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3.5.21

De Rabo de Peixe a Odemira: as pandemias que a covid-19 revelou

Ivo Neto, opinião, Público on-line

Portugal é um país pequeno, mas muito heterogéneo. Se uma parte do dinheiro da famosa bazuca promete aligeirar os efeitos da pobreza no Porto e em Lisboa, é importante que quem decide não se esqueça daqueles que não são tão visíveis Há mais casos como Odemira e Rabo de Peixe. Não podemos deixar estas pessoas à espera que apenas um desastre como o que agora experimentamos as tornem visíveis.

Inoculação, postigo, desconfinamento, cerca sanitária, teletrabalho...Estas são apenas algumas das expressões que a covid-19 retirou daquelas páginas dos dicionários que ninguém lê e as tornou mais comuns. Passaram a fazer parte de primeiras páginas dos jornais e a abrir telejornais todos os dias.

Ou seja, a covid-19 deu-lhes visibilidade. Mas mais importante do que as palavras são as pessoas e as histórias que tornam essas palavras importantes. E se há coisa que a covid-19 tem feito é dar visibilidade a problemas crónicos do nosso país.

Quando o país confinou pela primeira vez, retirámos da cave os problemas das famílias que não têm condições para apoiar os filhos na telescola. Ou porque não têm computadores com Internet ou porque têm empregos precários que não são complacentes com os méritos do teletrabalho num contexto pandémico. Transtornos sociais que existem há muito tempo e que, infelizmente, vão perdurar.

Na quinta-feira, António Costa voltou a usar uma dessas expressões: cerca sanitária. Desta vez decretou-a para Odemira. A última vez que a medida foi aplicada em Portugal aconteceu em Rabo de Peixe. O que têm as duas localidades em comum? Pobreza e condições de vida longe do que podemos considerar serem dignas. Diagnósticos há muito conhecidos.

“[É preciso] quebrar essa sobrelotação [de pessoas a viverem no mesmo espaço] porque é um risco enorme para a saúde pública, para além de uma violação gritante dos direitos humanos”, disse Costa para justificar a cerca sanitária imposta às freguesias de São Teotónio e de Longueira/Almograve, no concelho do litoral alentejano.

Quem são essas pessoas? Sobretudo imigrantes que procuram trabalho em Portugal para fazer aquilo que nenhum português aceita fazer, muito menos nas condições que lhes são oferecidas. É um problema novo? Longe disso. Por exemplo, e numa simples pesquisa no site do PÚBLICO, encontramos um texto assinado por Armando Sevinate Pinto, em 2014: Os romenos, a “desumanidade” e o desemprego no Alentejo. No artigo, o político e engenheiro agrónomo, falecido em 2015, já falava dos “estrangeiros explorados”, dos “intermediários que os controlam “, e de “ilegalidades cometidas por algumas empresas intermediárias”.

Problemas que subsistem e que em alguns casos se tornaram mais graves, tal como retratado nas várias reportagens feitas pelo PÚBLICO esta semana.

Rabo de Peixe, separada por quase 1500 km de mar de Odemira, também tem um elefante na sala. Que todos sabem que existe, mas que ninguém resolve: a pobreza e novamente situações em que há mais de 14 pessoas a viver na mesma casa. A vila piscatória da Ribeira Grande também teve uma cerca sanitária no início do ano, fruto da multiplicação de novos casos de covid-19.

E tal como em Odemira, os problemas são mais do que conhecidos. Se o turismo mitigou algumas das limitações económicas daquela que já foi a região mais pobre da Europa, as condições de precariedade social continuam.

Muito dependente da indústria piscatória, e da sorte madrasta do mar, não se pode pescar um peixe com fibra óptica. Nem tão pouco pedir que ele chegue pela Uber Eats. Se em cada 100 pessoas em teletrabalho 48 estão em Lisboa e arredores, esta não é uma opção para a grande maioria das pessoas que vivem nesta vila.

Portugal é um país pequeno, mas muito heterogéneo. Se uma parte do dinheiro da famosa bazuca promete aligeirar os efeitos da pobreza no Porto e em Lisboa, é importante que quem decide não se esqueça daqueles que não são tão visíveis Há mais casos como Odemira e Rabo de Peixe. Não podemos deixar estas pessoas à espera que apenas um desastre como o que agora experimentamos as tornem visíveis.

22.2.21

Beja: Cáritas Diocesana dinamiza projeto «Humanamente@tivos» até dezembro, com «novas ações» para os idosos

in Agência Ecclesia 

Beja, 19 fev 2021 (Ecclesia) – A Cáritas Diocesana de Beja vai continuar a promover o projeto ‘Humanamente@tivos’ que se centra na população idosa, até dezembro, e a partir de abril vai “inovar” com “novas ações”, que resultam da avaliação “muito positiva” feita em 2020.

Em declarações à Agência ECCLESIA, Márcio Guerra adiantou que “sessões de nutrição, de alimentação saudável”, é uma das novas atividades de ‘Humanamente@tivos’ por que alguns dos idosos têm “diabetes e doença coronária” e é importante terem, pelo menos uma vez por mês, encontros com a nutricionista, através de videochamada.

Segundo o técnico superior de Animação Sociocultural da Cáritas Diocesana de Beja vão também promover atividades musicais, com artistas de Cante Alentejano e viola campaniça, e de histórias, de lengalengas, com contadores locais que vão dinamizar sessões onde os idosos podem contar a suas lengalengas.

A terceira nova ação do ‘Humanamente@tivos’, prevista a partir de abril, é um “kit pedagógico”, com “um conjunto de exercícios e vídeos”, que vão pode imprimir e vai ser “disponibilizado às famílias e aos cuidadores informais”.

“Muitos idosos não têm condições socioeconómicas para comprar um tablet e é uma forma de ficar com os exercícios e continuar após o projeto”, acrescentou Márcio Guerra.

O responsável assegura que vão manter toda a ação nos mesmos moldes, “centrada na pessoa e nos domicílios de cada um dos idosos” com o tablet e exercícios de estimulação cognitiva.

O projeto ‘Humanamente@tivos’ da Cáritas Diocesana de Beja surgiu para responder ao “problema concreto” do primeiro confinamento, em 2020, e a “grande preocupação” com os públicos mais vulneráveis que acompanhavam, nomeadamente os idosos, alguns utentes do serviço de apoio domiciliário mas que iam à instituição participar em atividades.

“Não tínhamos uma resposta que pudesse promover o envelhecimento ativo, ocupar o seu lazer, estimulá-los do ponto de vista cognitivo, motor e sensorial”, lembrou Márcio Guerra, indicando que são pessoas entre os 70 e os 85 anos de idade, “com pouca retaguarda familiar” local e alguns com demências.

Entre março e dezembro de 2020, realizaram 448 visitas domiciliárias, mais de 225 atividades, com 30 idosos, 20 utentes do serviço de apoio domiciliário, e os restantes indicados pela Câmara Município de Beja e pela Associação ‘Alememória’.

O técnico superior de Animação Sociocultural salienta que dinamizaram também atividades ligadas à memória, onde as pessoas confecionaram “receitas antigas com a terapeuta”, de costura e exercícios escritos, que “pudessem fazer na ausência da terapeuta”, onde “uma senhora aprendeu a voltar a escrever o seu nome”, para “não centrar a intervenção exclusivamente no tablet”.

Márcio Guerra destaca que a “grande inovação” foi os idosos aprenderem a utilizar estas novas tecnologias – a ligar e desligar o tablet, aceder à internet, a colocar o user e a password – e 17 ficaram “completamente autónomas”, bem como contactar com as famílias.

“Este sentimento mais humano foi importante, falar com os familiares, verem-se, acompanharem a intervenção que a Cáritas fazia e explicar, de certa forma transmitir alguma tranquilidade às famílias sobre todo o processo”, acrescentou, destacando também que “não houve nenhum caso positivo, nem foco de contágio” do novo coronavírus Covid-19.

Em 2020, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto da Segurança Social financiaram o projeto e, após a avaliação positiva, a Cáritas Diocesana de Beja “garantiu a responsabilidade do financiamento” por mais seis meses.

Segundo Márcio Guerra, já neste mês de fevereiro, foram “surpreendidos” quando a Fundação Calouste Gulbenkian “lançou o desafio” de manterem o projeto ‘Humanamente@tivos’ até dezembro, com uma comparticipação de cerca de 40%.

CB

9.2.21

Governo dá mais dinheiro ao setor social para enfrentar a pandemia

Ana Carrilho, in RR

As medidas de apoios às entidades do setor social e solidário prolongam-se até ao fim do 1º semestre. Misericórdias, IPSS’s e entidades do setor cooperativo vão receber mais 165 milhões de euros. Em contrapartida, não podem despedir trabalhadores ou reduzir-lhes o vencimento. As Brigadas de Intervenção Rápida ganham mais 150 profissionais.

O Governo aprovou a prorrogação de um conjunto de medidas de apoio ao setor social e solidário, até 30 de junho. A portaria nº28/2021 foi publicada em Diário da República, na segunda-feira.

Entre as medidas, inclui-se a que garante a manutenção da comparticipação financeira da Segurança Social, por referência a fevereiro de 2020. Abrange diversas respostas residenciais, incluindo lares, e outras cuja atividade se encontra suspensa por causa da pandemia de Covid-19 e do estado de emergência.

Mas a portaria é bem clara: essas entidades devem manter todos os seus trabalhadores assim como a totalidade das respetivas retribuições, sob pena de terem de devolver as comparticipações recebidas. E também não podem cessar contratos, ao abrigo das figuras do “despedimento coletivo” ou da “extinção do posto de trabalho”.

Segundo o comunicado do gabinete da ministra Ana Mendes Godinho, nas respostas sociais que estão suspensas e mantêm a comparticipação financeira da Segurança Social, o valor da comparticipação familiar tem de ser reduzido em pelo menos 40%, enquanto se mantiver a suspensão.

Por outro lado, as instituições podem ter uma majoração da comparticipação financeira da Segurança Social quando for necessário garantir a domiciliação dos utentes por força da suspensão das atividades nos centros de dia.

As Brigadas de Intervenção Rápida vão receber mais 150 pessoas, para reforçar o contingente de 400 profissionais que já existia. E segundo o comunicado, estas Brigadas já ativadas em 431 situações.

O Programa Adaptar Social +, para a aquisição de equipamentos de proteção individual para o combate à Covid-19, também foi reforçado e prolongado até 30 de junho.

A linha de financiamento ao setor social foi igualmente prolongada e reforçada com mais 165 milhões de euros.


8.2.21

Milhares com fome: o drama dos pais que já não conseguem dar de comer aos filhos

Adriana Castro com Sofia Cristino e Rogério Matos, in JN

O desemprego provocado pela pandemia foi machadada nos rendimentos das famílias. Milhares de refeições oferecidas a crianças em 2020. O número continua a aumentar.

Aperto. É o que sente cada coração que ouve o riso de uma criança, numa fila, à espera para receber uma refeição. "A crise afeta-nos a todos", diz-se. Mas entre "todos", agora, há cada vez mais crianças em dificuldades. A perda de rendimentos de tantas famílias, no meio do desemprego provocado pela crise pandémica, obrigou pais e mães a pegar na mão dos filhos a quem deixaram de conseguir alimentar e ir bater à porta das associações a pedir comida. Muitas famílias estavam ligadas ao setor do turismo, ao nível da restauração e das limpezas. Por todo o país, há milhares de crianças a receber apoio alimentar.

Em 2020, foram mais de oito mil as refeições entregues a crianças com menos de dez anos pelo projeto Porta Solidária, no centro social da igreja do Marquês, no Porto, onde os dias são cada vez mais dolorosos. O cenário repete-se em Lisboa, onde há cada vez mais famílias com crianças a pedir ajuda. Na capital, como noutros concelhos, as refeições servidas nas escolas ajudam a mitigar a carência dos mais pequenos.

Na igreja do Marquês, sucedem-se os casos. Num dos balcões de atendimento, atira um menino: "Tenho fome. Dá-me pão". Não tem mais de sete anos, conta Ana Paula Santos, 62 anos, voluntária desde o início da pandemia, que lhe dá de imediato um saco de pão para comer. A avó, que o acompanha, envergonha-se. "Deixe-o abrir e comer", resolve a voluntária, já com outro saco na mão para a criança levar. "São estas coisas que nos fazem sentir tristes. E muitos têm vergonha e não aparecem", lamenta, revelando que "aparecem muitas grávidas". A elas, revela, dá a refeição a dobrar.

A primeira sensação de João Dias, 21 anos, "foi de choque". "Não é fácil ver uma criança numa fila, à chuva, no meio de tanta gente", confessa o voluntário. Um dos episódios mais poderosos que viveu foi uma conversa com um pai, preocupado porque "os filhos, que andam na escola primária, não tinham leite para levar para beber no intervalo das aulas".

"Descalabro total"

Todos os dias o número aumenta. As 150 pessoas que a associação já ajudava diariamente antes da pandemia transformaram-se em 600. Mais de 50 são crianças. Além dos alimentos, entrega roupas, calçado e até enxovais para bebé. "Um casal de refugiados teve um filho em dezembro e não tinha nada para a criança. Arranjámos tudo", diz Conceição Cardoso, 60 anos.

Noutras associações, a realidade é a mesma. A Mercado dos Santos, antes da pandemia dava cabazes a 11 famílias. Hoje, são 91. "São da Maia, Matosinhos, Gondomar... E quase todas com dois ou três filhos pequenos", conta a fundadora da associação, Marisa Barroca, 45 anos. Mais de uma centena de crianças receberá ajuda do grupo.

"Desde março do ano passado os pedidos foram aumentando e o número estabilizou em setembro. Agora tem sido o descalabro total. Só ontem recebemos mais seis novas famílias", suspira Marisa Barroca, referindo os casais brasileiros que trabalhavam no turismo e na restauração, com vínculos precários, que ficaram sem nada.

A associação Hope, no Porto, já chegou a abraçar 120 famílias ao mesmo tempo. Atualmente, são 67. "Algumas precisaram da nossa ajuda e entretanto saíram, mas já vieram ter connosco novamente", conta Cláudia Abreu, 42 anos. Além da ajuda alimentar, o trabalho da associação passa também por angariar roupa e calçado.

"É uma realidade que tem vindo a aumentar. Já chegamos a ver mães, com os filhos pela mão, a irem comer às carrinhas", lamenta Cláudia. Inicialmente, os veículos serviam quase exclusivamente para ajudar os sem-abrigo.

"No início foi uma aflição [ver as crianças na fila]. Além de não querermos que os meninos ficassem doentes, imaginávamos o que era o drama de uns pais não terem o que dar de comer aos filhos. Por isso, agora, os pais vêm buscar as comidas e apresentam o cartão de cidadão dos meninos", esclarece Conceição, da Porta Solidária. Há tempos, dizia-lhe um pai: "Não me importo de ficar dois dias sem comer, mas ver a minha filha com fome é que não". E chorava, conta a voluntária.

Mais leite para crianças

Em Lisboa, a Câmara está a entregar 820 refeições diárias nos jardins de infância e escolas primárias, mais 130 do que no final de maio de 2020. A Autarquia alargou a distribuição de refeições a todos os ciclos em setembro, entregando hoje 1912 até ao 12.º ano.

O Centro Cultural e Recreativo das Crianças do Cruzeiro e Rio Seco, que entrega comida nas freguesias da Ajuda e Alcântara, começou por distribuir 130 refeições diárias em junho do ano passado, estando agora nas 150 todos os dias, principalmente a famílias. "Em vez de darmos pacotes de leite pequenos, como está no protocolo, optamos por dar um litro de leite por pessoa, pois também há mais crianças que bebem leite. Temos famílias grandes, o pai, a mãe e as crianças. Sentimos que há mais pessoas a pedir", avança a diretora, Fátima Coelho.

"Não há dúvidas de que aumentou o número de pedidos. Há mais famílias a recorrerem, portanto há mais crianças", confirmou, por sua vez, Hunter Hadler, fundador da Refood.

O Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) de Setúbal, outra região marcada pela carência, fornece atualmente alimentação três vezes por semana a 42 crianças de 20 famílias apoiadas pela instituição. E só não são mais porque não há mais alimentos angariados. Existem ainda casos de famílias que recebem cabazes de alimentos pontuais e semanais: são 59. Na CASA, também se viu o número de sem-abrigo aumentar drasticamente desde o início da pandemia. Eram 20 as pessoas nessa situação apoiadas, hoje são 80.

18.11.20

Já ouviu falar da recuperação em K? Então veja o que o 'pai' da teoria tem para lhe dizer

Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso

A recessão atual aponta para uma retoma económica bifurcada, com países e sectores a crescerem e outros em crise prolongada, diz o académico Peter Atwater em entrevista exclusiva ao Expresso

A letra que está a ensombrar esta crise provocada pela pandemia da covid-19 é o K, avisa Peter Atwater, professor de economia na Universidade William and Mary, na Virgínia, nos Estados Unidos, uma das mais antigas do país.

O K significa, desta vez, uma bifurcação clara na retoma económica, avançou o académico para distinguir o que se está a passar em relação a outros 'perfis' clássicos de crises. O típico na história das crises é que o ciclo desenhe um V - com uma recuperação rápida - ou, no caso pessimista, que a economia sofra uma recaída em recessão, prefigurando um W.

O K, de que fala Peter Atwater, distingue-se dos outros tipos de recuperação que os economistas têm classificado usando letras do alfabeto (ver Alfabeto das Retomas). No caso de um ciclo em K, uma parte da economia de cada país e alguns países à escala mundial vão registar, de facto, uma recuperação em V (rápida e uniforme) em 2020 e 2021, mas outros sectores e países vão aprofundar a recessão e poderão mesmo sofrer uma depressão por algum tempo.

“Portugal, dada a sua dependência do turismo, que globalmente está de rastos e não se sabe quando regressará à dinâmica anterior à pandemia, vai ter uma retoma muito mais lenta do que o normal”, vaticina o académico em entrevista ao Expresso.

Se recorresse à fauna selvagem, em vez do abecedário, Atwater diz para imaginarmos as duas mandíbulas de um crocodilo bem abertas, precisamente em K. O risco, ironiza, é que se fechem e não haja retoma de tipo nenhum.

PSICOLOGIA DE MASSAS

"Tudo vai depender da psicologia de massas", adianta Atwater, que desde a crise financeira de 2008 se especializou no estudo da confiança dos agentes económicos, o que o levou a criar, naquele ano, uma consultora, a Financial Insygths, depois de anos no mundo da finança, nomeadamente no JP Morgan.

Muito do que vai acontecer nas retomas vai depender se as pessoas encaram a recessão provocada pela pandemia da covid-19 como temporária ou mais permanente. Quanto mais pessoas em mais sectores económicos sentirem que a retoma económica vai ser vagarosa, com maior probabilidade ela será mesmo muito vagarosa”, acrescenta o académico.

O perfil da crise em K surgiu-lhe a partir da observação do que se passava no seu país. O académico norte-americano refere que começou a constatar, desde o início do segundo trimestre deste ano, “uma clara divergência” no comportamento social de dois grupos da população ativa dos EUA.

O LADO INVISÍVEL DO K

“Os profissionais mais bem pagos, que são capazes de trabalhar à distância, adaptaram-se rapidamente a um ambiente de covid-19 e viram as suas carteiras de investimento recuperarem nitidamente”, sublinha. Mas, em contraste, “o empregado dos serviços e o trabalhador fabril foram simplesmente despedidos ou entraram em lay-off”.

Há, por isso, um problema político e social muito grave: “A perna do K, em baixo, com o desemprego em massa, a execução das hipotecas e as falências, é largamente invisível para os que estão no braço do K, em cima”. A divergência no impacto da crise nestes dois grupos sociais passa-se, também, entre sectores dentro de um país, refere o entrevistado.

Atwater destaca que, no caso da União Europeia, a perna do K vai abranger cinco “ecossistemas” (como os designa Bruxelas) – turismo (o mais afetado, com 25% das perdas totais); construção civil; mobilidade (industria automóvel e sector dos transportes em geral, incluindo a aviação comercial); indústrias intensivas no consumo de energia (químicas, papel e celulose, refinação de petróleo e alimentação e bebidas); e retalho.

Finalmente, há uma terceira dimensão do K, geopolítica. Ela coloca a nu as divergências entre países, chama a atenção Peter Atwater. Esta crise vai acentuar a diferença entre filhos e enteados da economia mundial, diz o entrevistado.

O primeiro semestre desta crise gerada pela pandemia já revelou diferenças abissais na dimensão da recessão. Em termos homólogos, o Produto Interno Bruto da Índia afundou-se 20%, o da Zona Euro caiu 18,1% (com Portugal a quebrar um pouco mais, quase 19%) e o do Japão e do Brasil recuou 12%. O que contrasta com a queda, bem menor, nos EUA, de 8,7%. A China registou uma queda de menos de 4%, tendo sido a primeira grande economia do G20 a entrar em recuperação já no segundo trimestre.

Se analisarmos por outro ângulo, o da evolução da economia de um trimestre para outro - o que os economistas chamam de variação em cadeia -, a China é a única grande economia que nos nove meses deste ano já regista um crescimento de mais de 4% em relação ao último trimestre do ano anterior. Todas as outras grandes economias estão ainda no vermelho - a zona euro está quase 3% abaixo e o Japão quase 4%. Os EUA registam uma queda menor, de 1,7%.

As previsões do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Europeia não apontam para uma recuperação em V concluída em 2021 em nenhuma grande economia, à exceção da China.

Os casos do Brasil e da Índia, duas das maiores economias emergentes do G20, são particularmente preocupantes sobre a demora que a retoma poderá ter.

Na Zona Euro, apenas Malta deverá registar uma recuperação em V.

ALFABETO DAS RETOMAS

K -- A retoma é bifurcada. Há países e sectores que recuperam rapidamente, e outros que permanecem em contração ou estagnação. Peter Atwater avançou com esta explicação para a crise em curso gerada pela Covid-19

L -- Depois de uma forte contração da economia, a recuperação é muito demorada, podendo levar décadas ou mesmo um século (como na mais demorada retoma da economia portuguesa entre 1811 e 1923).

N -- Deriva de Nike. A crise assume o formato do símbolo da Nike, com uma recuperação rápida inicial, que depois abranda, atrasando o regresso ao nível do PIB anterior à crise

U -- A retoma é mais demorada, atrasada por um período de estagnação. Também designada por crise em formato de banheira

V -- O caso clássico otimista, que se verifica a maior parte das vezes. Depois de uma recessão curta, uma recuperação rápida

W -- O pior cenário. Depois de um período curto de retoma, a economia tem uma recaída em recessão. O caso clássico é o regresso à crise nos EUA em 1937-38 depois da retoma a seguir à Grande Depressão. No caso de Portugal, registaram-se cinco crises em W desde 1865 - a mais recente entre 2009 e 2013.

15.5.20

PIB cai 2,4% no 1.º trimestre em termos homólogos e 3,9% em cadeia, diz Instituto Nacional de Estatística

in o Observador

O PIB português caiu 2,4% no primeiro trimestre do ano face período homólogo de 2019, devido ao impacto da pandemia. Já relativamente ao último trimestre de 2019, a recessão foi de 3,9%.

“O contributo da procura externa líquida para a variação homóloga do PIB foi negativo no 1.º trimestre (-1,4 pontos percentuais), após ter sido positivo no trimestre anterior, traduzindo a diminuição mais intensa das Exportações de Bens e Serviços [-5,1%] que a observada nas Importações de Bens e Serviços [-1,8%]”, de acordo com a nota hoje divulgada pelo instituto de estatística.

Segundo o INE, o diferencial entre exportações e importações “é sobretudo consequência da contração da atividade turística na evolução das exportações de serviços”.

Já a procura interna diminuiu 1,0 pontos percentuais, algo que acontece “pela primeira vez desde o 3.º trimestre de 2013, associada à diminuição do consumo privado e do investimento”.

Quanto à quebra de 3,9% relativamente ao último trimestre de 2019 (em cadeia), o INE assinala que os números se devem à quebra da procura externa líquida, que foi de -2,0 pontos percentuais, após ter sido positiva no trimestre anterior, e da procura interna (-1,9 pontos percentuais) que foi mais negativa que no trimestre anterior (-0,7 pontos percentuais).

Comparativamente com o trimestre anterior, as exportações totais diminuíram 7,3% em termos reais (taxa de 4,1% no trimestre anterior), enquanto a variação em cadeia das importações totais foi -2,9% em volume no 1º trimestre (taxa de 0,7% no 4º trimestre)”, assinala o INE.

O instituto recorda que “com a passagem a uma fase de pandemia, foram tomadas em Portugal diversas medidas de contenção à propagação da Covid-19, tendo sido anunciado o encerramento das escolas e universidades no dia 11 de março (com efeitos a partir do dia 16 de março) e decretado o estado de emergência no dia 18 de março, que ditou o encerramento temporário de várias atividades económicas e restrições à livre circulação de pessoas”, lembra o INE.
No entanto, o instituto de estatística nota que “ainda antes desta medida existiam já perturbações no funcionamento normal de algumas atividades e na procura dirigida aos seus produtos, nomeadamente na restauração e hotelaria, afetando a atividade económica desde praticamente o início do mês”.

A estimativa hoje divulgada “incorpora revisões na informação de base utilizada nas estimativas trimestrais anteriores, nomeadamente no que se refere ao comércio internacional de bens e aos indicadores de curto prazo, que não implicaram revisões nas taxas de variação homóloga e em cadeia do PIB em volume”.

O INE divulga os números definitivos do PIB do primeiro trimestre dia 29 de maio, e alerta que “é possível que ocorram revisões de magnitude superior ao habitual em divulgações futuras atendendo a perturbações no processo de obtenção dos dados”, devido à pandemia de Covid-19.

Também atendendo ao contexto pandémico, segundo o INE “foram utilizadas novas fontes de informação complementar”, como “a informação no âmbito do sistema eletrónico de emissão de faturas e comunicação à Autoridade Tributária (e-fatura)” e ainda “operações na rede multibanco”.

O “Grande Confinamento” levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a fazer previsões sem precedentes nos seus quase 75 anos: a economia mundial poderá cair 3% em 2020, arrastada por uma contração de 5,9% nos Estados Unidos, de 7,5% na zona euro e de 5,2% no Japão.

Para Portugal, o FMI prevê uma recessão de 8% e uma taxa de desemprego de 13,9% em 2020.

Já a Comissão Europeia estima que a economia da zona euro conheça este ano uma contração recorde de 7,7% do PIB, como resultado da pandemia da Covid-19, recuperando apenas parcialmente em 2021, com um crescimento de 6,3%.
Para Portugal, Bruxelas estima uma contração da economia de 6,8%, menos grave do que a média europeia, mas projeta uma retoma em 2021 de 5,8% do PIB, abaixo da média da UE (6,1%) e da zona euro (6,3%).

5.5.20

Apoios do Estado já chegam a mais de sete milhões de portugueses

Erika Nunes, in JN

A covid-19 veio exigir do Estado apoios sociais que se somaram a quase 5,6 milhões de prestações, em fevereiro, para ultrapassar os 7,1 milhões no mês seguinte.

Subitamente, pelo menos dois terços da população portuguesa passou a contar com o Estado para ter algum sustento durante a pandemia. São valores "assustadores", que não são sustentáveis por muito tempo, mas também não podem cessar de repente, alerta o economista José Reis, sob pena de "não terem servido de tampão à miséria que se segue, se as famílias não recuperarem rendimento entretanto".

Mês negro

O primeiro trimestre de cada ano nunca é o mais forte da economia: após a azáfama das compras de Natal, que levam o comércio a reforçar contratações sazonais, e o aumento do turismo, pelo menos no réveillon, que animam hotéis e restaurantes durante a época baixa, janeiro começa, geralmente, com insolvências, aumento de desemprego e mais pedidos de apoios ao Estado. Fevereiro foi ainda reflexo disso, com o processamento de quase 178 mil prestações de desemprego e 1629 trabalhadores em lay-off.

Aos mais de dois milhões de pensionistas do Estado (outros 479 mil da Caixa Geral de Aposentações), somaram-se centenas de milhares de prestações pagas pela Segurança Social a doentes, pais, viúvos, inválidos e a uma série de cidadãos abaixo do limiar da pobreza. Ainda que, em poucos casos, alguns destes apoios possam ter sido pagos cumulativamente ao mesmo beneficiário, somavam-se perto de 5,6 milhões de prestações.

Financiar a crise

"Chegámos a março e ficámos com valores de prestações completamente inusitados, quase tão assustadores como o coronavírus", analisa José Reis, economista e professor catedrático da Universidade de Coimbra.

"Tudo o que estava protegido pelo trabalho ficou desprotegido. E o único instrumento que temos, hoje, é o Estado. Não são as empresas, nem o capital, nem a banca, nem os "offshores". E isso foi a grande novidade: andámos anos a tecer loas ao capitalismo e, afinal, quem não falhou foi o Estado", acrescentou o coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais.

De facto, em março, as ajudas do Estado dispararam. De repente, mais de sete milhões de portugueses passaram a receber algum tipo de prestação da Segurança Social.

"Trata-se de valores que nunca imaginámos, nem entravam nos cálculos", recorda o economista. "Vai ter de ser o Orçamento do Estado a transferir verbas para a Segurança Social. E vamos ter de encontrar outra forma de financiar o Estado", explica.

Miséria ou "offshores"

Noutras crises, noutros séculos, "podíamos emitir moeda para financiar o Estado, como fez agora o Banco de Inglaterra". Dentro da Zona Euro, a nossa "melhor opção é que o Banco Central Europeu emita dívida, de preferência perpétua, em que nos limitamos a pagar os juros anualmente".

Há, ainda, outra opção sugerida pelo economista: "Em estado de emergência, foi limitada a circulação de pessoas e até de mercadorias, mas não a de capitais. O Governo pode (e deve) ordenar às empresas portuguesas que repatriem o dinheiro que mandaram para "offshores". São centenas de milhares de milhões de euros que nos escapam", lembra José Reis. Até porque os apoios criados para as famílias nesta fase "não devem ser retirados antes de as pessoas terem a vida a funcionar, caso contrário não serviram para nada, a não ser adiar a miséria".

Apoios

Apoio a pais
171 mil e 323 beneficiários receberam apoio à família excecional pago aos pais de crianças cujas escolas ou creches encerraram a partir de 16 de março.

Lay-off
1,2 milhões de trabalhadores estão abrangidos pelo lay-off simplificado criado para empresas com mais de 40% de quebra de faturação.​​​​​​​​​​​​​​

Baixa a 100%
Os trabalhadores em isolamento profilático decretado pelo delegado de Saúde receberam desde o primeiro dia e a 100%. Mais de 40 mil.

Sem atividade
Os trabalhadores independentes com quebra total de atividade tiveram direito a um apoio de 438,81 a 605€ e já 180 mil pediram ajuda.

Eles só querem comer, o resto é paisagem

Adriano Miranda, in Público on-line

A Florinhas do Vouga, que faz agora 80 anos, é uma das instituições que garantem alimentação, tratamento e o conforto possível à comunidade de sem-abrigo de Aveiro. São cerca de 50 pessoas que, mesmo em tempo de pandemia, continuam, sobretudo, preocupadas em garantir pelo menos uma refeição diária.

4.5.20

“As pessoas alteram os hábitos, mas com a expectativa de regressar à normalidade”

Liliana Borges, in Público online

O mundo mudou. Andar de máscara nas ruas tornou-se uma regra a cada dia que passa. Mas depois do coronavírus, quais as mudanças que se irão manter? Haverá mudanças estruturais, sim. Mas no horizonte as pessoas esperam pelo regresso da realidade pré-pandemia.

Por todo o mundo, os esforços para conter a propagação do vírus alteraram drasticamente as rotinas. Agora, aos poucos, os portugueses vão conhecendo o plano de desconfinamento para a lenta reabertura da economia, mas as novas dinâmicas sociais parecem estar para durar. Nas ruas, o uso de máscaras é cada vez mais frequente. E enquanto os especialistas avisam que as consequências da crise pandémica irão durar décadas, surgem dúvidas sobre até onde é que os hábitos se irão alterar. É isso que os investigadores do Observatório de Comunicação (OberCom) procuram perceber, num relatório que reúne as primeiras conclusões sobre os efeitos da pandemia no sistema mediático português e global.

“Tentámos compreender como é que em momentos históricos, nos quais se abalam as sociedades, há sempre uma parcela de coisas que se mantém”, explica Gustavo Cardoso, um dos coordenadores e investigadores que assina o relatório. Nos últimos meses, os sectores têm-se desdobrado em esforços para se adaptar às mudanças trazidas pelo confinamento social. Mas ainda que alguns hábitos de consumo tenham mudado, o investigador sublinha que as transformações acontecem na “expectativa de regressar à normalidade” pré-pandemia. “Haverá mudanças, mas não advêm de estarmos a ter uma rotina diferente. Virão de estarmos a viver experiências diferentes”, explica.

“A pandemia moldará a natureza do nosso futuro digital a longo prazo”, e isso é ao mesmo tempo “um desafio e uma oportunidade para reconstruir a sociedade digital”. Com a adopção do teletrabalho, do ensino à distância ou na dinâmica das relações com amigos e familiares, a tecnologia assumiu-se como o elo que sustenta estas transformações.

Hoje, há entrevistas e programas inteiramente gravados a partir de casa, os tradicionais estúdios deram lugar às estantes. O exemplo de resiliência, aponta o relatório, vai para a rádio, que depois de sobreviver à morte anunciada e eternizada pelos Buggles, continua a prestar um serviço público “excepcional”, por chegar a uma população mais vulnerável e envelhecida.

A par da reinvenção, crescem também as preocupações com a invasão de privacidade e de dados. Num ritmo de mutação acelerada é fácil cometer erros. “Se, por um lado, tentarmos salvar o que existe, por outro lado, não temos a garantia de que se não experimentarmos nada de novo agora consigamos sobreviver ao que vem depois”, contextualiza Gustavo Cardoso. Uma espécie de “desfrutemos da guerra, porque a paz será terrível”, sustenta o sociólogo.

No entanto, o grupo de investigadores avisa que desta vez os consumidores não estarão tão predispostos a perdoar os erros, como na crise de 2008. “Desta vez as pessoas não vão dar abébia à desinformação ou falta de escrutínio”, explica Gustavo Cardoso. “É uma crise que envolve morte. Se a comunicação social falhar nisso, o preço será muito mais alto”, alerta.

No caso dos jornais e revistas, a diminuição do hábito de ir à rua ditará, a longo prazo, uma alteração de rotinas quanto ao formato tradicional no papel. É expectável que “o número de tiragens de jornais passe a ser ajustado e diminuído, possivelmente numa escala sem precedentes”, antecipam. E também aqui a publicidade deverá saber reconverter-se à nova realidade.

“É preciso admitir que o WhatsApp funciona como funcionavam os cafés, no seu papel de distribuição de informação”, nota. Ou seja, a publicidade deverá assumir que as visualizações não são apenas de quem pagou o PDF. “Há muito mais pessoas a ler do que aquelas que pagaram” e isso exige uma adaptação por parte do mercado da publicidade. O sociólogo acredita que o hábito persistirá e que integrar estas leituras nas contabilizações – fazendo perguntas a quem lê e como lê – será muito importante. Até porque “para a publicidade, o que conta é o número de pessoas a quem chega o produto”.

Os investigadores acreditam também que “não interessará apenas canalizar o investimento publicitário, de uma forma geral, para os média menos afectados, como é o caso da televisão, mas também perceber, a partir das mudanças nos hábitos do consumidor e nas cadeias de distribuição mais afectadas”.

Além desta adaptação ao mercado da publicidade, é necessário tratar a informação como um bem essencial. E se há ainda outros caminhos de viabilidade económica que podem ser explorados, está será também uma oportunidade de criar medidas concretas de apoio, não só a nível nacional como europeu, através da via fiscal, da flexibilização dos custos de segurança social dos profissionais e da majoração do porte pago, exemplificam. Além dos trabalhadores freelancers, “também a imprensa regional deverá ter um acompanhamento prolongado e específico”.

Entre os desafios que chegarão no pós-crise pandémica estarão a capacidade de restituir os níveis de privacidade online que estão a ser capturados pelos efeitos colaterais da mitigação do vírus, através de apps utilizadas pelas instituições governamentais para levantamento de informações privadas sobre os cidadãos. A crise pandémica “vinca ainda mais a urgência de quadros regulatórios ágeis e actualizados que permitam promover uma arena digital diversa e igual” dizem os investigadores.




28.4.20

É assim que a pandemia está a afetar o mundo do trabalho, setor a setor

Isabel Patrício, in Ecoonline

Do turismo à indústria automóvel, passando pela agricultura e pela educação. Como está a pandemia de coronavírus a afetar o mercado de trabalho? A OIT traça o retrato.
A pandemia de coronavírus está a ter um “efeito devastador” na vida das empresas e dos trabalhadores em todo o mundo, considera a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Numa série de relatórios setoriais, a entidade liderada por Guy Ryder sublinha que já estão a ser registadas “quebras massivas” tanto do lado da produção como no que diz respeito aos empregos, em todas as áreas de atividade.

De acordo os dados que já tinham sido adiantados pela OIT, mais de quatro em cada cinco trabalhadores em todo o mundo já estão a ser afetados pelas medidas colocadas em prática pelos governos face ao surto de Covid-19, estando cerca de 25 milhões de empregos em risco de serem eliminados. “As empresas de todos os setores económicos estão a enfrentar perdas catastróficas, o que ameaça a suas operações e solvência, especialmente entre as companhias mais pequenas”, explicava a organização, num relatório recente.

Por cá, a crise pandémica também colocou um travão à melhoria do mercado de trabalho, tendo feito o desemprego disparar e milhares de empresas recorrer ao lay-off. Até ao momento, mais de 85 mil empregadores já aderiram a este regime, que o Governo garante estar a mitigar a evolução do desemprego.

Esta terça-feira, o OIT deu, além disso, um passo em frente na sua análise a avançou com uma série de retratos que ajudam a dar resposta à seguinte questão: Afinal, como é que a pandemia de coronavírus está a afetar cada um dos setores de atividade?

Turismo
A pandemia de coronavírus obrigou os governos de todo o mundo a colocarem em prática restrições às viagens, levou ao cancelamento de muitos voos e resultou no encerramento de muitas empresas dedicadas ao turismo. O impacto neste setor foi, por isso, sentido de imediato e de modo expressivo, com um recuo significativo na procura e oferta.

“Depois da propagação do vírus na região da Ásia e Pacífico, a Covid-19 espalhou-se rapidamente por todas as partes do mundo. Em março de 2020, o turismo internacional essencialmente parou“, explica a OIT, que nota que este setor é, ainda assim, conhecido pela sua resiliência, podendo estar no horizonte uma recuperação rápida.

A organização cita, por outro lado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que estima que a pandemia e as medidas que foram tomadas em resposta poderão vir a causar uma contração entre 45% e 70% do setor em causa. No mesmo sentido, a Comissão Europeia já reconheceu que os setores do turismo e do transporte aéreo são dos mais afetados por esta crise pandémica.

No Velho Continente, estima-se que o setor turístico esteja a perder, todos os meses, mil milhões de euros em receitas em resultado deste surto. Isto explica-se, em parte, pelo recuo significativo das visitas de turistas da China, Japão, Coreia e Estados Unidos, mas também pelas perturbações nas ligações “domésticas” entre os vários países europeus.

No que diz respeito ao mercado de trabalho, este setor é caracterizado por ter “milhões de trabalhadores mal pagos e com baixas competências”, afirma a OIT. Em muitos países, esses trabalhadores enfrentam agora situações complicadas, com reduções drásticas dos horários de trabalho, cortes salariais e com o desemprego a assombrar o seu dia-a-dia. Em França, por exemplo, a pandemia levou ao fecho de 75 mil restaurantes, 3.000 clubes e 40.000 cafés, afetando um milhão de trabalhadores, que foram colocados num regime semelhante ao lay-off.

Em Portugal, o setor do alojamento, restauração e similares — muito ligado ao turismo — já concentra grande parte (cerca de 25%) dos mais de 85 mil pedidos de lay-off apresentados até agora à Segurança Social. É esse, de resto, o setor com mais requerimentos contabilizados, o que deixa perceber que o turismo é uma das áreas de atividade mais afetadas em Portugal por este surto.

Outro dado relevante nesta análise ao mercado português é o salto homólogo de mais de 41% do número de desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) registado em março no Algarve, região caracterizada pela forte aposta no setor turístico.

Transporte aéreo civil
Face às severas restrições aos voos e à expectável recessão global que se avizinha, a IATA estima que a indústria em causa perca 252 mil milhões de dólares este ano, quase 232 mil milhões de euros. E para fazer face aos efeitos da pandemia, muitas transportadoras estão mesmo a estudar estratégias de redução de custos, que podem passar pela redução dos empregos. E injeções de capital por parte dos Estados.

“O impacto da pandemia no emprego [no setor do transporte aéreo] foi imediato e significativo”, sublinha a OIT. Entre os efeitos verificados estão: a redução dos horários de trabalho; cortes salariais com acordo entre as partes ou decididos de modo unilateral pelo empregador; congelamento de contratações; recurso ao lay-off e despedimentos.

Na portuguesa TAP, a situação não foi diferente. Com praticamente toda a frota no chão (95%), a companhia aérea decidiu colocar 90% dos dez mil colaboradores em casa. Para já o lay-off foi adotado por 30 dias, mas a lei permite renovar até aos 90. A evolução da pandemia e a possível eliminação das restrições de voo vão ser determinantes para a empresa voltar a operar. Mas para já a TAP já formalizou um pedido de ajuda ao Executivo, tal como as suas congéneres, sendo que são várias as hipóteses em cima da mesa: desde financiamento com garantia do Estado a empréstimo convertível em ações, sem excluir a nacionalização.

A OIT sublinha ainda que os trabalhadores das companhias aéreas ficaram expostos a agressividade por parte dos passageiros, cujos voos foram atrasados ou mesmo cancelados; a incerteza quanto à sua segurança pessoal, sendo a limpeza dos aviões crucial para a propagação do vírus; ao stress adicional.

Agricultura
No setor agrícola, o surto de Covid-19 ainda não teve efeitos significativos, mas os desafios logísticos colocados às cadeias de distribuição e os problemas laborais que se têm verificado podem levar a “disrupções no abastecimento de alimentos”, alerta a OIT.

Por exemplo, na Europa, este setor está a registar “faltas dramáticas de mão-de-obra” face ao encerramento das fronteiras entre os Estados-membros, que tem impedido as deslocações sazonais que levavam, habitualmente, milhares de trabalhadores às quintas e plantações, durante o período de colheita. França, Alemanha, Itália, Espanha e Polónia estão particularmente expostos a este problema.

Em Portugal, a falta de mão-de-obra apontada pela OIT também já se faz sentir, tendo o Governo anunciado que irá, por isso, isentar de IRS os estudantes que queiram trabalhar neste setor, durante este período de pandemia. No plano de emergência para a agricultura, o Executivo prevê também que os trabalhadores em lay-off possam trabalhar nesse setor e ainda que os títulos de residência dos trabalhadores imigrantes empregados na agricultura se mantenham válidos, mesmo que expirem durante este período.

A OIT sublinha, por outro lado, que com o recuo das exportações, os rendimentos de milhares de agricultores podem estar em risco. A corrida aos supermercados, por outro lado, pode resultar no aumento dos preços e na desestabilização do mercado internacional, o que pode ser prejudicial sobretudo para os países onde os trabalhadores têm menos rendimento disponível, destaca a mesma organização.

Educação
Em 192 países de todo o mundo, foi decretado o encerramento das escolas, suspendendo-se assim as atividades letivas de 1,58 mil milhões de alunos. Esta medida já está a ter impacto na vida de mais de 63 milhões de professores de todos os níveis de ensino, tal como em outros tantos milhões de funcionários desses estabelecimentos.

A nota mais positiva vai para o facto de que a maioria das escolas decidiu manter os salários dos professores (dos quadros) por inteiro à medida que se faz o ajustamento do ensino para um modelo à distância, frisa a OIT. No entanto, muitos são os docentes em todo o mundo com contratos a prazo, que agora estão sob ameaça. No ensino superior, também os professores contratados e os demais funcionários estão a enfrentar despedimentos face ao encerramento dos estabelecimentos decorrente da pandemia de coronavírus.

Nos Estados Unidos, por exemplo, em alguns estados, os professores substitutos não estão a receber os seus salários face ao encerramento das escolas. E no Reino Unido, os contratos desses professores substitutos foram cessados, fechando-se também a porta aos salários.

Saúde
No setor da saúde, a rápida propagação do novo coronavírus tornou claro que é urgente que os sistemas nacionais de saúde disponham de equipas fortes, sublinha a OIT. “Os trabalhadores da saúde são a espinha dorsal do sistema de saúde”, defende a organização.

Há três grandes desafios colocados a estes trabalhadores, identifica a OIT.

Primeiro, o risco elevado de infeção. No início de abril, em 52 países, o número de casos de trabalhadores da saúde contaminados já ultrapassava os 22 mil. Aliás, lembra a OIT, a infeção destes trabalhadores é “comum deste a emergência desta doença”, devendo a sua segurança ser uma prioridade dos governos.

Em Portugal, particularmente, esta também sido uma das matérias mais enfatizadas pelos representantes dos profissionais. Ainda há uma semana, a Ordem dos Médicos denunciou que 20% dos infetados com Covid-19 são médicos, tendo alertado que a falta de equipamentos de proteção individual está a ser o “calcanhar de Aquiles” do combate ao novo coronavírus.

O segundo desafio identificado pela OIT diz respeito à saúde mental destes profissionais, que receiam contrair a doença ou transmiti-la às suas famílias e amigos. Além disso, a ansiedade está a impactar estes trabalhadores.

O terceiro grande desafio é a carga de trabalho. Muitas horas de trabalho e poucas pausas. É este o retrato do trabalho na saúde face à propagação do novo coronavírus por todo o mundo.

Têxtil e calçado
O confinamento social, o encerramento das lojas e a redução de rendimentos levaram o consumo dos produtos da indústria têxtil e do calçado a cair. As quebras na produção e nas vendas impactam, consequentemente, a vida dos trabalhadores deste setor, um pouco por todo o mundo.

No Bangladesh, por exemplo, o cancelamento de encomendas levou a perdas de receitas na ordem dos três mil milhões de dólares, cerca de 2,7 mil milhões de euros. Tal está a afetar quase 2,17 milhões de trabalhadores. Estima-se que, nesse país, menos de 20% das empresas do setor têxtil tenham capacidade para continuar a pagar os salários por mais de 30 dias, se as circunstâncias atuais se mantiverem.

Em Portugal, no setor do calçado, a pandemia de coronavírus deverá levar cerca de 39% das empresas a avançar para lay-off, até ao final do mês, adiantou ao ECO a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçados, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos. Os empresários esperam que a retoma da atividade aconteça em maio, mas esse regresso está fortemente dependente de dois fatores: a procura externa e as cadeias de abastecimento.

E no final de março, a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) já tinha projetado que, em abril, 59% das empresas do setor espera ter uma redução superior a 50% no seu volume de negócios; 26% das empresas previa uma redução entre 30% a 50%,

Indústria automóvel
A indústria automóvel também está a ser afetada de modo significativo pela paragem abrupta e generalizada das economias por causa da pandemia de coronavírus. Com milhões de trabalhadores em casa, cadeias de abastecimentos prejudicadas e fábricas fechadas, as empresas deste setor estão a sentir o peso do surto de Covid-19, alerta a OIT.

Depois de terem enfrentado a crise financeira de 2008, os trabalhadores de todas as etapas das cadeias de produção e distribuição automóvel estão, mais uma vez, a enfrentar tempos de grande incerteza. Os primeiros efeitos da pandemia neste setor sentiram-se na Ásia, mas entretanto já se propagaram para os demais mercados, com uma queda acentuada da procura e do investimento. A desafiar esta indústria estão também a paragem da atividade económica, o confinamento dos trabalhadores e até as falhas nas cadeias de abastecimento.

Só na Europa, estima-se que 42% dos empregos da produção automóvel estejam já a ser afetados pelo surto de Covid-19. O cenário é ainda mais negro se considerarmos também todos os trabalhadores envolvidos nas cadeias de abastecimento (13,8 milhões) desta indústria, que estão a ser igualmente prejudicados por esta pandemia. Além disso, sem receitas adicionais, muitas empresas automóveis europeias “vão ter problemas significativos de liquidez” a curto – médio prazo, avisa a OIT.

Também nos Estados Unidos, cerca de 150 mil trabalhadores sindicalizados e milhares de outros não filiados a qualquer sindicato estão a ser afetados pela crise pandémica atual.

Por cá, a exemplificar os efeitos da pandemia neste setor está a PSA de Mangualde, que fechou as portas dos seus centros de produção face não só à propagação do vírus, mas também às falhas nas cadeias de abastecimento. Também a Autoeuropa suspendeu a sua produção no final de março, mantendo os serviços mínimos. Entretanto, a fabricante automóvel já anunciou que irá retomar a atividade a 20 de abril, recorrendo ao lay-off para alguns trabalhadores, uma vez que serão menos os turnos em curso. Ainda assim, deverá a empresa continuar a pagar salários a 100%.

A OIT nota, além disso, que o impacto desta pandemia vem somar-se aos efeitos disruptores que a transformação tecnológica e as alterações climáticas já estavam a ter nesta indústria e nos seus trabalhadores.

Retalho alimentar
O aumento considerável da procura no setor do retalho alimentar está a traduzir-se no crescimento de empregos disponíveis e, em alguns países, num reforço dos salários oferecidos. Isto ao mesmo tempo que se têm multiplicado os conflitos laborais, com os trabalhadores a exigirem mais proteção social, segurança e respeito pelos horários de trabalho.

No que diz respeito ao crescimento do emprego, a OIT adianta que no Reino Unido, por exemplo, cadeias como a Asda estão a contratar mais de 12 mil trabalhadores temporários e quatro mil trabalhadores permanentes. Nos Estados Unidos, a conhecida Walmart planeia, por sua vez, recrutar 150 mil novos trabalhadores.

No mesmo sentido, em Portugal, os supermercados DIA, por exemplo, lançaram uma campanha de recrutamento para reforçar temporariamente a suas lojas e centros de distribuição, depois do Lidl ter abertos vagas para 500 novos trabalhadores. Além disso, algumas cadeias — como o Continente, o Auchan e o Lidl — criaram prémios para os trabalhadores de 20% do salário, no caso das duas primeiras, e 40% do salário, no caso da terceira.

Além disso, com a corrida aos supermercados e um reforço das compras online, foram ajustados os horários de trabalho para dar resposta à maior procura e garantir que as prateleiras dos estabelecimentos estão bem abastecidas. A OIT nota, por outro lado, que esses novos horários têm sido particularmente desafiantes para os trabalhadores cujos filhos estão em casa face ao encerramento das escolas.

Setor marítimo e pescas
O setor do transporte marítimo é responsável, todos os anos, por cerca de 90% do comércio internacional, representando a maior artéria dessas trocas. A pandemia de coronavírus já está, contudo, a pressionar esse setor: até meados de abril, o volume transportado tinha recuado 13% e estima-se que essa queda possa vir mesmo a tocar nos 32%. O impacto no emprego “é portanto substancial”, sublinha a OIT.

Já no que diz respeito à pesca, face ao surto de Covid-19, muitos barcos estão impossibilitados de saírem dos porcos e a procura por peixe diminuiu, o que tem pesado sobre as dezenas de milhões de pescadores de todo o mundo.

24.4.20

Mais uma comunidade cigana infectada por Covid-19 em Moura

Carlos Dias, in Público on-line

O vírus tem-se propagado entre famílias ciganas e já afectou 39 dos seus membros e uma pessoa fora da comunidade.

Após a Autoridade de Saúde Pública ter realizado testes à Covid-19 a toda a comunidade cigana no lugar do Margaçal no concelho de Moura, confirmou-se que dos 13 elementos que a compõem 6 estão positivos, 3 inconclusivos e 4 negativos.

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O alerta para os riscos de contágio nesta comunidade ocorreu na passada segunda-feira, dia 20 de Abril, após a realização de um teste a uma mulher de 51 anos, residente no sítio do Margaçal, localizado na EN 255, estrada que liga Moura a Pias, que apresentava sintomas indiciadores e que deu positivo.

O Serviço Municipal de Protecção Civil, em articulação com a Autoridade de Saúde Pública, Centro de Saúde de Moura e ARS do Alentejo, colocaram em vigilância activa a comunidade, que foi sujeita a testes. A doente foi entretanto encaminhada para o Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja, “devido ao agravamento da sintomatologia”, referiu a Câmara de Moura.

É a segunda comunidade cigana do concelho de Moura a registar casos positivos por Covid-19. Veio juntar-se à comunidade do Espadanal, que tem infectados (números até agora conhecidos) 33 dos 59 elementos que a compõem.

As duas comunidades permanecem confinadas e o Serviço de Acção Social da Câmara Municipal de Moura assegura o apoio necessário, nomeadamente no acesso aos bens de primeira necessidade e medicamentos.

A autarquia realça a “atitude cooperante” dos seus membros, mostrando uma “atitude receptiva, participativa e acima de tudo preocupada com a sua saúde e com a saúde de toda a população do concelho”, colaborando, por isso, “em tudo” o que lhes tem sido solicitado pelas autoridades no terreno.

O receio da propagação do contágio a mais famílias das comunidades ciganas em Moura alertou o município e a Autoridade de Saúde Pública para a necessidade de tornar os testes à Covid-19 extensíveis às famílias residentes no lugar de Vale do Touro. Esta decisão deve-se ao facto desta última comunidade ter estado em contacto directo com uma mulher, residente no concelho de Portel, que testou positivo ao novo Coronavírus SARS-CoV-2.

Os testes foram programados para o dia 18 de Abril e neste dia envolvia crianças e jovens e no dia seguinte seriam testados os adultos. Contudo, o médico da Autoridade de Saúde do concelho de Moura, Eugeniu Besarab, lamentou, em nota enviada ao PÚBLICO, não ter sido “possível concretizar esta decisão por motivos de todo alheios à nossa intenção” que não especificou. A realização deste processo de despistagem da Covid-19 “a uma população definida e por nós avaliada como de alto risco, para si e para outros, foi única e exclusivamente da Autoridade de Saúde, sendo esta soberana no que diz respeito à situação de saúde pública”, vincou o clínico sem adiantar mais pormenores.