28.4.14

Aumento de ciganos nas ruas de Paris desafia integração europeia

Gabriel Brust, in RFI

A mesma cultura cigana que deu a Paris a música do genial Django Reinhardt coleciona também um longo histórico de perseguições na Europa. O episódio mais recente constrangeu a polícia parisiense e reabriu o debate nacional sobre as condições de vida dos “roms”. Um investimento massivo da União Européia nos próximos quatro anos pretende tirar da pobreza a maior minoria étnica do bloco.

Se Paris se orgulha de Django, um cigano da etnia Sinti que aqui criou o cultuado gênero jazz manouche, o mesmo não se pode dizer da relação com os ciganos que chegam cada vez mais da Romênia e da Bulgária. Desde o último mês de janeiro, pessoas destes países possuem o direito de viver e trabalhar em toda a União Europeia. A presença de ciganos pedindo esmolas em Paris começou a incomodar mais do que nunca os locais e as autoridades quando passaram a pedir dinheiro nas regiões mais caras, como o Boulevard Saint-Germain, na Rive Gauche parisiense.

O estopim da nova crise foi a denúncia do jornal Le Parisien de que a polícia da sexta circunscrição de Paris possui uma diretriz interna para expulsar os ciganos do bairro. A denúncia do jornal se comprovou, a nota interna existe e é ilegal, já que a lei francesa impede a abordagem policial segundo critérios étnicos. A nota foi denunciada por integrantes da própria polícia, que se indignaram com seu conteúdo. O prefeito da sexta circunscrição, do partido de centro-direita UMP, defende a diretriz e denuncia que nos dois últimos meses triplicou a quantidade de ciganos que colocam colchões pelas calçadas e passam os dias na rua expondo crianças e bebês e pedindo dinheiro.

Colchões e crianças pelas ruas

Diante da repercussão negativa e da reação de entidades de defesa de minorias, o governo francês tratou de abafar o escândalo logo de início. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, diz que o texto da ordem interna da polícia já foi retificado e que ninguém será abordado pela polícia em função de sua nacionalidade. A prefeitura de polícia de Paris se disse constrangida e chocada que a nota tenha saído de uma de suas delegacias. Mas, segundo entidades sindicais dos próprios policiais, a nota apenas colocou por escrito o que é prática corrente já há alguns anos: perseguir os ciganos pelas ruas da cidade. Essa recente “invasão” da margem esquerda do Rio Sena teria sido consequência de uma expulsão em massa dos ciganos da região da Bastilha.

Para os moradores, a presença de crianças é o que mais choca. “É horrível ver essas famílias inteiras com crianças de pé no chão nos bairros bonitos. Mas perseguí-los, eu não sei o que isso significa exatamente”, disse uma moradora à reportagem da RFI francesa. “Acho que eles são vítimas e culpados ao mesmo tempo”, diz outro morador. Entre os comerciantes, a preocupação é que os clientes sejam afugentados: “Eles se instalam em frente à loja, então, comercialmente falando, você pode compreender como constrange ter uma família de ciganos em frente à vitrine”, diz um lojista. Outro denuncia as condições em que estão as crianças: “Em cada parte do Boulevard podemos vê-los. Eles trazem colchão com crianças e dormem no chão. Isso cria um mal estar”.

O episódio se inscreve em um histórico recente de uma série de polêmicas envolvendo políticas públicas para os ciganos na França. Em 2010, o governo Sarkozy promoveu uma repatriação em massa para a Bulgária e a Romênia, dois dos principais países de origem da comunidade, após a ocorrência de vários episódios de violência em acampamentos ao redor da França. Segundo o advogado Henri Braun, que defende grupos de ciganos, a perseguição se tornou sistemática na França. “Basta abrir os olhos para ver que a política que é feita em relação a eles ou quem que seja catalogado como cigano, acontece há vários anos”.

Um trilhão em investimentos

A Agência Europeia para os Direitos Fundamentais produz, desde 2011, uma extensa pesquisa para reunir dados sobre os ciganos no continente e pensar políticas públicas para o grupo, que é a maior minoria étnica da Europa e que sofre discriminação mesmo nos países que são mais numerosos, como a Romênia.

As pesquisas do órgão mostram que na França e nos países mais ricos do bloco os ciganos têm condições econômicas ainda piores, principalmente porque não possuem formação suficiente para trabalhar em economias competitivas e industrializadas. Apesar da discriminação e da péssima situação econômica, outro dado surpreendente mostra que apenas 2% dos ciganos da França pensam em ir embora do país.

O diretor de Igualdade da Agencia Europeia para os Direitos Fundamentais, Ioannis Dimitrakopoulos, explica o paradoxo: “É difícil explicar as razões, mas podemos presumir que uma delas é que em economias altamente industrializadas eles veem que podem seguir o exemplo de outras pessoas e melhorar seu nível de vida obtendo educação e um melhor emprego, coisas mais difíceis de se ver em seus países de origem como Romênia e Bulgária.”

Dimitrakopoulos diz que não é mais possível chamar estes movimentos de migração, já que estas pessoas têm o direito de se mover dentro da União Européia e esse “é um dos pilares do bloco”. Mas compara a atual onda com a imigração ocorrida para América no século passado: “Não é muito diferente da imigração dos europeus para os Estados Unidos no séculos 19 e 20. Eles não tinham trabalho e não podiam se sustentar em seus países de origem então foram em busca de algo melhor. Eles encontraram? Talvez não na primeira geração, talvez na segunda ou na terceira. Mas eles certamente ficaram melhor saindo do que ficando na Europa. "

Uma grande parte do orçamento de €1 trilhão da União Europeia para os próximos quatro anos será investida nas condições econômicas dos ciganos em todos os países. Segundo Dimitrakopoulos, esses investimentos massivos serão feitos em quatro áreas que são consideradas chave para redução de pobreza: habitação, educação, saúde e emprego. “Depois que uma criança entra na escola, leva outros 20 anos até que chegue à idade de 27 para vermos o resultado nos padrões de emprego. Milagres não vão acontecer, mas devemos ver uma gradual melhora ao longo dos anos”.