A última semana foi a pior desde o início da pandemia, com uma média de 1073 novas infecções a cada 24 horas. Número de internados subiu para os 843 e, segundo os médicos de saúde pública, as equipas de saúde pública já não estão a conseguir fazer a vigilância epidemiológica “desejável”.
“Não podemos não fazer nada e esperar que não seja esse o desfecho”, declarou ao PÚBLICO, lembrando que os meios, não só nos hospitais mas das equipas de saúde pública, não são reforçados desde Março. “Se não alocarmos mais profissionais e mais meios materiais para fazer o controlo da situação e interromper as cadeias de transmissão, os casos vão continuar a avolumar-se e a capacidade do SNS não é inesgotável”, declarou, num aviso algo contrastante com o optimismo demonstrado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que descartou ontem qualquer risco de ruptura na capacidade de resposta do SNS.
Sem desmentir que o SNS pode ter pressões “que são maiores em certos momentos, em certas unidades e em certas áreas, porque os ‘doentes covid’ não estão a surgir da mesma maneira em todo o território”, Marcelo Sousa mostrou-se ainda assim confiante na sua capacidade de resposta ao avolumar dos contágios. “Há condições para responder a isso, e o que está previsto, no caso de ser necessário, é uma mobilização de unidades do Sistema Nacional de Saúde, que não são apenas o SNS clássico, quer para ‘doentes não covid’, quer para ‘doentes covid’. Dou-lhe um exemplo: o Hospital de Forças Armadas”, adiantou.
Para Ricardo Mexia, porém, “as equipas de saúde pública já não estão a conseguir fazer a vigilância epidemiológica que era desejável e os meios já não são suficientes para fazer as vigilâncias activas e quebrar as cadeias de contactos”. Por outro lado, “os médicos de família, que além da actividade assistencial aos seus doentes estão a vigiar os casos positivos e os suspeitos, estão esgotados”, precisou ainda Mexia, para acrescentar que “é cada vez mais difícil aos hospitais darem resposta à realidade habitual, com todas as outras doenças que não desapareceram, e, ao mesmo tempo, responder à epidemia”. Com a aproximação da época da gripe, alerta, o cenário poderá piorar.
HSJ reforçou as tendas e Guimarães suspendeu espectáculos
O alerta do representante dos médicos de saúde pública surgiu no final da pior semana desde o início da pandemia, com um total de 7513 novas infecções e uma média diária de 1073 novos contágios pelo novo coronavírus, bastante acima da média de 792 novos casos a cada 24 horas registada na semana anterior. Ontem, com um total de 1090 novos casos (abaixo, ainda assim, dos recordistas 1646 registados no sábado), foi, de resto, o quarto dia consecutivo com mais de mil novos casos.
Quanto aos internamentos, a situação parece mais controlada. Isto apesar de o número de doentes internados vir a aumentar desde há oito dias consecutivos, havia à meia-noite de sábado 843 pessoas internadas (124 nos cuidados intensivos) face aos 404 internamentos registados a 11 de Setembro. Nos novos diagnósticos divulgados ontem, 57% ocorreram na região Norte do país: 625 novos casos, quase o dobro dos 329 casos em Lisboa e Vale do Tejo.
Por prever um aumento exponencial dos novos casos de contágio, e por estar já a sentir uma maior pressão nos serviços de urgência, o Hospital de São João, no Porto, decidiu reactivar seis tendas para a triagem de doentes com sintomas compatíveis com a covid-19. Do mesmo modo, e por ter esgotado a capacidade máxima para acolher novos infectados, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, viu-se obrigado a encaminhar dois doentes para o Hospital das Forças Armadas, em Lisboa. Ao mesmo tempo, o serviço de pneumologia do Hospital Amadora-Sintra deixou de receber novos doentes depois de terem sido detectados cinco casos de covid-19 entre doentes.
Este domingo também, em Guimarães, um dos concelhos onde a propagação do coronavírus parece estar a ocorrer em ritmo mais acelerado, o presidente da câmara, Domingos Bragança, determinou a suspensão temporária dos espectáculos programados para todos os equipamentos culturais do concelho. A decisão foi tomada depois de terem circulado imagens que sugeriram desrespeito pelas regras de segurança sanitárias numa sala de espectáculos da cidade. Apesar de ter concluído que não houve incumprimento da lotação máxima (964 pessoas num total de 2466 lugares), o autarca considerou que “a situação epidemiológica que actualmente se verifica no concelho obriga à adopção de regras mais restritivas”.