5.5.20

Em Évora, Fundação Eugénio de Almeida oferece 6000 refeições por mês na sua nova Cozinha Social

in Público on-line

A fundação criou a Cozinha Social na Enoteca Cartuxa para “assegurar necessidades básicas de alimentação” a “pessoas e famílias que se encontrem em situações de vulnerabilidade”. E estará a funcionar “enquanto for necessário”.

Encerrada ao público desde 14 de Março, embora com loja online de vinhos e serviço de take-away e de entregas ao domicílio de refeições, a Enoteca Cartuxa, no antigo Palácio da Inquisição, junto ao templo romano de Évora, acolhe agora uma Cozinha Social para “ajudar os mais vulneráveis”.

A iniciativa arrancou a 27 de Abril, com entrega gratuita de duas refeições diárias, compostas por uma sopa, um prato principal e uma sobremesa, a “pessoas e famílias que se encontrem em situações de vulnerabilidade”, avança a Fundação Eugénio de Almeida em comunicado. Todas as refeições são entregues num “único horário”, entre as 12h e as 14h.

O objectivo passa por “contribuir de forma positiva e assertiva e minimizar os impactos negativos sociais e económicos do difícil contexto vivido actualmente”, procurando “assegurar necessidades básicas de alimentação da comunidade da cidade de Évora”.

De carácter temporário, a Cozinha Social tem capacidade para doar 200 refeições por dia, “o equivalente a 6000 refeições por mês”, e manter-se-á em funcionamento “enquanto for necessário”. Conta com a colaboração de diferentes instituições que “referenciam as pessoas a serem apoiadas e, quando necessário, realizam a entrega das refeições”.

Em comunicado, a Fundação Eugénio de Almeida assegura ainda que “todas as normas de higiene e segurança recomendadas pela Direcção-Geral de Saúde são seguidas com estrito rigor”.

“Em momentos como o que vivemos, é imprescindível estarmos perto das pessoas e, com elas, participarmos activamente na construção de uma comunidade forte, unida e solidária”, afirma Francisco Senra Coelho, presidente do Conselho de Administração da fundação, em comunicado. “Por esse motivo continuamos a dar cumprimento à missão da fundação de fazer mais pelas pessoas, para mais pessoas, criando proximidade à distância. Acreditamos que as refeições que partilhamos solidariamente podem ajudar cada pessoa a encontrar força e confiança no futuro.”

No âmbito do plano de contingência face ao surto de covid-19, a Fundação Eugénio de Almeida decidiu encerrar o funcionamento de todos os espaços de visita e fruição pública a 14 de Março, incluindo a Enoteca Cartuxa, o Centro de Arte e Cultura, o Paço São Miguel, entre outros.

O espaço de restauração – que “evoca o ambiente informal de uma taberna” e alia os vinhos da Adega Cartuxa a uma “cozinha regional interpretada e reinventada de forma actual”, lê-se no site – passou a servir refeições em regime de take-away e de entrega ao domicílio no concelho de Évora. E, no início de Abril, foi lançada uma nova loja online com os vinhos e azeites produzidos, com entregas em todo o país sem custos para compras superiores a 40€.

“Temos que ter amor para dar de comer aos outros”: a lição de Manuel Fialho (1938-2020)
A fundação criou, entretanto, a iniciativa #FundaçãoConsigo, “para estar mais próxima da comunidade que serve nos diferentes âmbitos da sua missão” e que conta com uma programação online, com visitas guiadas pelo património cultural da instituição, apresentação de peças patentes nas exposições do Centro de Arte e Cultura, actividades para os mais novos, entre outros.


Porta Solidária. Paróquia do Porto distribuiu mais de 15 mil refeições

Henrique Cunha, in RR

Números foram avançados pelo bispo do Porto. “A Igreja é mesmo assim!”, afirmou D. Manuel Linda na rede social Twitter.

O bispo do Porto, D. Manuel Linda, destaca o serviço da iniciativa “Porta Solidária” da Paróquia da Senhora da Conceição.

Numa publicação esta segunda-feira na rede social Twitter, D. Manuel Linda revela que, em 50 dias, a "Porta Solidária" ofereceu mais de 15 mil refeições.

“De 12 de março a 1 de maio (50 dias) a Paróquia da Senhora da Conceição, com a sua "Porta Solidária", serviu (ofereceu) 15.341 refeições”, pode ler-se na publicação.

O bispo faz as contas e adianta que se cada refeição “fosse paga só a três euros”, isso equivaleria a 46 mil euros.

Satisfeito com a iniciativa, D. Manuel Linda termina com uma exclamação: “A Igreja é mesmo assim!”.

Contactado pela Renascença, o padre Rubens Marques, pároco da Nossa Senhora da Conceição “agradece ao bispo do Porto que desde o início tem colaborado muito com a Porta Solidária”, lembrando que “a primeira grande transferência para ajudar devido ao aumento do serviço de refeições” foi feita por D. Manuel Linda.

O sacerdote acredita que “todas as referências à Porta Solidária e, em particular, o “twitte” do bispo do Porto, vão motivar mais pessoas para ajudar com alimentos, com ofertas e até com serviço de voluntariado”.

No início do mês de abril, e na sequência da crise provocada pela pandemia, a “Porta Solidária” tinha atingido o recorde de 403 refeições diárias. Um número, entretanto, largamente ultrapassado.

O padre Rubens Marques revela à Renascença que a “22 de abril se atingiu um pico de 469 refeições e a 2 de maio foram servidas 258, os números mais altos desde o início da pandemia”.

Lembrando a publicação do bispo do Porto e os valores gastos na confecção das refeições, o sacerdote que admite que nada disto seria possível se não existisse “uma enormidade, uma imensidão de gente e de instituições a colaborar, a ajudar, a trazer alimentos, ou a fazer transferências bancárias”. “Isto tem permitido que este serviço continue aberto a tantas pessoas”, conclui o sacerdote.

Associações de voluntários voltam à rua já dia 15 de maio
A paróquia da Senhora da Conceição não dispõe desse serviço, mas o padre Rubens Marques sabe que “as associações voluntárias que seguiam com carrinhas para efectuar rondas pela cidade e para dar alimentação, muitas a partir do dia 15 (de maio) vão voltar à rua”.

Para o sacerdote, trata-se de uma boa notícia, dado que “deste modo não haverá tanta concentração só em alguns lugares das pessoas que precisam de comer, haverá diversificação de espaços, mais respostas” que, do ponto de vista da saúde, “é bom não existir aglomeração de muita gente num só espaço”.

O pároco “do Marquês” recorda que “saíram normas sobre como servir os sem-abrigo na rua, sobre a higienização das carrinhas, a protecção daqueles que estão a distribuir a alimentação, e, agora sim, organizadas as associações já vão começar a servir”, o que pode aliviar a pressão que até aqui é exercida sobre a “Porta Solidária”.

Covid-19. Os animais voltaram para ao pé de nós ou estão a morrer de fome?

Cristina Peres, in Expresso

Carneiros num parque infantil, jacarés num estacionamento, leões a dormir a sesta no asfalto e veados de roda de uma rotunda. Tal é o resultado da ausência dos transportes que pararam e das pessoas que ficaram confinadas pela pandemia. Os animais avançam por onde muitas vezes já andavam e vemo-los, agora, porque temos tempo para olhá-los. Contudo, menos turismo e menos lixo são fome anunciada para muitos dos que se adaptaram

aparente “regresso” de animais selvagens ao espaço dos humanos, devido em parte à ausência dos ditos humanos, tem atraído a atenção das pessoas. Muitas já terão visto imagens ou assistido aos vídeos que circulam em sites científicos ou nas redes sociais desde que grande parte do mundo está confinado para tentar controlar a pandemia de coronavírus.

Os protagonistas são várias espécies animais “apanhadas” a explorar as cidades ou a exibir um à-vontade inédito em “casa” ou nas imediações dos seus habitats. Há muitos exemplos e não há geografia exclusiva: um rebanho de carneiros aventura-se num carrossel de um parque infantil e uma fila de cabras com chifres de grande porte em fila nas ruas desertas de Llandudno, no País de Gales. Há jacarés de grande porte apanhados a atravessar um parque de estacionamento num subúrbio da Flórida, nos Estados Unidos.

Uns leões foram apanhados a dormitar numa estrada que ladeia um parque natural na África do Sul, os ursos pardos multiplicaram por quatro a sua população e tomaram conta do Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, desde que este fechou portas aos turistas, e tartarugas marinhas chocam ovos nas praias sem humanos do Brasil.

Mais ursos? Mais tartarugas? Os flamingos de Bombaim reproduziram-se de tal maneira durante a paralisação que formaram uma mancha cor de rosa? Não é de admirar. Os níveis de barulho do mundo, que antes nos passavam provavelmente despercebidos, mantinham à distância uma quantidade de comunidades de bichos que “já lá estavam”. É o que afirma a bióloga Carla Frias em conversa com o Expresso a propósito deste à-vontade dos animais, naturalmente curiosos e decerto menos assustados, que pode parecer-nos despropositado.

“Não se trata de uma invasão, os animais já andavam por perto, muitas vezes nós é que não os víamos ou porque não estávamos em casa com tempo para dar por eles e olhá-los.” A ilustrar esta ideia, a bióloga dá o exemplo de um aquário no Japão onde, por estes dias, só à custa de videochamadas se consegue que as enguias da areia saiam de debaixo daquela capa protetora onde se dissimulam, uma vez que desapareceu o estímulo constante dos milhares de visitantes agora ausentes.

A interação dos animais é determinada por muitos fatores e vai muito além do nível do ruído. Em Veneza, por exemplo, se hoje se conseguem ver peixes nos canais e avistar golfinhos na laguna, isso deve-se ao assentamento dos sedimentos na água. “Os cisnes sempre lá estiveram também. Só que dantes tinham de fugir constantemente das gôndolas”, lembra Carla Frias.

A aproximação dos animais aos centros urbanos lembra-nos que os escorraçámos há muito para longe de nós e que o alargamento das áreas urbanas nunca jogou a favor deles. Mas é também verdade que as consequências da paralisação devida à covid-19 não foram só positivas para muitas das espécies que se adaptaram à proximidade dos humanos. Muitas passaram mesmo a depender de indústrias poluentes cujos “restos” tomaram como meio de sobrevivência.

Um artigo publicado este fim de semana na compilação científica “The Conversation” revela que a vida do milhafre-real, introduzido no País de Gales e Inglaterra nos anos 60, que aprendeu a viver dos despojos disponibilizados pelos humanos, não está a correr nada bem. A prova foi a descoberta de um desses milhafres, há dias, na reserva de vida selvagem Meltham, no Yorkshire Ocidental (norte de Inglaterra), com peso a menos e visivelmente incapaz de se alimentar sozinho.

À partida, a razão para tal comportamento deve-se ao facto de a ausência de tráfego ter diminuído drasticamente o número de animais atropelados nas estradas e cujos cadáveres ficavam disponíveis para repasto dos milhafres. “As condições obrigam os animais a serem oportunistas. Muitos passaram a usar os caixotes do lixo como fonte de alimentação depois de os termos obrigado a alterar a cadeia alimentar”, diz a bióloga, que trabalha na Direção-Geral de Política do Mar.

Há pouco tempo, correram imagens que ilustravam o drama dos macacos na Tailândia. Com o desaparecimento dos turistas, deixaram de ser por eles alimentados e de dispor do lixo que produziam, tendo começado a morrer de fome.

ESTRELAS EM PORTUGAL, ENXOTADOS NOUTRAS CAPITAIS EUROPEIAS
Em Portugal, a seguir ao medo provocado pelo surto de gripe das aves (H1N1), houve aves exóticas e gatos que foram libertados e acabaram por adaptar-se à vida em liberdade. “Os periquitos, os minás, que não são oriundos de cá, existem hoje em grandes bandos em Monsanto e em Oeiras e chegaram a ser um problema. Tiveram de se virar e adaptaram-se”, conta Frias.

Zuzu e Margarida tiveram honras de reportagem na televisão em 2016 e tornaram-se estrelas das redes sociais, lembra a bióloga. Este casal de falcões adotou um vaso pendurado na borda de uma varanda urbana para nidificar. Acontece com frequência, conta Frias, e é “raro que as pessoas consigam manter o equilíbrio entre enxotá-los e domesticá-los. Há quem consiga dar-lhes espaço para que continuem a ser os animais selvagens que são”.

A quantidade de javalis que se tem reproduzido na região da Arrábida “já originou a organização de batidas” e o mesmo acontece pontualmente nas florestas que separam alguns bairros da capital alemã, Berlim. As raposas em Londres tornaram-se mais visíveis, para usar um termo moderado, e isso deve-se muitas vezes “ao facto de nós ou elas terem mudado de horários”, conclui a bióloga.

Organização ibero-americana alerta para aumento da pobreza

Por Notícias ao Minuto

A Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) lançou hoje uma campanha que alerta para a possibilidade de 29 milhões de latino-americanos entrarem em estado de pobreza devido à crise da covid-19 e pede solidariedade para ultrapassar a situação.

Acampanha, denominada #IberoaméricaResiste, lembra as estimativas de aumento da pobreza na região e sublinha a importância da cooperação como forma de encontrar soluções comuns para sair da crise.

Estimativas da Comissão Económica para América Latina e Caraíbas das Nações Unidas (CEPAL) apontam que 29 milhões de pessoas da região "poderão cair na pobreza" por causa da pandemia.

Com esse acréscimo, o número de pobres deverá aumentar para 214,7 milhões este ano, dos quais 83,4 milhões ficarão em pobreza extrema, adianta a comissão.

"A crise de 2008 significou um corte em 10 anos de 75% nos recursos que Espanha destinava à cooperação internacional, valor que nunca mais foi recuperado", recorda a campanha, citando dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

"Caso se verifiquem novos cortes, a cooperação internacional poderá ficar gravemente ferida e muitos projetos, imprescindíveis para cumprir com a Agenda 2030, ficarão pelo caminho", afirmou o secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero, em comunicado hoje divulgado.

Por isso, a organização resolveu criar a #IberoamericaResiste com "o objetivo abrir um debate sobre as lições desta crise, como a importância da cooperação para sairmos juntos da pandemia", referiu.

"Esta crise está a ser uma oportunidade para começar a escrever uma nova página da História, a de um futuro onde as relações humanas solidárias e de cooperação, de trabalho multilateral, vão ser muito mais fortes", afirmou o secretário-geral.

A OEI divulgou nas redes sociais um vídeo no qual os seus colaboradores contam o que têm aprendido durante o tempo de pandemia e especialistas em cooperação de Portugal, Espanha, Colômbia, República Dominicana e Costa Rica destacam a importância da família, de dar mais valor aos momentos e de trabalhar em conjunto.

"O vídeo é um testemunho das lições aprendidas pelos quase 500 colaboradores da organização de cooperação multilateral mais antiga da Ibero-América que, no ano passado, completou 70 anos a trabalhar pela educação, a ciência e a cultura da região", descreve a OEI no comunicado.

Por outro lado, a organização decidiu dar acesso livre e gratuito a vários conteúdos educativos e culturais para administrações educacionais, professores, famílias e alunos, como forma de ultrapassar a lacuna criada pela suspensão das aulas e assim mitigar alguns dos efeitos negativos da pandemia na educação.

Segundo dados da UNESCO, estão atualmente sem aulas presenciais mais de 177 milhões de alunos, desde o pré-escolar até o ensino superior, nos 23 países da comunidade ibero-americana membros da OEI.

A OEI tem como Estados-membros Andorra, Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Chile, República Dominicana, Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Guiné Equatorial, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela.

Desde que foi detetada na China, em dezembro passado, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 245 mil mortos e infetou mais de 3,4 milhões de pessoas em 195 países e territórios, segundo um balanço da agência de notícias AFP.

Mais de um milhão de doentes foram considerados curados.

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (67.674) e mais casos de infeção confirmados (mais de 1,1 milhões).

Seguem-se Itália (28.884 mortos, mais de 210 mil casos), Reino Unido (28.446 mortos, mais de 186 mil casos), Espanha (25.264 mortos, mais de 217 mil casos) e França (24.895 mortos, mais de 168 mil casos).

Por regiões, a Europa soma mais de 143 mil mortos (mais de 1,5 milhões de casos), Estados Unidos e Canadá quase 71 mil mortos (quase 1,2 milhões de casos), América Latina e Caribe mais de 13.100 mortos (mais de 248 mil casos), Ásia mais de 9,000 mortos (cerca de 240 mil casos), Médio Oriente perto de 7.000 mortos (mais de 185 mil casos), África cerca de 1.800 mortos (mais de 44 mil casos) e Oceânia 122 mortos (mais de 8.100 casos).

Projecto Caerus apoia desempregados de longa duração e famílias em Marco de Canaveses

Ana Magalhães, in a Verdade

O projeto é promovido pela Câmara Municipal do Marco de Canaveses e coordenado localmente pela Fundação Santo António.

O Caerus CLDS-4G já se encontra em funcionamento. A quarta geração deste projeto de intervenção social, desenvolvido de forma integrada na comunidade, trabalha com entidades públicas, entidades privadas, numa lógica de trabalho em rede.

Promovido pela Câmara Municipal do Marco de Canaveses e coordenado localmente pela Fundação Santo António, o Caerus CLDS-4G vai desenvolver atividades nas áreas do emprego e da formação, da família, da infância e da juventude, em complementaridade entre si, para pessoas em situação de vulnerabilidade económica e social, com baixos rendimentos, em proximidade territorial.

Judite Freitas é a coordenadora técnica do projeto e em entrevista o Jornal A VERDADE explicou que os eixos estruturais desta quarta geração do projeto foram especializados, com principal enfoque no “desemprego e na pobreza infantil”, uma vez que o concelho de Marco de Canaveses “é especialmente afetado por esses dois fatores. Daí, temos de fazer atividades relacionadas com o emprego e com a intervenção familiar e parental, preventiva da pobreza infantil”.

Com esta nova geração, o terceiro eixo do Projecto Caerus, que trabalhava a formação, qualificação e capacitação da comunidade e das instituições, caiu. “Vamos redirecionar a nossa atividade para trabalhar especificamente com desempregados e com as famílias. O nosso espectro de atividade diminuiu um pouco, mas vamos aumentar os nossos focos nos dois eixos”, sublinhou.

De acordo com Judite Freitas, o maior objetivo da Caerus é “trabalhar sempre para a inclusão social e para aumentar os níveis de coesão do território, diminuindo a desigualdade de uma forma visível. Queremos alargar o nosso público alvo a toda a população, não estamos tão focados na população que já está a ser acompanhada em RSI ou noutras medidas, estamos vocacionados para abranger mais população”.

Para que o sucesso do Projecto Caerus CLDS-4G seja uma realidade, a instituição conta com o apoio das juntas de freguesia do concelho, consideradas por Judite Freitas como “essenciais” para o desenvolvimento das atividades. “Queremos que sejam os nossos maiores parceiros, porque nos permitem afinar uma grelha de identificação das pessoas a nível territorial e permitem responder de uma forma mais equitativa a nível do concelho, porque têm um conhecimento mais próximo da população”, afirmou.

População desempregada de longa duração e famílias são principal enfoque
O Caerus conta com a realização de vários projetos nos seus eixos de intervenção, para o sucesso das suas atividades. No que respeita ao desemprego, e nomeadamente aos desempregados de longa duração, o objetivo da instituição é “trabalhar projetos diferentes, que possam, não só encaminhá-los para a inserção profissional que é o desejo último, mas também responder a questões ligadas com o desemprego, nomeadamente no que diz respeito às depressões”.

Neste seguimento, Judite Freitas revelou a realização de um projeto de empreendedorismo direcionado para as mulheres desempregadas de longa duração, na área do têxtil. “Têm grandes conhecimentos técnicos mas por algum motivo já não conseguem estar no mercado de trabalho. Temos o projeto a concurso”, anunciou.

No que respeita no trabalho direcionado às famílias, estão a ser desenvolvidos vários projetos, sendo adotada “uma estratégia mais inclusiva, de modo a que pais de todas as faixas etárias, de todas as profissões, participem nos programas de educação parental. Queremos semear no Marco de Canaveses uma cultura de parentalidade positiva. Queremos desafiar os marcoenses, temos ferramentas que são estudadas e validadas a nível mundial. Apesar de ser muito desafiante, temos estratégias práticas e simples para trabalhar essas questões”, afirmando que a relação entre pais e filhos “melhora muito” e auxilia na chegada à adolescência.


O empreendedorismo também será trabalhado neste CLDS, numa óptica de bootcamp - capacitação intensiva em contexto residencial para conhecimento das realidades locais, para desenho de modelos de negócio, de planos de implementação e de comunicações fortes - com partilha de resultados na comunidade, envolvendo a participação de empresários, de entidades e de instituições. “Este modelo de trabalho permite que os jovens desenvolvam competências que estão ligadas ao mundo do trabalho, ao ensino superior. O objetivo é tirar as ideias do papel”, indicou.

A equipa multidisciplinar vai continuar a desenvolver as Mostras de Qualificação, sendo que o objetivo é descentralizar a sua realização do centro do concelho. “Gostaríamos de realizar uma mostra focada na partilha de experiências dos estudantes marcoenses aos futuros estudantes universitários”, informou a coordenadora técnica, acrescentando que vão ser desenvolvidas “com os jovens atividades diversificadas, que respondam aos diferentes interesses desta população, em “troca” de pequenas tarefas para toda a comunidade, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e social”.

Judite Freitas recordou ainda uma parte do trabalho desenvolvido pelo Projecto Caerus, que “é oculta”. A mediação familiar é também uma vertente desenvolvida pelos técnicos. “Famílias que estão em momento de crise, qualquer coisa que causou desequilíbrio na família, nós intervimos, tentamos identificar quais as fragilidades e tentamos apostar nas potencialidades das famílias. Mais que tudo, colocar as potencialidades da família a trabalhar para si próprias”, defendeu, informando que este trabalho não é divulgado, mas que é possível de ser realizado, bastando entrar em contacto.

Nesta fase da COVID-19, e seguindo as mais recentes recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS) e medidas governamentais adotadas, o Caerus CLDS-4G está disponível para esclarecer todas as dúvidas existentes da população, tendo muito recentemente reforçado a sua presença nas redes sociais, bem como com o lançamento de um novo website, disponível em www.caerus.pt.

“PANDEMIA SOCIAL E ECONÓMICA VAI FAZER MUITAS VÍTIMAS” E NOVOS POBRES

Paula Abreu, in Dnotícias

O presidente da Assembleia Legislativa da Madeira está ciente de que “a Madeira irá atravessar, por ventura, a maior crise económica e social das nossas vidas”, que levará ao encerramento de muitas empresas, um aumento exponencial do desemprego e um crescimento da pobreza “como nunca vimos nos últimos anos”.

Numa visita, hoje, às instalações do Banco Alimentar Contra a Fome na Madeira, José Manuel Rodrigues considerou que as instituições de apoio social serão “a grande arma” que o setor público tem para acudir no combate à fome, até porque não tem dúvidas de que surgirão novos pobres. O presidente da ALM, que fez uma doação de cinco mil euros ao Banco Alimentar para apoiar as 50 outras instituições com que trabalha, reforçou o trabalho destes organismos.

Consciente de que há quem não possa ajudar porque está a atravessar por dificuldades, o responsável pelo parlamento regional fez um apelo aos madeirenses que podem dar o seu contributo, que o façam não só ao BA, como também a outras instituições com vista ao combate à exclusão social.

Isso “para que não venhamos a ter períodos conturbados nem conflitos na nossa paz social, que temos vindo a ter até este momento. Esta crise económica vai transformar-se numa pandemia social. Estamos a tentar vencer - e vamos vencer - a pandemia sanitária, mas a pandemia social e económica vai levar algum tempo a vencer, vai fazer muitas vítimas e é necessário minimizar os riscos e danos dessa pandemia”, alertou.

José Manuel Rodrigues apontou ainda o papel que os representantes do povo, nomeadamente os deputados, possam ter neste período, que “têm uma maior responsabilidade de estar perto das pessoas que estão a passar por dificuldades”, lembrando as alterações no regimento da assembleia. Haverá, nos próximos tempos, m ais trabalho parlamentar com base nos diplomas emanados do Governo Regional para fazer face à crise. Disse ainda que os próprios cofres públicos estão a ser afetados profundamente com as medidas que estão a ser tomadas em prol da população e economia.

Fátima Aveiro, responsável pelo Banco Alimentar, prestou um reconhecimento relativamente ao “passo gigantesco” dado no apoio à instituição, com a doação, por parte da Assembleia Legislativa madeirense, de cinco mil euros. Uma ajuda que espera que se reflicta na doação por parte de outras entidades ao Banco Alimentar Contra a Fome da Madeira, numa altura em que os pedidos de ajuda têm vindo a aumentar, por causa da covid-19.

“Não notamos a quebra de donativos, mas sim um crescimento significativo, porque as empresas que regularmente doam tiveram em conta o momento em que atravessamos”, disse Fátima Aveiro, não esquecendo ainda os hotéis e restaurantes que doaram os seus excedentes, numa altura em que tiveram de fechar portas. Os apoios institucionais, como da Segurança Social também foram referidos.

Esta responsável não tem dúvidas de que haverá um aumento no pedido de ajudas ao BA e a outras instituições, devido ao atual contexto de pandemia, que fará surgir novos pobres e atingirá também as famílias da classe média, que não estão habituadas a pedir ajuda alimentar. Por isso, Fátima Aveiro realçou que pedir ajuda não é uma vergonha.

Covid-19: Cáritas Diocesana do Funchal apoia famílias com Fundo de Emergência

in Ecclesia

Instituição ajuda população das freguesias de Santa Luzia, Santa Maria Maior e Sé, na capital madeirense

Funchal, Madeira, 05 mai 2020 (Ecclesia) – A Cáritas Diocesana do Funchal vai gerir o Fundo de Emergência para Apoio Social (FEAS) para “apoio financeiro” das famílias que “comprovadamente foram afetadas, em termos sociais e económicos”, pela pandemia de Covid-19.

Segundo informação divulgada pela Diocese do Funchal, o FEAS é um “apoio financeiro” ao nível “da alimentação e custos fixos, da medicação e consultas, da habitação e rendas e apoio aos estudantes”.

O fundo resulta de um acordo de cooperação com a Secretaria Regional de Inclusão Social e Cidadania (SRISC).

As famílias que pretendam recorrer ao apoio vão ter de comprovar a “perda de rendimentos auferidos pelo agregado familiar no mês anterior à declaração do estado de emergência” e perda de rendimento “tem de ser de, pelo menos, 20%”.

O FEAS foi dividido por várias instituições da Madeira que vão apoiar as famílias em zonas de atuação que foram atribuídas a cada uma; à Cáritas Diocesana do Funchal foram atribuídas as freguesias de Santa Luzia, Santa Maria Maior e Sé, do concelho do Funchal, que podem contatar a organização da Igreja Católica através dos números 291 743 331 e 912 006 575, e o e-mail feascaritasfunchal@gmail.com.

“O atendimento presencial só será realizado através de marcação prévia não devendo os interessados deslocarem-se à Instituição sem entrevista agendada, permitindo, manter-nos em linha com o Plano de Contingência da Cáritas Diocesana do Funchal, a gestão do número de pessoas no local e o registo de contactos próximos, procedimentos fundamentais neste contexto”, informa a Cáritas do Funchal, que disponibiliza o formulário de candidatura ao Fundo de Emergência para Apoio Social, bem como a legislação e documentação.

“A Madeira irá atravessar a maior crise económica e social das nossas vidas: Encerramento de muitas empresas, num aumento exponencial do desemprego e num crescimento da pobreza, talvez como nunca vimos nos últimos anos”, disse o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira durante uma visita Banco Alimentar Contra a Fome, esta segunda-feira.

José Manuel Rodrigues assinalou que as instituições de solidariedade social são “a grande arma” do setor público para “acudir às pessoas que vão cair na miséria e na fome” e alertou para o aparecimento de novas classes de pobres e considera que os representantes do povo “têm cada vez mais a responsabilidade de estar perto” das pessoas que “estão a passar por dificuldades”.

“Uma grande maioria dos madeirenses está a atravessar enormes dificuldades face à paralisação económica, mas sei também que alguns madeirenses estão em melhores condições económicas. Gostaria de apelar a esses que podem ajudar que ajudem o Banco Alimentar Contra a Fome, que ajudem as instituições particulares de solidariedade social que se dedicam ao combate à pobreza e à exclusão social”, desenvolveu o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira.

A região autónoma registou 86 casos confirmados de Covid-19 e está há 10 dias sem novos casos positivos.

CB/OC

COVID-19: Grândola vai distribuir mais de 400 máscaras à população idosa

in Diário Campanário

Em comunicado do Município de Grândola, no âmbito da disciplina “Cantinho dos Segredos” da Universidade Sénior de Grândola - USG, um grupo de alunas, com o apoio da professora de Artes Decorativas, confecionou, de forma voluntária, mais de 400 máscaras reutilizáveis para os alunos da USG e do Programa Viver Solidário, bem como para outros idosos que delas necessitem.

A distribuição das máscaras comunitárias já está a decorrer e tem sido realizada pela equipa técnica do Envelhecimento Ativo, junto dos participantes do Programa Viver Solidário, alunos da Universidade Sénior e beneficiários do Cartão Municipal do Idoso.

A iniciativa pretende assegurar uma maior proteção à população idosa nas deslocações essenciais de curta duração que tem de efetuar, ampliando a onda de solidariedade e de apoio aos grupos mais desprotegidos, no plano social, e contribuindo para minimizar os efeitos da COVID-19 e a sua propagação".

“Projeto Com_Vida” distribui máscaras sociais por utentes

in Rádio Pax

O “Projeto Com_Vida”, cujo investidor Social é a Câmara Municipal de Beja, vai distribuir “máscaras sociais” pelos 450 utentes do projeto a partir desta semana.

De acordo com Paulo Arsénio, Presidente da Câmara Municipal de Beja, “a Câmara apoia aquela iniciativa com cerca de 30 mil euros por ano”.

O “Com_Vida” é um projeto destinado a maiores de 65 anos, residentes no concelho de Beja, que visa a adoção de estilos de vida saudáveis, a promoção do envelhecimento ativo, da saúde e do bem-estar.

Numa publicação feita na rede social Facebook, o autarca explica que “a mesma entidade já distribuiu até agora perto de mil máscaras, com as mesmas características, por IPSS’s da área do Concelho, contribuíndo assim para uma proteção um pouco maior da faixa etária mais vulnerável ao vírus do momento”.

Até ao momento a Câmara de Beja já distribuiu “perto de mil e 500 viseiras por várias entidades, cinco mil máscaras cirúrgicas por IPSS’s do Concelho e vai distribuir mais mil assim que receber a próxima entrega de máscaras prevista para esta semana. Desta vez a entrega é feita a instituições sem valência de internamento e que ficaram excluídas da primeira entrega”, adiantou Paulo Arsénio.

“Algumas Juntas de Freguesia do Concelho optaram também por distribuir máscaras nos seus meios, predominantemente com populações idosas, tendo a Câmara Municipal de Beja transferido um apoio suplementar para cada uma no valor de três mil euros que pode ser utilizado para esse fim ou para outro que cada Junta entenda ser o mais útil, no âmbito do combate ao COVID-19.”

O presidente agradece ao “Projeto Com_Vida” o facto de durante o período de confinamento, “nunca se ter desligado de cada utente”.

Tavira distribui refeições por quem mais precisa e dá alojamento aos sem-abrigo

Por Sul Informação

Medidas de apoio tomadas em tempos de pandemia

A Câmara de Tavira reforçou o apoio social em tempos de pandemia da Covid-19, distribuindo refeições por quem mais precisa e dando alojamento aos sem-abrigo.

A autarquia implementou um serviço de refeições gratuitas, em regime de takeaway, em todas as freguesias. Este auxílio é realizado com a colaboração do Centro Social de Nossa Senhora das Dores (Santa Catarina da Fonte do Bispo), Centro Paroquial de Cachopo, Centro Social de Santo Estêvão, Casa do Povo da Luz e Centro Humanitário da Cruz Vermelha Portuguesa e resulta na distribuição de mais de 80 refeições diárias.

Na cidade de Tavira, são fornecidas, todos os dias, 113 refeições, numa cooperação com o Centro Humanitário da Cruz Vermelha.

A isto junta-se a criação de um voucher de Suplemento Essencial (VSE). 240 famílias beneficiam, agora, da entrega de um conjunto de senhas que lhes possibilita comprarem bens alimentares essenciais.

O apoio à Fundação Irene Rolo também foi reforçado. A autarquia atribuiu um apoio financeiro de €5.720 a esta instituição com o objetivo de manter o fornecimento das refeições diárias, no âmbito do projeto Chefe à Porta.

Além destes apoios já em vigor, a Câmara de Tavira prevê, caso a situação de carência alimentar persista ou evolua, avançar com a disponibilização diária de mais 500 refeições a quente em regime de takeaway,

Para o efeito, relembra, «terá de contar com a ajuda da Santa Casa da Misericórdia de Tavira, do Centro Humanitário de Tavira e da cantina da Escola EB1 da Horta do Carmo».

Quanto às pessoas em situação de sem-abrigo, a edilidade implementou um sistema de alojamento provisório de 20 camas, todas elas ocupadas neste momento, em quartos modulares/contentores, fornecendo alimentação diária e kits de higiene.

Durante este período, a Câmara realojou mais seis pessoas sem-abrigo em residências partilhadas.

Em termos de educação, a autarquia promoveu a abertura de duas cantinas escolares, também em regime de takeaway, para que os alunos possam usufruir de refeições diárias. 60 alunos do pré-escolar e do 1º ciclo do Ensino Básico do concelho procuraram este apoio.

A par desta medida, a Câmara Municipal assegura a abertura das escolas, uma vez por semana, para que as crianças tenham acesso ao serviço de fotocópias e impressões.

Ainda com o intuito de facilitar o estudo em casa, encontra-se em fase de procedimento a aquisição de 239 tablets, 68 computadores e 43 routers.

A ideia é distribuir o material pelos alunos mais carenciados.

4.5.20

Educação e a Europa durante a pandemia do Covid-19

Bruno Melim, in Dnotícias

Muitos tem sido os textos de opinião que no decorrer do último mês e meio se debruçaram sobre as medidas, os números e as respostas à pandemia do Covid-19. O que se pretende neste texto não é acrescentar mais visões sobre o tema. Antes o que se pretende é verificar como é que o tema alterou a abordagem a dois conceitos muito presentes na vida moderna.

Num curto espaço de tempo obrigámos a comunidade escolar a adaptar-se. Vimos os riscos e, muitas vezes, como a tecnologia pode ser um factor de exclusão social, contrariamente ao que muitos defendiam.

Apesar de um instrumento útil e fundamental, uma das conclusões a retirar deste tempo excepcional seja o facto de a tecnologia ser isso mesmo – um instrumento e não um conteúdo. A tecnologia é capaz de coisas virtuosas, mas se o utilizador não souber o que fazer com ela a facilidade do acesso de pouco ou nada vale.

A Escola por muito que possa ser modernizada dificilmente perderá a sua essência- um aluno inserido numa comunidade em que independentemente da sua origem luta, em igualdade de circunstâncias, por um futuro melhor. Escrevendo em ardósias, papel, computadores ou tablets, se queremos uma Geração competitiva com a Europa devemos rever os currículos nacionais ministrando aos nossos alunos outras ferramentas em matéria de inovação e tecnologia. Não interessa ter uma boa resposta no domínio das tecnologias apenas naqueles que frequentam o Ensino Superior. Se no currículo médio da escolaridade obrigatória de qualquer português estiverem asseguradas competências tecnológicas mais avançadas faremos desses jovens activos laborais mais capazes a longo prazo em diversas áreas.

No mês de Maio comemora-se o dia da Europa. A resposta à pandemia do Covid-19 será um grande desafio ao projecto europeu. Bem sabemos que nenhum projecto supranacional, até hoje, sobreviveu a uma crise mundial. A Sociedade das Nações caiu com a eclosão da II Guerra Mundial. Apesar de nos últimos 70 anos termos assistido à Guerra Fria, a uma pandemia mundial- a gripe A-, e à crise das dívidas soberanas a definição da vontade comum para ultrapassar esta crise será o derradeiro teste ao projecto europeu. Neste quadro só poderão surgir duas soluções: o incremento de mais competências na União dando mais um passo para uma solução federalista que aproxime, a longo prazo, a Europa de uma coisa próxima dos Estados Unidos da Europa; ou uma redução das competências supranacionais, tornando a Europa menos competente em algumas áreas e fortalecendo uma solução de Estados- Nação e de acordos pontuais sobre determinadas matérias.

A Europa como a conhecemos, provavelmente, mudará.

Apoio Maior, a acção de jovens de todo o país para ajudar em tempo de covid-19

Gonçalo Ramos e Mariana Durães, in Público on-line

O IPDJ lançou uma acção de voluntariado que reúne cerca de 150 jovens de diversas regiões do país. A ideia é prestar apoio à comunidade, através da realização de diversas tarefas, como a entrega de alimentos e medicamentos ou a divulgação de informações.

Em tempos de pandemia, vimos nascer uma onda de solidariedade, alicerçada em grupos de voluntários que usaram o tempo livre para ajudar os mais vulneráveis. Desde jovens que entregam compras porta a porta, municípios que criam bolsas de voluntariado para apoiar a comunidade a plataformas que reúnem aqueles que estão disponíveis a ajudar.

Agora, no Dia do Associativismo Jovem, que se celebra esta quinta-feira, 30 de Abril, também o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), em parceria com a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) promove um novo programa de voluntariado. Chama-se Apoio Maior e está inserido na campanha #SerJovemEmCasa, cuja ideia consiste numa série de acções de formação, debates de ideias e partilhas de informação.

A acção foi divulgada esta quarta-feira, 29 de Abril, no site oficial do Governo, e envolve cerca de 150 jovens entre os 18 e os 30 anos, distribuídos entre as regiões do Alentejo, Algarve, Lisboa e Vale do Tejo e Norte. Os voluntários levam a cabo tarefas como o apoio à distribuição de alimentos e medicamentos, aconselhamento de serviços públicos de apoio, esclarecimento de dúvidas à comunidade, divulgação telefónica e digital dos programas de apoio à saúde, entre outras de apoio logístico às juntas de freguesia.

E ainda a propósito do Dia do Associativismo Jovem, e para o celebrar, o IPDJ realiza esta quinta-feira, 30 de Abril, às 18h30, a conferência online Dia do Associativismo Jovem: Participação Juvenil em tempos de Covid. A conferência, que poderá ser acompanhada no site oficial do Governo, visa partilhar “boas práticas” e, para isso, convida “entidades que dinamizam respostas inovadoras aos desafios colocados pela pandemia”, lê-se no mesmo site.

A conferência deverá contar ainda com a presença do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, os presidentes do Conselho Nacional da Juventude e da Federação Nacional das Associações Juvenis.

Depois, e até domingo, 3 de Maio, o IPDJ vai partilhar vídeos enviados por associações juvenis, que irão falar sobre como as associações se estão a adaptar ao novo contexto e como os jovens estão a responder, ao mesmo tempo que tentarão prever o que irá mudar na vida dos jovens no pós-pandemia.

Liga-te, a plataforma que liga o voluntariado
Mas há mais a acontecer nesta Primavera de covid-19. São já mais de 70 organismos por todo o país os que adaptaram as suas actividades para fazer a diferença nas suas comunidades, e estão elencados pela plataforma Liga-te da Federação Nacional das Associações Juvenis (FNAJ).

“De um dia para o outro, criaram-se novos desafios para as associações juvenis”, constata Tiago Manuel Rego, presidente da FNAJ, ao P3. “Muitas tiveram de se reinventar — ou, pelo menos, adaptar as actividades e aquilo a que davam resposta.” Foi nesse âmbito que se procurou criar a plataforma Liga-te, “para mapear essas associações e pôr em evidência o que estão a fazer, desafiar outros jovens nas mesmas comunidades e que gostariam de fazer voluntariado”.

Das cerca de 1200 associações em Portugal, “mais de 70 estão no terreno a dar resposta”, contabiliza o presidente. Um momento de crise pandémica que “envolve mais de 680 jovens em todo o país, em todos os distritos”.

Os jovens das associações estão a contribuir das mais variadas formas, conta Tiago, desde a angariação de fundos para equipamentos de saúde e bens essenciais, passando pela cedência de espaços para profissionais de saúde, até à assistência, transporte e contacto à distância, em prol das populações mais vulneráveis. Registam-se, também, campanhas locais de combate ao isolamento dos idosos e de apoio aos sem-abrigo, entre outras. “Procura-se criar mecanismos de ajuda para combater problemas causados pela covid-19”, explica Tiago. “Estes jovens não são profissionais de saúde, nem bombeiros ou polícias, só procuram intervir no sector do apoio social, integrando a resposta com as autoridades locais.”

Necessidades no sector da educação também têm vindo a ser colmatadas pelos organismos em actividade, como o fornecimento de cópias em papel de exercícios escolares, a cedência de material tecnológico em excesso nas sedes e explicações por videochamada. “Tudo para que os jovens mais carenciados tenham também aqui alguma igualdade de acesso ao ensino à distância”, sublinha Tiago Manuel Rego.

“Tudo para manter os jovens o mais activos possível”
O apoio prestado pela plataforma Liga-te foca-se também “na saúde mental de quem está em casa há bastante tempo, nomeadamente os jovens” que foram dispensados das escolas. “Há associações a dar aulas de exercício físico, mas também cognitivo, tudo para manter os jovens o mais activos possível.” Entre formações e workshops online, tudo vale para “esbater a solidão” daqueles que estejam a viver “momentos de dificuldade maior”.

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A FNAJ não é alheia à luta que as associações travam nestes tempos de afastamento social e, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, desenvolveu, para a plataforma Liga-te, “recomendações para os jovens que estão em casa”. As preocupações são muitas, entre as quais “situações de imprevisibilidade sobre quando voltarem a estudar e a perda de empregos”. O “material de motivação”, diz Tiago, visa mostrar “como dar a volta por cima”.


Ainda com a Ordem dos Psicólogos, cuja “autoridade na área da saúde mental” o presidente da FNAJ frisa, foram desenvolvidas mais indicações para que as próprias associações juvenis possam concluir como “estimular as suas equipas de voluntários e directivas, para continuar as acções no terreno, que vão ao encontro das necessidades, objectivos e motivações dos jovens”.

Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

in Expresso

A perda repentina de poder de compra afeta um número considerável de famílias

pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

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"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

Como é que a pandemia está a afetar os sistemas alimentares?

por Inês Moreira Santos, in RTP

A pandemia da Covid-19 já infetou mais de três milhões de pessoas em todo o mundo, condicionando as populações e afetando as economias mundiais. Além dos efeitos epidemiológicos, sociais e económicos, esta crise global tem exposto a fragilidade dos sistemas alimentares e a vulnerabilidade das cadeias de valor globais.

O debate não é recente: a alimentação e a nutrição têm um impacto na nossa saúde. Mas num contexto de crise a nível mundial, como o atual, esta é uma questão que tem ganho mais relevo com a abordagem dos sistemas alimentares globais, a sua organização e o tipo de alimentos que disponibiliza às populações.

Os sistemas globais alimentares estão a ser visivelmente afetados com os efeitos da Covid-19 nas sociedades, e os mais carenciados são as principais vítimas desta pandemia. É necessário que haja respostas e atuação por parte dos governos, mas também da sociedade civil, para promover sistemas alimentares sustentáveis.

A pandemia fez abrandar a economia a nível mundial e, consequentemente, levou à redução de rendimentos e à perda de empregos, afetando o poder de compra, o acesso aos alimentos e até a disponibilidade alimentar no mercado. Isto "é um problema emergente", na opinião de Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, que participou no webinar "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade", na quinta-feira.

Na sessão online, organizada pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e Desenvolvimento, a nutricionista realçou que ainda antes da pandemia, já existiam desigualdades económicas e a nível alimentar em Portugal.

Cerca de 10,1 por cento das famílias portuguesas "experiementavam insegurança alimentar", isto é, dificuldade em "fornecer alimentos suficientes a toda a família, por falta de recursos financeiros". E pelo menos 2,6 por cento revelavam experimentar "insegurança alimentar moderada ou grave", tendo que alterar "hábitos alimentares habituais" e reduzir o consumo de alimentos.

Há ainda as famílias com rendimentos próximos ao salário mínimo nacional em que "a realidade de insegurança alimentar é significativamente mais elevada e mais severa". O que preocupa a nutricionista é que a pandemia vai agravar as desigualdades já existentes em Portugal.

"Este é que é o grande problema: o aumento da desigualdade que vai existir em Portugal relativamente à situação alimentar", lamentou Joana Sousa.
Segurança alimentar - direito a uma alimentação saudável

Existem medidas e apoios diversos - como por exemplo, o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas e a Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar - mas as medidas políticas em curso, em pleno contexto pandémico, de apoio à economia, não priorizam o "direito a uma alimentação saudável, equilibrada e adequeada".

Embora não existam medidas políticas delineadas para as questões de segurança alimentar em Portugal, Joana Sousa lembrou o papel fundamental e a mobilização da sociedade civil na promoção e no auxílio alimentar dos mais carenciados, principalmente nas últimas semanas.

"O impacto de atuação tem sido privilegiado, exclusivamente, pela sociedade civil no sentido de potenciar e promover o auxílio aos que estão mais desfavorecidos", enalteceu.

Urge o combate à pobreza extrema e à insegurança alimentar moderada e grave, situações já existentes em Portugal mas que "perante a conjuntura atual vai agravar esta realidade no país", relembra a nutricionista.

Neste sentido, e considerando o agravamento das desigualdades, a Ordem dos Nutricionistas privilegia a elaboração de uma Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que assegure uma abordagem holística daquilo que é o direito a uma alimentação adequada, "reforçando o envolvimento de todos e em todos os domínios, ou seja, na globalidade do sistema alimentar", como a melhoria das práticas ambientais, económicas e sociais na agricultura e nos sistemas alimentares gerais.

É necessário, acrescentou a nutricionista, uma "melhor rentabilização de recursos".

Os efeitos da pandemia na alimentação, no entanto, não passam apenas pelos impactos na economia e na disponibilidade de alimentos, mas também na saúde da população que pode ficar gravemente deteriorada após a pandemia.

Considerando o contexto pandémico, "o confinamento a que fomos sujeitos, a alteração de comportamentos – quer do ponto de vista de saúde alimentar, quer do ponto de gasto energético – e os indicadores de excesso moderado a elevado de peso" em Portugal, a nutricionista não tem dúvidas de que se vai "incrementar significativamente esta realidade, potenciando o fator de risco também associado à insegurança alimentar e à implicação na saúde".

A nutricionista alertou, assim, que as necessidades nutricionais e a insegurança alimentar são uma realidade e que se agravam quando associadas às "doenças crónicas não transmissíveis", como a obesidade ou a diabetes, por exemplo.

O foco neste momento é a prevenção e o tratamento da Covid-19, mas é necessário não descurar deste problema. Aliás, "a promoção da saúde é tão importante como o tratamento da doença".
"Está a haver um aumento significativo da prevalência destes indicadores a nível da população, dado as alterações de comportamentos que todos fomos obrigados a adotar, nestes últimos tempos".

É necessário, por isso, colmatar as desigualdades socioeconómicas, assim como as condições de acesso aos cuidados de saúde, a alimentação e nutrição. Uma das soluções apontadas pela convidada do webinar foi o aumento da ação de profissionais.

"É fundamental o papel de um nutricionista escolar, de nutricionistas na realidade de uma autarquia, do poder local, porque o que existe a nível nacional é muito escasso para o que é a real necessidade".

Para a Ordem dos Nutricionistas, é importante não desvalorizar "a alimentação da população em geral em tempo de isolamento".

A saúde mental, por exemplo, "tem um impacto relevante nos comportamentos alimentares e nas opões e escolhas alimentares, e com aquele sentimento da compensação", esclareceu Joana Sousa.

"A verdade é que podemos estar numa fase de alteração de padrão e comportamento alimentar com um risco elevado para a saúde da população em geral".

Recorde-se que pessoas portadoras de doenças crónicas, geralmente, são mais suscetíveis a infeções, sendo consideradas grupo de risco para a Covid-19.
Soluções para a economia e a alimentação

Mesmo em contexto pandémico, o problema não é apenas a falta de alimento, mas sim de nutrição adequada.

A criação de parcerias entre entidades - como pequenos agricultores e mercados locais, por exemplo - e a seleção preferencial de alimentos de produção local e de cadeia curta são algumas das medidas propostas, como critérios de qualidade alimentar, pela Ordem dos Nutricionistas, no sentido de erradicar a pobreza, colmatar as desigualdades socioeconómicas e promover uma alimentação saudável.

O aumento das desigualdades e dos casos de pobreza, anunciadas pela chegada da pandemia e o abrandamento económico, pode potenciar a vulnerabilidade das populações a doenças relacionadas com a alimentação e até a possíveis pandemias futuras.

O surto do novo coronavírus em Portugal "já está" a agravar as desigualdades socioeconómicas em Portugal, na opinião de Ana Vizinho da Rede Europeia Anti-pobreza - EAPN, também oradora da webinar, promovida no âmbito do projeto Alimentação é Direito, da ACTUAR.

"Num mês e meio, houve muita coisa que mudou e, no ponto de vista alimentar, mudou drasticamente", afirmou, acrescentando que "a insegurança alimentar e a carência alimentar aumentaram imenso".

Não se sabe ao certo quantas famílias em Portugal já estão a ser severamente afetadas, mas desde que foi lançada a campanha da Rede de Emergência Alimentar do Banco Alimentar já foram contabilizados "cerca de 55 mil pedidos a nível nacional".

No Banco Alimentar, "as equipas de apoio integraram, num mês e meio, mais 100 pessoas" e aumentaram a distribuição de mais refeições diárias.

Também o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) prevê que, até agosto, o número de pessoas carenciadas a necessitar de auxílio passe de 60 mil para 90 mil, considerando a "identificação das necessidades".

E estes casos recentes, que começam a aumentar, são "pessoas que estão em lay-off, pessoas que ficaram desempregadas", assim como pessoas sem "vínculos laborais" ou com trabalhos temporários que, numa situação de pandemia, "ficaram sem rendimento, praticamente, de um dia para o outro".

Mas as carências que levam mais pessoas a procurar ajuda não são apenas alimentares. "Estão a surgir várias necessidades do ponto de vista do fornecimento de água", tanto para consumo como para uso na higiene, esclareceu Ana Vizinho.

A verdade é que muitos estabelecimentos de restauração forneciam água, por exemplo, a populações que viviam na rua. Agora, com o encerramento destes, estas pessoas ficaram ainda mais carenciadas.

Contudo, a responsável da EAPN salientou que há entidades, como o Banco Alimentar e "as cantinas socias", que estão a tentar dar resposta a todos os casos identificados. Também as escolas estão a fornecer refeições, lembra, "para os alunos dos escalões mais baixos" até ao Ensino Secundário.

Elogiando a atuação de diversas autarquias, Ana Vizinho frisa que as câmaras têm assegurado a resposta aos mais carenciados através de "diferentes sistemas de apoio". "Uns fornecem cabazes, outros fornecem vales para compras".
Mais apoios "não significa mais comida"

A questão, no entanto, não é apenas a garantia da resposta às carências alimentares, mas também o tipo de produtos alimentares distribuídos.

Na POAPMC "existe uma lista de 25 produtos que são mensalmente distribuídos pelas famílias apoiadas e que estão pensados no ponto de vista da alimentação saudável, das necessidades nutricionais e da faixa etária". Neste momento, não estão a ser garantidos todos os produtos da lista, "há algumas falhas", mas "há preocupações que permanecem".

Já em bancos alimentares, em algumas regiões já só há, "praticamente, massa e arroz para dar". Com o aumento de pedidos e a necessidade de distribuir a mais famílias carenciadas, "a questão da variedade e da qualidade dos produtos acaba por ser uma questão se coloca a seguir, não no imediato", explica Ana Vizinho.

"As organizações estão, neste momento, sobretudo com muita dificuldade em conseguir chegar a todas as famílias".
"E existem ainda pessoas que não estão a pedir nem a receber apoio alimentar, mas a sua contração orçamental é também uma contração alimentar".
De uma coisa Ana Vizinho tem a certeza: com a pandemia surgiram mais pessoas a necessitar de apoio, mas também "surgiram algumas respostas que não existiam, embora isso não signifique que haja mais comida".

Há ainda uma questão que, a maioria destas entidades, não consegue garantir: a variedade, o as necessidades nutricionais e a opção de escolha.

Estas organizações "não permitem nem garantem a escolha de produtos". Isto é, "não há soberania na escolha". Apenas nos cabazes distribuídos pelas autarquias, que identificam quais os produtos de que as pessoas precisam e "quais gostaria de receber", ou quando distribuídos os vales de compras.

Mesmo antes da pandemia, não existia "propriamente uma política alimentar em Portugal, muito menos direcionada para as pessoas em situação de vulnerabilidade". Mas em situações de emergência, como a que vivemos, há "uma acentuação" destes problemas, mas a "uma escala muito maior".
Fraca nutrição potencia mais doenças

Os efeitos na economia e na alimentação também se fazem sentir noutras regiões do mundo. Na verdade a dificuldade de acesso aos produtos alimentares e a variedade nutricional são apenas uma pequena parte do problema, segundo a coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, Elizabetta Recine.

"O pico do iceberg deste processo são as doenças crónicas, degenerativas e a obesidade", afirmou na sua intervenção no webinar.

Neste momento, a preocupação "é que a abordagem sistémica se foque mais numa visão nutricional, na produção de nutrientes e não apenas na produção de comida".

"A pandemia atingiu o Brasil num momento em que se vivia um acelerado crescimento da pobreza e da extrema pobreza, com filas enormes nos programas de transferência de renda e a pandemia trouxe mais desemprego e subemprego. Ou seja, a Covid-19 chegou com um tecido social muito vulnerabilizado e uma política económica extremamente liberal".

Num contexto social como o brasileiro, com a chegada da pandemia impôs-se a necessidade de responder às carências de muitas famílias. Muitas crianças garantiam parte da sua alimentação na escola, mas foi necessário redefinir a agenda do programa de Segurança Alimentar e Nutricional, como "uma adaptação do Programa Nacional de Alimentação Escolar".

Nesse sentido, o orçamento destinado à alimentação escolar tem sido aplicado "na compra de alimentos para as famílias ou na entrega de vouchers para que as famílias possam adquirir alimentos", uma vez que as escolas estão encerradas em todo o país.

O maior problema, na sua opinião, é que "há uma tendência para o aumento das compras de alimentos não-saudáveis”, quando as famílias usam os vouchers nos grandes supermercados.

A Sociedade Civil brasileira, no entanto, propôs o investimento do Governo para a "intensificação da compra na Agricultura Familiar e que esta seja destina a diferentes programas públicos, como bancos alimentares".

A ACTUAR, com o projeto Alimentação é Direito - cofinanciado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação Bissaya Barreto - tem como objetivo criar literacia sobre o tema do direito a uma alimentação adequada em Portugal. A sessão "Emergências na saúde, alimentação e vulnerabilidade" está integrada num ciclo de "Conversas à Mesa" com temas adaptados ao contexto da pandemia da Covid-19.

Em Portugal, já existe um Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional que prevê a intrevenção de várias entidades, mas a sociedade civil "não participa formalmente", lamenta Joana Dias coordenadora da ACTUAR.

Por isso, e "numa tentativa de estimular o dialogo entre diferentes atores da sociedade civil envolvidos nestas temáticas", estes espaços de conversação visam a reflexão crítica e a "articulação entre os diferentes intervenientes".

REGIÃOComunidades ciganas de Braga e Barcelos recebem ‘kits’ de higiene

in O Minho

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal distribuiu 500 ‘kits’ de higiene angariados ao abrigo da campanha SOS comunidades ciganas, que visa apoiar famílias carenciadas no combate à pandemia da covid-19, foi hoje anunciado.

Braga e Barcelos fazem parte dos nove concelhos onde foram distribuídos os ‘kits’ compostos por máscaras, luvas, álcool, sabão, toalhitas desinfetantes e lixívia.

Elvas, Beja, Mourão, Guarda, Fundão, Viseu e Porto foram as restantes localidades abrangidas.

Durante a campanha, lançada em 09 de abril, foram, segundo a organização, “adquiridos 500 ‘kits’, abrangidas 126 famílias e angariados 9.500 euros”.

A ação vai prolongar-se até 31 de maio, prevendo a EAPN Portugal entregar na próxima semana “’kits’ de higiene a toda a população do Bairro das Pedreiras, em Beja, que conta com 800 pessoas, cerca de 150 famílias”.

A organização garante que o levantamento das necessidades está a ser feito pelos seus núcleos distritais e lembra que “algumas comunidades ciganas carecem não só de alimentos e de materiais de higiene, como de informação e, por isso, os ‘kits’ sãos acompanhados de um desdobrável informativo sobre a covid-19.

Em comunicado, o presidente da EAPN Portugal lembra que “as famílias que vivem em acampamentos e barracas, sem acesso a água, luz e a uma habitação digna, são as que mais necessitam de proteção face à pandemia”.

“São famílias que possuem apenas, como meio de subsistência, os rendimentos provenientes da realização das feiras e da venda ambulante e que enfrentam, além dos problemas de salubridade, a suspensão das suas atividades por período indeterminado”, refere Jardim Moreira.
Na sexta-feira, a campanha será relançada nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, contando com o apoio do cantor Salvador Sobral, vencedor do festival Eurovisão em 2017.

De acordo com os números mais recentes, divulgados em 2014, existem em Portugal 24.210 portugueses ciganos em território nacional.
A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 224 mil mortos e infetou cerca de 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Em Portugal, morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infetadas, e há 1.470 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.




Pandemia faz disparar insegurança alimentar e agrava risco de obesidade

Por Notícias ao Minuto

A pandemia de covid-19 está a ter um forte impacto na segurança alimentar dos portugueses, devido à falta de dinheiro para comprar alimentos, e a agravar o risco de obesidade, por causa do confinamento, destacaram hoje duas especialistas.

"O impacto da pandemia não se irá fazer sentir, já está a fazer-se sentir. No último mês e meio, a insegurança alimentar cresceu muito em Portugal", alertou Ana Vizinho, da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), durante uma sessão do ciclo virtual conversas à mesa, dedicada ao tema "Emergências em saúde, alimentação e vulnerabilidade".

Segundo a responsável, a resposta ao surto do novo coronavírus está a ser "um desafio", já que, de um dia para o outro, muitas pessoas perderam parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, como os trabalhadores em 'lay-off', os que ficaram desempregados e os que trabalhavam na economia informal.

"Houve um grande acréscimo de pedidos, uma vez que, além das pessoas que já eram apoiadas, agora há um novo perfil de pessoas a pedir apoio. E ainda há as que não estão a pedir apoios, mas que estão com um menor acesso à diversidade alimentar por falta de recursos financeiros", sublinhou Ana Vizinho.

Por seu turno, Joana Sousa, da Ordem dos Nutricionistas, apontou para o provável aumento do número de pessoas com doenças nutricionais crónicas e obesidade.

"Quase seis em cada 10 portugueses tem obesidade ou pré obesidade. Entre os idosos, o número cresce para oito em cada 10. E o impacto da situação de contingência provocada pela pandemia pode aumentar esta taxa, que já é muito elevada", sublinhou.

A perda repentina de poder de compra leva Joana Sousa a antecipar que 10% das famílias portuguesas passem por uma situação de insegurança alimentar.

"Há cada vez mais pessoas com dificuldades para comprar alimentos suficientes, e diversificados, para toda a família, por falta de recursos financeiros. A pandemia irá agravar as desigualdades em Portugal", vincou.

A especialista assinalou também que, nesta altura, a resposta política visa sobretudo o apoio à economia, deixando de lado as medidas necessárias para salvaguardar a segurança alimentar da população.

"Destaca-se a mobilização da sociedade civil para promover a ajuda alimentar aos mais carenciados", afirmou.

Na iniciativa promovida pela ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento e por parceiros do projeto Alimentação é Direito, também foi oradora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que fez o ponto de situação do impacto da pandemia no Brasil.

"Há uma franja grande da população brasileira, de milhões de pessoas, que viviam do trabalho individual, e que já estavam em situação de pobreza e ultra pobreza, e, agora, estão na miséria extrema e [a passar] fome", salientou, criticando as políticas seguidas nos últimos anos, no período pós-Dilma Rousseff, que deixaram muitas famílias "completamente desprotegidas".

De acordo com a perita, desde "o golpe parlamentar que levou à saída de Dilma e à entrada de Temer, e, depois, de Bolsonaro", a rede de apoio alimentar à população "sofreu um retrocesso profundo", devido ao desmantelamento das instituições e do fim do financiamento às equipas".

Por isso, considerou que "a pandemia chegou ao Brasil num momento em que o tecido social está muito vulnerabilizado e a sofrer os efeitos da política ultra liberal, que implica o 'desapoderamento' da política social".

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infetou quase 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Cerca de 908 mil doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 989 pessoas das 25.045 confirmadas como infetadas, e há 1.519 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.



Rede Anti-Pobreza distribuiu 500 kits higiene por comunidades ciganas

in Linhas de Elvas

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal distribuiu em nove concelhos 500 'kits' de higiene angariados ao abrigo da campanha SOS comunidades ciganas, que visa apoiar famílias carenciadas no combate à pandemia da covid-19.

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal distribuiu em nove concelhos 500 'kits' de higiene angariados ao abrigo da campanha SOS comunidades ciganas, que visa apoiar famílias carenciadas no combate à pandemia da covid-19.

Segundo a EAPN Portugal, os 'kits', compostos por máscaras, luvas, álcool, sabão, toalhitas desinfetantes e lixivia, foram entregues nos concelhos de Elvas, Beja, Mourão, Guarda, Fundão, Viseu, Braga, Barcelos e Porto.

Durante a campanha, lançada em 09 de abril, foram, segundo a organização, “adquiridos 500 'kits', abrangidas 126 famílias e angariados 9.500 euros”.

A ação vai prolongar-se até 31 de maio, prevendo a EAPN Portugal entregar na próxima semana “'kits' de higiene a toda a população do Bairro das Pedreiras, em Beja, que conta com 800 pessoas, cerca de 150 famílias”.

A organização garante que o levantamento das necessidades está a ser feito pelos seus núcleos distritais e lembra que “algumas comunidades ciganas carecem não só de alimentos e de materiais de higiene, como de informação e, por isso, os 'kits' sãos acompanhados de um desdobrável informativo sobre a covid-19.

Em comunicado, o presidente da EAPN Portugal lembra que “as famílias que vivem em acampamentos e barracas, sem acesso a água, luz e a uma habitação digna, são as que mais necessitam de proteção face à pandemia”, “São famílias que possuem apenas, como meio de subsistência, os rendimentos provenientes da realização das feiras e da venda ambulante e que enfrentam, além dos problemas de salubridade, a suspensão das suas atividades por período indeterminado”, refere Jardim Moreira.


Existem entre 30 a 40 pessoas a dormir nas ruas de Coimbra

Posted by Patricia Cruz Almeida, in Diário das Beiras

No início da crise pandémica, os sem-abrigo de Coimbra começaram a ser encaminhados para instituições de acolhimento, através da Segurança Social, e monitorizados diariamente em relação à covid-19.

Atualmente, há cerca de 35 pessoas a viver na rua em Coimbra, estima Jorge Alves, vereador da câmara com o pelouro da Ação Social e homem que conhece melhor do que ninguém a realidade dos sem-abrigo e das pessoas que vivem em situação de pobreza na cidade (Jorge Alves foi, durante 19 anos, presidente da Associação Integrar).

Em Coimbra, o Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) mantém no terreno as suas equipas, reforçadas por mais uma, criada pela autarquia, particularmente empenhadas em sensibilizar as pessoas sem-abrigo para a doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e meios de evitar o contágio.

O NPISA envolve 17 entidades, desde instituições particulares de solidariedade social a hospitais e outros serviços de saúde ou o Instituto do Emprego, abrangendo as mais diversas áreas.

No Pátio da Inquisição, o CMIS – Centro Municipal de Integração Social, cujas instalações são geridas pela CASA, articulando o uso do espaço com as restantes entidades, mantém-se em funcionamento sete dias por semana. Trata-se de um espaço de cariz “informal e de partilha que procura responder às necessidades de pessoas que apresentam um elevado nível de vulnerabilidade e carência económica”.

Contudo, quem recorre àquele espaço não é, na sua grande maioria sem-abrigo. Marco Ribeiro Henriques, coordenador do CASA-Coimbra, lembra que, à luz da estratégia nacional, sem-abrigo são pessoas que vivem numa situação que não seja condigna com aquilo que é uma habitação.

“Portanto, são pessoas que vivem em quartos não tenham serventia à cozinha, por exemplo. Pessoas que, por qualquer tipo de limitação – muitos deles até por força das dependências e das psicopatias – não tenham condições para cozinhar”, relembra.

De acordo com um levantamento feito no final do ano passado entre as várias instituições e a câmara, chegou-se à conclusão que a dormir na rua existem aproximadamente entre 30 a 40 pessoas. “Dormem em sítios diversos: desde barracas a fábricas. E, depois, temos cerca de 250 referenciadas que vêm aqui ao centro com regularidade”, adiantou o coordenador do centro.


1.º de Maio. O "antivírus" contra o desemprego, despedimentos e precariedade

Paula Sá, DN

A CGTP não cedeu à pandemia e a quem criticou as celebrações do Dia do Trabalhador na rua e comemorou o 1.ª de Maio na Alameda, apenas com sindicalistas e poucos curiosos. Sob o tradicional grito "a luta continua", a secretária-geral daquela central exigiu a proibição dos despedimentos e o fim dos cortes nos ordenados em regime de lay-off.

Acelebração foi rápida e milimetricamente programada, sem o habitual desfile, apenas com expressão na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Com passos largos, seis contados por todos, vários sindicalistas da CGTP colocavam bandeiras junto às faixas que delimitavam, de dois em dois metros, os sindicatos que ali estavam para celebrar o Dia do Trabalhador e os 50 anos da maior central sindical portuguesa. E assim se mantiveram, distanciados, de bandeiras vermelhas ao alto dispostos pelo relvado desde a Fonte Luminosa até ao topo, junto do Instituto Superior Técnico. O ex-secretário-geral da central sindical, Arménio Carlos, discreto a observar as movimentações foi enfático a defender a celebração na rua em tempo de pandemia. "Este é um momento de compromisso em relação ao futuro, De lançamento do antivírus contra o desemprego, os despedimentos e a precariedade!"

"Precariedade", cortada por um traço vermelho, foi mesmo uma das palavras escolhidas para a nova roupagem destes dias de sindicalismo, cravada nas máscaras que quase todos os representantes dos sindicatos afetos à central disciplinadamente usaram durante cerca de uma hora de celebração. "Hoje deem demonstração da nossa firmeza e disciplina para levar por diante a defesa dos trabalhadores", gritava o speaker da organização, pouco antes da líder da CGTP Isabel Camarinha apelar à proibição dos despedimentos.

"Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos"

Arménio Carlos, que a antecedeu no cargo, também garantia aos jornalistas, com poucos curiosos à espreita e sem vislumbre de pessoas nas varandas dos prédios da Alameda., que aquela era uma demonstração de força, porque a "vida não pode parar". Frase que o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, que ali também deu ar de sua graça como sempre, voltou a repetir. "Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos".

As exigências da CGTP
A nova secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, começou a falar já passava das 15:00, depois de ter cumprimentado o antecessor com um toque de cotovelo. "O tempo que vivemos comprova a importância fundamental do trabalho e dos trabalhadores. Estamos na rua, por direito e por dever, para com aqueles que representamos e que enfrentam uma brutal ofensiva, que estão sujeitos ao aproveitamento que alguns fazem do vírus para acentuar a exploração", disse.

Isabel Camarinha lançou o mote dos próximos tempos de luta da maior central sindical. Exigir a proibição dos despedimentos e a reversão dos que já aconteceram - e que estimou em 350 mil, a maioria com vínculos precários -, acabar com os cortes de ordenados dos trabalhadores em regime de lay-off e que seja o Orçamento do Estado a assumir o seu pagamento para a Segurança Social não ser descapitalizada. "Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições".


"Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições"

A sindicalista frisou bem que, apesar da pandemia, a CGTP não irá alterar o caderno de encargos que já tinha para este ano, em particular a exigência de aumentos de salários e do salário mínimo nacional; a revogação das normas "gravosas" da legislação laboral em particular da contratação coletiva, a luta pelas 35 horas em todos os setores; e apelar a alterações na política fiscal, pondo "o capital a pagar impostos para aumentar a receita e desonerar os rendimentos do trabalho". E "agora, mais do que nunca, ficou demonstrada a importância e o papel do Estado".

Sem ataques diretos ao governo, Isabel Camarinha apontou baterias para Bruxelas. "Estamos de novo reféns de uma 'bazuca' vinda de Bruxelas, mas nós sabemos que dali, as 'bazucas' são sempre rápidas a atacar os direitos, deixar o país mais dependente".

A perseguição há 50 anos
O sol e o calor não trouxeram muitos populares à celebração na rua. A PSP manteve-se discreta a meio da Alameda, sem necessidade de qualquer intervenção para manter o distanciamento social. O vasto relvado esteve sempre pontuado apenas pelos sindicalistas e as ruas laterais com um movimento reduzido e até quase alheio ao que ali se passava.

Encostada ao muro que ladeia a Alameda junto à Fonte Luminosa, Teresa veio como sempre ao 1.º de Maio. "Não podemos ter medo e temos de ajudar quem se bate pelo direito dos trabalhadores". Eduardo é mas idoso e assume que que "qualquer pretexto é bom para sair de casa". São dos poucos que ali resistem, numa celebração que se queria mesmo com poucas pessoas e muito distanciamento social, num fim de semana sujeito a apertadas normas de circulação.


"É preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos"

O líder do PCP quis dar a este 1.º de Maio na rua uma roupagem de "esperança". Jerónimo de Sousa insistiu que "é preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos".

E para contrariar os que criticaram a decisão da CGTP, afeta ao PCP, de ir para a rua no Dia do Trabalhador apesar de todas as restrições, Jerónimo de Sousa lembrou que a data se celebra hà 50 anos, ainda em ditadura. ""Para quem comemorou há 50 anos, no Rossio, com perseguição, com prisão e nunca desistiu de fazer o 1.º de Maio... " Estava tudo dito.

Seguir Paulo Pedroso defende recalibragem do sistema de proteção social em Portugal

in o Observador
O antigo ministro socialista considerou que o sistema de proteção social em Portugal tem de ser recalibrado para responder a fenómenos como a precariedade no trabalho e à pobreza de jovens famílias.

Esta posição foi defendida pelo sociólogo e antigo porta-voz socialista no lançamento da primeira de cerca de 20 conferências digitais que serão promovidas pelo PS para debater o pós-crise, numa intervenção em que também advertiu para a necessidade de se proceder “a uma reforma profunda da prestação de cuidados a idosos e do seu modelo de financiamento”.

Além de Paulo Pedroso, nesta conferência, que foi moderada pela secretária nacional do PS para o Trabalho e Economia Social, e presidente do Conselho Geral do Fundo para Inovação Social, Susana Ramos, participou também o professor universitário e investigador Carlos Farinha Rodrigues.

Paulo Pedroso, que abandonou o PS no início deste ano, defendeu no seu discurso que “Portugal faz parte dos países que tomaram medidas mais abrangentes de resposta à crise” da covid-19, mas também acrescentou que nessas mesmas respostas se notaram “fragilidades” inerentes ao seu modelo de proteção social.

“Se fomos capazes de proteger o emprego e as empresas com o ‘lay-off’ simplificado, se fomos capazes de aperfeiçoar um conjunto de mecanismos para os trabalhadores por conta de outrem – pessoas que têm carreira estável perante a Segurança Social -, esta crise também é reveladora de um dos problemas do nosso sistema de proteção social. Ao mesmo tempo que temos um mercado laboral com um peso significativo de trabalho atípico, não temos depois mecanismos eficazes de proteção das pessoas que se encontram em situação de precariedade. É um problema que já vem de trás”, sustentou.

Neste contexto, o antigo ministro socialista acentuou que os precários são os que menos se encontram protegidos pelo sistema de proteção social, o que teve já consequências em termos de recomposição etária da pobreza em Portugal.

“Tivermos sucesso no combate à pobreza dos idosos, mas temos os menores de 18 anos e as pessoas entre os 18 e os 25 anos a registarem um agravamento da pobreza”, apontou.

Para Paulo Pedroso, perante esta realidade em que os mais precários são os que menos beneficiam de proteção social, exige-se uma “recalibragem” do sistema – um sistema “que foi montado para proteger melhor quem tem um vínculo típico”.

“Este é um momento de recalibragem. Sabemos que os recursos são escassos e, portanto, nessa reconsideração das prioridades, temos de proteger os que ficam privados de atividade – e não se pense aqui apenas no desemprego do trabalhador por conta de outrem. Temos de pensar também como tornar mais eficazes os apoios sociais, sobretudo dirigido às famílias jovens. E a terceira nossa prioridade é olhar para o desenho da proteção social de cidadania”, defendeu.

No plano político, Paulo Pedroso disse que a pandemia de covid-19 teve como consequência a queda dos discursos contra os sistemas públicos da saúde.

“Os Estados Unidos são o exemplo do paradoxo. Têm maior riqueza e investigação no setor da saúde, mas uma parte significativa da população não tem acesso aos cuidados de saúde”, alegou.

Carlos Farinha Rodrigues, na sua intervenção, defendeu por sua vez que esta crise da covid-19 tem “um enorme potencial para agravar as desigualdades sociais”, sobretudo aprofundando as pré-existentes, e rejeitou a ideia de alguns setores de que o novo coronavírus “é democrático”.

“Em anteriores crises, a economia informal foi um escape. Desta vez, atingiu tudo”, apontou o professor universitário, antes de advertir para o aparecimento de “novas formas de desigualdade, por exemplo, no ensino”.

“Para muitos estudantes, houve uma quebra da sua relação com o sistema de ensino, ou por não disporem ainda de Internet, ou por ficarem sem acompanhamento escolar. É muito diferente ter ou não pais qualificados”, observou.

Carlos Farinha Rodrigues disse ainda registar-se “um enfraquecimento dos mecanismos de combate às desigualdades por parte dos serviços públicos”.

“Estes serviços têm agora maior dificuldade em acompanhar os cidadãos mais desprotegidos”, disse, antes de elogiar o atual Governo, mas também de deixar alguns recados ao executivo socialista.

“Nesta crise foi possível ver a diferença entre haver um Governo com uma perspetiva social ou um Governo meramente tecnocrático. Mas o programa de relançamento económico deste Governo vai ter de ser integrado, de forma a não deixar ninguém para trás. Tem de ter em conta o emprego, o rendimento e os direitos sociais. Isso exige políticas integradas, porque a recuperação não vai ser igual para todos os setores”, acrescentou.


Cuidar em tempo de pandemia

Claudio Carvalho, in Público on-line

Para que se promova e garanta uma cultura organizacional que valorize o cuidado centrado na pessoa, muito há para melhorar, partindo da parca fatia orçamental canalizada, a fraca avaliação da qualidade de serviços e bem-estar e a deficitária especialização em cuidados e empowerment e formação de equipas (principalmente num segmento profissional, como auxiliares de acção directa).

Várias fontes indicam-nos que Portugal está a passar por um cenário demográfico sem precedentes, onde enverga a quinta posição enquanto país mais envelhecido do mundo, precedido por Finlândia, Grécia, Itália e Japão. Partindo do pressuposto que o quantitativo de pessoas com mais de 65 anos está a aumentar e com maior propensão para a comorbilidade, quando o envelhecimento e um surto pandémico, como o do novo coronavírus, se combinam, tendem a ser vistos como extremamente problemáticos.

Considerando a heterogeneidade das pessoas mais velhas que vivem em resposta social como as Estruturas Residenciais Para Pessoas Idosas, torna-se imperativo a criação de estratégias geradoras de bem-estar, como a elaboração ou adaptação de espaços devidamente articulados, a criação e manutenção de uma equipa multidisciplinar, a valorização e respeito pela pessoa na garantia da sua autonomia e, sobretudo, a conservação ou geração de relacionamento e criação de laços empáticos. Um role de mecanismos que contemplam uma filosofia de cuidados defendida por Carl Rogers, intitulada person-centred care (abordagem centrada na pessoa). Ademais, a evidência científica aponta que, além de melhorarem a vida das pessoas institucionalizadas, as acções centradas na pessoa estão também associadas a efeitos positivos na equipa de profissionais, nos domínios da satisfação e capacidade de atendimento individualizado, redução de stress e burnout.

Mas como desenvolver esta abordagem em tempos de pandemia, quando aos nossos idosos residentes em resposta social é imputada a possibilidade de receberem visitas dos seus familiares, acrescendo a escassez do afecto e o peso da finitude? E onde muitos dos profissionais saem para trabalhar com medo e sem garantia alguma que não retomam infectados a suas casas, correndo o risco de infectar os seus familiares?

Tendo em conta que a abordagem centrada na pessoa se pode constituir como uma filosofia cuja implementação se torna exigente, soma-se ainda uma conjuntura social e económica sem precedentes que contribui para um exponencial incremento de lacunas e vicissitudes no seio das respostas afectas ao terceiro sector.

Ainda que o terceiro sector não tenha sido pensado em caso de pandemia, poder-se-á constatar que, mesmo de forma hercúlea e no limiar das suas capacidades financeiras, as instituições produzem esforços e sinergias na garantia de uma prestação de cuidados de qualidade, prevenindo, porventura, um cenário de contágio, como servem de exemplo:

- a capacidade de realizar novos testes à covid-19;
- a elaboração de planos de contingência, ainda que sem competências para tal;
- a consciencialização face à problemática do coronavírus;
- a confecção de máscaras de protecção individual com apoio de iniciativas da sociedade civil;
- a adaptação das estratégias de comunicação com familiares das pessoas institucionalizadas, através de chamadas telefónicas ou videochamada, por forma a esbater o peso da saudade;
- o incentivo à utilização de competências remanescentes fazendo com que a pessoa se sinta útil;
- a elaboração de actividades significativas no reconhecimento da personalidade e escolhas da pessoa;
- conservação das rotinas espirituais e religiosas, agora através da emissão de rádio ou televisão;
- e a capacidade de saber escutar e suportar a pessoa, tendo em conta o impacto que uma crise pandémica possa espoletar, como o medo, desconforto e nervosismo.

Para que, efectivamente, se promova e garanta uma cultura organizacional que valorize o cuidado centrado na pessoa, muito há para melhorar, partindo da parca fatia orçamental canalizada, a fraca avaliação da qualidade de serviços e bem-estar e a deficitária especialização em cuidados e empowerment e formação de equipas (principalmente num segmento profissional, como auxiliares de acção directa).

A própria gestão e insuficiência de recursos humanos e respectivos turnos, quer por força de eventuais baixas médicas ou por forçosa necessidade dos profissionais permanecerem em casa para cuidar dos seus filhos, ou o aconselhamento por parte do governo às instituições de poderem recorrer a bolsas de voluntariado face à carência de recursos humanos, o que não permite apenas observar a desvalorização na criação de valor daqueles que se formam em prestação de cuidados no seio do IEFP e outras entidades, como nos conduz a um pensamento perverso de que qualquer pessoa pode ou tem competências técnicas para cuidar dos nossos idosos, constituem também uma panóplia de desafios para uma melhor intervenção.


Cenários da Pobreza Global em 2020

Liliana Rodrigues (opinião), in Jnoticias

O impacto da COVID-19 já se sente, em termos económicos, nos países desenvolvidos.

O “The Economist” chamou a esta nova crise de “a próxima calamidade” e assumiu que negligenciámos as consequências desta doença nos países mais pobres. Enquanto na Europa e nos países desenvolvidos podemos fechar as escolas e garantir a segurança das nossas crianças, em muitas regiões africanas a escola é o único sítio onde elas recebem uma refeição. A Universidade das Nações Unidas (UNU), num estudo que publicou em Abril passado, refere que 500 milhões de pessoas, em todo o mundo, correm o risco de serem os novos pobres.

Os estragos desta doença nos países ricos são visíveis, mas serão muito maiores nos países subdesenvolvidos que vivem já em grandes dificuldades. Será uma questão de tempo até que o vírus se espalhe massivamente nos países africanos e na Índia: sem vacina ou cura e sem o distanciamento social, prevê-se que 80% dessas populações sejam infectadas. Daqui decorrerá que 4,4% fiquem gravemente doentes e que um terço precise de cuidados nos serviços intensivos. Estamos a falar de milhares de pessoas doentes que vivem já na pobreza, sem recursos e sem cuidados médicos.

Neste estudo, a UNU mostra que, independentemente dos cenários mais ou menos favoráveis, resultantes das medidas que se tomem na luta contra a COVID-19, a pobreza global irá aumentar, pela primeira vez desde 1990, e que em alguns países essa regressão poderá ser de 10 anos. No pior cenário, os impactos podem levar a que se atinjam os níveis de pobreza registados há 30 anos.

As estimativas do impacto da COVID-19 sobre a pobreza estão a ser realizadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI). A OIT refere que poderão existir entre 9 e 35 milhões de novos trabalhadores pobres (pessoas que sobrevivem com 3,20 dólares por dia) nos países em desenvolvimento em 2020. Para termos uma ideia, o recuo de 1% do PIB global levaria, segundo a IFPRI, 14 a 22 de milhões de pessoas para a pobreza, que teriam de sobreviver com 1,90 dólares por dia.

O desequilíbrio da oferta e da procura, a contracção da produção e a alteração das relações comerciais atingem o consumo das famílias. Se a diminuição do consumo for de 5% pode elevar a contagem de pobres no mundo num intervalo de 80 a 140 milhões de pessoas. Se essa diminuição for de 10%, a pobreza global terá um impacto na vida de 180 a 280 milhões de pessoas. O mesmo estudo indica, num outro quadro, que se a contracção no consumo médio for de 20%, o número de pobres irá situar-se entre os 420 a 580 milhões de cidadãos do nosso planeta.

Os efeitos desta doença são devastadores, mas serão piores se a solidariedade não for a palavra de ordem. Todos são chamados a dar o seu contributo. Os nossos olhos estão colocados sobre os cientistas da área da saúde. É a espera pela vacina e pela cura. No entanto, já padecemos de muitos efeitos secundários desta doença. Enquanto a vacina não chega, seria importante cada governo de cada país ou região chamar a si uma equipa multidisciplinar (médicos, enfermeiros, empresários, especialistas das ciências naturais, sociais e humanas, etc.) que, numa lógica de trabalho colaborativo, os aconselhe, os oriente e lhes dê todos os dias os cenários possíveis de actuação, de forma a garantir que as decisões sobre o futuro de todos nós sejam tomadas de forma inteligente e que as responsabilidades sejam partilhadas.

#fiqueemcasa #useamascara

Estamos juntos.

Carta aberta de uma cientista otimista às novas gerações

Tiago Rodrigues, in DN

Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues escreveu a pedido do DN uma carta aberta às gerações mais velhas, às quais chama de tesouro inestimável da nossa sociedade.

Espero que seja verdade o que escreveu o dramaturgo russo Anton Tchékhov: só abrimos bem os olhos quando somos infelizes. Se assim for, teremos a capacidade coletiva de aprender durante a travessia da tempestade que é esta pandemia, olhando melhor para o que é mais importante. Seria bom que os dias difíceis que estamos a viver nos tornassem mais sábios e servissem para compreendermos que as gerações mais velhas são um dos tesouros inestimáveis da nossa sociedade. Seria fundamental que compreendêssemos que aqueles que, nas últimas semanas, nos habituámos a nomear como um grupo de risco são, na verdade, um grupo que não podemos arriscar perder. É a vós, os mais velhos de entre nós, que endereço estas palavras e a minha esperança.

Espero que neste tempo de distanciamento social tenhamos a capacidade de sentir (de sofrer, mesmo) a falta que nos fazem e a falta que vos fazemos. Ao abandonarmos de modo gradual o confinamento a que temos estado sujeitos, o regresso à vida não deveria significar voltarmos à normalidade de antes. Devíamos aproveitar para trilhar convosco um caminho que nos dirija a uma sociedade em que envelhecer não seja sinónimo de solidão, negligência, abandono. Não apenas por vós, mas por nós e pelos vindouros. Devíamos, com a força das coisas inadiáveis, compreender que o que fizermos por vós hoje é o que podemos aspirar a que façam por nós no futuro. Devíamos saber cuidar de vós.

Espero que nos ajudem a entender que não faz sentido falar do "vosso tempo" porque quem está vivo está sempre no seu tempo. Agora que nos vai ser exigido um esforço extraordinário para regenerar as nossas comunidades, devíamos encontrar maneira de contar com a vossa experiência para levar a cabo essa tarefa. Devíamos apelar com humildade à vossa participação na família, no trabalho, no lazer. A escritora inglesa Virginia Woolf escreveu que, com a idade, passamos a apreciar melhor a primavera. Em todos os setores da nossa sociedade, precisamos de gente que saiba apreciar a primavera. Precisamos de avós, biológicos ou não, mas sobretudo afetivos e culturais.

Como nos diz o psiquiatra Daniel Sampaio, "ser avô é uma paixão" e as nossas crianças precisam mais do que nunca dessas relações em que a empatia e o prazer são soberanos, em que o exercício da memória e o fenómeno de transmissão asseguram uma educação com valores. Também em muitos setores da sociedade devíamos saber pôr de lado a nossa arrogância e a nossa obsessão pela produção e pelo consumo desenfreados. O poeta e cardeal José Tolentino de Mendonça escreveu recentemente que "a velhice é um laboratório de vida presente e não só passada, uma escola onde se aprofunda o significado da esperança e do amor". Nas empresas, nas escolas, nos hospitais, nos teatros, nos estádios, não podemos dar-nos ao luxo de continuar a dispensar a vossa proverbial sabedoria. Devíamos deixar-vos cuidar de nós.

Espero que sejamos capazes de tratar-vos como iguais, usando de compaixão, mas não de condescendência. Isso significa termos consciência de que entre vós estão muitas pessoas que contribuíram para as profundas desigualdades sociais e a precariedade laboral com que ainda se debate a nossa sociedade, flagelos como a violência doméstica e o racismo sistémico, ou a crise climática em que está mergulhado o planeta. No entanto, entre vós estão também as pessoas que construíram a democracia em que vivemos; que conquistaram a liberdade de que agora beneficiamos; que foram perseguidas, presas e torturadas pela ditadura fascista em nome dos direitos que hoje nos são garantidos; que construíram o Sistema Nacional de Saúde que hoje vem em nosso socorro; que se bateram pela igualdade e pela justiça; que pesquisaram e puseram a ciência ao serviço do nosso bem-estar; que trabalharam a terra e desenvolveram as indústrias; que criaram as obras artísticas a que hoje chamamos o nosso património cultural; que se sacrificaram, com um sorriso, em nome das gerações futuras, migrando, trabalhando, educando, pesquisando, semeando, defendendo, criando, cuidando de um futuro que agora é o nosso presente. Estar na vossa presença é estar em face da substância das pessoas e do povo que somos. Devíamos cuidar melhor do que fizeram por nós.

Espero que vos saibamos amar da maneira que merecem, com esse amor que é a forma mais perfeita de atenção e respeito. Sei que somos inúmeros, os que esperamos que este amor seja cada vez mais possível. Mas não basta esperarmos. Temos de fazer melhor do que isso. "Podes esperar tudo da vida, mas nunca fiques à espera", dizia-me a minha avó Ana, vendo-me empoleirado durante tardes inteiras na cerejeira da minha infância, distraído da tarefa que me tinha sido atribuída de colher as cerejas maduras. Por isso, aqui vai a pergunta que tinha para vos fazer: se pedirmos com educação, ensinam-nos a apreciar a primavera?

Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II