menos isto que acontece com as experiências de work exchange, que permitem viajar a baixo custo em troca de trabalho voluntário. Entre as plataformas mais antigas de work exchange conta-se a Workaway. Reunimos algumas das perguntas mais comuns e falámos com um viajante para te dar as melhores respostas.

O que é o Workaway?

O Workaway é um site — ou uma espécie de comunidade online, como se auto-intitula — que serve de ponte de contacto entre pessoas interessadas em viajar e pessoas com projectos em diferentes partes do mundo que querem acolher e receber ajuda para determinadas tarefas. Em troca pelo teu conhecimento ou capacidades tens benefícios, como alojamento ou comida. É o chamado win-win (ou seja, saem os dois lados a ganhar).


É gratuito?

Embora a ideia do work exchange seja também poupar dinheiro, usar a Workaway tem um custo. Isto porque, se é a primeira vez que vais usar a plataforma, vais precisar de te juntar à comunidade. Tens de criar um perfil de “workawayer” e pagar uma anuidade de 49 euros se planeias embarcar nesta aventura sozinho (ou de 59 euros se vais viajar em dupla ou casal).

Além disso, o valor das passagens para o teu destino de voluntariado também não fica coberto pela plataforma.

Contudo, diz quem sabe que compensa usar estas plataformas. Pedro Cunha, 29 anos, esteve, em 2018, na Costa Rica durante três meses com a namorada, Ana Teresa Capucho e diz que “se não fosse o Workaway” talvez não tivesse conseguido fazer a viagem.

O objectivo do casal era “viajar com um orçamento muito reduzido” e, ao mesmo tempo, conseguir ter “uma experiência” que lhes dissesse “alguma coisa​ profissionalmente” uma vez que são os dois biólogos. Num destino de natureza, a missão foi cumprida com sucesso.
Para quem é esta plataforma?

Qualquer pessoa a pode utilizar. A única restrição que é imposta está relacionada com a idade — só te podes registar se tiveres mais do que 18 anos, até porque a maioria dos países só aceita voluntários acima dessa idade.

Ainda assim, as crianças ou jovens abaixo dessa idade também podem aventurar-se no voluntariado além-fronteiras, só precisam de viajar com um adulto. Basta estar atento às descrições das experiências e ver se aceitam crianças.
Posso viajar para qualquer lado do mundo?

Quase. De acordo com as pessoas que já usaram a Workaway, uma das grandes vantagens é precisamente a variedade de destinos. Europa, Médio Oriente, América do Norte ou África — por ser uma das plataformas mais antigas deste género, há experiências em quase todos os pontos do globo, em cerca de 170 países.

Assim, se já tens um destino de sonho em mente podes pesquisar directamente por experiências lá. Em alternativa, podes explorar possibilidades tendo como critério, por exemplo, o tipo de trabalho que gostavas de fazer.
É possível arranjar trabalho pago?

Não é bem o objectivo da Workaway, que se foca mais na troca de experiências, mas é possível encontrar alguns trabalhos pagos. Há quem ofereça dinheiro e experiências que não são voluntariado. Estas ofertas costumam focar-se em trabalhos mais especializados como web design, gestão de redes sociais, guia turístico ou professor de línguas.

E se queres rentabilizar ao máximo as tuas capacidades, então usa os filtros da pesquisa para encontrar experiências remuneradas e lembra-te de dar a conhecer a tua experiência no teu perfil (mais ou menos como fazes no Linkedin).
Estas experiências são seguras?

Como em todas as viagens, depende. O conselho de quem já experimentou é “investigar bem os sítios”, procurando comentários “até em diferentes plataformas”, adverte Pedro.

A comunicação também é importante. Já que o Workaway permite estabelecer conversas entre os hosts e os viajantes, deve tirar-se proveito dessa ferramenta para “falar com as pessoas” e “perceber as expectativas” que têm de quem vão receber.

Pedro conta que, numa das suas três experiências pela Costa Rica, lhe pediram para estar na recepção de um hostel. No entanto, “não queria nada atender clientes” porque essa tinha sido a sua função antes de viajar. “Falei logo com eles e sugeriram outra tarefa”, diz.

No caso de experiências de longa duração, como estadias de várias semanas ou até de um mês, também é importante pensar em alternativas ou num plano B. Outras dicas do viajante para se sentir mais seguro passam por “estar em sítios com alguma internet” e “ter sempre dados móveis e um cartão com internet” para o caso da conexão fixa falhar.
O que ganhas ao viajar desta forma?

Acima de tudo, as experiências que guardas para o resto da vida. Primeiro, o voluntariado em troca de alojamento e comida permite-te poupar dinheiro e, assim, viajar mais tempo. À equação dos benefícios somam-se novas amizades: “Há quatro ou cinco meses fomos a Berlim e encontramo-nos com uma das raparigas que esteve no hostel durante um mês connosco”, recorda Pedro.

Em termos laborais, também pode ser uma mais-valia — dá-te mais experiência e pode abrir-te outras oportunidades. Também foi o caso de Pedro: “Acho que mostra que a pessoa está disposta a aprender coisas novas, a sair da zona de conforto e tem alguma flexibilidade”, conclui.
E se correr mal? O que fazer?

Por muito bem planeada que esteja a tua viagem, há sempre a hipótese de algo correr mal. Basta pensar no caso dos destinos mais afectados pelas alterações climáticas — podes ter de enfrentar um temporal, chuvas torrenciais ou outras condições atmosféricas adversas. Mas também pode ser algo mais mundano: imagina que não gostas do trabalho que estás a fazer ou que as condições do alojamento que te é oferecido não correspondem ao que esperavas.

O que fazer? Activa o plano B, que preparaste antes da viagem. Ou pede ajuda à Workaway, que tem um serviço de emergência que garante “ajuda a encontrar um novo host na área onde estás” ou, em alternativa, “três noites gratuitas num hostel próximo”, lê-se.

Podes contar ainda com uma equipa de apoio disponível 24 horas que te vai esclarecer dúvidas e aconselhar consoante a tua situação.

Turismo coloca Portugal entre os que mais crescem na UE este ano

Sérgio Aníbal, in Público


Comissão Europeia passou a sua previsão de crescimento em Portugal este ano de 1% para 2,4%. A explicação está na forte retoma do turismo no primeiro trimestre.


A chegada de um grande número de turistas no início deste ano, vindos principalmente da América do Norte, fez a Comissão Europeia rever em forte alta a previsão de crescimento económico para Portugal em 2023, colocando o país como um dos que registará um melhor desempenho em toda a União Europeia.

Nas previsões de Primavera divulgadas esta segunda-feira, os responsáveis do executivo europeu, animados pelos resultados acima das expectativas registados na economia europeia durante o primeiro trimestre deste ano, reviram as suas estimativas para a variação do PIB ano em toda a União Europeia. Portugal foi, contudo, o país onde essa revisão foi mais acentuada.

Em Fevereiro, colocavam a economia da União Europeia a crescer 0,8% em 2023 (e a da zona euro 0,9%), tendo agora passado a apontar para um crescimento 0,2 percentuais mais elevado, de 1% (1,1% no caso da zona euro).

No que diz respeito a Portugal, depois de se ficar a saber que, no primeiro trimestre do ano, a economia cresceu 1,6% em cadeia, uma forte aceleração face à quase estagnação registada nos trimestres anteriores, Bruxelas fez uma revisão em alta da sua previsão, que em Fevereiro era de um crescimento de 1% em 2023, passando a projectar uma variação do PIB português de 2,4%.

É um número que fica acima dos 1,8% previstos pelo Governo no Programa de Estabilidade, mas que é mais baixo que os 2,6% projectados pelo Fundo Monetário Internacional na semana passada.

Este crescimento de 2,4% de Portugal, a concretizarem-se as estimativas agora divulgadas pela Comissão, voltaria a colocar o país, tal como já aconteceu em 2022, nos lugares cimeiros da UE no que diz respeito ao desempenho da economia.

Em 2022, Portugal, com uma variação do PIB de 6,7%, não só superou a média da UE de 3,5%, como foi, entre os 27 países da UE o terceiro que mais cresceu, apenas atrás da Irlanda e de Malta.

Para 2023, a previsão de crescimento de 2,4% é mais do dobro da média estimada para UE, de 1% e é a quarta maior entre os 27 países da UE, atrás novamente da Irlanda e de Malta, para além também da Roménia.

De notar que, no caso da Irlanda, como destaca a Comissão Europeia nas suas previsões, os fortes crescimentos de 12% no ano passado e de 5,5% previsto para este ano se devem em larga medida aos resultados das multinacionais presentes no país, sendo que “a procura interna modificada, que melhor reflecte a actividade económica subjacente do país, se estima ter crescido 8,2% em 2022 e 2% em 2023”.

Já a explicação para o resultado agora antecipado para a economia portuguesa para este ano está, dizem os responsáveis da Comissão, naquilo que aconteceu durante aos primeiros três meses do ano no sector do turismo. “O sector externo foi o principal motor de crescimento no primeiro trimestre de 2023, beneficiando de uma recuperação das cadeias de distribuição mundiais e de uma aumento muito forte das visitas de turistas, em particular da América do Norte”, escreve a Comissão no relatório publicado esta segunda-feira.

Bruxelas destaca ainda o contributo que foi dado para a variação do PIB português pelo facto de as importações terem crescido de forma mais moderada, algo que está também relacionado com “a forte recuperação das reservas de água em Portugal”, que permitiram uma melhoria do saldo com o exterior, “à medida que a retoma da produção hidroeléctrica reduziu a procura de importações de electricidade e gás natural”.

Para 2024, o optimismo de Bruxelas em relação ao desempenho da economia portuguesa modera-se. É verdade que a Comissão Europeia volta a prever um resultado acima da média da UE, com Portugal a crescer 1,8% e a UE 1,7%. Mas neste caso, as previsões apontam para que a economia portuguesa supere essencialmente as maiores economias do continente, registando uma variação do PIB inferior à da maioria dos seus parceiros de pequena e média dimensão.

Bruxelas prevê que, apesar do crescimento mais forte da economia em 2023, a taxa de desemprego em Portugal suba de 6% para 6,5% no decorrer deste ano, recuando depois ligeiramente para 6,3% em 2024.

No que diz respeito à inflação, em linha com aquilo que também é antecipado pelo Governo, o FMI ou o Banco de Portugal, a Comissão Europeia aponta para uma redução progressiva do ritmo de subida de preços, com a taxa de inflação harmonizada a passar de 8,1% em 2022 para 5,1% em 2023 e 2,7% em 2024, números todos eles ligeiramente abaixo dos projectados para a média da UE.

10.5.23

É uma escola? É um museu? É a Universidade de Coimbra, património Mundial da UNESCO

Marina Almeida e José Fernandes, in Expresso


A cumprir uma década de classificação da UNESCO, a Universidade de Coimbra enfrenta o desafio de harmonizar o turismo com o património. Viagem pelos espaços da instituição, que este ano caminha para o número de visitantes pré-pandemia


As finalistas de direito trajados a rigor alinham-se na imponente escadaria do Paço das Escolas, epicentro da Universidade de Coimbra. Têm o fotógrafo oficial a postos e ensaiam o atirar das capas pretas ao ar, em simultâneo, gesto que ficará para a posteridade na fotografia de fim de curso. Neste compasso de espera, chega um grupo de turistas norte-americanos. Erguem os telemóveis, mirando os estudantes pelo ecrã, alargando a equipa de fotógrafos daquele momento da vida académica. Um dos finalistas exibe uma folha A4, providencialmente escrita e guardada na pasta: “foto 2 euro”. Os turistas hesitam por uns segundos, mas a guia diz-lhes pelos intercomunicadores que todos têm no ouvido que é brincadeira, podem tirar fotos.

A vida na universidade mais antiga do país é feita destes momentos: os estudantes na sua vida, os turistas atrás das vidas deles, a caminho da Biblioteca Joanina ou do Palácio Real. Em 2022 foram perto de 313 mil os visitantes que aqui passaram. A classificação da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia, como património Mundial pela UNESCO há uma década, trouxe mais visibilidade a este conjunto histórico-cultural, tendo sido 2017 o ano recorde, com mais de meio milhão de turistas. Este ano há a expetativa de se bater este número. Em abril visitaram a UC mais de 32 mil pessoas.

“Somos uma universidade há 700 anos e queremos continuar a ser. É um desafio muito grande do ponto vista do património”, admite o vice-reitor para o Património, Edificado e Turismo, Alfredo Dias. Dos 32 edifícios classificados, 22 são da universidade (nem todos são visitáveis). “Este complexo do Paço das Escolas era Monumento Nacional, já havia obrigação de preservar. Com a classificação [da UNESCO] veio uma maior visibilidade e responsabilidade na conservação. Atrai mais gente, o que às vezes tem inconvenientes”, refere. Por isso, há restrições ao número de visitas por hora, só podendo cada grupo ter 45 pessoas a cada 20 minutos (135 visitantes por hora).

Estamos à porta da Biblioteca Joanina, habituando os olhos de novo à luz do dia com as badaladas persistentes do sino da Torre da Universidade a marcarem as seis da tarde. Uma tradição antiga, das muitas que se mantêm por aqui, que assinalava o fim do dia de aulas. Hoje assinala também o fim do horario de visita (nos meses de julho e agosto, há visitas até às 19.00). O exterior da biblioteca está em obras, há um processo constante de conservação, que os bilhetes dos turistas ajudam a financiar (há vários preços, sendo o pacote mais caro de €17,50). Lá dentro, a visita faz-se de nariz no ar, olhando as paredes de livros com que se ergue esta imponente catedral de luz e sombra. São cerca de 60 mil livros (ainda não estão todos catalogados) escritos entre 1500 e 1700, a maior parte em latim. Todos podem ser consultados, mediante autorização especial. Deverão, em breve, começar a ser digitalizados.

“Temos um bem classificado que é a universidade e continuará a ser universidade num mundo competitivo”, diz Alfredo Dias, respondendo à questão se a classificação não poderá travar a adaptação da universidade a desafios contemporâneos. “Queremos ter em cada espaço o que melhor se adapta”, dando como exemplo a aula de História de Arte que acontecera na Joanina. Esta zona, classificada, é o polo I da universidade. As engenharias estão no polo II e as ciências da saúde no polo III, em zonas mais periféricas da cidade.

J.K. Rowling passou por aqui?

No Paço das Escolas, as capas pretas cruzam o terreiro, seja sob o sol escaldante, seja com ameaça de chuva. E alguns guias turísticos que aproveitam a passagem dos estudantes trajados para ir contando a história da capa e batina. Alguns vão mais longe, associando o traje académico e a Biblioteca Joanina ao universo Harry Potter. “Foi aqui que J.K. Rowling se inspirou…” Dias antes escutáramos algo semelhante em frente à montra da loja mais antiga de trajes académicos, A Toga.

Realidade ou ficção, a verdade é que nos espaços da universidade se fazem várias viagens no tempo. Na Capela de São Miguel, do século XVI, dominada por um desproporcionado órgão barroco de mais de dois mil tubos, que jamais pode tocar na sua potência máxima (ou, no mínimo, partiria os vidros todos); No Palácio Real, onde viviam reis (entre os quais D. Afonso Henriques) e príncipes, e que hoje percorremos, de sala em sala, imaginando usos passados para estes espaços de visita (com bandas sonoras de guias turísticos em sobreposição); Na Sala dos Capelos, onde se celebram os doutoramentos honoris causa, foi a sala do trono onde se fez a História de Portugal (D. João I foi ali aclamado). Mas também nas faculdades de Letras, Matemática (com frescos de Almada Negreiros no átrio) e na Biblioteca Geral, edificadas durante o Estado Novo.

Percorremos alguns destes lugares com Filipe Freitas, um dos guias da universidade. No museu Éfe-Érre-Á, contam-se histórias com objetos doados pela comunidade académica: as repúblicas, os troféus da Académica, os símbolos da academia – o penico, a capa e batina, a borla e o capelo –, o carro vencedor da Queima das Fitas do ano passado, o fado. No Gabinete de Curiosidades, recria-se os espaços que surgiram no século XVI e estiveram na génese dos atuais museus. Eram salas cultivadas por nobres, artistas e comerciantes endinheirados, que gostavam de impressionar as visitas com objetos exóticos e bizarros. Ali está um bezerro com oito patas, vários frascos com fetos, o esqueleto de uma vaca, um crocodilo, escaravelhos que parecem joias. São milhares de objetos, que representam cerca de 20% do acervo do museu da universidade, provenientes de várias coleções. A ideia é que o visitante vá descobrindo aqueles objetos, fazendo cada um a sua viagem. A exposição não está catalogada nem organizada, como se fazia nos gabinetes de curiosidades originais. Aqui não há espaços em branco e tudo concorre para o olhar, para a atenção. E para alimentar a curiosidade.

"– O que é aquilo suspenso no teto?

– É um palanquim.

– Transportava o dono do gabinete de curiosidades?

– Isso mesmo. Este é do século XVIII, foi usado nas famosas viagens filosóficas.

– Bem me parecia."

9.5.23

Governo lança agenda do turismo para o interior com um pacote de apoios de €200 milhões

Conceição Antunes, in Expresso


Secretário de Estado do Turismo anuncia na Covilhã as 20 primeiras medidas para potenciar os territórios de baixa densidade. Apoios a fundo perdido, linhas de crédito e concessão a privados de património público para exploração estão no pacote


Um pacote de apoios totalizando €200 milhões e integrando 20 medidas constitui o foco da Agenda do Turismo para o Interior, que o secretário de Estado do Turismo, Nuno Fazenda, apresenta esta terça-feira na Covilhã - numa sessão que conta com a presença do ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, representantes de todas as regiões de turismo, além do presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros.

Trata-se de uma das mais prometidas 'agendas' anunciadas por Nuno Fazenda ao tomar posse em dezembro, com o objetivo de projetar o interior do país e a sua oferta turística, através de um “envelope financeiro significativo”, com novas linhas de apoio ou majoração em programas existentes sempre que o investimento se dirija a territórios de baixa densidade.


“Este não é um plano estratégico, feito na Rua da Horta Seca É um plano de ação, com medidas integradas e o respetivo calendário para as executar, construído no território em estreita articulação com agentes locais, em resultado de contributos que recolhemos ao longo de todo o território percorrendo o país de norte a sul”, frisa Nuno Fazenda ao Expresso.

Conforme consta da radiografia de base da agenda do interior, 90% da procura turística em Portugal ainda se concentra em zonas do litoral.

“Pela primeira vez, estamos a agendar uma agenda específica para o turismo no interior, é um objetivo assumido politicamente. Acredito mesmo que o turismo pode ser um fator-chave para a coesão territorial”, salienta o secretário de Estado do Turismo.

“O turismo nacional tem tido um desempenho muito importante, os três primeiros meses de 2023 foram os melhores de sempre, e queremos continuar a crescer em todo o território com mais equilíbrio e autenticidade. O interior pode ser um fator de inspiração e transformação do turismo em Portugal”, considera Nuno Fazenda, frisando que esta aposta não exclui o esforço “que deve continuar a ser dirigido às nossas bandeiras turísticas, como Algarve, Lisboa, Porto e Madeira”.
CONCESSIONAR A PRIVADOS O CASTELO DO CRATO COM UM NOVO REVIVE

Uma das medidas que consubstanciam esta agenda é o programa Mais Interior Turismo, com várias frentes de atuação a nível de apoios. Em destaque, está a medida destinada a apoiar “projetos de valorização turística do interior de natureza pública”, designadamente a nível de “passadiços, requalificação de patrimónios, praias fluviais, valorização de museus ou estruturação de rotas”, conforme explicita Nuno Fazenda.

Com orçamento total de €20 milhões, esta medida oferece incentivos a fundo perdido que podem atingir 70% do investimento elegível, até ao máximo de €400 mil por projeto

A Agenda para o Turismo no Interior inclui também o lançamento de uma nova edição do Revive, programa destinado a concessionar a privados para fins turísticos património público que se encontra sem uso

“Identificámos cerca de uma dezena de imóveis que podem ser valorizados turisticamente com o Revive III, em estreita articulação com os municípios, e vamos lançar nos próximos meses os respetivos concursos”, adianta o secretário de Estado do Turismo.

Entre o novo lote de edifícios com valor patrimonial que passam a estar disponíveis aos privados para reconversão hoteleira incluem-se o Castelo do Crato, as Termas das Caldas de Modelo, em Mesão Frio/Peso da Régua, a Casa dos Almeidas no Sardoal, o Convento da Nossa Senhora do Desterro em Monchique ou o antigo sanatório infantil do Caramulo em Tondela.

Em apoios às empresas, a agenda inclui “uma medida nova, especificamente desenhada para apoiar a internacionalização do turismo no interior” e as unidades em territórios de baixa densidade poderem receber mais estrangeiros através da “participação em feiras no exterior, convite a operadores turísticos ou jornalistas internacionais”.

A medida Exportar Mais Turismo tem uma dotação de €5 milhões e apoia até 70% a fundo perdido projetos no valor igual ou inferior a €50 mil. “Vamos lançar já no mês de maio os avisos para os concursos”, garante Nuno Fazenda.

Outra novidade é a linha de microcrédito “Mais Interior Mais Turismo” destinada a apoiar novos negócios de PME ou microempresas especificamente em territórios do interior.

“Pode incluir a remodelação de um restaurante, de uma loja de artesanato, a criação de uma empresa de animação turística para passeios culturais ou de percursos na natureza”, exemplifica o secretário de Estado do Turismo.

Com uma dotação de €15 milhões, a linha apoia até 90% do custo elegível sem juros, com um limite de €30 mil por empresa, tendo um prémio de desempenho associado, que pode atingir até 30% a fundo perdido do crédito concedido. “Imagine-se um restaurante ou uma loja de artesanato que fazem um investimento de €30 mil, têm um apoio de €27 mil sem juros e um prémio de €8.100”, detalha Nuno Fazenda.

Nas linhas existentes, os apoios são majorados quando se referem a investimentos no interior. É o caso da linha de crédito de apoio à qualificação da oferta, “em que pela primeira vez temos um orçamento de €50 milhões só para o interior”, realça.

.Nesta linha de crédito, que inclui 80% de empréstimo sem juros do Turismo de Portugal e 20% da banca, “estamos a duplicar para o interior a cobertura do financiamento e dos prémios”, faz notar o secretário de Estado. Em termos nacionais, o Turismo de Portugal cobre 40% do empréstimo sem juros, sendo o restante segundo as regras de crédito da banca (o que no caso de investimentos no interior se eleva a 80%) e os prémios de desempenho são de 15% (subindo para 30% em territórios de baixa densidade).
CAMPANHA ‘VIAJA PELO TEU INTERIOR’ ARRANCA EM JUNHO

Desta agenda também faz parte, entre outras medidas, uma diferenciação positiva na linha de apoio à sustentabilidade ambiental, para investimentos destinados a melhorar a eficiência energética e recurso a energias renováveis. Os territórios de interior têm uma dotação de €20 milhões nesta linha de crédito de garantia mútua, em que o prémio de desempenho (a fundo perdido) é majorado em 10 pontos percentuais face a outras localizações. O financiamento bancário pode ir até €500 mil, com prémio a fundo perdido de 20% no interior, quando em termos gerais é de 10%.

O pacote contemplado na agenda do interior inclui ainda €50 milhões “ventilados de fundos para investimento em campanhas, qualificação de recursos humanos ou requalificação de escolas”, refere o governante.

Nuno Fazenda enfatiza ainda “outras medidas importantes a nível de promoção”, como o programa Portugal Events que integra majoração de apoios até 25% para congressos e eventos que se realizem no interior.

“Vamos também realizar campanhas específicas, no mercado nacional e internacional, com o mote ‘Viaja pelo teu interior’, com as primeiras ações a decorrer no mês de junho”, adianta. “É uma campanha participativa, que convida todos a mobilizarem-se atendendo às especificidades de cada território, e pode desdobrar-se em ‘Viaja pelo teu Alentejo’, ‘Viaja pelo teu Douro’, entre outros exemplos”.

A agenda do turismo para o interior arranca nesta fase inicial com um pacote financeiro de €200 milhões, a pensar num prazo de três anos, que o Governo espera que tenha continuidade “com mais apoios que se irão juntar no contexto Portugal 2030”.

19.4.23

Governo reduz em um ano isenção fiscal de Alojamento Local que passe a habitação

Luís Villalobos, in Público online

Período de isenção de IRS e IRC dos rendimentos prediais decorrentes de AL que passem a arrendamento para habitação permanente acaba no final de 2029 e não no fim de 2030, como previsto anteriormente.

O Governo reduziu em um ano o período de isenção de IRS e IRC dos rendimentos prediais decorrentes de imóveis em Alojamento Local (AL) que passem a arrendamento para habitação permanente. Na versão da proposta de lei do pacote Mais Habitação, que esteve em consulta pública, o período de isenção era “aplicável aos rendimentos prediais obtidos até 31 de Dezembro de 2030”, mas, na proposta que entrou agora no Parlamento, a data-limite passou a ser “até 31 de Dezembro de 2029”. O PÚBLICO questionou o Ministério da Habitação sobre o que levou à diminuição deste prazo, mas não obteve resposta.

Para beneficiar dessa isenção, prevista no artigo 74.º-A da proposta, é necessário que “o registo do estabelecimento de alojamento local tenha ocorrido e o mesmo se encontrasse afecto a esse fim até 31 de Dezembro de 2022”, e que “a celebração do contrato de arrendamento e respectiva inscrição no Portal das Finanças ocorra até 31 de Dezembro de 2024”.

Esta isenção surge a par de uma série de restrições ao sector, com o objectivo, segundo o Governo, de transferir estabelecimentos de AL, orientados para o turismo, para o mercado habitacional de longo prazo. Não são conhecidos objectivos quantitativos.

O diploma refere também que os estabelecimentos de alojamento local (AL) que tenham entrado no mercado depois do anúncio de novas medidas para o sector por parte do Governo, mesmo que tenham associados empréstimos bancários, também vão ter as suas licenças reapreciadas em 2030, tal como o conjunto do sector. Ou seja, não têm a garantia de que a licença seja renovada, por um período de cinco anos, prazo previsto na proposta de lei que deu agora entrada no Parlamento.

De acordo com o diploma, os registos de alojamento local emitidos à data da entrada em vigor da lei são reapreciados “durante o ano de 2030”, com excepção dos AL “que constituam garantia real de contratos de mútuo celebrados até 16 de Fevereiro de 2023, que ainda não tenham sido integralmente liquidados a 31 de Dezembro de 2029, e cuja primeira reapreciação só tem lugar após a amortização integral, inicialmente contratada”.

O dia 16 de Fevereiro foi a data em que o executivo realizou uma conferência de imprensa para anunciar medidas como a proibição de novas licenças, algo que só acontecerá após a entrada em vigor do diploma (dia seguinte ao da sua publicação em Diário da República, após aprovação no Parlamento). As mudanças no AL surgem no âmbito de um pacote mais vasto de medidas englobadas no pacote legislativo Mais Habitação.

Após a apresentação das novas medidas, houve uma aceleração no ritmo de novos registos de AL, tendo surgido mais 6099 desde o dia 17 de Fevereiro até esta terça-feira (18 de Abril) ao início da tarde (dos quais 57% eram apartamentos), segundo os dados do Registo Nacional de Alojamento Local (RNAL).
Dois meses para mostrar AL activo

A lei refere ainda que os proprietários de unidades de AL terão dois meses, a contar da entrada em vigor da proposta de lei, para mostrar que o seu negócio está activo. Caso não o façam, de acordo com o diploma do Governo, “os respectivos registos são cancelados, por decisão do presidente da câmara municipal territorialmente competente”.

A prova de que o AL está activo terá de ser feita “mediante apresentação de declaração contributiva, da manutenção da actividade de exploração, comunicando efectividade de exercício na plataforma RNAL", através do Balcão Único Electrónico.

Na conferência de imprensa que se efectuou a 30 de Março, após o Conselho de Ministros que aprovou alterações à primeira proposta legislativa, o primeiro-ministro já tinha dado nota de que iria haver um mecanismo de caducidade das licenças.

Entre as medidas que têm gerado mais contestação estão o poder, por parte dos condomínios, de fechar um AL que exista no seu prédio, e a aplicação de uma contribuição extraordinária.

No primeiro caso, o diploma define que, no caso de actividade de AL ser “exercida numa fracção autónoma de edifício ou parte de prédio urbano susceptível de utilização independente”, a assembleia de condóminos, por deliberação de mais de metade da permilagem do edifício, pode opor-se ao exercício dessa actividade na referida fracção. Isto, acrescenta-se, “salvo quando o título constitutivo expressamente preveja a utilização da fracção para fins de alojamento local ou tiver havido deliberação expressa da assembleia de condóminos a autorizar a utilização da fracção para aquele fim”.

A Associação do Alojamento Local em Portugal (Alep) já defendeu que o executivo está a criar “um ambiente de terrorismo nos condomínios”. “A partir de agora, cada reunião de condóminos poderá significar empresas de AL encerradas, famílias sem rendimento, funcionários enviados para o desemprego, turistas com reservas sem alojamento, empresários que contraíram dívidas na pandemia sem ter como as pagar”, sublinhou a Alep, que diz haver cerca de 70.000 imóveis inseridos em condomínios (o que equivale a cerca de 70% do total da oferta).

Recolha de fundos para contra-atacar medida do Governo


Está a decorrer neste momento uma campanha de angariação de fundos, promovida pelo grupo de Facebook “Alojamento Local – Esclarecimentos”, dinamizado por Carla Costa Reis, cujo objectivo é angariar 100 mil euros para entregar à Alep.

Num email enviado esta terça-feira aos seus associados, a Alep diz que já foram angariados 50 mil euros. Em concreto, pelas 15 horas o valor estava nos 56.156 euros, por via de 598 doações, conforme os dados da plataforma Gofundme.

“A Alep agradece toda a união e colaboração do sector para fazer frente ao forte ataque do Governo nesta guerra desproporcional que pretende matar o AL”, referiu esta associação.

A Alep adiantou também que “está a ser criado um conselho consultivo em colaboração com o grupo responsável pela iniciativa, que será constituído por uma equipa com perfis diversificados dentro do AL para apoiar a Alep na gestão destes donativos”.
Quem fica fora da nova taxa

A proposta de lei prevê a criação de uma contribuição extraordinária sobre os apartamentos em alojamento local (CEAL), de 20% (abaixo dos 35% inicialmente previstos), sendo a sua base tributável constituída por dois coeficientes: um económico e outro de “pressão urbanística à área bruta privativa dos imóveis habitacionais”. O cálculo envolve a base de dados do INE, que, conforme já referiu o presidente da Alep, incide apenas sobre os AL com dez ou mais camas, ou seja, de maior dimensão e, por regra, abertos todo o ano.

De fora desta contribuição, vista como uma dupla tributação, estão os imóveis localizados no que se definiu como sendo os territórios do interior (Portaria n.º 208/2017), “bem como os imóveis localizados em freguesias que preencham, cumulativamente”, os seguintes critérios: sejam “abrangidas por Carta Municipal de Habitação em vigor que evidencie o adequado equilíbrio de oferta de habitações e alojamento estudantil”, “integrem municípios nos quais não tenha sido declarada a situação de carência habitacional” e que “não tenham qualquer parte do seu território como zona de pressão urbanística”.

A primeira contribuição, referente a este ano, terá de ser paga até 25 de Junho de 2024, e terá como referência, no que toca aos dados do INE, aos valores de 2019.


3.8.22

Portugal precisa entre 45 a 50 mil trabalhadores para setor do turismo

in Dinheiro Vivo

Com o novo regime de vistos de entrada de trabalhadores de países de língua portuguesa, o Governo vai arrancar, no último trimestre do ano, com uma missão empresarial para atrair essa força laboral para Portugal.

A secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, defende que Portugal precisa entre 45 mil a 50 mil trabalhadores no turismo, vagas que poderão ser preenchidas por trabalhadores de países de língua portuguesa ao abrigo do novo regime de vistos recentemente aprovado, afirmou esta terça-feira.

Em declarações à Lusa, à margem de uma visita ao Algarve, Rita Marques adiantou que está a ser preparada, para o último trimestre do ano, uma "missão empresarial" para "garantir" que o país receba trabalhadores desses países.

"O objetivo é levar uma comitiva de empresários portugueses que estejam à procura de reforçar os mapas de pessoal, identificando trabalhadores dessas geografias que estejam interessados em vir para Portugal [...] e que os serviços consulares possam depois, administrativamente, despachar favoravelmente os vistos", de forma a trazer para Portugal "trabalhadores que pretendem ingressar neste setor de atividade", precisou.

Segundo a secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, que esteve reunida com vários representantes do setor do turismo no Algarve, a missão empresarial portuguesa, que conta com várias áreas do Governo, como o "Trabalho, Negócios Estrangeiros e Economia", deverá realizar-se no último trimestre de 2022.

"Nesta altura, em que há uma retoma pujante do setor do turismo", o turismo está "a viver vários desafios e um deles tem a ver, justamente, com a falta de capital humano", referiu, adiantando que, durante o encontro com empresários do setor, foi abordada a nova lei votada favoravelmente na Assembleia da República a 21 de julho.

De acordo com a governante, a nova lei veio introduzir "alterações muitíssimo relevantes e substanciais na emissão de vistos, designadamente no âmbito dos países que ratificaram o acordo da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]".

Estimando que o país precisa entre 45 mil a 50 mil trabalhadores no setor para garantir a qualidade de serviços no turismo, Rita Marques considerou que o novo regime de entrada e permanência de trabalhadores em Portugal "pode ser útil justamente para se poder importar capital humano".

No entanto, sublinhou, há a preocupação "de garantir que este capital humano também é adequadamente formado e capacitado" para manter "uma prestação de serviços de excelência" no setor, envolvendo nesta matéria as escolas de hotelaria e turismo nacionais.

18.7.22

Mais de 38 milhões de trabalhadores europeus não têm dinheiro para férias

in Público on-line

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, defende a Confederação Europeia dos Sindicatos (CES).

Mais de 38 milhões de trabalhadores na Europa não podem pagar uma semana de férias apesar de terem um emprego a tempo inteiro, segundo um estudo da Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) publicado esta segunda-feira. “As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, disse a vice-secretária-geral da CES, Esther Lynch, num comunicado.

De acordo com o estudo, a proporção da população que não pode pagar férias aumentou em mais da metade dos estados-membros da União Europeia (UE) desde 2019 e a proporção de trabalhadores sem essa capacidade financeira cresceu em 11 países. “A UE e os governos nacionais têm a responsabilidade de proteger a negociação colectiva como a melhor maneira de garantir que os trabalhadores possam aproveitar a vida em vez de simplesmente sobreviver”, disse Lynch. Os números são baseados numa análise de dados oficiais do Eurostat, o gabinete de estatísticas da UE, realizada pelo European Trade Union Institute, um centro de pesquisa independente da CES.

Os resultados indicam que a Roménia, com 47%, a Grécia, com 43,4%, a Lituânia, com 41%, e a Croácia, com 39,7%, eram os países com maior proporção de trabalhadores que não podiam pagar uma semana de férias em 2020. Os países com maiores aumentos percentuais, entre 2019 e 2020, de trabalhadores que não puderam viajar de férias por uma semana foram a Lituânia, com um aumento de 12,4%, a Bulgária, com 4,8%, e a Grécia, com 2,1%.

No que respeita aos valores totais, devido à elevada população, estima-se que Itália, com oito milhões, Espanha, com 4,6 milhões, e França, com 4,1 milhões, tivessem o maior número total de colaboradores que não puderam usufruir de uma semana de férias em 2020. A estes países seguiram-se a Roménia, com 3,9 milhões, e a Grécia, com 1,6 milhões de trabalhadores.

Segundo a CES, esses dados coincidiram com o aumento dos lucros das empresas europeias, o que significa que executivos e accionistas acumularam mais dinheiro, em detrimento dos trabalhadores europeus. “O aumento da desigualdade nas férias mostra que a economia europeia não está a funcionar para os trabalhadores”, acrescentou Lynch, no comunicado. “Sem um aumento salarial justo, empresários e políticos irão voltar das suas próprias férias de Verão para enfrentar um Outono de raiva, seguido de um Inverno de descontentamento”, alertou.

No ano passado 56% dos portugueses não fizeram uma viagem turística

Em Portugal, de acordo com as estatísticas do turismo de 2021 recentemente publicadas pelo INE, 56% dos residentes não fizeram uma viagem turística (definida como “deslocação para fora do ambiente habitual com pernoita mínima de uma noite”). Este é um universo inferior ao de 2020, primeiro ano da pandemia, que tinha subido para os 61%, depois dos 47% de 2019, mas é preciso recuar a 2015, ano em que ainda se fizeram sentir alguns efeitos da troika de credores na economia portuguesa, para se chegar a um nível inferior ao de 2021.

De acordo com o INE, houve mais 514,9 mil turistas residentes em 2021, com o total a subir para 4,5 milhões de indivíduos, “traduzindo uma recuperação parcial da descida registada em 2020, face a 2019, em que o número de turistas diminuiu 1,4 milhões”. No ano passado, segundo o instituto de estatística, 38,5% dos residentes “realizaram viagens tendo como destino exclusivamente o território nacional”, o que representa mais quatro pontos percentuais face a 2020 e apenas 2% (+0,4 p.p.) “efectuaram deslocações exclusivamente ao estrangeiro”. Do total de residentes, “358,5 mil (3,5%, +0,6 p.p.) realizaram viagens quer em território nacional quer fora do país”.

A principal motivação das viagens turísticas dos residentes foi o “lazer, recreio ou férias”, com 34,6% e o alojamento fornecido gratuitamente por familiares ou amigos” manteve-se como a modalidade mais utilizada nas dormidas dos residentes, concentrando 32,7 milhões de dormidas (39,6% do total, 37,8% em 2020)”. “Esta modalidade de alojamento prevaleceu tanto nas deslocações nacionais (39,3% das dormidas, 37,6% em 2020), como nas viagens para o estrangeiro (41,4% das dormidas, 40,2% em 2020)”, explica o INE, recordando que, antes da pandemia, “o alojamento em ‘estabelecimentos hoteleiros e similares’ predominava nas deslocações ao estrangeiro”.


19.5.22

Bruxelas prevê novo boom no turismo mas com menos criação de emprego

Luís Reis Ribeiro, in DN

O FMI também destacou na avaliação anual a Portugal (Artigo IV) o papel decisivo do setor na retoma e espera que o turismo recupere totalmente da pandemia em 2023.

Portugal deverá experimentar uma nova vaga de crescimento muito rápido no turismo este ano e também no próximo, mas a criação de emprego associada deverá ser mais fraca do que no passado, refere a Comissão Europeia (CE) nas previsões económicas da primavera, ontem divulgadas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também destacou ontem, na avaliação anual ao País (Artigo IV), o papel deste setor na retoma e espera que o turismo recupere totalmente da pandemia em 2023.

Segundo a CE, "os Estados-membros com uma exposição significativa ao turismo registaram uma tendência ascendente na balança de serviços [o turismo estrangeiro é considerado uma exportação] em 2021 que se prevê que continue em 2022 e em 2023".

Pelas contas de Bruxelas, "os maiores aumentos projetados do excedente de serviços entre 2021 e 2023" devem acontecer na Grécia (mais 4,1 pontos percentuais ou p.p.), em Espanha (mais 3,2 p.p.) e Portugal (mais 2,9 pontos).

A Estónia também vai ser um impulso forte no excedente de serviços, mas não é tanto devido ao turismo, antes por causa das exportações de alta tecnologia.

"Esta tendência deverá amortecer o declínio na balança comercial de mercadorias em 2022 e reforçar o seu aumento em 2023 na maioria dos países do sul da Europa, onde o turismo internacional desempenha um papel importante na economia", observa a CE.

Nas novas previsões, Portugal aparece bem posicionado face aos seus pares europeus. Deverá registar um crescimento (revisto em alta) na ordem dos 5,8% este ano, o que significa que a economia portuguesa até consegue acelerar face a 2021 (cresceu 4,9% no ano passado) e registará assim o maior ritmo de recuperação da Europa (UE a 27 países).

Para a Comissão, "após o forte início do ano, o PIB [produto interno bruto] de Portugal deverá aumentar 5,8% em 2022, uma vez que o setor dos serviços, particularmente o turismo estrangeiro, deverá recuperar fortemente a partir de uma base baixa".

Recorde-se que em 2020 e parcialmente em 2021, o turismo foi quase interrompido pela pandemia e as pesadas restrições aos negócios e às viagens.

No entanto, apesar da exuberância esperada para o setor, a CE diz que não haverá um reflexo dessa magnitude no emprego e o desemprego continua a baixar, mas cada vez mais devagar.

Em todo o caso, a CE diz que o desemprego pode sair mais favorável do que prevê o governo. Bruxelas aponta para uma taxa de desemprego equivalente a 5,7% da população ativa, abaixo dos 6% do cenário das Finanças para 2022. Em 2023, a incidência do desemprego deve cai ligeiramente para 5,5%, diz o estudo da primavera.

A criação de emprego pode ser mais branda, diz a CE. A previsão para este ano é que o emprego nacional avance 1%. As contas do Terreiro do Paço dizem 1,3%.

Uma das explicações avançadas por Bruxelas é que, por exemplo, apesar de a economia dar um salto de quase 6% este ano, "a retoma do turismo estrangeiro deve gerar mais horas de trabalho do que novos empregos".

"Julgo que a reabertura do turismo português para um país que é mais baseado em turismo externo do que interno também teve um papel importante" no apuramento das novas previsões de crescimento, enfatizou Paolo Gentiloni, o comissário europeu da Economia, na conferência de imprensa que decorreu ontem em Bruxelas.

Mais inflação, mas a mais leve da Europa

A inflação portuguesa prevista para este ano sofreu uma forte revisão em alta face a fevereiro (era 2,3%, agora já vai em 4,4%), mas está visivelmente abaixo da média da zona euro. Em todo o caso, o fenómeno pode perturbar e enfraquecer a retoma se persistir, puxando pelo aumento das taxas de juro e corroendo ainda o poder de compra, por exemplo.

Na zona euro, os preços devem aumentar, em média, 6,1%, uma marca que está três vezes acima da meta desejada pelo Banco Central Europeu (2%). Significa, pois, que a pressão para subir taxas de juro é grande e cada vez maior.

Ainda relativamente a Portugal, a CE reafirma que a inflação alta deve ser temporária, "devendo atingir um pico no segundo trimestre deste ano e depois tornar-se gradualmente mais moderada a partir daí [de junho]". Em 2023, a inflação prevista ronda os 1,9%.

25.2.22

Restaurantes fechados, fruta por apanhar e obras por fazer. Falta de mão-de-obra ameaça economia

Henrique Cunha, in RR

Restauração, agricultura e construção são três setores de atividade que reclamam trabalhadores. A falta de mão de obra é mais um fator negativo a ter em conta na caminhada para uma retoma económica que se pretende duradoura.

Os restaurantes que se dedicam à cozinha tradicional portuguesa estão em "grave risco de desaparecer" por falta de cozinheiros. A Associação Nacional de Restaurantes revela grande dificuldade de recrutamento de mão de obra, em particular cozinheiros e empregados de mesa.

Em entrevista à Renascença, Daniel Serra da, PRO.VAR - Promover e Inovar a Restauração Nacional, fala de uma "situação critica" e alerta para a necessidade de “se preservar a cozinha tradicional portuguesa”.

O responsável afirma que “o grande problema neste momento tem a ver com a cozinha tradicional portuguesa, dado que os restaurantes que são a base da nossa oferta em Portugal estão em grave risco de desaparecer por força de não existir mão-de-obra especializada, neste caso os cozinheiros”.

Daniel Serra admite que para “trabalhar na cozinha ou na copa como ajudante, que são atividades menos exigentes, normalmente os empresários vão procurando soluções fora do país e tem-se conseguido algumas soluções em países asiáticos”, mas relativamente à parte dos cozinheiros e dos empregados de mesa, que é uma atividade mais exigente, porque os cozinheiros têm que ter essa formação e essa responsabilidade, aí é uma situação crítica".

“Há muitos empresários que já estão a optar por alterar contratos de trabalho colocando esses trabalhadores na quota das empresas para os motivar”, adianta, antes de avançar com o alerta: “é absolutamente crítico um cozinheiro num restaurante, é preciso encontrar soluções e hoje são praticamente inexistentes no mercado”.

“Há aqui uma dificuldade tremenda, e muitos restaurantes estão fechados porque não existe este tipo de trabalhador que é fundamental para a casa, no caso o cozinheiro”, sublinha.

"Muitos restaurantes estão fechados porque não existe este tipo de trabalhador fundamental, o cozinheiro"

Por outro lado, Daniel Serra chama a atenção para um outro problema que, na sua opinião, pode “pôr em risco a cozinha tradicional portuguesa”. O responsável diz que, “perante as dificuldades, muitos empresários estão a abandonar esta atividade, e os restaurantes acabam por fechar, reabrindo mais tarde, mas com cultura diferente, de outros países e por vezes com apostas na fast-food”.

É por isso que Daniel Serra afirma que, neste momento, “a falta de mão-de-obra especializada, coloca em risco a cozinha tradicional portuguesa”. “Está em grave risco de desaparecer por força de não existir mão de obra especializada, neste caso os cozinheiros”, reforça.

Daniel Serra quer que se aproveite o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para se apostar na formação de novos cozinheiros. A ideia é “procurar pessoas no fim de carreira, perto da reforma e que possam aproveitar o seu tempo mais livre para formar novos cozinheiros e novos chefes, para não se perder esta cultura e esta identidade”.

“A cozinha portuguesa não é fácil e, se não houver este esforço por parte do Governo, vamos perder algo que é considerado património imaterial português, que é a gastronomia”, remata.
Construção procura 80 mil trabalhadores

No setor da construção faltam cerca de 80 mil trabalhadores. Os números são avançados pelo presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI). Reis Campos garante que as necessidades de recrutamento do setor continuam a aumentar, e adianta que depois de 2019, em que se falava na necessidade de 60 mil trabalhadores, hoje apontamos para a necessidade de mais de 80 mil trabalhadores para o setor”.

“Não compreendemos que sendo hoje divulgado pelo INE que existem neste momento inscritos no Instituto de Emprego cerca de 356 mil trabalhadores, dos quais 30 mil são oriundos do nosso setor, possa existir esta situação em que há pessoas a querer trabalhar e as empresas continuem com problemas de falta de trabalhadores”, sublinha.

Reis Campos afirma que os problemas de falta de mão-de-obra criam problemas na concretização dos contratos, e na própria mobilidade dos trabalhadores.

O presidente da Confederação da Construção quer, por isso, que se aposte na reorientação da formação profissional e revela já ter dito “ao Governo que esta é uma oportunidade para o desenvolvimento da formação nesta atividade, potenciando a captação de jovens, promovendo a reconversão de alguns desempregados que são oriundos de outros setores e, por outro lado, é preciso ir buscar trabalhadores a outros países”.

Mas Reis Campos insiste em particular na “reorientação da formação profissional”, lembrando que existem “centros de formação de excelência - o CICCOPN na Maia e o CENFIC em Lisboa - e não estão neste momento a cumprir o papel para que foram criados que é qualificar a nossa mão-de-obra”, pelo que “é preciso colocar estes centros de formação na dependência do Ministério do Trabalho e não sob a tutela do Ministério da Educação”.

Reis Campos afirma que a falta de mão-de-obra “cria problemas na concretização dos contratos, e na própria mobilidade dos trabalhadores”.
Fruta desperdiçada por falta de mãos

Também a agricultura se depara com dificuldade de recrutamento. Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), diz que o problema maior está relacionado com o setor das colheitas.

O responsável adianta que “a agricultura confronta-se com dificuldade de contratação de pessoas em diversas categorias profissionais”, mas, “geralmente, aquelas situações relacionadas com a colheita de produtos hortícolas ou de frutas são as situações mais problemáticas”.

Eduardo Oliveira e Sousa revela que, em 2021, "houve muita fruta que foi desperdiçada por não haver pessoas suficientes" para fazer a colheita. “O ano passado houve perda de colheitas parcial de alguns produtos que ficaram nas árvores, ou que caíram para o chão e que deixaram de ter qualidade para serem levados para o mercado por falta de mão-de-obra para colherem esses mesmos produtos. Dou-lhe o exemplo de alguma pera, nomeadamente pera rocha, algumas azeitonas”, indica.

Por outro lado, o presidente da CAP sustenta que a crise na Ucrânia também está a dificultar o recrutamento dos países do leste europeu. Eduardo Oliveira e Sousa diz que “o momento muito complicado que a Europa está a atravessar é um momento muito complicado para a importação de pessoas que vinham da região do leste da Europa, em particular da própria república da Ucrânia”.

Agora, “a região da Índia, do Nepal, do Bangladesh está a ser a área para onde se vislumbra poder haver mais pessoas a virem para Portugal e os serviços diplomáticos estão a desenvolver esforços no sentido de agilização do processo de legalização desses trabalhadores.”

O presidente da CAP refere que estão a ser feitos esforços para recrutar mão-de-obra em países de língua portuguesa, como Brasil, Angola, São Tomé ou Cabo Verde.

Turismo do Algarve antecipa problemas no golfe

No setor do turismo, a região do Algarve antecipa dificuldades de recrutamento de pessoas no futuro próximo dadas as perspetivas de forte retoma.

Ainda assim, João Fernandes, presidente da Associação de Turismo do Algarve, lembra que “ainda há cerca de 25 mil desempregados” no setor.

“Há uma necessidade de ajustamento entre a procura e oferta de emprego, mas aquilo que nós sabemos é que num futuro próximo, dadas as perspetivas de uma retoma forte nos próximos meses, que o stock de recursos humanos não é suficiente para suprir as necessidades, até porque eles não estão apenas disponíveis para um só setor e, portanto, vamos ter aqui necessidade de recrutar pessoas de outros países”, adianta.

O problema, no imediato, está relacionado com a área do golfe, onde o período de maior procura de turistas é entre março e maio.

“As expectativas é que tenhamos uma procura semelhante àquela que tivemos em 2019, que foi o ano recorde de números de voltas de golfe no Algarve. Existe a perspetiva que tenhamos casa cheia, e para isso é necessário reforçar os recursos humanos e nessa mão-de-obra que é necessária já há alguma dificuldade”.

O empresário lembra “que, apesar de tudo, há cerca de 25 mil desempregados inscritos nos centros de emprego e o primeiro exercício é dar oportunidade a estas pessoas e suprir as necessidades através destas pessoas que também precisam de emprego e também encontram na região essa resposta”.