1.3.21

Bazuca chega no Verão. Mas terá poder de fogo?

Marta Moitinho Oliveira, in Público on-line

Governo concentrado em pôr a ajuda europeia no terreno. Se futuro for “mais severo”, estados-membros podem ter de discutir montante da resposta à crise.

Portugal espera receber no Verão deste ano a primeira parcela dos quase 14 mil milhões de euros da resposta europeia à crise económica e social aberta pela pandemia. A ajuda, que faz parte do pacote global de 750 mil milhões de euros, foi classificada pelo primeiro-ministro como uma bazuca. Mas isto foi num primeiro momento. António Costa chama-lhe agora uma vitamina. Será que perdeu poder de fogo?

Infografia. De onde vêm e para onde vão os milhões da Europa?​

A dúvida sobre a força da resposta europeia para as necessidades que a crise económica e social exibe foi colocada em cima da mesa por Marcelo Rebelo de Sousa durante a campanha para as eleições presidenciais. “A bazuca foi pensada para quando se acreditava que a pandemia acabava em Outubro passado”, disse o chefe de Estado a 19 de Janeiro deste ano. Na altura, a Europa atravessava uma terceira vaga da crise sanitária, deparava-se com atrasos nas vacinas, e em Portugal dava-se início a um novo confinamento geral. “Já era preciso outra, mas onde é que se vai buscar o dinheiro?”

A pergunta ficou no ar e ninguém lhe pegou. Pelo menos de forma directa. No dia em que, no Parlamento Europeu, assinou o acto legislativo que formaliza o novo Mecanismo de Recuperação e Resiliência, António Costa chamou-lhe a “vitamina” da recuperação. Mas nada mais.

Em Lisboa, o Governo concentra-se nos passos necessários para que a resposta europeia veja a luz do dia. “Estou certa que essa avaliação de quais são os valores e os pacotes necessários vai sempre ser feita pelos diferentes estados-membros à medida que a pandemia e os seus impactos na economia evoluem”, disse a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, em declarações ao PÚBLICO.

A governante, que coordena uma parte relevante do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), dedicada às vulnerabilidades, põe a tónica no caminho já feito. “Não podemos desvalorizar um passo muito significativo” dado pela Europa, nem o impacto que já hoje estas medidas têm tido na nossa economia, por exemplo, através das verbas do SURE (um programa criado para o apoio ao emprego), argumenta. “Quanto ao resto cá estaremos para discutir o futuro. Se ele for mais ou menos severo do que pensávamos”, disse Mariana Vieira da Silva.

Sobre o futuro, Margarida Marques, eurodeputada pelo Partido Socialista, vai mais longe na análise: “Não é impossível que seja necessário ter outro reforço de financiamento'’. No entanto, explica por que razão por agora é preferível não alimentar essa discussão. “O importante é que o princípio seja aprovado. Se for aprovado teremos mais margem de manobra para alargar ou repetir o fundo”, afirmou ao PÚBLICO. Embora admita que possa ser necessário um pacote mais robusto face à evolução da crise - a líder do Fundo Monetário Internacional (FMI) disse recentemente que 2021 pode ser o ano da “grande divergência” - a eurodeputada salienta que falar dessa necessidade agora “cria mais ruído. O não ruído é inteligente”.

José Manuel Fernandes, eurodeputado eleito pelo PSD, põe a tónica na comparação com a execução de outros programas quando analisa o pacote de verbas a que Portugal vai ter acesso através da ajuda europeia (aos cerca de 14 mil milhões de euros em subvenções juntam-se quase 2,7 mil milhões de euros em empréstimos). “Olhando para a execução dos fundos quase dizia que Portugal não precisava de tanto. Como o Governo explica que não utiliza os 10,5 mil milhões de euros ainda por gastar no PT2020?”, pergunta o eurodeputado que teme que Portugal corra o “risco de perder dinheiro”.

José Manuel Fernandes explica que não há razões para que não se use aquela verba até porque a partir de Julho os projectos podem ser financiados a 100% por este programa (sem necessidade de contrapartida nacional do Orçamento do Estado) e, além disso, foram criadas regras que dão flexibilidade à utilização do dinheiro entre projectos.

Mas o executivo está “confortável” com o grau de execução do PT2020, contrapõe Mariana Vieira da Silva. Uma confiança reforçada pelo facto de, em Janeiro, Portugal ter apresentado uma taxa de execução (que mede os pagamentos intermédios da União Europeia em relação ao orçamento total) de 55,6% - a mais elevada entre os países com orçamentos acima de 7 mil milhões de euros e 5,8 pontos percentuais acima da taxa de execução da média europeia, segundo dados do executivo.

O que falta para o dinheiro chegar

Na Europa, o debate centra-se agora na necessidade de pôr no terreno o mais rápido possível a ajuda europeia. Recentemente, o comissário com a pasta do orçamento europeu pediu uma resposta “forte e conjunta” para uma UE onde se esperam ritmos de recuperação diferenciados. E a próxima etapa passa pela ratificação por parte de todos os estados-membros da decisão sobre recursos próprios. Ou seja, cada um dos 27 países tem de confirmar o acordo que permite à Comissão Europeia ir aos mercados financeiros levantar dinheiro para ajudar os países - uma solução inovadora nomeadamente face à crise anterior e que os eurodeputados acreditam que não será ameaçada pela recente agitação nos mercados. “Esta é a vantagem de ser uma garantia partilhada com nota máxima”, argumenta José Manuel Fernandes.

Até agora só sete países ratificaram a decisão: Bulgária, França, Croácia, Chipre, Malta, Portugal e Eslovénia. Margarida Marques destaca que a demora resulta de questões procedimentais dos parlamentos nacionais (o alemão está em obras e o holandês prestes a fechar devido à dissolução do Governo e às eleições de Abril). José Manuel Fernandes lembra também o caso da Finlândia que estava ainda a decidir se a ratificação teria de ser feita através de uma maioria de dois terços.

“Riscos existem sempre, mas não parece que vá acontecer. Todos precisam deste dinheiro”, diz Margarida Marques, adiantando que o executivo comunitário acredita que em Março os vários processos de ratificação estarão concluídos. José Manuel Fernandes mostra-se mais crítico: “É inaceitável que haja este atraso porque é contra os próprios estados-membros”.

Nelson de Souza, o ministro do Planeamento, que em Lisboa tem a coordenação do plano português de ajuda (o PRR), trabalha com o seguinte calendário: depois da actual fase de audição pública que termina esta segunda-feira para receber contributos para o plano, o Governo quer entregar o PRR à Comissão na primeira quinzena de Março para que seja aprovado pela Comissão e pelo Conselho até ao final de Abril.

Todos os países têm também que entregar os seus planos nacionais. O objectivo é que o primeiro pagamento chegue a Portugal até ao final de Junho, disse o governante na semana passada na Assembleia da República. No entanto, há aqui uma fase intermédia que passa pela negociação com a Comissão Europeia das metas e marcos intermédios para cada medida, projecto ou reforma, sem o cumprimento das quais não há pagamentos. O executivo espera que esta fase esteja concluída o mais tardar em Maio.

Se tudo correr como o previsto, a partir de Junho e já com os primeiros pagamentos, o Governo pode começar a lançar os concursos para pôr os projectos a andar. Com carta branca para gastar? Em 2021, a cláusula de escape que permite um défice acima do tecto dos 3% do PIB ainda está activa. No ano seguinte, ainda não é certo. Lisboa quer o prolongamento desta ajuda pelo lado das regras e esta extensão é vista como lógica do ponto de vista da execução das verbas da ajuda europeia. “Seria impossível aos estados-membros usarem o financiamento da bazuca se a cláusula de escape estiver desactivada”, diz Margarida Marques que pede “novas regras” para o momento em que esta suspensão das actuais deixar de existir.


A “bazuca” europeia explicada pelos eurodeputados José Gusmão e José Manuel Fernandes

Ana Sá Lopes e Aline Flor, in Público on-line

A “bazuca” europeia explicada pelos eurodeputados José Gusmão e José Manuel Fernandes

Neste terceiro episódio do podcast Estado da União, Ana Sá Lopes modera uma conversa com os eurodeputados José Gusmão, do Bloco de Esquerda, e José Manuel Fernandes, do PSD, que explicam o processo de negociação do Mecanismo de Recuperação e Resiliência - que António Costa tornou conhecido como a “bazuca” europeia - e desmontam os passos que serão necessários para que este financiamento chegue efectivamente aos Estados-membros e tenha um impacto duradouro.

Neste mês do Dia Internacional das Mulheres, recomendamos filmes com um olhar feminino sobre a Europa e as mulheres europeias. A primeira sugestão é “387” (2019), de Madeleine Leroyer, vencedor da secção especial Travessias do festival Olhares do Mediterrâneo 2020. Entre 5 e 7 de Março, o festival internacional de Assen (Países Baixos) acontece online e traz filmes em que as mulheres são protagonistas à frente e atrás das câmaras, como “A Cidade Era Nossa: Feminismo Radical nos anos 70” (2019), de Netty van Hoorn, e “Jungle” (2019), de Louise Mootz, que recebeu o prémio de melhor média-metragem documental no festival Visions du Réel 2020.

Estado da União é um espaço de debate sobre o presente e o futuro do projecto europeu à luz dos grandes desafios que a União enfrenta, e o lugar de Portugal e dos cidadãos nos destinos da Europa.

O presente e o futuro do projecto europeu, à luz dos grandes desafios que a União enfrenta. E o lugar de Portugal e dos portugueses nos destinos de uma Europa a 27.

De onde vêm e para onde vão os milhões da Europa?

in Publico on-line

Com "bazucas" ou "vitaminas", a União Europeia prepara a recuperação económica dos 27 países. Portugal terá direito a mais de 15 mil milhões e já divulgou o Plano de Recuperação e Resiliência. Quem recebe o quê na Europa e de onde provêm essas verbas?

Acordos com 25 câmaras já captaram mais de metade do apoio do PRR à habitação acessível

Luísa Pinto, in Público on-line

Até final de Fevereiro foram assinados 26 acordos de colaboração com o IHRU que implicam 710 milhões de euros para resolver carências habitacionais de 14.705 famílias.

O Governo quer resolver os problemas de carências habitacionais a 26 mil famílias até 2024 – é esse o programa que apresenta no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), onde inscreve os 1251 milhões de euros que pretende ir buscar em subvenções para executar o programa de apoio ao acesso à habitação. E só até final de Fevereiro, o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) já se comprometeu com 25 câmaras, com quem assinou 26 acordos de colaboração (em Évora foram assinados um com a câmara e outro com a empresa de habitação municipal, a HabEvora), em que o financiamento atinge 710 milhões de euros para resolver os problemas habitacionais de 14.705 famílias. Ou seja, mais de metade dos objectivos do PRR para o programa de apoio ao acesso à habitação estão comprometidos, apenas com 25 autarquias.

Estes acordos fazem parte das Estratégias Locais de Habitação (ELH) no âmbito do programa 1.º Direito que foram entregues pelos municípios ao IHRU. Para além das 25 que já assinaram os acordos (Arruda dos Vinhos, Lisboa, Almada, Oeiras, Matosinhos, Évora, Loulé, Lousada, Porto, Funchal, Alijó, Paredes, Torre de Moncorvo, Marvão, São João da Madeira, Mafra, Mirandela, Ribeira de Pena, Espinho, Idanha-a-Nova, Grândola, Alcanena, Silves, Viseu e Setúbal) há ainda 30 autarquias que têm as suas ELH em avaliação pelo IHRU, e outras 10 têm estratégias já validadas e a aguardar assinatura de acordo “para breve”, disse ao PÚBLICO fonte do Ministério das Infra-estruturas e da Habitação (MIH).

De acordo com a mesma fonte, as 35 estratégias já entregues e validadas pelo IHRU abrangem cerca de 29 mil famílias em carência habitacional – o que significa que o financiamento conseguido via PRR (se este for aprovado) não será suficiente para resolver todos os problemas de carência habitacional encontrados no país num levantamento feito pelo IHRU em 2018, e que permitiu ao Governo chegar ao número de quase 26 mil famílias com carências habitacionais. Carências essas que o Governo de António Costa anunciou pretender erradicar até ao 25 de Abril de 2024, altura em que se assinalam os 50 anos da revolução.

Paula Marques, vereadora da habitação de Lisboa, e também presidente da Associação Portuguesa de Habitação Municipal (uma estrutura com 25 associadas e mais de 63.700 fogos sob sua gestão) diz que tanto o levantamento feito pelo IHRU como as necessidades inscritas pelos municípios nas ELH que já estão entregues e validadas são diagnósticos ultrapassados. “Ninguém contou com os efeitos desta pandemia, que vai agravar as situações de carência em todos os níveis”, assevera.
Comparticipação a 100%

Diagnósticos e necessidades à parte, o Ministério da Habitação não deixará de usar o PRR como o principal instrumento de financiamento do Programa 1.º Direito, pelo menos até Julho de 2026. Por isso, a alteração nas percentagens de financiamento anunciadas pelo ministro Pedro Nuno Santos na passada sexta-feira, durante a sessão pública de discussão das matérias relacionadas com a habitação no âmbito do PRR. “Se, até aqui, os valores da comparticipação a fundo perdido variavam em média entre os 30% e os 50%, com este financiamento via PRR conseguiremos garantir uma comparticipação a 100% às primeiras 26.000 soluções habitacionais entregues às famílias”, confirma o gabinete do ministro da Habitação, sublinhando que serão elegíveis a esta comparticipação integral “todos os investimentos em curso desde o dia 1 de Fevereiro de 2021, conforme previsto no Regulamento que cria o Mecanismo de Recuperação e Resiliência”.

Ou seja, os acordos de celebração já assinados e que previam um investimento total de 710,6 milhões de euros, dos quais 274,5 milhões a fundo perdido e 275,7 milhões com recurso a empréstimo bonificado junto do IHRU, estão ultrapassados. Porque a componente de fundo perdido pode aumentar, assim as autarquias consigam avançar para a execução dos investimentos.

O 1º Direito prevê vários formatos de intervenção na resolução dos problemas habitacionais (construção, reabilitação, aquisição) e envolve públicos e privados – ou seja, um privado também pode obter financiamento para executar obras no âmbito do Primeiro Direito. E, como explica o Governo na redacção do PRR que tem em discussão pública, o 1.º Direito - Programa de Apoio ao Acesso à Habitação tem uma abordagem “mais transversal” do que os anteriores programas de promoção pública de habitação social, uma vez que inclui outras carências: ausência de infra-estruturas e equipamentos básicos, insalubridade e insegurança do local de residência, a precariedade ou inexistência de vínculo contratual, a sobrelotação ou inadequação da habitação às necessidades especiais dos residentes com deficiência ou mobilidade reduzida.

No total, são 223 os municípios em contacto com o IHRU para trabalhar na sua Estratégia Local de Habitação (35 ELH já validadas, 30 ELH em processo de avaliação no IHRU e 158 ELH em elaboração).

Nas intervenções previstas nos 25 municípios com Acordo de Colaboração assinado, 57 % são de reabilitação, 20 % são de construção e 22 % são de aquisição (maioritariamente para reabilitação posterior), sendo que apenas 1 % corresponde a soluções de arrendamento para subarrendamento. Recorde-se que neste último caso, e se se tratarem de reconversão de fogos que estavam em Alojamento Local para serem colocados no arrendamento acessível, os municípios podem usufruir de outra linha de apoio, também através do IHRU, e que tem uma dotação orçamental de nove milhões de euros até 2022.

A portaria que a regulamenta foi publicada em Dezembro, mas até agora ainda nenhum município pediu apoios – só a câmara do Porto enviou perguntas, manifestando o interesse que teriam em que esta comparticipação de apoio à renda seja atribuída relativamente a todos os imóveis abrangidos pelo Programa Porto com Sentido, que não se direcciona apenas a imóveis afectos à exploração de Alojamento Local. Durante o ano de 2020, e apesar das vantagens concedidas, apenas 20% dos imóveis afectos ao Programa Porto com Sentido são provenientes da actividade de Alojamento Local, confirmou ao PÚBLICO fonte da Câmara do Porto.

Programa 1.º Direito executou até agora 17 milhões de euros

O Programa 1.º Direito foi publicado em Maio de 2018, e implica que os municípios desenhem as suas estratégias locais de habitação, documentos prospectivos onde definem as necessidades de intervenção, e investimento, a executar ao longo de seis anos.

Em Junho de 2019, o município de Arruda dos Vinhos foi o primeiro do país a assinar com o IHRU um Acordo de Colaboração para obter apoio financeiro para realojar 31 famílias do concelho. O investimento previsto foi de quase um milhão de euros, que iria ser usado na requalificação de 16 moradias e na construção de um novo bloco habitacional, com três pisos e 15 fogos.

O último município a assinar um acordo com o IHRU foi a Câmara de Setúbal, que identificou um total de 4459 famílias a viver em condições indignas, e garantiu que os problemas de 1543 famílias seriam salvaguardados através do Acordo de Colaboração que define um montante global de investimento de 20,5 milhões de euros por parte do IHRU, dos quais 11,69 milhões de euros são financiamento a fundo perdido. Passam todas pela reabilitação de fracções ou de prédios habitacionais.

Um ano e oito meses depois de todos estes documentos assinados, o Ministério da Habitação diz que se encontram já concretizadas 178 soluções habitacionais e foram executados 17 milhões de euros. É um programa de execução necessariamente lenta.

A Câmara de Évora foi uma das que já recebeu financiamento. A coordenadora da Unidade de Habitação e Reabilitação Urbana da Câmara de Évora, Susana Mourão, explica que a implementação do 1º Direito “exige um enorme empreendimento humano para a sua concretização”, desde os beneficiários e as entidades beneficiárias, os serviços municipais, o IHRU, os serviços de arquitectura que se associarão a este projecto assim como as empresas de construção. “Uma simples resposta apoiada pelo 1.º Direito poderá demorar um ano de candidatura e aprovação do contrato de financiamento, e seis meses a um ano para a realização das obras”, explica Susana Mourão.

Évora foi mesmo o único município que, até agora, celebrou já dois acordos de financiamento – um directamente a autarquia, outro feito pela empresa municipal HabÉvora. A Estratégia Local de Habitação de Évora foi entregue ao IHRU em Janeiro de 2020 e identificava carências em 1336 agregados habitacionais. Em Maio desse ano iniciaram o diálogo para o financiamento das soluções habitacionais, e chegaram à conclusão que seriam necessários 63 milhões de euros. Em Maio foram apresentadas as candidaturas ao IHRU, os acordos de colaboração foram assinados em Julho.

O acordo assinado com a câmara visa financiar 200 habitações destinadas a famílias carenciadas e envolve um investimento de cerca de 17,2 milhões, dos quais 7,8 milhões de euros são financiamento a fundo perdido. O acordo de financiamento assinado entre o IHRU e a HabÉvora visa suportar soluções habitacionais para 267 famílias, envolvendo um investimento de aproximadamente 15 milhões de euros, dos quais 5,7 milhões serão comparticipação não reembolsável.

Depois dos acordos de financiamento aprovados, é necessário apresentar candidaturas junto do IHRU. Évora fez duas: a reabilitação de 14 habitações devolutas da empresa municipal HabÉvora e apoio técnico à gestão de candidaturas ao 1.º Direito durante nove meses.

“Já assinámos os contratos de financiamento de ambas candidaturas e as 14 habitações foram atribuídas e os contratos de arrendamento assinados para 14 agregados familiares. E, por outro lado, a equipa que virá trabalhar no apoio técnico no âmbito da gestão de candidaturas ao 1.º Direito, já foi contratada”, informa a coordenadora da Câmara de Évora.

Ex-inquilinos da Fidelidade continuam a receber cartas de despejo

Luísa Pinto, in Público on-line

Apesar de ter sido renovada a suspensão de despejos e dos prazos de oposição à renovação de contratos, NeptuneCategory continua a mandar cartas aos antigos inquilinos da Fidelidade com a intenção de ver os fogos livres. Alguns estão desocupados deste Setembro de 2019

Carlos Rodrigues (nome fictício) vive na mesma casa, no centro de Lisboa, desde 1975, altura em que regressou de Angola, e ele e a mãe foram viver para casa de uma tia. Dez anos depois (ainda antes de Carlos ir à tropa) a tia tinha saído daquela casa e ele fez novo contrato com o senhorio em que passou a titular. Por ser um contrato assinado antes de 1990 foi daqueles casos que a chamada Lei Cristas, publicada em 2012, na sequência da intervenção da troika em Portugal, veio actualizar. E liberalizar. Os contratos de Carlos passaram a ter prazos de cinco anos e, em Julho de 2019, deveria terminar o seu. Mas nessa altura, já o anterior senhorio, a Fidelidade, tinha vendido um vasto conjunto de imóveis a empresas-veículo criadas pelo Fundo Apollo, e a correspondência passou a ser feita com a NeptuneCategory.

Foi correspondência quase sempre num sentido. Porque Carlos nunca obteve resposta às muitas cartas que enviou a pedir para renovar o contrato, ou para comprar o imóvel (exercendo o direito de preferência que a lei lhe dava). Mas agora recebeu uma missiva a avisar que tinha 15 dias para sair do imóvel onde vive há 45 anos.

“Obviamente, já reclamei!”, esclarece ao PÚBLICO. Na verdade, fez o que lhe permite a lei, apresentou uma “oposição à pretensão” anunciada pela NeptuneCategory, que fez chegar ao Balcão Nacional de Arrendamento. A consequência vai ser aguardar a marcação de uma audiência em tribunal, confirmou o PÚBLICO junto do advogado de Carlos.

A notificação de despejo acontece numa altura em que ainda está em vigor a legislação que suspendeu os efeitos dos prazos de caducidade e não renovação dos contratos de arrendamento. Esta lei foi aprovada pela primeira vez em Março do ano passado, no início da pandemia. “Quando pedimos às pessoas para estarem em casa recolhidas, não é seguramente um momento para andarem à procura de casa”, argumentou então o primeiro-ministro. O primeiro prazo de vigência era Setembro do ano passado. Depois foi prolongado para Dezembro. E, em Dezembro, foi prolongado de novo até Junho de 2021.

A situação excepcional imposta pela pandemia mantém-se, e as “acções de despejo, os procedimentos especiais de despejo e os processos para entrega de coisa imóvel arrendada” ficam suspensos quando o arrendatário, “por força da decisão judicial final a proferir, possa ser colocado em situação de fragilidade por falta de habitação própria”, lê-se na Lei 1-A/2020.

Não ter para onde ir

“Eu não tenho nenhum sítio para onde ir. Fiquei viúvo, recebo a pensão da minha mulher e continuo a fazer uns biscates no ramo dos seguros”, avisa Carlos. Mas nem foi a situação de fragilidade por falta de habitação própria que invocou na oposição entregue no Balcão Nacional de Arrendamento. Para este inquilino, e para advogado que o representa, o contrato não caducou e continua em vigor. “Tenho as rendas todas pagas desde Julho de 2019, e eles nunca as devolveram nem nunca reclamaram. O contrato foi renovado”, asseverou Carlos Rodrigues.

Para sustentar o seu argumento, Carlos apresenta a carta que lhe foi endereçada ainda pela Fidelidade, em Junho de 2018, e onde esta mostrava disponibilidade para renovar o contrato de arrendamento, e disponibilizava um contacto para chegarem a um acordo sob essa renovação. Carlos Rodrigues respondeu que sim, queria negociar a renovação do contrato, mas nunca mais teve resposta. As cartas que começou a receber foram outras: que o imóvel ia ser vendido, que a NeptuneCategory passaria a ser a proprietária. A Neptunecategory é uma das quatro empresas veículo criadas pelo fundo Apollo, e controladas a partir das ilhas Caimão, com quem foi feita a escritura das propriedades.

A Fidelidade comunicou a venda do imóvel a 8 de Setembro de 2018. Em Janeiro de 2019, Carlos Rodrigues escreveu à nova senhoria para renovar a manifestação do seu interesse em negociar a renovação do contrato de arrendamento e solicitando a indicação das correspondentes condições. Não teve resposta. Se o contrato caducou em Julho desse ano, nunca foi avisado de nada. E a renda, a rondar os 600 euros, continuou a ser pagar todos os meses.

“O contrato está automaticamente renovado”, insiste Carlos Rodrigues, dizendo aguardar com expectativa o desfecho do seu processo judicial, mas também de um outro que alguns dos seus vizinhos também interpuseram em tribunal. Querem que seja definido um valor para aquele imóvel para conseguir exercer o direito de preferência que lhes foi vedado aquando da venda – foi invocado o facto de a venda ser em lote, com 271 prédios espalhados pelo país, e o direito de preferência só poderia ser exercido se alguém se propusesse a adquirir a totalidade do portefólio.

A venda deste lote de imóveis foi muito polémica, não só por ter impedido o exercício do direito de preferência de inquilinos e municípios que o pretendessem (a Câmara do Porto continua a discutir o assunto em tribunal) mas também por ter ficado isenta do pagamento do Imposto Municipal sobre Transacções (IMT). Esta isenção foi atribuída porque estas empresas inscreveram no seu objecto social a revenda de imóveis. O comprovativo de venda de uma arrecadação com cinco metros quadrados, numa cave de um prédio em Vila Nova de Cerveira, serviu para o fundo americano conseguir escapar ao pagamento de cerca de 25 milhões de euros de IMT, como confirmou o Ministério das Finanças.

Entretanto, as quatro empresas controladas pela Apollo a partir das ilhas Caimão foram mudando de arquitectura, a NeptuneCategory foi transformada em sociedade anónima e, em final de 2019, foi parar às mãos da Axa. Este grupo francês anunciou ter investido 200 milhões de euros e que pretendia fazer obras de intervenção nos imóveis.

Pedro Farinha, um inquilino que tentou exercer o direito de preferência, foi instado a sair de sua casa, por caducidade do contrato em Setembro de 2019 – antes de eclodir a pandemia. A casa tem estado desocupada desde então.

Cautela é a palavra de ordem nos desconfinamentos europeus

Maria João Guimarães, in Público on-line

Governos europeus tentam gerir expectativas de reabertura, mas muitos decidiram parar no alívio das restrições que já tinham planeado.

Enquanto parte da Europa começa cautelosos desconfinamentos, outra enfrenta uma terceira vaga da covid-19. Se há quem reabra mesmo com “nervosismo”, como a Holanda, há quem, como a Bélgica, lance “um banho de água fria” sobre as expectativas de reabertura, e ainda quem, como a Grécia, tenha tido de dar passos atrás.

Comparações são sempre difíceis porque os países estão em graus diferentes da pandemia, mas seguindo um índice que avalia quão restritivas são as medidas dos países feito no site Our World in Data, da Universidade de Oxford, Portugal está no segundo grau de maior severidade, junto com países como Espanha, Países Baixos, Hungria, Polónia, Grécia, Áustria ou Noruega, e atrás dos mais estritos como, por exemplo, o Reino Unido – que é a excepção nos planos de desconfinamento, tendo apresentado um com base em datas (e algumas metas).



A maioria dos países tem mantido as escolas abertas, pelo menos do 1.º ciclo e as creches, e os planos de desconfinamento prevêem também em muitos casos que as escolas estejam entre os sectores prioritários na reabertura – como tem dito que acontecerá em Portugal o primeiro-ministro, António Costa.

A cautela tem sido a palavra de ordem na maioria dos países, com surtos localizados a avançar com muita rapidez desde Dunquerque, em França, a avisos de aumentos dramáticos na Polónia ou República Checa, que estão em plena terceira vaga.



Alemanha

Não há planos para reabrir lojas não essenciais, restaurantes, bares, nem centros de lazer até pelo menos 7 de Março na Alemanha, e o facto de a taxa de infecção permanecer estagnada, e não descer, faz pensar que as medidas deverão continuar em vigor. Neste momento, as escolas primárias estão abertas em mais de metade dos 16 Estados federados, e há restrições de contacto – cada agregado familiar que viva junto só pode contactar com um outro. Por outro lado, está prevista a abertura de cabeleireiros em breve (uma das razões era porque havia muitos a ir a casa, sem cumprir regras de segurança, e havia ainda pessoas a viajar até países vizinhos como o Luxemburgo para cortar o cabelo).

A chanceler, Angela Merkel, quer um desconfinamento lento para evitar um novo confinamento (tem repetido que não é desejável “confinamento yo-yo”) se o número de infecções aumentar. A prioridade será o levantamento das restrições entre agregados familiares, seguido das escolas e de actividades desportivas.

O Governo planeia distribuir gratuitamente testes rápidos, que podem ser feitos pelas próprias pessoas em casa, e fazer testagem em larga escala. Neste momento é obrigatório o uso de máscaras cirúrgicas ou FFP2 em lojas e transportes públicos.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 93,54
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 3,58
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,82

Áustria

Áustria, que já é um dos países do mundo com mais testagem, quer apostar em fazer ainda mais testes para poder seguir com o desconfinamento.

As escolas estão abertas com testes duas vezes por semanas aos alunos. Cabeleireiros, estúdios de tatuagem e algumas estâncias de esqui estão abertas e acessíveis a quem apresentar um resultado negativo de teste antes de entrar. Museus, galerias de arte e jardins zoológicos também.

O Governo considera a hipótese de abrir cafés e restaurantes no próximo mês com a mesma base, a de apresentação de um resultado negativo de teste. Para já, funcionam apenas em regime de take away.

Actualmente, é obrigatório o uso de máscaras FFP2 nas lojas e transportes públicos. Está ainda em vigor um recolhimento obrigatório das 20h às 6h.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 205,03
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 2,87
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,46

Bélgica

A Bélgica anunciou na sexta-feira que não vai levar a cabo a flexibilização de restrições que esperava. “Não tomámos as decisões que tínhamos pensado tomar”, reconheceu o primeiro-ministro, Alexander De Croo. O número de casos, estável nos últimos três meses, está a subir, assim como as hospitalizações, com a variante identificada no Reino Unido a ser responsável por metade dos novos casos. “Temos de ser cuidadosos”, sublinhou De Croo. “É difícil dizer isto agora”, admitiu. “É como um banho de água fria.”

As escolas estão abertas, embora os estudantes do secundário apenas tenham aulas presenciais a meio tempo. Está em vigor um recolher obrigatório das 22h às 6h, mas as lojas, cabeleireiros e piscinas reabriram. Cafés e restaurantes estão fechados desde finais de Outubro, e o teletrabalho é obrigatório sempre que possível.

O Governo avaliará de novo a situação na próxima semana, e o primeiro-ministro já deixou claro que os números de novos casos, hospitalizações e mortes serão a base para mais decisões sobre o desconfinamento, que não será feito com base em datas.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 216,73
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 2,28
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,31

Dinamarca

A Dinamarca vai permitir a reabertura de lojas não essenciais e escolas em partes do país, mas avisou logo que isso terá um custo em hospitalizações. “Mais actividade também quer dizer mais pessoas infectadas e, por isso, mais hospitalizações”, que podem mesmo triplicar, declarou o ministro da Saúde, Magnus Heunicke, numa conferência de imprensa.

Para tentar diminuir o risco nas escolas, os alunos serão testados duas vezes por semana. As lojas que poderão abrir são as que têm menos de 5 mil m2 e será possível ter actividades ao ar livre com um limite de 25 pessoas.

O país tem tido uma das mais baixas taxas de infecção da Europa, tendo respondido com o encerramento de muitos sectores ao aparecimento da variante mais contagiosa primeiro identificada em Inglaterra. Quem entra tem de apresentar um resultado negativo de teste e isolar-se dez dias.

O ministro das Finanças, Nicolai Wammen, sublinhou que a abertura das lojas vai ter um grande contributo para a economia, mas também avisou: “Vimos que outros países reabriram muito depressa e perderam o controlo da infecção. Este é um cenário que temos de evitar.”

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 89,21
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 0,79
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 9,37

Espanha

Entre as medidas nacionais em Espanha estão o recolher obrigatório das 22h/23h às 5h/6h até pelo menos ao início de Maio e a obrigatoriedade do uso de máscara por maiores de seis anos nos transportes públicos e espaços interiores, que são obrigatórias em muitas regiões para qualquer pessoa que saia de casa.

Das 17 regiões, dez continuam com bares e restaurantes encerrados, enquanto outras sete, incluindo Madrid, permitiram a reabertura (fechando mais cedo, o que em muitas regiões significa que os restaurantes apenas servem almoços).

O responsável da Agência de Saúde Pública, Fernando Simon, avisou, no entanto, que não há ainda espaço para aliviar significativamente as restrições.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 178,82
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 6,44
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,35

França

Em França continuam fechados bares, museus, cinemas, teatros, ginásios e estâncias de esqui, e restaurantes funcionam apenas em take-away, e há ainda um recolher obrigatório em todo o território das 18h às 6h.

As escolas mantêm-se abertas com testes extra (os que são feitos apenas com uma amostra de saliva), regras estritas e uso de máscaras para crianças com mais de seis anos.

O país está a introduzir medidas ainda mais restritivas em locais com grande crescimento de infecções, como na Riviera, incluindo Nice e Cannes, e também Dunquerque, no Norte, onde houve um grande crescimento no número de infecções (a taxa de transmissão é nove vezes superior à média do resto do país).

Cerca de dez das 102 zonas do país estão numa “situação muito preocupante”, disse o porta-voz do Governo, Gabriel Attal.

As fronteiras com todos os países fora da UE estão encerradas (entradas permitidas apenas por razões urgentes), e o país aumentou os controlos da fronteira com a Alemanha, exigindo teste negativo à entrada.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 328,99
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 4,89
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,30

Grécia

Em Janeiro, o país começou a aliviar um confinamento começado em Novembro, mas no final do mês a subida de casos levou a novas medidas em zonas “vermelhas”, de maior risco, que incluem a região de Atenas, onde só estão abertas lojas essenciais e voltaram a encerrar escolas, cabeleireiros e salões de beleza que tinham reaberto.

Em Atenas, Salónica e Chalkidiki está em vigor um recolher obrigatório das 21h às 5h durante a semana e das 18h às 5h no fim-de-semana; nas restantes “zonas vermelhas”, a obrigação de recolher começa sempre às 18h. É necessário (como em confinamentos anteriores) enviar um SMS a indicar que se vai sair, por exemplo, para ir às compras, e tem-se então uma janela de duas horas para estar fora de casa.

O Governo admitiu, esta semana, que a reabertura programada para Março (que incluiria, por exemplo, as escolas secundárias) não vai acontecer. “O grande aumento de casos” de terça-feira tornou logo isso claro, disse o primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotakis.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 142,68
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 2,59
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,93

Hungria

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, alertou esta sexta-feira, o dia que foram registadas 4669 novas infecções, que o país pode ter de apertar de novo as restrições quando se espera um “aumento drástico” do número de casos. O chefe de gabinete de Orbán já tinha avisado que as próximas duas semanas serão “extremamente difíceis”.

O Governo estendeu um confinamento parcial, que dura desde Novembro, até 15 de Março, com todas as escolas secundárias encerradas, assim como hotéis e restaurantes (que podem servir comida para fora). Temendo o aumento de infecções, o sindicato de professores PDSZ pediu entretanto ao Governo que feche creches e escolas primárias.

A Hungria está a fazer um grande esforço para ter mais vacinas, sendo o primeiro país da União Europeia a comprar a vacina russa Sputnik V e a chinesa Sinopharm, não aprovadas pela autoridade reguladora europeia. Mas, na Europa, é o país com menor percentagem de doses administradas relativamente às recebidas (menos de 50%). Portugal, por exemplo, está em oitavo lugar neste indicador.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 303,02
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 9,42
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,89

Itália

O país continua a ter um recolher obrigatório das 22h às 5h, proibição de viagens entre as regiões pelo menos até 27 de Março (esperava-se que terminasse a 25 de Fevereiro), e uso obrigatório de máscara em espaços interiores e nos exteriores caso não seja possível garantir distanciamento.

O país tem restrições diferentes conforme a situação (há quatro níveis). Algumas regiões, incluindo Roma, começaram a permitir que bares e restaurantes sirvam clientes no local até às 18h.

As escolas estão abertas, incluindo os liceus, fechados desde Outubro e reabertos recentemente com os alunos divididos em grupos para que a ocupação das salas seja menor.

O Governo do novo primeiro-ministro, Mario Draghi, continuou as restrições a visitas de familiares e amigos: apenas dois adultos podem visitar a casa de outra pessoa na mesma altura. Cinemas e teatros continuam fechados em todo o país.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 243,42
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 4,93
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,53

Irlanda

A Irlanda vai manter a maior parte das restrições do confinamento, com lojas não essenciais a continuarem encerradas, bares, ginásios e até construção civil, até pelo menos 5 de Abril. A excepção são as escolas primárias e as creches, que vão reabrir esta semana, e há a ideia de passar a permitir o trabalho em obras a partir dessa data.

As deslocações não essenciais estão proibidas e para fazer desporto estão limitadas a uma distância de 5 km de casa.

Estão proibidas visitas a casas de outras pessoas, mesmo que seja no jardim; casamentos podem ter seis convidados e funerais dez.

O chefe de Governo, Micheál Martin, reconheceu que o país estava “física e mentalmente exausto pelas restrições”, mas acrescentou que o país só reabrirá quando o número de novas infecções descer e houver mais pessoas vacinadas.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 139,77
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 5,47
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,28

Países Baixos

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, admite que o executivo está a tomar uma decisão que o deixa “nervoso”: relaxar algumas medidas de confinamento quando os números não chegaram ao que seria considerado ideal.

A partir de 1 de Março, alunos do secundário voltarão pelo menos um dia por semana às aulas, e poderão reabrir cabeleireiros, por exemplo. O país fechou escolas e lojas em Dezembro, dois meses depois de encerrar bares e restaurantes. Adolescentes e jovens até aos 27 anos vão poder fazer desportos de equipa no exterior, e há lojas que poderão abrir por marcação.

Vai manter-se, no entanto, o recolher obrigatório das 21h às 4h30 pelo menos até 15 de Março. As escolas e lojas fecharam em Dezembro.

“O relaxamento de medidas não deixará de ter custos, e não é irreversível”, avisou logo Rutte. “Se as infecções subirem, voltam a estar em cima da mesa todas as opções de restrições.”

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 263,57
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 2,92
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 5,20

Polónia

A Polónia tinha começado a relaxar algumas medidas do confinamento, abrindo estâncias de esqui, cinemas, hotéis e teatros, mas as autoridades estão a preparar-se para reintroduzir algumas delas.

Um surto na região de Warminsko-Mazurskie, conhecida pelos seus lagos, fez com que as autoridades decretassem um confinamento local, durante pelo menos duas semanas.

“Decidimos dar um pequeno passo atrás”, lamentou o ministro da Saúde, Adam Niedzielski. A Polónia atravessa a terceira vaga da covid-19, e o ministro estima que esta seja “mais pequena” que as anteriores, e que o pico aconteça entre o final de Março e início de Abril.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 221,97
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 5,71
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,90

Reino Unido

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, apresentou na segunda-feira um plano de reabertura para Inglaterra com base em datas, começando pelas escolas já esta semana, e passando por lojas não essenciais, cabeleireiros, ginásios e bares ou restaurantes ao ar livre, para chegar finalmente à meta, que é não ter restrições a 21 de Junho.

O optimismo excepcional em Londres, que contrasta com a abordagem mais cautelosa na Europa, tem a ver sobretudo com o avanço na vacinação.

Cada etapa tem um espaço de várias semanas entre si, e só se passará à seguinte se houver condições, medidas em vários indicadores: o ritmo da vacinação, a verificação da descida das hospitalizações e mortes por causa da vacinação, redução da taxa de infecções e a ausência de ameaça por parte de novas variantes do vírus. Boris Johnson disse esperar que a reabertura seja “cautelosa e irreversível”.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 150,54
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 5,66
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 28,57

República Checa

O Governo da República Checa, que tem estado no lugar cimeiro da taxa de infecções em relação à população, tenta que as medidas de confinamento continuem quando a oposição se recusa a prolongar o estado de emergência. O Governo minoritário de Andrej Babis tem feito apelos cada vez mais dramáticos, dizendo que se aproximam “dias infernais”, e parte da oposição parece convencida que, com as novas variantes de transmissão mais fácil, é melhor aprovar mais medidas. Neste momento já estão fechadas lojas não essenciais, restaurantes, entretenimento, e apenas as creches e dois anos da primária estão a ir às aulas.

“O que precisamos agora é que as pessoas, que estão frustradas, e que querem ter as suas vidas de volta, o que precisamos é que se comportem nas próximas três semanas do modo que fizeram em Março de 2020”, declarou. Em Março, a República Checa teve um confinamento rigoroso, e foi um dos países europeus a passar com sucesso a primeira vaga. Tanto sucesso que se tornaram um destino favorito de turismo, e que as pessoas se tornaram complacentes, cumprindo menos as regras, e foi dos países mais afectados na segunda e terceira vagas.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 999,37
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 14,62
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 5,83

Suécia

“Podemos evitar uma terceira vaga se mantivermos a distância”, disse o primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven, quando o Governo anunciou que quer reduzir o horário de restaurantes, bares e cafés, que fecharão às 20h30. Os restaurantes e bares já não podiam vender álcool a partir das 20h. A estratégia sueca baseia-se sobretudo em recomendações, mas em Janeiro o Governo aprovou legislação que permite intervenção de modo mais directo. Agora vai ainda limitar o número de pessoas que podem entrar nas lojas e suspender competições desportivas para maiores de 15 anos.

Apesar de as empresas permanecerem abertas, o teletrabalho é incentivado e será a regra (já era relativamente comum antes da pandemia) e parte das aulas para alunos com mais de 16 anos estão a ser dadas online. Também há restrições a viagens internas e também para quem chega; as viagens para o estrangeiro são desaconselhadas.

Taxa de infecção por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 359,90
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 2,83
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 6,83

Em Portugal, para comparação:

Taxa de infecção por milhão de habitantes (média móvel a 7 dias): 124,93
Taxa de mortes por 100 mil habitantes (média móvel a 7 dias): 6,04
Taxa de vacinação por 100 pessoas: 7,38

Assim, Portugal está condenado à pobreza

José António Saraiva, in Sol

Como é que cidadãos naturais de um país que não consegue equilibrar o orçamento, que não produz o suficiente para as pessoas terem ordenados decentes, que vive há 25 anos dos dinheiros da Europa, têm o desplante de dizer que têm ‘vergonha’ do passado?

Na semana passada, escrevi que não devíamos envergonhar-nos do passado – devemos antes preocupar-nos com o presente.

Como é que cidadãos naturais de um país que não consegue equilibrar o orçamento, que não produz o suficiente para as pessoas terem ordenados decentes, que vive há 25 anos dos dinheiros da Europa, têm o desplante de dizer que têm ‘vergonha’ do passado?

Parece uma anedota.

Ainda por cima, esses grupos de pessoas que se dizem ‘envergonhadas’ do nosso passado são, muitas vezes, quem nos impede hoje de andar para a frente.

Porquê?

Porque têm uma visão errada do desenvolvimento.

Em vez de quererem premiar os que trabalham, os que têm iniciativa, os que criam emprego, preferem premiar os que não trabalham.

Podem fazê-lo com a melhor das intenções.

Podem defendê-lo por razões humanitárias.

Não ponho isso em causa.

O problema é que as políticas que privilegiam o que não é produtivo levam os países cada vez mais para o fundo.

Esses grupos de pessoas exigem o reforço do SNS, um maior investimento na escola pública, transportes tendencialmente gratuitos, a nacionalização de empresas ‘estratégicas’ (como a da TAP), o aumento dos funcionários públicos, o alargamento do subsídio de desemprego, o crescimento do rendimento mínimo garantido, a redução do horário de trabalho nas empresas privadas, agora os subsídios para todos os que têm de ficar em casa por causa da pandemia, etc.

Onde iremos parar com tudo isto?

Fazer aumentos de salários que não correspondam a um aumento da produtividade; investir em projetos que não tenham retorno; reduzir horários de trabalho; proporcionar serviços grátis; nacionalizar empresas improdutivas; pagar a muita gente que não trabalha – é o caminho seguro para o empobrecimento e a bancarrota.

Conheço pessoas que, tendo um emprego, preferiram ir para o desemprego – porque continuavam a ganhar sem trabalhar, sem gastar dinheiro em transportes e refeições, e até podendo fazer um ‘biscate’ e ganhar alguma coisita por fora…

Conheço pessoas que recebem propostas de trabalho mas preferem continuar no desemprego, pelas mesmas razões.

Conheço pessoas que recebem o rendimento mínimo e não procuram trabalho porque não pretendem mais.

A realidade mostra que pagar a quem não trabalha é um perigo.

E o Estado sai duplamente prejudicado: porque paga os subsídios e não recebe os impostos que essas pessoas pagariam se estivessem a trabalhar.

Já se pensou quantos portugueses – entre desempregados, gente com rendimento mínimo garantido, reformados, trabalhadores em regime de lay-off, funcionários com baixa médica, etc. – haverá em Portugal que estão a receber subvenções do Estado sem trabalhar?

E há ainda a situação dos presos.

Muitas destas pessoas – mesmo os reformados, em certas situações – poderiam fazer qualquer coisa de útil para a comunidade.

Receber sem trabalhar é muito pouco saudável.

Cria vícios e convida à inação.

Dir-se-á: mas os ordenados são tão baixos que não compensa trabalhar.

Ora, com essa mentalidade, entramos num círculo vicioso.

Quanto menos gente trabalhar, menos o país produz; e quanto menos o país produzir, mais baixos serão os ordenados; e quanto mais baixos forem os ordenados, menos incentivo haverá para trabalhar.

Acreditem: por este caminho, não sairemos da cepa torta.

Com esta mentalidade dos subsídios, do SNS universal e gratuito, da escola pública universal e gratuita, das nacionalizações de empresas falidas, etc., é impossível crescermos.

Este modelo pode ser muito bonito, muito humano, mas não conduz ao aumento da riqueza – conduz à perpetuação da pobreza.

De uma forma geral, não trabalhar e receber, ou utilizar um serviço e não o pagar, são maus princípios.

E colocam sobre o Estado um peso tal que se torna um travão ao desenvolvimento.

O nosso problema não é de governo – é de modelo.

O país tem de se libertar da dependência do Estado.

Tem de ser capaz de viver por si.

O Estado deve vir no fim, como árbitro e regulador, não deve vir no início, como empregador, como fonte do rendimento da maioria das famílias, como investidor, como prestador de serviços gratuitos.

Na última semana escrevi que precisamos de um assomo de orgulho nacional; hoje acrescento: e precisamos de um ‘choque liberal’.

Este sistema ‘assistencialista’ que temos não nos leva a parte nenhuma.

Já fomos ultrapassados por quase todos os países de Leste.

Por este caminho, vamos parar ao último lugar da Europa.

O país do medo

Ângela Silva, in Expresso

Já fez um ano e não parece que foi ontem. Os anos duros levam mais tempo a passar, os anos muito duros não têm fim e este ano, entre fevereiros, é um rasto de cansaço e medo. Já não é bem medo do bicho, porque, como acontece em todos os ciclos trágicos, aguentamo-nos porque há algo que nos salva, e neste ano entre fevereiros a ciência salvou-nos. Mas é medo do resto. E o resto é tudo o que falha, por impreparação, pobreza e falta de meios, mas também por falta de rasgo e de coragem, incompetência, calculismo, medo de falhar. Claro que há heróis nesta história, mas esses são os que estão sempre lá, já lá estavam e vão lá ficar para apanhar os cacos e manter a roda no eixo. Porque quem escolhe salvar vidas não tem direito a ter medo. Nem se pode dar ao luxo de, perante o desconhecido, retardar na decisão.

Foi isso que vimos acontecer com os decisores políticos. “Erros”, “atrasos”, “contradições”, “ziguezagues”, assumiu o Presidente da República numa entrevista de vésperas da campanha eleitoral que haveria de o reconduzir no poder, mas que lhe tolheu a voz. Marcelo deixou-se, muito cedo, arrastar para porta-voz de reuniões sem nexo com especialistas que diziam menos perante os poderes sentados do que quando se sentavam nos estúdios das televisões. E a sedução do consenso impossível fica como nódoa no currículo de um Governo literalmente agarrado aos rankings de popularidade e que em momentos decisivos teve medo de decidir.

“Eu devia ter dito que não no Natal, e não disse.” A frase podia ser de António Costa, é do líder da oposição, mas na realidade tanto faz. Todos se enrolaram tempo demais num serôdio espírito de unidos pela pátria, quando o que os unia era o medo de ficarem com as costas a descoberto. A comunidade científica também tardou a reagir e o epidemiologista que há uma semana bateu com a porta, acusando o Governo de não planear, nunca nestes longos meses tinha sido tão assertivo. A ciência levou tempo a divergir, com estrondo, da política. E, na política, a ministra que por tutelar a saúde esteve no olho do furacão teve medo de ter que fazer como o antecessor, que um dia se despediu, farto de cativações.

“Eu devia ter dito que não no Natal, e não disse.” A frase podia ser de António Costa, é do líder da oposição, mas na realidade tanto faz

Em novembro, vésperas do desastre que nos havia de colocar como pior país do mundo em mortes nesta pandemia, um ex-ministro das Finanças, hoje governador do Banco de Portugal, avisou para o Terreiro do Paço: “Os apoios públicos devem ser temporários, tendo em conta que esta crise não é estrutural.” O temporário e o estrutural, eis o nosso eterno drama. Mas João Leão ouviu o professor Mário Centeno e não tardaria a anunciar que em 2020 o Estado gastou menos €2,6 mil milhões do que o previsto. Talvez isso explique que os milhares de computadores prometidos pelo primeiro-ministro no verão tenham falhado no inverno, deixando milhares de alunos fora de pista, o que levou o Governo a adiar para além do aceitável o fecho das escolas, num caldo com custos catastróficos em vidas perdidas. O medo da dívida, dos mercados e das regras orçamentais, que voltam sempre, vai esmagando os apoios a famílias e empresas, e lá ficamos para a história como o terceiro país que menos gastou na resposta à pandemia na zona euro.

Se foi pelo medo que há um ano, mal acordámos para o susto, nos fechámos em casa, é agora pelo medo que ainda ninguém nos sabe dizer como vamos sair desta. Fazer um plano com indicadores percetíveis sobre quando e como podemos pensar em desconfinar parece um tormento para os nossos decisores políticos. Num dia, o tema é tabu, no outro, há um ministro que acena com o regresso à escola. E o primeiro-ministro, que adora arejar a popularidade com ví­deos de propaganda, desvia as atenções para a ‘bazuca’ que anuncia como milagre para reformar o país de forma estrutural. Tem sorte. Os costumes, na pátria, continuam brandos. Portugal adora acreditar em milagres.

Europa quer mais direitos sociais mas países não vão a teste

Maria Caetano, in JN

Bruxelas revela plano de ação na quarta-feira. Deverá ser aprovado na Cimeira Social do Porto, em maio.

A Comissão Europeia apresenta, quarta-feira, o Plano de Ação para a implementação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais. O objetivo é ter um compromisso mais forte dos 27 estados-membros com metas de igualdade, proteção social e inclusão e assiná-lo no início de maio, numa cimeira social marcada para o Porto. Criadas em 2017, as metas permanecem de cumprimento voluntário e, este ano, os países não serão avaliados por elas.

Todos os anos, Bruxelas publica avaliações aos estados-membros, reportando o progresso em 35 indicadores do Pilar Europeu de Direitos Sociais: do acesso à educação às disparidades salariais, passando por desigualdade, pobreza, emprego, despesa em saúde, cuidados à infância, competências digitais e outros.

Mas, em 2021, não haverá esta avaliação, tal como não haverá recomendações estruturais aos estados. O atual semestre europeu prevê apenas que, até abril, os países apresentem as propostas de planos de recuperação, e que, depois, recebam a proposta de decisão sobre a aprovação destes, com Bruxelas a manter a intenção de continuar a vigiar, mais à frente, matérias orçamentais e de equilíbrio macroeconómico. Há folga para a resposta à pandemia.

Metas quantificáveis

Para o médio prazo, estão por perceber as implicações do novo plano de ação. O Governo português, com a presidência atual da UE, assegurou, na última semana, que haverá "metas ambiciosas, quantificáveis e mensuráveis", mas sem reflexo direto nos planos nacionais de recuperação, que moldarão a próxima década dos 27.

No plano português, estão em causa medidas como a garantia de habitação digna para 26 mil famílias, entrega de 100 mil cheques para mitigar a pobreza energética, reforço das qualificações digitais, aumentar a capacidade de equipamentos sociais em 28 mil lugares, apoio a 15 mil novos postos de trabalho qualificados ou a criação de redes de respostas sociais locais e combate a bolsas de pobreza das áreas metropolitanas.


Na última avaliação aos indicadores sociais portugueses, Bruxelas destacava melhorias, sobretudo nas áreas que beneficiaram com a melhoria do mercado de trabalho, como os rendimentos das famílias. Mas apontava duas falhas principais: metade da população não tem competências digitais básicas e as prestações sociais são desadequadas. Sem o efeito das pensões, reduziam só 24% da pobreza, contra uma média europeia de 34%.

24%
Em 2019, as prestações da Segurança Social (sem pensões) só reduziam 24% da pobreza do país. Em 2010, antes da última crise, eliminavam 32%.



Missão: combate à pobreza e exclusão social

Eduardo Teixeira, Economista e Deputado à Assembleia da República , in Económico

Para evitar a rutura e a pandemia social, todos os agentes são importantes e terão de ser criadas respostas locais, das autarquias e das comunidades intermunicipais, com competências e meios reforçados na área social.

Em 2019, muito antes do início da pandemia, os portugueses em geral e, em particular, os que se encontravam em situação de aposentação, continuavam a empobrecer e a agravar o fosso com outros patamares etários, tendo a taxa de pobreza entre aquele grupo atingido 17,2%, num máximo de nove anos. Só em 2010 houve uma percentagem maior de reformadas na pobreza, então de 19%.

Há aqui um contrassenso, uma vez que em 2010 governava o PS há seis anos com maioria parlamentar, e mesmo antes da intervenção externa de 2011, e nos últimos anos até atingir um novo pico em 2019, a maioria parlamentar assentava nos partidos da dita esquerda. A partir de 2019, o teto salarial pelo qual alguém é considerado pobre em Portugal passou a ser abaixo dos 6.480 euros anuais, ou seja, 540 euros mensais (antes era de 501,16 euros o valor de referência), segundo os dados disponibilizados esta semana pelo INE, na publicação dos dados provisórios do Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida.

Apesar dos dados apresentados se referirem aos rendimentos de 2019, portanto desatualizados, o que se sabe de 2020 é trágico e altamente preocupante do ponto de vista social, económico e com reflexos a outros níveis como a segurança, saúde e proteção social.

Ora, se a taxa de pobreza é de 16,2%, se a ela somarmos a da pobreza e exclusão social, 19,8%, temos mais de dois milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza, pelos rácios definidos em 2019. Mas, com a questão do nível das pensões e prestações sociais, a taxa de pobreza em Portugal fica acima de 42% da nossa população. Ou seja, os números em 2019 dispararam a intensidade da pobreza para mais de 4,2 milhões de portugueses afetados, ou seja, mais de 42% da população vive na pobreza, com menos de 540 euros mensais familiares.

Não existindo ainda dados reais sobre 2020, há pelo menos os inquéritos que se têm feito sobre a população neste ano absolutamente trágico, e o panorama social é catastrófico pois o apoio do Estado pouco tem chegado às famílias e ao setor social.

Para evitar a rutura e a pandemia social, todos os agentes são importantes e terão de ser criadas respostas locais, das autarquias e das comunidades intermunicipais, com competências e meios reforçados no apoio direto no território, na área social, com proximidade e ações imediatas. A retoma pós-pandemia será fulcral e as dezenas de milhares de milhões de euros da Europa terão de nos ajudar a reerguer Portugal e a acabar com a pobreza e exclusão social.

De outra forma, não se poderá gastar rios de dinheiro e, no fim, não se conseguir recuperar e auxiliar a nossa economia, o emprego e minorar a percentagem de pobres em Portugal. Esta é uma missão de todos e para todos e terá de ser bem aproveitada, pois não haverá outra ajuda europeia e uma oportunidade perdida.

“Comem cinco, seis pães. As pessoas chegam mesmo esfomeadas” ao pequeno-almoço de “O pão de Lázaro”

Olímpia Mairos, in RR

A resposta social criada a pensar nos sem-abrigo da cidade de Braga é atualmente procurada por outras pessoas que, face à pandemia de Covid-19, ficaram desprotegidas. A procura do pequeno-almoço disparou nos últimos tempos.

Com a pandemia e o aumento da pobreza, está a crescer o número de pessoas que recorrem ao pequeno-almoço “Pão de Lázaro”. A procura já duplicou, situando-se nesta altura nas 22 refeições por dia. A iniciativa da Associação Hospitalária de S. Lázaro surgiu de um desafio lançado pelo arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, para dar resposta ao sem abrigo da cidade, mas, atualmente, é procurada também por outras pessoas.

“Neste momento, a Associação Hospitalar de São Lázaro está a dar o pequeno-almoço ao dobro das pessoas que era habitual e está também a fazer pequenas refeições para as pessoas poderem levar para casa e comerem durante o dia. Porque, de facto, essas pessoas que vivem na rua e da rua, neste momento, são uma grande franja de pessoas que estão desprotegidas”, conta à Renascença o coordenador do voluntariado, Jorge Teixeira.

Se antes as pessoas chegavam ao espaço onde o pequeno-almoço é servido diariamente, junto à Igreja dos Terceiros, à procura de um conforto matinal, atualmente chegam “com fome”.

“Antigamente, antes deste confinamento, as pessoas comiam um pão, dois pães com leite. Neste momento, as pessoas chegam mesmo esfomeadas, comem cinco pães, seis pães, comem o que lhes apetecer”, afirma Jorge Teixeira, acrescentando que “nota-se que já não é só aquele conforto matinal que as pessoas vão buscar, neste momento, as mesmas pessoas vão lá para matar a fome”.

O pequeno-almoço solidário conta com leite simples ou com cevada, cevada, pão com manteiga, compotas, marmelada, bolos e fruta.

“E quem procura esta resposta social?”, questionamos.

“Há de tudo. Há pessoas que vivem na rua, há pessoas que vivem em casas abandonadas e têm algum tipo de abrigo, há pessoas que vivem em quartos alugados, que tem alguns rendimentos, a maior parte deles tem o Rendimento Social de Inserção, que é muito pequeno, mas dá para alugar um quarto, mas, depois, não têm como passar o resto do dia, não têm dinheiro suficiente para as refeições e vão-se socorrendo das instituições de solidariedade”, afirma Jorge Teixeira, acrescentando que também estão a ser procurados por “bastante imigrantes”, realidade que não se verificava.

O coordenador do voluntariado da Associação Hospitalária de S. Lázaro observa que tem crescido sobretudo o número de pessoas que, apesar de terem um teto, não têm trabalho fixo e “vivem um bocadinho da solidariedade, da esmola”.

“E são precisamente essas pessoas que hoje estão a passar bastante mal, porque, com tudo fechado, não há igrejas abertas, não há pessoas a circular, portanto aquela pequena quantia de dinheiro que conseguiam através da esmola, através do arrumar do carro, de pequenos recados que faziam nas ruas, neste momento, essas pessoas estão sem qualquer tipo de rendimentos e não têm como comer”, alerta.

Por iniciativa do grupo de voluntários, constituído por 25 elementos, também está a ser providenciada roupa e agasalhos.

“Foi uma iniciativa dos nossos voluntários que começaram a fazer uma recolha de roupa e cobertores, sacos-cama e as pessoas ficam muito comovidas, porque estavam com dificuldade em arranjar roupa, porque agora está tudo fechado e as instituições, também, muitas vezes, estão a funcionar com as limitações desta pandemia, e, então, as pessoas viram que era possível levar um cobertor ou o saco-cama, levar um agasalho e estamos a manter esse tipo de iniciativa”, refere Jorge Teixeira.

A Associação também entrega máscaras, porque, às vezes, “aparecem com máscaras muito sujas, muito velhas”, álcool gel e o que eles vão precisando no dia-a-dia e que nós possamos, dentro das nossas limitações, oferecer”, acrescenta o responsável pelo voluntariado.

O pequeno-almoço é assegurado com a ajuda de empresas que fornecem géneros alimentares e de alguns particulares, onde se incluem os próprios voluntários da Associação Hospitalária de S. Lázaro.

“Há imensas pessoas que passam todos os dias para deixar um pacote de bolachas ou alguma fruta, queijo. E é com essas dádivas anónimas que temos conseguido. A associação não tem fontes de rendimento e temos conseguido fazer face a este aumento da procura dos pequenos-almoços”, conta Jorge Teixeira, que aproveita para “agradecer a tantas pessoas que anonimamente têm passado na associação e têm deixado os seus géneros”, para conseguirem “responder cabalmente a esta alta procura”.

O “Pão de Lázaro” está de portas abertas de domingo a domingo, entre as 8h00 e as 9h30, para ajudar não só os sem-abrigo como também pessoas que estão a atravessar dificuldades.
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11% dos trabalhadores portugueses recebem abaixo do limiar da pobreza

Por Margarida LopesDiário Digital

Portugal é o quinto país europeu em que uma maior fatia dos trabalhadores têm rendimentos abaixo do limiar de risco de pobreza. Em concreto, 10,8% dos trabalhadores portugueses recebem menos do que 6480 euros brutos por ano, segundo dados da Pordata.

Ainda assim o valor diminuiu em relação a 2004, altura em que 12,4 dos trabalhadores portugueses recebiam rendimentos abaixo do limiar de risco de pobreza.

A média União Europeia (UE) é 9%. A Roménia é o país da europa onde os trabalhadores têm rendimentos abaixo do limiar de risco de pobreza (15,7%), seguida por Espanha (12,7%), Luxemburgo (12,1%) e Itália (11,8).

Por outro lado, a Finlândia é o país com menos trabalhadores a viver abaixo do limiar de risco de pobreza, apenas 4,4%. Segue-se a República Checa com 3,5% e a Irlanda com 4,3%. A completar o top 5 estão a Eslováquia (4,4%) e a Eslovénia (4,5%).


“Se não fosse a Cáritas, não sobrevivia”. A fome bateu à porta de Maria

Olímpia Mairos, in RR

Desde o início da pandemia, mais do que duplicaram os pedidos de ajuda na Cáritas Diocesana de Vila Real. O encerramento de estabelecimentos e o desemprego são a principal causa que leva as famílias a uma situação de carência.

A pandemia trocou as voltas a esta mãe com 42 anos, dois filhos de 10 e 19 anos. Maria, nome fictício, foi obrigada a fechar as portas do seu estabelecimento de serviços na área da beleza e cuidados pessoais e os problemas começaram a avolumar-se. Não lhe restou outra alternativa. Teve de bater à porta da Cáritas de Vila Real.

“Não estou a trabalhar, tenho o estabelecimento fechado. Tenho recebido apoio da Cáritas, que me dá alimentos, a medicação para os meninos, porque a minha filha tem uma depressão e o menino tem problemas de alergias. Não há dinheiro para pagar as faturas no fim do mês, não tenho ninguém que me ajude, a não ser a Cáritas”, diz à Renascença.

Tem as contas de água, eletricidade e internet em atraso desde março, há praticamente um ano. “É muito complicado. São momentos duros e muito difíceis, muito complicados”, desabafa, acrescentando que nem sabe "como chegar ao fim do mês".

"É todo o mês a pensar como vamos conseguir viver. Se não fosse a Cáritas, não podia sobreviver. Não tinha medicação para os meus filhos nem para mim. Comida também não”, acrescenta, revelando que houve já momentos em que passou fome.

Maria vive este drama sozinha e tudo faz para que os filhos não se apercebam da dura realidade que atinge a família. “O pequenino, por enquanto, ainda não se apercebe, porque eu tento não falar à frente dele; a mais velha às vezes vê-me a chorar, porque é muito difícil lidar com tudo isto, mas não pergunta”, conta.

O desejo seu é que os estabelecimentos comerciais voltem a abrir para poder trabalhar. E refere que no seu tinha muitos clientes.

“Quero muito que as lojas abram, mas com todas as medidas de segurança, porque esta doença não é para brincar. Mas temos de trabalhar, porque a vida vai ser cada vez pior. Se as pessoas não trabalharem, vai haver cada vez mais pessoas com fome”, lamenta.

A história de João. “Estamos todos desempregados”

José Costa tem 25 anos e um agregado familiar com cinco pessoas. Vive com a esposa, o filho de um ano e quatro meses, um irmão e uma cunhada. Estão todos desempregados. Apenas o irmão leva algum dinheiro para casa no final do mês. Trabalha à comissão em uma empresa de telecomunicações e não tem uma remuneração fixa.

“Estamos todos desempregados, tirando o meu irmão que está a trabalhar, mas trabalha para uma empresa de telecomunicações, mas como se sabe, não é nada certo, tanto pode receber 200 como 300 euros”, relata.

A família vivia e trabalhava na restauração no Algarve. Quando a situação se começou a complicar para o setor, mudaram-se Vila Real, com a promessa de trabalho garantido.

“Entretanto a coisa não correu bem. O trabalho da minha mulher começou a pagar menos. Depois mandaram-na para casa sem pagar o ordenado e ficámos numa situação bastante complicada. Eu também teria um trabalho garantido aqui, quando chegasse, e esse trabalho já não existia”, conta à Renascença.

“E pronto, comecei a trabalhar nas obras porque não havia mais nada. Mas também isso acabou. Agora estamos todos à procura de trabalho. É uma situação complicada”, desabafa.

Questionado sobre como gere a situação, José Costa hesita porque sente que, num contexto tão complicado, tem "tido muita sorte". “[Temos tido] algumas ajudas caídas do céu, porque se não fossem essas pessoas, neste momento eu estaria a passar fome”, responde.

A família chegou a “passar mesmo muito, muito mal”, diz José que, após a informação de uma pessoa que também estava a passar por dificuldades, resolveu bater à porta da Cáritas de Vila Real, para pedir ajuda e a resposta foi imediata.

“Já recebi por três vezes vales para comprar comida. Das duas primeiras vezes foram vales de 60 euros e da última de 50 euros”, conta, acrescentando que se trata de “uma ajuda gigante” para se orientarem.

Neste momento, José tem um mês de renda de casa em atraso. E, apesar de se ter “comprometido com o senhorio a pagar este mês um bocado a mais”, diz que vai ter de “falar com ele outra vez” para ver se consegue chegar “a outro acordo diferente”. Não vai conseguir pagar a renda, “porque não há rendimentos”.

A saída para esta família “é arranjar trabalho”. “Se arranjarmos trabalho, a coisa muda completamente”, afirma, adiantando que, no imediato, vai tentar o Rendimento Social de Inserção. “O RSI ajuda bastante, sim, senhora, mas não é um ordenado e muito menos quatro ordenados, porque nós somos quatro adultos. Ou seja, o RSI ajudava neste momento, porque não temos mais nada, mas o que eu quero é trabalhar”, explica, acrescentando que nunca pensou chegar a uma situação “tão difícil e tão complicada”.

“Eu nunca pensei que chegasse a esta situação, sou sincero, até porque sempre trabalhei a minha vida toda. Desde os 19 anos que estou a trabalhar e nunca estive numa situação parecida a isto. Portanto, isso para mim é completamente novo. Eu nunca estive no fundo de desemprego, nunca estive mais de um mês sem trabalho, é muito complicado”, remata.

Mónica chegou à Cáritas com ordem de despejo

Mónica Mendes tem 30 anos, quatro filhos e mais um a caminho. Proprietária de um restaurante que, embora não tenha encerrado - está a servir para fora -, viu os seus rendimentos descerem a pique. À falta de outras soluções, resolveu pedir ajuda à Cáritas de Vila Real.

“Eu vim aqui, através de uma colega minha. Ela indicou-me, porque estava a ter algumas necessidades. Eu tenho quatro crianças, são todos pequeninos, tenho uma de nove, tenho um de oito, tenho uma de seis, tenho um de três e vem outra a caminho. E, então, já estava a ter problemas com a renda da casa. Vim aqui pedir ajuda, porque já não conseguia mais, já não via caminho nenhum para onde me orientar”, descreve.

Diz que no restaurante que mantém com o marido serve “três refeições, quatro, cinco [refeições em 'take-away'], às vezes nenhuma”. “O que fazemos hoje é para comprar amanhã e para governar os pequeninos”.

“Nunca pensei vir a esta casa, mas estou muito contente com o que estão a fazer por mim. E só tenho a agradecer, muito obrigada. Já estou mais calma, andava muito nervosa, muito deprimida, a situação também me estava a causar problemas na gravidez, mas, agora, já vou mais calma”, realça Mónica.

Quando chegou à Cáritas de Vila Real tinha quatro meses de rendas em atraso, da casa e do restaurante, e uma ameaça de despejo. “O dinheiro não dava para nada. Recebi uma carta da advogada. Entretanto, foi quando vim aqui. A D. Sandra tentou falar com as pessoas e as pessoas disseram que eu tinha dez dias para resolver o problema e já está resolvido”, explica.

As rendas em atraso, quer da habitação, quer do restaurante, aproximadamente 1.700 euros, foram liquidadas com a ajuda da Cáritas e da autarquia de Vila Real, mas o processo, assinala Mónica, “foi todo tratado aqui”.

A instituição da Igreja também providenciou roupa e material escolar para as crianças e em breve vai disponibilizar produtos alimentares para a família.

“Se não fosse esta ajuda..não sei o que é que eu teria feito. Já consigo dormir, coisa que já não conseguia”, diz Mónica Mendes, não poupando nos elogios aos técnicos da Cáritas que “têm mesmo vontade de ajudar, que estão aqui para apoiar, seja para ajudar a fazer as coisas, seja para ouvir”.

Pedidos duplicam e ajuda segue o mesmo caminho

Carlos Martins, vice-presidente da Cáritas Diocesana de Vila Real, observa à Renascença que “desde o início da pandemia, ou seja, desde março passado até agora, os pedidos de ajuda mais do que duplicaram e a resposta a estes pedidos também duplicou, em consonância com os pedidos”.

À porta da Cáritas batem essencialmente as pessoas carenciadas, maioritariamente, pessoas com uma média de idades entre os 35 a 40 anos, que ficaram desempregadas e estão à procura de emprego e não têm como fazer face às necessidades do dia a dia.

“É para isso que nós cá estamos, para ajudar as famílias carenciadas. Nestes últimos tempos, as pessoas que nos procuram são maioritariamente pessoas que ficaram em situação de desemprego, é o principal flagelo deste momento - são as situações de desemprego e a perda de rendimentos provocada pela situação de desemprego”, adianta o vice-presidente da Cáritas.

Antes da crise pandémica, a instituição da Igreja acompanhava mensalmente uma média de mil agregados familiares. Neste momento, o número subiu para as 1.300 famílias.

De acordo com Carlos Martins, os pedidos de ajuda não param de chegar e são, sobretudo, “para alimentação, pagamento de rendas em atraso, depois para despesas de água, gás e eletricidade e também bastantes pedidos de apoio para a medicação”.

E aqui o vice-presidente da Cáritas de Vila Real respira fundo, antes de revelar uma grande preocupação da instituição e que se prende com crescente aumento de pedidos de ajuda para a medicação das crianças.

“Esta situação leva-nos a ficar aqui bastante apreensivos porque, quando as famílias já não têm para comprar a própria medicação dos filhos, isto tem que nos deixar preocupados e até aflitos”, afirma Carlos Martins.

Em tempo de pandemia a generosidade não tem faltado

Carlos Martins nota que as pessoas foram mais generosas nestes tempos difíceis de pandemia.

“Há, de facto, uma maior generosidade por parte das pessoas. Os nossos apoios, os nossos donativos de particulares e até de comunidades paroquiais têm aumentado. Esperemos que continuem a aumentar. Ainda recentemente, o D. António, o nosso Bispo, também destinou a renúncia quaresmal deste ano para a Cáritas Diocesana, para podermos fazer face a este aumento de pedidos de ajuda”, afirma o vice-presidente da Cáritas de Vila Real.

Acredita que as pessoas “estão predispostas a serem mais solidárias e que vão continuar a contribuir para a Cáritas, para nós podermos continuar com a nossa missão no terreno.

“Na medida do possível, a Cáritas não deixará de dar resposta às situações mais prementes”, garante este responsável, acrescentando que, “até ao momento”, tem “conseguido, felizmente, dar respostas a todas as solicitações que têm acontecido”.

“Claro que todas as situações são devidamente avaliadas”, diz Carlos Martins, realçando que “até ao momento, nós temos conseguido dar essa resposta e queremos e temos esperança que vamos continuar a fazê-lo também no futuro”.

Cáritas de Vila Real com esforço acrescido em 2020

Para poder ajudar, a Cáritas Diocesana de Vila Real tem vários programas. “Alguns protocolados com a segurança social permitem-nos também este tipo de ajudas, nomeadamente ajuda alimentar, através do programa de apoio alimentar às famílias carenciadas”, especifica Carlos Martins.

Depois, acrescenta, “temos também programas da Cáritas Portuguesa, em articulação com as Cáritas Diocesanas, como o programa prioridade às crianças ou a campanha ‘Vamos Inverter a Curva da pobreza’”.

“E nessa campanha, nesse programa, nós temos vales para atribuir às famílias carenciadas para elas poderem adquirir bens de primeira necessidade e também dentro desse programa há uma verba para pedidos pontuais urgentes. E aqui colocamos as rendas, as despesas de água e eletricidade e também a medicação.”

Em síntese, o vice-presidente da Cáritas de Vila Real indica que os apoios dobraram a nível de agregados familiares e a nível de valores monetários investidos em apoios sociais em 2020, comparativamente com 2019.

“Entre apoios com vales, apoios para rendas, água, eletricidade e medicação ultrapassamos largamente os 15 mil euros em 2020. Aqui não incluímos os cabazes alimentares”, conclui o responsável.

Semana Nacional da Cáritas com peditório online

A Cáritas Portuguesa está a apelar à solidariedade dos portugueses, no contexto da sua semana nacional, que vai decorrer entre 28 de fevereiro e 7 de março, para apoiar os seus beneficiários.

A Semana Nacional acontece todos os anos, nos dias que antecedem o Dia Cáritas, instituído pela Conferência Episcopal Portuguesa no 3.º domingo da quaresma, este ano a 7 de março.

Com o tema “Cáritas 65 Anos: O Amor que Transforma”, a iniciativa procura destacar a ação da instituição da Igreja Católica no combate à pobreza e exclusão social.

“Vivida em contexto de pandemia, a Semana Cáritas reveste-se este ano de um peso especial, num período em que a Covid-19 deixou muitas famílias em situações difíceis”, assinala a instituição.

Devido ao confinamento o peditório nacional vai ser desenvolvido online, visando a “angariação de verbas que vão reforçar a capacidade da rede Cáritas na resposta aos atendimentos sociais e no desenvolvimento e implementação de projeto sociais locais”.

De acordo com a Cáritas Portuguesa, em 2020, a rede Cáritas atribuiu apoios financeiros, diretos à população, de “cerca 1.5 milhões de euros, ao qual se somam, ainda, os apoios em produtos alimentares e bens essenciais bem como outras respostas sociais de emergência”.

“Desde abril de 2020 a fevereiro de 2021, através da implementação do programa nacional ‘Vamos Inverter a Curva da Pobreza em Portugal’, foi possível responder diretamente a cerca de 10 mil pessoas, que viram os seus rendimentos afetados pela Covid-19, um apoio que corresponde a cerca de 10 por centr de habitação, despesas de saúde e medicamentos e pagamento de despesas de eletricidade.

o do total de apoios da rede nacional”, realça a instituição da Igreja.A redução significativa de rendimentos pela perda de posto de trabalho ou por rendimentos insuficientes, seja salário ou reforma, são as principais razões que motivam o apoio da Cáritas que tem respondido com o pagamento de rendas de habitação, despesas de saúde e medicamentos e pagamento de despesas de eletricidade.