Natália Faria, in Público on-line
A reabertura dos lares de idosos aos familiares continua sem data prevista. CNIS defende que deve acontecer “o quanto antes”, para que os idosos não se sintam abandonados.
Em vez de uma data fixa para a abertura de todas as creches – que o Governo apontou para o dia 1 de Junho —, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, preferia uma solução “à dinamarquesa”: que as creches e jardins-de-infância pudessem abrir progressivamente, já a partir de meados de Maio, consoante as necessidades e vontade manifestadas pelos pais das crianças.
“Numa zona fabril, cujas unidades começam a reabrir no início de Maio, como em Vizela, por exemplo, há muitos pais que estão a falar com as misericórdias para se poderem reabrir as creches, porque não têm onde deixar os filhos. E, com cautela e testes, acho que estas creches têm o dever de reabrir, para ajudar a economia”, defendeu o presidente da UMP, sob cuja tutela existem 218 creches e jardins-de-infância espalhados pelo país.
Apontando o exemplo dinamarquês – “que são os ‘latinos’ da Europa do Norte” —, Manuel Lemos admite que estes equipamentos possam aumentar a distância entre crianças de dois para seis metros quadrados, para diminuir o risco de contágio, dizendo acreditar que tal possa acontecer sem necessidade de regulamentação específica. “Vai haver mais gente desempregada, que deixa de precisar de recorrer aos equipamentos e muitos pais que não o quererão e arranjarão outras soluções”, admite, para considerar que “abrir tudo no dia 1 de Junho, ‘à bruta’, pode não ajudar naquilo que se quer seja a responsabilização dos pais no combate ao contágio” pelo novo coronavírus.
A abertura progressiva destes equipamentos de guarda das crianças — ressalva o presidente da UMP — não poderá ser feita sem que estejam garantidas medidas, como sejam a medição da temperatura de crianças e cuidadores, por um lado, e a garantia da existência de equipamentos de protecção individual.
E os lares? “O quanto antes"
Sem data definida está a reabertura dos lares às visitas dos familiares. Conscientes de que o confinamento dos idosos institucionalizados em lares já dura há quase dois meses, o presidente da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade Nacional (CNIS), Lino Maia, considera que as portas dos lares deveriam abrir-se aos familiares dos utentes o quanto antes. “Os lares estão encerrados desde o dia 6 de Março. É muito tempo. E a saudade e o enclausuramento tornam os idosos ainda mais frágeis. Aliás, estou convencido que vamos ter de enfrentar problemas mentais acrescidos nesta população”, avisa, ressalvando que a ideia “não é escancarar os lares”, mas garantir que, “em espaços próprios, devidamente desinfectados e com a devida distância”, tais contactos se possam restabelecer.
“A decisão não é nossa – será do Governo —, mas penso que temos de começar a tomar medidas para o ‘próximo imediato’ e uma das mais importantes será fazer sentir aos idosos que não estão abandonados”, avisa, confessando-se horrorizado com as declarações da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, que estimou há dias que a proibição de visitas nos lares de idosos possa perdurar até ao fim do ano. “Estes utentes viram os prisioneiros transpor as portas das prisões – e aplaudiram isso —, vêem as creches e outras actividades serem reabertas e interrogam-se: ‘E nós?’. É importante que se aponte uma data, porque os idosos também precisam de perspectivas”, insiste.
O presidente da CNIS considera, de resto, que a recente abertura de portas à possibilidade de os idosos com covid-19 serem transferidos para outras instalações — que diz estarem a ser criadas em vários pontos do país, com a colaboração das autarquias — possa ajudar a acelerar o calendário da reabertura dos lares. O mesmo se passa com o despacho publicado sábado pelo Ministério da Saúde que prevê que estes utentes possam ser acompanhados pelos médicos e enfermeiros dos centros de saúde. “Foi uma decisão importantíssima — tardia, mas importantíssima —, porque com os médicos e enfermeiros que colaboravam com os lares cooptados pelo SNS, os profissionais dos lares não têm, em muitos casos, condições de garantir os cuidados a estes doentes.”
Mais cauteloso sobre esta matéria, o presidente da UMP, Manuel Lemos, não prevê que este “desconfinamento” dos lares se possa fazer antes de decorrido um mês ou um mês e meio. “Do ponto de vista afectivo e emocional isto é muito violento para os utentes, mas temos de nos assegurar que estão garantidas todas as condições de segurança, embora admita que este processo se possa fazer de forma gradual, consoante as instituições: num lar que tenha jardim, e estando bom tempo, esse contacto pode ser feito no exterior para minimizar o risco”, admite, concluindo que “cada caso será um caso”.
quando estes existam e nos casos em que os idosos se possam deslocar. É, de resto, o que se passa na Noruega, onde a ideia é que, nos dias de bom tempo, as visitas possam fazer-se ao ar livre, sem contacto físico entre idosos e familiares. Na Alemanha, a proibição de visitas cessa a partir de 1 de Maio. Para garantir a protecção dos idosos, serão obrigatórias medidas como a medição da febre, a desinfecção das mãos e a protecção do nariz e da boca, com máscaras. Os visitantes só poderão entrar em determinadas áreas do lar, devidamente higienizadas e previamente definidas. Serão, de igual modo, criadas as chamadas “salas de despedida”, onde familiares poderão despedir-se dos idosos em cuidados paliativos.
Em Portugal, para que se possa obter um retrato fiel dos lares de idosos e dependentes, bem como das unidades de cuidados continuados tutelados pelas Misericórdias, Manuel Lemos endereçou segunda-feira uma carta aos 400 provedores pedindo-lhes que comuniquem semanalmente todos os casos de contágio e óbitos relacionados com a covid-19. “Estes números serão divulgados todas as semanas, para o melhor e para o pior. Mas acredito que ajudarão a combater esta ideia de que os lares são antecâmaras da morte. Não são. E, aliás, esta contabilização das mortes de utentes de lares por covid-19 que é feita pela Direcção-Geral de Saúde, sem distinguir entre os que são os lares com protocolos com o Estado e os restantes, causa-nos um dano reputacional desnecessário”, critica.
A UMP tem 551 lares de idosos sob sua tutela – com cerca de 29 mil idosos —, além de 150 unidades de cuidados continuados, com cerca de 4500 camas.
29.4.20
Estudantes com mais sintomas depressivos devido ao isolamento. Uma “surpresa” a aconselhar vigilância nas universidades
Isabel Salema, in Público on-line
Estudo do Hospital Júlio de Matos mostra que desempregados também são um ponto crítico. Os resultados chamam a atenção para a necessidade de vigilância destes grupos específicos.
Os resultados preliminares de um estudo feito por psiquiatras do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, identificou os estudantes com mais de 18 anos como um dos grupos em que as medidas de isolamento social podem estar a ter um maior impacto. Nas cinco categorias profissionais analisadas, que incluem, além dos estudantes, os profissionais de saúde, outras profissões, os reformados e os desempregados, só estes últimos apresentam piores resultados.
Com a maioria das universidades sem data de regresso às aulas presenciais, estes resultados “surpreendentes” chamam a atenção para a possibilidade de ser necessário elaborar “um plano de saúde mental ao nível das instituições de ensino, nomeadamente das universidades, que seja estruturado de forma a minimizar os impactos que este período parece estar a ter nesta população”, acrescentam os investigadores deste estudo a que o PÚBLICO teve acesso. Com resultados mais esperados, mas a precisar de protecção acrescida, estão os desempregados, “devendo-se igualmente ponderar uma vigilância ao nível dos centros de emprego.”
Em relação a todos os inquiridos, o estudo encontrou uma relação entre os dias de isolamento provocados pela pandemia de covid-19 e o agravamento dos sintomas depressivos e de insónia. “É possível traçar uma progressão matemática em que cada semana corresponde a um aumento das escalas desses sintomas”, explica o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, um dos três co-autores do estudo que envolveu 1626 indivíduos — com 75,6% de mulheres e uma média de idades de 32 anos — e que teve início a 18 de Março, no dia em que foi anunciado o estado de emergência em Portugal.
Durante um mês, num inquérito online que está previsto durar até ao final do estado de emergência, avaliaram-se as pessoas através de três escalas capazes de identificar sintomas de depressão, ansiedade e insónia — Inventário de Depressão de Beck, Inventário de Ansiedade de Beck e Índice de Gravidade de Insónia —, tendo igualmente sido recolhidos dados relativos às medidas de isolamento social, ao tipo de contacto com a doença covid-19 e ainda informações sociodemográficas. Os resultados, sublinham os autores do estudo, servem como indicador do nível de sintomas para as patologias, mas não fazem um diagnóstico clínico, o que só pode ser feito através de uma consulta médica.
“Os estudantes e os desempregados têm mais sintomas depressivos e mais insónia do que as restantes categorias profissionais.” Em relação à escala que avalia os sintomas depressivos, quando comparada com a categoria das outras profissões, os estudantes apresentam em média um agravamento de cerca de dois pontos, enquanto os desempregados de cerca de 3,5. “Esta descoberta, numa análise simples, tem valores estatisticamente significativos para os desempregados e estudantes”, afirma Henrique Prata Ribeiro. Quanto à insónia, os desempregados têm um aumento médio de 2,5 pontos na escala e os estudantes de 0,78, continua o investigador, que fez este trabalho com André Ponte, também psiquiatra do Júlio de Matos e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e Miguel Raimundo, responsável pelo tratamento dos dados e investigador do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT), da Universidade de Coimbra. Os resultados, como muita da investigação feita durante a pandemia, ainda não foram publicados numa revista científica.
PÚBLICO - Aumentar
Porque é que estes estudantes têm estes resultados? Para o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, ainda é difícil saber a razão por que estes estudantes com uma média de idades de 23 anos, provavelmente na sua maioria universitários, são dos grupos com indicadores mais negativos em relação ao isolamento. “As universidades agiram muito cedo”, lembra o psiquiatra, com algumas a suspenderam as aulas presenciais no final da primeira semana de Março. “Pode também ser uma preocupação com a saúde dos pais e avós. Temos estado a tentar encontrar um racional, porque de facto é um resultado que não esperávamos, mas os motivos podem ser inúmeros, como uma consequência da quebra de actividade e uma alteração manifesta do estilo de vida.” O estudo, aliás, não inclui uma metodologia que consiga apurar as causas, nem procurou identificar as instituições de ensino, o que permitiria afirmar, directamente, que se trata de estudantes universitários.
Os resultados são surpreendente, porque os estudantes “estão numa idade em que não é suposto haver maiores níveis de sintomatologia depressiva face a outros adultos”, adianta Henrique Prata Ribeiro, lembrando que, para mais, a covid-19 apresenta um risco de mortalidade muito maior para os mais velhos.
Numa análise mais complexa, que cruza o peso das profissões com seis outras variáveis — como os dias de isolamento já cumpridos, idade, sexo, contacto com a covid-19 até ao momento, acompanhamento em psiquiatria e toma de medicação psiquiátrica —, o estudo conclui que para os sintomas depressivos “há significância estatística para os desempregados e tendência para a significância entre os estudantes”, acrescenta Henrique Prata Ribeiro.
O regresso a casa dos pais
Um estudo da Universidade do Minho que também está a avaliar os efeitos psicológicos das medidas de isolamento social mostrou igualmente que os indicadores negativos diminuem inesperadamente com a idade, segundo resultados noticiados há pouco tempo pelo PÚBLICO. E que o trabalho, mesmo que exercido remotamente, também tem um efeito protector.
No estudo do Júlio de Matos que analisa os resultados ao final de um mês, a média de dias de isolamento das pessoas é de 10,5 dias. “Nós apurámos que as pessoas isoladas há mais de sete dias apresentavam mais sintomatologia de ansiedade, de depressão e de insónia”, diz o psiquiatra. O estudo conclui ainda que, entre as pessoas sem seguimento em psiquiatria, cerca de 27% mostram algum tipo de sintomatologia depressiva, com cerca de 6% a apresentarem sintomas moderados a graves compatíveis com uma eventual depressão. O que, alertam os investigadores, chama a atenção para a importância de manter o acesso aos cuidados de saúde durante o período de isolamento. “Parece haver uma percentagem importante de pessoas não seguidas em psiquiatria, sem diagnóstico psiquiátrico prévio, que se encontram com scores elevados nas escalas, algumas até com ideias de morte.”
Nos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC), a psicóloga Ana Melo diz que esperam um aumento na procura de consultas quando os estudantes regressarem ao campus universitário, o que não deverá acontecer este ano lectivo. Mas, para já, o que têm registado é uma diminuição na procura do apoio à distância em relação às consultas presenciais.
Nas conversas remotas que tem tido com os estudantes que procuram o SASUC, a psicóloga diz que os efeitos mais sentidos são o regresso inesperado a casa dos pais, numa universidade onde a maioria dos estudantes estará deslocada: “O facto de eles voltarem a casa leva a uma perda de autonomia, da privacidade e do estilo de vida que tinham. Há uma perda, porque são miúdos que tinham o seu grupo de amigos, os seus horários, os seus objectivos, o seu modus operandi que desaparece. Há quase como que um retrocesso em termos desenvolvimentais, mas sobretudo a nível da autonomia e isso é uma perda que os deixa mais deprimidos.”
No apoio do SASUC, que está a ser dado a estudantes que já tinham psicopatologia anterior, a psicóloga também tem encontrado uma grande ansiedade em relação ao futuro. “Tudo aquilo que representa mudança para as pessoas mais ansiosas aumenta os seus níveis de ansiedade. Perguntam: ‘como é que vão ser as avaliações?’, ‘será que isto vai interferir com o mercado de trabalho?’, ‘será que quando acabar o curso vamos entrar novamente em crise económica?’. Há um conjunto de preocupações com as mudanças actuais que interferem directamente, mas há depois também um conjunto de preocupações com questões de futuro.”
O psiquiatra Pedro Morgado, que desenvolve o estudo na Universidade do Minho, diz que os seus resultados não encontraram indicadores diferentes entre os estudantes e quem está a trabalhar, mas que isso pode estar relacionado com as populações estudadas. “Embora ambos os estudos sejam nacionais, o estudo [de Lisboa] poderá analisar mais a população estudantil do Sul, que estará mais deslocada. As diferenças regionais podem ser explicadas por algumas zonas do país terem mais estudantes deslocados e que isso possa ser um factor adicional.”
O site da Direcção-Geral da Saúde tem informação sobre saúde mental e covid-19.
Estudo do Hospital Júlio de Matos mostra que desempregados também são um ponto crítico. Os resultados chamam a atenção para a necessidade de vigilância destes grupos específicos.
Os resultados preliminares de um estudo feito por psiquiatras do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, identificou os estudantes com mais de 18 anos como um dos grupos em que as medidas de isolamento social podem estar a ter um maior impacto. Nas cinco categorias profissionais analisadas, que incluem, além dos estudantes, os profissionais de saúde, outras profissões, os reformados e os desempregados, só estes últimos apresentam piores resultados.
Com a maioria das universidades sem data de regresso às aulas presenciais, estes resultados “surpreendentes” chamam a atenção para a possibilidade de ser necessário elaborar “um plano de saúde mental ao nível das instituições de ensino, nomeadamente das universidades, que seja estruturado de forma a minimizar os impactos que este período parece estar a ter nesta população”, acrescentam os investigadores deste estudo a que o PÚBLICO teve acesso. Com resultados mais esperados, mas a precisar de protecção acrescida, estão os desempregados, “devendo-se igualmente ponderar uma vigilância ao nível dos centros de emprego.”
Em relação a todos os inquiridos, o estudo encontrou uma relação entre os dias de isolamento provocados pela pandemia de covid-19 e o agravamento dos sintomas depressivos e de insónia. “É possível traçar uma progressão matemática em que cada semana corresponde a um aumento das escalas desses sintomas”, explica o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, um dos três co-autores do estudo que envolveu 1626 indivíduos — com 75,6% de mulheres e uma média de idades de 32 anos — e que teve início a 18 de Março, no dia em que foi anunciado o estado de emergência em Portugal.
Durante um mês, num inquérito online que está previsto durar até ao final do estado de emergência, avaliaram-se as pessoas através de três escalas capazes de identificar sintomas de depressão, ansiedade e insónia — Inventário de Depressão de Beck, Inventário de Ansiedade de Beck e Índice de Gravidade de Insónia —, tendo igualmente sido recolhidos dados relativos às medidas de isolamento social, ao tipo de contacto com a doença covid-19 e ainda informações sociodemográficas. Os resultados, sublinham os autores do estudo, servem como indicador do nível de sintomas para as patologias, mas não fazem um diagnóstico clínico, o que só pode ser feito através de uma consulta médica.
“Os estudantes e os desempregados têm mais sintomas depressivos e mais insónia do que as restantes categorias profissionais.” Em relação à escala que avalia os sintomas depressivos, quando comparada com a categoria das outras profissões, os estudantes apresentam em média um agravamento de cerca de dois pontos, enquanto os desempregados de cerca de 3,5. “Esta descoberta, numa análise simples, tem valores estatisticamente significativos para os desempregados e estudantes”, afirma Henrique Prata Ribeiro. Quanto à insónia, os desempregados têm um aumento médio de 2,5 pontos na escala e os estudantes de 0,78, continua o investigador, que fez este trabalho com André Ponte, também psiquiatra do Júlio de Matos e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e Miguel Raimundo, responsável pelo tratamento dos dados e investigador do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional (CIBIT), da Universidade de Coimbra. Os resultados, como muita da investigação feita durante a pandemia, ainda não foram publicados numa revista científica.
PÚBLICO - Aumentar
Porque é que estes estudantes têm estes resultados? Para o psiquiatra Henrique Prata Ribeiro, ainda é difícil saber a razão por que estes estudantes com uma média de idades de 23 anos, provavelmente na sua maioria universitários, são dos grupos com indicadores mais negativos em relação ao isolamento. “As universidades agiram muito cedo”, lembra o psiquiatra, com algumas a suspenderam as aulas presenciais no final da primeira semana de Março. “Pode também ser uma preocupação com a saúde dos pais e avós. Temos estado a tentar encontrar um racional, porque de facto é um resultado que não esperávamos, mas os motivos podem ser inúmeros, como uma consequência da quebra de actividade e uma alteração manifesta do estilo de vida.” O estudo, aliás, não inclui uma metodologia que consiga apurar as causas, nem procurou identificar as instituições de ensino, o que permitiria afirmar, directamente, que se trata de estudantes universitários.
Os resultados são surpreendente, porque os estudantes “estão numa idade em que não é suposto haver maiores níveis de sintomatologia depressiva face a outros adultos”, adianta Henrique Prata Ribeiro, lembrando que, para mais, a covid-19 apresenta um risco de mortalidade muito maior para os mais velhos.
Numa análise mais complexa, que cruza o peso das profissões com seis outras variáveis — como os dias de isolamento já cumpridos, idade, sexo, contacto com a covid-19 até ao momento, acompanhamento em psiquiatria e toma de medicação psiquiátrica —, o estudo conclui que para os sintomas depressivos “há significância estatística para os desempregados e tendência para a significância entre os estudantes”, acrescenta Henrique Prata Ribeiro.
O regresso a casa dos pais
Um estudo da Universidade do Minho que também está a avaliar os efeitos psicológicos das medidas de isolamento social mostrou igualmente que os indicadores negativos diminuem inesperadamente com a idade, segundo resultados noticiados há pouco tempo pelo PÚBLICO. E que o trabalho, mesmo que exercido remotamente, também tem um efeito protector.
No estudo do Júlio de Matos que analisa os resultados ao final de um mês, a média de dias de isolamento das pessoas é de 10,5 dias. “Nós apurámos que as pessoas isoladas há mais de sete dias apresentavam mais sintomatologia de ansiedade, de depressão e de insónia”, diz o psiquiatra. O estudo conclui ainda que, entre as pessoas sem seguimento em psiquiatria, cerca de 27% mostram algum tipo de sintomatologia depressiva, com cerca de 6% a apresentarem sintomas moderados a graves compatíveis com uma eventual depressão. O que, alertam os investigadores, chama a atenção para a importância de manter o acesso aos cuidados de saúde durante o período de isolamento. “Parece haver uma percentagem importante de pessoas não seguidas em psiquiatria, sem diagnóstico psiquiátrico prévio, que se encontram com scores elevados nas escalas, algumas até com ideias de morte.”
Nos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC), a psicóloga Ana Melo diz que esperam um aumento na procura de consultas quando os estudantes regressarem ao campus universitário, o que não deverá acontecer este ano lectivo. Mas, para já, o que têm registado é uma diminuição na procura do apoio à distância em relação às consultas presenciais.
Nas conversas remotas que tem tido com os estudantes que procuram o SASUC, a psicóloga diz que os efeitos mais sentidos são o regresso inesperado a casa dos pais, numa universidade onde a maioria dos estudantes estará deslocada: “O facto de eles voltarem a casa leva a uma perda de autonomia, da privacidade e do estilo de vida que tinham. Há uma perda, porque são miúdos que tinham o seu grupo de amigos, os seus horários, os seus objectivos, o seu modus operandi que desaparece. Há quase como que um retrocesso em termos desenvolvimentais, mas sobretudo a nível da autonomia e isso é uma perda que os deixa mais deprimidos.”
No apoio do SASUC, que está a ser dado a estudantes que já tinham psicopatologia anterior, a psicóloga também tem encontrado uma grande ansiedade em relação ao futuro. “Tudo aquilo que representa mudança para as pessoas mais ansiosas aumenta os seus níveis de ansiedade. Perguntam: ‘como é que vão ser as avaliações?’, ‘será que isto vai interferir com o mercado de trabalho?’, ‘será que quando acabar o curso vamos entrar novamente em crise económica?’. Há um conjunto de preocupações com as mudanças actuais que interferem directamente, mas há depois também um conjunto de preocupações com questões de futuro.”
O psiquiatra Pedro Morgado, que desenvolve o estudo na Universidade do Minho, diz que os seus resultados não encontraram indicadores diferentes entre os estudantes e quem está a trabalhar, mas que isso pode estar relacionado com as populações estudadas. “Embora ambos os estudos sejam nacionais, o estudo [de Lisboa] poderá analisar mais a população estudantil do Sul, que estará mais deslocada. As diferenças regionais podem ser explicadas por algumas zonas do país terem mais estudantes deslocados e que isso possa ser um factor adicional.”
O site da Direcção-Geral da Saúde tem informação sobre saúde mental e covid-19.
Idosos: «Team Geron4you» aposta no acompanhamento de idosos e cuidadores
in Ecclesia
«Acompanhamos a necessidade de procurar dar atividades a crianças mas e aos idosos? Ninguém se lembra dos idosos que passam os dias em frente à televisão, numa torrente de notícias sobre o mesmo tema», lembra Berta Soares
Famalicão, 29 abr 2020 (Ecclesia) – O projeto «Team Geron4you» foi criado por quatro jovens futuros técnicos superiores de Gerontologia e quer neste tempo de combate à pandemia Covid-19, ajudar os mais idosos e os cuidadores a lidar com uma realidade que desconhecem.
“Há muitos grupos de voluntariado para comprar mediação e ir ao supermercado mas muitas vezes o que as pessoas precisam é de uma palavra amiga”, explica à Agência ECCLESIA Berta Soares, mentora do projeto.
A equipa é ainda composta por Joana Paiva, Mafalda Ribeiro e o João Batista, com idades entre os 19 e os 31 anos; conheceram na Universidade e estão disponíveis para conversar, acompanhar, sugerir atividades e convidar os idosos a “sonhar para além deste contexto de pandemia”.
Os contactos podem ser feitos através de chamada telefónica, de troca de mensagens nas redes sociais ou por email.
“Há cuidadores que, face o encerramento dos centros de dia, têm de tomar conta dos seus familiares não têm condições ou um manual de instruções que lhes permita continuar com as rotinas dos seis familiares. São cuidadores sobrecarregados que tentamos ajudar, ouvi-las e acompanhar também idosos que, sem retaguarda, não estão a ter contacto com filhos e netos”, indica a responsável.
O «Team Geron4you» aposta na “educação para o envelhecimento” que consiste em ajudar os mais velhos a perceber a fase de vida em que se encontram e ajudá-los a lidar com as naturais alterações.
“É como na adolescência: quando se é conhecedor das suas transformações o processo desenvolve-se melhor. O mesmo se passa com os idosos: muitos não entendem que o que passam é normal e por isso sentem-se frágeis, perdidos, e nós queremos ajudar”, explica.
Promover o “bem-estar físico, social e emocional, com exercício físico adaptado, artigos de poesia e pequenos contos, recitação de ladainhas populares, audição de música, esclarecimento de questões associadas ao processo de envelhecimento, comemoração de dias festivos, sugestão de filmes, entre outros” é a proposta para além de acompanharem também cuidadores, “formais ou informais, estando disponíveis para qualquer dúvida, questão ou receio”.
A falta de literacia digital é um dos problemas que procuram colmatar, a par do acompanhamento físico e psicológico, explicando também direitos em áreas como a saúde.
“Acompanhamos a necessidade de procurar dar atividades a crianças mas e aos idosos? Ninguém se lembra dos idosos que passam os dias em frente à televisão, numa torrente de notícias sobre o mesmo tema”, lamenta Berta Soares.
Com pouco mais de dois meses de início de atividade, a responsável dá conta do acompanhamento atual que presta a dois idosos e a dois cuidadores, que necessitam, essencialmente de não se sentir sozinhos.
A equipa do «Team Geron4you» estava a estagiar em IPSS até que, por causa da pandemia do Covid-19, esse estágio foi interrompido; foi quando surgiu este projeto, concretizando a vontade de os profissionais se manterem ativos e a trabalhar com idosos.
Berta Soares dá conta da sua experiência como trabalhadora em IPSS e valoriza a necessidade de cuidados adequados a diferentes grupos populacionais.
O «Team Geron4you» está disponível para acompanhar cuidadores e idosos a nível nacional e pode ser contactado através da página no facebook do projeto e também do email teamgerontologiaemacao@gmail.com
LS
«Acompanhamos a necessidade de procurar dar atividades a crianças mas e aos idosos? Ninguém se lembra dos idosos que passam os dias em frente à televisão, numa torrente de notícias sobre o mesmo tema», lembra Berta Soares
Famalicão, 29 abr 2020 (Ecclesia) – O projeto «Team Geron4you» foi criado por quatro jovens futuros técnicos superiores de Gerontologia e quer neste tempo de combate à pandemia Covid-19, ajudar os mais idosos e os cuidadores a lidar com uma realidade que desconhecem.
“Há muitos grupos de voluntariado para comprar mediação e ir ao supermercado mas muitas vezes o que as pessoas precisam é de uma palavra amiga”, explica à Agência ECCLESIA Berta Soares, mentora do projeto.
A equipa é ainda composta por Joana Paiva, Mafalda Ribeiro e o João Batista, com idades entre os 19 e os 31 anos; conheceram na Universidade e estão disponíveis para conversar, acompanhar, sugerir atividades e convidar os idosos a “sonhar para além deste contexto de pandemia”.
Os contactos podem ser feitos através de chamada telefónica, de troca de mensagens nas redes sociais ou por email.
“Há cuidadores que, face o encerramento dos centros de dia, têm de tomar conta dos seus familiares não têm condições ou um manual de instruções que lhes permita continuar com as rotinas dos seis familiares. São cuidadores sobrecarregados que tentamos ajudar, ouvi-las e acompanhar também idosos que, sem retaguarda, não estão a ter contacto com filhos e netos”, indica a responsável.
O «Team Geron4you» aposta na “educação para o envelhecimento” que consiste em ajudar os mais velhos a perceber a fase de vida em que se encontram e ajudá-los a lidar com as naturais alterações.
“É como na adolescência: quando se é conhecedor das suas transformações o processo desenvolve-se melhor. O mesmo se passa com os idosos: muitos não entendem que o que passam é normal e por isso sentem-se frágeis, perdidos, e nós queremos ajudar”, explica.
Promover o “bem-estar físico, social e emocional, com exercício físico adaptado, artigos de poesia e pequenos contos, recitação de ladainhas populares, audição de música, esclarecimento de questões associadas ao processo de envelhecimento, comemoração de dias festivos, sugestão de filmes, entre outros” é a proposta para além de acompanharem também cuidadores, “formais ou informais, estando disponíveis para qualquer dúvida, questão ou receio”.
A falta de literacia digital é um dos problemas que procuram colmatar, a par do acompanhamento físico e psicológico, explicando também direitos em áreas como a saúde.
“Acompanhamos a necessidade de procurar dar atividades a crianças mas e aos idosos? Ninguém se lembra dos idosos que passam os dias em frente à televisão, numa torrente de notícias sobre o mesmo tema”, lamenta Berta Soares.
Com pouco mais de dois meses de início de atividade, a responsável dá conta do acompanhamento atual que presta a dois idosos e a dois cuidadores, que necessitam, essencialmente de não se sentir sozinhos.
A equipa do «Team Geron4you» estava a estagiar em IPSS até que, por causa da pandemia do Covid-19, esse estágio foi interrompido; foi quando surgiu este projeto, concretizando a vontade de os profissionais se manterem ativos e a trabalhar com idosos.
Berta Soares dá conta da sua experiência como trabalhadora em IPSS e valoriza a necessidade de cuidados adequados a diferentes grupos populacionais.
O «Team Geron4you» está disponível para acompanhar cuidadores e idosos a nível nacional e pode ser contactado através da página no facebook do projeto e também do email teamgerontologiaemacao@gmail.com
LS
Covid-19. Às escuras, autarcas esperam pelo guião do desconfinamento do pequeno comércio
Isabel Paulo, in Expresso
Com o fim anunciado do estado de emergência, os comerciantes de rua aguardam o manual de instruções para reabrirem as suas atividades. Autarcas não foram consultados sobre que medidas cautelares irão ser impostas a quem fica atrás do balcão e à clientela. Todos esperam que se faça luz na
menos de uma semana da reabertura progressiva das atividades económicas, ainda ninguém sabe, ao certo, como irá funcionar o pequeno comércio, das sapatarias ao oculista, do barbeiro à loja de pronto a vestir. Será permitido experimentar calças e vestidos? Haverá possibilidade de fazer trocas? Como vai ser a 'geometria' para circular entre expositores e vestiários? De máscara ou de viseiras e luvas? E como será regulada a entrada nas lojas a partir de 4 de maio?
São estas e outras as incógnitas ainda em busca de resposta. Todos os olhos estão postos no Conselho de Ministros da próxima quinta-feira, o Dia D do comércio de rua e de milhares de micro empresas, de Norte a Sul do país, que viram as suas vidas suspensas pela pandemia e desesperam pela retoma. “A reabertura é bem vinda, mesmo com restrições”, diz Paulo Cunha, presidente da Câmara de Famalicão, que lembra que o comércio local é das atividades mais expostas à 'mortalidade' súbita.
O autarca social-democrata sublinha que os pequenos comerciantes durante um mês e meio mantiveram a mesma estrutura de despesas, na maioria dos casos sem acesso a linhas de apoio ou empréstimos bancários, e inibidos de irem para lay-off se forem sócios-gerentes. O autarca do PSD defende, por isso, ser essencial que voltem a abrir rapidamente as portas para “terem alguma receita”, lamentando que o Governo não tenha consultado os políticos locais, embora desconheça se o fez através da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). “Nesta crise toda, ao longo de 40 dias, a única notícia que me chegou da ANMP foi um esclarecimento sobre um diploma legal”, garante.
Sem notícias da ANMP está também Emídio Sousa, que não sabe ainda “as regras com que se irão coser” os micro e pequenos comerciantes de Santa Maria da Feira. “Neste momento, o que sei é através da comunicação social e o que vai sendo dito pelo Primeiro Ministro, mas não ficamos parados”, garante o autarca do PSD e ex-presidente da Área Metropolitana do Porto.
Apesar de não saber a que medidas ficarão sujeitos os pequenos negócios, Emídio Sousa tem reunido com a autoridade de saúde local e representantes da ASAE para “preparar um documento” que sirva de manual aos comerciantes e ao sector da restauração logo que sejam conhecidas as orientações do Governo, nesta quinta-feira. Para evitar o crescimento do surto, defende uma retoma prudente, sem aglomerações, com obrigatoriedade de máscaras para funcionários e clientes, não prevendo sequer oposição à recolha de temperatura nos restaurantes, na segunda volta de reaberturas, previsivelmente a 18 de maio.
José Manuel Ribeiro, presidente da Câmara de Valongo, também aguarda para ver como será feito o retorno, primeiro do comércio local e a seguir da hotelaria e restauração. O autarca e candidato às próximas eleições da Federação Distrital do PS do Porto confessa estar “preocupado” com o reinício do comércio, por recear novas vagas de contágio, num dos concelhos mais castigados pela Covid-19.
“Mais vale abrir com restrições a mais do que a menos”, diz, pedindo ao Governo medidas de “tolerância zero” para quem não cumprir regras de segurança.
Na Maia, António da Silva Tiago também ignora se o Governo tem consultado a ANMP sobre o recomeço da atividade do pequeno comércio. O autarca do PSD pede uma reabertura gradual, sem precipitações, monitorizada e avaliada a cada duas semanas, de forma a perceber o impacto do retoma na curva epidemiológico. Para aliviar a carga de despesa aos comerciantes que viram as suas atividades suspensas, Silva Tiago optou por não cobrar taxa de derrama nem a taxa fixa das faturas de água e resíduos, paga a 50% no caso dos espaços que não fecharam.
CASCAIS E MAFRA QUEREM MAIS 'AR LIVRE'
Enquanto espera pelo anúncio das medidas do Governo, esta quinta-feira, Carlos Carreiras aposta na produção em massa e venda de máscaras para que a retoma do comércio seja feita em segurança. Sem empresas locais para as fabricar, o presidente da câmara de Cascais pôs mãos à obra, encomendou máquinas e antecipa que a autarquia está em condições de produzir 850 mil máscaras por mês para distribuir pelas IPSS do concelho, a partir de de 2 de maio. “A meta é produzir três milhões de máscaras para travar a especulação”, diz.
Para maiores de 65 anos e doentes crónicos as máscaras serão gratuitas, para os restantes cidadãos de Cascais vendidas a 30 cêntimos. “O que quero é que os nossos munícipes saiam à rua protegidos e que os nossos comerciantes abrem as portas com equipamentos de proteção”, assegura o autarca do PSD, que afirma estar a criar condições para testar toda a população em centros de rastreio, a € 5 por colheita.
Para a sobrevivência do comércio local, Carlos Carreiras, logo que sejam conhecidas as recomendações do Governo, irá reunir com as associações sectoriais, para preparar um manual de procedimentos e ações formativas para os vendedores. Na restauração, sendo certa a redução da capacidade dos espaços, vai propor que neste verão a zona de esplanadas seja alargada, “duplicando a área para mesas de restaurantes e cafés”, após ter ouvido queixas que, face à limitação de clientes e elevados custos de higienização, “não se justifica abrir”. Isenção por seis meses das taxas de espaços públicos é outra das medidas de apoio ao sector.
Em Mafra, Hélder Sousa Silva, líder dos autarcas sociais-democratas, tem vindo a articular a reabertura das atividades com as associações de comércio locais e com a Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP). Num concelho “vocacionado para o turismo”, o autarca decidiu suspender a cobrança da taxa turística - € 2 na época alta, metade na baixa -, apostando sobretudo este ano nos veraneantes portugueses.
Independentemente das medidas que venham a ser impostas, Sousa Silva defende ser fundamental ganhar a confiança de quem está em casa, dando garantias que os espaços estão higienizados e quem os recebe devidamente equipados. “Estamos a preparar um kit de máscaras cirúrgicas e de uso social e gel para distribuir, segunda-feira pelos comerciantes, num total de dois mil kits”, avança o presidente da Câmara de Mafra, que está a ultimar o lançamento de uma plataforma de venda online que agregue os pequenos negócios do concelho, numa espécie “de centro comercial virtual”.
Para facilitar o pagamento e estimular o recurso ao comércio local vai ainda ser lançado um cartão de fidelização pré-pago, com aculução de pontos de desconto. Tal como o autarca de Cascais, Hélder Sousa Silva também quer alargar os espaços de restauração a céu aberto e bares ao ar livre, para compensar as restrições indoor.
A aguardar orientações estão ainda a autarca de Matosinhos, Luísa Salgueiro, Joaquim Pinto Moreira, de Espinho, Aires Pereira, da Póvoa do Varzim, Ricardo Rio, de Braga, Miguel Alves, de Caminha, ou António Pina, de Olhão e líder da Comunidade Intermunicipal do Algarve.
Pelo contrário, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, afiança ter sido consultado enquanto líder da Área Metropolitana do Porto, adiantando apenas que as medidas estão a ser ultimadas e "incluem máscaras e entradas em numero reduzido" nos estabelecimentos.
Qualquer que seja a cor política, todos convergem num ponto: a reabertura, sector a sector, tem de ser em simultâneo para todo o país, salvo em concelhos sujeitos a cercas sanitárias. Abrir atividades região a região levaria a maior circulação entre concelhos e aglomerações, logo um maior risco de propagação do novo vírus.
Com o fim anunciado do estado de emergência, os comerciantes de rua aguardam o manual de instruções para reabrirem as suas atividades. Autarcas não foram consultados sobre que medidas cautelares irão ser impostas a quem fica atrás do balcão e à clientela. Todos esperam que se faça luz na
menos de uma semana da reabertura progressiva das atividades económicas, ainda ninguém sabe, ao certo, como irá funcionar o pequeno comércio, das sapatarias ao oculista, do barbeiro à loja de pronto a vestir. Será permitido experimentar calças e vestidos? Haverá possibilidade de fazer trocas? Como vai ser a 'geometria' para circular entre expositores e vestiários? De máscara ou de viseiras e luvas? E como será regulada a entrada nas lojas a partir de 4 de maio?
São estas e outras as incógnitas ainda em busca de resposta. Todos os olhos estão postos no Conselho de Ministros da próxima quinta-feira, o Dia D do comércio de rua e de milhares de micro empresas, de Norte a Sul do país, que viram as suas vidas suspensas pela pandemia e desesperam pela retoma. “A reabertura é bem vinda, mesmo com restrições”, diz Paulo Cunha, presidente da Câmara de Famalicão, que lembra que o comércio local é das atividades mais expostas à 'mortalidade' súbita.
O autarca social-democrata sublinha que os pequenos comerciantes durante um mês e meio mantiveram a mesma estrutura de despesas, na maioria dos casos sem acesso a linhas de apoio ou empréstimos bancários, e inibidos de irem para lay-off se forem sócios-gerentes. O autarca do PSD defende, por isso, ser essencial que voltem a abrir rapidamente as portas para “terem alguma receita”, lamentando que o Governo não tenha consultado os políticos locais, embora desconheça se o fez através da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). “Nesta crise toda, ao longo de 40 dias, a única notícia que me chegou da ANMP foi um esclarecimento sobre um diploma legal”, garante.
Sem notícias da ANMP está também Emídio Sousa, que não sabe ainda “as regras com que se irão coser” os micro e pequenos comerciantes de Santa Maria da Feira. “Neste momento, o que sei é através da comunicação social e o que vai sendo dito pelo Primeiro Ministro, mas não ficamos parados”, garante o autarca do PSD e ex-presidente da Área Metropolitana do Porto.
Apesar de não saber a que medidas ficarão sujeitos os pequenos negócios, Emídio Sousa tem reunido com a autoridade de saúde local e representantes da ASAE para “preparar um documento” que sirva de manual aos comerciantes e ao sector da restauração logo que sejam conhecidas as orientações do Governo, nesta quinta-feira. Para evitar o crescimento do surto, defende uma retoma prudente, sem aglomerações, com obrigatoriedade de máscaras para funcionários e clientes, não prevendo sequer oposição à recolha de temperatura nos restaurantes, na segunda volta de reaberturas, previsivelmente a 18 de maio.
José Manuel Ribeiro, presidente da Câmara de Valongo, também aguarda para ver como será feito o retorno, primeiro do comércio local e a seguir da hotelaria e restauração. O autarca e candidato às próximas eleições da Federação Distrital do PS do Porto confessa estar “preocupado” com o reinício do comércio, por recear novas vagas de contágio, num dos concelhos mais castigados pela Covid-19.
“Mais vale abrir com restrições a mais do que a menos”, diz, pedindo ao Governo medidas de “tolerância zero” para quem não cumprir regras de segurança.
Na Maia, António da Silva Tiago também ignora se o Governo tem consultado a ANMP sobre o recomeço da atividade do pequeno comércio. O autarca do PSD pede uma reabertura gradual, sem precipitações, monitorizada e avaliada a cada duas semanas, de forma a perceber o impacto do retoma na curva epidemiológico. Para aliviar a carga de despesa aos comerciantes que viram as suas atividades suspensas, Silva Tiago optou por não cobrar taxa de derrama nem a taxa fixa das faturas de água e resíduos, paga a 50% no caso dos espaços que não fecharam.
CASCAIS E MAFRA QUEREM MAIS 'AR LIVRE'
Enquanto espera pelo anúncio das medidas do Governo, esta quinta-feira, Carlos Carreiras aposta na produção em massa e venda de máscaras para que a retoma do comércio seja feita em segurança. Sem empresas locais para as fabricar, o presidente da câmara de Cascais pôs mãos à obra, encomendou máquinas e antecipa que a autarquia está em condições de produzir 850 mil máscaras por mês para distribuir pelas IPSS do concelho, a partir de de 2 de maio. “A meta é produzir três milhões de máscaras para travar a especulação”, diz.
Para maiores de 65 anos e doentes crónicos as máscaras serão gratuitas, para os restantes cidadãos de Cascais vendidas a 30 cêntimos. “O que quero é que os nossos munícipes saiam à rua protegidos e que os nossos comerciantes abrem as portas com equipamentos de proteção”, assegura o autarca do PSD, que afirma estar a criar condições para testar toda a população em centros de rastreio, a € 5 por colheita.
Para a sobrevivência do comércio local, Carlos Carreiras, logo que sejam conhecidas as recomendações do Governo, irá reunir com as associações sectoriais, para preparar um manual de procedimentos e ações formativas para os vendedores. Na restauração, sendo certa a redução da capacidade dos espaços, vai propor que neste verão a zona de esplanadas seja alargada, “duplicando a área para mesas de restaurantes e cafés”, após ter ouvido queixas que, face à limitação de clientes e elevados custos de higienização, “não se justifica abrir”. Isenção por seis meses das taxas de espaços públicos é outra das medidas de apoio ao sector.
Em Mafra, Hélder Sousa Silva, líder dos autarcas sociais-democratas, tem vindo a articular a reabertura das atividades com as associações de comércio locais e com a Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP). Num concelho “vocacionado para o turismo”, o autarca decidiu suspender a cobrança da taxa turística - € 2 na época alta, metade na baixa -, apostando sobretudo este ano nos veraneantes portugueses.
Independentemente das medidas que venham a ser impostas, Sousa Silva defende ser fundamental ganhar a confiança de quem está em casa, dando garantias que os espaços estão higienizados e quem os recebe devidamente equipados. “Estamos a preparar um kit de máscaras cirúrgicas e de uso social e gel para distribuir, segunda-feira pelos comerciantes, num total de dois mil kits”, avança o presidente da Câmara de Mafra, que está a ultimar o lançamento de uma plataforma de venda online que agregue os pequenos negócios do concelho, numa espécie “de centro comercial virtual”.
Para facilitar o pagamento e estimular o recurso ao comércio local vai ainda ser lançado um cartão de fidelização pré-pago, com aculução de pontos de desconto. Tal como o autarca de Cascais, Hélder Sousa Silva também quer alargar os espaços de restauração a céu aberto e bares ao ar livre, para compensar as restrições indoor.
A aguardar orientações estão ainda a autarca de Matosinhos, Luísa Salgueiro, Joaquim Pinto Moreira, de Espinho, Aires Pereira, da Póvoa do Varzim, Ricardo Rio, de Braga, Miguel Alves, de Caminha, ou António Pina, de Olhão e líder da Comunidade Intermunicipal do Algarve.
Pelo contrário, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, afiança ter sido consultado enquanto líder da Área Metropolitana do Porto, adiantando apenas que as medidas estão a ser ultimadas e "incluem máscaras e entradas em numero reduzido" nos estabelecimentos.
Qualquer que seja a cor política, todos convergem num ponto: a reabertura, sector a sector, tem de ser em simultâneo para todo o país, salvo em concelhos sujeitos a cercas sanitárias. Abrir atividades região a região levaria a maior circulação entre concelhos e aglomerações, logo um maior risco de propagação do novo vírus.
Desigualdades em saúde e pandemia
Mário André Macedo, in Público on-line
A profunda conexão entre pobreza e doença funciona de forma bidirecional e, por isso, qualquer estratégia de combate às desigualdades em saúde tem de ter em conta a necessidade de nivelar por cima. Na manutenção da saúde, estamos dependentes uns dos outros. Vamos trabalhar juntos para não deixar ninguém para trás.
É importante que as estratégias a ser adotadas nas próximas semanas sejam previamente avaliadas pelo seu impacto na saúde, com foco na equidade. A estratégia de mitigação da covid-19, assim como a fórmula escolhida para reabrir o país, devem eleger a equidade em saúde como paradigma de base, uma vez que, pela influência dos determinantes sociais da saúde, existem indivíduos mais propensos a serem infetados, assim como a constituir-se como vetor de transmissão ou com potencial de desenvolver doença grave.
Os determinantes sociais da saúde são os principais responsáveis pelas desigualdades no estado de saúde das populações e estão relacionados com a justiça social e com o exercício dos direitos humanos.
O nexo de casualidade entre as condições socioeconómicas e a saúde é explicado através da relação entre a pessoa e o ambiente onde se insere. No centro desta relação encontra-se o indivíduo com as suas características fixas, como idade, sexo e herança genética. É rodeado diretamente pelos comportamentos individuais que adota, como hábitos tabágicos ou alimentares, que, por sua vez, não são apenas o resultado de escolhas livres e individuais, mas influenciadas pela rede e ambiente social onde se insere. Subindo para outro nível, encontramos fatores estruturais, como a situação face à profissão, o acesso aos cuidados de saúde, escolaridade e rendimento, forte e decisivamente influenciados pela forma como as políticas económicas, de saúde e educação são planeadas e executadas.
Os portugueses cumpriram a necessidade de isolamento social, sendo o teletrabalho uma das estratégias utilizadas. Logo no final do mês de março, já seriam quase metade dos trabalhadores a utilizar este regime. No entanto, a utilização é bastante heterogénea quando estratificada por rendimento. Entre os trabalhadores com menor salário e com trabalho menos diferenciado, este recurso é bastante menos utilizado que os seus congéneres com profissões mais diferenciadas. São também estes trabalhadores que mais utilizam os transportes públicos, que, com as supressões efetuadas, encontram-se tão lotados como o período que antecedeu o estado de emergência.
Desta forma, um vírus democrático rapidamente produz resultados assimétricos na sociedade. Juntando às vulnerabilidades pré-existentes no estado de saúde, obtemos um segmento da população que se encontra diariamente mais exposto e também com maior predisposição a contrair a doença e a desenvolver formas mais graves.
São também os trabalhadores mais precários, com incerteza de rendimento e pouca cobertura da segurança social, que se veem perante a necessidade de descurar sintomas da doença ou a aceitar mais trabalho, mesmo que não estejam asseguradas todas as necessárias condições de higiene sanitárias.
Mesmo num país com um SNS universal e tendencialmente gratuito, um individuo doente, especialmente se já provém de uma situação socialmente fragilizada, pode sofrer quebras de rendimentos de longo prazo resultantes da sua doença. Este conhecimento será fundamental para planear corretamente os próximos passos para a reabertura do país.
A profunda conexão entre pobreza e doença funciona de forma bidirecional e, por isso, qualquer estratégia de combate às desigualdades em saúde tem de ter em conta a necessidade de nivelar por cima. Na manutenção da saúde, estamos dependentes uns dos outros. Vamos trabalhar juntos para não deixar ninguém para trás.
A profunda conexão entre pobreza e doença funciona de forma bidirecional e, por isso, qualquer estratégia de combate às desigualdades em saúde tem de ter em conta a necessidade de nivelar por cima. Na manutenção da saúde, estamos dependentes uns dos outros. Vamos trabalhar juntos para não deixar ninguém para trás.
É importante que as estratégias a ser adotadas nas próximas semanas sejam previamente avaliadas pelo seu impacto na saúde, com foco na equidade. A estratégia de mitigação da covid-19, assim como a fórmula escolhida para reabrir o país, devem eleger a equidade em saúde como paradigma de base, uma vez que, pela influência dos determinantes sociais da saúde, existem indivíduos mais propensos a serem infetados, assim como a constituir-se como vetor de transmissão ou com potencial de desenvolver doença grave.
Os determinantes sociais da saúde são os principais responsáveis pelas desigualdades no estado de saúde das populações e estão relacionados com a justiça social e com o exercício dos direitos humanos.
O nexo de casualidade entre as condições socioeconómicas e a saúde é explicado através da relação entre a pessoa e o ambiente onde se insere. No centro desta relação encontra-se o indivíduo com as suas características fixas, como idade, sexo e herança genética. É rodeado diretamente pelos comportamentos individuais que adota, como hábitos tabágicos ou alimentares, que, por sua vez, não são apenas o resultado de escolhas livres e individuais, mas influenciadas pela rede e ambiente social onde se insere. Subindo para outro nível, encontramos fatores estruturais, como a situação face à profissão, o acesso aos cuidados de saúde, escolaridade e rendimento, forte e decisivamente influenciados pela forma como as políticas económicas, de saúde e educação são planeadas e executadas.
Os portugueses cumpriram a necessidade de isolamento social, sendo o teletrabalho uma das estratégias utilizadas. Logo no final do mês de março, já seriam quase metade dos trabalhadores a utilizar este regime. No entanto, a utilização é bastante heterogénea quando estratificada por rendimento. Entre os trabalhadores com menor salário e com trabalho menos diferenciado, este recurso é bastante menos utilizado que os seus congéneres com profissões mais diferenciadas. São também estes trabalhadores que mais utilizam os transportes públicos, que, com as supressões efetuadas, encontram-se tão lotados como o período que antecedeu o estado de emergência.
Desta forma, um vírus democrático rapidamente produz resultados assimétricos na sociedade. Juntando às vulnerabilidades pré-existentes no estado de saúde, obtemos um segmento da população que se encontra diariamente mais exposto e também com maior predisposição a contrair a doença e a desenvolver formas mais graves.
São também os trabalhadores mais precários, com incerteza de rendimento e pouca cobertura da segurança social, que se veem perante a necessidade de descurar sintomas da doença ou a aceitar mais trabalho, mesmo que não estejam asseguradas todas as necessárias condições de higiene sanitárias.
Mesmo num país com um SNS universal e tendencialmente gratuito, um individuo doente, especialmente se já provém de uma situação socialmente fragilizada, pode sofrer quebras de rendimentos de longo prazo resultantes da sua doença. Este conhecimento será fundamental para planear corretamente os próximos passos para a reabertura do país.
A profunda conexão entre pobreza e doença funciona de forma bidirecional e, por isso, qualquer estratégia de combate às desigualdades em saúde tem de ter em conta a necessidade de nivelar por cima. Na manutenção da saúde, estamos dependentes uns dos outros. Vamos trabalhar juntos para não deixar ninguém para trás.
Empresas de Vila Nova de Gaia terão sessões de esclarecimento online
in Dinheiro Vivo
Gaiurb criou um Gabinete de Apoio às Empresas e vai lançar um conjunto de vídeos e de webinars com temas diversificados
O preço das máscaras, gel e álcool, segundo a lei A empresa municipal Gaiurb, em Vila Nova de Gaia, acaba de lançar um conjunto de medidas de informação e apoio às empresas para ajudar a minimizar o impacto da Covid-19 junto do tecido empresarial do concelho. Com a criação de um Gabinete de Apoio às Empresas, que integra especialistas em diversas áreas, a Gaiurb garante aconselhamento jurídico, económico e de investimento num momento particularmente exigente na economia portuguesa, posicionando-se como um “parceiro ativo” na regeneração económica.
Paralelamente, e com o apoio da Acredita Portugal, a empresa municipal vai lançar um conjunto de vídeos explicativos e webinars com temas diversificados para empresários, profissionais liberais e empreendedores. Minimizar dificuldades relacionadas com “Linhas de crédito de apoio à economia destinadas exclusivamente ao financiamento das necessidades de tesouraria”, “Transição para a Economia Digital”, “Apoios Locais e Nacionais para o meu negócio” ou “Lançar a minha empresa” são alguns dos temas já agendados para esclarecimento digital.
Iniciativas que se juntam às medidas já adotadas pelo município de apoio ao sector empresarial, e que vão desde a isenção de taxas de ocupação pública à suspensão do corte de água, passando pela isenção de taxas municipais aos comerciantes e da derrama às PME.
As faturas da água poderão ser liquidas faseadamente. Recorde-se que Vila Nova de Gaia é um dos concelhos mais atingidos pela pandemia de covid-19. Dos mais de 24 mil casos confirmados em Portugal, 1.263 são de Vila Nova de Gaia, só suplantada por Lisboa, que tem 1.413 infetados. O Porto tem 1.211.
Gaiurb criou um Gabinete de Apoio às Empresas e vai lançar um conjunto de vídeos e de webinars com temas diversificados
O preço das máscaras, gel e álcool, segundo a lei A empresa municipal Gaiurb, em Vila Nova de Gaia, acaba de lançar um conjunto de medidas de informação e apoio às empresas para ajudar a minimizar o impacto da Covid-19 junto do tecido empresarial do concelho. Com a criação de um Gabinete de Apoio às Empresas, que integra especialistas em diversas áreas, a Gaiurb garante aconselhamento jurídico, económico e de investimento num momento particularmente exigente na economia portuguesa, posicionando-se como um “parceiro ativo” na regeneração económica.
Paralelamente, e com o apoio da Acredita Portugal, a empresa municipal vai lançar um conjunto de vídeos explicativos e webinars com temas diversificados para empresários, profissionais liberais e empreendedores. Minimizar dificuldades relacionadas com “Linhas de crédito de apoio à economia destinadas exclusivamente ao financiamento das necessidades de tesouraria”, “Transição para a Economia Digital”, “Apoios Locais e Nacionais para o meu negócio” ou “Lançar a minha empresa” são alguns dos temas já agendados para esclarecimento digital.
Iniciativas que se juntam às medidas já adotadas pelo município de apoio ao sector empresarial, e que vão desde a isenção de taxas de ocupação pública à suspensão do corte de água, passando pela isenção de taxas municipais aos comerciantes e da derrama às PME.
As faturas da água poderão ser liquidas faseadamente. Recorde-se que Vila Nova de Gaia é um dos concelhos mais atingidos pela pandemia de covid-19. Dos mais de 24 mil casos confirmados em Portugal, 1.263 são de Vila Nova de Gaia, só suplantada por Lisboa, que tem 1.413 infetados. O Porto tem 1.211.
Proteger as comunidades ciganas no contexto da pandemia
Catarina Marcelino, in Sete Margens
A presença dos ciganos em Portugal remonta ao século XV, tendo esta minoria étnica permanecido na Península Ibérica desde então. As comunidades ciganas foram sempre perseguidas e excluídas, tendo sido iniciada por D. João III em 1526 a sua expulsão de Portugal, seguindo-se o decreto de 1538 de deportação para as colónias, em que os homens eram obrigados a trabalhos forçados nas galés, sendo o Brasil o principal destino e as mulheres enviadas, na grande maioria, para África, colmatando assim a falta de presença feminina entre os colonos.
Em 1718, D. João V volta a ordenar a expulsão dos ciganos. Só com a Constituição de 1822 os ciganos passaram a ter direito à nacionalidade portuguesa. Mas o século XX continua a perpetuar a exclusão e a desconfiança entre ciganos e não ciganos, sendo a repressão e a perseguição durante a Ditadura uma constante. Já em Democracia, casos como o de Vila Verde (Braga) em 1996, em que milícias populares expulsaram uma comunidade a quem valeu o então governador civil, Pedro Bacelar de Vasconcelos, são um fado pesado e triste.
É muito importante compreender este passado, porque há de facto uma componente de exclusão e de racismo, que se perpetuaram durante séculos com momentos extremados de grande perseguição e sofrimento, de imigração forçada, de inclusão forçada, obrigando-os a renegar à sua própria língua e cultura.
Hoje, em pleno século XXI, seis séculos após a sua chegada a Portugal, estima-se em cerca de 50.000 pessoas que integram a comunidade cigana e carregam um estigma social alicerçado nas representações negativas da comunidade maioritária construída e alimentada ao longo dos séculos. Estão entre as pessoas mais pobres do país, com níveis de escolaridade muito baixos, sendo uma parte considerável daquelas que vivem em barracas.
Toda a fragilidade social destas comunidades torna-se mais evidente neste momento de pandemia e de estado de emergência. Se é verdade que o contágio pode acontecer com todas as pessoas, também é verdade que o acentuar da pobreza, a falta de rendimentos pelo encerramento de feiras e mercados, a falta de água, de saneamento básico e de habitações condignas, aumenta as fragilidades e expõe-nos mais ao risco de infeção.
Em Moura, um concelho do Baixo Alentejo, com um elevado rácio de população cigana no total de habitantes, há uma comunidade de 33 pessoas infetadas que estão em quarentena num “acampamento”, de onde ninguém entra e ninguém sai, tendo mesmo que ser assim, para o bem dos próprios e de todos os outros mourenses. A infeção espalha-se mais depressa em contextos onde as práticas culturais e sociais são de famílias alargadas, de quotidianos comunitários, reforçada pela pobreza, pelas condições deficientes de salubridade e muitas vezes pela falta de informação.
É preciso prevenir a infeção da covid19, mas também estarmos particularmente atentos aos riscos de discriminação e de tensão social que a propagação do coronavírus nas comunidades ciganas pode provocar, levando eventualmente a atitudes persecutórias e estigmatizantes que são perigosas e indesejáveis.
Os mediadores socioculturais que trabalham com instituições públicas e associações, e os pastores ciganos das Igrejas Evangélicas, de que grande parte das comunidades são seguidoras, podem ter um papel determinante na prevenção e no combate ao vírus, porque são vistos como pares confiáveis e credíveis. Mas, para tal, é necessário criar uma estratégia de formação/informação que seja levada a estes líderes comunitários em todo o território, preparando-os para este importante papel de “agentes de saúde pública”.
É preciso reforçar os pontos de água dos “acampamentos”, é preciso distribuir produtos desinfetantes, é necessário articular com as ONG de pessoas ciganas, que têm feito um trabalho meritório de distribuição alimentar junto das suas comunidades em todo o país. Em suma, é preciso proteger estas comunidades, para que esta minoria já por si socialmente frágil, não venha a engrossar os números fatídicos do coronavírus.
A presença dos ciganos em Portugal remonta ao século XV, tendo esta minoria étnica permanecido na Península Ibérica desde então. As comunidades ciganas foram sempre perseguidas e excluídas, tendo sido iniciada por D. João III em 1526 a sua expulsão de Portugal, seguindo-se o decreto de 1538 de deportação para as colónias, em que os homens eram obrigados a trabalhos forçados nas galés, sendo o Brasil o principal destino e as mulheres enviadas, na grande maioria, para África, colmatando assim a falta de presença feminina entre os colonos.
Em 1718, D. João V volta a ordenar a expulsão dos ciganos. Só com a Constituição de 1822 os ciganos passaram a ter direito à nacionalidade portuguesa. Mas o século XX continua a perpetuar a exclusão e a desconfiança entre ciganos e não ciganos, sendo a repressão e a perseguição durante a Ditadura uma constante. Já em Democracia, casos como o de Vila Verde (Braga) em 1996, em que milícias populares expulsaram uma comunidade a quem valeu o então governador civil, Pedro Bacelar de Vasconcelos, são um fado pesado e triste.
É muito importante compreender este passado, porque há de facto uma componente de exclusão e de racismo, que se perpetuaram durante séculos com momentos extremados de grande perseguição e sofrimento, de imigração forçada, de inclusão forçada, obrigando-os a renegar à sua própria língua e cultura.
Hoje, em pleno século XXI, seis séculos após a sua chegada a Portugal, estima-se em cerca de 50.000 pessoas que integram a comunidade cigana e carregam um estigma social alicerçado nas representações negativas da comunidade maioritária construída e alimentada ao longo dos séculos. Estão entre as pessoas mais pobres do país, com níveis de escolaridade muito baixos, sendo uma parte considerável daquelas que vivem em barracas.
Toda a fragilidade social destas comunidades torna-se mais evidente neste momento de pandemia e de estado de emergência. Se é verdade que o contágio pode acontecer com todas as pessoas, também é verdade que o acentuar da pobreza, a falta de rendimentos pelo encerramento de feiras e mercados, a falta de água, de saneamento básico e de habitações condignas, aumenta as fragilidades e expõe-nos mais ao risco de infeção.
Em Moura, um concelho do Baixo Alentejo, com um elevado rácio de população cigana no total de habitantes, há uma comunidade de 33 pessoas infetadas que estão em quarentena num “acampamento”, de onde ninguém entra e ninguém sai, tendo mesmo que ser assim, para o bem dos próprios e de todos os outros mourenses. A infeção espalha-se mais depressa em contextos onde as práticas culturais e sociais são de famílias alargadas, de quotidianos comunitários, reforçada pela pobreza, pelas condições deficientes de salubridade e muitas vezes pela falta de informação.
É preciso prevenir a infeção da covid19, mas também estarmos particularmente atentos aos riscos de discriminação e de tensão social que a propagação do coronavírus nas comunidades ciganas pode provocar, levando eventualmente a atitudes persecutórias e estigmatizantes que são perigosas e indesejáveis.
Os mediadores socioculturais que trabalham com instituições públicas e associações, e os pastores ciganos das Igrejas Evangélicas, de que grande parte das comunidades são seguidoras, podem ter um papel determinante na prevenção e no combate ao vírus, porque são vistos como pares confiáveis e credíveis. Mas, para tal, é necessário criar uma estratégia de formação/informação que seja levada a estes líderes comunitários em todo o território, preparando-os para este importante papel de “agentes de saúde pública”.
É preciso reforçar os pontos de água dos “acampamentos”, é preciso distribuir produtos desinfetantes, é necessário articular com as ONG de pessoas ciganas, que têm feito um trabalho meritório de distribuição alimentar junto das suas comunidades em todo o país. Em suma, é preciso proteger estas comunidades, para que esta minoria já por si socialmente frágil, não venha a engrossar os números fatídicos do coronavírus.
Ajuda humanitária pode evitar que mortes cheguem aos mil milhões em todo o mundo
Patrícia Bentes, in SicNotícias
O alerta é do Comité Internacional de Resgate. Se os países mais pobres não forem urgentemente ajudados, o coronavírus pode chegar a infetar mil milhões de pessoas em todo o mundo.
O cenário, apesar de trágico, ainda é evitável, diz o relatório do Comité Internacional de Resgate (IRC). Mas, para isso, é urgente e necessário que chegue a países mais frágeis, como o Afeganistão e a Síria, ajuda financeira e humanitária.
"Ainda resta uma pequena janela de tempo para montar uma resposta robusta", lê-se.
De acordo com a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos da América, há já mais de três milhões de casos confirmados de Covid-19 em todo o mundo, com mais de 200 000 mortes.
O relatório do IRC, baseado em modelos e dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Imperial College London, estima que possa haver entre 500 e mil milhões de infeções em todo o mundo. E admite ainda que as mortes possam ultrapassar mais de três milhões em dezenas de países instáveis e afetados por conflitos.
"Estes números devem servir como alerta", disse o chefe do IRC, David Miliband.
"O peso total, devastador e desproporcional desta pandemia ainda não foi sentido nos países mais frágeis e devastados pela guerra", acrescentou.
"A chave agora é que os doadores vejam um financiamento flexível como um dos esforços da linha de frente. (...) Os governos devem trabalhar juntos para remover qualquer impedimento à assistência humanitária".
O grupo, com sede nos EUA, que responde a crises humanitárias em todo o mundo, considera que fatores como o tamanho das famílias, a densidade populacional, a capacidade de assistência à saúde e os conflitos pré-existentes podem aumentar o risco de desenvolvimento de grandes surtos.
Neste momento, muitos países no mundo em desenvolvimento têm baixas taxas oficiais de infeção ou número de mortos, mas os especialistas acreditam que os números reais sejam muito mais altos.
Caroline Seguin, que administra programas dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Iémen, explica que a organização acredita que as pessoas estejam a morrer de Covid 19, mas não nos hospitais.
"Estamos convencidos de que está a haver já transmissão local, mas a capacidade de teste é muito, muito baixa", disse à BBC.
Um dos grandes problemas que este países, em desenvolvimento ou instáveis, enfrentam, é a falta de equipamento médico adequado para o tratamento de pacientes com a Covid-19.
No Afeganistão e no Paquistão, por exemplo, existem menos de dez ventiladores para cada milhão de pessoas. Na Nigéria, o número é ainda mais acentuado: 0,8 ventiladores por milhão.
O exemplo de Itália revela como estes números fazem adivinhar o pior. O país que tem um dos maiores números de mortes por coronavírus do mundo tinha 80 ventiladores por milhão de pessoas no início da crise.
O alerta é do Comité Internacional de Resgate. Se os países mais pobres não forem urgentemente ajudados, o coronavírus pode chegar a infetar mil milhões de pessoas em todo o mundo.
O cenário, apesar de trágico, ainda é evitável, diz o relatório do Comité Internacional de Resgate (IRC). Mas, para isso, é urgente e necessário que chegue a países mais frágeis, como o Afeganistão e a Síria, ajuda financeira e humanitária.
"Ainda resta uma pequena janela de tempo para montar uma resposta robusta", lê-se.
De acordo com a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos da América, há já mais de três milhões de casos confirmados de Covid-19 em todo o mundo, com mais de 200 000 mortes.
O relatório do IRC, baseado em modelos e dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Imperial College London, estima que possa haver entre 500 e mil milhões de infeções em todo o mundo. E admite ainda que as mortes possam ultrapassar mais de três milhões em dezenas de países instáveis e afetados por conflitos.
"Estes números devem servir como alerta", disse o chefe do IRC, David Miliband.
"O peso total, devastador e desproporcional desta pandemia ainda não foi sentido nos países mais frágeis e devastados pela guerra", acrescentou.
"A chave agora é que os doadores vejam um financiamento flexível como um dos esforços da linha de frente. (...) Os governos devem trabalhar juntos para remover qualquer impedimento à assistência humanitária".
O grupo, com sede nos EUA, que responde a crises humanitárias em todo o mundo, considera que fatores como o tamanho das famílias, a densidade populacional, a capacidade de assistência à saúde e os conflitos pré-existentes podem aumentar o risco de desenvolvimento de grandes surtos.
Neste momento, muitos países no mundo em desenvolvimento têm baixas taxas oficiais de infeção ou número de mortos, mas os especialistas acreditam que os números reais sejam muito mais altos.
Caroline Seguin, que administra programas dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Iémen, explica que a organização acredita que as pessoas estejam a morrer de Covid 19, mas não nos hospitais.
"Estamos convencidos de que está a haver já transmissão local, mas a capacidade de teste é muito, muito baixa", disse à BBC.
Um dos grandes problemas que este países, em desenvolvimento ou instáveis, enfrentam, é a falta de equipamento médico adequado para o tratamento de pacientes com a Covid-19.
No Afeganistão e no Paquistão, por exemplo, existem menos de dez ventiladores para cada milhão de pessoas. Na Nigéria, o número é ainda mais acentuado: 0,8 ventiladores por milhão.
O exemplo de Itália revela como estes números fazem adivinhar o pior. O país que tem um dos maiores números de mortes por coronavírus do mundo tinha 80 ventiladores por milhão de pessoas no início da crise.
Covid-19: Centro 2020 ajuda setor social com dois milhões de euros
in Porto Canal
Coimbra, 28 abr 2020 (Lusa) -- O programa Centro 2020 disponibiliza dois milhões de euros do Fundo Social Europeu (FSE) para assegurar a capacidade de resposta do setor social e solidário da região Centro à pandemia da covid-19, foi hoje anunciado.
A iniciativa avança "no âmbito das medidas de apoio ao reforço de emergência de equipamentos sociais e de saúde", sendo direcionada a entidades "particularmente expostas aos efeitos de sobrecarga de trabalho originados por esta pandemia", informa em comunicado a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), liderada por Isabel Damasceno, antiga presidente da Câmara de Leiria.
"Trata-se de uma medida, de caráter extraordinário e temporário, de reforço de recursos humanos em instituições que desenvolvem atividade na área social e da saúde, nomeadamente serviços de saúde, hospitais, estruturas residenciais ou serviços de apoio domiciliário para pessoas idosas e pessoas com deficiência ou incapacidade", adianta.
A verba disponibilizada destina-se a apoiar a "contratação de desempregados, trabalhadores com contrato de trabalho suspenso ou horário de trabalho reduzido ou com contratos de trabalho a tempo parcial, bem como estudantes, designadamente do ensino superior, e formandos, preferencialmente de áreas relacionadas com os projetos", segundo a CCDRC.
"Estes apoios são operacionalizados através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), introduzindo um regime extraordinário de majoração das bolsas mensais dos 'Contrato emprego-inserção (CEI)' e 'Contrato emprego-inserção+ (CEI+)' em projetos realizados nestas instituições", explica.
Portugal contabiliza 948 mortos associados à covid-19 em 24.322 casos confirmados de infeção, segundo o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia divulgado hoje.
Relativamente ao dia anterior, há mais 20 mortos (+2,2%) e mais 295 casos de infeção (+1,2%).
Das pessoas infetadas, 936 estão hospitalizadas, das quais 172 em unidades de cuidados intensivos, e o número de casos recuperados passou de 1.357 para 1.389.
CSS // SSS
Lusa/Fim
Coimbra, 28 abr 2020 (Lusa) -- O programa Centro 2020 disponibiliza dois milhões de euros do Fundo Social Europeu (FSE) para assegurar a capacidade de resposta do setor social e solidário da região Centro à pandemia da covid-19, foi hoje anunciado.
A iniciativa avança "no âmbito das medidas de apoio ao reforço de emergência de equipamentos sociais e de saúde", sendo direcionada a entidades "particularmente expostas aos efeitos de sobrecarga de trabalho originados por esta pandemia", informa em comunicado a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), liderada por Isabel Damasceno, antiga presidente da Câmara de Leiria.
"Trata-se de uma medida, de caráter extraordinário e temporário, de reforço de recursos humanos em instituições que desenvolvem atividade na área social e da saúde, nomeadamente serviços de saúde, hospitais, estruturas residenciais ou serviços de apoio domiciliário para pessoas idosas e pessoas com deficiência ou incapacidade", adianta.
A verba disponibilizada destina-se a apoiar a "contratação de desempregados, trabalhadores com contrato de trabalho suspenso ou horário de trabalho reduzido ou com contratos de trabalho a tempo parcial, bem como estudantes, designadamente do ensino superior, e formandos, preferencialmente de áreas relacionadas com os projetos", segundo a CCDRC.
"Estes apoios são operacionalizados através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), introduzindo um regime extraordinário de majoração das bolsas mensais dos 'Contrato emprego-inserção (CEI)' e 'Contrato emprego-inserção+ (CEI+)' em projetos realizados nestas instituições", explica.
Portugal contabiliza 948 mortos associados à covid-19 em 24.322 casos confirmados de infeção, segundo o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a pandemia divulgado hoje.
Relativamente ao dia anterior, há mais 20 mortos (+2,2%) e mais 295 casos de infeção (+1,2%).
Das pessoas infetadas, 936 estão hospitalizadas, das quais 172 em unidades de cuidados intensivos, e o número de casos recuperados passou de 1.357 para 1.389.
CSS // SSS
Lusa/Fim
"Psic.ON" é a nova plataforma de apoio psicológico da U.Porto
Por Marisa Macedo, in Up.pt
Consultas podem realizar-se por video-chamada, live chat ou e-mail, e visam ajudar a superar o isolamento social e as ansiedades da retoma de atividades “fora de casa”.
Face às transformações provocadas pela pandemia de COVID-19, a Universidade do Porto acaba de lançar a “Psic.ON”, uma nova plataforma de apoio psicológico online. O projeto, que complementa a já lançada Linha de Apoio Psicológico, disponibiliza, de forma gratuita, apoio através de video-chamada, live-chat ou e-mail, ou com recursos de auto-ajuda.
A plataforma Psic.ON surge numa altura em que a população tem vindo a ser afetada, emocionalmente, pelo isolamento e distanciamento social, e pela ansiedade da retoma das atividades “fora de casa”. O projeto destina-se por isso a todos os membros da comunidade académica – estudantes, professores, colaboradores e investigadores – e os seus familiares, incluindo crianças, identificadas como uma população de especial vulnerabilidade, devido aos efeitos desta fase provocada pela pandemia.
Prestado por profissionais qualificados, o novo serviço integra consultas psicológicas individuais, em diferentes línguas, por vídeo-chamada, live-chat ou e-mail, permitindo a privacidade da identidade. Na área de auto-ajuda, estarão disponíveis vários materiais na área da gestão emocional, de rotinas e de informação geral, para diferentes faixas etárias.
A plataforma integra também um espaço para recolha de histórias de doentes recuperados de COVID-19, com um relato oral ou escrito do que viveu e sobre como superou a doença.
Os interessados podem também participar nos “Grupos de Apoio”, orientados por facilitadores e organizados por tema, desde o apoio ao teletrabalho, à consultoria a pais de bebés e crianças pequenas. O objetivo é ser um espaço de partilha e de diálogo, que apoie cada um dos membros na gestão do seu dia-a-dia.
São cada vez mais os que procuram ajuda
Lançada no final de março, a Linha de Apoio Psicológico da Universidade do Porto tem vindo a apoiar todos os membros da comunidade académica através do telefone ou e-mail.
Só no primeiro mês de funcionamento, a LAPUP apoiou mais de 60 casos, relacionados com ansiedade, angústia, solidão, gestão de conflitos e outros temas ligados à COVID-19.
A Psic.ON foi criada pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em articulação com a Linha de Apoio Psicológico (LAPUP) e com o suporte dos serviços da Universidade do Porto.
Consultas podem realizar-se por video-chamada, live chat ou e-mail, e visam ajudar a superar o isolamento social e as ansiedades da retoma de atividades “fora de casa”.
Face às transformações provocadas pela pandemia de COVID-19, a Universidade do Porto acaba de lançar a “Psic.ON”, uma nova plataforma de apoio psicológico online. O projeto, que complementa a já lançada Linha de Apoio Psicológico, disponibiliza, de forma gratuita, apoio através de video-chamada, live-chat ou e-mail, ou com recursos de auto-ajuda.
A plataforma Psic.ON surge numa altura em que a população tem vindo a ser afetada, emocionalmente, pelo isolamento e distanciamento social, e pela ansiedade da retoma das atividades “fora de casa”. O projeto destina-se por isso a todos os membros da comunidade académica – estudantes, professores, colaboradores e investigadores – e os seus familiares, incluindo crianças, identificadas como uma população de especial vulnerabilidade, devido aos efeitos desta fase provocada pela pandemia.
Prestado por profissionais qualificados, o novo serviço integra consultas psicológicas individuais, em diferentes línguas, por vídeo-chamada, live-chat ou e-mail, permitindo a privacidade da identidade. Na área de auto-ajuda, estarão disponíveis vários materiais na área da gestão emocional, de rotinas e de informação geral, para diferentes faixas etárias.
A plataforma integra também um espaço para recolha de histórias de doentes recuperados de COVID-19, com um relato oral ou escrito do que viveu e sobre como superou a doença.
Os interessados podem também participar nos “Grupos de Apoio”, orientados por facilitadores e organizados por tema, desde o apoio ao teletrabalho, à consultoria a pais de bebés e crianças pequenas. O objetivo é ser um espaço de partilha e de diálogo, que apoie cada um dos membros na gestão do seu dia-a-dia.
São cada vez mais os que procuram ajuda
Lançada no final de março, a Linha de Apoio Psicológico da Universidade do Porto tem vindo a apoiar todos os membros da comunidade académica através do telefone ou e-mail.
Só no primeiro mês de funcionamento, a LAPUP apoiou mais de 60 casos, relacionados com ansiedade, angústia, solidão, gestão de conflitos e outros temas ligados à COVID-19.
A Psic.ON foi criada pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em articulação com a Linha de Apoio Psicológico (LAPUP) e com o suporte dos serviços da Universidade do Porto.
Ninguém se salva sozinho
Ana Rita Bessa, in o Observador
Eles não ficaram a pensar se cabe ao Estado o papel “providenciador” nem presos na dúvida moral sobre o “assistencialismo”: cuidaram de se proteger e pragmaticamente saíram à rua para fazer acontecer.
«Fizemos isto por nos fazer confusão as redes sociais estarem cheias de mensagens ‘stay safe, stay home’ e vermos (ao entregar cabazes de comida, nas últimas semanas) pessoas que, por estarem isoladas, passam a precisar da ajuda das instituições. Ficaram sem maneira de sustentar a família, assim, de um dia para o outro.»
Esta frase é de dois amigos de 24 anos, o Xavier Appleton e o Francisco Palma Carpinteiro. Dois amigos que sentiram qualquer coisa de dissonante no slogan “stay safe, stay home” e perceberam que, para muitas pessoas, estar em casa não significa estar a salvo.
Reconheceram a mesma realidade que é descrita aqui, através de quem, no terreno há mais de vinte anos, nos diz em tom perturbado que “os pedidos de apoio parece que nascem do chão. Nunca vi nada assim”.
Com a pandemia instalada em Portugal, e o confinamento a que fomos obrigados em consequência, aconteceram duas coisas.
A primeira, imediata, foi o encerramento de muitas IPSS e ONG que prestam apoio social, entregando refeições ou acompanhando quem está sozinho e sem meios; obrigadas a fechar portas por razões sanitárias, sem terem acesso aos fornecimentos habituais, com voluntários em quarentena, desocultaram uma pobreza que persiste entre nós e que vive apaziguada apenas por esta ajuda.
A segunda, mediata mas já real, tem que ver com as empresas que entraram em layoff, com os seus colaboradores que passaram a receber muito menor salário e com as pessoas que perderam já o seu emprego. Para estas, a situação de pobreza surgiu inesperadamente, numa altura em que podem fazer muito pouco para a contrariar. São já 1.180.769 os trabalhadores em layoff e mais 76.628 desempregados –quase um terço da população ativa.
Para uns deixou de haver quem lhes lembra o que é “casa”, e para outros ficar em casa é ter as mãos atadas para lutar contra esta revolta na vida. Nem uns nem outros estão a salvo.
E aqui entra esta “nova” geração, em início de vida ativa. Criaram novas redes de apoio, reais e digitais, juntaram-se a quem já está no terreno para poder manter apoios em marcha, ofereceram tempo, criatividade, braços e pernas, e aí estão a amparar e a levar ajuda vital aos que agora precisam.
Não ficaram a pensar se cabe ao Estado assumir o papel “providenciador” e se os setores social ou privado devem ser apenas supletivos, não ficaram suspensos na dúvida moral sobre o “assistencialismo”, não fizeram petições ou manifestações de apelo à intervenção de outro alguém. Simplesmente cuidaram de se proteger, para sua salvaguarda e a dos outros, e pragmaticamente saíram à rua para fazer acontecer. E com isso deram a sua resposta, afirmaram a sua visão do mundo.
Há muitas lições a retirar daqui; cada um poderá fazer esse exercício.
Mas há uma que penso ser coletivamente relevante, agora e no futuro. É que há uma nova geração, pelo menos uma parte dessa geração, para quem uma certa arrumação ideológica já não faz sentido. Que não está à espera que façam por eles. Que não quer ficar paralisada em debates pragmaticamente inúteis sobre modelos de sociedade, porque, entretanto, a realidade já se sobrepôs. Que não compreende uma semântica que reduz a participação da sociedade, enquanto eles já aí estão, a construí-la. Que sabe ler os sinais do seu tempo e a eles deseja responder, solidariamente, articuladamente, como for mais eficaz. Com projetos inovadores, com o que cada um sabe fazer, com tempo. Voluntariamente.
Eles não ficaram a pensar se cabe ao Estado o papel “providenciador” nem presos na dúvida moral sobre o “assistencialismo”: cuidaram de se proteger e pragmaticamente saíram à rua para fazer acontecer.
«Fizemos isto por nos fazer confusão as redes sociais estarem cheias de mensagens ‘stay safe, stay home’ e vermos (ao entregar cabazes de comida, nas últimas semanas) pessoas que, por estarem isoladas, passam a precisar da ajuda das instituições. Ficaram sem maneira de sustentar a família, assim, de um dia para o outro.»
Esta frase é de dois amigos de 24 anos, o Xavier Appleton e o Francisco Palma Carpinteiro. Dois amigos que sentiram qualquer coisa de dissonante no slogan “stay safe, stay home” e perceberam que, para muitas pessoas, estar em casa não significa estar a salvo.
Reconheceram a mesma realidade que é descrita aqui, através de quem, no terreno há mais de vinte anos, nos diz em tom perturbado que “os pedidos de apoio parece que nascem do chão. Nunca vi nada assim”.
Com a pandemia instalada em Portugal, e o confinamento a que fomos obrigados em consequência, aconteceram duas coisas.
A primeira, imediata, foi o encerramento de muitas IPSS e ONG que prestam apoio social, entregando refeições ou acompanhando quem está sozinho e sem meios; obrigadas a fechar portas por razões sanitárias, sem terem acesso aos fornecimentos habituais, com voluntários em quarentena, desocultaram uma pobreza que persiste entre nós e que vive apaziguada apenas por esta ajuda.
A segunda, mediata mas já real, tem que ver com as empresas que entraram em layoff, com os seus colaboradores que passaram a receber muito menor salário e com as pessoas que perderam já o seu emprego. Para estas, a situação de pobreza surgiu inesperadamente, numa altura em que podem fazer muito pouco para a contrariar. São já 1.180.769 os trabalhadores em layoff e mais 76.628 desempregados –quase um terço da população ativa.
Para uns deixou de haver quem lhes lembra o que é “casa”, e para outros ficar em casa é ter as mãos atadas para lutar contra esta revolta na vida. Nem uns nem outros estão a salvo.
E aqui entra esta “nova” geração, em início de vida ativa. Criaram novas redes de apoio, reais e digitais, juntaram-se a quem já está no terreno para poder manter apoios em marcha, ofereceram tempo, criatividade, braços e pernas, e aí estão a amparar e a levar ajuda vital aos que agora precisam.
Não ficaram a pensar se cabe ao Estado assumir o papel “providenciador” e se os setores social ou privado devem ser apenas supletivos, não ficaram suspensos na dúvida moral sobre o “assistencialismo”, não fizeram petições ou manifestações de apelo à intervenção de outro alguém. Simplesmente cuidaram de se proteger, para sua salvaguarda e a dos outros, e pragmaticamente saíram à rua para fazer acontecer. E com isso deram a sua resposta, afirmaram a sua visão do mundo.
Há muitas lições a retirar daqui; cada um poderá fazer esse exercício.
Mas há uma que penso ser coletivamente relevante, agora e no futuro. É que há uma nova geração, pelo menos uma parte dessa geração, para quem uma certa arrumação ideológica já não faz sentido. Que não está à espera que façam por eles. Que não quer ficar paralisada em debates pragmaticamente inúteis sobre modelos de sociedade, porque, entretanto, a realidade já se sobrepôs. Que não compreende uma semântica que reduz a participação da sociedade, enquanto eles já aí estão, a construí-la. Que sabe ler os sinais do seu tempo e a eles deseja responder, solidariamente, articuladamente, como for mais eficaz. Com projetos inovadores, com o que cada um sabe fazer, com tempo. Voluntariamente.
Aveiro / Cáritas: Voluntárias do Projeto ‘Maré de Escolhas’ dão apoio nas aulas à distância
in Notícias de Aveiro
A Cáritas Diocesana de Aveiro ajuda alunos mais carenciados nestes dias de escola à distância.
Um serviço de voluntariado do projeto ‘Maré de Escolhas’ que complementa o apoio escolar às famílias que precisam de ajuda no acesso às plataformas eletrónicas e no apoio ao estudo.
A Cáritas Diocesana de Aveiro ajuda alunos mais carenciados nestes dias de escola à distância.
Um serviço de voluntariado do projeto ‘Maré de Escolhas’ que complementa o apoio escolar às famílias que precisam de ajuda no acesso às plataformas eletrónicas e no apoio ao estudo.
Coronavírus agravará fome e pobreza na América Latina, diz FAO
in Terra.com
A fome e a pobreza devem disparar na América Latina e no Caribe, uma vez que o impacto do novo coronavírus está devastando as economias da região e transtornando as cadeias de suprimento, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A maioria dos países da América Latina foi forçada a paralisar suas economias devido ao avanço do coronavírus, o que acabou com a esperança de crescimento e fez as previsões de desemprego dispararem.
A agência das Nações Unidas disse que, mesmo assim, deve haver alimento suficiente à disposição tanto nas reservas regionais quanto internacionais, mas alertou que as cadeias de suprimento afetadas podem complicar o acesso a estes estoques, especialmente para os pobres.
"Medidas sanitárias para evitar a disseminação do vírus têm consequências diretas no funcionamento dos sistemas alimentares", disse a FAO no documento, que foi apresentado à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
O vírus chegou na América Latina mais tarde do que na Europa ou na Ásia, mas a região já confirmou 150 mil casos de coronavírus e mais de 7.200 mortes até o momento.
De acordo com a FAO, um terço da população da América Latina e do Caribe já vive em estado precário de "insegurança alimentar".
Estas populações são especialmente vulneráveis, e os países precisam priorizar o acesso à comida e a ajuda aos pobres à medida que a crise se intensifica, alertou a agência no documento.
"É crucial que os governos declarem a alimentação e a agricultura como estratégicas e de interesse público nacional... para que esta crise de saúde não se torne uma crise alimentar".
A agência da ONU disse que a pandemia global pode afetar tanto a oferta quanto a demanda, e alertou que muitos da América Latina verão seu poder de compra ser dizimado, enquanto agricultores locais podem ter mais dificuldade para obter mão de obra, insumos como fertilizantes e capital.
Os preços dos alimentos provavelmente também oscilarão, disse a entidade, devido aos transtornos globais nas cadeias de suprimento, forçando nações a buscar novas fontes de comida.
Em 2018, os países com os índices mais altos de fome eram
Haiti (49,3%), Venezuela (21,2%), Nicarágua (17%), Bolívia(17,1%) e Guatemala (15,2%), disse a agência.
A fome e a pobreza devem disparar na América Latina e no Caribe, uma vez que o impacto do novo coronavírus está devastando as economias da região e transtornando as cadeias de suprimento, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A maioria dos países da América Latina foi forçada a paralisar suas economias devido ao avanço do coronavírus, o que acabou com a esperança de crescimento e fez as previsões de desemprego dispararem.
A agência das Nações Unidas disse que, mesmo assim, deve haver alimento suficiente à disposição tanto nas reservas regionais quanto internacionais, mas alertou que as cadeias de suprimento afetadas podem complicar o acesso a estes estoques, especialmente para os pobres.
"Medidas sanitárias para evitar a disseminação do vírus têm consequências diretas no funcionamento dos sistemas alimentares", disse a FAO no documento, que foi apresentado à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
O vírus chegou na América Latina mais tarde do que na Europa ou na Ásia, mas a região já confirmou 150 mil casos de coronavírus e mais de 7.200 mortes até o momento.
De acordo com a FAO, um terço da população da América Latina e do Caribe já vive em estado precário de "insegurança alimentar".
Estas populações são especialmente vulneráveis, e os países precisam priorizar o acesso à comida e a ajuda aos pobres à medida que a crise se intensifica, alertou a agência no documento.
"É crucial que os governos declarem a alimentação e a agricultura como estratégicas e de interesse público nacional... para que esta crise de saúde não se torne uma crise alimentar".
A agência da ONU disse que a pandemia global pode afetar tanto a oferta quanto a demanda, e alertou que muitos da América Latina verão seu poder de compra ser dizimado, enquanto agricultores locais podem ter mais dificuldade para obter mão de obra, insumos como fertilizantes e capital.
Os preços dos alimentos provavelmente também oscilarão, disse a entidade, devido aos transtornos globais nas cadeias de suprimento, forçando nações a buscar novas fontes de comida.
Em 2018, os países com os índices mais altos de fome eram
Haiti (49,3%), Venezuela (21,2%), Nicarágua (17%), Bolívia(17,1%) e Guatemala (15,2%), disse a agência.
O vírus da fome já está entre nós
José Miguel Gaspar, Notícias Magazine
Desemprego, pobreza, fome: o triângulo da crise na paisagem nacional que continua a enfrentar um Estado de Emergência.
A pobreza esconde-se – e Lu espreita, reformada e sozinha, atrás da cortina, derrotada, numa ilha urbana da avenida de Fernão de Magalhães. A pobreza envergonha e noutra ilha portuense há um casal que vive numa casa do tamanho de uma coelheira, sem água, sem luz, sem WC, num cenário de erosão económica e social com vista direta para o seu abismo. No Bairro Falcão um jovem casal, ela perdeu o emprego em turismo, ele está em lay-off, emudece: têm cinco filhas menores à frente para criar. “Nunca vimos nada assim”, diz Isabel Jonet, que há um mês montou num supetão a nova e brava Rede de Emergência Alimentar, “o que vemos agora é brutal”. A paisagem do desemprego é preta, diz o especialista em economia Pedro Santos Guerreiro, “vamos duplicar o número de desempregados, muitos estão ainda por desocultar”. Esta é a pandemia: desemprego, pobreza e fome são o verdadeiro vírus que não pára de infeccionar.
Um casal metido num anexo sem WC
Se imaginarmos que vivemos no reino dos animais então ali é uma coelheira e está ali um casal. Entra-se por um portão verde da última rua na fronteira do Porto com Rio Tinto, passa-se o grafíti que diz Vagabundo GT, sobe-se uma vereda de ervas cercada de prédios baixos (e um Smart abandonado no meio do caminho, como uma floreira paralelepipedal irreal) e assoma-se à clareira de cimento partido onde medra um jardinzinho em dissolução. É ali, desenrolada num beco que fica a “casa” deles, Maria Manuela e Abílio, 57 anos e 61, um anexo minúsculo, uma coelheira de 5X3 metros, talvez nem tanto.
A “casa” não tem água (eles carregam para a porta garrafões), não tem luz (vem duma puxada cedida por uma vizinha), está toda forrada a cartão, incluindo no teto por onde pinga, e lá dentro só cabe uma cama, um armarinho, uma mesa mínima com um fogão de disco e um frigorífico anão. A “casa” não tem WC e o WC é um balde castanho debaixo da cama (uma vez por semana, ou menos, tomam banho noutra vizinha). É uma “casa” sub-humana e o casal paga por ela 145 euros de renda. Sem recibo – enquanto continuam à espera, há muitos meses enrolados, por uma casa concreta da Domus Social, a empresa pública que gere o parque de habitações de renda controlada da Câmara do Porto.
São um caso descoroçoado de aflição: ela, Maria Manuela, tem 189,66 euros mensais de Rendimento Social de Inserção, mas metade vai-se nos medicamentos “da cabeça” e nos vasodilatadores coronários e nos hipotensores; ele, Abílio, recebe 283 euros da reforma para 80% de invalidez que anos seguidos de trabalho como pintor de tintas e vernizes, “sem qualquer máscara”, que lhe rebentaram os dois pulmões – ele dirá depois, “uma vez no hospital cuspi meio balde de sangue” e ato seguido tosse como uma caverna seca e saca de um saco plástico uma bomba de Pulmicort, o medicamento glucocorticosteroide usado para reduzir inflamações permanentes dos pulmões e que custa, cada bomba, 65 euros. E os dois olham agora emudecidos para a sua falta de perspetiva e não veem prisma de salvação: com a pandemia do coronavírus e da nova doença respiratória severa Covid-19 a obrigar ao confinamento geral, extinguiram-se subitamente os biscates de pintura dele e de limpeza dela e com isso viram esfarelar-se a sua tábua de salvação.
Juntaram-se há cinco anos depois de casamentos desfeitos, conheceram-se na AMI de Campanhã, onde comiam a 30 euros ao mês. Ele tem dois filhos que não vê, ela tem três – nunca conheceu sequer os seis netos que vivem a 60 quilómetros dali, em Amarante, de onde ela saiu há 17 anos porque o marido, “ele bebia”, lhe batia no grosso fervor, e foi por isso, por partir, que os filhos deixaram de lhe falar.
Naquele dia, Manuela foi à Legião da Boa Vontade do Porto buscar o cabaz para o mês, como faz há anos – a LBV é a instituição solidária brasileira fundada no dealbar do pós-II Guerra e que se instalou no Porto, Lisboa e Coimbra nos anos 1990, apoiando hoje mais de 500 famílias diretas para comer. Trouxe 25 kg de boa comida doada pelo Lidl e pelo El Corte Inglés, carne, fruta, legumes, básicos de arroz, massa, feijão, bolachas, iogurtes, mas também mimos pascais de chocolate e patê de pato fumado. Sem o cabaz, que eles dizem ser um dos melhores de sempre, Maria Manuela e Abílio estariam há muito submersos na fome.
E eles ficam lá atrás, parados a olhar para o abismo, um lugar geralmente escarpado em que há uma grande depressão abrupta, que termina em despenhadeiro, em precipício e onde há perigo de viver. Ouve-se um fiozinho do rádio de pilhas que estira uma concertina da Rádio Festival e atrás deles, por cima da cama, na parede de cartão da sua coelheira branca, vê-se um poster de João Félix ajoelhado no relvado como um santo sem altar.
“Nunca antes vimos nada assim”
A primeira frase que Isabel Jonet diz – e o seu horizonte é extenso: há 27 anos entrou como voluntária no Banco Alimentar Contra a Fome e hoje preside à instituição que angaria alimentos para 2 600 entidades e faz distribuição pelos desprovidos que não param de crescer – é que nunca vimos uma coisa assim. Revela que “em tempos normais, os Bancos Alimentares, presentes em 22 pontos do país, já apoiam 420 mil pessoas, ou seja, 4% da população portuguesa”, e que “cerca de 2,2 milhões de pessoas estão em risco de pobreza ou exclusão social”, 21,6% da população que ganha abaixo dos 500 euros mensais. “Mas, agora, com esta pandemia na saúde pública, o confinamento, a paragem geral de comércio e o estado de emergência nacional, nunca houve uma coisa assim”, avaliza Jonet. Faz agora um mês, perante o fecho de muitas instituições solidárias e em perda de voluntários, montou uma nova Rede de Emergência Alimentar; nos primeiros dois dias recebeu 580 novos pedidos de ajuda; quatro dias depois já eram 950; um mês após começar são 9 992 pedidos de amparo para comer – “não são 9 992 pessoas, são 9 992 famílias”.
Isabel Jonet retoma o fôlego. “São milhares de pessoas que apareceram de repente no fim da linha e a linha não pára de aumentar. É uma brutalidade que nunca vi, tanta gente de uma vez em paralisação total, com cortes severos de salários, pessoas com baixas reformas, pessoas não qualificadas, pessoas sem chão, sem horizonte, empregadas domésticas, manicures, feirantes, imensos trabalhadores informais, os novos trabalhadores do turismo, há pedidos desesperados neste setor que congelou abruptamente.” Por comparação, observa ela, a crise económica anterior, espoletada em 2008/09 e com réplicas que demoraram uma década a passar. “Nem essa crise foi tão brutal, porque se suavizou, de certa forma, ao estender-se no tempo. Esta agora não, esta caiu em cima de tanta gente de repente.… Já tínhamos 380 mil portugueses em pobreza estrutural, que é aquela que não se consegue vencer, mas agora temos esta nova pobreza, que é de um vazio assustador porque é repentina e total, que pode duplicar aquele número, que o pode triplicar. Sem nós, sem muitos como nós, muita gente morreria sem ter o que comer.”
É nesse mesmo ponto referencial que está Rubens Marques, o padre omnipresente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Marquês, no Porto. Ele lidera uma das sete instituições da cidade que se mantêm em atividade nos dias do tsunami viral. “Mais do que duplicou”, diz o compadecido prelado, que todos os dias põe uma máscara branca P2 para ajudar os seus voluntários, que se dividem em duas equipas de 30 pessoas cada uma para servir comida em take away – é das 18 às 20 horas, tem dias em que a fila dos carecentes chega quase cá fora ao portão. “Até fevereiro, servíamos 160 refeições por dia, agora são 399; de 12 de março a 12 de abril contamos 9 987 refeições doadas. Os números já superam, é uma evidência, os da crise anterior.”
Atento observador gregário, o padre Rubens nota uma estreia e uma reprise no novo drama social: “Vejo um regresso da pobreza envergonhada, vejo a classe média em erosão. E vejo gente nova, há nitidamente mais jovens que nunca víamos aqui, jovens que trabalhavam no turismo, nas esplanadas, nas limpezas, na nova restauração, eles agora aparecem aqui pela primeira vez a pedir para comer. E isso é novo e é muito preocupante”.
Pobre Lu, esconde-se constrangida
A pandemia pôs a nu uma realidade camuflada, como a de Lu – Lu é um hipocorístico do seu nome real; ela pede para permanecer anónima, isto é, só aceita surgir oculta atrás da cortina de renda e creme na janela da sua pequenina sala de estar. Reformada, 67 anos, divorciada a viver sozinha, como 1 026 idosos identificados no Porto (em Portugal são 41 869 no total), ela habita num T0+1 duma ilha atrás dos muros da grande avenida portuense de Fernão de Magalhães. Ela diz: “Tenho vergonha, ninguém sabe, só sei eu o que passo aqui”. É só fazer as contas: recebe 189,66 euros de reforma, a renda da casa é 275 euros. Já está em défice e ainda não entraram a comida, a luz, a água, nem a medicação – que vai buscar de repente à mínima cozinha para mostrar: paroxetina, 20mg, valium 10, 10mg, victan debaixo da língua, um comprimido ou um e meio, depende das angústias e do tremor, além dos remédios da tensão, da asma e das vias respiratórias que se empastam na humidade.
“Se não fosse buscar de comer, há muito que já não estava aqui”, diz a mulher, que é também crónica utente dependente da caridade da LBV, a olhar fixamente o chão e o seu cão, porque ele soergue-se, é um caniche branco de pelo torcido em espiral, e olha suplicante – “é a minha única companhia, só falo com ele, mais ninguém, dorme comigo ali na caminha, o lado esquerdo é o dele”, torna a mulher a apontar.
Lu, que noutra vida trabalhou 22 anos no Lar do Comércio, volta às contas e só lhe dá subtração: “Como é que eu compunha a vidinha? Lavava escadas, fazia limpezas num prédio onde já morei – e aí ela abate-se, não sabe do chão: “Pagava nesse prédio 235 euros de renda, mas o senhorio queria subir para 400, como podia eu pagar?”. E teve que sair. Pouca coisa trouxe, além de memória, mas há um retrato que foi o primeiro a agarrar: “É esta foto do meu filho – tenho também uma filha, está em Inglaterra, mas não me liga nenhum” -, ele tinha 23 anos, morreu-me em 2014 no Luxemburgo, foi um acidente de carro, chovia, capotou, e ficou lá, não o vi mais, não tinha dinheiro para o trazer”, diz a pobre Lu, embotada, metida na sua nova ilha cercada de pobreza e solidão.
“Em Portugal, é considerado abaixo do limiar do risco de pobreza quem tem rendimentos inferiores a 501 euros por mês, são os dados da Pordata, de 2018”, vai dizer o especialista em economia Pedro Santos Guerreiro. “Na taxa de risco de pobreza, isto é, após as transferências sociais, tínhamos recuperado de 19,5% em 2014 para 17,3% em 2018. Mas o número vai agora voltar a subir. Se não existissem prestações sociais (subsídio de desemprego, pensões, rendimento social de inserção, complemento solidário para idosos), a taxa seria de quase 37%, uma calamidade social”.
Cofundador do “Jornal de Negócios”, cronista do “Expresso” e comentador omnisciente na TVI, Pedro Santos Guerreiro está rodeado de uma parede de números e, como sabe ver para lá dos números, só vê nuvens a carregar. “O desemprego disparou depressa, mas os números não são ainda, repito, ainda, assustadores. O susto está adiado no lay-off [regime que permite às empresas reduzir o horário de trabalho ou suspender os contratos por um período limitado, convocando contribuição estatal parcial] e o lay-off é uma bomba-relógio cuja carga explosiva não é ainda possível prever”, avisa Santos Guerreiro, que continua a adensar. “Mas é provável que mais do que dupliquemos o número de desempregados entre o início e o final deste ano, passando dos 340 mil para mais de 700 mil. E este não é um cenário muito pessimista. Portugal chegou a ter 850 mil desempregados no pico da crise financeira, em 2013, o objetivo do Governo é fugir de um número astronómico como esse. Mas basta olhar para o turismo, que representa quase 10% do emprego declarado em Portugal, para recear um cenário pior.”
O casal dos sete, com cinco filhas pequeninas
É nesse temor, que nas noites insones do pai é mesmo medo, é pavor, que está a família Antunes, de Telmo e Paula Cristina, ambos de 32 anos, bairro Falcão, Porto, atrás do Dragão, com cinco-filhas – cinco para criar – umas joias a encher a mão: Lara, 12 anos, Leonor, 10, Lia, 8, Letícia, 3, o nome veio da espanhola rainha consorte, e Luena, 21 meses, uma chupeta de forma labial que ela está sempre a atirar, muito rosada, pelo ar.
O jovem casal trabalhava em turismo num conglomerado de 45 apartamentos que estavam sempre a lotar – “era um corre-corre, só estrangeiros, franceses, americanos, brasileiros, chineses, às vezes gostavam tanto que queriam comprar os apartamentos, era logo, do dia para a noite, era assim”, relata o Telmo, mas parece relatar costumes de outra vida que ninguém sabe se vai voltar. Ele foi posto em lay-off de 70% a 1 de abril, juntamente com os outros 20 funcionários. “Recebo agora o salário mínimo, 635 euros, menos o subsídio de alimentação, dará 570 euros líquidos.” E Paula Cristina, a sua mulher, não viu o contrato a prazo renovado, foi já em agosto, e continua desempregada. Perdeu também no mês passado o curso pago de cabeleireira, no IFP do Cerco, que na pandemia fechou, e lhe dava para saldar o infantário e ainda dava subsidio de alimentação.
Eles entreolham-se, marido e mulher, e nos seus olhos bailam sempre as contas e a subtração. “Vamos ter que tirar as meninas do infantário, eles querem que continuemos a pagar, são 50 euros da inscrição, mais 58 pelas duas mais pequenas, o dinheiro não estica, ou a gente paga ou a gente come”, diz Paula Cristina, a mirar as cinco meninas, duas com grandes laçarotes coloridos no cabelo, que também ali estão, a roer peras e maçãs – diz a mãe delas: “Está a ver? Cinco crianças a lanchar é um quilo de fruta, ao pequeno-almoço é pacote e meio de leite, e agora com toda a gente em casa come-se ainda muito mais”, diz ela a sorrir, a dar a mão ao marido, a soltar ais.
Estão todos os sete na sala virada a norte, sala solar, do T4 camarário no Bairro Falcão e pagam 65 euros de renda por mês, que no próximo mês vai descer para 26 euros, fruto do perdão geral para dois meses da Domus Social. E o futuro deles treme mas ainda não vai desvanecer: aquela sala está cheia de amor e eles souberam olhar para fora, onde há bondade a amparar: têm chegado ajudas em cabazes da Junta, da Proteção Civil, da Rede de Emergência do Banco Alimentar, do site solidário precisodeajuda.com, do irmão da Paula, dos pais do Telmo e ainda há paparicos pascais dos bons vizinhos, como um bolo de chocolate ainda quentinho que acaba de bater à porta a esperançar.
No meio disto eles oscilam, há máscaras cirúrgicas lá em casa, há álcool desinfetante para quem entrar, a TV não os deixa esquecer o que estamos todos a viver, mas é do vírus que nem se querem lembrar. Paula diz: “Não é o vírus invisível que me assusta, é a vida real que estou a ver, é o futuro que não sabemos como vai ser”. Os sete já fizeram o teste de despistagem da nova doença da pandemia e ninguém tem Covid-19. Foram todos por causa da Paula, ela tinha dores agudas nas costas, enfraquecia-se-lhe a respiração, parecia que estava febril, e foram todos à tenda do Queimódromo, na rotunda da anémona na Foz, num dia que fazia sol. Quando as mais pequeninas viram lá ao fundo a praia, quase tiveram que as amarrar, a Letícia e a Luena queriam, só queriam, ir ao mar. Não podemos, não podemos, disse o pai e teve muitas vezes que repetir – e as duas pequeninas fizeram o trajeto de volta a casa, sem compreender, muito desoladas e a chorar.
Desemprego, pobreza, fome: o triângulo da crise na paisagem nacional que continua a enfrentar um Estado de Emergência.
A pobreza esconde-se – e Lu espreita, reformada e sozinha, atrás da cortina, derrotada, numa ilha urbana da avenida de Fernão de Magalhães. A pobreza envergonha e noutra ilha portuense há um casal que vive numa casa do tamanho de uma coelheira, sem água, sem luz, sem WC, num cenário de erosão económica e social com vista direta para o seu abismo. No Bairro Falcão um jovem casal, ela perdeu o emprego em turismo, ele está em lay-off, emudece: têm cinco filhas menores à frente para criar. “Nunca vimos nada assim”, diz Isabel Jonet, que há um mês montou num supetão a nova e brava Rede de Emergência Alimentar, “o que vemos agora é brutal”. A paisagem do desemprego é preta, diz o especialista em economia Pedro Santos Guerreiro, “vamos duplicar o número de desempregados, muitos estão ainda por desocultar”. Esta é a pandemia: desemprego, pobreza e fome são o verdadeiro vírus que não pára de infeccionar.
Um casal metido num anexo sem WC
Se imaginarmos que vivemos no reino dos animais então ali é uma coelheira e está ali um casal. Entra-se por um portão verde da última rua na fronteira do Porto com Rio Tinto, passa-se o grafíti que diz Vagabundo GT, sobe-se uma vereda de ervas cercada de prédios baixos (e um Smart abandonado no meio do caminho, como uma floreira paralelepipedal irreal) e assoma-se à clareira de cimento partido onde medra um jardinzinho em dissolução. É ali, desenrolada num beco que fica a “casa” deles, Maria Manuela e Abílio, 57 anos e 61, um anexo minúsculo, uma coelheira de 5X3 metros, talvez nem tanto.
A “casa” não tem água (eles carregam para a porta garrafões), não tem luz (vem duma puxada cedida por uma vizinha), está toda forrada a cartão, incluindo no teto por onde pinga, e lá dentro só cabe uma cama, um armarinho, uma mesa mínima com um fogão de disco e um frigorífico anão. A “casa” não tem WC e o WC é um balde castanho debaixo da cama (uma vez por semana, ou menos, tomam banho noutra vizinha). É uma “casa” sub-humana e o casal paga por ela 145 euros de renda. Sem recibo – enquanto continuam à espera, há muitos meses enrolados, por uma casa concreta da Domus Social, a empresa pública que gere o parque de habitações de renda controlada da Câmara do Porto.
São um caso descoroçoado de aflição: ela, Maria Manuela, tem 189,66 euros mensais de Rendimento Social de Inserção, mas metade vai-se nos medicamentos “da cabeça” e nos vasodilatadores coronários e nos hipotensores; ele, Abílio, recebe 283 euros da reforma para 80% de invalidez que anos seguidos de trabalho como pintor de tintas e vernizes, “sem qualquer máscara”, que lhe rebentaram os dois pulmões – ele dirá depois, “uma vez no hospital cuspi meio balde de sangue” e ato seguido tosse como uma caverna seca e saca de um saco plástico uma bomba de Pulmicort, o medicamento glucocorticosteroide usado para reduzir inflamações permanentes dos pulmões e que custa, cada bomba, 65 euros. E os dois olham agora emudecidos para a sua falta de perspetiva e não veem prisma de salvação: com a pandemia do coronavírus e da nova doença respiratória severa Covid-19 a obrigar ao confinamento geral, extinguiram-se subitamente os biscates de pintura dele e de limpeza dela e com isso viram esfarelar-se a sua tábua de salvação.
Juntaram-se há cinco anos depois de casamentos desfeitos, conheceram-se na AMI de Campanhã, onde comiam a 30 euros ao mês. Ele tem dois filhos que não vê, ela tem três – nunca conheceu sequer os seis netos que vivem a 60 quilómetros dali, em Amarante, de onde ela saiu há 17 anos porque o marido, “ele bebia”, lhe batia no grosso fervor, e foi por isso, por partir, que os filhos deixaram de lhe falar.
Naquele dia, Manuela foi à Legião da Boa Vontade do Porto buscar o cabaz para o mês, como faz há anos – a LBV é a instituição solidária brasileira fundada no dealbar do pós-II Guerra e que se instalou no Porto, Lisboa e Coimbra nos anos 1990, apoiando hoje mais de 500 famílias diretas para comer. Trouxe 25 kg de boa comida doada pelo Lidl e pelo El Corte Inglés, carne, fruta, legumes, básicos de arroz, massa, feijão, bolachas, iogurtes, mas também mimos pascais de chocolate e patê de pato fumado. Sem o cabaz, que eles dizem ser um dos melhores de sempre, Maria Manuela e Abílio estariam há muito submersos na fome.
E eles ficam lá atrás, parados a olhar para o abismo, um lugar geralmente escarpado em que há uma grande depressão abrupta, que termina em despenhadeiro, em precipício e onde há perigo de viver. Ouve-se um fiozinho do rádio de pilhas que estira uma concertina da Rádio Festival e atrás deles, por cima da cama, na parede de cartão da sua coelheira branca, vê-se um poster de João Félix ajoelhado no relvado como um santo sem altar.
“Nunca antes vimos nada assim”
A primeira frase que Isabel Jonet diz – e o seu horizonte é extenso: há 27 anos entrou como voluntária no Banco Alimentar Contra a Fome e hoje preside à instituição que angaria alimentos para 2 600 entidades e faz distribuição pelos desprovidos que não param de crescer – é que nunca vimos uma coisa assim. Revela que “em tempos normais, os Bancos Alimentares, presentes em 22 pontos do país, já apoiam 420 mil pessoas, ou seja, 4% da população portuguesa”, e que “cerca de 2,2 milhões de pessoas estão em risco de pobreza ou exclusão social”, 21,6% da população que ganha abaixo dos 500 euros mensais. “Mas, agora, com esta pandemia na saúde pública, o confinamento, a paragem geral de comércio e o estado de emergência nacional, nunca houve uma coisa assim”, avaliza Jonet. Faz agora um mês, perante o fecho de muitas instituições solidárias e em perda de voluntários, montou uma nova Rede de Emergência Alimentar; nos primeiros dois dias recebeu 580 novos pedidos de ajuda; quatro dias depois já eram 950; um mês após começar são 9 992 pedidos de amparo para comer – “não são 9 992 pessoas, são 9 992 famílias”.
Isabel Jonet retoma o fôlego. “São milhares de pessoas que apareceram de repente no fim da linha e a linha não pára de aumentar. É uma brutalidade que nunca vi, tanta gente de uma vez em paralisação total, com cortes severos de salários, pessoas com baixas reformas, pessoas não qualificadas, pessoas sem chão, sem horizonte, empregadas domésticas, manicures, feirantes, imensos trabalhadores informais, os novos trabalhadores do turismo, há pedidos desesperados neste setor que congelou abruptamente.” Por comparação, observa ela, a crise económica anterior, espoletada em 2008/09 e com réplicas que demoraram uma década a passar. “Nem essa crise foi tão brutal, porque se suavizou, de certa forma, ao estender-se no tempo. Esta agora não, esta caiu em cima de tanta gente de repente.… Já tínhamos 380 mil portugueses em pobreza estrutural, que é aquela que não se consegue vencer, mas agora temos esta nova pobreza, que é de um vazio assustador porque é repentina e total, que pode duplicar aquele número, que o pode triplicar. Sem nós, sem muitos como nós, muita gente morreria sem ter o que comer.”
É nesse mesmo ponto referencial que está Rubens Marques, o padre omnipresente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Marquês, no Porto. Ele lidera uma das sete instituições da cidade que se mantêm em atividade nos dias do tsunami viral. “Mais do que duplicou”, diz o compadecido prelado, que todos os dias põe uma máscara branca P2 para ajudar os seus voluntários, que se dividem em duas equipas de 30 pessoas cada uma para servir comida em take away – é das 18 às 20 horas, tem dias em que a fila dos carecentes chega quase cá fora ao portão. “Até fevereiro, servíamos 160 refeições por dia, agora são 399; de 12 de março a 12 de abril contamos 9 987 refeições doadas. Os números já superam, é uma evidência, os da crise anterior.”
Atento observador gregário, o padre Rubens nota uma estreia e uma reprise no novo drama social: “Vejo um regresso da pobreza envergonhada, vejo a classe média em erosão. E vejo gente nova, há nitidamente mais jovens que nunca víamos aqui, jovens que trabalhavam no turismo, nas esplanadas, nas limpezas, na nova restauração, eles agora aparecem aqui pela primeira vez a pedir para comer. E isso é novo e é muito preocupante”.
Pobre Lu, esconde-se constrangida
A pandemia pôs a nu uma realidade camuflada, como a de Lu – Lu é um hipocorístico do seu nome real; ela pede para permanecer anónima, isto é, só aceita surgir oculta atrás da cortina de renda e creme na janela da sua pequenina sala de estar. Reformada, 67 anos, divorciada a viver sozinha, como 1 026 idosos identificados no Porto (em Portugal são 41 869 no total), ela habita num T0+1 duma ilha atrás dos muros da grande avenida portuense de Fernão de Magalhães. Ela diz: “Tenho vergonha, ninguém sabe, só sei eu o que passo aqui”. É só fazer as contas: recebe 189,66 euros de reforma, a renda da casa é 275 euros. Já está em défice e ainda não entraram a comida, a luz, a água, nem a medicação – que vai buscar de repente à mínima cozinha para mostrar: paroxetina, 20mg, valium 10, 10mg, victan debaixo da língua, um comprimido ou um e meio, depende das angústias e do tremor, além dos remédios da tensão, da asma e das vias respiratórias que se empastam na humidade.
“Se não fosse buscar de comer, há muito que já não estava aqui”, diz a mulher, que é também crónica utente dependente da caridade da LBV, a olhar fixamente o chão e o seu cão, porque ele soergue-se, é um caniche branco de pelo torcido em espiral, e olha suplicante – “é a minha única companhia, só falo com ele, mais ninguém, dorme comigo ali na caminha, o lado esquerdo é o dele”, torna a mulher a apontar.
Lu, que noutra vida trabalhou 22 anos no Lar do Comércio, volta às contas e só lhe dá subtração: “Como é que eu compunha a vidinha? Lavava escadas, fazia limpezas num prédio onde já morei – e aí ela abate-se, não sabe do chão: “Pagava nesse prédio 235 euros de renda, mas o senhorio queria subir para 400, como podia eu pagar?”. E teve que sair. Pouca coisa trouxe, além de memória, mas há um retrato que foi o primeiro a agarrar: “É esta foto do meu filho – tenho também uma filha, está em Inglaterra, mas não me liga nenhum” -, ele tinha 23 anos, morreu-me em 2014 no Luxemburgo, foi um acidente de carro, chovia, capotou, e ficou lá, não o vi mais, não tinha dinheiro para o trazer”, diz a pobre Lu, embotada, metida na sua nova ilha cercada de pobreza e solidão.
“Em Portugal, é considerado abaixo do limiar do risco de pobreza quem tem rendimentos inferiores a 501 euros por mês, são os dados da Pordata, de 2018”, vai dizer o especialista em economia Pedro Santos Guerreiro. “Na taxa de risco de pobreza, isto é, após as transferências sociais, tínhamos recuperado de 19,5% em 2014 para 17,3% em 2018. Mas o número vai agora voltar a subir. Se não existissem prestações sociais (subsídio de desemprego, pensões, rendimento social de inserção, complemento solidário para idosos), a taxa seria de quase 37%, uma calamidade social”.
Cofundador do “Jornal de Negócios”, cronista do “Expresso” e comentador omnisciente na TVI, Pedro Santos Guerreiro está rodeado de uma parede de números e, como sabe ver para lá dos números, só vê nuvens a carregar. “O desemprego disparou depressa, mas os números não são ainda, repito, ainda, assustadores. O susto está adiado no lay-off [regime que permite às empresas reduzir o horário de trabalho ou suspender os contratos por um período limitado, convocando contribuição estatal parcial] e o lay-off é uma bomba-relógio cuja carga explosiva não é ainda possível prever”, avisa Santos Guerreiro, que continua a adensar. “Mas é provável que mais do que dupliquemos o número de desempregados entre o início e o final deste ano, passando dos 340 mil para mais de 700 mil. E este não é um cenário muito pessimista. Portugal chegou a ter 850 mil desempregados no pico da crise financeira, em 2013, o objetivo do Governo é fugir de um número astronómico como esse. Mas basta olhar para o turismo, que representa quase 10% do emprego declarado em Portugal, para recear um cenário pior.”
O casal dos sete, com cinco filhas pequeninas
É nesse temor, que nas noites insones do pai é mesmo medo, é pavor, que está a família Antunes, de Telmo e Paula Cristina, ambos de 32 anos, bairro Falcão, Porto, atrás do Dragão, com cinco-filhas – cinco para criar – umas joias a encher a mão: Lara, 12 anos, Leonor, 10, Lia, 8, Letícia, 3, o nome veio da espanhola rainha consorte, e Luena, 21 meses, uma chupeta de forma labial que ela está sempre a atirar, muito rosada, pelo ar.
O jovem casal trabalhava em turismo num conglomerado de 45 apartamentos que estavam sempre a lotar – “era um corre-corre, só estrangeiros, franceses, americanos, brasileiros, chineses, às vezes gostavam tanto que queriam comprar os apartamentos, era logo, do dia para a noite, era assim”, relata o Telmo, mas parece relatar costumes de outra vida que ninguém sabe se vai voltar. Ele foi posto em lay-off de 70% a 1 de abril, juntamente com os outros 20 funcionários. “Recebo agora o salário mínimo, 635 euros, menos o subsídio de alimentação, dará 570 euros líquidos.” E Paula Cristina, a sua mulher, não viu o contrato a prazo renovado, foi já em agosto, e continua desempregada. Perdeu também no mês passado o curso pago de cabeleireira, no IFP do Cerco, que na pandemia fechou, e lhe dava para saldar o infantário e ainda dava subsidio de alimentação.
Eles entreolham-se, marido e mulher, e nos seus olhos bailam sempre as contas e a subtração. “Vamos ter que tirar as meninas do infantário, eles querem que continuemos a pagar, são 50 euros da inscrição, mais 58 pelas duas mais pequenas, o dinheiro não estica, ou a gente paga ou a gente come”, diz Paula Cristina, a mirar as cinco meninas, duas com grandes laçarotes coloridos no cabelo, que também ali estão, a roer peras e maçãs – diz a mãe delas: “Está a ver? Cinco crianças a lanchar é um quilo de fruta, ao pequeno-almoço é pacote e meio de leite, e agora com toda a gente em casa come-se ainda muito mais”, diz ela a sorrir, a dar a mão ao marido, a soltar ais.
Estão todos os sete na sala virada a norte, sala solar, do T4 camarário no Bairro Falcão e pagam 65 euros de renda por mês, que no próximo mês vai descer para 26 euros, fruto do perdão geral para dois meses da Domus Social. E o futuro deles treme mas ainda não vai desvanecer: aquela sala está cheia de amor e eles souberam olhar para fora, onde há bondade a amparar: têm chegado ajudas em cabazes da Junta, da Proteção Civil, da Rede de Emergência do Banco Alimentar, do site solidário precisodeajuda.com, do irmão da Paula, dos pais do Telmo e ainda há paparicos pascais dos bons vizinhos, como um bolo de chocolate ainda quentinho que acaba de bater à porta a esperançar.
No meio disto eles oscilam, há máscaras cirúrgicas lá em casa, há álcool desinfetante para quem entrar, a TV não os deixa esquecer o que estamos todos a viver, mas é do vírus que nem se querem lembrar. Paula diz: “Não é o vírus invisível que me assusta, é a vida real que estou a ver, é o futuro que não sabemos como vai ser”. Os sete já fizeram o teste de despistagem da nova doença da pandemia e ninguém tem Covid-19. Foram todos por causa da Paula, ela tinha dores agudas nas costas, enfraquecia-se-lhe a respiração, parecia que estava febril, e foram todos à tenda do Queimódromo, na rotunda da anémona na Foz, num dia que fazia sol. Quando as mais pequeninas viram lá ao fundo a praia, quase tiveram que as amarrar, a Letícia e a Luena queriam, só queriam, ir ao mar. Não podemos, não podemos, disse o pai e teve muitas vezes que repetir – e as duas pequeninas fizeram o trajeto de volta a casa, sem compreender, muito desoladas e a chorar.
Relatório da emergência: 993 funcionários de lares infetados, mil milhões de euros em salários cortados, excesso de alimentos
Mariana Lima Cunha, Miguel Santos Carrapatoso, in Expresso
As conclusões são do relatório sobre o segundo estado de emergência, que decorreu até 17 de abril. Situação nos lares preocupa. Houve 1864 profissionais de Saúde contratados para responder ao surto. O ponto de situação em detalhe
Ao mesmo tempo que os portugueses começam a sair mais de casa, durante o segundo estado de emergência - entre 31 de março e 18 de abril -, mais de 80 mil empresas recorreram ao lay-off, o que se traduz numa massa salarial de 1,1 mil milhões de euros afetada (de 1,1 milhões de trabalhadores potencialmente atingidos pela medida). Os dados constam do relatório que o Governo já entregou na Assembleia da República com o objetivo de avaliar a aplicação do segundo estado de emergência, que terminou a 17 de abril.
No documento, o Governo presta particular atenção à preservação do emprego, até porque é um dos objetivos - a par da manutenção do rendimento e da garantia de liquidez dos agentes económicos - que assume como prementes. “O nível de desemprego tem aumentado não obstante os esforços” para preservar postos de trabalho, aponta o relatório, que aponta para uma situação “complexa”, ainda que “gradual”, ao nível do emprego.
993 FUNCIONÁRIOS DE LARES INFETADOS
Mas o relatório também se dedica longamente às consequências sociais no contexto da pandemia, com um enfoque importante na situação dos lares, onde se verifica uma parte muito significativa das mortes em Portugal. O Governo revela assim que até dia 17 de abril foram realizados cinco mil testes em 73 instituições, embora o objetivo seja chegar aos 70 mil testes e progressivamente testar todos os lares.
Mas há uma preocupação evidente: a escassez de recursos humanos nestas instituições. Em boa parte, porque das listas de infetados faz parte, precisamente, um número “significativo” de funcionários dos lares: nestas datas, havia 993 infetados e 2488 em isolamento, o que obviamente “dificulta a prestação de apoios” aos mais velhos. Ao mesmo tempo, verifica-se que se agravou o número de idosos infetados - em três pontos percentuais - desde o primeiro estado de emergência, pelo que, argumenta o Governo, “fica demonstrada a pertinência das medidas especiais de confinamento a que este grupo está sujeito”.
SAÍDAS PARA A PRAIA E À NOITE
O problema é que as medidas de confinamento, no geral, podem estar a surtir menos efeito. Embora o clima geral seja de “acatamento”, o Governo já reconhece que os portugueses começaram a relaxar durante este segundo período de exceção. “Especialmente aos fins de semana, foi registado um crescente fluxo rodoviário para fora das zonas urbanas, rumo em especial às zonas de lazer, zonas litorais e fluviais”. Além das idas a praias e zonas de lazer, também houve um “progressivo aligeirar do cumprimento da lei” sobretudo em “zonas urbanas sensíveis”, mais gente a circular na rua e a juntar-se em “aglomerados” durante a noite.
Ainda quanto ao lado social da crise, foram alvo de atenção do Governo grupos mais vulneráveis, como as comunidades de ciganos e migrantes. Já o nível de criminalidade aumentou: “Os fenómenos capacitadores de linhas de vulnerabilidades decorrentes dos desequilíbrios sociais e económicos que conjugadas com movimentos oportunistas foram indutores de um aumento de burlas, furtos e roubos”.
EXCESSO DE OFERTA DE ALIMENTOS
No que toca aos efeitos económicos da pandemia, os dados do lay-off também permitem perceber quais são algumas das empresas mais afetadas: das que recorrem a este instrumento, a grande maioria são tamanho micro e metade dedica-se ao comércio por grosso e a retalho, comércio de veículos automóveis (um dos setores mais afetados), alojamento, restauração e similares. Entre os setores económicos mais prejudicados encontram-se “mobiliário, de têxtil e vestuário, de produtos de cerâmica e cristalaria, além da montagem de bicicletas”, mas há um caso de crescimento: “a venda de cimento”, “o que pode ser um indício do dinamismo das atividades de construção”.
No setor agroalimentar, um dos que mais preocupam o Governo, uma nota relevante: está a verificar-se um “excesso de oferta” que decorre em grande parte do fecho de hotéis e restaurantes; e será preciso acompanhar com atenção a evolução do mercado internacional para garantir que Portugal não é atingido e “antecipar” possíveis respostas.
CONTRATAÇÕES NO SNS E "VICISSITUDES" DIPLOMÁTICAS
E quanto à resposta ao nível da Saúde? O Governo reconhece dificuldades relacionadas com a procura crescente de ventiladores, testes e equipamento de proteção no mercado mundial, que leva a atrasos nas entregas. Isto a somar a “vicissitudes contratuais várias”, como a alteração de contratos a meio do processo ou das regras de transporte por causa da China, o que tem levado a um “enorme esforço diplomático”.
Ainda assim, por cá o SNS tem mostrado “robustez”, garante o Governo, que adianta ter recrutado 1864 profissionais de Saúde em contratos curtos, de quatro meses, permitidos pelo estado de exceção em que o país se encontra. A 17 de abril, as camas de cuidados intensivos estavam preenchidas a 58%, com 1284 doentes com covid-19 internados e 222 nessas mesmas camas. Já o reforço de ventiladores estava nos 1564 aparelhos. Quanto aos testes, “o SNS melhorou a sua capacidade” - de um total de 223.948 feitos desde que o surto chegou a Portugal, 64,4% aconteceram na primeira metade de abril.
A evolução epidemiológica tinha, até então, sido positiva: o R0 (número de casos que cada pessoa contagia, ainda sem contar com medidas de contenção) era de 2,08 até 16 de março, mas o RT (já a contar com estas medidas) começou a quebrar desde o anúncio do fecho das escolas, situando-se nos 0,98 no final do segundo estado de emergência. No entanto, sabemos que voltou a aumentar nos últimos dias, possivelmente em consequência do tal relaxamento que este relatório já apontava.
As conclusões são do relatório sobre o segundo estado de emergência, que decorreu até 17 de abril. Situação nos lares preocupa. Houve 1864 profissionais de Saúde contratados para responder ao surto. O ponto de situação em detalhe
Ao mesmo tempo que os portugueses começam a sair mais de casa, durante o segundo estado de emergência - entre 31 de março e 18 de abril -, mais de 80 mil empresas recorreram ao lay-off, o que se traduz numa massa salarial de 1,1 mil milhões de euros afetada (de 1,1 milhões de trabalhadores potencialmente atingidos pela medida). Os dados constam do relatório que o Governo já entregou na Assembleia da República com o objetivo de avaliar a aplicação do segundo estado de emergência, que terminou a 17 de abril.
No documento, o Governo presta particular atenção à preservação do emprego, até porque é um dos objetivos - a par da manutenção do rendimento e da garantia de liquidez dos agentes económicos - que assume como prementes. “O nível de desemprego tem aumentado não obstante os esforços” para preservar postos de trabalho, aponta o relatório, que aponta para uma situação “complexa”, ainda que “gradual”, ao nível do emprego.
993 FUNCIONÁRIOS DE LARES INFETADOS
Mas o relatório também se dedica longamente às consequências sociais no contexto da pandemia, com um enfoque importante na situação dos lares, onde se verifica uma parte muito significativa das mortes em Portugal. O Governo revela assim que até dia 17 de abril foram realizados cinco mil testes em 73 instituições, embora o objetivo seja chegar aos 70 mil testes e progressivamente testar todos os lares.
Mas há uma preocupação evidente: a escassez de recursos humanos nestas instituições. Em boa parte, porque das listas de infetados faz parte, precisamente, um número “significativo” de funcionários dos lares: nestas datas, havia 993 infetados e 2488 em isolamento, o que obviamente “dificulta a prestação de apoios” aos mais velhos. Ao mesmo tempo, verifica-se que se agravou o número de idosos infetados - em três pontos percentuais - desde o primeiro estado de emergência, pelo que, argumenta o Governo, “fica demonstrada a pertinência das medidas especiais de confinamento a que este grupo está sujeito”.
SAÍDAS PARA A PRAIA E À NOITE
O problema é que as medidas de confinamento, no geral, podem estar a surtir menos efeito. Embora o clima geral seja de “acatamento”, o Governo já reconhece que os portugueses começaram a relaxar durante este segundo período de exceção. “Especialmente aos fins de semana, foi registado um crescente fluxo rodoviário para fora das zonas urbanas, rumo em especial às zonas de lazer, zonas litorais e fluviais”. Além das idas a praias e zonas de lazer, também houve um “progressivo aligeirar do cumprimento da lei” sobretudo em “zonas urbanas sensíveis”, mais gente a circular na rua e a juntar-se em “aglomerados” durante a noite.
Ainda quanto ao lado social da crise, foram alvo de atenção do Governo grupos mais vulneráveis, como as comunidades de ciganos e migrantes. Já o nível de criminalidade aumentou: “Os fenómenos capacitadores de linhas de vulnerabilidades decorrentes dos desequilíbrios sociais e económicos que conjugadas com movimentos oportunistas foram indutores de um aumento de burlas, furtos e roubos”.
EXCESSO DE OFERTA DE ALIMENTOS
No que toca aos efeitos económicos da pandemia, os dados do lay-off também permitem perceber quais são algumas das empresas mais afetadas: das que recorrem a este instrumento, a grande maioria são tamanho micro e metade dedica-se ao comércio por grosso e a retalho, comércio de veículos automóveis (um dos setores mais afetados), alojamento, restauração e similares. Entre os setores económicos mais prejudicados encontram-se “mobiliário, de têxtil e vestuário, de produtos de cerâmica e cristalaria, além da montagem de bicicletas”, mas há um caso de crescimento: “a venda de cimento”, “o que pode ser um indício do dinamismo das atividades de construção”.
No setor agroalimentar, um dos que mais preocupam o Governo, uma nota relevante: está a verificar-se um “excesso de oferta” que decorre em grande parte do fecho de hotéis e restaurantes; e será preciso acompanhar com atenção a evolução do mercado internacional para garantir que Portugal não é atingido e “antecipar” possíveis respostas.
CONTRATAÇÕES NO SNS E "VICISSITUDES" DIPLOMÁTICAS
E quanto à resposta ao nível da Saúde? O Governo reconhece dificuldades relacionadas com a procura crescente de ventiladores, testes e equipamento de proteção no mercado mundial, que leva a atrasos nas entregas. Isto a somar a “vicissitudes contratuais várias”, como a alteração de contratos a meio do processo ou das regras de transporte por causa da China, o que tem levado a um “enorme esforço diplomático”.
Ainda assim, por cá o SNS tem mostrado “robustez”, garante o Governo, que adianta ter recrutado 1864 profissionais de Saúde em contratos curtos, de quatro meses, permitidos pelo estado de exceção em que o país se encontra. A 17 de abril, as camas de cuidados intensivos estavam preenchidas a 58%, com 1284 doentes com covid-19 internados e 222 nessas mesmas camas. Já o reforço de ventiladores estava nos 1564 aparelhos. Quanto aos testes, “o SNS melhorou a sua capacidade” - de um total de 223.948 feitos desde que o surto chegou a Portugal, 64,4% aconteceram na primeira metade de abril.
A evolução epidemiológica tinha, até então, sido positiva: o R0 (número de casos que cada pessoa contagia, ainda sem contar com medidas de contenção) era de 2,08 até 16 de março, mas o RT (já a contar com estas medidas) começou a quebrar desde o anúncio do fecho das escolas, situando-se nos 0,98 no final do segundo estado de emergência. No entanto, sabemos que voltou a aumentar nos últimos dias, possivelmente em consequência do tal relaxamento que este relatório já apontava.
Drama social em Espanha
Cristina Giner, in Euronews
A pandemia está a deixar milhares de vítimas económicas e sociais em Espanha.
Tamara ficou sem o subsídio de desemprego. Deveria ter começado um novo trabalho em abril. O marido, Zacarías, tem um camião mas não pode sair e ganhar a vida. Não têm rendimentos: "Se tomas o pequeno-almoço não almoças e se jantas, temos de dividir a comida em cinco partes. Tenho de dividir o pequeno-almoço para o comer", conta Zacarías.
Diz Tamara: "A única coisa que pedimos é ajuda, porque agora é quando mais precisamos - e não mais tarde - porque podemos começar a trabalhar. Não pedimos mais nada, um saco de comida ou vouchers".
Os serviços sociais não conseguem fazer face a esta situação. Sem crianças, dizem eles, é mais difícil obter ajuda: "Não há lugares onde dão comida, dizem que estão muito saturados. É impossível arranjar comida, só dão um saquinho com um piquenique frio", conclui Tamara.
Se tomas o pequeno-almoço não almoças e se jantas, temos de dividir a comida em cinco partes.
Zacarías
camionista
As ONG e as associações locais dizem-nos que, desde o início do confinamento, a procura de ajuda triplicou. Uma associação que visitámos distribui cerca de 220 refeições por dia.
A Igreja de Santa Ana, no centro de Barcelona, foi convertida em armazém de alimentos. Aqui vivem 15 voluntários e o pároco Peio Sánchez: "Está a aumentar a presença de famílias que normalmente viviam em apartamentos arrendados, sem contrato e sem documentos, que após um mês de confinamento não conseguem ir em frente com esta economia de sobrevivência", conta o padre.
Há tantos dramas como pessoas nas filas. Alguns pedem-nos para não gravar, porque as famílias não sabem que estão aqui.
Espanha é o país onde a pobreza mais cresceu na última década. A crise de 2008 deixou 600.000 famílias sem rendimento e um mercado de trabalho precário.
Etna, de origem filipina, era trabalhadora doméstica. Ficou sem emprego, mas não sem solidariedade: "Alguns não têm papéis. Para eles, é mais difícil pedir ajuda. Por isso, temos de os ajudar também, por isso tenho de partilhar", conta. Outros, como Alexandro, estão na rua há anos e não têm onde dormir nem onde se lavar.
A situação é extrema. O setor terciário pede respostas fortes, nomeadamente a implementação do rendimento mínimo universal.
"Se essa medida não for implementada, teremos uma sociedade mais desigual e isso geraria um excesso de serviços de proteção e iria desacreditar as instituições", Diz Carlos Susías, presidente da Rede Europeia de Luta contra a Pobreza e Exclusão Social (EAPN).
Um rendimento básico universal, se bem distribuído, dizem, faz parte da solução não só para as famílias, mas também para incentivar o consumo e reavivar a economia.
A pandemia está a deixar milhares de vítimas económicas e sociais em Espanha.
Tamara ficou sem o subsídio de desemprego. Deveria ter começado um novo trabalho em abril. O marido, Zacarías, tem um camião mas não pode sair e ganhar a vida. Não têm rendimentos: "Se tomas o pequeno-almoço não almoças e se jantas, temos de dividir a comida em cinco partes. Tenho de dividir o pequeno-almoço para o comer", conta Zacarías.
Diz Tamara: "A única coisa que pedimos é ajuda, porque agora é quando mais precisamos - e não mais tarde - porque podemos começar a trabalhar. Não pedimos mais nada, um saco de comida ou vouchers".
Os serviços sociais não conseguem fazer face a esta situação. Sem crianças, dizem eles, é mais difícil obter ajuda: "Não há lugares onde dão comida, dizem que estão muito saturados. É impossível arranjar comida, só dão um saquinho com um piquenique frio", conclui Tamara.
Se tomas o pequeno-almoço não almoças e se jantas, temos de dividir a comida em cinco partes.
Zacarías
camionista
As ONG e as associações locais dizem-nos que, desde o início do confinamento, a procura de ajuda triplicou. Uma associação que visitámos distribui cerca de 220 refeições por dia.
A Igreja de Santa Ana, no centro de Barcelona, foi convertida em armazém de alimentos. Aqui vivem 15 voluntários e o pároco Peio Sánchez: "Está a aumentar a presença de famílias que normalmente viviam em apartamentos arrendados, sem contrato e sem documentos, que após um mês de confinamento não conseguem ir em frente com esta economia de sobrevivência", conta o padre.
Há tantos dramas como pessoas nas filas. Alguns pedem-nos para não gravar, porque as famílias não sabem que estão aqui.
Espanha é o país onde a pobreza mais cresceu na última década. A crise de 2008 deixou 600.000 famílias sem rendimento e um mercado de trabalho precário.
Etna, de origem filipina, era trabalhadora doméstica. Ficou sem emprego, mas não sem solidariedade: "Alguns não têm papéis. Para eles, é mais difícil pedir ajuda. Por isso, temos de os ajudar também, por isso tenho de partilhar", conta. Outros, como Alexandro, estão na rua há anos e não têm onde dormir nem onde se lavar.
A situação é extrema. O setor terciário pede respostas fortes, nomeadamente a implementação do rendimento mínimo universal.
"Se essa medida não for implementada, teremos uma sociedade mais desigual e isso geraria um excesso de serviços de proteção e iria desacreditar as instituições", Diz Carlos Susías, presidente da Rede Europeia de Luta contra a Pobreza e Exclusão Social (EAPN).
Um rendimento básico universal, se bem distribuído, dizem, faz parte da solução não só para as famílias, mas também para incentivar o consumo e reavivar a economia.
Rede de Apoio Psicológico já fez 110 atendimentos em Guimarães
in Notícias ao Minuto
A Rede de Apoio Psicológico criada pela Câmara de Guimarães para colmatar o problema de isolamento social em tempos de pandemia já realizou 110 atendimentos, anunciou hoje o município.
Em comunicado, o município refere que sintomatologia de humor deprimido e de ansiedade, sensação de isolamento e desespero, dificuldades na gestão de rotinas novas e da acumulação da tarefa de cuidador com as já habituais, dificuldades na gestão de processos de luto e de doença própria estão na base das problemáticas detetadas.
As problemáticas estão a ser acompanhadas através de sugestões e estratégias "devidamente elencadas".
A rede dispõe de 18 psicólogos, entre cinco técnicos municipais, 11 provenientes dos agrupamentos de escolas e uma voluntária de uma instituição privada, todos em regime de voluntariado.
As consultas ocorrem em modalidade de atendimento telefónico, que é articulado com os técnicos da rede e cuja regularidade de contacto vai sendo definida pelos psicólogos de acordo com as situações em questão.
"Quando se observa a necessidade de um apoio mais intensivo, é encaminhado para os serviços de psicologia das entidades parceiras", acrescenta o comunicado.
A referenciação resulta da indicação dos técnicos da Comissões Sociais Inter-Freguesias (CISF), que recebem os diferentes pedidos de apoio e promovem a ativação das respostas necessárias.
Após a referenciação, os psicólogos contactam os munícipes e estabelecem então a regularidade do apoio.
Esta rede articula ainda, quando necessário, com os Serviços de Psicologia do Hospital Senhora da Oliveira, da Associação de Psicologia da Universidade do Minho e dos serviços de medicina P5 da Universidade do Minho.
A Rede de Apoio Psicológico criada pela Câmara de Guimarães para colmatar o problema de isolamento social em tempos de pandemia já realizou 110 atendimentos, anunciou hoje o município.
Em comunicado, o município refere que sintomatologia de humor deprimido e de ansiedade, sensação de isolamento e desespero, dificuldades na gestão de rotinas novas e da acumulação da tarefa de cuidador com as já habituais, dificuldades na gestão de processos de luto e de doença própria estão na base das problemáticas detetadas.
As problemáticas estão a ser acompanhadas através de sugestões e estratégias "devidamente elencadas".
A rede dispõe de 18 psicólogos, entre cinco técnicos municipais, 11 provenientes dos agrupamentos de escolas e uma voluntária de uma instituição privada, todos em regime de voluntariado.
As consultas ocorrem em modalidade de atendimento telefónico, que é articulado com os técnicos da rede e cuja regularidade de contacto vai sendo definida pelos psicólogos de acordo com as situações em questão.
"Quando se observa a necessidade de um apoio mais intensivo, é encaminhado para os serviços de psicologia das entidades parceiras", acrescenta o comunicado.
A referenciação resulta da indicação dos técnicos da Comissões Sociais Inter-Freguesias (CISF), que recebem os diferentes pedidos de apoio e promovem a ativação das respostas necessárias.
Após a referenciação, os psicólogos contactam os munícipes e estabelecem então a regularidade do apoio.
Esta rede articula ainda, quando necessário, com os Serviços de Psicologia do Hospital Senhora da Oliveira, da Associação de Psicologia da Universidade do Minho e dos serviços de medicina P5 da Universidade do Minho.
28.4.20
Lisboa vai tirar alcoólicos sem abrigo da rua, dando-lhes quarto, álcool e uma equipa para gerir o consumo
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Entidades estão só à procura de um espaço adequado para o projecto-piloto. Em breve, Lisboa terá um programa de gestão de consumo de álcool. No Porto, há um movimento no mesmo sentido, mas ainda está no início do processo.
Não fosse a pandemia de covid-19, a ideia talvez continuasse no plano da discussão teórica. Como há uma ordem de confinamento e o síndrome de abstinência pode ser fatal, alguns alcoólicos sem abrigo vão ser desafiados a entrar numa estrutura residencial com quartos individuais, refeições, bebidas alcoólicas e uma equipa técnica que os ajudará a gerir o consumo, reduzindo a quantidade até, quem sabe, poderem fazer um tratamento para deixar de beber. Para já em Lisboa, depois no Porto.
Mariana vem à janela desenhar o que pensa fechada em casa
O sentido de urgência é grande. Com os cafés e os bares fechados e as ruas semi-desertas, quem vive de pedir, arrumar carros e outros expedientes aflige-se para arranjar dinheiro e matar a ressaca. No caso dos alcoólicos crónicos, os quadros de privação podem trazer tremores, convulsões, alterações neurológicas irreversíveis ou mesmo a morte.
O diálogo que se abriu entre o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD), as instituições de solidariedade que prestam serviços de proximidade, com reuniões semanais pela Net, abriu caminho a uma nova resposta: o programa de gestão de consumo de álcool.
Crescer versus APDES
Em Lisboa, aliaram-se o SICAD, a DICAD, o Instituto de Segurança Social, a Santa Casa da Misericórdia, a Câmara Municipal e a Crescer – Associação de Intervenção Comunitária para o projecto-piloto. “Já adiantámos bastante”, afiança João Goulão, director-geral do SICAD. “O passo seguinte é encontrar um espaço adequado. O espaço é uma condicionante muito séria.” No Porto há um movimento no mesmo sentido, encabeçado pela Agência Piaget Para o Desenvolvimento (APDES), mas “ainda numa fase inicial”, a procurar parceiros.
A Crescer está pronta para arrancar assim que seja possível. “Se existir um espaço hoje, nós estamos preparados para avançar amanhã”, garante Américo Nave, director executivo da Crescer. Há anos que se bate por esta alternativa. “Temos várias pessoas que têm vindo a desenvolver interesse e investigação nesta área.” Leram estudos. Visitaram estruturas noutros países. Podem evitar erros já cometidos por outros. “Podemos ser um bocadinho mais ambiciosos.”
A estrutura deverá acolher, no máximo, 30 pessoas. Deverão ficar alojadas em quartos individuais. A acompanhá-las estará uma equipa multidisciplinar, que incluirá profissionais da saúde e do serviço social. “No fundo, acreditamos que esta estrutura é também uma estrutura clínica”, resume. Cada pessoa terá o seu próprio programa de gestão de consumo. “Mediante o perfil, em diálogo, será decidido que tipo de bebida [consumirá], a que horas do dia, que quantidade. À partida, todas as pessoas devem aceitar reduzir a quantidade.”
Questionado sobre a eventual reacção social que um projecto destes poderá provocar, Américo Nave desvaloriza: “Para mim, o que é polémico é haver pessoas a viver na rua. Como é possível alguém viver na rua 30 anos?” Diz-lhe a experiência que não é porque quer, como por vezes se ouve dizer, é porque “as respostas que existem não estão adequadas”.
Os albergues só recebem alcoólicos crónicos em situação de sem abrigo “por especial favor”. Não costumam deixar entrar quem se apresenta embriagado à porta. Há estruturas, centros de emergência de baixo limiar, que o fazem, mas pouquíssimas. “Estas pessoas estão numa extrema vulnerabilidade. É mais fácil motivá-las e encaminhá-las para tratamento numa estrutura em que já tem contacto com equipas técnicas da área da saúde de área social”, refere.
Psicólogos alertam para risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco
Ainda muito está em discussão. O projecto-piloto, até por ser isso mesmo, “pode levantar várias hipóteses de trabalho”. Pode vir a ser uma estrutura intermédia entre a rua e a abstinência. Pode abarcar até pessoas que não moram na rua, mas padecem de alcoolismo crónico. É vasto o grupo de consumidores problemáticos. “Queremos criar parcerias com outras entidades. Gostaríamos que fosse um projecto partilhado.”
MAP versus “Wet Houses”
Os chamados Managed Alcohol Programs (MAP) surgiram no Canadá há mais de 20 anos, procurando impedir que as pessoas morressem geladas no inverno. São parentes das “Wet Houses”, populares nos Estados Unidos. As primeiras fornecem as bebidas, as segundas não, esclarece Marta Pinto, professora e investigadora da Universidade do Porto e co-fundadora da R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que agrega a maior parte das equipas de redução de riscos e associações de pessoas que consomem drogas e/ou fazem trabalho sexual.
“São programas altamente criteriosos, aceitando apenas pessoas que têm consumos altamente problemáticos e danos devastadores no que diz respeito à sua inserção sócio-laboral, ao seu equilíbrio psíquico, à sua saúde orgânica”, explica a especialista. “Fazem uma intervenção que passa por assegurar o acesso a bebidas alcoólicas de forma controlada, ao mesmo tempo que investem numa abordagem integrada de prestação de cuidados sócios-sanitários”.
Os vários estudos feitos no Canadá e noutros países, que entretanto desenvolveram o modelo, apontam para menos consumo, menos episódios de emergência médica, menos encarceramento. E isso não a surpreende. “Uma pessoa em situação de sem abrigo e de quase absoluta exclusão social tem mais dificuldade em gerir os seus consumos na rua do que num contexto protegido onde as suas necessidades básicas estão asseguradas e onde lhe são prestados vários cuidados. Se tivermos uma abordagem compreensiva há uma redução do uso e um aumento da procura de tratamento”, salienta. “São abordagens pouco óbvias mas que têm mostrado resultados.”
Durante muito tempo, recorda, procurou-se apenas promover a abstinência. “Na década de 80, começou a ficar claro que essa abordagem deixa de fora a maioria das pessoas que utilizam drogas. As abordagens de redução de riscos procuram complementar as intervenções mais clássicas e lidar de forma pragmática com os que não queriam ou não conseguiam ficar abstinentes.” Foi assim que nasceram os programas de troca de seringas e de substituição opiácea. Ora, “as equipas que trabalham com consumidores de drogas ilícitas desde há muito tempo vêm lidando com consumos nocivos de álcool e têm vindo a falar na necessidade de criar respostas específicas nesse âmbito.”
Perante a pandemia de covid-19 e a declaração do Estado de Emergência, a Unidade de Alcoologia de Lisboa deu orientações para se distribuir terapêutica que previna quadros graves de privação aos sem-abrigo alcoólicos que pernoitam nos centros de acolhimento. Duas vezes ao dia: um comprimido de Diazepam, um comprimido de Tiaprida, um comprimido de ácido fólico, um comprimido de Neurobion. “Consideramos, ainda, que os cidadãos sem-abrigo que pernoitem na rua, identificados e conhecidos pelos técnicos de programas estruturados de acompanhamento na rua, poderão ser beneficiários desta intervenção, a definir caso-a-caso.”
Noutros pontos do país, há equipas que seguem esta orientação. É o caso, por exemplo, do Centro de Acolhimento de Emergência montado no parque de campismo municipal de Espinho. O Centro Social de Paramos, que com a autarquia coordena o Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-abrigo, garantiu apoio de uma médica. Três das 14 pessoas ali acolhidas estão a tomar a medicação que as ajuda a não sentir ressaca e a controlar a vontade de beber. “As pessoas que bebem de forma excessiva confrontam-se com ressacas monumentais”, observa Marília Costa, coordenadora da equipa de rua. “Para estar em isolamento profiláctico têm de estar bem. Tivemos uma pessoa que começou a ressacar de manhã, caiu, rachou a cabeça, teve de ir para o hospital. Isso fez com que não queira lá ficar. Estas três que iniciaram a terapêutica estão bem.”
Linha de apoio foi reforçada
A Linha Vida, o 1414, está agora mais apta a prestar apoio emocional e esclarecer dúvidas sobre questões relacionadas com dependências. “Voltámos a reforçá-la em termos de recursos humanos, com pessoas", anunciou João Goulão, director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, na conferência diária da Direcção Geral de Saúde desta sexta-feira. Ao que explicou, aquela linha “vinha perdendo importância em detrimento da Saúde 24”. “Nas chamadas, há principalmente pessoas com abuso de álcool, mas também questões colocadas a propósito do jogo [apostas online]”, esclareceu. “Nota-se acréscimo paulatino desta procura.” O volume das chamadas é, todavia, bastante baixo. “Tratam-se de dezenas de chamadas. Temos quatro funcionários.”
Entidades estão só à procura de um espaço adequado para o projecto-piloto. Em breve, Lisboa terá um programa de gestão de consumo de álcool. No Porto, há um movimento no mesmo sentido, mas ainda está no início do processo.
Não fosse a pandemia de covid-19, a ideia talvez continuasse no plano da discussão teórica. Como há uma ordem de confinamento e o síndrome de abstinência pode ser fatal, alguns alcoólicos sem abrigo vão ser desafiados a entrar numa estrutura residencial com quartos individuais, refeições, bebidas alcoólicas e uma equipa técnica que os ajudará a gerir o consumo, reduzindo a quantidade até, quem sabe, poderem fazer um tratamento para deixar de beber. Para já em Lisboa, depois no Porto.
Mariana vem à janela desenhar o que pensa fechada em casa
O sentido de urgência é grande. Com os cafés e os bares fechados e as ruas semi-desertas, quem vive de pedir, arrumar carros e outros expedientes aflige-se para arranjar dinheiro e matar a ressaca. No caso dos alcoólicos crónicos, os quadros de privação podem trazer tremores, convulsões, alterações neurológicas irreversíveis ou mesmo a morte.
O diálogo que se abriu entre o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD), as instituições de solidariedade que prestam serviços de proximidade, com reuniões semanais pela Net, abriu caminho a uma nova resposta: o programa de gestão de consumo de álcool.
Crescer versus APDES
Em Lisboa, aliaram-se o SICAD, a DICAD, o Instituto de Segurança Social, a Santa Casa da Misericórdia, a Câmara Municipal e a Crescer – Associação de Intervenção Comunitária para o projecto-piloto. “Já adiantámos bastante”, afiança João Goulão, director-geral do SICAD. “O passo seguinte é encontrar um espaço adequado. O espaço é uma condicionante muito séria.” No Porto há um movimento no mesmo sentido, encabeçado pela Agência Piaget Para o Desenvolvimento (APDES), mas “ainda numa fase inicial”, a procurar parceiros.
A Crescer está pronta para arrancar assim que seja possível. “Se existir um espaço hoje, nós estamos preparados para avançar amanhã”, garante Américo Nave, director executivo da Crescer. Há anos que se bate por esta alternativa. “Temos várias pessoas que têm vindo a desenvolver interesse e investigação nesta área.” Leram estudos. Visitaram estruturas noutros países. Podem evitar erros já cometidos por outros. “Podemos ser um bocadinho mais ambiciosos.”
A estrutura deverá acolher, no máximo, 30 pessoas. Deverão ficar alojadas em quartos individuais. A acompanhá-las estará uma equipa multidisciplinar, que incluirá profissionais da saúde e do serviço social. “No fundo, acreditamos que esta estrutura é também uma estrutura clínica”, resume. Cada pessoa terá o seu próprio programa de gestão de consumo. “Mediante o perfil, em diálogo, será decidido que tipo de bebida [consumirá], a que horas do dia, que quantidade. À partida, todas as pessoas devem aceitar reduzir a quantidade.”
Questionado sobre a eventual reacção social que um projecto destes poderá provocar, Américo Nave desvaloriza: “Para mim, o que é polémico é haver pessoas a viver na rua. Como é possível alguém viver na rua 30 anos?” Diz-lhe a experiência que não é porque quer, como por vezes se ouve dizer, é porque “as respostas que existem não estão adequadas”.
Os albergues só recebem alcoólicos crónicos em situação de sem abrigo “por especial favor”. Não costumam deixar entrar quem se apresenta embriagado à porta. Há estruturas, centros de emergência de baixo limiar, que o fazem, mas pouquíssimas. “Estas pessoas estão numa extrema vulnerabilidade. É mais fácil motivá-las e encaminhá-las para tratamento numa estrutura em que já tem contacto com equipas técnicas da área da saúde de área social”, refere.
Psicólogos alertam para risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco
Ainda muito está em discussão. O projecto-piloto, até por ser isso mesmo, “pode levantar várias hipóteses de trabalho”. Pode vir a ser uma estrutura intermédia entre a rua e a abstinência. Pode abarcar até pessoas que não moram na rua, mas padecem de alcoolismo crónico. É vasto o grupo de consumidores problemáticos. “Queremos criar parcerias com outras entidades. Gostaríamos que fosse um projecto partilhado.”
MAP versus “Wet Houses”
Os chamados Managed Alcohol Programs (MAP) surgiram no Canadá há mais de 20 anos, procurando impedir que as pessoas morressem geladas no inverno. São parentes das “Wet Houses”, populares nos Estados Unidos. As primeiras fornecem as bebidas, as segundas não, esclarece Marta Pinto, professora e investigadora da Universidade do Porto e co-fundadora da R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que agrega a maior parte das equipas de redução de riscos e associações de pessoas que consomem drogas e/ou fazem trabalho sexual.
“São programas altamente criteriosos, aceitando apenas pessoas que têm consumos altamente problemáticos e danos devastadores no que diz respeito à sua inserção sócio-laboral, ao seu equilíbrio psíquico, à sua saúde orgânica”, explica a especialista. “Fazem uma intervenção que passa por assegurar o acesso a bebidas alcoólicas de forma controlada, ao mesmo tempo que investem numa abordagem integrada de prestação de cuidados sócios-sanitários”.
Os vários estudos feitos no Canadá e noutros países, que entretanto desenvolveram o modelo, apontam para menos consumo, menos episódios de emergência médica, menos encarceramento. E isso não a surpreende. “Uma pessoa em situação de sem abrigo e de quase absoluta exclusão social tem mais dificuldade em gerir os seus consumos na rua do que num contexto protegido onde as suas necessidades básicas estão asseguradas e onde lhe são prestados vários cuidados. Se tivermos uma abordagem compreensiva há uma redução do uso e um aumento da procura de tratamento”, salienta. “São abordagens pouco óbvias mas que têm mostrado resultados.”
Durante muito tempo, recorda, procurou-se apenas promover a abstinência. “Na década de 80, começou a ficar claro que essa abordagem deixa de fora a maioria das pessoas que utilizam drogas. As abordagens de redução de riscos procuram complementar as intervenções mais clássicas e lidar de forma pragmática com os que não queriam ou não conseguiam ficar abstinentes.” Foi assim que nasceram os programas de troca de seringas e de substituição opiácea. Ora, “as equipas que trabalham com consumidores de drogas ilícitas desde há muito tempo vêm lidando com consumos nocivos de álcool e têm vindo a falar na necessidade de criar respostas específicas nesse âmbito.”
Perante a pandemia de covid-19 e a declaração do Estado de Emergência, a Unidade de Alcoologia de Lisboa deu orientações para se distribuir terapêutica que previna quadros graves de privação aos sem-abrigo alcoólicos que pernoitam nos centros de acolhimento. Duas vezes ao dia: um comprimido de Diazepam, um comprimido de Tiaprida, um comprimido de ácido fólico, um comprimido de Neurobion. “Consideramos, ainda, que os cidadãos sem-abrigo que pernoitem na rua, identificados e conhecidos pelos técnicos de programas estruturados de acompanhamento na rua, poderão ser beneficiários desta intervenção, a definir caso-a-caso.”
Noutros pontos do país, há equipas que seguem esta orientação. É o caso, por exemplo, do Centro de Acolhimento de Emergência montado no parque de campismo municipal de Espinho. O Centro Social de Paramos, que com a autarquia coordena o Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-abrigo, garantiu apoio de uma médica. Três das 14 pessoas ali acolhidas estão a tomar a medicação que as ajuda a não sentir ressaca e a controlar a vontade de beber. “As pessoas que bebem de forma excessiva confrontam-se com ressacas monumentais”, observa Marília Costa, coordenadora da equipa de rua. “Para estar em isolamento profiláctico têm de estar bem. Tivemos uma pessoa que começou a ressacar de manhã, caiu, rachou a cabeça, teve de ir para o hospital. Isso fez com que não queira lá ficar. Estas três que iniciaram a terapêutica estão bem.”
Linha de apoio foi reforçada
A Linha Vida, o 1414, está agora mais apta a prestar apoio emocional e esclarecer dúvidas sobre questões relacionadas com dependências. “Voltámos a reforçá-la em termos de recursos humanos, com pessoas", anunciou João Goulão, director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, na conferência diária da Direcção Geral de Saúde desta sexta-feira. Ao que explicou, aquela linha “vinha perdendo importância em detrimento da Saúde 24”. “Nas chamadas, há principalmente pessoas com abuso de álcool, mas também questões colocadas a propósito do jogo [apostas online]”, esclareceu. “Nota-se acréscimo paulatino desta procura.” O volume das chamadas é, todavia, bastante baixo. “Tratam-se de dezenas de chamadas. Temos quatro funcionários.”
Estudo da Deco concluiu que quase 60% da população passou a ganhar menos
in Sol
Estudo diz ainda que vaga de desemprego “tem atingido três vezes mais mulheres do que homens".
Um estudo divulgado, esta segunda-feira, pela Associação de Defesa do Consumidor (Deco), concluiu que desde o início da pandemia em Portugal, 9% dos trabalhadores perderam o emprego, 30% estão parados e 19% viram o seu horário de trabalho diminuir. O inquérito mostra ainda que quase 60% da população ativa está a sofrer redução de rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como consequência da pandemia.
Segundo a Deco, esta vaga de desemprego “tem atingido três vezes mais mulheres do que homens (13% versus 4%). Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho. Até ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem atividade profissional”.
“Dos que continuam a trabalhar, três em cada 10 fazem-no sempre a partir de casa e cerca de um quinto labora parcialmente nestas condições – por exemplo, algumas empresas têm equipas rotativas em teletrabalho. A maioria dos teletrabalhadores diz que a nova forma de trabalhar não altera, ou até melhora, os níveis de atividade, bem como o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Contudo, uma percentagem ainda considerável indica que a concentração (38%) e eficiência (37%) diminuíram. Como seria de esperar, a situação agrava-se quando há crianças e jovens em casa”, realça a Deco, em comunicado.
Segundo o mesmo estudo seis em cada 10 inquiridos que coabitam com outras pessoas confirmam ter passado por algumas situações de fricção, sobretudo, devido à partilha de tarefas domésticas ou por estarem no mesmo espaço durante todo o dia. Nos agregados com crianças, o acompanhamento escolar é também foco de conflito, segundo 28% dos inquiridos.
“Apesar das naturais tensões, 45% dos portugueses que coabitam com outros revelam que as restrições à mobilidade tiveram um impacto positivo no relacionamento familiar, sobretudo, em agregados que incluem casais com filhos menores”, diz a associação.
O confinamento teve também impacto na saúde. Seis em cada 10 inquiridos, com destaque para as mulheres, assinalaram que as restrições à mobilidade prejudicam o seu bem-estar psicológico. Uma condição causada também pela situação de incerteza em que vivemos, muitas vezes, associada à redução dos rendimentos. Segundo o inquérito, o medo de contrair covid-19 impediu um quarto dos inquiridos que tiveram um problema grave de saúde de se deslocarem ao hospital, arriscando-se a que a situação evoluísse sem retorno.
Também a condição física se ressente do confinamento. Neste aspeto, os mais queixosos têm entre 30 e 60 anos. 39% dos portugueses admitiram uma ingestão de maior quantidade de comida.
O estudo concluiu ainda que, durante a pandemia, seis em cada 10 inquiridos afirmam ir menos vezes ao supermercado pessoalmente, sendo que uma boa parte também frequenta menos os mercados tradicionais (49%) e o comércio local (44%).
Segundo a Deco são os mais jovens a quebrar mais vezes o confinamento. “Apenas 6% dos inquiridos afirmam não ter saído de casa uma única vez na última semana. A grande maioria saiu para comprar alimentos, medicamentos ou outros produtos, sendo que quatro em cada 10 o fez mais do que uma vez por semana. Quase metade foi passear ou correr nas redondezas da habitação, conforme previsto nas medidas do estado de emergência, mas 10% saiu da sua área de residência”, começa por referir a associação.
“Os prevaricadores são, sobretudo, os mais jovens, entre os 18 e os 30 anos. Estes são também os que mais contrariam a regra de evitar os contactos sociais: cerca de um quarto confessou ter saído para se encontrar com familiares ou amigos – 12% da população geral teve o mesmo comportamento. Quem vive sozinho também é mais propenso a quebrar o isolamento, arriscando o contágio”, acrescenta.
Estudo diz ainda que vaga de desemprego “tem atingido três vezes mais mulheres do que homens".
Um estudo divulgado, esta segunda-feira, pela Associação de Defesa do Consumidor (Deco), concluiu que desde o início da pandemia em Portugal, 9% dos trabalhadores perderam o emprego, 30% estão parados e 19% viram o seu horário de trabalho diminuir. O inquérito mostra ainda que quase 60% da população ativa está a sofrer redução de rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como consequência da pandemia.
Segundo a Deco, esta vaga de desemprego “tem atingido três vezes mais mulheres do que homens (13% versus 4%). Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho. Até ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem atividade profissional”.
“Dos que continuam a trabalhar, três em cada 10 fazem-no sempre a partir de casa e cerca de um quinto labora parcialmente nestas condições – por exemplo, algumas empresas têm equipas rotativas em teletrabalho. A maioria dos teletrabalhadores diz que a nova forma de trabalhar não altera, ou até melhora, os níveis de atividade, bem como o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Contudo, uma percentagem ainda considerável indica que a concentração (38%) e eficiência (37%) diminuíram. Como seria de esperar, a situação agrava-se quando há crianças e jovens em casa”, realça a Deco, em comunicado.
Segundo o mesmo estudo seis em cada 10 inquiridos que coabitam com outras pessoas confirmam ter passado por algumas situações de fricção, sobretudo, devido à partilha de tarefas domésticas ou por estarem no mesmo espaço durante todo o dia. Nos agregados com crianças, o acompanhamento escolar é também foco de conflito, segundo 28% dos inquiridos.
“Apesar das naturais tensões, 45% dos portugueses que coabitam com outros revelam que as restrições à mobilidade tiveram um impacto positivo no relacionamento familiar, sobretudo, em agregados que incluem casais com filhos menores”, diz a associação.
O confinamento teve também impacto na saúde. Seis em cada 10 inquiridos, com destaque para as mulheres, assinalaram que as restrições à mobilidade prejudicam o seu bem-estar psicológico. Uma condição causada também pela situação de incerteza em que vivemos, muitas vezes, associada à redução dos rendimentos. Segundo o inquérito, o medo de contrair covid-19 impediu um quarto dos inquiridos que tiveram um problema grave de saúde de se deslocarem ao hospital, arriscando-se a que a situação evoluísse sem retorno.
Também a condição física se ressente do confinamento. Neste aspeto, os mais queixosos têm entre 30 e 60 anos. 39% dos portugueses admitiram uma ingestão de maior quantidade de comida.
O estudo concluiu ainda que, durante a pandemia, seis em cada 10 inquiridos afirmam ir menos vezes ao supermercado pessoalmente, sendo que uma boa parte também frequenta menos os mercados tradicionais (49%) e o comércio local (44%).
Segundo a Deco são os mais jovens a quebrar mais vezes o confinamento. “Apenas 6% dos inquiridos afirmam não ter saído de casa uma única vez na última semana. A grande maioria saiu para comprar alimentos, medicamentos ou outros produtos, sendo que quatro em cada 10 o fez mais do que uma vez por semana. Quase metade foi passear ou correr nas redondezas da habitação, conforme previsto nas medidas do estado de emergência, mas 10% saiu da sua área de residência”, começa por referir a associação.
“Os prevaricadores são, sobretudo, os mais jovens, entre os 18 e os 30 anos. Estes são também os que mais contrariam a regra de evitar os contactos sociais: cerca de um quarto confessou ter saído para se encontrar com familiares ou amigos – 12% da população geral teve o mesmo comportamento. Quem vive sozinho também é mais propenso a quebrar o isolamento, arriscando o contágio”, acrescenta.
Com menos covid-19 e mais desemprego, Velha Europa começa desconfinamento
Susana Salvador, in DN
À medida que as taxas de infeção vão caindo e aumentam as dificuldades económicas e a pressão das populações para o fim do confinamento, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido dão passos para a nova normalidade.
Com os resultados do confinamento a que grande parte da população foi sujeita nas últimas semanas a começarem a sentir-se nos números divulgados diariamente de infetados e de mortes por novo coronavírus, ao mesmo tempo que os números da economia vão acentuando a ideia de crise, os governos começam a planear a seguinte fase: o desconfinamento. Mas se mandar toda a gente para casa foi fácil, permitir que saiam revela-se um processo muito mais complicado.
Na Velha Europa, Espanha e França apresentam nesta terça-feira as suas estratégias. Itália já o fez neste domingo, enquanto a Alemanha já começou na semana passada a tomar algumas medidas de abertura. O Reino Unido, que demorou mais tempo a optar pelo confinamento, está também mais atrasado.
De volta ao trabalho depois de ele próprio ter sido infetado, o primeiro-ministro Boris Johnson pede paciência e avisa que ainda é cedo para começar a levantar as restrições, admitindo sempre ter consciência do impacto que tal decisão tem para a economia.
Todos os planos vêm sempre acompanhados de alertas para eventuais segundas vagas de covid-19, que poderiam levar a novo confinamento. E uma das coisas que têm em comum é o facto de preverem todos o uso obrigatório de máscaras, nem que seja nos espaços públicos fechados e nos transportes.
A Organização Mundial de Saúde alertou para o risco de um desconfinamento precipitado poder ter um "impacto maior" a nível económico. "Os governos têm que pôr na balança as vidas e a economia. Mas sem dar passos demasiado rápidos, arriscam-se a sofrer um impacto maior na economia", disse o diretor executivo Mike Ryan.
Espanha
É o segundo país do mundo com mais casos de covid-19 confirmados, depois dos EUA, tendo o primeiro caso positivo sido detetado a 31 de janeiro. No balanço divulgado já esta terça-feira voltou a registar-se uma quebra no número de mortos - mais 301 em 24 horas, para um total de 23 822 desde o início da epidemia. Foram ainda registados mais 1308 casos, num total de 210 773. Destes, 102 548 estão curados. Na prática, isso significa pouco mais de 85 mil casos ativos. A taxa de infeção (R) é atualmente de 1.
O momento mais visível do início do desconfinamento foi a saída à rua, este domingo e pela primeira vez desde que foi decretado o estado de alarme a 14 de março, das crianças com menos de 14 anos. Segundo as regras, estas podem agora sair uma vez por dia, entre as 9.00 e as 21.00, mas num raio de um quilómetro das suas casas e sempre acompanhadas por um adulto.
MUNDO
Espanha. Um mês e meio depois, as crianças voltaram à rua (veja as fotos)
O desconfinamento começará contudo apenas a partir de 2 de maio, devendo ser aprovado esta terça-feira pelo governo espanhol. Uma coisa é certa, a aplicação não será igual em todo o território espanhol e, ao contrário do que queriam as diferentes comunidades autónomas, será coordenado pelo executivo.
Há comunidades autónomas que já têm os seus planos próprios, mas tudo vai depender do que o governo disser esta terça-feira, depois do conselho de ministros. O plano, disse Sánchez no fim de semana, está a ser preparado há três semanas, sendo que os líderes autonómicos foram ouvidos esta segunda, para darem as suas sugestões.
A ideia é a partir deste 2 de maio ser possível sair à rua para fazer desporto, sozinho ou com as pessoas com quem vive. Até agora, os adultos só podiam sair para ir trabalhar (se não o pudessem fazer através de teletrabalho), comprar comida, ir à farmácia ou ao médico, passear o cão ou ajudar familiares com necessidades.
Mas o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reitera que é preciso ir com calma, aplicando medidas de prevenção e dando atenção especial à higiene. "Convém não subestimar o inimigo", referiu. O estado de alarme declarado a 14 de março, tendo a 28 de março sido proibidas todas as atividades não essenciais no país (que só levantou a 13 de abril). O estado de alarme já foi prorrogado em três ocasiões e tudo indica que será uma quarta vez, até 24 de maio.
ESPANHA
"Como é possível Portugal ter 700 mortos e nós mais de 20.000"? A pergunta da oposição a Pedro Sánchez
A nível económico, as previsões mais otimistas são para uma queda de 7% do PIB este ano, mas as mais pessimistas apontam para uma queda de 12,5%. Em Espanha, cerca de quatro milhões de trabalhadores em lay-off e mais de um milhão de trabalhadores por conta própria pediram ajuda por terem sido obrigados a suspender a atividade. A 20 de abril, havia ainda registo de 3,7 milhões de desempregados.
França
As autoridades francesas anunciaram mais 437 mortes por covid-19 esta segunda-feira, elevando para 23 293 o número de mortes desde o início da pandemia no país. Há 128 339 casos, dos quais 28 055 hospitalizados (menos 162 que na véspera).
O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, vai apresentar esta terça-feira às 15.00 (14.00 em Lisboa) o plano de desconfinamento, que deverá começar a ser implementando a partir de 11 de maio. Os franceses estão confinados desde 17 de março e, segundo uma sondagem da semana passada, já só 43% apoiam as medidas de confinamento -- menos oito pontos percentuais que na semana anterior.
A ideia é que o plano, apresentado por Philippe aos deputados, seja discutido e votado de seguida, apesar das queixas da oposição, por ter pouco tempo para o estudar. "Vou apresentar a estratégia nacional de desconfinamento esta terça-feira à tarde, na Assembleia Nacional, em volta de seis temas: a saúde (máscaras, testes, isolamento...), escola, trabalho, comércio, transportes e reuniões de pessoas", escreveu o primeiro-ministro no Twitter.
O plano será nacional, com o Palácio do Eliseu a ter rejeitado a ideia de um desconfinamento por região. Para proteção, o uso de máscaras será obrigatório, sendo que desde esta segunda-feira que as farmácias podem voltar a vendê-las (tinham sido todas confiscadas no início de março e estavam indisponíveis). A ideia é haver 26 milhões de máscaras disponíveis para o público em geral todas as semanas.
O objetivo do governo é que as crianças possam regressar progressivamente às creches e às escolas a partir de 11 de maio, indo contra o defendido pelo conselho científico, que queria um regresso apenas em setembro. Os pais que não queiram que os filhos voltem à escola estão obrigados a seguir com o ensino à distância, mas a medida enfrenta também a oposição de alguns professores.
Crianças transmitem o vírus? Novo estudo sobre caso em França levanta dúvidas
A nível do regresso ao trabalho e da abertura dos comércios, ainda não são conhecidos pormenores. A abertura progressiva da economia permitirá começar a lidar com a crise que o coronavírus trouxe. O governo prevê que o PIB caia 8% este ano.
França registou, esta segunda-feira, um aumento histórico no número de desempregados da categoria A (a maioritária, que inclui aqueles que são obrigados a uma procura ativa de emprego) em março: foram mais 246 100, isto é, 7,1%, para um total de 3,7 milhões de pessoas sem emprego nesta categoria no país. No total, nas categorias A a C (que inclui aqueles que fizeram trabalho temporário no último mês) o número dos sem emprego ascende a 5,7 milhões.
Itália
É o país europeu com maior número de mortos, ficando a nível global apenas atrás dos EUA. A Itália registou na segunda-feira mais 333 mortes, elevando para 26 977 o total desde o início da pandemia. Há ainda a registar mais 1739 casos, para os 199 414. Há ainda 66 624 recuperados. Os casos ativos são assim cerca de 105 mil.
As restrições impostas em Itália a 9 de março vão começar a ser levantadas a 4 de maio, mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já avisou que todos vão ter que usar máscaras em locais públicos e continuar com as medidas de distanciamento social. A Itália vai entrar numa era de "responsabilidade e coexistência com o vírus", disse o chefe de governo numa declaração à nação, no domingo.
Nessa mesma intervenção, Conte anunciou o cronograma de retoma da atividade económica. Já esta segunda-feira, as empresas consideradas "estratégicas", nomeadamente aquelas com atividades produtivas e industriais mais orientadas para a exportação (indústria automóvel e moda) puderam reabrir. Empresas de construção e fábricas podem retomar quando tiverem garantidas as condições de segurança para funcionários.
A 4 de maio, haverá a abertura de mais algumas atividades, podendo ser possível passeios nos parques (que vão reabrir) e visitar familiares (mantendo sempre as distâncias de segurança). As reuniões sociais continuam proibidas.
A celebração de funerais será retomada, mesmo que com apenas a presença de 15 pessoas (de preferência ao ar livre e sempre com máscara). A Igreja Católica já lamentou que no cronograma não haja referência ao retomar das cerimónias religiosas, com Conte a ouvir as críticas e a convocar os bispos para consultas.
A 18 de maio, a ideia é reabrir os comércios, museus, estabelecimentos culturais e bibliotecas, estando a reabertura completa de bares e restaurantes prevista para 1 de junho, quando também devem reabrir salões de beleza. As medidas de segurança têm sempre que ser respeitadas.
No desporto, os atletas de desportos individuais podem voltar aos treinos a 4 de maio, mas os de desportos coletivos só o podem fazer duas semanas depois, no dia 18. O que não agradou às equipas de futebol. As competições de futebol devem regressar em junho.
A reabertura das escolas será só em setembro.
A pandemia e as medidas de confinamento paralisaram a economia italiana. Segundo previsões do governo, o país deve entrar em recessão este ano, com uma queda de 8% do PIB. O défice público subirá para os 10,4% do PIB, contra os 2,2% que eram esperados antes do coronavírus, e a dívida pública deve saltar para 155,7% do PIB.
Alemanha
Regresso às aulas na Baviera.
Graças a uma estratégia de testagem alargada, a Alemanha conseguiu responder à pandemia, sem que o seu sistema de saúde ficasse sobrecarregado (ajudou até os países vizinhos), e mantendo os números de mortos controlados.
Esta segunda-feira, a Alemanha confirmou mais 1018 casos de covid-19, num total de 155 193 desde o início da pandemia, e o número de mortos subiu 110 para os 5750. A taxa de infeção caiu há duas semanas abaixo de 1, com o ministro da Saúde, Jens Spahn, a dizer que a pandemia estava controlada.
Mas esse controlo faz com que comecem a surgir críticas, pedindo um rápido levantar do confinamento para começar o mais rapidamente a travar a crise económica.
As restrições começaram a ser levantadas na semana passada, com a abertura dos comércios de até 800 metros quadrados, sendo que cada estado tem liberdade para implementar o calendário que quiser. E os especialistas temem que possa haver uma interpretação criativa das regras, levando a um novo pico.
O uso de máscaras é agora obrigatório nos transportes públicos e, nalguns estados, dentro das lojas, sendo que elas podem ser adquiridas em máquinas de venda automática.
A maior parte das crianças ainda vão continuar em casa, mas há alunos já de volta às aulas, sendo que os que se preparam para os exames vão voltar até dia 4. Nas escolas, as máscaras devem ser usadas nos corredores e durante os intervalos -- nas aulas as carteiras estão a uma distância de segurança umas das outras e é mais fácil a limpeza com desinfetante.
Livrarias, stands de automóveis e lojas de bicicletas também reabriram na semana passada. Os negócios que tinham sido fechados por não serem considerados essenciais, como por exemplo cabeleireiros, vão reabrir também a partir de dia 4.
Grandes eventos e ajuntamentos de pessoas continuam a ser proibidos, pelo menos até 31 de agosto. Restaurantes, cinemas e lojas de grandes dimensões também vão continuar para já fechadas.
Apesar de os alemães concordarem com as medidas de confinamento, e da chanceler Angela Merkel gozar de uma elevada aprovação na forma como lidou com a pandemia, começam a ouvir-se vozes de descontentamento, tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Este fim de semana houve um protesto em Berlim a pedir "liberdade" e o fim do confinamento.
ALEMANHA
Merkel quer sair em 2021. Vai a pandemia mudar isso?
E os políticos também não poupam críticas. "Quando oiço que proteger vidas deve ser mais importante do que tudo o resto, não acho que seja totalmente verdade" disse o ex-ministro das Finanças e atual presidente do Parlamento alemão, Wolfgang Schäuble, numa entrevista ao Der Tagesspiegel. "Os efeitos enormes económicos, sociais, psicológicos e outros precisam de ser pesados", acrescentou.
O gigante europeu não está imune em termos económicos à pandemia, com as previsões a apontarem para uma contração da economia em 7% em 2020, com o país já tecnicamente em recessão.
No início de abril, havia registo de quase meio milhão de empresas a pedir o apoio do estado, estimando-se que quase nove milhões de trabalhadores estivessem em lay-off. Há especialistas que acreditam que o desemprego, em queda há anos na Alemanha, pode subir para os 6% (era de pouco mais de 3% em fevereiro).
Reino Unido
O país que começou por apostar na ideia de imunidade de grupo até perceber que esta podia implicar 250 mil mortes, não quer para já falar de desconfinamento. Mas aumenta a pressão sobre o governo britânico para apresentar os planos para uma reabertura da economia.
Esta segunda-feira, o Reino Unido anunciou mais 360 mortes por coronavírus nos hospitais, elevando para 21 092 o número total de óbitos desde o início da pandemia. Dados que não incluem, por exemplo, os "milhares de mortos" nos lares de idosos, segundo os trabalhadores da área.
No regresso ao trabalho após ter estado ele próprio infetado (e hospitalizado, com uma passagem pelos cuidados intensivos), Boris Johnson pediu aos britânicos para "conterem a impaciência". O confinamento começou a 23 de março no país.
Admitindo os problemas que o confinamento prolongado representa para a economia, o primeiro-ministro avisou contudo que é preciso "reconhecer o risco de um segundo pico, o risco de perder o controlo do vírus", porque isso "seria não apenas uma segunda vaga de morte e doença, mas um desastre económico".
REINO UNIDO
Boris: da "imunidade de grupo" ao medo do segundo pico
Só em duas semanas no final de março, perto de um milhão de pessoas concorreram a benefícios estatais para lidar com a perda de rendimentos, sendo que o governo implementou também um programa de ajuda às empresas que podem aplicar o lay-off.
As previsões são para uma queda do PIB de 6,8%, se as restrições à economia começarem a ser levantadas já em maio. Se estas continuarem até junho, a situação será ainda pior.
Johnson não se quer comprometer com uma data para o levantamento das medidas de restrição, mas agora que está de volta a Downing Street deverá começar a pensar no plano que poderá aplicar assim que a pandemia estiver mais contida.
O novo líder da oposição, Keir Starmer, quer contudo que o governo comece um diálogo para começar a desenhar o plano de saída do confinamento. O líder do Labour lembrou que o governo foi lento a entrar no confinamento, tem sido lento a fazer mais testes e lento a garantir a proteção necessária ao pessoal médico que está na linha da frente e que tem a oportunidade de corrigir a situação na hora de levantar as restrições.
Na semana passada, os governos autónomos da Escócia e País de Gales publicaram documentos com os princípios que vão guiar o desconfinamento nas regiões e esta segunda-feira a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que revelar as diferentes opções existentes "nos próximos dias".
À medida que as taxas de infeção vão caindo e aumentam as dificuldades económicas e a pressão das populações para o fim do confinamento, Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido dão passos para a nova normalidade.
Com os resultados do confinamento a que grande parte da população foi sujeita nas últimas semanas a começarem a sentir-se nos números divulgados diariamente de infetados e de mortes por novo coronavírus, ao mesmo tempo que os números da economia vão acentuando a ideia de crise, os governos começam a planear a seguinte fase: o desconfinamento. Mas se mandar toda a gente para casa foi fácil, permitir que saiam revela-se um processo muito mais complicado.
Na Velha Europa, Espanha e França apresentam nesta terça-feira as suas estratégias. Itália já o fez neste domingo, enquanto a Alemanha já começou na semana passada a tomar algumas medidas de abertura. O Reino Unido, que demorou mais tempo a optar pelo confinamento, está também mais atrasado.
De volta ao trabalho depois de ele próprio ter sido infetado, o primeiro-ministro Boris Johnson pede paciência e avisa que ainda é cedo para começar a levantar as restrições, admitindo sempre ter consciência do impacto que tal decisão tem para a economia.
Todos os planos vêm sempre acompanhados de alertas para eventuais segundas vagas de covid-19, que poderiam levar a novo confinamento. E uma das coisas que têm em comum é o facto de preverem todos o uso obrigatório de máscaras, nem que seja nos espaços públicos fechados e nos transportes.
A Organização Mundial de Saúde alertou para o risco de um desconfinamento precipitado poder ter um "impacto maior" a nível económico. "Os governos têm que pôr na balança as vidas e a economia. Mas sem dar passos demasiado rápidos, arriscam-se a sofrer um impacto maior na economia", disse o diretor executivo Mike Ryan.
Espanha
É o segundo país do mundo com mais casos de covid-19 confirmados, depois dos EUA, tendo o primeiro caso positivo sido detetado a 31 de janeiro. No balanço divulgado já esta terça-feira voltou a registar-se uma quebra no número de mortos - mais 301 em 24 horas, para um total de 23 822 desde o início da epidemia. Foram ainda registados mais 1308 casos, num total de 210 773. Destes, 102 548 estão curados. Na prática, isso significa pouco mais de 85 mil casos ativos. A taxa de infeção (R) é atualmente de 1.
O momento mais visível do início do desconfinamento foi a saída à rua, este domingo e pela primeira vez desde que foi decretado o estado de alarme a 14 de março, das crianças com menos de 14 anos. Segundo as regras, estas podem agora sair uma vez por dia, entre as 9.00 e as 21.00, mas num raio de um quilómetro das suas casas e sempre acompanhadas por um adulto.
MUNDO
Espanha. Um mês e meio depois, as crianças voltaram à rua (veja as fotos)
O desconfinamento começará contudo apenas a partir de 2 de maio, devendo ser aprovado esta terça-feira pelo governo espanhol. Uma coisa é certa, a aplicação não será igual em todo o território espanhol e, ao contrário do que queriam as diferentes comunidades autónomas, será coordenado pelo executivo.
Há comunidades autónomas que já têm os seus planos próprios, mas tudo vai depender do que o governo disser esta terça-feira, depois do conselho de ministros. O plano, disse Sánchez no fim de semana, está a ser preparado há três semanas, sendo que os líderes autonómicos foram ouvidos esta segunda, para darem as suas sugestões.
A ideia é a partir deste 2 de maio ser possível sair à rua para fazer desporto, sozinho ou com as pessoas com quem vive. Até agora, os adultos só podiam sair para ir trabalhar (se não o pudessem fazer através de teletrabalho), comprar comida, ir à farmácia ou ao médico, passear o cão ou ajudar familiares com necessidades.
Mas o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reitera que é preciso ir com calma, aplicando medidas de prevenção e dando atenção especial à higiene. "Convém não subestimar o inimigo", referiu. O estado de alarme declarado a 14 de março, tendo a 28 de março sido proibidas todas as atividades não essenciais no país (que só levantou a 13 de abril). O estado de alarme já foi prorrogado em três ocasiões e tudo indica que será uma quarta vez, até 24 de maio.
ESPANHA
"Como é possível Portugal ter 700 mortos e nós mais de 20.000"? A pergunta da oposição a Pedro Sánchez
A nível económico, as previsões mais otimistas são para uma queda de 7% do PIB este ano, mas as mais pessimistas apontam para uma queda de 12,5%. Em Espanha, cerca de quatro milhões de trabalhadores em lay-off e mais de um milhão de trabalhadores por conta própria pediram ajuda por terem sido obrigados a suspender a atividade. A 20 de abril, havia ainda registo de 3,7 milhões de desempregados.
França
As autoridades francesas anunciaram mais 437 mortes por covid-19 esta segunda-feira, elevando para 23 293 o número de mortes desde o início da pandemia no país. Há 128 339 casos, dos quais 28 055 hospitalizados (menos 162 que na véspera).
O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, vai apresentar esta terça-feira às 15.00 (14.00 em Lisboa) o plano de desconfinamento, que deverá começar a ser implementando a partir de 11 de maio. Os franceses estão confinados desde 17 de março e, segundo uma sondagem da semana passada, já só 43% apoiam as medidas de confinamento -- menos oito pontos percentuais que na semana anterior.
A ideia é que o plano, apresentado por Philippe aos deputados, seja discutido e votado de seguida, apesar das queixas da oposição, por ter pouco tempo para o estudar. "Vou apresentar a estratégia nacional de desconfinamento esta terça-feira à tarde, na Assembleia Nacional, em volta de seis temas: a saúde (máscaras, testes, isolamento...), escola, trabalho, comércio, transportes e reuniões de pessoas", escreveu o primeiro-ministro no Twitter.
O plano será nacional, com o Palácio do Eliseu a ter rejeitado a ideia de um desconfinamento por região. Para proteção, o uso de máscaras será obrigatório, sendo que desde esta segunda-feira que as farmácias podem voltar a vendê-las (tinham sido todas confiscadas no início de março e estavam indisponíveis). A ideia é haver 26 milhões de máscaras disponíveis para o público em geral todas as semanas.
O objetivo do governo é que as crianças possam regressar progressivamente às creches e às escolas a partir de 11 de maio, indo contra o defendido pelo conselho científico, que queria um regresso apenas em setembro. Os pais que não queiram que os filhos voltem à escola estão obrigados a seguir com o ensino à distância, mas a medida enfrenta também a oposição de alguns professores.
Crianças transmitem o vírus? Novo estudo sobre caso em França levanta dúvidas
A nível do regresso ao trabalho e da abertura dos comércios, ainda não são conhecidos pormenores. A abertura progressiva da economia permitirá começar a lidar com a crise que o coronavírus trouxe. O governo prevê que o PIB caia 8% este ano.
França registou, esta segunda-feira, um aumento histórico no número de desempregados da categoria A (a maioritária, que inclui aqueles que são obrigados a uma procura ativa de emprego) em março: foram mais 246 100, isto é, 7,1%, para um total de 3,7 milhões de pessoas sem emprego nesta categoria no país. No total, nas categorias A a C (que inclui aqueles que fizeram trabalho temporário no último mês) o número dos sem emprego ascende a 5,7 milhões.
Itália
É o país europeu com maior número de mortos, ficando a nível global apenas atrás dos EUA. A Itália registou na segunda-feira mais 333 mortes, elevando para 26 977 o total desde o início da pandemia. Há ainda a registar mais 1739 casos, para os 199 414. Há ainda 66 624 recuperados. Os casos ativos são assim cerca de 105 mil.
As restrições impostas em Itália a 9 de março vão começar a ser levantadas a 4 de maio, mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já avisou que todos vão ter que usar máscaras em locais públicos e continuar com as medidas de distanciamento social. A Itália vai entrar numa era de "responsabilidade e coexistência com o vírus", disse o chefe de governo numa declaração à nação, no domingo.
Nessa mesma intervenção, Conte anunciou o cronograma de retoma da atividade económica. Já esta segunda-feira, as empresas consideradas "estratégicas", nomeadamente aquelas com atividades produtivas e industriais mais orientadas para a exportação (indústria automóvel e moda) puderam reabrir. Empresas de construção e fábricas podem retomar quando tiverem garantidas as condições de segurança para funcionários.
A 4 de maio, haverá a abertura de mais algumas atividades, podendo ser possível passeios nos parques (que vão reabrir) e visitar familiares (mantendo sempre as distâncias de segurança). As reuniões sociais continuam proibidas.
A celebração de funerais será retomada, mesmo que com apenas a presença de 15 pessoas (de preferência ao ar livre e sempre com máscara). A Igreja Católica já lamentou que no cronograma não haja referência ao retomar das cerimónias religiosas, com Conte a ouvir as críticas e a convocar os bispos para consultas.
A 18 de maio, a ideia é reabrir os comércios, museus, estabelecimentos culturais e bibliotecas, estando a reabertura completa de bares e restaurantes prevista para 1 de junho, quando também devem reabrir salões de beleza. As medidas de segurança têm sempre que ser respeitadas.
No desporto, os atletas de desportos individuais podem voltar aos treinos a 4 de maio, mas os de desportos coletivos só o podem fazer duas semanas depois, no dia 18. O que não agradou às equipas de futebol. As competições de futebol devem regressar em junho.
A reabertura das escolas será só em setembro.
A pandemia e as medidas de confinamento paralisaram a economia italiana. Segundo previsões do governo, o país deve entrar em recessão este ano, com uma queda de 8% do PIB. O défice público subirá para os 10,4% do PIB, contra os 2,2% que eram esperados antes do coronavírus, e a dívida pública deve saltar para 155,7% do PIB.
Alemanha
Regresso às aulas na Baviera.
Graças a uma estratégia de testagem alargada, a Alemanha conseguiu responder à pandemia, sem que o seu sistema de saúde ficasse sobrecarregado (ajudou até os países vizinhos), e mantendo os números de mortos controlados.
Esta segunda-feira, a Alemanha confirmou mais 1018 casos de covid-19, num total de 155 193 desde o início da pandemia, e o número de mortos subiu 110 para os 5750. A taxa de infeção caiu há duas semanas abaixo de 1, com o ministro da Saúde, Jens Spahn, a dizer que a pandemia estava controlada.
Mas esse controlo faz com que comecem a surgir críticas, pedindo um rápido levantar do confinamento para começar o mais rapidamente a travar a crise económica.
As restrições começaram a ser levantadas na semana passada, com a abertura dos comércios de até 800 metros quadrados, sendo que cada estado tem liberdade para implementar o calendário que quiser. E os especialistas temem que possa haver uma interpretação criativa das regras, levando a um novo pico.
O uso de máscaras é agora obrigatório nos transportes públicos e, nalguns estados, dentro das lojas, sendo que elas podem ser adquiridas em máquinas de venda automática.
A maior parte das crianças ainda vão continuar em casa, mas há alunos já de volta às aulas, sendo que os que se preparam para os exames vão voltar até dia 4. Nas escolas, as máscaras devem ser usadas nos corredores e durante os intervalos -- nas aulas as carteiras estão a uma distância de segurança umas das outras e é mais fácil a limpeza com desinfetante.
Livrarias, stands de automóveis e lojas de bicicletas também reabriram na semana passada. Os negócios que tinham sido fechados por não serem considerados essenciais, como por exemplo cabeleireiros, vão reabrir também a partir de dia 4.
Grandes eventos e ajuntamentos de pessoas continuam a ser proibidos, pelo menos até 31 de agosto. Restaurantes, cinemas e lojas de grandes dimensões também vão continuar para já fechadas.
Apesar de os alemães concordarem com as medidas de confinamento, e da chanceler Angela Merkel gozar de uma elevada aprovação na forma como lidou com a pandemia, começam a ouvir-se vozes de descontentamento, tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Este fim de semana houve um protesto em Berlim a pedir "liberdade" e o fim do confinamento.
ALEMANHA
Merkel quer sair em 2021. Vai a pandemia mudar isso?
E os políticos também não poupam críticas. "Quando oiço que proteger vidas deve ser mais importante do que tudo o resto, não acho que seja totalmente verdade" disse o ex-ministro das Finanças e atual presidente do Parlamento alemão, Wolfgang Schäuble, numa entrevista ao Der Tagesspiegel. "Os efeitos enormes económicos, sociais, psicológicos e outros precisam de ser pesados", acrescentou.
O gigante europeu não está imune em termos económicos à pandemia, com as previsões a apontarem para uma contração da economia em 7% em 2020, com o país já tecnicamente em recessão.
No início de abril, havia registo de quase meio milhão de empresas a pedir o apoio do estado, estimando-se que quase nove milhões de trabalhadores estivessem em lay-off. Há especialistas que acreditam que o desemprego, em queda há anos na Alemanha, pode subir para os 6% (era de pouco mais de 3% em fevereiro).
Reino Unido
O país que começou por apostar na ideia de imunidade de grupo até perceber que esta podia implicar 250 mil mortes, não quer para já falar de desconfinamento. Mas aumenta a pressão sobre o governo britânico para apresentar os planos para uma reabertura da economia.
Esta segunda-feira, o Reino Unido anunciou mais 360 mortes por coronavírus nos hospitais, elevando para 21 092 o número total de óbitos desde o início da pandemia. Dados que não incluem, por exemplo, os "milhares de mortos" nos lares de idosos, segundo os trabalhadores da área.
No regresso ao trabalho após ter estado ele próprio infetado (e hospitalizado, com uma passagem pelos cuidados intensivos), Boris Johnson pediu aos britânicos para "conterem a impaciência". O confinamento começou a 23 de março no país.
Admitindo os problemas que o confinamento prolongado representa para a economia, o primeiro-ministro avisou contudo que é preciso "reconhecer o risco de um segundo pico, o risco de perder o controlo do vírus", porque isso "seria não apenas uma segunda vaga de morte e doença, mas um desastre económico".
REINO UNIDO
Boris: da "imunidade de grupo" ao medo do segundo pico
Só em duas semanas no final de março, perto de um milhão de pessoas concorreram a benefícios estatais para lidar com a perda de rendimentos, sendo que o governo implementou também um programa de ajuda às empresas que podem aplicar o lay-off.
As previsões são para uma queda do PIB de 6,8%, se as restrições à economia começarem a ser levantadas já em maio. Se estas continuarem até junho, a situação será ainda pior.
Johnson não se quer comprometer com uma data para o levantamento das medidas de restrição, mas agora que está de volta a Downing Street deverá começar a pensar no plano que poderá aplicar assim que a pandemia estiver mais contida.
O novo líder da oposição, Keir Starmer, quer contudo que o governo comece um diálogo para começar a desenhar o plano de saída do confinamento. O líder do Labour lembrou que o governo foi lento a entrar no confinamento, tem sido lento a fazer mais testes e lento a garantir a proteção necessária ao pessoal médico que está na linha da frente e que tem a oportunidade de corrigir a situação na hora de levantar as restrições.
Na semana passada, os governos autónomos da Escócia e País de Gales publicaram documentos com os princípios que vão guiar o desconfinamento nas regiões e esta segunda-feira a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse que revelar as diferentes opções existentes "nos próximos dias".
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