in Dinheiro Vivo
Os números do desemprego nos dois lados do Atlântico vão dominar esta semana a atenção dos investidores, com os especialistas a anteciparem uma ligeira degradação dos indicadores que serão revelados, sem esquecer as inúmeras empresas que vão apresentar resultados.
"Em outubro, a economia [norte-americana] deve ter gerado 121 mil empregos excluindo o setor primário, apesar de ser esperado um aumento de 10 pontos base da taxa de desemprego para os 7,9%. No dia anterior, o instituo ADP deverá apontar para a criação de 137,5 mil postos de trabalho", avançou à agência Lusa Telma Santos, analista do Millennium investment banking.
Já na Europa, a especialista antecipou que "a taxa de desemprego da zona euro deve ter ficado inalterada em setembro nos 11,4% e a alemã deve ter subido de 6,8% para 6,9% em outubro".
Em destaque estão também os indicadores qualitativos da Indústria relativos a outubro: "Nos EUA, o ISM Indústria deverá regredir ligeiramente, mantendo-se em terreno indicativo de expansão. O PMI Indústria britânico deverá registar um movimento semelhante, ainda que esteja a apontar para contração económica. Na zona euro e na Alemanha não são esperadas revisões face aos valores preliminares já avançados", estimou Telma Santos.
Na Europa será ainda conhecida a estimativa da inflação da zona euro (dia 31), que deverá situar-se nos 2,5% em outubro em termos homólogos, assim como o valor preliminar da Inflação Harmonizada alemã, com o consenso a apontar para os 2% (em termos homólogos).
Nos EUA, a responsável chama a atenção para "a subida esperada de 0,4% do Rendimento Pessoal e de 0,6% da Despesa Pessoal, ambos os indicadores relativos a setembro. O indicador de atividade empresarial Chicago PMI deverá progredir em outubro, passando a indicar expansão económica".
Em Portugal, a Galp divulga resultados na segunda-feira antes da abertura do mercado. Na terça-feira, terça depois do fecho, será a vez da Novabase, Semapa e Sonaecom e na quarta-feira, também após o fecho, será a vez da Brisa e da Impresa.
No resto da Europa há mais uma série de empresas de grande dimensão que apresentarão os seus resultados, entre as quais a Deutsche Boerse, o Deutsche Bank, o BBVA, a Alcatel, a Lufthansa, a Bayer, a France Telecom, a Ferrovial, a Fiat, a Eni, a Total e a ArcelorMittal.
Em Wall Street os números trimestrais da Office Depot, Ford, Pfizer, Metlife, Time Warner, Mastercard, Starbucks, Chevron, Kellogg e Sara Lee estarão em foco.
... e na zona euro desemprego deve ter ficado inalterado em setembro nos 11,4% e a alemã deve ter subido de 6,8% para 6,9% em outubro
29.10.12
Cresce corrida dos desempregados ao carimbo
Por:Catarina Gomes Sousa, in Correio da Manhã
Chama-se ‘procura activa de emprego’ e tornou-se um ritual diário para milhares de portugueses. O fenómeno é nacional, e os passos a dar são quase sempre os mesmos: entrar em lojas, mostrar disponibilidade e pedir um emprego. No caso de a resposta ser negativa, é hora de pedir que o gerente ou o dono do estabelecimento ateste que o candidato a empregado esteve ali, à procura de trabalho. Para isso, é preciso carimbar um documento do Instituto de Emprego e Formação Profissional. E continua-se a receber o subsídio de desemprego.
Mas enquanto alguns imploram por uma ocupação, mostrando desespero pela falta dela, também há quem peça directamente o carimbo. Nesses casos, a resposta dos patrões é quase sempre a mesma. "Mando-os logo sair daqui. Se chegar alguém educado, que mostre que realmente precisa de um emprego, muito bem. Se pedirem logo um carimbo, nada feito". O testemunho é de um comerciante da Baixa do Porto - e cujas palavras representam o que a grande maioria dos patrões pensa acerca dos carimbos. "Assim, até parece que compensa receber o subsídio de desemprego. Basta percorrer algumas ruas e depois entregar os papéis carimbados", diz um outro lojista.
A procura pelo atestado de procura de emprego até já serve como oportunidade de negócio. "Chegaram a pedir-me cinco euros para carimbar a folha. É inadmissível que andemos à procura de um emprego, e ainda nos tentem explorar", revelou ao CM um dos milhares de desempregados em Portugal, que não se quis identificar.
O número de carimbos que cada desempregado precisa varia de acordo com a situação profissional, e as provas de procura de emprego têm sempre de ser feitas. Os beneficiários do subsídio podem responder a anúncios, colocar o seu próprio anúncio na internet ou comparecer em entrevistas de emprego - e tudo isto deverá ser atestado com documentos assinados e carimbados. É obrigatória a comparência quinzenal na Segurança Social da área de residência.
Chama-se ‘procura activa de emprego’ e tornou-se um ritual diário para milhares de portugueses. O fenómeno é nacional, e os passos a dar são quase sempre os mesmos: entrar em lojas, mostrar disponibilidade e pedir um emprego. No caso de a resposta ser negativa, é hora de pedir que o gerente ou o dono do estabelecimento ateste que o candidato a empregado esteve ali, à procura de trabalho. Para isso, é preciso carimbar um documento do Instituto de Emprego e Formação Profissional. E continua-se a receber o subsídio de desemprego.
Mas enquanto alguns imploram por uma ocupação, mostrando desespero pela falta dela, também há quem peça directamente o carimbo. Nesses casos, a resposta dos patrões é quase sempre a mesma. "Mando-os logo sair daqui. Se chegar alguém educado, que mostre que realmente precisa de um emprego, muito bem. Se pedirem logo um carimbo, nada feito". O testemunho é de um comerciante da Baixa do Porto - e cujas palavras representam o que a grande maioria dos patrões pensa acerca dos carimbos. "Assim, até parece que compensa receber o subsídio de desemprego. Basta percorrer algumas ruas e depois entregar os papéis carimbados", diz um outro lojista.
A procura pelo atestado de procura de emprego até já serve como oportunidade de negócio. "Chegaram a pedir-me cinco euros para carimbar a folha. É inadmissível que andemos à procura de um emprego, e ainda nos tentem explorar", revelou ao CM um dos milhares de desempregados em Portugal, que não se quis identificar.
O número de carimbos que cada desempregado precisa varia de acordo com a situação profissional, e as provas de procura de emprego têm sempre de ser feitas. Os beneficiários do subsídio podem responder a anúncios, colocar o seu próprio anúncio na internet ou comparecer em entrevistas de emprego - e tudo isto deverá ser atestado com documentos assinados e carimbados. É obrigatória a comparência quinzenal na Segurança Social da área de residência.
Como descodificar os prazos de validade da comida
Por Alexandra Prado Coelho, in Público on-line
Alimentos fora do prazo de validade não aparecem habitualmente nas lojas em Portugal, diz a DECO-Proteste. Mas, depois de a Grécia ter anunciado que os supermercados vão poder vender alimentos não perecíveis fora do prazo a preços mais baixos, é importante saber que nem todos os alimentos fora de prazo representam riscos para a saúde.
A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), em resposta ao PÚBLICO, diz que cumpre rigorosamente a lei, não vendendo produtos fora do prazo, mas acrescenta que “se o Governo entender flexibilizar a legislação, garantindo a segurança alimentar, o sector está disponível para encontrar soluções que ajudem o consumidor nesta conjuntura tão adversa”.
O fundamental, explicou ao PÚBLICO Dulce Ricardo, engenheira alimentar daquela organização de defesa dos direitos dos consumidores, é que se perceba a diferença entre as duas indicações que aparecem nas etiquetas: “consumir até” ou “consumir preferencialmente antes de”. No primeiro caso, o consumo depois da data indicada pode ter riscos para a saúde. No segundo, pode haver alteração das características dos alimentos, mas não um risco para a saúde.
No primeiro grupo estão os alimentos perecíveis, como a carne picada, as salsichas frescas, o queijo fresco, o leite do dia, os bolos com creme. Aí, diz Dulce Ricardo, “a data deve ser rigorosamente cumprida”, caso contrário corre-se o risco de uma toxinfecção alimentar. A lei proíbe claramente a venda depois da data indicada, e se os produtos não forem retirados dos estabelecimentos ficam em “incumprimento legal”. A técnica deixa um aviso: “Um alimento contaminado pode ter um aspecto perfeitamente normal”. A presença de salmonelas, por exemplo, não é detectável nem pelo aspecto nem pelo cheiro do alimento.
Lei omissa
Quanto aos alimentos não perecíveis, a decisão cabe sobretudo ao consumidor. “Se a data indicada em ‘consumir preferencialmente antes de’ for ultrapassada pode haver implicações a nível nutricional que fazem com que o alimento não esteja em condições perfeitas – pode, por exemplo, ter ranço se for um produto com gordura, ou podem verificar-se alterações na coloração ou na textura. Nestes casos, “a lei é omissa”, explica a técnica da DECO. “O produto não deve estar à venda, mas poderá estar”.
Em Portugal, não é prática da distribuição pôr alimentos à venda depois do prazo, quer num caso quer no outro. “Há um respeito por essas datas”, diz Dulce Ricardo. O que pode é haver promoções quando os produtos estão já próximos do fim do prazo, e o que a DECO aconselha é que os consumidores estejam atentos às datas nessas promoções e “não comprem para além da quantidade necessária”. As informações recolhidas pela DECO indicam que em Portugal os consumidores estão bastante atentos aos prazos de validade e distinguem entre o “consumir até” e o “consumir preferencialmente antes de”.
A revista da Tetra Pak, que publicou recentemente um número dedicado ao desperdício de alimentos, cita um estudo da Food Standarts Agency (FSA) britânica segundo a qual “apenas 36 % das pessoas sabem que os alimentos cujo prazo de validade expirou podem, na maior parte dos casos, ser consumidos”. Os mais jovens revelam “mais confiança nessas indicações [das embalagens] do que no seu próprio julgamento e deitam fora produtos sem primeiro os cheirar ou provar”.
Data definida pelo produtor
A data colocada na embalagem é definida pelo produtor. Mas, diz ainda a revista, “não é incomum que o fabricante coloque uma determinada data sabendo que o produto se manterá em perfeitas condições de consumo durante muito mais tempo sem se deteriorar”. Isto pode levar a um enorme desperdício de produtos em bom estado – dados da FAO (a Agência para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas) indicam que a quantidade de alimentos desperdiçados na Europa e Estados Unidos é de 95 a 115 quilos per capita por ano.
Uma medida como a que foi tomada na Grécia (e que abrange apenas os produtos não perecíveis) seria ou não possível em Portugal? “Não podemos dizer que há um risco”, afirma Dulce Ricardo. Mas a posição da DECO é a de que o cliente “tem o direito de consumir o produto nas condições devidas”. A organização dos direitos dos consumidores defende que para estes “é mais vantajoso que o produto seja à partida colocado à venda a um preço mais baixo”, o que permitira um escoamento mais rápido e evitaria que se chegasse perto dos prazos de validade. António Salvador Barreto, coordenador do mestrado em Segurança Alimentar da Universidade Técnica de Lisboa, lembra também que “a indicação do tempo de vida útil é da responsabilidade do agente económico”, ou seja, do produtor, e que este não está interessado em correr riscos dando prazos muito alargados. Mas, reconhecendo que em muitos casos há produtos que se mantêm em boas condições depois do prazo, Barreto admite a eventualidade de poderem ser usados desde que sujeitos a supervisão até serem consumidos.
Servir em cantinas?
Isto significa que poderiam ser servidos por exemplo em cantinas (onde seria possível inspectores sanitários verificarem o seu estado até ao prato) mas não serem vendidos aos consumidores para que estes os levem para casa e avaliem, sem terem os conhecimentos técnicos necessários, as condições desses alimentos.
A FSA britânica disse recentemente que a crise está a fazer com que no Reino Unido haja cada vez mais pessoas a consumir alimentos passada a data, correndo riscos para a saúde. Um terço das pessoas ouvidas num inquérito disse estar a recorrer mais à análise cheiro/aspecto para decidir se consumia ou não um alimento. Para ajudar nessa decisão, a FSA tinha já, em Dezembro de 2011, indicado que os ovos podem ser consumidos até dois dias depois da data da embalagem, “desde que devidamente cozinhados”.
Em Portugal, sublinha ainda a APED, a distribuição tem tomado medidas para tentar reduzir o desperdício alimentar, investindo “na eficiência da cadeia de frio, num controlo rigoroso da gestão de stocks e das validades dos produtos e em técnicas avançadas de conservação”.
Alimentos fora do prazo de validade não aparecem habitualmente nas lojas em Portugal, diz a DECO-Proteste. Mas, depois de a Grécia ter anunciado que os supermercados vão poder vender alimentos não perecíveis fora do prazo a preços mais baixos, é importante saber que nem todos os alimentos fora de prazo representam riscos para a saúde.
A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), em resposta ao PÚBLICO, diz que cumpre rigorosamente a lei, não vendendo produtos fora do prazo, mas acrescenta que “se o Governo entender flexibilizar a legislação, garantindo a segurança alimentar, o sector está disponível para encontrar soluções que ajudem o consumidor nesta conjuntura tão adversa”.
O fundamental, explicou ao PÚBLICO Dulce Ricardo, engenheira alimentar daquela organização de defesa dos direitos dos consumidores, é que se perceba a diferença entre as duas indicações que aparecem nas etiquetas: “consumir até” ou “consumir preferencialmente antes de”. No primeiro caso, o consumo depois da data indicada pode ter riscos para a saúde. No segundo, pode haver alteração das características dos alimentos, mas não um risco para a saúde.
No primeiro grupo estão os alimentos perecíveis, como a carne picada, as salsichas frescas, o queijo fresco, o leite do dia, os bolos com creme. Aí, diz Dulce Ricardo, “a data deve ser rigorosamente cumprida”, caso contrário corre-se o risco de uma toxinfecção alimentar. A lei proíbe claramente a venda depois da data indicada, e se os produtos não forem retirados dos estabelecimentos ficam em “incumprimento legal”. A técnica deixa um aviso: “Um alimento contaminado pode ter um aspecto perfeitamente normal”. A presença de salmonelas, por exemplo, não é detectável nem pelo aspecto nem pelo cheiro do alimento.
Lei omissa
Quanto aos alimentos não perecíveis, a decisão cabe sobretudo ao consumidor. “Se a data indicada em ‘consumir preferencialmente antes de’ for ultrapassada pode haver implicações a nível nutricional que fazem com que o alimento não esteja em condições perfeitas – pode, por exemplo, ter ranço se for um produto com gordura, ou podem verificar-se alterações na coloração ou na textura. Nestes casos, “a lei é omissa”, explica a técnica da DECO. “O produto não deve estar à venda, mas poderá estar”.
Em Portugal, não é prática da distribuição pôr alimentos à venda depois do prazo, quer num caso quer no outro. “Há um respeito por essas datas”, diz Dulce Ricardo. O que pode é haver promoções quando os produtos estão já próximos do fim do prazo, e o que a DECO aconselha é que os consumidores estejam atentos às datas nessas promoções e “não comprem para além da quantidade necessária”. As informações recolhidas pela DECO indicam que em Portugal os consumidores estão bastante atentos aos prazos de validade e distinguem entre o “consumir até” e o “consumir preferencialmente antes de”.
A revista da Tetra Pak, que publicou recentemente um número dedicado ao desperdício de alimentos, cita um estudo da Food Standarts Agency (FSA) britânica segundo a qual “apenas 36 % das pessoas sabem que os alimentos cujo prazo de validade expirou podem, na maior parte dos casos, ser consumidos”. Os mais jovens revelam “mais confiança nessas indicações [das embalagens] do que no seu próprio julgamento e deitam fora produtos sem primeiro os cheirar ou provar”.
Data definida pelo produtor
A data colocada na embalagem é definida pelo produtor. Mas, diz ainda a revista, “não é incomum que o fabricante coloque uma determinada data sabendo que o produto se manterá em perfeitas condições de consumo durante muito mais tempo sem se deteriorar”. Isto pode levar a um enorme desperdício de produtos em bom estado – dados da FAO (a Agência para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas) indicam que a quantidade de alimentos desperdiçados na Europa e Estados Unidos é de 95 a 115 quilos per capita por ano.
Uma medida como a que foi tomada na Grécia (e que abrange apenas os produtos não perecíveis) seria ou não possível em Portugal? “Não podemos dizer que há um risco”, afirma Dulce Ricardo. Mas a posição da DECO é a de que o cliente “tem o direito de consumir o produto nas condições devidas”. A organização dos direitos dos consumidores defende que para estes “é mais vantajoso que o produto seja à partida colocado à venda a um preço mais baixo”, o que permitira um escoamento mais rápido e evitaria que se chegasse perto dos prazos de validade. António Salvador Barreto, coordenador do mestrado em Segurança Alimentar da Universidade Técnica de Lisboa, lembra também que “a indicação do tempo de vida útil é da responsabilidade do agente económico”, ou seja, do produtor, e que este não está interessado em correr riscos dando prazos muito alargados. Mas, reconhecendo que em muitos casos há produtos que se mantêm em boas condições depois do prazo, Barreto admite a eventualidade de poderem ser usados desde que sujeitos a supervisão até serem consumidos.
Servir em cantinas?
Isto significa que poderiam ser servidos por exemplo em cantinas (onde seria possível inspectores sanitários verificarem o seu estado até ao prato) mas não serem vendidos aos consumidores para que estes os levem para casa e avaliem, sem terem os conhecimentos técnicos necessários, as condições desses alimentos.
A FSA britânica disse recentemente que a crise está a fazer com que no Reino Unido haja cada vez mais pessoas a consumir alimentos passada a data, correndo riscos para a saúde. Um terço das pessoas ouvidas num inquérito disse estar a recorrer mais à análise cheiro/aspecto para decidir se consumia ou não um alimento. Para ajudar nessa decisão, a FSA tinha já, em Dezembro de 2011, indicado que os ovos podem ser consumidos até dois dias depois da data da embalagem, “desde que devidamente cozinhados”.
Em Portugal, sublinha ainda a APED, a distribuição tem tomado medidas para tentar reduzir o desperdício alimentar, investindo “na eficiência da cadeia de frio, num controlo rigoroso da gestão de stocks e das validades dos produtos e em técnicas avançadas de conservação”.
Leilão de 52 lojas espalhadas por Lisboa promete rendas anti-crise
Por Carlos Filipe, in Público on-line
Arrendar um espaço comercial por quantias mensais que crescem ao longo dos primeiros cinco anos do contrato, mas que nos 12 meses iniciais se ficam pelo valor da mais alta licitação em leilão público é a proposta da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) e da InvestLisboa, agência de promoção e captação de investimentos.
Para já, está em cima da mesa uma oferta de 52 lojas. Os promotores afirmam que se trata de um projecto anti-crise, formatado para atacar a conjuntura económica. O leilão, que esperam ser muito concorrido, ocorrerá no dia 7 de Novembro, na Associação Comercial de Lisboa.
A iniciativa é inédita e está alicerçada numa lógica em que todos ficam a ganhar. Junta a InvestLisboa (que resulta de uma parceria entre a câmara e a Associação Comercial de Lisboa), criada para atrair investimentos para a capital, à EPUL, que aproveita para proceder à valorização do seu património disperso pela cidade.
O que ambas as entidades sustentam é que se trata de uma mudança radical de paradigma. "As pessoas não estão em condições de avançar para um aluguer de 1500, 2000 euros, como lhes vinham pedindo por um espaço no centro da cidade, e podem encontrar aqui uma porta de entrada, simples, não só pelo preço, mas pela transparência do procedimento, mas também pelo seu rigor. Muita gente tinha projectos guardados na gaveta e este aliciante está a fazê-las avançar", explica Pedro Vicente, director de marketing e valorização de activos da EPUL. Segundo afirma, a empresa municipal está a fazer um esforço para praticar valores mais baixos de arrendamento, esforço esse que faz todo o sentido nestes tempos e na área de actuação da EPUL.
As lojas disponíveis estão distribuídas por Entrecampos, Rua de São Bento, Vale de Santo António, Paço do Lumiar, Alta de Lisboa, Telheiras, Rua do Benformoso e têm as mais variadas áreas, em edifícios novos ou reabilitados. "A maior parte dos edifícios está habitada, mas as lojas foram deixadas para o fim e ou estão em tosco, ou já acabadas", diz Pedro Vicente.
O valor base da licitação está fixado em 135 euros no caso de uma loja com 26 m2 de área na Rua Mário Cesariny, em Entrecampos, mas também em duas outras, na Rua Barrilaro Ruas, no Vale de Santo António. A licitação será feita em intervalos de cinco euros e o valor final definirá a mensalidade a pagar durante o primeiro ano de contrato, que subirá para 165 no segundo, 195 no terceiro, 240 no quarto, atingindo o valor máximo de 300 euros no quinto ano.
Os valores iniciais são muito variáveis, podendo atingir os 1620 euros para um dos lotes no Paço do Lumiar, por sinal o de maior dimensão, com 907 m2 de área útil. No quinto ano, a mensalidade desse espaço atingirá o valor máximo de 3600 euros. Em média, os valores iniciais de licitação para o primeiro ano de renda rondam os 330 euros.
Arrendar e não vender
"[O processo] é o mais transparente possível e é a clássica forma anglo-saxónica de negociar. Juntam-se as pessoas numa sala e elas oferecem. Quem oferecer mais, ganha. Não estamos a falar de cartas fechadas, pois não cria suspeições nem reacções negativas por parte de estrangeiros, que não estão habituados a esse tipo de situações", sublinha Rui Coelho, director executivo da InvestLisboa.
E adianta outros argumentos: "É mesmo uma nova forma de fazer negócios. Com a crise em que estamos havia a necessidade de mudar e esta é uma das vias, com leilões públicos e preços baixos. E se queremos dar a volta à situação temos que ser criativos. O movimento económico que a ocupação de 52 novas lojas irá gerar, com a consequente criação de empregos, a compra de stocks e equipamentos, é todo um dinamismo económico que se cria, bem melhor que ter as tais lojas fechadas. Se este movimento fosse feito por toda a cidade, e por outros actores, reabilitando e ocupando os espaços dos prédios, seria um processo muito dinâmico."
Arrendar um espaço comercial por quantias mensais que crescem ao longo dos primeiros cinco anos do contrato, mas que nos 12 meses iniciais se ficam pelo valor da mais alta licitação em leilão público é a proposta da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) e da InvestLisboa, agência de promoção e captação de investimentos.
Para já, está em cima da mesa uma oferta de 52 lojas. Os promotores afirmam que se trata de um projecto anti-crise, formatado para atacar a conjuntura económica. O leilão, que esperam ser muito concorrido, ocorrerá no dia 7 de Novembro, na Associação Comercial de Lisboa.
A iniciativa é inédita e está alicerçada numa lógica em que todos ficam a ganhar. Junta a InvestLisboa (que resulta de uma parceria entre a câmara e a Associação Comercial de Lisboa), criada para atrair investimentos para a capital, à EPUL, que aproveita para proceder à valorização do seu património disperso pela cidade.
O que ambas as entidades sustentam é que se trata de uma mudança radical de paradigma. "As pessoas não estão em condições de avançar para um aluguer de 1500, 2000 euros, como lhes vinham pedindo por um espaço no centro da cidade, e podem encontrar aqui uma porta de entrada, simples, não só pelo preço, mas pela transparência do procedimento, mas também pelo seu rigor. Muita gente tinha projectos guardados na gaveta e este aliciante está a fazê-las avançar", explica Pedro Vicente, director de marketing e valorização de activos da EPUL. Segundo afirma, a empresa municipal está a fazer um esforço para praticar valores mais baixos de arrendamento, esforço esse que faz todo o sentido nestes tempos e na área de actuação da EPUL.
As lojas disponíveis estão distribuídas por Entrecampos, Rua de São Bento, Vale de Santo António, Paço do Lumiar, Alta de Lisboa, Telheiras, Rua do Benformoso e têm as mais variadas áreas, em edifícios novos ou reabilitados. "A maior parte dos edifícios está habitada, mas as lojas foram deixadas para o fim e ou estão em tosco, ou já acabadas", diz Pedro Vicente.
O valor base da licitação está fixado em 135 euros no caso de uma loja com 26 m2 de área na Rua Mário Cesariny, em Entrecampos, mas também em duas outras, na Rua Barrilaro Ruas, no Vale de Santo António. A licitação será feita em intervalos de cinco euros e o valor final definirá a mensalidade a pagar durante o primeiro ano de contrato, que subirá para 165 no segundo, 195 no terceiro, 240 no quarto, atingindo o valor máximo de 300 euros no quinto ano.
Os valores iniciais são muito variáveis, podendo atingir os 1620 euros para um dos lotes no Paço do Lumiar, por sinal o de maior dimensão, com 907 m2 de área útil. No quinto ano, a mensalidade desse espaço atingirá o valor máximo de 3600 euros. Em média, os valores iniciais de licitação para o primeiro ano de renda rondam os 330 euros.
Arrendar e não vender
"[O processo] é o mais transparente possível e é a clássica forma anglo-saxónica de negociar. Juntam-se as pessoas numa sala e elas oferecem. Quem oferecer mais, ganha. Não estamos a falar de cartas fechadas, pois não cria suspeições nem reacções negativas por parte de estrangeiros, que não estão habituados a esse tipo de situações", sublinha Rui Coelho, director executivo da InvestLisboa.
E adianta outros argumentos: "É mesmo uma nova forma de fazer negócios. Com a crise em que estamos havia a necessidade de mudar e esta é uma das vias, com leilões públicos e preços baixos. E se queremos dar a volta à situação temos que ser criativos. O movimento económico que a ocupação de 52 novas lojas irá gerar, com a consequente criação de empregos, a compra de stocks e equipamentos, é todo um dinamismo económico que se cria, bem melhor que ter as tais lojas fechadas. Se este movimento fosse feito por toda a cidade, e por outros actores, reabilitando e ocupando os espaços dos prédios, seria um processo muito dinâmico."
Entrega de imóveis ao banco cai para metade em relação ao início do ano
in Público on-line
Cerca de 1100 imóveis foram entregues aos bancos para pagamento da dívida no terceiro trimestre deste ano, o que representa um aumento em relação aos três meses anteriores, mas uma redução para quase metade face ao início do ano.
Segundo dados da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), a que a agência Lusa teve hoje acesso, entre Janeiro e Setembro foram entregues 4400 imóveis em dação em pagamento, tanto por famílias como por promotores imobiliários, tendo um quarto deste número sido registado entre Julho e Setembro.
A análise da APEMIP mostra que no terceiro trimestre o fenómeno registou um aumento de 9,9% em relação aos três meses anteriores, mas os valores estão muito mais baixos do que no primeiro trimestre, quando foram entregues 2300 casas.
Este aumento, diz a associação no mesmo documento, é o “corolário da continuidade de um ano extremamente difícil, com níveis de confiança no mercado combalidos e expectáveis perante o futuro desenvolvimento do sector imobiliário e do mercado, quer no âmbito nacional, quer global”.
Entre Janeiro e Setembro, os distritos onde foram entregues mais imóveis em dação em pagamento foram os do Porto, de Lisboa e de Faro, representando em conjunto 40,5% do total.
Entre os dez distritos onde o fenómeno é mais relevante encontram-se ainda os de Setúbal, de Santarém e de Coimbra, que representam 23,8% do total, e, por último, os de Aveiro, de Braga e os arquipélagos da Madeira e dos Açores, que somam 21,9% dos imóveis entregues até Setembro.
A APEMIP adianta ainda que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentraram quase um terço (31,7%) do número de casas entregues entre Janeiro e Setembro, sendo que só no terceiro trimestre o valor foi de 22,7%.
Em termos de municípios, os mais penalizados são o Entroncamento, que regista uma média de 2,8%, graças a uma subida do número de casas entregues em Setembro para 8,6%.
Entre as três autarquias onde houve mais entregas de imóveis em dação em pagamento contam-se ainda as de Vila Nova de Gaia, com 2,7%, e da Figueira da Foz, com 2,1%.
“A divulgação dos dados das dações do primeiro trimestre deste ano pela APEMIP, bem como a mediatização da sentença do tribunal de Portalegre [que determinou que a entrega da casa liquida na totalidade o empréstimo concedido], fizeram com que o sector financeiro passasse a olhar este fenómeno com outros olhos”, afirma o presidente da associação na nota hoje divulgada.
Segundo Luís Lima, este conjunto de situações criou um “ambiente mais propício à renegociação dos créditos, para que a prática da entrega de imóveis não passasse a regra em vez de excepção”.
Cerca de 1100 imóveis foram entregues aos bancos para pagamento da dívida no terceiro trimestre deste ano, o que representa um aumento em relação aos três meses anteriores, mas uma redução para quase metade face ao início do ano.
Segundo dados da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), a que a agência Lusa teve hoje acesso, entre Janeiro e Setembro foram entregues 4400 imóveis em dação em pagamento, tanto por famílias como por promotores imobiliários, tendo um quarto deste número sido registado entre Julho e Setembro.
A análise da APEMIP mostra que no terceiro trimestre o fenómeno registou um aumento de 9,9% em relação aos três meses anteriores, mas os valores estão muito mais baixos do que no primeiro trimestre, quando foram entregues 2300 casas.
Este aumento, diz a associação no mesmo documento, é o “corolário da continuidade de um ano extremamente difícil, com níveis de confiança no mercado combalidos e expectáveis perante o futuro desenvolvimento do sector imobiliário e do mercado, quer no âmbito nacional, quer global”.
Entre Janeiro e Setembro, os distritos onde foram entregues mais imóveis em dação em pagamento foram os do Porto, de Lisboa e de Faro, representando em conjunto 40,5% do total.
Entre os dez distritos onde o fenómeno é mais relevante encontram-se ainda os de Setúbal, de Santarém e de Coimbra, que representam 23,8% do total, e, por último, os de Aveiro, de Braga e os arquipélagos da Madeira e dos Açores, que somam 21,9% dos imóveis entregues até Setembro.
A APEMIP adianta ainda que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentraram quase um terço (31,7%) do número de casas entregues entre Janeiro e Setembro, sendo que só no terceiro trimestre o valor foi de 22,7%.
Em termos de municípios, os mais penalizados são o Entroncamento, que regista uma média de 2,8%, graças a uma subida do número de casas entregues em Setembro para 8,6%.
Entre as três autarquias onde houve mais entregas de imóveis em dação em pagamento contam-se ainda as de Vila Nova de Gaia, com 2,7%, e da Figueira da Foz, com 2,1%.
“A divulgação dos dados das dações do primeiro trimestre deste ano pela APEMIP, bem como a mediatização da sentença do tribunal de Portalegre [que determinou que a entrega da casa liquida na totalidade o empréstimo concedido], fizeram com que o sector financeiro passasse a olhar este fenómeno com outros olhos”, afirma o presidente da associação na nota hoje divulgada.
Segundo Luís Lima, este conjunto de situações criou um “ambiente mais propício à renegociação dos créditos, para que a prática da entrega de imóveis não passasse a regra em vez de excepção”.
Quase 650 mil empregos destruídos desde 2008
in Público on-line
De acordo com o projecto de parecer sobre o Orçamento do Estado para 2013, ao qual a Lusa teve acesso, o CES salienta o facto de Portugal ser dos países que mais estão a reduzir o nível de emprego e em que a taxa de desemprego mais tem subido.
Prevê, por isso, que “no final do terceiro ano do programa de ajustamento (PAEF), Portugal terá menos 428 mil empregos do que no início do PAEF (-4,3% em 2012 e -1,7% em 2013)”.
“Se atendermos a que o nível de emprego era de 5,2 milhões em 2008, prevemos que em 2013 terão sido suprimidos 647.700 empregos”, lê-se no documento, cujo relator é o conselheiro Rui Leão Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas.
O CES manifesta ainda alguma preocupação perante o facto de a proposta do Orçamento “consagrar uma diminuição significativa do nível de protecção social e da despesa social em geral, sendo relevante salientar o elevado número de desempregados sem prestações de desemprego, a diminuição do valor das prestações de desemprego e de doença”.
Neste âmbito, “o CES não pode deixar de alertar para as possíveis consequências, no plano político, decorrentes de situações de desamparo, miséria, incerteza, insegurança e intranquilidade que poderão contribuir de forma muito grave para situações de rotura social”.
O projecto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de hoje, será votado no plenário do CES a 5 de Novembro, no Parlamento.
De acordo com o projecto de parecer sobre o Orçamento do Estado para 2013, ao qual a Lusa teve acesso, o CES salienta o facto de Portugal ser dos países que mais estão a reduzir o nível de emprego e em que a taxa de desemprego mais tem subido.
Prevê, por isso, que “no final do terceiro ano do programa de ajustamento (PAEF), Portugal terá menos 428 mil empregos do que no início do PAEF (-4,3% em 2012 e -1,7% em 2013)”.
“Se atendermos a que o nível de emprego era de 5,2 milhões em 2008, prevemos que em 2013 terão sido suprimidos 647.700 empregos”, lê-se no documento, cujo relator é o conselheiro Rui Leão Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas.
O CES manifesta ainda alguma preocupação perante o facto de a proposta do Orçamento “consagrar uma diminuição significativa do nível de protecção social e da despesa social em geral, sendo relevante salientar o elevado número de desempregados sem prestações de desemprego, a diminuição do valor das prestações de desemprego e de doença”.
Neste âmbito, “o CES não pode deixar de alertar para as possíveis consequências, no plano político, decorrentes de situações de desamparo, miséria, incerteza, insegurança e intranquilidade que poderão contribuir de forma muito grave para situações de rotura social”.
O projecto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de hoje, será votado no plenário do CES a 5 de Novembro, no Parlamento.
Não estudam nem trabalham. O que fazem (e no que pensam) estes jovens?
Por Natália Faria, in Público on-line
Um estudo publicado esta semana por uma agência da União Europeia estima em 14 milhões o número de jovens europeus com idades entre os 15 e os 29 anos que estão fora do sistema de ensino e sem lugar no mercado laboral.
Em Portugal serão 260 mil, um máximo histórico que a crise económica e a erosão do emprego só tendem a agravar. Geração perdida? Há quem se recuse a deixar de acreditar.
Mário não consegue aceder à formação por ser licenciado
Durante seis anos, a minha rotina era levantar-me às sete da manhã, trabalhar até às oito da noite, ir a casa jantar e tomar banho e depois ir para as aulas. Licenciei-me em Design Gráfico, numa universidade privada, no último ano cheguei a pedir um empréstimo bancário para conseguir pagar as propinas que eram de 3500 euros por ano. Mas trabalhava, ganhava 650 euros, e consegui pagar o empréstimo todo.´
O meu posto de trabalho foi extinto no início de Janeiro. Era responsável de departamento numa fábrica de brindes publicitários, mas fui despedido com vários colegas. Nos primeiros dois meses, foi a depressão total: deitava-me às três ou quatro da manhã, ficava a ver televisão, e depois levantava-me às duas da tarde e não fazia nada. Depois, inscrevi-me na natação às dez da manhã para me obrigar a sair de casa. Entretanto, pus-me a pensar na vida, na idade, no futuro e percebi que tinha que começar a procurar uma solução no fundo do buraco.
Pagam-me 440 euros de subsídio de desemprego, porque o meu patrão só declarava o ordenado mínimo. É deprimente ir ao centro de emprego. São filas enormes de pessoas a lamentarem-se. Dantes, quando já tinha acabado o curso e estava à procura de trabalho na minha área, viam-se as paredes cheias de propostas de emprego. Agora, se se vir um papel é para o estrangeiro e a ganhar 1500 euros. O que é que se faz com 1500 euros nos Estados Unidos?
Sei que tenho valor e capacidade, mas se for para limpar casas de banho prefiro fazê-lo em Portugal. Ainda não perdi a esperança de criar um negócio próprio, na área da restauração. Como tenho o dinheiro que ganhei quando vendi o meu carro, às vezes vou espreitando as imobiliárias para ter a noção de como anda o aluguer de espaços.
Não faço nada porque não consigo aceder à formação dos centros de emprego. Se me aparecesse um trabalho como serralheiro, não me importava nada de receber formação e de trabalhar nessa área, mas dizem-me sempre que, como sou licenciado, não tenho direito à formação. Será que eu, por ter andado tantos anos a esforçar-me para tirar o curso, não tenho os mesmos direitos de alguém com o 9.º ano?
A minha mãe também ficou desempregada e fica em casa enterrada na depressão. Procuro fugir, tomar café com amigos, trocar umas ideias. Desisti de ver notícias, para não me deprimir. Já sei que tenho que pagar, seja como for...
Patrícia ainda vota, mas já não acredita “que o país possa melhorar”
Dormir ajuda. Nos dias piores, vou levar as minhas fi lhas à escola e volto para a cama e durmo o mais que posso. Ajuda-me a não pensar. Às vezes, ponho música alta pela casa toda para ver se consigo ficar mais alegre, quando elas chegam a casa. Fujo de chorar à frente delas. Acho que a frase que lhes tenho dito mais vezes nos últimos tempos é: “Não pode ser, a mãe não tem dinheiro...”.
Quando trabalhava, ainda conseguia dar-lhes um consolo. Ia ao supermercado e trazia sempre daqueles ovinhos de chocolate. Sempre igual para as duas. É uma paranóia que tenho. Tem que ser sempre tudo igual para as duas. Uma tem cinco e a outra oito anos de idade. Já dei por mim a perguntar-me a quem é que eu podia pedir um pão ou uma maçã para elas levarem para a escola.
Quero continuar cá, porque quero vê-las crescer. São a minha única sorte. No resto... o que me aparecer de trabalho eu aceito, mas parece que nasci com as portas todas fechadas. O último trabalho que tive, já passou quase um ano, foi nas limpezas do mercado de Matosinhos. Ganhava 20 euros por dia, das sete da manhã às sete da tarde. Quando não tinha senhas para o autocarro, ia a pé ou apanhava boleia de uma vizinha. Mas nem tempo tinha para estar com as minhas filhas. E era pouco dinheiro, não dava. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção, mais cem euros de pensão por uma das minhas filhas. Da outra não pedi pensão porque o pai nem sempre é certo e aí iam-me tirar o RSI. Ainda recebo 84 euros de abono de família, mas não chega para tudo.
Olho à volta e vejo mais desempregados do que empregados. Já desisti de ir às entrevistas. Pedem habilitações e eu só tenho o 6.º ano. Pedem experiência, não tenho. Pedem bom aspecto, eu até de sorrir tenho vergonha por causa dos meus dentes. Sei que pensam que tenho os dentes estragados por causa da droga, mas garanto que nunca me meti nisso. Foi derivado à minha segunda gravidez, a minha filha “comeu-me” o cálcio. Já pedi ajuda à Segurança Social para os arranjar mas dizem que fica muito caro. Pareço muito mais velha. Sinto-me muito mais velha.
Fujo de pensar porque, se me puser a pensar, só me apetece fazer asneiras. Por isso, vou-me agarrando às promessas de trabalho. Já falei com uma amiga que trabalha numa firma de limpezas para ver se terão lá lugar, também me falaram de um senhor que queria alguém para a agricultura numas quintas.
Voto, ainda voto, mas já não acredito que o país possa melhorar.
João sugere que o Governo financie excursões para o estrangeiro
No espaço de um ano, perdi o carro e o computador. Mas isso não é o pior. O pior é querer fazer alguma coisa e perceber que o melhor emprego que me vai aparecer, e isto se tiver sorte, é a trabalhar dez horas por dia, a ganhar 550 euros por mês e com uma folga por semana.
Não percebo. Não há empregos mas, nos empregos que há, querem obrigar as pessoas a trabalhar mais e a receber menos, em vez de aligeiraram a carga e deixarem que mais gente trabalhe e tenha tempo para viver a sua vida ao mesmo tempo. Parece que o mundo ficou dividido entre os escravos do trabalho e os que, como eu, não conseguem trabalhar e depois também não conseguem fazer mais nada, porque não têm dinheiro e andam com a cabeça negra e cinzenta.
Ainda não me mataram a esperança. Tirei o curso de Gestão Hoteleira, depois fui tirar Marketing, mas acabei por desistir ao fim de dois anos e o último emprego que tive foi como gerente de um posto de abastecimento. Ganhava 842 euros, mas, ao fim de quase dois anos, mandaram-me embora para não terem de me meter nos quadros. Estou sem fazer nada há mais de um ano, mas vou procurando emprego. Gostava de trabalhar na área da cozinha e tenho mandado currículos, vou aos restaurantes da minha zona, às esplanadas. Às vezes, sinto um bocado de vergonha. Sei o que valho, mas sinto-me a mendigar.
Vivo com a minha mãe, o meu padrasto, a minha sobrinha e dois cães. Tento ajudar em casa, faço jantar, trato da loiça, mas se pudesse ajudar nas despesas sentir-me-ia muito mais feliz com eles. Não gosto de, às vezes, chegar ao dia 20 e pedir à minha mãe 20 euros e ter que a ouvir dizer: “Já gastaste tudo!?”. Mas a alternativa seria ficar todo o dia fechado em casa e não sair sequer para beber um copo. Não creio que me ajudasse muito.
Agora que já nem o subsídio de desemprego recebo, aproveito que o meu irmão, emigrante em Inglaterra, está cá e gasto um bocadinho à pala dele: tomar café, comprar cigarros, é tudo por conta dele.
Estou desempregado, podia ser emigrante se a experiência de duas semanas em Inglaterra não tivesse corrido tão mal. Fui e voltei pior do que fui, porque gastei dinheiro em viagens e no alojamento e não consegui nada. Muitas vezes penso que, se não há aqui lugar para toda a gente, mais valia que o Governo arranjasse umas camionetas, promovesse umas excursões e ajudasse o pessoal a ir-se embora. Ao menos, poupávamos na viagem.Ana sabe que voltará à rua ao fim de cada ano e meio de trabalho
É um bocado triste dizer isto, mas o McDonald’s foi o sítio onde mais gostei de trabalhar. Às vezes, dizem-me “Ah, que horror, no McDonald’s” e eu até ganhava uma miséria, mas tinha trabalho. Na altura, ainda estava a fazer o 12.º ano, fui eu que me despedi porque tinha o projecto de abrir uma loja de acessórios de moda. O negócio não correu muito bem. Esteve aberto meio ano. Depois, fui trabalhar para um posto de combustíveis, em Matosinhos. O ordenado-base era 520 euros, outra miséria, mas tinha trabalho. Quando comecei a trabalhar, o mercado já pouco oferecia aos trabalhadores. Mas, para mim, habituada a ganhar pouco, era bom. Agora, pessoas como a minha mãe têm encargos que não lhes permitem aceitar salários destes.
A minha mãe era gestora na Mattel Portugal, a empresa das Barbies, mas foi despedida na véspera de Natal. Ligaram-lhe de Espanha a dizer que queriam falar com ela no aeroporto, despediram-na e voltaram a levantar voo. Se não vivesse com ela, não teria dinheiro para comer.
Despediram-me do posto de combustíveis em Outubro de 2011 e nunca mais arranjei emprego. Uma vez, estive quatro dias numa loja. Fui à entrevista, seleccionaram-me e, ao fim de quatro dias de trabalho, chamaram-me para assinar contrato. Meia hora depois, chamaram-me para assinar a carta de rescisão, porque tinham recebido um e-mail dos recursos humanos a dizer que, afinal, as lojas não estavam a facturar. Pouco tempo depois, aconteceu-me uma coisa parecida: chamaram-me, pediram as medidas para a farda e, 43 minutos depois, disseram-me que a administração não deixava contratar.
Não tenho qualquer problema em fazer o horário da manhã, tarde ou noite, o problema é que não há trabalho. Acredito nisso, porque a alternativa seria achar que o problema é meu e acho que não é. A única certeza que tenho é que, mesmo que consiga ser contratada, passado um ano e meio sou mandada embora. É estúpido, mas estaria muito mais frustrada se tivesse feito a universidade. Teria andado a queimar as pestaninhas e agora o mais certo era estar na mesma situação.
Cansei-me dos noticiários. Só falam da crise ou dos assaltos ou de pessoas que perdem a casa — tudo coisas que nos põem para baixo e, para isso, já basta eu sentir que... não tenho lugar. Lembro-me da notícia daquele rapaz desempregado que se pôs em greve de fome, em Santa Catarina, no Porto, e que a seguir recebeu uma chuva de ofertas de emprego. Às vezes... não sei. É triste.
Um estudo publicado esta semana por uma agência da União Europeia estima em 14 milhões o número de jovens europeus com idades entre os 15 e os 29 anos que estão fora do sistema de ensino e sem lugar no mercado laboral.
Em Portugal serão 260 mil, um máximo histórico que a crise económica e a erosão do emprego só tendem a agravar. Geração perdida? Há quem se recuse a deixar de acreditar.
Mário não consegue aceder à formação por ser licenciado
Durante seis anos, a minha rotina era levantar-me às sete da manhã, trabalhar até às oito da noite, ir a casa jantar e tomar banho e depois ir para as aulas. Licenciei-me em Design Gráfico, numa universidade privada, no último ano cheguei a pedir um empréstimo bancário para conseguir pagar as propinas que eram de 3500 euros por ano. Mas trabalhava, ganhava 650 euros, e consegui pagar o empréstimo todo.´
O meu posto de trabalho foi extinto no início de Janeiro. Era responsável de departamento numa fábrica de brindes publicitários, mas fui despedido com vários colegas. Nos primeiros dois meses, foi a depressão total: deitava-me às três ou quatro da manhã, ficava a ver televisão, e depois levantava-me às duas da tarde e não fazia nada. Depois, inscrevi-me na natação às dez da manhã para me obrigar a sair de casa. Entretanto, pus-me a pensar na vida, na idade, no futuro e percebi que tinha que começar a procurar uma solução no fundo do buraco.
Pagam-me 440 euros de subsídio de desemprego, porque o meu patrão só declarava o ordenado mínimo. É deprimente ir ao centro de emprego. São filas enormes de pessoas a lamentarem-se. Dantes, quando já tinha acabado o curso e estava à procura de trabalho na minha área, viam-se as paredes cheias de propostas de emprego. Agora, se se vir um papel é para o estrangeiro e a ganhar 1500 euros. O que é que se faz com 1500 euros nos Estados Unidos?
Sei que tenho valor e capacidade, mas se for para limpar casas de banho prefiro fazê-lo em Portugal. Ainda não perdi a esperança de criar um negócio próprio, na área da restauração. Como tenho o dinheiro que ganhei quando vendi o meu carro, às vezes vou espreitando as imobiliárias para ter a noção de como anda o aluguer de espaços.
Não faço nada porque não consigo aceder à formação dos centros de emprego. Se me aparecesse um trabalho como serralheiro, não me importava nada de receber formação e de trabalhar nessa área, mas dizem-me sempre que, como sou licenciado, não tenho direito à formação. Será que eu, por ter andado tantos anos a esforçar-me para tirar o curso, não tenho os mesmos direitos de alguém com o 9.º ano?
A minha mãe também ficou desempregada e fica em casa enterrada na depressão. Procuro fugir, tomar café com amigos, trocar umas ideias. Desisti de ver notícias, para não me deprimir. Já sei que tenho que pagar, seja como for...
Patrícia ainda vota, mas já não acredita “que o país possa melhorar”
Dormir ajuda. Nos dias piores, vou levar as minhas fi lhas à escola e volto para a cama e durmo o mais que posso. Ajuda-me a não pensar. Às vezes, ponho música alta pela casa toda para ver se consigo ficar mais alegre, quando elas chegam a casa. Fujo de chorar à frente delas. Acho que a frase que lhes tenho dito mais vezes nos últimos tempos é: “Não pode ser, a mãe não tem dinheiro...”.
Quando trabalhava, ainda conseguia dar-lhes um consolo. Ia ao supermercado e trazia sempre daqueles ovinhos de chocolate. Sempre igual para as duas. É uma paranóia que tenho. Tem que ser sempre tudo igual para as duas. Uma tem cinco e a outra oito anos de idade. Já dei por mim a perguntar-me a quem é que eu podia pedir um pão ou uma maçã para elas levarem para a escola.
Quero continuar cá, porque quero vê-las crescer. São a minha única sorte. No resto... o que me aparecer de trabalho eu aceito, mas parece que nasci com as portas todas fechadas. O último trabalho que tive, já passou quase um ano, foi nas limpezas do mercado de Matosinhos. Ganhava 20 euros por dia, das sete da manhã às sete da tarde. Quando não tinha senhas para o autocarro, ia a pé ou apanhava boleia de uma vizinha. Mas nem tempo tinha para estar com as minhas filhas. E era pouco dinheiro, não dava. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção, mais cem euros de pensão por uma das minhas filhas. Da outra não pedi pensão porque o pai nem sempre é certo e aí iam-me tirar o RSI. Ainda recebo 84 euros de abono de família, mas não chega para tudo.
Olho à volta e vejo mais desempregados do que empregados. Já desisti de ir às entrevistas. Pedem habilitações e eu só tenho o 6.º ano. Pedem experiência, não tenho. Pedem bom aspecto, eu até de sorrir tenho vergonha por causa dos meus dentes. Sei que pensam que tenho os dentes estragados por causa da droga, mas garanto que nunca me meti nisso. Foi derivado à minha segunda gravidez, a minha filha “comeu-me” o cálcio. Já pedi ajuda à Segurança Social para os arranjar mas dizem que fica muito caro. Pareço muito mais velha. Sinto-me muito mais velha.
Fujo de pensar porque, se me puser a pensar, só me apetece fazer asneiras. Por isso, vou-me agarrando às promessas de trabalho. Já falei com uma amiga que trabalha numa firma de limpezas para ver se terão lá lugar, também me falaram de um senhor que queria alguém para a agricultura numas quintas.
Voto, ainda voto, mas já não acredito que o país possa melhorar.
João sugere que o Governo financie excursões para o estrangeiro
No espaço de um ano, perdi o carro e o computador. Mas isso não é o pior. O pior é querer fazer alguma coisa e perceber que o melhor emprego que me vai aparecer, e isto se tiver sorte, é a trabalhar dez horas por dia, a ganhar 550 euros por mês e com uma folga por semana.
Não percebo. Não há empregos mas, nos empregos que há, querem obrigar as pessoas a trabalhar mais e a receber menos, em vez de aligeiraram a carga e deixarem que mais gente trabalhe e tenha tempo para viver a sua vida ao mesmo tempo. Parece que o mundo ficou dividido entre os escravos do trabalho e os que, como eu, não conseguem trabalhar e depois também não conseguem fazer mais nada, porque não têm dinheiro e andam com a cabeça negra e cinzenta.
Ainda não me mataram a esperança. Tirei o curso de Gestão Hoteleira, depois fui tirar Marketing, mas acabei por desistir ao fim de dois anos e o último emprego que tive foi como gerente de um posto de abastecimento. Ganhava 842 euros, mas, ao fim de quase dois anos, mandaram-me embora para não terem de me meter nos quadros. Estou sem fazer nada há mais de um ano, mas vou procurando emprego. Gostava de trabalhar na área da cozinha e tenho mandado currículos, vou aos restaurantes da minha zona, às esplanadas. Às vezes, sinto um bocado de vergonha. Sei o que valho, mas sinto-me a mendigar.
Vivo com a minha mãe, o meu padrasto, a minha sobrinha e dois cães. Tento ajudar em casa, faço jantar, trato da loiça, mas se pudesse ajudar nas despesas sentir-me-ia muito mais feliz com eles. Não gosto de, às vezes, chegar ao dia 20 e pedir à minha mãe 20 euros e ter que a ouvir dizer: “Já gastaste tudo!?”. Mas a alternativa seria ficar todo o dia fechado em casa e não sair sequer para beber um copo. Não creio que me ajudasse muito.
Agora que já nem o subsídio de desemprego recebo, aproveito que o meu irmão, emigrante em Inglaterra, está cá e gasto um bocadinho à pala dele: tomar café, comprar cigarros, é tudo por conta dele.
Estou desempregado, podia ser emigrante se a experiência de duas semanas em Inglaterra não tivesse corrido tão mal. Fui e voltei pior do que fui, porque gastei dinheiro em viagens e no alojamento e não consegui nada. Muitas vezes penso que, se não há aqui lugar para toda a gente, mais valia que o Governo arranjasse umas camionetas, promovesse umas excursões e ajudasse o pessoal a ir-se embora. Ao menos, poupávamos na viagem.Ana sabe que voltará à rua ao fim de cada ano e meio de trabalho
É um bocado triste dizer isto, mas o McDonald’s foi o sítio onde mais gostei de trabalhar. Às vezes, dizem-me “Ah, que horror, no McDonald’s” e eu até ganhava uma miséria, mas tinha trabalho. Na altura, ainda estava a fazer o 12.º ano, fui eu que me despedi porque tinha o projecto de abrir uma loja de acessórios de moda. O negócio não correu muito bem. Esteve aberto meio ano. Depois, fui trabalhar para um posto de combustíveis, em Matosinhos. O ordenado-base era 520 euros, outra miséria, mas tinha trabalho. Quando comecei a trabalhar, o mercado já pouco oferecia aos trabalhadores. Mas, para mim, habituada a ganhar pouco, era bom. Agora, pessoas como a minha mãe têm encargos que não lhes permitem aceitar salários destes.
A minha mãe era gestora na Mattel Portugal, a empresa das Barbies, mas foi despedida na véspera de Natal. Ligaram-lhe de Espanha a dizer que queriam falar com ela no aeroporto, despediram-na e voltaram a levantar voo. Se não vivesse com ela, não teria dinheiro para comer.
Despediram-me do posto de combustíveis em Outubro de 2011 e nunca mais arranjei emprego. Uma vez, estive quatro dias numa loja. Fui à entrevista, seleccionaram-me e, ao fim de quatro dias de trabalho, chamaram-me para assinar contrato. Meia hora depois, chamaram-me para assinar a carta de rescisão, porque tinham recebido um e-mail dos recursos humanos a dizer que, afinal, as lojas não estavam a facturar. Pouco tempo depois, aconteceu-me uma coisa parecida: chamaram-me, pediram as medidas para a farda e, 43 minutos depois, disseram-me que a administração não deixava contratar.
Não tenho qualquer problema em fazer o horário da manhã, tarde ou noite, o problema é que não há trabalho. Acredito nisso, porque a alternativa seria achar que o problema é meu e acho que não é. A única certeza que tenho é que, mesmo que consiga ser contratada, passado um ano e meio sou mandada embora. É estúpido, mas estaria muito mais frustrada se tivesse feito a universidade. Teria andado a queimar as pestaninhas e agora o mais certo era estar na mesma situação.
Cansei-me dos noticiários. Só falam da crise ou dos assaltos ou de pessoas que perdem a casa — tudo coisas que nos põem para baixo e, para isso, já basta eu sentir que... não tenho lugar. Lembro-me da notícia daquele rapaz desempregado que se pôs em greve de fome, em Santa Catarina, no Porto, e que a seguir recebeu uma chuva de ofertas de emprego. Às vezes... não sei. É triste.
Roberto Carneiro: reavaliar funções do Estado na educação pode ser benéfico
in Público on-line
A competitividade de Portugal “pode estar em causa com cortes muito grandes na educação”, mas reavaliar as funções do Estado nesta área pode ser benéfico, defendeu esta segunda-feira Roberto Carneiro, ministro da Educação entre 1987 e 1991.
“A competitividade de Portugal, a sua garantia de capital humano necessário para que se possa manter na dianteira dos países do Mundo, pode estar em causa com cortes muito grandes na área da educação”, assinalou Roberto Carneiro em declarações à agência Lusa.
Sublinhando que os cortes na educação têm inviabilizado o investimento necessário para um sector vital, o antigo ministro considera positivo que pela refundação do memorando de entendimento com a troika - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional - possa passar a reavaliação das funções do Estado em várias áreas.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou na sexta-feira que até 2014 vai realizar-se uma reforma do Estado que constituirá “uma refundação do memorando de entendimento” e defendeu que o PS deve estar comprometido com esse processo.
“Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”, defendeu Roberto Carneiro.
O antigo ministro da Educação chamou ainda a atenção para um relatório recente do Tribunal de Contas que mostrou que oo custo por aluno é muito maior no ensino público do que no privado. “O que é importante é pensar como é que o Estado pode cumprir melhor as suas obrigações na educação. Se é tentando gerir ou ter as suas actividades todas na educação de natureza pública, ou se pode contar com outros parceiros, financiando-as de uma maneira mais barata e eficiente”, disse.
Lembrando que o Estado é altamente monopolista na área da educação em Portugal, gerindo 80 a 90 por cento do sector, Roberto Carneiro diz que a reavaliação da função do Estado não significa uma falta de intervenção do mesmo.
“Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”, concluiu.
A competitividade de Portugal “pode estar em causa com cortes muito grandes na educação”, mas reavaliar as funções do Estado nesta área pode ser benéfico, defendeu esta segunda-feira Roberto Carneiro, ministro da Educação entre 1987 e 1991.
“A competitividade de Portugal, a sua garantia de capital humano necessário para que se possa manter na dianteira dos países do Mundo, pode estar em causa com cortes muito grandes na área da educação”, assinalou Roberto Carneiro em declarações à agência Lusa.
Sublinhando que os cortes na educação têm inviabilizado o investimento necessário para um sector vital, o antigo ministro considera positivo que pela refundação do memorando de entendimento com a troika - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional - possa passar a reavaliação das funções do Estado em várias áreas.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou na sexta-feira que até 2014 vai realizar-se uma reforma do Estado que constituirá “uma refundação do memorando de entendimento” e defendeu que o PS deve estar comprometido com esse processo.
“Em áreas onde há uma actividade de mercado, onde há outros agentes de natureza privada, ou de natureza intermédia, é evidente que o Estado tem de repensar a sua função, como é o caso da educação”, defendeu Roberto Carneiro.
O antigo ministro da Educação chamou ainda a atenção para um relatório recente do Tribunal de Contas que mostrou que oo custo por aluno é muito maior no ensino público do que no privado. “O que é importante é pensar como é que o Estado pode cumprir melhor as suas obrigações na educação. Se é tentando gerir ou ter as suas actividades todas na educação de natureza pública, ou se pode contar com outros parceiros, financiando-as de uma maneira mais barata e eficiente”, disse.
Lembrando que o Estado é altamente monopolista na área da educação em Portugal, gerindo 80 a 90 por cento do sector, Roberto Carneiro diz que a reavaliação da função do Estado não significa uma falta de intervenção do mesmo.
“Não quer dizer que a educação não tenha de ter sempre uma grande presença do Estado na área da regulação e financiamento na área da solidariedade”, concluiu.
Sampaio diz que o Holocausto nazi "não foi um acidente da História"
in Jornal de Notícias
Jorge Sampaio, alto comissário das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, disse, esta segunda-feira, na abertura das conferências "Portugal e o Holocausto", que o nazismo não pode ser esquecido e que o genocídio não foi obra do acaso.
"O genocídio não foi um acidente da História, foi um produto de um extrato social", alertou Jorge Sampaio na abertura das conferências sobre "Portugal e o Holocausto" que começaram, esta segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e que se prolongam até terça-feira.
Jorge Sampaio, que já anunciou que vai abandonar o cargo na Aliança das Civilizações em fevereiro, considerou que o ensino da História do século XX é fundamental para a "procura" de pontos para a resolução de conflitos e sublinhou que é preciso não esquecer os acontecimentos do passado recente.
"Tony Judt (historiador e pensador) alerta-nos para a falta de atenção que dedicamos ao passado recente. O século XX ainda há pouco nos deixou e os seus medos já estão a ser empurrados para a memória espúria. O passado recente é o mais difícil de perceber e nós tratamos o século passado com ligeireza", citou Sampaio, ao referir-se ao período da II Guerra Mundial (1939-1945).
O ex-presidente português disse ainda que a herança traumática da II Guerra Mundial e a catástrofe do Holocausto "marcaram o século XX" e por isso, afirmou, é preciso fazer tudo para que a "as vítimas não fiquem em silêncio". Recordou também que a "Europa política" foi construída nos escombros "da tragédia".
A conferência "Portugal e o Holocausto - Aprender com o Passado, Ensinar para o Futuro" vai reunir especialistas, académicos e políticos portugueses e internacionais.
"O objetivo desta conferência é contribuir para o aumento do conhecimento académico e promover a compreensão do Holocausto e do papel de Portugal durante esse período da História, bem como apoiar o ensino do Holocausto em Portugal", refere a organização da conferência.
Hoje, é ainda inaugurada na Fundação Gulbenkian a exposição "Os Refugiados do Holocausto e Portugal" e ao final da tarde terá lugar a sessão Música e Memória do Holocausto pela Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo e a projeção do documentário "Testemunhos", de Esther Mucznik, da Fundação Memoshoá/Portugal.
As conferências são organizadas pela Embaixada dos Estados Unidos em Portugal, pela Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento e pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Jorge Sampaio, alto comissário das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, disse, esta segunda-feira, na abertura das conferências "Portugal e o Holocausto", que o nazismo não pode ser esquecido e que o genocídio não foi obra do acaso.
"O genocídio não foi um acidente da História, foi um produto de um extrato social", alertou Jorge Sampaio na abertura das conferências sobre "Portugal e o Holocausto" que começaram, esta segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e que se prolongam até terça-feira.
Jorge Sampaio, que já anunciou que vai abandonar o cargo na Aliança das Civilizações em fevereiro, considerou que o ensino da História do século XX é fundamental para a "procura" de pontos para a resolução de conflitos e sublinhou que é preciso não esquecer os acontecimentos do passado recente.
"Tony Judt (historiador e pensador) alerta-nos para a falta de atenção que dedicamos ao passado recente. O século XX ainda há pouco nos deixou e os seus medos já estão a ser empurrados para a memória espúria. O passado recente é o mais difícil de perceber e nós tratamos o século passado com ligeireza", citou Sampaio, ao referir-se ao período da II Guerra Mundial (1939-1945).
O ex-presidente português disse ainda que a herança traumática da II Guerra Mundial e a catástrofe do Holocausto "marcaram o século XX" e por isso, afirmou, é preciso fazer tudo para que a "as vítimas não fiquem em silêncio". Recordou também que a "Europa política" foi construída nos escombros "da tragédia".
A conferência "Portugal e o Holocausto - Aprender com o Passado, Ensinar para o Futuro" vai reunir especialistas, académicos e políticos portugueses e internacionais.
"O objetivo desta conferência é contribuir para o aumento do conhecimento académico e promover a compreensão do Holocausto e do papel de Portugal durante esse período da História, bem como apoiar o ensino do Holocausto em Portugal", refere a organização da conferência.
Hoje, é ainda inaugurada na Fundação Gulbenkian a exposição "Os Refugiados do Holocausto e Portugal" e ao final da tarde terá lugar a sessão Música e Memória do Holocausto pela Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo e a projeção do documentário "Testemunhos", de Esther Mucznik, da Fundação Memoshoá/Portugal.
As conferências são organizadas pela Embaixada dos Estados Unidos em Portugal, pela Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento e pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Viagens de negócios cresceram 30% com a crise
Paula Brito, in Dinheiro Vivo
Angola, China e, mais recentemente, Moçambique são os destinos mais procurados pelas empresas portuguesas, não para fazer férias mas para fugir à crise.
"A economia está em recessão e o País está quase parado. Por isso, há cada vez mais empresas a planear ao detalhe viagens de negócios para o estrangeiro à procura de novas oportunidades", dizem os operadores.
O sector corporate das agências de viagens registou um crescimento de cerca de 30% em 2011 e, este ano, apesar de se prever um abrandamento na procura, espera-se que o mercado cresça também na ordem dos dois dígitos.
Curiosamente, "são os arquitetos, engenheiros e consultores que mais viajam em missões para mercados como o Brasil ou Moçambique", diz ao DN/Dinheiro Vivo o fundador de uma das maiores operadoras do sector - a Travelstore.
E vão desde o comercial, que visita feiras ou procura fechar contratos de exportação, até ao executivo de topo, em "viagens de prospeção de mercado e abertura de novas frentes de negócio" para dar a volta à crise, explica Frédéric Frère.
São os arquitetos, engenheiros e consultores que mais viajam em missões para mercados como o Brasil ou Moçambique.
Angola, China e, mais recentemente, Moçambique são os destinos mais procurados pelas empresas portuguesas, não para fazer férias mas para fugir à crise.
"A economia está em recessão e o País está quase parado. Por isso, há cada vez mais empresas a planear ao detalhe viagens de negócios para o estrangeiro à procura de novas oportunidades", dizem os operadores.
O sector corporate das agências de viagens registou um crescimento de cerca de 30% em 2011 e, este ano, apesar de se prever um abrandamento na procura, espera-se que o mercado cresça também na ordem dos dois dígitos.
Curiosamente, "são os arquitetos, engenheiros e consultores que mais viajam em missões para mercados como o Brasil ou Moçambique", diz ao DN/Dinheiro Vivo o fundador de uma das maiores operadoras do sector - a Travelstore.
E vão desde o comercial, que visita feiras ou procura fechar contratos de exportação, até ao executivo de topo, em "viagens de prospeção de mercado e abertura de novas frentes de negócio" para dar a volta à crise, explica Frédéric Frère.
São os arquitetos, engenheiros e consultores que mais viajam em missões para mercados como o Brasil ou Moçambique.
Crise dá milhões a empresas que negoceiam na Internet
Ana Marcela, in Jornal de Notícias
Portugueses obtêm rendimento extra, sites especializados faturam milhões
No baú lá de casa os portugueses estão a encontrar objetos que vendem online para obter uma receita adicional. A procura de pechinchas é crescente, sobretudo de vestuário e produtos para a casa.
Já tiveram avionetas, helicópteros ou um iPhone 4S com mais de 800 rubis verdadeiros encastrados à venda por 15 mil euros, mas os produtos mais procurados nos sites de venda online são mesmo objetos para casa e vestuário.
No "CustoJusto.pt" há 208 848 anúncios classificados de Casa e Vestuário, sendo que estas são as categorias que "mais têm crescido nos últimos meses, quer em termos de oferta quer de procura", adianta Pedro Furtado, responsável em Portugal pelo site da rede sueca de classificados "blocket.se". Os portugueses procuram, cada vez mais, objetos de uso quotidiano e nos baús lá de casa estão a encontrar um pé de meia adicional.
Portugueses obtêm rendimento extra, sites especializados faturam milhões
No baú lá de casa os portugueses estão a encontrar objetos que vendem online para obter uma receita adicional. A procura de pechinchas é crescente, sobretudo de vestuário e produtos para a casa.
Já tiveram avionetas, helicópteros ou um iPhone 4S com mais de 800 rubis verdadeiros encastrados à venda por 15 mil euros, mas os produtos mais procurados nos sites de venda online são mesmo objetos para casa e vestuário.
No "CustoJusto.pt" há 208 848 anúncios classificados de Casa e Vestuário, sendo que estas são as categorias que "mais têm crescido nos últimos meses, quer em termos de oferta quer de procura", adianta Pedro Furtado, responsável em Portugal pelo site da rede sueca de classificados "blocket.se". Os portugueses procuram, cada vez mais, objetos de uso quotidiano e nos baús lá de casa estão a encontrar um pé de meia adicional.
Economia portuguesa estará no próximo ano ao nível de 2000
in Jornal de Notícias
As previsões do Governo e da 'troika' apontam para que a economia portuguesa vá encolher no próximo ano para o nível mais baixo desde o ano 2000.
Considerando as previsões do FMI divulgadas na quinta-feira, nem em 2017 o Produto Interno Bruto (PIB) real português conseguirá ultrapassar o máximo atingido em 2007.
Em 2011, o PIB de Portugal foi 159.391 milhões de euros, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Este valor é calculado em volume - ou seja, está ajustado para os efeitos da inflação - e toma como referência o ano 2006.
Considerando que tanto o Governo como a 'troika' preveem para este ano uma contração de 3% na economia, o PIB para 2012 ficará nos 154.610 milhões de euros. As autoridades esperam que em 2013 a economia volte a encolher mais 1% -- o que deixaria o PIB real nos 153.063 milhões de euros.
Para encontrar um PIB português inferior a este número é preciso recuar até ao ano 2000: 152.156 milhões de euros.
Governo e 'troika' esperam que as coisas comecem a recuperar já no próximo ano, e que em 2014 volte a haver crescimento, embora tímido: 1,2 por cento. Para os anos seguintes, o Fundo Monetário Internacional atribui uma taxa de crescimento fixa -- 1,8 por cento até 2017.
Se estas previsões (muito provisórias) se concretizarem, em 2017 a economia portuguesa atingirá 163.417 milhões de euros -- um valor ainda inferior aos 164.660 milhões de euros de 2007.
Mesmo olhando para o PIB nominal (isto é, o valor da economia em euros sem ajustar para a inflação), o panorama não é animador.
Segundo o Ministério das Finanças, o PIB nominal este ano vai cair para 166.342 milhões de euros -- o nível mais baixo desde 2006.
Se as projeções do Governo se concretizarem, o PIB nominal atingirá os 170.394 milhões de euros em 2014 -- mesmo assim, um valor inferior ao que se registou no ano passado.
As previsões do Governo e da 'troika' apontam para que a economia portuguesa vá encolher no próximo ano para o nível mais baixo desde o ano 2000.
Considerando as previsões do FMI divulgadas na quinta-feira, nem em 2017 o Produto Interno Bruto (PIB) real português conseguirá ultrapassar o máximo atingido em 2007.
Em 2011, o PIB de Portugal foi 159.391 milhões de euros, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Este valor é calculado em volume - ou seja, está ajustado para os efeitos da inflação - e toma como referência o ano 2006.
Considerando que tanto o Governo como a 'troika' preveem para este ano uma contração de 3% na economia, o PIB para 2012 ficará nos 154.610 milhões de euros. As autoridades esperam que em 2013 a economia volte a encolher mais 1% -- o que deixaria o PIB real nos 153.063 milhões de euros.
Para encontrar um PIB português inferior a este número é preciso recuar até ao ano 2000: 152.156 milhões de euros.
Governo e 'troika' esperam que as coisas comecem a recuperar já no próximo ano, e que em 2014 volte a haver crescimento, embora tímido: 1,2 por cento. Para os anos seguintes, o Fundo Monetário Internacional atribui uma taxa de crescimento fixa -- 1,8 por cento até 2017.
Se estas previsões (muito provisórias) se concretizarem, em 2017 a economia portuguesa atingirá 163.417 milhões de euros -- um valor ainda inferior aos 164.660 milhões de euros de 2007.
Mesmo olhando para o PIB nominal (isto é, o valor da economia em euros sem ajustar para a inflação), o panorama não é animador.
Segundo o Ministério das Finanças, o PIB nominal este ano vai cair para 166.342 milhões de euros -- o nível mais baixo desde 2006.
Se as projeções do Governo se concretizarem, o PIB nominal atingirá os 170.394 milhões de euros em 2014 -- mesmo assim, um valor inferior ao que se registou no ano passado.
Proposta do Governo pode levar Portugal a aproximar-se da Grécia
in Jornal de Notícias
O Conselho Económico e Social considera que as metas traçadas pelo Governo na proposta do Orçamento para 2013 são "demasiado ambiciosas", dificultando o regresso aos mercados e podendo conduzir Portugal ao "incumprimento" e a aproximar-se da situação grega.
Estas considerações constam do projeto de parecer sobre o Orçamento para 2013 (OE2013), ao qual a Lusa teve acesso, e que será analisado, esta segunda-feira, pela Comissão Especializada Permanente de Política Económica e Social (CEPES).
De acordo com o documento, elaborado pelo conselheiro Rui Leão Martinho, "a fixação das metas demasiado ambiciosas e com reduzida aderência à realidade, longe de permitir um mais rápido regresso aos mercados, coloca o país perante uma situação de incumprimento reiterado".
O CES receia que o país esteja a entrar "num círculo vicioso de recessão e aumento da dívida, aproximando-se da situação grega".
O Conselho sublinha que a estratégia de consolidação orçamental se alterou "em seis meses no que respeita à contribuição relativa das medidas do lado da despesa e da receita, refletindo em grande medida a inclusão de um conjunto de medidas substitutivas das consideradas inaplicáveis a partir de 2013 pelo Tribunal Constitucional e visando maior equidade na distribuição do esforço de consolidação orçamental".
No conjunto de medidas de consolidação orçamental que constam no OE2013, cerca de 20% incidem sobre a redução da despesa e 80% sobre o aumento da receita, mesmo quando o Governo já tinha reconhecido, aquando do OE2012, que "o esforço do lado da receita atingiu já os limites do sustentável", refere o documento.
"Mesmo tendo em conta que parte do agravamento fiscal procura compensar a reposição de um subsídio aos trabalhadores do setor público e de 1,1 subsídios no caso dos aposentados e reformados, a proposta de Orçamento do Estado para 2013 está longe daquele princípio" e "sem este efeito, o contributo da redução da despesa seria de 50,6%".
O CES lamenta ainda que o processo "profundo e abrangente" para identificar cortes substanciais na despesa, que, segundo o Governo, conduzirá, em 2014, a poupanças da ordem de 1,75% do PIB não se tenha iniciado mais cedo, evitando-se deste modo, em 2013, um aumento da carga fiscal "tão nocivo para os cidadãos e para as empresas".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de segunda-feira, será votado no plenário do CES a 05 de novembro, no Parlamento.
O Conselho Económico e Social considera que as metas traçadas pelo Governo na proposta do Orçamento para 2013 são "demasiado ambiciosas", dificultando o regresso aos mercados e podendo conduzir Portugal ao "incumprimento" e a aproximar-se da situação grega.
Estas considerações constam do projeto de parecer sobre o Orçamento para 2013 (OE2013), ao qual a Lusa teve acesso, e que será analisado, esta segunda-feira, pela Comissão Especializada Permanente de Política Económica e Social (CEPES).
De acordo com o documento, elaborado pelo conselheiro Rui Leão Martinho, "a fixação das metas demasiado ambiciosas e com reduzida aderência à realidade, longe de permitir um mais rápido regresso aos mercados, coloca o país perante uma situação de incumprimento reiterado".
O CES receia que o país esteja a entrar "num círculo vicioso de recessão e aumento da dívida, aproximando-se da situação grega".
O Conselho sublinha que a estratégia de consolidação orçamental se alterou "em seis meses no que respeita à contribuição relativa das medidas do lado da despesa e da receita, refletindo em grande medida a inclusão de um conjunto de medidas substitutivas das consideradas inaplicáveis a partir de 2013 pelo Tribunal Constitucional e visando maior equidade na distribuição do esforço de consolidação orçamental".
No conjunto de medidas de consolidação orçamental que constam no OE2013, cerca de 20% incidem sobre a redução da despesa e 80% sobre o aumento da receita, mesmo quando o Governo já tinha reconhecido, aquando do OE2012, que "o esforço do lado da receita atingiu já os limites do sustentável", refere o documento.
"Mesmo tendo em conta que parte do agravamento fiscal procura compensar a reposição de um subsídio aos trabalhadores do setor público e de 1,1 subsídios no caso dos aposentados e reformados, a proposta de Orçamento do Estado para 2013 está longe daquele princípio" e "sem este efeito, o contributo da redução da despesa seria de 50,6%".
O CES lamenta ainda que o processo "profundo e abrangente" para identificar cortes substanciais na despesa, que, segundo o Governo, conduzirá, em 2014, a poupanças da ordem de 1,75% do PIB não se tenha iniciado mais cedo, evitando-se deste modo, em 2013, um aumento da carga fiscal "tão nocivo para os cidadãos e para as empresas".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de segunda-feira, será votado no plenário do CES a 05 de novembro, no Parlamento.
Alunos carenciados em Castelo Branco já levam sobras da cantina para casa
Maria João Costa, RR
Director de uma das escolas da cidade explica que têm sido servidos "pequenos-almoços acrescidos" na cantina, porque, "infelizmente, sabemos que a única refeição que têm por vezes é a da cantina da escola".
O número de alunos carenciados na escola secundária Amato Lusitano, em Castelo Branco, aumentou em 50%. Além do pequeno-almoço e almoço, muitos levam para casa as sobras. O director da instituição diz que a escola está atenta à crise, que não pede licença para entrar.
“Posso dizer que, nos últimos tempos, o número de alunos carenciados aumentou 50%. Isto quer dizer que temos mais de 40% dos alunos na escola com necessidades e apoiados pela acção social escolar”, lamenta o director da secundária Amato Lusitano, João Belém.
O desemprego que afecta o concelho de Castelo Branco e a situação crítica de muitas famílias passaram a ser uma preocupação para o director da escola. "Em termos de refeições na cantina, aumentámos a 100% e temos de estar continuamente a controlá-los, porque chegamos a ter miúdos que chegam ao meio-dia sem ter tomado o pequeno-almoço", conta à Renascença João Belém.
Embora não seja essa a "obrigação institucional" da escola, o director explica que têm sido servidos "pequenos-almoços acrescidos" na cantina, porque, "infelizmente, sabemos que a única refeição que têm por vezes é a da cantina da escola".
"Às vezes, tentamos dar algum suplemento e alguns até, se têm dificuldades, podem levar para casa algumas sobras”, explica João Belém.
Director de uma das escolas da cidade explica que têm sido servidos "pequenos-almoços acrescidos" na cantina, porque, "infelizmente, sabemos que a única refeição que têm por vezes é a da cantina da escola".
O número de alunos carenciados na escola secundária Amato Lusitano, em Castelo Branco, aumentou em 50%. Além do pequeno-almoço e almoço, muitos levam para casa as sobras. O director da instituição diz que a escola está atenta à crise, que não pede licença para entrar.
“Posso dizer que, nos últimos tempos, o número de alunos carenciados aumentou 50%. Isto quer dizer que temos mais de 40% dos alunos na escola com necessidades e apoiados pela acção social escolar”, lamenta o director da secundária Amato Lusitano, João Belém.
O desemprego que afecta o concelho de Castelo Branco e a situação crítica de muitas famílias passaram a ser uma preocupação para o director da escola. "Em termos de refeições na cantina, aumentámos a 100% e temos de estar continuamente a controlá-los, porque chegamos a ter miúdos que chegam ao meio-dia sem ter tomado o pequeno-almoço", conta à Renascença João Belém.
Embora não seja essa a "obrigação institucional" da escola, o director explica que têm sido servidos "pequenos-almoços acrescidos" na cantina, porque, "infelizmente, sabemos que a única refeição que têm por vezes é a da cantina da escola".
"Às vezes, tentamos dar algum suplemento e alguns até, se têm dificuldades, podem levar para casa algumas sobras”, explica João Belém.
Conselho Económico e Social diz que recessão de "apenas 1%" prevista para 2013 "é irrealista"
in Jornal de Notícias
O Conselho Económico e Social considera que o cenário macroeconómico apresentado na proposta do Orçamento do Estado para 2013 será difícil de concretizar e classifica de "irrealista" a previsão de uma recessão de apenas 1% no próximo ano.
De acordo com o projeto de parecer sobre o Orçamento do Estado (OE) 2013, ao qual a Lusa teve acesso, elaborado pelo conselheiro Rui Leão Martinho e que será apreciado hoje na Comissão Especializada Permanente de Política Económica e Social (CEPES), "o Conselho Económico e Social (CES) considera dificilmente concretizável o cenário macroeconómico apresentado na proposta de Orçamento".
Entende que "a previsão de uma recessão de apenas 1% no próximo ano é irrealista" e que "não existe qualquer base objetiva para esperar que venha a haver crescimento no segundo trimestre de 2013".
O CES adverte que "o aumento da carga fiscal sobre as famílias irá acentuar a quebra do rendimento disponível, a qual terá efeitos recessivos, afetando não apenas o consumo, mas também o investimento".
Nesse sentido, o Conselho "vê com muita preocupação o aumento do IRS, que irá ter efeitos imediatos no rendimento disponível devido à alteração dos escalões e das tabelas de retenção na fonte e à sobretaxa de 4%".
Este aumento da carga fiscal, alerta o CES, irá conduzir à "contração da procura interna, que se vem tornando patente através do número elevado de insolvências e falências".
O CES chama igualmente a atenção para o facto de o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter admitido ter calculado mal o impacto da austeridade sobre a economia.
"Enquanto antes estimava que com menos um euro na despesa se perdia 0,5 euros no PIB (Produto Interno Bruto), agora admite que essa perda varia entre 0,9 e 1,7", assinala o CES.
Apesar de o Ministério das Finanças não divulgar que indicador utiliza para Portugal, o CES estima que "se forem adotados aqueles multiplicadores [usados pelo FMI] tem-se, considerando um esforço orçamental de 5.338 milhões de euros, uma queda do PIB entre 2,8 e 5,3%".
O CES adverte ainda que a proposta do Orçamento do Estado irá determinar uma recessão "mais profunda do que o previsto, o que terá efeitos na redução do nível de emprego e no agravamento do desemprego, que seguramente será também mais elevado do que o previsto, com as previsíveis consequências em matéria orçamental que decorrem do crescimento das prestações sociais".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de segunda-feira, será votado no plenário do CES a 05 de novembro.
O Conselho Económico e Social considera que o cenário macroeconómico apresentado na proposta do Orçamento do Estado para 2013 será difícil de concretizar e classifica de "irrealista" a previsão de uma recessão de apenas 1% no próximo ano.
De acordo com o projeto de parecer sobre o Orçamento do Estado (OE) 2013, ao qual a Lusa teve acesso, elaborado pelo conselheiro Rui Leão Martinho e que será apreciado hoje na Comissão Especializada Permanente de Política Económica e Social (CEPES), "o Conselho Económico e Social (CES) considera dificilmente concretizável o cenário macroeconómico apresentado na proposta de Orçamento".
Entende que "a previsão de uma recessão de apenas 1% no próximo ano é irrealista" e que "não existe qualquer base objetiva para esperar que venha a haver crescimento no segundo trimestre de 2013".
O CES adverte que "o aumento da carga fiscal sobre as famílias irá acentuar a quebra do rendimento disponível, a qual terá efeitos recessivos, afetando não apenas o consumo, mas também o investimento".
Nesse sentido, o Conselho "vê com muita preocupação o aumento do IRS, que irá ter efeitos imediatos no rendimento disponível devido à alteração dos escalões e das tabelas de retenção na fonte e à sobretaxa de 4%".
Este aumento da carga fiscal, alerta o CES, irá conduzir à "contração da procura interna, que se vem tornando patente através do número elevado de insolvências e falências".
O CES chama igualmente a atenção para o facto de o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter admitido ter calculado mal o impacto da austeridade sobre a economia.
"Enquanto antes estimava que com menos um euro na despesa se perdia 0,5 euros no PIB (Produto Interno Bruto), agora admite que essa perda varia entre 0,9 e 1,7", assinala o CES.
Apesar de o Ministério das Finanças não divulgar que indicador utiliza para Portugal, o CES estima que "se forem adotados aqueles multiplicadores [usados pelo FMI] tem-se, considerando um esforço orçamental de 5.338 milhões de euros, uma queda do PIB entre 2,8 e 5,3%".
O CES adverte ainda que a proposta do Orçamento do Estado irá determinar uma recessão "mais profunda do que o previsto, o que terá efeitos na redução do nível de emprego e no agravamento do desemprego, que seguramente será também mais elevado do que o previsto, com as previsíveis consequências em matéria orçamental que decorrem do crescimento das prestações sociais".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de segunda-feira, será votado no plenário do CES a 05 de novembro.
Economia portuguesa destruiu 428 mil empregos desde chegada da "troika"
in Jornal de Notícias
O Conselho Económico e Social estima que no espaço de cinco anos, entre 2008 e 2013, a economia portuguesa tenha destruído quase 650 mil empregos, 428 mil dos quais desde que Portugal pediu ajuda externa à "troika".
De acordo com o projeto de parecer sobre o Orçamento do Estado para 2013, ao qual a Lusa teve acesso, o Conselho Económico e Social (CES) salienta o facto de Portugal ser dos países que mais está a reduzir o nível de emprego e em que a taxa de desemprego mais tem subido.
Prevê, por isso, que "no final do terceiro ano do programa de ajustamento (PAEF), Portugal terá menos 428 mil empregos do que no início do PAEF (-4,3% em 2012 e -1,7% em 2013)".
"Se atendermos a que o nível de emprego era de 5,198 milhões em 2008, prevemos que em 2013 terão sido suprimidos 647,7 mil empregos", lê-se no documento, cujo relator é o conselheiro Rui Leão Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas.
O CES manifesta ainda alguma preocupação perante o facto de a proposta do Orçamento "consagrar uma diminuição significativa do nível de proteção social e da despesa social em geral, sendo relevante salientar o elevado número de desempregados sem prestações de desemprego, a diminuição do valor das prestações de desemprego e de doença".
Neste âmbito, "o CES não pode deixar de alertar para as possíveis consequências, no plano político, decorrentes de situações de desamparo, miséria, incerteza, insegurança e intranquilidade que poderão contribuir de forma muito grave para situações de rotura social".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de hoje, será votado no plenário do CES a 05 de novembro, no Parlamento.
O Conselho Económico e Social estima que no espaço de cinco anos, entre 2008 e 2013, a economia portuguesa tenha destruído quase 650 mil empregos, 428 mil dos quais desde que Portugal pediu ajuda externa à "troika".
De acordo com o projeto de parecer sobre o Orçamento do Estado para 2013, ao qual a Lusa teve acesso, o Conselho Económico e Social (CES) salienta o facto de Portugal ser dos países que mais está a reduzir o nível de emprego e em que a taxa de desemprego mais tem subido.
Prevê, por isso, que "no final do terceiro ano do programa de ajustamento (PAEF), Portugal terá menos 428 mil empregos do que no início do PAEF (-4,3% em 2012 e -1,7% em 2013)".
"Se atendermos a que o nível de emprego era de 5,198 milhões em 2008, prevemos que em 2013 terão sido suprimidos 647,7 mil empregos", lê-se no documento, cujo relator é o conselheiro Rui Leão Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas.
O CES manifesta ainda alguma preocupação perante o facto de a proposta do Orçamento "consagrar uma diminuição significativa do nível de proteção social e da despesa social em geral, sendo relevante salientar o elevado número de desempregados sem prestações de desemprego, a diminuição do valor das prestações de desemprego e de doença".
Neste âmbito, "o CES não pode deixar de alertar para as possíveis consequências, no plano político, decorrentes de situações de desamparo, miséria, incerteza, insegurança e intranquilidade que poderão contribuir de forma muito grave para situações de rotura social".
O projeto de parecer sobre o OE2013, que poderá sofrer algumas alterações na reunião de hoje, será votado no plenário do CES a 05 de novembro, no Parlamento.
27.10.12
“Portugueses não merecem o que lhes estão a fazer”
in RR
O escritor acha “infame os portugueses terem que ir procurar noutros países aquilo que deviam ter no país. Não entendo porquê tanta insensibilidade, tanta imaturidade, tanta crueldade e porquê tanta estupidez”.
Em entrevista exclusiva ao “Ensaio Geral”, da Renascença, Lobo Antunes lembra um episódio passado para comparar os políticos do 25 de Abril com os actuais. A comparação não é boa para a actualidade, segundo o escritor.
“A seguir ao 25 de Abril a Snu Abecassis, que era a fundadora da D. Quixote, convidou os dirigentes dos partidos, cada um deles, para escrever (o Cunhal, o Freitas do Amaral, o Mário Soares, o Sá Carneiro). Repare a diferença, como cabeças com maturidade, como amor ao país, com os dirigentes de agora… o Passos Coelho, mais este mais aquele. Não há comparação possível, não me merecem o menor respeito”.
“Tive a maior relutância em apertar a mão ao primeiro-ministro na Feira do Livro e só apertei porque a editora insistiu comigo, não tenho a menor vontade de apertar a mão a essas pessoas”, refere.
A crise está a atingir quase todos em Portugal e até a esperança começa a faltar a alguns: “Que esperança tem um rapaz e uma rapariga que acabam o curso agora e ganham 400, 500 euros ou 600 euros. É de uma desumanidade total”.
Noutro âmbito, Lobo Antunes falou também sobre a morte. “As pessoas andam por aí, os mortos continuam a andar por aí, os cemitérios estão vazios e talvez por dificuldade em aceitar a finitude, a morte e a injustiça do sofrimento. Vi morrer tanta gente nos hospitais, na guerra e sempre me pareceu tão injusto. De uma maneira talvez egoísta, infantil, não consigo aceitar, a revolta é enorme”, refere.
“Gosto de saber que eles [mortos] continuam mais felizes do que aqui, noutro sítio melhor. Pelo menos sempre me dá alguma esperança”, acrescenta.
Segundo Lobo Antunes, “conseguimos viver sem tudo, mas não conseguimos viver sem esperança, nem sem futuro”.
"Não sei se vou escrever mais livros"
O escritor António Lobo Antunes é o homenageado deste ano no “Escritaria”, em Penafiel. Nesta entrevista à Renascença diz que consegue imaginar a sua vida sem escrita, apesar de confirmar que seria “difícil”. “Só não consigo imaginar a minha vida sem respirar”.
“Parece que construí tudo para escrever. Se uma pessoa se torna escritor, se um escritor se torna pessoa… não sei bem como as coisas funcionam. Por enquanto ainda me é difícil imaginar a minha vida sem isso, no futuro não sei”.
Precisamente sobre o futuro, o escritor diz não saber se vai publicar mais livros ou não. No entanto, deixa escapar que os seus livros - “aqueles que escrevi até agora – formam uma espécie de contínuo e ainda não cheguei ao fim”.
“Os livros deram-me muito mais do que eu podia imaginar. Nunca imaginei todos estes prémios, todas estas traduções e nada disto estava na minha cabeça. Comecei a publicar por acaso. Tenho muita dificuldade a falar sobre eles, é como se estivesse a revelar coisas demasiado íntimas para serem partilhadas. As pessoas têm direito aos livros com o que lá está escrito dentro e mais nada, não têm direito à minha vida, embora, por outro lado, tenha uma gratidão enorme” para com os leitores.
“O que gostaria, se fosse possível, era pôr a vida inteira entre as capas de um livro”, acrescenta o escritor.
Por falar em livros, estes “variam consoante a forma como a gente os lê e muitas vezes pergunto-me se os livros falam ou se é o leitor que fala e o livro ouve. Se calhar os livros bons são orelhas que nos escutam e estão à nossa espera, falam connosco e interpelam-nos”.
Lobo Antunes tem um novo livro "Não é meia-noite quem quer". “Este foi um livro muito estranho na minha vida. Foi dado, apareceu assim de repente, não foi difícil de escrever, parecia que estava a ouvir uma voz, uma voz que ditava, uma voz que ia falando”.
E, a fechar, o que pretende António Lobo Antunes deixar aos seus leitores? “Não quero deixar nada, quero ficar inteiro até ao fim dos tempos”.
No "Ensaio Geral" desta semana, o presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d'Oliveira Martins, também fala de António Lobo Antunes.
O escritor acha “infame os portugueses terem que ir procurar noutros países aquilo que deviam ter no país. Não entendo porquê tanta insensibilidade, tanta imaturidade, tanta crueldade e porquê tanta estupidez”.
Em entrevista exclusiva ao “Ensaio Geral”, da Renascença, Lobo Antunes lembra um episódio passado para comparar os políticos do 25 de Abril com os actuais. A comparação não é boa para a actualidade, segundo o escritor.
“A seguir ao 25 de Abril a Snu Abecassis, que era a fundadora da D. Quixote, convidou os dirigentes dos partidos, cada um deles, para escrever (o Cunhal, o Freitas do Amaral, o Mário Soares, o Sá Carneiro). Repare a diferença, como cabeças com maturidade, como amor ao país, com os dirigentes de agora… o Passos Coelho, mais este mais aquele. Não há comparação possível, não me merecem o menor respeito”.
“Tive a maior relutância em apertar a mão ao primeiro-ministro na Feira do Livro e só apertei porque a editora insistiu comigo, não tenho a menor vontade de apertar a mão a essas pessoas”, refere.
A crise está a atingir quase todos em Portugal e até a esperança começa a faltar a alguns: “Que esperança tem um rapaz e uma rapariga que acabam o curso agora e ganham 400, 500 euros ou 600 euros. É de uma desumanidade total”.
Noutro âmbito, Lobo Antunes falou também sobre a morte. “As pessoas andam por aí, os mortos continuam a andar por aí, os cemitérios estão vazios e talvez por dificuldade em aceitar a finitude, a morte e a injustiça do sofrimento. Vi morrer tanta gente nos hospitais, na guerra e sempre me pareceu tão injusto. De uma maneira talvez egoísta, infantil, não consigo aceitar, a revolta é enorme”, refere.
“Gosto de saber que eles [mortos] continuam mais felizes do que aqui, noutro sítio melhor. Pelo menos sempre me dá alguma esperança”, acrescenta.
Segundo Lobo Antunes, “conseguimos viver sem tudo, mas não conseguimos viver sem esperança, nem sem futuro”.
"Não sei se vou escrever mais livros"
O escritor António Lobo Antunes é o homenageado deste ano no “Escritaria”, em Penafiel. Nesta entrevista à Renascença diz que consegue imaginar a sua vida sem escrita, apesar de confirmar que seria “difícil”. “Só não consigo imaginar a minha vida sem respirar”.
“Parece que construí tudo para escrever. Se uma pessoa se torna escritor, se um escritor se torna pessoa… não sei bem como as coisas funcionam. Por enquanto ainda me é difícil imaginar a minha vida sem isso, no futuro não sei”.
Precisamente sobre o futuro, o escritor diz não saber se vai publicar mais livros ou não. No entanto, deixa escapar que os seus livros - “aqueles que escrevi até agora – formam uma espécie de contínuo e ainda não cheguei ao fim”.
“Os livros deram-me muito mais do que eu podia imaginar. Nunca imaginei todos estes prémios, todas estas traduções e nada disto estava na minha cabeça. Comecei a publicar por acaso. Tenho muita dificuldade a falar sobre eles, é como se estivesse a revelar coisas demasiado íntimas para serem partilhadas. As pessoas têm direito aos livros com o que lá está escrito dentro e mais nada, não têm direito à minha vida, embora, por outro lado, tenha uma gratidão enorme” para com os leitores.
“O que gostaria, se fosse possível, era pôr a vida inteira entre as capas de um livro”, acrescenta o escritor.
Por falar em livros, estes “variam consoante a forma como a gente os lê e muitas vezes pergunto-me se os livros falam ou se é o leitor que fala e o livro ouve. Se calhar os livros bons são orelhas que nos escutam e estão à nossa espera, falam connosco e interpelam-nos”.
Lobo Antunes tem um novo livro "Não é meia-noite quem quer". “Este foi um livro muito estranho na minha vida. Foi dado, apareceu assim de repente, não foi difícil de escrever, parecia que estava a ouvir uma voz, uma voz que ditava, uma voz que ia falando”.
E, a fechar, o que pretende António Lobo Antunes deixar aos seus leitores? “Não quero deixar nada, quero ficar inteiro até ao fim dos tempos”.
No "Ensaio Geral" desta semana, o presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d'Oliveira Martins, também fala de António Lobo Antunes.
Casas que já foram da aristocracia dão agora tecto aos mais pobres
Por Ricardo Vilhena, in Público on-line
Casas a precisar de obras num dos bairros mais calmos da cidade de Setúbal, perto do Jardim do Bonfim, de escolas, da junta de freguesia e de todo o tipo de serviços, bem servido de acessos e boa exposição solar. Esta podia ser uma propaganda de imobiliária, mas nestas casas, quatro anexos com pátio situados nas traseiras de uma moradia abandonada da antiga aristocracia setubalense, vivem sete adultos e duas crianças, que lutam para sair da pobreza e esperam, há vários anos, que a câmara lhes possa dar uma casa.
José Carlos, um dos moradores mais antigos - está aqui desde 2000 -, tem 29 anos e a vida deu-lhe uma especialização em "alojamento familiar não clássico", classificação que os Censos usam agora para designar as casas entre o "clássico" e a "barraca". "Anda muita gente enganada porque as barracas ainda existem, mas agora já não são feitas de madeira", explica. "Não tive uma infância feliz, saí de casa aos 10 anos, vivi sempre na rua e em casas ocupadas e continuo à procura da minha liberdade", resume.
O "Zé", como é conhecido por toda a gente, é um faz-tudo, desmonta computadores, lida com instalações eléctricas, pinta, faz biscates. Vive a crise da identidade: nasceu cabo-verdiano no Portugal de 1983 mas nunca visitou Cabo Verde. Ironias da lei antiga que ainda hoje lhe dão histórias de discriminação para contar e vender.
"Estamos aqui para construir, não para destruir", adverte triste com as "bocas" que diz ouvir de vizinhos. "Muita gente diz mal, mas nem sequer nos conhece, não falam connosco", conta mostrando a sua pequena casa onde vive com a companheira, Séfora Silva. Uma cozinha, uma sala e um quarto, com o chão impecavelmente limpo e asseado. Tudo junto nem chega ao tamanho de uma assoalhada numa "casa clássica". A tinta teima em saltar das paredes por causa da humidade. A água ainda vem do furo do poço antigo da horta. A luz é subalugada "de uma vizinha que empresta".
O pátio onde esta comunidade de ocupantes vive não é visível da rua. É tapado por uma moradia quase centenária, das que existiam na antiga Horta do Peixe Rei. A horta chegou a ser propriedade, na década de 1930, de outro José Carlos, desta feita, José Carlos Girão Calheiros (1869-1962), condutor de obras públicas e antigo presidente do Club Setubalense, à época uma associação da elite setubalense.
A fachada de azulejos rematada com um friso de flores decorativo, uma concha e uma estátua denunciam que a construção é contemporânea do Bairro Salgado, bairro da antiga burguesia industrial com várias casas representativas do estilo Arte Nova e Art Deco, construído nos anos 20 e 30 do século passado. A casa também está ocupada, mas estes moradores não se mostraram receptivos a falar com o PÚBLICO.
Casas ricas com gente pobre
Os dois filhos pequenos de Susana Joaquim, 38 anos, nunca conheceram outra casa que não a do pátio. "Nós batalhamos todos os dias para sair daqui", assegura. Aqui todos os dias são dias mundiais da erradicação da pobreza. "Sentimos esta crise nos preços dos alimentos", queixa-se. Aqui ninguém faz compras há muitos anos: "ajeitam-se" móveis antigos e electrodomésticos recuperados do lixo.
Susana ainda viu a casa rica da frente, que nunca ocupou, com o recheio original ("até tinham um elefante com dentes de marfim"). "A casa era de uma senhora muito rica que já morreu. Um dos três herdeiros meteu-nos em tribunal por causa da ocupação das casas do pátio, mas o juiz mandou ficarmos até nos darem uma casa", conta. Desde 1998, altura em que as primeiras ocupações se iniciaram, Susana diz que os ocupantes nunca foram contactados directamente pelos donos das casas, "só pela via dos tribunais". Na Avenida Portela, o telhado de uma casa antes ocupada por Susana já caiu, mas aqui tudo é reparado e acarinhado.
Os grilhões da adversidade aprisionaram estas famílias a este pátio, numerado de A a D, com os cães e os pássaros de gaiola. Mas querem sair. "Disseram-nos em 2011 que ainda estão a tratar dos processos de 2004. A segunda via do nosso processo é de 2005, talvez seja agora a nossa vez", diz com esperança. "Nós não nos escondemos, nem escondemos a nossa situação, é bom que se saiba para podermos melhorar a nossa Séfora Silva concorda. Foi o amor que a trouxe aqui. O amor pelo Zé, não pela casa, entenda-se. Faz limpezas e lembra que na comunidade "toda a gente faz pela vida". As duas ponderam recorrer ao rendimento mínimo garantido, mas temem a burocracia. Até lá ninguém pára. "A vida não está para estarmos à espera que tudo nos caia do céu", sentencia Susana.Pedidos de casa duplicam
A pobreza está longe de ter sido erradicada em Setúbal. Os pedidos de habitação estão a aumentar no concelho. Este ano, de Janeiro a Agosto, entraram na câmara 28 novos requerimentos em busca de habitação. Em igual período no ano passado houve 11 novos pedidos. A autarquia tem aproximadamente 3000 pedidos de habitação activos, quando em 2007 este número se cifrava nos 2500. O número de casas de habitação social disponíveis na capital de distrito é muito reduzido.
A pobreza tem feito crescer bairros clandestinos em zonas periféricas da cidade. Na Estrada da Graça, a meio caminho entre o centro histórico da cidade e a zona industrial da Mitrena, há antigas fábricas ocupadas. Cerca de 60 famílias (mais de duas centenas de pessoas) construíram divisões de tijolo para viver na Quinta da Parvoíce (propriedade do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana) e na antiga fábrica da Mecânica Setubalense (propriedade da Segurança Social). A maior parte dos moradores é de origem angolana, originários de vagas de imigração dos finais do século passado. Já tiveram casa e emprego. Hoje criam os filhos e os netos nestes bairros improvisados.
A situação na Quinta da Parvoíce, que também já teve a designação de Quinta das Fontainhas nos anos 30 do século passado, já foi notícia, em Setembro de 2011, por outros motivos, quando a EDP acompanhada da polícia foi cortar a luz proveniente de puxadas ilegais.situação de vida", diz.
Casas a precisar de obras num dos bairros mais calmos da cidade de Setúbal, perto do Jardim do Bonfim, de escolas, da junta de freguesia e de todo o tipo de serviços, bem servido de acessos e boa exposição solar. Esta podia ser uma propaganda de imobiliária, mas nestas casas, quatro anexos com pátio situados nas traseiras de uma moradia abandonada da antiga aristocracia setubalense, vivem sete adultos e duas crianças, que lutam para sair da pobreza e esperam, há vários anos, que a câmara lhes possa dar uma casa.
José Carlos, um dos moradores mais antigos - está aqui desde 2000 -, tem 29 anos e a vida deu-lhe uma especialização em "alojamento familiar não clássico", classificação que os Censos usam agora para designar as casas entre o "clássico" e a "barraca". "Anda muita gente enganada porque as barracas ainda existem, mas agora já não são feitas de madeira", explica. "Não tive uma infância feliz, saí de casa aos 10 anos, vivi sempre na rua e em casas ocupadas e continuo à procura da minha liberdade", resume.
O "Zé", como é conhecido por toda a gente, é um faz-tudo, desmonta computadores, lida com instalações eléctricas, pinta, faz biscates. Vive a crise da identidade: nasceu cabo-verdiano no Portugal de 1983 mas nunca visitou Cabo Verde. Ironias da lei antiga que ainda hoje lhe dão histórias de discriminação para contar e vender.
"Estamos aqui para construir, não para destruir", adverte triste com as "bocas" que diz ouvir de vizinhos. "Muita gente diz mal, mas nem sequer nos conhece, não falam connosco", conta mostrando a sua pequena casa onde vive com a companheira, Séfora Silva. Uma cozinha, uma sala e um quarto, com o chão impecavelmente limpo e asseado. Tudo junto nem chega ao tamanho de uma assoalhada numa "casa clássica". A tinta teima em saltar das paredes por causa da humidade. A água ainda vem do furo do poço antigo da horta. A luz é subalugada "de uma vizinha que empresta".
O pátio onde esta comunidade de ocupantes vive não é visível da rua. É tapado por uma moradia quase centenária, das que existiam na antiga Horta do Peixe Rei. A horta chegou a ser propriedade, na década de 1930, de outro José Carlos, desta feita, José Carlos Girão Calheiros (1869-1962), condutor de obras públicas e antigo presidente do Club Setubalense, à época uma associação da elite setubalense.
A fachada de azulejos rematada com um friso de flores decorativo, uma concha e uma estátua denunciam que a construção é contemporânea do Bairro Salgado, bairro da antiga burguesia industrial com várias casas representativas do estilo Arte Nova e Art Deco, construído nos anos 20 e 30 do século passado. A casa também está ocupada, mas estes moradores não se mostraram receptivos a falar com o PÚBLICO.
Casas ricas com gente pobre
Os dois filhos pequenos de Susana Joaquim, 38 anos, nunca conheceram outra casa que não a do pátio. "Nós batalhamos todos os dias para sair daqui", assegura. Aqui todos os dias são dias mundiais da erradicação da pobreza. "Sentimos esta crise nos preços dos alimentos", queixa-se. Aqui ninguém faz compras há muitos anos: "ajeitam-se" móveis antigos e electrodomésticos recuperados do lixo.
Susana ainda viu a casa rica da frente, que nunca ocupou, com o recheio original ("até tinham um elefante com dentes de marfim"). "A casa era de uma senhora muito rica que já morreu. Um dos três herdeiros meteu-nos em tribunal por causa da ocupação das casas do pátio, mas o juiz mandou ficarmos até nos darem uma casa", conta. Desde 1998, altura em que as primeiras ocupações se iniciaram, Susana diz que os ocupantes nunca foram contactados directamente pelos donos das casas, "só pela via dos tribunais". Na Avenida Portela, o telhado de uma casa antes ocupada por Susana já caiu, mas aqui tudo é reparado e acarinhado.
Os grilhões da adversidade aprisionaram estas famílias a este pátio, numerado de A a D, com os cães e os pássaros de gaiola. Mas querem sair. "Disseram-nos em 2011 que ainda estão a tratar dos processos de 2004. A segunda via do nosso processo é de 2005, talvez seja agora a nossa vez", diz com esperança. "Nós não nos escondemos, nem escondemos a nossa situação, é bom que se saiba para podermos melhorar a nossa Séfora Silva concorda. Foi o amor que a trouxe aqui. O amor pelo Zé, não pela casa, entenda-se. Faz limpezas e lembra que na comunidade "toda a gente faz pela vida". As duas ponderam recorrer ao rendimento mínimo garantido, mas temem a burocracia. Até lá ninguém pára. "A vida não está para estarmos à espera que tudo nos caia do céu", sentencia Susana.Pedidos de casa duplicam
A pobreza está longe de ter sido erradicada em Setúbal. Os pedidos de habitação estão a aumentar no concelho. Este ano, de Janeiro a Agosto, entraram na câmara 28 novos requerimentos em busca de habitação. Em igual período no ano passado houve 11 novos pedidos. A autarquia tem aproximadamente 3000 pedidos de habitação activos, quando em 2007 este número se cifrava nos 2500. O número de casas de habitação social disponíveis na capital de distrito é muito reduzido.
A pobreza tem feito crescer bairros clandestinos em zonas periféricas da cidade. Na Estrada da Graça, a meio caminho entre o centro histórico da cidade e a zona industrial da Mitrena, há antigas fábricas ocupadas. Cerca de 60 famílias (mais de duas centenas de pessoas) construíram divisões de tijolo para viver na Quinta da Parvoíce (propriedade do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana) e na antiga fábrica da Mecânica Setubalense (propriedade da Segurança Social). A maior parte dos moradores é de origem angolana, originários de vagas de imigração dos finais do século passado. Já tiveram casa e emprego. Hoje criam os filhos e os netos nestes bairros improvisados.
A situação na Quinta da Parvoíce, que também já teve a designação de Quinta das Fontainhas nos anos 30 do século passado, já foi notícia, em Setembro de 2011, por outros motivos, quando a EDP acompanhada da polícia foi cortar a luz proveniente de puxadas ilegais.situação de vida", diz.
Já há quem faça dos pavilhões do parque industrial de Beja a sua casa
Por Carlos Dias, in Público on-line
A Câmara de Beja está confrontada com uma situação insólita: um pequeno empresário transformou o pavilhão que lhe foi cedido pela autarquia para instalar uma oficina de reparação de electrodomésticos em local de habitação.
As dificuldades financeiras não lhe permitem assumir os encargos com outro local de residência, obrigando-o a optar pelas instalações municipais, cuja renda também não paga. O problema foi analisado na reunião do executivo municipal de quarta-feira, mas o impasse mantém-se, dado o grave problema social que a autarquia tem em mãos.
O presidente da câmara, Jorge Pulido Valente, disse que o município já lhe perdoou algumas dívidas e reformulou outras, mas o empresário continua em incumprimento e a viver dentro do pavilhão que a autarquia construiu no parque industrial destinado às micro-empresas. Já foi apresentada queixa em tribunal, que reconheceu o montante da dívida, competindo agora ao município dar o passo seguinte: uma acção executiva que passa por desalojar o pequeno empresário. Só que esta não é solução que a câmara preconiza, face à condição social de extrema precariedade em que o visado se encontra "e não ser, do ponto de vista humano", a resposta que quer encontrar para resolver este problema.
No entanto, "mantê-lo lá não resolve nada", argumenta Pulido Valente. Frisa que se "corre o risco de transformar o parque industrial num bairro social", dando conta de que há outro caso semelhante e persiste a ameaça de que mais poderão vir a ocorrer, dada a dimensão da crise económica, desvirtuando a função das instalações que, além do mais, "não oferecem condições de habitabilidade".
Como a câmara tem um prazo de 20 anos para resolver o problema, depois de já ter transitado em julgado, decidiu-se "dar mais uma oportunidade" ao empresário, para que este encontre uma solução. Acontece que o empresário também tem dívidas por cobrar a clientes que a ele recorreram para reparar avarias em vários electrodomésticos. Uns estão arranjados, mas os seus proprietários não os vão levantar. Os que o fizeram garantiram que depois pagariam. A maioria das promessas ficou por cumprir.
As dificuldades com que os empresários se encontram por estes dias é também visível no número crescente de incumprimentos entre os que utilizam espaços camarários sob concessão. Só no mercado municipal, há oito comerciantes que ocupam lojas e estão em falta com o pagamento das respectivas rendas. "São incumprimentos crónicos", lamenta-se o autarca. Solução: proceder judicialmente e reclamar a entrega dos estabelecimentos. Mas como o negócio está fraco e a crise veio para durar, as dívidas vão continuar a acumular-se.
Tal como se acumulam as faltas de pagamento das rendas das casas sociais. Há casos de inquilinos que nem os cinco euros mensais conseguem pagar e os exemplos multiplicam-se por muitos dos 340 fogos dos bairros sociais da câmara. "Vamos pô-los na rua?", interroga-se Pulido Valente. Adianta que a autarquia seria de imediato chamada a disponibilizar alojamento, como acontece no caso das habitações entregues às instituições bancárias. "As Finanças contactam-nos a reclamar alojamento para aqueles que os bancos querem despejar", salienta o autarca. E responde de imediato: "Os bancos que resolvam o problema."
O mesmo não pode dizer a um número cada vez maior de pais que "não dispõem de um euro e meio para pagar as refeições dos filhos nas escolas", revela. E não esconde a sua preocupação com os dramas humanos que condicionam cada vez mais a capacidade de o município lidar com a pobreza crescente.
A Câmara de Beja está confrontada com uma situação insólita: um pequeno empresário transformou o pavilhão que lhe foi cedido pela autarquia para instalar uma oficina de reparação de electrodomésticos em local de habitação.
As dificuldades financeiras não lhe permitem assumir os encargos com outro local de residência, obrigando-o a optar pelas instalações municipais, cuja renda também não paga. O problema foi analisado na reunião do executivo municipal de quarta-feira, mas o impasse mantém-se, dado o grave problema social que a autarquia tem em mãos.
O presidente da câmara, Jorge Pulido Valente, disse que o município já lhe perdoou algumas dívidas e reformulou outras, mas o empresário continua em incumprimento e a viver dentro do pavilhão que a autarquia construiu no parque industrial destinado às micro-empresas. Já foi apresentada queixa em tribunal, que reconheceu o montante da dívida, competindo agora ao município dar o passo seguinte: uma acção executiva que passa por desalojar o pequeno empresário. Só que esta não é solução que a câmara preconiza, face à condição social de extrema precariedade em que o visado se encontra "e não ser, do ponto de vista humano", a resposta que quer encontrar para resolver este problema.
No entanto, "mantê-lo lá não resolve nada", argumenta Pulido Valente. Frisa que se "corre o risco de transformar o parque industrial num bairro social", dando conta de que há outro caso semelhante e persiste a ameaça de que mais poderão vir a ocorrer, dada a dimensão da crise económica, desvirtuando a função das instalações que, além do mais, "não oferecem condições de habitabilidade".
Como a câmara tem um prazo de 20 anos para resolver o problema, depois de já ter transitado em julgado, decidiu-se "dar mais uma oportunidade" ao empresário, para que este encontre uma solução. Acontece que o empresário também tem dívidas por cobrar a clientes que a ele recorreram para reparar avarias em vários electrodomésticos. Uns estão arranjados, mas os seus proprietários não os vão levantar. Os que o fizeram garantiram que depois pagariam. A maioria das promessas ficou por cumprir.
As dificuldades com que os empresários se encontram por estes dias é também visível no número crescente de incumprimentos entre os que utilizam espaços camarários sob concessão. Só no mercado municipal, há oito comerciantes que ocupam lojas e estão em falta com o pagamento das respectivas rendas. "São incumprimentos crónicos", lamenta-se o autarca. Solução: proceder judicialmente e reclamar a entrega dos estabelecimentos. Mas como o negócio está fraco e a crise veio para durar, as dívidas vão continuar a acumular-se.
Tal como se acumulam as faltas de pagamento das rendas das casas sociais. Há casos de inquilinos que nem os cinco euros mensais conseguem pagar e os exemplos multiplicam-se por muitos dos 340 fogos dos bairros sociais da câmara. "Vamos pô-los na rua?", interroga-se Pulido Valente. Adianta que a autarquia seria de imediato chamada a disponibilizar alojamento, como acontece no caso das habitações entregues às instituições bancárias. "As Finanças contactam-nos a reclamar alojamento para aqueles que os bancos querem despejar", salienta o autarca. E responde de imediato: "Os bancos que resolvam o problema."
O mesmo não pode dizer a um número cada vez maior de pais que "não dispõem de um euro e meio para pagar as refeições dos filhos nas escolas", revela. E não esconde a sua preocupação com os dramas humanos que condicionam cada vez mais a capacidade de o município lidar com a pobreza crescente.
Sobretaxa de 4% no IRS mantém-se pelo menos até 2014
Por Ana Rita Faria, in Público on-line
O Fundo Monetário Internacional (FMI) confirma aquilo que o Governo não disse directamente. A sobretaxa de 4% no IRS é para manter, pelo menos, até ao final do programa de ajuda, ou seja, até 2014. A menos que, entretanto, seja substituída por cortes permanentes do lado da despesa.
A confirmação consta do relatório do FMI relativo à quinta avaliação da troika. No documento hoje divulgado, o fundo escreve que a sobretaxa de 4% no IRS, que irá retirar aos trabalhadores cerca de metade de um salário mensal, “vai ser aplicada, pelo menos, durante a duração do programa ou até ser substituída por cortes permanentes na despesa”. Ou seja, pelo menos até 2014, os portugueses poderão ver o seu rendimento mensal diminuído por via desta contribuição em sede de IRS.
Esta possibilidade tinha já sido deixada no ar pelo ministro das Finanças. Vítor Gaspar foi questionado esta quarta-feira numa audição da Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças sobre se a sobretaxa se iria manter além de 2013 e, apesar de não ter respondido directamente à pergunta, não excluiu essa possibilidade. “O único comentário que farei é que a proposta consta da Lei do Orçamento para 2013”, limitou-se a dizer o ministro.
O deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, que tinha questionado o ministro, ainda o acusou de “falta de transparência” na resposta, mas Vítor Gaspar não disse mais nada.
Hoje, o relatório do FMI vem confirmar que, a menos que o Governo encontre medidas de dimensão equivalente do lado da despesa, a sobretaxa de IRS irá manter-se até ao final do programa de assistência.
Questionado sobre o assunto numa conferência de imprensa por telefone, o chefe de missão do FMI para Portugal, Abebe Selassie, defendeu que o objectivo da troika é que as medidas de consolidação usadas sejam “permanentes” mas, neste caso, admite que se houver medidas alternativas a sobretaxa poderá ser removida. “Há margem para o Governo encontrar alternativas, não somos dogmáticos a esse nível”, esclareceu Abebe Selassie.
Troika preferia cortes nas prestações sociais
No seu relatório sobre a quinta avaliação, o FMI repete a mensagem que tinha já sido deixada pela Comissão Europeia: a troika preferia que as medidas de consolidação orçamental para 2013 incidissem mais sobre cortes na despesa do que no aumento da receita.
O FMI diz mesmo que, retirando o impacto que tem na despesa a devolução de um dos subsídios à função pública em 2013 (após a suspensão dos dois este ano), as medidas do lado da despesa correspondem a apenas um quarto do esforço total de consolidação orçamental. Esta excessiva concentração do esforço de ajustamento do lado da receita é uma “fonte de risco” no cumprimento das metas do défice, reforçando a necessidade de o Governo reequilibrar esse esforço.
O FMI defende que o Governo tem de implementar a lei dos compromissos, fortalecer a administração tributária, reduzir os custos das Parcerias Público-Privadas e emagrecer mais a administração pública. Mas revela também qual foi o conselho da troika, dado em alternativa ao aumento de impostos previsto para 2013: cortar nas prestações sociais.
“A troika reforçou que cortes adicionais permanentes na factura das prestações sociais iria facilitar o progresso no sentido de atingir os objectivos orçamentais de médio prazo (dado o nível relativamente elevado da carga fiscal e o nível insustentável da despesa pública)”, escreve o FMI. A instituição salienta, contudo, que as autoridades portuguesas consideraram difícil identificar mais cortes na despesa nesta fase.
O Governo já disse que está a conduzir um trabalho de análise para identificar cortes de quatro mil milhões de euros na despesa pública, a realizar no próximo ano e, principalmente, em 2014.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) confirma aquilo que o Governo não disse directamente. A sobretaxa de 4% no IRS é para manter, pelo menos, até ao final do programa de ajuda, ou seja, até 2014. A menos que, entretanto, seja substituída por cortes permanentes do lado da despesa.
A confirmação consta do relatório do FMI relativo à quinta avaliação da troika. No documento hoje divulgado, o fundo escreve que a sobretaxa de 4% no IRS, que irá retirar aos trabalhadores cerca de metade de um salário mensal, “vai ser aplicada, pelo menos, durante a duração do programa ou até ser substituída por cortes permanentes na despesa”. Ou seja, pelo menos até 2014, os portugueses poderão ver o seu rendimento mensal diminuído por via desta contribuição em sede de IRS.
Esta possibilidade tinha já sido deixada no ar pelo ministro das Finanças. Vítor Gaspar foi questionado esta quarta-feira numa audição da Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças sobre se a sobretaxa se iria manter além de 2013 e, apesar de não ter respondido directamente à pergunta, não excluiu essa possibilidade. “O único comentário que farei é que a proposta consta da Lei do Orçamento para 2013”, limitou-se a dizer o ministro.
O deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, que tinha questionado o ministro, ainda o acusou de “falta de transparência” na resposta, mas Vítor Gaspar não disse mais nada.
Hoje, o relatório do FMI vem confirmar que, a menos que o Governo encontre medidas de dimensão equivalente do lado da despesa, a sobretaxa de IRS irá manter-se até ao final do programa de assistência.
Questionado sobre o assunto numa conferência de imprensa por telefone, o chefe de missão do FMI para Portugal, Abebe Selassie, defendeu que o objectivo da troika é que as medidas de consolidação usadas sejam “permanentes” mas, neste caso, admite que se houver medidas alternativas a sobretaxa poderá ser removida. “Há margem para o Governo encontrar alternativas, não somos dogmáticos a esse nível”, esclareceu Abebe Selassie.
Troika preferia cortes nas prestações sociais
No seu relatório sobre a quinta avaliação, o FMI repete a mensagem que tinha já sido deixada pela Comissão Europeia: a troika preferia que as medidas de consolidação orçamental para 2013 incidissem mais sobre cortes na despesa do que no aumento da receita.
O FMI diz mesmo que, retirando o impacto que tem na despesa a devolução de um dos subsídios à função pública em 2013 (após a suspensão dos dois este ano), as medidas do lado da despesa correspondem a apenas um quarto do esforço total de consolidação orçamental. Esta excessiva concentração do esforço de ajustamento do lado da receita é uma “fonte de risco” no cumprimento das metas do défice, reforçando a necessidade de o Governo reequilibrar esse esforço.
O FMI defende que o Governo tem de implementar a lei dos compromissos, fortalecer a administração tributária, reduzir os custos das Parcerias Público-Privadas e emagrecer mais a administração pública. Mas revela também qual foi o conselho da troika, dado em alternativa ao aumento de impostos previsto para 2013: cortar nas prestações sociais.
“A troika reforçou que cortes adicionais permanentes na factura das prestações sociais iria facilitar o progresso no sentido de atingir os objectivos orçamentais de médio prazo (dado o nível relativamente elevado da carga fiscal e o nível insustentável da despesa pública)”, escreve o FMI. A instituição salienta, contudo, que as autoridades portuguesas consideraram difícil identificar mais cortes na despesa nesta fase.
O Governo já disse que está a conduzir um trabalho de análise para identificar cortes de quatro mil milhões de euros na despesa pública, a realizar no próximo ano e, principalmente, em 2014.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


