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20.1.22

Ílhavo cria laboratório dedicado ao envelhecimento para investigar mas também criar

Maria José Santana, in Público on-line

Num só espaço, irão ser trabalhadas as áreas da investigação, conhecimento e criação. Autarquia conta com vários parceiros, nomeadamente universidades e entidades dos sectores da saúde e social.

Os números não enganam: de acordo com os dados provisórios dos Censos de 2021, “Portugal tem hoje 2,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, ou seja, mais 20,6% em relação a 2010”. A referência foi feita pelo presidente da Câmara de Ílhavo, João Campolargo, para justificar a importância do novo Laboratório do Envelhecimento, equipamento que irá actuar ao nível da investigação, conhecimento e criação. Este novo projecto municipal conta já com vários parceiros, entre os quais estão várias instituições de ensino superior. Num só espaço, localizado no centro da cidade de Ílhavo, irão “coabitar” investigadores, técnicos, seniores e artistas.

Inaugurado esta segunda-feira, mas já em funcionamento desde finais de Novembro, este equipamento pretende ser “um precioso contributo para a política, o acompanhamento, a avaliação e as decisões de saúde pública com vista à promoção do envelhecimento saudável”, realçou o autarca, já depois de ter assinado um protocolo de colaboração com várias entidades parceiras. Universidade de Aveiro, Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração, Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra e o Politécnico de Leiria são as instituições de ensino superior envolvidas no projecto.

As expectativas passam por fazer deste um verdadeiro laboratório, que é, “por definição, um lugar de realização de experiências, trabalhos e investigações”. “É o lugar onde se realizam grandes transformações ou operações”, acrescentou o presidente da autarquia que tem vindo a desenvolver vários projectos na área do envelhecimento activo – disso são exemplo o Festival Cabelos Brancos e as Idolíadas, entre outros.
Espaço multifacetado

O Laboratório do Envelhecimento é composto de várias salas, cada uma delas com o seu próprio propósito. Há, por exemplo, um espaço dedicado à criação de produtos ou marcas pelas mãos de seniores e artistas – e que pretende ser o berço de uma incubadora social. Também foi reservado um espaço para a formação, com vista à aquisição e partilha de conhecimentos, e outro para a cultura, entre outras áreas de trabalho. Foi ali que já teve lugar, ao longo dos últimos dois meses, a iniciativa “Laboratório em Construção”, que fomentou conversas e oficinas para promover a reflexão sobre as necessidades sentidas em torno do envelhecimento populacional e potenciar a programação do espaço.

Entre as várias actividades que já têm data marcada, constam vários cursos e acções de formação, dedicados a temáticas como a diabetes, prevenção de quedas ou como envelhecer com humor. A agenda dos próximos meses também conta com vários projectos artísticos, estando igualmente a decorrer uma open call para artistas e realizadores. Segundo anunciou a autarquia, neste momento também já estão em curso alguns projectos de investigação, estando igualmente programadas algumas iniciativas de debate sobre trabalhos de investigação já concluídos.

“Como comunidade esta aposta é uma oportunidade. Temos de ser capazes de construir um mundo favorável aos maiores de idade, adoptando um olhar aberto à articulação sectorial, à multidisciplinaridade, à integração de serviços e à proximidade”, exortou João Campolargo.

Além das instituições académicas, o equipamento também já mereceu a atenção de organizações como o Centro de Saúde de Ílhavo, a Associação Apoio a Cuidadores de Pessoas Dependentes, a Mais Feliz - Associação Cultural e Social, a Associação Nacional de Gerontólogos e a Kentra Technologies.

3.3.21

Para artistas e escritores, foi tempo de registar ausências

Isabel Lucas, in Público on-line

Será sempre um diagnóstico incompleto, assustado, imediato da realidade. O de quem tentou o registo dos dias da pandemia como urgência artística, literária, sabendo-se a participar de um momento único. A qualidade estética do que fizeram, e nalguns casos ainda fazem, pode ser questionada, a sua utilidade histórica não.

A última imagem no Instagram é a de uma casa. Melhor, de um móvel numa casa, cheio de coisas, de fotografias. Entre elas há uma jarra com túlipas e frésias. As flores estão abertas. Sabemos que não são novas se tivermos seguido o seu percurso antes de chegarem à casa. Na jarra, confundem-se com o ambiente em volta, alteram-no à medida que envelhecem. São o único movimento que se antecipa. Noutra imagem, vislumbram-se as pernas e parte do tronco de alguém. Um rapaz? Segura um cigarro, o rosto encoberto pela copa da laranjeira. Vemo-lo por detrás do vidro da janela. Será um pátio de Lisboa onde sobressai o silêncio porque, por exemplo, já não passam aviões. É só outro vazio, o retrato de uma ausência, nada evidente. Tudo quieto, na inquietude da cidade onde há máscaras deixadas no chão, excrescência de outra falta, a de um rosto. “Não fotografo uma intimidade que revele muito, mas os vazios em que se transformou a maior parte dos sítios”, diz Luísa Ferreira, fotógrafa, que dia após dia capta imagens do que chama “um quotidiano de fechamento”. Porquê? “Por impulso. Porque nos silêncios, nas ausências, há quase um retrato deste tempo.”

Em imagens, em diários, nos traços de um cartoonista, nos filmes concretizados (ou falhados), em canções compostas no interior de uma casa. Como e porquê se tem registado, entre artistas e escritores portugueses, este tempo da pandemia, um tempo fora da ciência, das estatísticas, da política e da economia? Quase sempre por impulso, da forma que cada um encontra como mais natural. Esperando, ou não, chegar a uma linguagem próxima da arte.

Desde o princípio, há um ano. “Nessa altura estive sujeito a uma espécie de confinamento intermitente. Turnos de 12 horas no hospital alternando com dias fechado em casa, para funcionarmos em bolha, sempre na mesma equipa. Isso exigiu afastamento dos familiares e das pessoas externas ao trabalho. Escrever sob a forma de diário serviu uma função terapêutica, ou de organização mental, para os dias em que fiquei em casa, e respondeu à necessidade de registar um acontecimento de excepção, a cuja experiência não voltaria a ter acesso se não a fixasse exactamente enquanto a vivia. Nesse aspecto, houve também a noção de que era um material claramente literário e que poderia ser usado no futuro com esse intuito.”

Paulo Bugalho é neurologista, não estava na linha da frente do tratamento a doentes com covid-19. E é também autor de um romance, A Cabeça de Séneca (Gradiva, 2011). A 28 de Março, escreveu: “Não são só os tempos que transformam os nosso sítios em lugares de Hopper mas também a luz. Porque a Primavera prossegue, autónoma, na rua, e a luz entra do mesmo modo pelos vidros: só que agora apanha-nos em falso, a ocupar o sítio na parede onde o pintor desejara colocar apenas vácuo.”

O diário de uma incerteza

António, nome fictício, trabalha em cinema e tinha o projecto de adaptar os Diários de Kafka. Foi antes da pandemia. Depois o (seu) mundo ruiu. “Os registos são de uma relação que morreu lentamente com a pandemia”, conta. Ele é português, ela italiana e os dois dividiam o tempo entre Lisboa e Milão. “O confinamento, pelo azar de uma semana, apanhou-nos cada um em seu país e assim ficámos quatro meses. Eu fiquei sem trabalho e, claro, sem dinheiro. Ela continuou a trabalhar. Lidar com a incerteza do futuro repercutiu-se em mim numa ansiedade terrível.”

A relação acabou por terminar em Outubro de 2020, com António a somar cinco cadernos de registos desse tempo, mais os diálogos trocados no privado das redes sociais. Mais notas soltas, canções, pedaços de livros que iam dando sinais da fragilidade do tempo que vivia intimamente e tinha eco nos estilhaços do colectivo. Uma coisa e a outra estariam para sempre unidas. “O que tenho dá para argumento de uma telenovela”, diz, meio irónico, quando tenta juntar as peças num corpo de trabalho. “De repente, tudo e todos se tornaram ruído branco, como um transístor em dessintonia. E eu congelo, hipnotizado.” É uma nota sem uma data, entre muitas, em inglês, a língua em que ele e ela comunicavam, ou em português: “Estou farto de chegar ao Cais do Sodré sem chegar a conclusões. Pior, estou farto de nem me lembrar de sair de lá. Se hoje, ao menos, houvesse alguma coisa aberta no Cais do Sodré...” António resiste a chamar diário ao que tem escrito. “Não há a ideia de um diário em si, é apenas matéria, registo, mas que devidamente alinhavado e organizado pode sê-lo”, explica.

Por todo o mundo, em todos os textos, em todas as manifestações intencional ou potencialmente artísticas, há um traço comum que, um ano depois, se mantém: a incerteza. No meio da certeza absoluta de se viver um momento único. “Toda a gente sentia que estava a viver um momento histórico e, por causa disso, os escritores, os artistas em geral, começaram a registar os dias”, cumprindo uma velha tradição histórica, refere o historiador Rui Tavares, autor do podcast Agora, Agora e Mais Agora, que manteve no PÚBLICO entre Abril e Junho de 2020. “Fiz o podcast dentro dessa lógica. Era de História, mas a tentar registar o presente da pandemia.”

Por detrás de todos estes registos, uma espécie de urgência, um instinto primário. “Comecei a escrever o Diário da Peste a 20 de Março de 2020, com o aparecimento violento da pandemia”, conta Gonçalo M. Tavares sobre as crónicas diárias que assinou no Expresso durante três meses. Serão publicadas em livro em Abril. “Foi uma necessidade absoluta. Nesses dias estava completamente paralisado e obcecado. Percebi que diante dos acontecimentos fortíssimos a escrita teria de estar presente. Foi uma pura necessidade. Escrevi todos os dias, acompanhando o que ia acontecendo com a sensação de que era algo irrepetível, o aparecimento de uma espécie de catástrofe silenciosa que ninguém sabia como iria continuar. Ninguém sabia como reagir”, continua o escritor, admitindo que só terminou por exaustão física.

“Senti que era um documento que iria ficar; um documento de resposta instintiva de alguém que tenta perceber o que está a acontecer, tenta continuar a pensar, apesar de estar debaixo de uma espécie de bombardeamento silencioso e de choque. Aquele registo saltitante, rápido, tinha a ver com a velocidade de pensamento que estava na minha cabeça naqueles dias, uma velocidade louca.”

A 18 de Junho, escreveu: “Penso num fim do mundo que passa despercebido. Já chegou, dizem uns. Já chegou, mas já foi embora, dizem outros. O ballet de Nova Iorque cancela apresentações até 2021. Um ginásio da Califórnia cria cápsulas individuais. O esforço é solitário, e tal é mais do que justo. Em 2020, o fim do mundo é invisível. O fim do mundo aparece e não o vemos. E nada de essencial altera.” Pensa no que fez. “Se por acaso eu agora quisesse escrever uma espécie de memória desses dias, iria escrever de um ponto de vista completamente diferente, e, portanto, ali a grande vantagem foi essa, o diário obrigou a uma presença obsessiva”, comenta ao PÚBLICO.

A experiência ia sendo traduzida diariamente. O mundo percebia a realidade de que cada um, em qualquer parte do globo, falava, sentia. Havia reconhecimento, e alguns referentes históricos, artísticos, literários. “Mesmo que as pessoas não tivessem lido o Decameron, do Bocaccio, e as suas referências à peste negra, ou o Diário do Ano da Peste, do Defoe, sabiam que essas épocas geram esse tipo de registos. A pandemia de covid-19 vai ter gerado uma massa enorme de registos artísticos e documentos, e de obras de arte. Não só porque produzimos numa hora mais documentos do que outras eras inteiras têm para nos oferecer, mas porque mais gente tinha a noção de estar a viver um momento histórico e de que havia um papel geracional a cumprir”, justifica Rui Tavares, defendendo, diante da produção já existente, que “os arquivistas deviam já estar a entrar em campo”. Ou seja: “Como a massa documental é muito grande e é praticamente impossível de digerir, de absorver, a grande questão que se coloca é fazer já uma espécie de registo. Há muitas coisas em formato efémero. E que podem não fazer sentido se não estiverem reunidas num corpus documental.”

Entre a relevância e a utilidade

Entre os trabalhos literários já com relevância histórica inquestionável, Rui Tavares sublinha Wuhan Diary, livro da escritora chinesa Fang-Fang, que estava em Wuhan no início da pandemia e começou a escrever um diário online sobre o quotidiano da cidade. O historiador destaca também as imagens, a que chama retratos de ausências. Luísa Ferreira refere um sentimento semelhante no trabalho de colegas de profissão, como as máscaras retratadas por Augusto Brázio. Pensa na cidade onde vive, bem no centro, e fala do “peso surdo do silêncio” na estranheza dos primeiros dias de confinamento. Cada um procura a melhor expressão para o que Gonçalo M. Tavares designa de “diagnóstico meio assustado da realidade”. Como foi o seu.

O jornalista José Vegar fez um diário a que chamou O Registo do Tempo Contaminado. O Facebook foi a plataforma. Cada texto tinha uma ilustração de Filipe Homem Fonseca e uma música escolhida por Amadeu Vilaça. Começou a 18 de Março de 2020. “Todos os dias havia um texto onde queria registar a experiência colectiva. Tendo esse norte bem estabelecido, procurava os sinais dessa experiência, tanto na rua, observando, como na imprensa nacional e internacional, para tentar perceber o que estava a acontecer. O que me interessava mais não era a experiência imediata, mas o que estava a motivar os comportamentos, emoções, sentimentos. Queria também recuperar textos que tinham a ver com o medo e a pandemia e estavam esquecidos, desde J. G. Ballard a Ruy Duarte de Carvalho. E havia uma preocupação literária”, conta, notando que pela primeira vez usou o “nós” na escrita. Tratava-se de uma experiência colectiva de que não se punha de fora porque não era possível. “O ‘nós’ reforçava a noção de pertença a um colectivo.”

A primeira entrada desse diário reza assim: “Hoje será provavelmente o dia do fecho. Este que agora invade é um inimigo de natureza rara, de todos os que conhecemos ou nos contaram.” Parou nove meses depois, quando sentiu que esgotara os temas, que tudo parecia uma repetição de qualquer coisa. Os textos estão reunidos num livro à espera de editor.


Paulo Bugalho também pensa num hipotético livro. “Até lhe dei um título, O Teste”, diz. “A última entrada do diário, no final do primeiro confinamento, reflecte sobre a leitura das entradas anteriores e parece que a noção que fica é de um vasto pesadelo, que tenderemos a esquecer. Isso concluía eu, antes de vir a segunda a vaga e andarmos novamente nestes preparos. Se este tempo ficará como extraordinário – uma lacuna na normalidade – ou como o começo de um novo tempo – pior – ainda não é possível saber. O interesse do diário dependerá disso”, diz.

André Ruivo começou a desenhar os dias da pandemia nas redes sociais por se sentir sozinho. A razão é a mais simples e a mais complexa. Cada cartoon dava-lhe um feedback imediato que de outra forma não teria. E pela primeira fez juntou palavras aos desenhos. Um dia serão um livro. Ainda não. “São ilustrações do quotidiano. Há vários temas que são dos dias de hoje: o teletrabalho, a telescola, a máscara, os vizinhos, a família, pais e filhos, a loucura de estar em confinamento, doenças mentais, o take away, a casa”, vai elencando. E a espera. A relação com o tempo, “um tempo mais escuro, por não se saber também o que vem depois”, como sugerem ainda as imagens de Luísa Ferreira na relação com a casa e a redescoberta dos objectos de sempre. A tragédia de se ser despejado de uma Lisboa deserta porque a lei do mercado ainda é a da Lisboa cheia de turistas. Contradições fotografadas, como a luz dos fins de tarde na penumbra de uma sala da cidade.

É a cidade em que Sandra Nobre, jornalista, começou a olhar pela janela e escreveu “sobre a situação que nos apanhou de surpresa, o não sair de casa”, refere. “A reclusão fez-me observar os vizinhos do prédio em frente, quase ninguém tem cortinas, e comecei a criar quase um enredo, que servia para falar da dinâmica das famílias e das suas rotinas – cozinha, exercício físico, vestuário, etc. Quando fiquei dois dias sem publicar, comecei a receber mensagens a perguntarem-me o que acontecera ao vizinho. Fui apanhada de surpresa pelo interesse e fiz disso uma rotina, por perceber que fazia a diferença na vida de alguns que encontravam nas minhas palavras algum conforto ou se reviam no que escrevia. E a escrita era a minha companhia, como antes já o era.”

Gonçalo M. Tavares destaca justamente essa função quase utilitária que a escrita pode ter, e teve nos dias do confinamento, “uma sensação de uma comunidade qualquer, comunidade do pânico”. “Foi muito forte”, acrescenta, “porque também foi sensação de que havia uma espécie de utilidade no diário. Uma utilidade estranha, que não tinha a ver com animar nada.”


11.1.21

Ricardinho era um jovem “nem-nem” e viu no hip hop uma alavanca

Ana Cristina Pereira (Texto), Adriano Miranda (Fotos) e Teresa Pacheco Miranda (Vídeo), in Público on-line

Abandonara a escola e só arranjava trabalhos pontuais, o projecto OUPA! serviu-lhe de abanão. Foi acabar o secundário e pôs-se a fazer trabalho na comunidade. Tem sido uma luta, mas sente que o seu esforço começa a ser reconhecido. Trabalha como “dinamizador cultural”. Terceiro capítulo de uma série sobre inclusão laboral, em dose dupla.

O cheiro a mofo está entranhado na cave. Pouco se aproveita dos móveis que foram sendo oferecidos aos artistas hip hop do Bairro do Cerco do Porto que ali se sentaram tantas vezes. Três inundações num ano. Fama e dinheiro, nada. Mas o esforço está a trazer alguns frutos. Ricardinho Lopes tornou-se “dinamizador cultural”.

Conhece todos os cantos do bairro. Viveu os seus 29 anos naquele território acossado pelo tráfico de drogas. A experiência mostra-lhe que a aglomeração de pobreza e exclusão, como acontece ali, na freguesia de Campanhã, afecta tudo, mas também que em qualquer lugar se pode coleccionar instantes de felicidade. “Foi aqui que fiz as minhas maiores amizades, é aqui que eu tenho o meu sangue e suor deixado. Viver no Cerco acaba por ser a melhor coisa do mundo.”


Quando era pequeno, “tinha vontade de ser jogador de futebol”. Jogava no clube do bairro. Não era o seu único interesse. Gostava de teatro, música, dança. Se pudesse voltar atrás, tirava um curso profissional de animação cultural, não de dinamização desportiva. Teria agora mais ferramentas de trabalho.

Abandonou a escola em 2012, sem fazer uma disciplina do curso. Andou desanimado. O país mergulhara numa crise. O pai, transportador e vendedor de peças de automóvel, ficou desempregado. A mãe, doméstica, andava consumida de preocupação. “Foi um momento bastante difícil. A gente agarrava-se ao que podia. Lembro-me de fazer trabalhos pontuais. Estavam completamente fechadas as portas para os jovens nessa altura.”

Naquela intermitência, engrossava a lista de jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudavam, não trabalhavam, nem estavam em formação. Em 2015, aconteceu o OUPA!, uma residência artística com oficinas de escrita, produção musical, vídeo e concepção de espectáculos dinamizadas pela rapper Capicua, pelo músico André Tentúgal, pelo videasta Vasco Mendes. Aquele projecto do programa municipal “Cultura em Expansão” foi determinante. “Deu-me o naipe para me fazer à vida.”

Durante meses, Ricardinho e outros sete rapazes viveram uma aventura que os levou ao palco do Teatro Municipal do Porto – Rivoli. Os artistas quiseram deixar-lhes um estúdio comunitário. Tinham de fundar uma associação e de continuar a trabalhar. A Câmara do Porto cedeu-lhes aquela cave. O Presidente da República foi ao bairro assistir a um showcase do OUPA. Em 2016, o projecto foi replicado no Bairro de Ramalde e em 2017 no do Lagarteiro. Em 2018 formou uma dream team com elementos dos três bairros e fechou um disco, o Cidade Líquida. Um sonho para Ricardinho.

Quem lê as notícias vê os holofotes, mas há uma parte mirrada. “Somos jovens de um bairro que participaram num projecto e, de repente, têm de gerir uma associação.” Como? Com que fundos? Com que estratégia? “Estamos a fazer trabalho na área. Somos convidados para apadrinhar eventos. Somos entrevistados para teses. Ajudamos associações. Mas ainda estamos a tentar arranjar dinheiro para comprar um software para conseguir fazer actividades com os miúdos.”

Queriam “quebrar o estigma, derrubar os muros, os preconceitos” que existem sobre o bairro, ser uma inspiração para os miúdos dali. “Estamos a soro.” A cave inundada é a imagem do desastre. “Estamos todos a tentar sobreviver. Quase não temos tempo de sonhar. E, quando sonhamos, os sonhos desmoronam. Já demos prova que conseguimos fazer. Não dão mais condições para as pessoas fazerem mais.”

Inegável, mesmo assim, que o projecto lhe deu o abanão de que precisava. A crise estava a abrandar. Trabalhou num supermercado. “Era operador de caixa, repositor de stock, fazia um pouco de tudo.” Adorou ter um salário certo e ajudar a família. Naquela fase, terminou o ensino secundário. Quando se viu desempregado, voltou a fazer formação, desta vez na Cidade das Profissões. Marketing digital, marketing pessoal, comunicação em público, dar uma entrevista... Não deixou de “fazer pela associação, de fazer pela freguesia”. Os OUPA participaram em vários eventos. Organizaram o I Festival Oupa ACampanh´Arte em 2019. E acha que o seu esforço foi reconhecido.

Desde o ano passado, presta serviço ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra no âmbito do URBiNAT, um projecto europeu empenhado na regeneração urbana. “Estou a ter um trabalho de dinamização no sentido do mapeamento cultural de Campanhã.” A meta é criar um Corredor Saudável, um percurso pedonal e ciclável, passando pelos bairros do Cerco, do Lagarteiro e do Falcão, articulando espaços verdes (Parque Oriental, Praça da Corujeira, Quinta da Bonjóia, Horto municipal), serviços públicos (escolas, indústria, centros de saúde, associações locais) e projectos futuros (expansão do Parque Oriental, Novo Matadouro, Monte da Bela).

“É um projecto muito participativo”, diz Ricardinho. “Dá oportunidade a cada um de se expor, de mostrar a sua dificuldade, de propor os seus caminhos. E o meu trabalho é fazer de ponte, para se criar não apenas um corredor saudável material mas também imaterial, que são as sinergias, as ligações uns com os outros.” Ali, a crise é um contínuo. “É preciso nascer algo que nos faça parar, olhar para Campanhã, pensar em formas de reabilitá-la, de potenciá-la, de vivê-la.” A freguesia já está a transformar-se e ele, embora precário e a morar com os pais, faz parte disso. “Também é preciso preparar a comunidade.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

20.11.20

Profissionais das artes poderão aceder ao subsídio de desemprego após seis meses de trabalho

Daniel Dias, in Público on-line

Associações do sector aplaudem proposta da tutela, mas lembram que a contabilização não é “evidente” para os trabalhadores independentes. Estatuto profissional adequado às especificidades do trabalho artístico deve entrar em vigor em 2021.

O Governo quer reduzir de um ano para seis meses o tempo de trabalho necessário para que os trabalhadores da cultura possam aceder ao subsídio de desemprego. A informação foi avançada pela Associação Portuguesa de Realizadores (APR) e pela Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas, que se reuniram na terça-feira com o Ministério da Cultura (MC) e outras associações do sector para discutir os traços gerais da proposta do Governo sobre o estatuto do trabalhador intermitente e a protecção social dos profissionais das artes.

A Plateia alerta, ainda assim, que se “a contabilização dos dias de trabalho é evidente para os trabalhadores com um contrato de trabalho, o mesmo não acontece com os trabalhadores independentes, que por definição têm total autonomia para definir o seu tempo de trabalho”.

Esta associação lembra que “actualmente os trabalhadores independentes podem ter acesso a um subsídio por cessação de actividade apenas na condição de passarem mais de 50% do valor dos seus recibos de um ano para uma mesma entidade e se cumprirem os prazos de garantia em vigor”. “As condições desta prestação social são de tal forma restritivas que, num universo de mais de 300 mil trabalhadores independentes, apenas 400 pessoas conseguiram usufruir desta prestação em 2020”, sustenta a direcção deste organismo.

A Plateia acrescenta ainda que a parte da actual proposta do estatuto dedicada às questões laborais “não traz grandes novidades quanto àquilo que já existia quer no Código do Trabalho, quer ao abrigo da Lei 4/2008”, que aprova o regime dos contratos de trabalho dos profissionais de espectáculos. Por isso, a associação diz continuar sem saber “qual é a estratégia do Governo para garantir que as regras que já existiam e não eram cumpridas agora passem a sê-lo”. “Que mecanismos prevê o Governo criar para que se realizem contratos de trabalho e como irá impedir a continuação da prática generalizada da utilização dos falsos recibos verdes, quer em entidades públicas quer em privadas?”, destaca no comunicado.

Segundo a perspectiva da Plateia, as opções relativas à protecção social até agora colocadas em cima da mesa pelo gabinete de Graça Fonseca são “vagas e pouco concretizadas”. “Se, por um lado, é importante que haja questões em aberto e disponibilidade para negociação, por outro, lamentamos que passados seis meses o Governo não apresente uma proposta com maior concretização.”

Na reunião da próxima semana entre o MC e as associações representativas do sector cultural, a APR pretende por seu turno propor que o “acesso aos apoios estatais” passe a depender do “respeito do Código de Trabalho” e “uma justificação obrigatória para todos os trabalhos efectuados mediante o uso do recibo verde”. No que diz respeito ao regime laboral, a associação sugerirá também “a criação de uma plataforma virtual que simplifique a escolha das diferentes modalidades de contratação, em articulação com a Segurança Social”. A direcção desta entidade quer ainda que “o Estado dê o exemplo com 0% de precariedade na função pública”.

“A construção deste estatuto pode contribuir para uma mudança de paradigma nas relações laborais, nas carreiras contributivas e na protecção dos trabalhadores. Estamos conscientes de que este é um compromisso que irá exigir mudanças na forma de trabalhar e de contratar”, assume a Plateia, que aponta para as alterações nos “orçamentos das estruturas” que advirão da implementação do estatuto. “É absolutamente necessário que, juntamente com este estatuto, venham da parte do Governo condições para o pôr em prática nas estruturas que hoje compõem o frágil sistema de co-financiamento público e que têm o papel de cumprir os desígnios da política cultural em todo o país. Estas condições passam, desde logo, por maior financiamento, mas também pelo acompanhamento e fiscalização do cumprimento do estatuto”, defende a associação.

O processo de revisão e implementação do estatuto dos profissionais das artes faz parte da proposta de lei das Grandes Opções do Plano para 2021, que foi aprovada em Setembro pelo Conselho de Ministros. A sua concretização responderá a reivindicações antiga dos trabalhadores da cultura que há muito exercem as suas actividades em condições de precariedade e intermitência.

16.11.20

Governo cria fundo para apoiar artes e ofícios tradicionais

Mariana Correia Pinto, in Público on-line

Estratégia nacional deve arrancar no primeiro trimestre de 2021. Programa Saber-Fazer prevê a criação de laboratórios de intervenção e incentivos à investigação

O Governo vai criar um fundo para as artes e ofícios, com o objectivo de “apoiar, através de incentivos financeiros, o desenvolvimento e a inovação do sector”. A medida, aprovada no final de Outubro em Conselho de Ministros e parte da estratégia nacional para as artes e ofícios tradicionais de 2021-2024, não tem ainda definido o valor a atribuir, mas prevê, entre outras coisas, a criação de laboratórios de intervenção e incentivos à investigação. O programa deverá arrancar no primeiro semestre de 2021.

O programa Saber-Fazer (que em nada tem a ver com a iniciativa coordenada por Alice Bernardo apesar da coincidência dos nomes) assenta em quatro desígnios - preservação, formação profissional, capacitação e promoção – e procura “a salvaguarda, o reconhecimento e o desenvolvimento sustentável da produção artesanal, como forma de afirmação da marca identitária dos territórios e do país”.

“As técnicas e os artefactos que resultam das artes tradicionais estão profundamente enraizados nos costumes diários e no ambiente doméstico, mas em muitos casos têm vindo a desaparecer do nosso quotidiano”, aponta o documento publicado, ressalvando que, apesar dessa realidade, há uma tendência de manutenção deste sector e até de ressurgimento do interesse por ele. “As mudanças a que assistimos no presente demonstram que é útil e oportuno procurar na tradição um mecanismo de inovação e de transformação da cultura, enquanto fonte de reinvenção e de renovação, bem como de geração de novas oportunidades - seja de desenvolvimento de projectos de negócio, seja de actividades inclusivas no âmbito do chamado mercado social de emprego”, acrescenta.

O programa prevê a realização de um estudo sobre o sector, de forma a avaliar o sem impacto económico e definir estratégias para o seu desenvolvimento, a criação de uma “Bienal Saber-Fazer”, evento cultural e comercial, e uma aposta na internacionalização, criando relações com artes e ofícios de outros países e redes de distribuição e comercialização.
Laboratórios e escolas

A intervenção territorial define medidas pedagógicas que procuram espalhar conhecimento e despertar o interesse por esta área. Está prevista a criação de laboratórios que dinamizem os “lugares das práticas artesanais através do encontro, da co-criação e da interdisciplinaridade”, um programa de “oficinas e bolsas”, o alargamento da oferta de formação profissional, oficinas em contexto escolar e também criação de projectos de inclusão pelas artes e ofícios, em “situações de particular desfavorecimento, seja do ponto de vista territorial, em zonas do Interior com escasso dinamismo económico ou em núcleos urbanos com focos significativos de exclusão”.

Para “promover a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e a aprendizagem informada das técnicas artesanais, nomeadamente através da realização de actividades pedagógicas e informativas sobre as técnicas tradicionais, do desenvolvimento de pesquisa de materiais, técnicas e processos de produção, e da discussão crítica dos desafios e oportunidades do sector” vai ser criado um centro tecnológico do Saber-Fazer.

O papel do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património (CEARTE), enquanto “centro de formação profissional especializado para a promoção do artesanato e do património”, deve ser potenciado. Também nessa lógica de conhecimento e tecnologia, o programa vai criar um “banco de conhecimento” com o objectivo de “reunir, interpretar e tornar acessível os materiais e a documentação sobre o Saber Fazer em diversos formatos e suportes, fomentando a criação de um banco de dados das artes e ofícios de Portugal”.

13.5.20

Movimento de defesa dos artistas portugueses atravessa fronteiras. “Há gente que está a ficar sem dinheiro para comer”

Daniel Dias, in Público on-line

Meg Stuart, Philippe Quesne ou Damien Jalet fotografaram-se a segurar folhas de papel com a etiqueta “Unidos pelo presente e futuro de Portugal”. Acção Cooperativista defende que apoios anunciados para as artes “não são inclusivos” e que Graça Fonseca “tem um desconhecimento profundo do que se está a passar na realidade”.

Há duas semanas, em virtude da paralisação provocada pelo novo coronavírus, 14 associações formais e informais ligadas à actividade artística do país assinaram o comunicado Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal, com um apelo à criação de estratégias “a curto, médio e longo prazo” para o sector e à protecção dos seus trabalhadores. Desde então, começou a circular nas redes sociais uma etiqueta com o mesmo nome, e na noite de terça-feira o movimento ganhou novas dimensões, transformando-se numa corrente internacional com manifestações de apoio por parte de figuras como os coreógrafos Meg Stuart, Sidi Larbi Cherkaouie e Damien Jalet, a bailarina Antonija Livingstone ou o encenador Philippe Quesne.

A ideia começou no Facebook, com a criação do grupo Acção cooperativista de apoio – artistas, técnicos, produtores (Acção Cooperativista), que, com apenas um mês de existência, reúne já cerca de 2500 membros. Carlota Lagido, fundadora da iniciativa, explica ao PÚBLICO que o colectivo surgiu com o objectivo de “colmatar a ausência de respostas governamentais em relação à protecção social e à existência efectiva de ajudas ou fundos de emergência para a comunidade da cultura e das artes”. “Na maioria dos casos, não somos abrangidos pelos apoios da Segurança Social”, sublinha a bailarina, coreógrafa e figurinista. “Os apoios anunciados não são inclusivos ou transversais e a ministra da Cultura tem um desconhecimento profundo do que se está a passar na realidade.”

Depois da publicação do comunicado, algumas das “estruturas representativas do sector” que se juntaram à Acção Cooperativista, como o sindicato Cena-STE, a Rede – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea ou a Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA), foram “chamadas a dialogar”. A GDA, por exemplo, encontrou-se com Marcelo Rebelo de Sousa a 25 de Abril e apontou para a necessidade de um “reforço imediato e significativo das verbas destinadas à emergência social das artes e das actividades culturais, proporcional à escala dos países europeus que já tomaram medidas neste sentido”, para além de aludir à “criação do Estatuto Profissional do Artista, com a respectiva definição da situação laboral, social e fiscal que regulamenta as suas ocupações”. Carlota Lagido frisa que este contacto próximo entre a tutela e as entidades que defendem os trabalhadores é importante, mas, ao mesmo tempo, peca por tardio e “o momento em que vivemos pede muito mais”. “Precisamos de medidas consistentes já e isso não tem vindo a acontecer”, sustenta. “Há muita gente que está a ficar sem dinheiro para comer.”

Há pouco mais de 24 horas, a organização estendeu o seu raio de acção com a publicação, nas redes sociais, de fotografias e um documento em branco, pedindo apenas que os apoiantes destas reivindicações escrevessem nos comentários o seu nome. Muitos artistas estrangeiros, como Meg Stuart, fotografaram-se a segurar cartazes ou pequenos pedaços de papel com a etiqueta “Unidos pelo presente e futuro de Portugal”. A ideia, conta Ana Rocha, mediadora, programadora cultural e artista independente que também se juntou à Acção Cooperativista, passa pela criação de uma folha onde constar “a lista de todos os que se mobilizaram em prol de uma mudança verdadeira”. “É uma boa forma de fazermos pressão ao ministério da Cultura, o que é muito urgente”, complementa Carlota Lagido, até porque “a comunidade está exausta, com dificuldades enormes”, e a “opinião pública não está a par destas coisas”.

O branco, continua Ana Rocha, simboliza “a miséria e a fragilidade” em que se encontram os agentes culturais. “Pode representar o silêncio”, sugere, assim como pode “representar o vazio nos bolsos e nos frigoríficos”.

A criadora começou a fazer parte da Acção Cooperativista, que descreve como um “grupo não hierárquico e transversal, facilitador de diálogo e articulação entre artistas anónimos e independentes, que trabalhem em todas as áreas de criação da cultura e das artes”, devido à “urgência de avistar a pequena luz ao fundo do túnel”. Acredita que “só com a boa vontade das pessoas e o abatimento do ego das representatividades” algumas das reivindicações, como um “maior e mais compreensivo mapeamento do tecido artístico regional, tanto para independentes como para os que trabalham com estruturas”, serão ouvidas. Adianta que está “farta da palavra ‘precários’, porque não somos nenhuns coitadinhos”, e considera que o Governo deve “pensar em novas formas de produzir, criar e programar” se quer “trabalhar para a manutenção, continuidade e sustentabilidade das artes”. “O orçamento tem de ser revisto para ser sabiamente aplicado.”

Rui Spranger, por outro lado, é um de muitos actores que ficaram “com o Verão todo possivelmente em xeque” devido à crise pandémica e ao adiamento ou cancelamento em massa de espectáculos. “Logo no início do estado de emergência”, reuniu amigos e colegas de trabalho no grupo Intermitentes Porto e Covid – um dos 14 integrantes dos Unidos pelo presente e futuro da Cultura em Portugal – para “perceber quais eram os valores reais das perdas financeiras nos diferentes vértices do nosso sector”. Para o artista, “estes novos apoios que têm sido anunciados pelo Governo para abranger mais gente são insuficientes”, na medida em que estão “abaixo do limiar da pobreza”. Foi com “o apoio da família” que conseguiu pagar a renda, e, graças ao concurso de emergência levado a cabo pela Fundação Calouste Gulbenkian, conseguirá fazer a necessária contenção de custos “até ao final de Junho”. “Depois disso, não faço ideia. Estou completamente sem perspectivas de trabalho. Mesmo depois da rentrée, não tenho nada agendado. Não sei mesmo como é que isto vai ser.”

Na véspera do Dia Mundial da Dança, em Abril, a Rede divulgou um comunicado de imprensa no qual classificou as soluções até à altura avançadas por Graça Fonseca, responsável pela pasta cultural do país, como “desadequadas, dispersas e pouco abrangentes”. A organização criticou o facto de os critérios de apoio extraordinário da Segurança Social deixarem de fora “inúmeros trabalhadores cuja actividade é intermitente” e acrescentou que “os valores atribuídos a quem cumpre os requisitos não correspondem ao que deve ser um apoio de urgência a quem vê os seus rendimentos reduzidos a zero”, sendo que “em alguns casos há pessoas a receber menos de 100 euros”.

Pedro Wallenstein, representante da GDA, confessa que foi um desafio chegar a uma versão final do manifesto devido às “muitas susceptibilidades em jogo”, mas fica contente por ver que “temos, talvez pela primeira vez, uma união tão grande num meio tão largo e díspar”, sugerindo também que a audiência com o Presidente da República foi “útil e permitiu potenciar algumas mexidas”. Durante a manhã, o Ministério da Cultura anunciou que a Linha de Apoio de Emergência ao Sector das Artes vai apoiar mais de 300 projectos e que os próximos concursos da Direcção-Geral das Artes vão abrir este mês com uma dotação de 2,8 milhões de euros.



13.7.16

Pode a arte ser o motor da inclusão social? A Gulbenkian mostra que sim

Marisa Soares, in Público on-line

Nesta sexta-feira e no sábado há teatro, concertos, circo, mostra de fotografias e documentários sobre projectos apoiados pela fundação.
Teatro Ibisco trabalha com crianças de dois bairros problemáticos de Loures


Os palcos da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, vão ser ocupados nesta sexta-feira e sábado por artistas improváveis. A instituição abre as portas a alguns dos projectos que apoia através do programa Partis – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, e que utilizam o teatro, a música, o cinema, a fotografia e até o circo para mudar comportamentos e promover a integração de pessoas normalmente marginalizadas.

"Há alguns anos que andamos a trabalhar neste casamento entre práticas artísticas e a inclusão social", explica Luísa Vale, directora do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano. Depois de apoiar alguns projectos avulso, a instituição concluiu que "a arte tem mesmo um efeito de causalidade na alteração de comportamentos", por exemplo, em crianças irrequietas ou em jovens institucionalizados. Resolveu então criar um programa dedicado a este fim, o Partis, que na primeira edição, em 2013, destinou por concurso um milhão de euros a 17 projectos plurianuais desenvolvidos por instituições sociais ou entidades culturais. Na próxima semana abre a segunda edição, com a mesma verba disponível.

"Não se trata de usar as artes numa óptica de tempos livres, nem de criar produtos que sejam apresentados num dia sem se preocuparem com o que as pessoas vão fazer no dia seguinte", ressalva Luísa Vale. Pelo contrário, o objectivo é "exigência e excelência". E é o fruto desse trabalho que se vai ver e ouvir nas instalações da fundação, na Praça de Espanha, nestes dois dias. A entrada é livre.

Os primeiros a subir ao palco da Sala Polivalente, no Centro de Arte Moderna (CAM), nesta sexta-feira às 21h, são as crianças de dois bairros considerados problemáticos em Loures, a Quinta da Fonte e a Quinta do Mocho, com os quais o Teatro Ibisco tem trabalhado.

Mais tarde, às 22h30, no anfiteatro ao ar livre passa o documentário Há Festa no Campo, sobre o projecto promovido pelas associações Ecogerminar e Terceira Pessoa, cujo objectivo é dinamizar quatro aldeias de Castelo Branco através da arte urbana. Artistas como Vhils, Uivo ou Manoel Jack foram convidados a pintar murais nas aldeias a partir de histórias partilhadas com os habitantes.

No sábado, o Jardim da Gulbenkian vai ser ocupado das 15h às 19h pelas artes circenses do projecto Mala Mágica, do Chapitô, que trabalha com jovens internados em centros educativos do Ministério da Justiça, onde realizam oficinas que promovem competências técnicas, artísticas, expressivas e comunicacionais através do circo. Ainda no sábado, a Orquestra Geração, projecto que desenvolveu orquestras infantis e juvenis em escolas dos 1.°, 2.° e 3.° ciclos, dá um concerto às 19h no Grande Auditório (o bilhete custa 3 euros, revertendo para projectos semelhantes), e outro às 22h30, com a exibição de um documentário sobre o projecto no anfiteatro ao ar livre.

Nos dois dias, estão expostas junto ao CAM as fotografias do projecto Este Espaço Que Habito - Integrar pela arte, da Associação Movimento de Expressão Fotográfica, que incita jovens a explorar a cidade e a produzir reflexões sobre os espaços que habitam.

1.12.15

Workshop de Arte Urbana para idosos no Seixal

in Público on-line

Um grupo de idosos, com idades entre os 67 e os 92 anos, participa entre quarta e sexta-feira num 'workshop' de Arte Urbana, do projecto Lata 65, que inclui teoria e prática num muro.

Este 'workshop' é o primeiro a ser financiado por pessoas de vários países, contou à Lusa a mentora do Lata 65, a arquitecta portuguesa Lara Seixo Rodrigues.

Em maio, Lara Seixo Rodrigues lançou uma campanha de angariação de fundos que consiste na venda de crachás, sacos e t-shirts com o logótipo do projecto, que tem tido contribuições "oriundas de todo o mundo". Entre os países de origem dos contributos estão os Estados Unidos da América, a França, a Suíça, o Brasil e a Austrália.

"Esta foi uma das formas que encontrámos para podermos responder às inúmeras solicitações que nos chegam de todo o País, de instituições que não têm forma de suportar o custo do 'workshop'", explicou à Lusa Lara Seixo Rodrigues.

Em Portugal, referiu, "destacou-se uma contribuição do Seixal" e, por isso, foi pedido a quem a fez que sugerisse uma instituição daquela localidade para receber o Lata 65.

A instituição é a AURPIS - Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos do Seixal, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), sem fins lucrativos, vocacionada para prestar apoio e assegurar o bem-estar físico e social a idosos, crianças, jovens e respectivas famílias.

O Lata 65 irá trabalhar com um grupo de idosos com idades entre os 67 e os 92 anos, residentes do lar de idosos da AURPIS.

Desde o primeiro 'workshop', realizado em Novembro de 2012 com idosos que frequentavam o Centro Paroquial de Alcântara, o "Lata 65" já "viajou" até Torres Vedras, Covilhã, Montemor-o-Velho, Castelo Branco, Ponta Delgada (Açores) e São Paulo (Brasil).

O número de alunos que frequentaram os 'workshops', com idades entre os 60 e 101 anos, já ultrapassou os 120, contou Lara Seixo Rodrigues.

No primeiro semestre deste ano, a iniciativa foi bastante divulgada a nível internacional, com artigos em jornais (online e em papel) em países como o Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, França, Austrália e México.

29.4.15

“Não estamos aqui para viver vidas úteis, mas vidas belas”

Vanessa Rato, in Público on-line

O conhecido economista checo Tomás Sedlácek vê o capitalismo como a nova religião global, com a sua própria cultura corporativa e escola ético-moral – a do egoísmo. Os novos padres não diferem muito das antigas videntes de feira a olharem para bolas de cristal, diz ele
Tomás Sedlácek tornou-se consultor do presidente checo Václav Havel logo aos 24 anos


Em 2001, com apenas 24 anos, tornou-se consultor do presidente Václav Havel e cinco anos depois a Yale Economic Review apontava-o como um dos cinco melhores jovens pensadores na área da economia. O autor de Economics of Good and Evil esteve em Lisboa como orador do fórum O Lugar da Cultura, organizado pela Secretaria de Estado da Cultura. Pôs a hipótese de estarmos a atravessar não uma crise, mas o momento a seguir ao clímax em que temos de voltar a traçar objectivos. Pediu também que deixemos de parte o imperativo capitalista de nos consumirmos em “vidas úteis” – Sedlacék, que vê a economia como um sucedâneo das humanidades, diz que o que temos de ter são vidas belas.

Na sua conferência começou por questionar se não estaremos hoje a viver uma espécie de “depressão pós-coito” em relação à União Europeia e ao capitalismo. O que é que isto quer dizer, exactamente?
Se pensarmos bem, as nossas queixas contra a União Europeia (UE) e o capitalismo são muito semelhantes. Em ambos casos achamos que o sistema de certa forma funciona, mas o sentimento é de alheamento, de que o sistema tem uma lógica técnica própria que poucos, se é que alguns, entendem, de que tem a estrutura, os ossos e os ligamentos, mas lhe faltam a alma humana, um propósito e por aí fora. Toda a gente lê a [actual] situação [de crise] como se o capitalismo e a UE não nos tivessem dado suficiente, mas e se pudermos ler de forma oposta? Que em larga medida a UE e o capitalismo nos deram tudo o que puderam. Que em breve poderá chegar o tempo em que esgotámos a possibilidade de reformas e de novas ideias, que a economia ocidental não poderá já prosseguir a sua marcha de forma tão impressionante e que a integração em breve estará completa. E se o não-crescimento não for um percalço mas sim uma tendência? Em psiquiatria, um dos espoletadores surpreendentes da depressão é o atingir dos nossos objectivos. Porquê? Se nos focarmos de mais nos objectivos e os atingirmos, deixamos de ter sonhos, deixamos de ter motivo para acordar cedo pela manhã. A motivação perde-se não porque o objectivo fosse impossível de atingir, mas, precisamente, porque foi possível. O objectivo foi conseguido, o desígnio está morto. Precisamos de encontrar uma nova fantasia – mas não temos a certeza de qual. Não é esta, de certa forma, a nossa actual situação?

A UE e o capitalismo já cumpriram os seus objectivos?
Nada é perfeito. Até um programa de computador – o mais perfeito sistema criado pela humanidade, previsível, matemático, exacto – bloqueia de tempos a tempos e passa por um período de crise. Portanto, não estou a dizer que a UE e o capitalismo sejam perfeitos, mas essa também nunca foi a promessa.

Permita-me uma parábola. Um homem está a mugir uma vaca. A dada altura, a vaca deixa de dar leite. Por isso o homem começa a gritar com ela e a bater-lhe. Então, magicamente, a vaca abre a boca e pergunta: “Porque é que me estás a bater? Já te dei todo o meu leite! E tu nem sabes quantos baldes! A única coisa que sabes é que queres mais. Mas alguns dos teus baldes estão perdidos, outros a apodrecerem, a entornarem-se... E bates-me por não te poder dar mais leite?” É isto que tenho em mente. Que queremos medir o desenvolvimento – ou seja: o leite fresco –, mas nem temos as estatísticas correctas nem queremos saber quanto é que já temos. Tanto o capitalismo como a UE já nos deram muito leite, mas criticamo-los por não nos darem mais. Isto não é uma crise do capitalismo, é uma crise de crescimento do capitalismo. Eu olho para o capitalismo como olho para a UE: não é um sistema muito bom, mas é o melhor que temos. Ponto número um. Ponto número dois: a democracia precisa de estímulo, protecção e cultura constantes para se manter democrática; a democracia é constituída por leis, mas mais ainda pela cultura da democracia. O mesmo é verdade para o capitalismo. Ambos morrem se não forem cuidados.

O capitalismo e a UE já cumpriram os seus objectivos? O problema é que não sabemos realmente quais são esses objectivos. Em relação à UE era a paz através do comércio. A paz era o objectivo primário, o comércio o secundário. E temos paz dentro da UE e temos comércio – o Norte da Finlândia faz trocas comerciais com o Sul da Grécia com uma facilidade sem precedentes. Quanto ao capitalismo, nunca discutimos objectivos. Até que o façamos ele nunca os vai cumprir.

Uma tomada de consciência relativamente recente em termos colectivos na sociedade ocidental é a da “inumanidade do capitalismo”. Parecemos querer o capitalismo, mas com um rosto mais humano. É possível?
Sim. O capitalismo será cada vez mais humano se trabalharmos nisso. Mas nunca será completamente humano – pela simples razão de nem os humanos serem completamente humanos. Há 20 anos o capitalismo era muito diferente do que é hoje, não tinha quaisquer preocupações ecológicas, nenhumas soft skills, e tinha Recursos Humanos muito primitivos. Mas era, assim mesmo, capitalismo. Mudou por dentro. Há 100 anos, o nosso capitalismo tinha trabalho infantil, mulheres completamente discriminadas e protecção laboral zero – nem a mais extrema direita política quer isto hoje! O capitalismo e a democracia precisam de massa crítica para funcionar melhor.

Na sua conferência questionou também a hipótese de ao centro do capitalismo estar não um vazio ético, como parece, mas, antes, uma escola moral muito forte. Que escola é essa?
Pois, achamos que a economia não tem ética nem cultura, que ao centro do sistema há um vácuo moral e cultural, um vazio. Mas a realidade é bastante mais complexa. A economia e os negócios já têm uma ética e uma cultura próprias: a ética do egoísmo, de não querer saber do impacto das nossas acções porque a misteriosamente invisível mão do mercado alegadamente toma conta disso, a crença de que as pessoas existem para aumentar a sua utilidade, a postura de que os mercados são racionais e se auto-regulam, etc. Isto compõe uma escola ética muito forte. E que é contrabandeada para dentro do nosso sistema de valores disfarçada de ciência com bases matemáticas. Na verdade, é uma ideologia, uma nova religião global com a sua própria cultura corporativa, ética, crenças e padres.

É uma escola totalitarista? Por outras palavras: permite a existência de outras escolas de pensamento ou é mais como uma religião proselitista e que não concebe a coexistência de várias verdades?
Está entre as duas coisas. É bom notar que os economistas acreditam na liberdade humana, no livre arbítrio. Aos estudantes de Economia é que não é dada escolha entre escolas, crenças, etc. Para mim, a Economia é um sucedâneo das humanidades e deveria ser ensinada como tal. Imagine-se que numa área como a Filosofia apenas uma escola de pensamento era ensinada aos estudantes! Muitas escolas de Economia nunca usaram devidamente, ou usaram muito pouco, as ferramentas de análise matemática disponíveis. Pense-se em Keynes, Hayek ou Schumpeter…

E qual o lugar da arte no contexto de uma religião que concebe apenas a utilidade? Foi encandeados por essa religião que começámos, por exemplo, a medir o impacto da arte e da cultura no PIB dos países? Sim, como aconteceu com outros valores do passado, a arte tornou-se num subproduto da economia – só é permitida se tiver uso económico. Mas eu sempre pensei que a arte estava isenta do imperativo da utilidade económica. Nem tudo na vida tem de ser útil, não me parece que estejamos aqui para viver vidas úteis, mas sim para viver vidas belas e que ofereçam o mesmo à maioria das pessoas.

Na sua conferência comparou os modelos da economia contemporânea às antigas bolas de cristal das videntes de feira. É esse o seu grau de desconfiança neles?
Até hoje os teólogos debatem se Deus é ou não um ser omnipresente e com conhecimento perfeito do futuro. Muitos acham que não. Então porque haveriam os economistas de conhecer o futuro quando nem as entidades divinas o conhecem? E porque não podem conhecer? Porque isso quebraria a possibilidade da verdadeira e imprevisível liberdade humana. O paradoxo é que essa imprevisível liberdade é uma das crenças centrais da Economia. Um modelo basicamente diz isto: se tudo acontecer da maneira que esperamos, acontecerá da maneira que esperamos. Nunca podemos antecipar as mudanças importantes, apenas escrever o prólogo das tendências. Além disso, as estatísticas sobre o PIB só são estabelecidas retrospectivamente, às vezes à distância de dois anos. Portanto, nem os gabinetes de estatística sabem qual é o actual PIB de um país, quanto mais o seu futuro PIB. Mas todas as religiões precisam de ter os seus profetas, os seus videntes, aqueles a quem se pede que antecipem e interpretem o futuro.

E o que podem esses videntes dizer com segurança sobre o papel da arte e da cultura?
Que a democracia sem cultura morre, à semelhança do que aconteceu à economia como a conhecíamos. Podemos ter dois países exactamente com as mesmas leis. Se um tiver homens de negócios cultos, compreensivos e conscienciosos, esse país estará bem (mas, mesmo assim, viverá flutuações na economia, é inevitável). Se o outro país tiver as mesmas leis mas não tiver cultura, apenas egoísmo cego e autista, nas artes, na economia, na política, esse país será um sítio mau e triste onde viver.

17.3.14

Londres ficou inacessível para o talentoso filho de um desempregado

Andrea Cruz, in Público on-line

Ex-trabalhador dos Estaleiros de Viana, o pai de Fábio Fernandes não tem possibilidade de pagar os custos da licenciatura em Guitarra Clássica que o filho conquistou na Guildhall School of Music & Drama.

Fábio Fernandes, com 18 anos feitos em Janeiro, conseguiu o mais difícil para quem sonha com um futuro na música clássica: em Dezembro foi admitido na Guildhall School of Music & Drama, em Londres, uma das melhores escolas de artes do mundo, onde só entram grandes talentos. Mas a situação de desemprego do pai, depois do encerramento dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), pode deitar por terra o sonho que persegue desde os 10 anos.

O pai, Américo Fernandes, não tem condições para suportar os cerca de 10 mil euros de propinas por ano, nem os custos mensais da estadia do jovem na capital inglesa.

Fábio recusa desistir perante um obstáculo que não depende do seu talento. Com a ajuda do professor, Francisco Gomes, que o tem acompanhado durante todo o seu percurso académico, está a tentar mover montanhas. Sem condições para aceder a uma bolsa de estudo, já está a dar aulas de guitarra e nos próximos meses vai desdobrar-se em espectáculos para conseguir angariar dinheiro. No próximo dia 21 vai dar um recital num espaço da cidade e em carteira tem já outras actuações.

De ar franzino mas determinado, Fábio contou ao PÚBLICO que partiu para Londres, para as provas de admissão, sem grandes expectativas. Estava confiante, reconheceu, até pela preparação cuidada do professor. Como referência levou o caso de João Lima. O colega do curso secundário de Música, na classe de Guitarra do professor Francisco Gomes, foi, em 2011/2012 o único, entre centenas de estudantes de todo o mundo, a ser admitido na Royal Academy of Music, em Oxford, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo.

“Foi um incentivo para mim para tentar ser tão bom ou melhor”, confessou entre sorrisos envergonhados e elogios ao amigo já a estudar em Londres. “Ele elevou a fasquia porque era dos melhores da Academia. Mas com a ida dele para Londres eu vi que afinal esse não era um mundo tão distante. Nós cá em Viana também conseguimos ter capacidade para lutar com gente de todo o mundo. Não é impossível, depende apenas de o nosso trabalho chegar lá”, afirmou.

O gosto pela música e a paixão pela guitarra clássica despertaram cedo na vida de Fábio. Primeiro começou com aulas privadas e, ainda no ensino preparatório, decidiu que era esse o caminho que queria trilhar. Através do ensino articulado, ingressou na Academia de Música, depois de convencer o pai Américo. “O meu pai queria que eu tirasse um curso primeiro e depois então podia estudar música”, adiantou.

Foi evoluindo até que, já no secundário, veio a certeza: “No décimo ano meti na cabeça que era para seguir música. A partir daí foi empenho total”. E é essa, segundo o professor, uma das grandes qualidades do Fábio. A capacidade de trabalho, o rigor que impõe a si próprio e dedicação à música e ao instrumento.

Para além das disciplinas do curso secundário de Música, na academia, frequenta o 12.º ano de escolaridade, no curso de Artes, no ensino regular. A isto juntam-se sete horas diárias de prática do instrumento que abraçou ainda miúdo. Aluno brilhante tanto no curso de Artes, na Escola Santa Maria Maior, como no curso de Guitarra Clássica na Academia de Música, Fábio conquistou já várias medalhas de ouro, prata e bronze nos concursos em que participou um pouco por todo o país.

“É um miúdo muito focado. Com esta carga não tem tempo para nada. É um jovem especial e um talento em potência”, diz orgulhoso, o professor Francisco. E desabafa: “Ia-me custar tanto que não fosse para Londres.”

10.3.14

Nos grandes museus de arte, as mulheres ainda estão atrás dos homens

Cláudia Carvalho, in Público on-line

Google disponibiliza exposição virtual sobre o papel da mulher na Cultura.

As mulheres dirigem apenas um quarto dos maiores museus nos Estados Unidos e Canadá e ganham menos do que os homens que ocupam o mesmo lugar. As conclusões são do relatório da Associação de Directores de Museus de Arte, uma organização profissional, divulgado esta sexta-feira.

As conclusões deste relatório, que se baseou nos dados dos 217 membros da Associação de Directores de Museus de Arte, avaliando pela primeira vez, segundo o New York Times, a questão do género, foram conhecidas na véspera do Dia da Mulher, que se celebra este sábado. Estes são apenas mais uns números que vêm mostrar como, apesar dos avanços feitos no feminino a nível económico, social e político, ainda existem bastantes desigualdades entre géneros.

De acordo com este estudo, no que diz respeito à direcção de pequenos e médios museus, com orçamentos abaixo dos 15 milhões de dólares (10,8 milhões de euros), as mulheres estão em pé de igualdade com os homens, mantendo quase metade das direcções e ganhando praticamente o mesmo salário. No entanto, é quando saltamos para museus e instituições culturais maiores, que a desigualdade salta à vista.

Apenas 24% das instituições com orçamentos acima dos 15 milhões de dólares é dirigida por uma mulher. E dos 33 museus de arte mais proeminentes, só cinco têm mulheres ao leme. Como museus de arte mais proeminentes, entende-se aqueles com orçamentos superiores a 20 milhões de dólares (14,4 milhões de euros), como é o caso do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), liderado por Glenn D. Lowry, ou do Museu Metropolitan de Nova Iorque (Met), que é dirigido por Thomas P. Campbell.

O estudo, realizado em parceira com o National Center for Arts Research, foi feito através de uma intensa pesquisa à situação actual dos museus, assim como à sua história, e ainda recorrendo a várias entrevistas a muitos dos responsáveis das instituições culturais. Os dados foram depois analisados por investigadores da área, que tentaram traçar a situação geral.

Apesar das desigualdades detectadas, o estudo nota que a situação é hoje melhor do que há 25 anos, assistindo-se a uma mudança no paradigma cultural, com o aparecimento da primeira geração de mulheres directoras. Resta perceber porque é que os números ainda são tão baixos, se por falta de oportunidade ou por falta de interesse das mulheres nestes cargos de topo.

A situação nas direcções dos museus não é porém muito diferente daquela que se encontra nas próprias colecções dos museus, constituídas maioritariamente por obras de arte assinadas por homens.

Mas este tema não é novo. Já no passado, Gemma Rolls-Bentley, uma curadora independente britânica, debruçou-se no top dos 100 artistas que mais venderam em 2012 e percebeu que nesta centena não surgia uma única mulher. Num estudo mais aprofundado, Rolls-Bentley chegou à conclusão de que, por exemplo, na Tate Modern, em Londres, 83% dos artistas representados são homens. E o seu estudo vai mais longe: estima-se que apenas cerca de 5% do trabalho apresentado nas principais colecções permanentes de todo o mundo é de mulheres.

Google destaca o papel da mulher na Cultura
Foi neste sentido que, assinalando o Dia da Mulher, o Google Cultural Institute, plataforma online da Google para a divulgação de conteúdos culturais, disponibiliza online a exposição O Papel da Mulher na Cultura. O objectivo é mostrar como a mulher teve ao longo dos séculos um papel determinante na evolução da Cultura, admitindo a empresa que tantas vezes os relatos históricos das mulheres foram ignorados.

Esta exposição está assim dividida em 12 núcleos, ou 12 exposições, criados a partir de conteúdos de novos parceiros do Google Cultural Institute e de parceiros já presentes neste serviço. A partir deste sábado podemos então mergulhar na vida de Frida Kahlo ou ficar a saber mais sobre a luta pelo direito das mulheres ao voto no Reino Unido.

4.7.13

Festival de teatro e dança destaca o papel das artes na inclusão social

Vânia Maia, in Visão solidária

Até 14 de julho, sobem ao palco do Teatro Rivoli (Porto) mais de uma dezena de espetáculos protagonizados por pessoas com dificuldades de inclusão social

Subir ao palco do pequeno auditório do Teatro Municipal Rivoli (Porto) será o culminar do trabalho desenvolvido pelo Espaço t com os oito grupos de teatro e dança que desenvolvem a sua atividade com o apoio da instituição.

O Corpo Evento, que decorre até 14 de julho, pretende mostrar ao grande público os projetos de expressão cultural e dramática promovidos pelo Espaço t, que procura potenciar a criatividade, a autoestima e contribuir para a integração social, por exemplo, de cidadãos portadores de deficiência.

Além das "companhias" do Espaço t, também participam no ciclo de espetáculos cinco grupos convidados: Grupo de Teatro do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Psiquê - Grupo de Teatro do Hospital Magalhães Lemos, Grupo Teatro Juvenil Flor de Infesta, Tête - Grupo de Teatro do Hospital de S. João e o Grupo de Teatro Projeto Raiz - Programa Escolhas.

O bilhete para cada espetáculo custa 3 euros, mas grupos de 10 pessoas pagam 1 euro cada um.