7.8.20

Guia sobre os apoios para criar postos de trabalho

Luisa Pinto, in Público on-line

O programa +CO3SO é o primeiro instrumento de apoio directo à criação de emprego lançado após a calamidade trazida pela covid-19. Foi por causa da pandemia que o programa deixou de ser apenas destinado aos territórios de baixa densidade, para chegar a todo o território de Portugal Continental.

O programa +CO3SO está dividido em três gavetas: +CO3SO Emprego Interior, +CO3SO Emprego Urbano e +CO3SO Empreendedorismo Social. Arrancou numa primeira fase com 90 milhões de euros, divididos pelas centenas de aviso que foram abertos pelos Grupos de Acção Local criados em todo o território de Portugal Continental.

O que apoia o +CO3SO?
A criação de novos postos de trabalho, no litoral ou no interior, em qualquer actividade que tenha sido identificada nas estratégias de desenvolvimento local de cada um dos territórios - excluindo sempre as actividades relacionadas com o sector primário (como a agricultura e a pesca) e privilegiando as actividades relacionadas com o empreendedorismo social, que merecem avisos autónomos.

Quem pode apresentar uma candidatura?
Empresas que já existam ou que estejam a ser formadas. O financiamento está disponível para micro, pequenas e médias empresas (PME) e para Entidades da Economia Social, como Instituições Particulares de Solidariedade Social, Associações e Fundações, Cooperativas, Associações Mutualistas, Misericórdias. Também podem incluir candidaturas em nome individual para a criação do próprio emprego. Este é, aliás, o único caso em que os candidatos não precisam de estar inscritos previamente no centro de emprego. Nos outros casos, os postos de trabalho a criar devem ser destinados a pessoas que estejam inscritas no centro de emprego ou que não tenham registado nenhuma actividade na Segurança Social.

Onde estão publicados os concursos?
Actualmente há mais de uma centena de avisos publicados no portal do Portugal 2020, mas ainda podem vir a ser mais. Cada aviso tem um regulamento e uma dotação financeira diferente e remetem sempre para as portarias de Fevereiro (52-2020), que cria o +CO3SO Emprego, e de Maio, que introduziu as primeiras alterações (128-2020).

Que apoios são dados?
O programa prevê a comparticipação integral dos custos directos com os postos de trabalho criados, incluindo remunerações e despesas contributivas durante 36 meses, com uma taxa fixa de 40% para financiar as despesas associadas, sem que tenham de ser justificadas. Há vários apoios e majorações previstas mas a título de exemplo, sempre que uma empresa crie até três novos postos de trabalho, o apoio por cada trabalhador contratado será de 1900 euros por mês. Ao fim de 36 meses, o apoio totaliza 68.421 euros. Se esses postos de trabalho forem criados nos territórios do Interior, no âmbito de projectos de empreendedorismo social, derem emprego a pessoas com condições especiais (beneficiários do rendimento social de inserção, vítimas de violência doméstica, refugiados, pessoas que integrem famílias monoparentais, pessoas em situação de sem abrigo, vítimas de tráfico de seres humanos, entre outros), ou acolherem investimentos da diáspora, o apoio à empresa por trabalhador contratado é de 2280 euros por mês, totalizando 82.105 euros ao fim de 36 meses.

Como devem ser os contratos de trabalho a apoiar?
Têm de ser “sem termo” e para serem elegíveis só podem ser celebrados após a data de candidatura. O programa não apoia a contratação de trabalhadores que nos 12 meses anteriores à data da candidatura tenham sido sócios gerentes ou tenham tido um vínculo de trabalho com a empresa beneficiária ou com alguma empresa controlada por esta ou pelos seus proprietários.

O programa pretende valorizar postos de trabalho destinados a pessoas com maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Como?
Nos regulamentos está previsto que devem ser valorizadas as candidaturas que apresentem criação de postos de trabalho a preencher por desempregados inscritos há pelo menos seis meses no IEFP, ou, no caso de serem menores de 29 anos ou maiores de 45, que estejam inscritos no centro de emprego há pelo menos dois meses. No caso de serem beneficiários de fundo de desemprego ou rendimento social de inserção, de se tratar de uma pessoa com deficiência e incapacidade, que integre família monoparental; ou cujo cônjuge ou pessoa com quem viva em união de facto se encontre igualmente em situação de desemprego, inscrito no IEFP, não importa se estão ou não inscritos no centro de emprego. O mesmo se passa com as vítimas de violência doméstica, refugiados, ex-reclusos, toxicodependente em processo de recuperação, vítima de tráfico de seres humanos ou sem abrigo.

Que critérios tem de cumprir a empresa que vai criar os postos de trabalho para se candidatar aos apoios?
Tem de estar legalmente constituída, dispor de contabilidade organizada, ter situação contributiva regularizada perante as Finanças e a Segurança Social. E também, em matéria de reposições de verbas por terem já beneficiado de fundos estruturais, não terem salários em atraso. No caso de ser uma PME, deverá ter certificação electrónica passada pelo IAPMEI.

O programa prevê criação do próprio posto de trabalho?
Sim, e é o único caso em que não é obrigatório o candidato estar inscrito no centro de emprego.

E pode apoiar pessoas que já estão empregadas?
Sim. Quem tem um emprego por conta de outrem pode despedir-se para criar uma sociedade unipessoal ou registar-se como Empresário em Nome Individual, com Contabilidade Organizada nas Finanças. Mas só pode iniciar actividade depois de apresentar a candidatura. Esta regra também pode permitir evitar que os candidatos que estejam a receber prestações de desemprego percam esse apoio no caso da candidatura não ser aprovada: só iniciam a actividade, ou só assinam os contratos de trabalho, depois de a candidatura ser aprovada.

Há regras específicas nos concursos para o Empreendedorismo Social?
O regulamento impede que sejam dados apoios à criação de postos de trabalho que já estejam a ser financiadas através de protocolos com a Segurança Social - isso impede, por exemplo, uma candidatura para aumentar o número de auxiliares de limpeza para os utentes que já estão protocolados com a Segurança Social. Mas se o posto de trabalho a criar tiver um carácter inovador face ao que já estava protocolado, por exemplo, para contratar um psicólogo, mais um enfermeiro ou um terapeuta ocupacional, já poderá conseguir os apoios.

Como são feitos os pagamentos? Mensalmente?
O que está previsto é que os beneficiários podem receber um adiantamento de 15% do valor total aprovado. Os pagamentos serão feitos mediante comprovativo de despesa - isto é, recibo de salário pago, acrescido do valor correspondente à aplicação da taxa fixa de 40% sobre as despesas efectuadas e pagas associadas à criação dos postos de trabalho. Mas a periodicidade dos pagamentos não está definida. Apenas se define que a soma do adiantamento e dos pagamentos intermédios de reembolso não deve exceder o valor máximo global fixado pela autoridade de gestão, o qual não pode ser superior a 85% do montante total aprovado.

O empresário pode despedir o colaborador antes que termine o prazo de três anos previsto para o apoio?
Pode, mas deverá contratar outro. No final do programa deverá haver um saldo líquido positivo relativamente aos postos de trabalho criados.

Mais de 60% dos "ausentes" do trabalho devido à pandemia são mulheres

Maria Caetano, in DN

Perto de 644 mil trabalhadores estiveram sem teletrabalho ou idas ao emprego durante o segundo trimestre, segundo o INE.

A maioria dos trabalhadores que ficaram sem opção de trabalho remoto ou presencial nos primeiros meses agudos da pandemia foram mulheres, representando quase dois terços de perto de 644 mil ausentes do trabalho contabilizados pelo Instituto Nacional de Estatística no segundo trimestre.

No último inquérito ao emprego, relativo ao segundo trimestre e publicado ontem, o INE fez as contas ao número daqueles que tiveram opção de trabalhar em casa, mas também àqueles que - estando em lay-off ou por outros motivos - mantiveram vínculos de emprego, mas sem que pudessem exercer funções presencial ou remotamente.

Se o teletrabalho se generalizou, com cerca de 1,1 milhões de indivíduos em trabalho a partir de casa nos meses de abril a junho, uma boa parte da população empregada não teve essa opção ou sequer trabalho presencial. Foi assim para 643,8 mil trabalhadores, dos quais 401,7 mil mulheres, mostram os dados do INE. Ao certo, 62%.

Os resultados do inquérito especial apontam a situação da pandemia como grandemente responsável pelo afastamento dos locais de trabalho. Foram 491,5 mil os que não trabalharam explicitamente devido à covid-19, contra 152,3 mil que apontaram outras razões.

O relatório do INE não oferece uma análise detalhada para a prevalência das mulheres entre os ausentes do trabalho - sem dimensão igual, aliás, na realidade do teletrabalho, já que as mulheres foram 54% dos que mantiveram trabalho remoto.

Mas alguns fatores poderão ajudar a explicar este dado. Desde logo, a forte incidência do lay-off em setores com preponderância de mulheres entre os trabalhadores, como nas indústrias transformadoras, que registaram cerca de 113 mil ausentes no segundo trimestre. Por outro lado, foram as mulheres que mais se responsabilizaram pelos filhos menores devido ao encerramento das escolas. Segundo os dados da Segurança Social, houve até junho 162,7 mil mulheres a ficar em casa com apoios à família para poder cuidar dos menores, contra apenas 37,8 mil homens.

6.8.20

O teletrabalho significa mesmo dias mais longos e mais reuniões

Jena McGregor/Washington Post, in Publico on-line

Aqueles que sentem que com o confinamento estão a trabalhar mais podem agora citar os dados de um novo estudo do National Bureau of Economic Research. Os dias de trabalho estão mais longos, mas há assimetrias entre a Europa e os Estados Unidos.

A enorme mudança global para o trabalho remoto desde o início da pandemia tem trazido algumas vantagens: mais flexibilidade, menos deslocações e calças mais confortáveis. Mas aqueles que acham que esta grande experiência de trabalhar em casa também traz bastantes desvantagens – dias mais longos, mais reuniões e mais emails para responder – são agora apoiados pelos dados de 3,1 milhões de trabalhadores.

Em média, o dia de trabalho estendeu-se por mais 48,5 minutos nas semanas a seguir ao confinamento e o número de reuniões aumentou 13%, concluiu um estudo publicado na segunda-feira pelo centro de investigação norte-americano​ National Bureau of Economic Research.

O estudo, que examinou os dados anónimos de emails e calendários de mais de três milhões de utilizadores de uma plataforma online gerida por uma empresa de serviços tecnológicos​ desconhecida, também mostrou que houve um aumento significativo de emails internos e da dimensão das reuniões.

Alguém que esteja a trabalhar em casa durante uma crise na saúde – especialmente aqueles que estão simultaneamente a cuidar de crianças – não vai ficar surpreendido. Apesar de entrevistas isoladas ou inquéritos mais pequenos já apontarem para resultados semelhantes, o que esta nova análise acrescenta “é documentação à escala do padrão geral”, considera Jeffrey Polzer, professor na Harvard Business School e co-autor do estudo.

A investigação, que analisou os dados de mais de 21 mil empresas em 16 grandes áreas metropolitanas em todo o mundo durante as oito semanas anteriores e posteriores ao confinamento, apenas incluiu trabalhadores que utilizam o produto da empresa de tecnologia envolvida. E apesar de a amostra ser grande, os dados representam apenas uma fracção da força de trabalho.

Mas oferecem uma visão de como os hábitos de trabalho e os estilos de comunicação mudaram para muitos trabalhadores que tentaram adaptar-se ao teletrabalho em massa, especialmente enquanto a economia piorava, os layoffs aumentavam e as ansiedades profissionais explodiam.

“As pessoas estão com medo – medo pelo seu trabalho e pela economia. Quero garantir que os gerentes sabem que estou constantemente a responder a emails e mensagens e que estou sempre no Slack”, disse Cali Williams Yost, fundadora da empresa de consultoria laboral Flex Strategy Group. Este sentimento é agravado pela dificuldade das chefias em criar o ambiente certo para o teletrabalho: “É uma mistura tóxica de burnout e sobrecarga”.

Para muitos trabalhadores, um ponto positivo do estudo é que o total de tempo agendado para reuniões diminuiu. Houve uma redução de 11,5%, ou quase 20 minutos por dia, de acordo com os dados, e, em média, as reuniões foram programadas para serem mais curtas (não é claro quando tempo realmente demoraram). Com o tempo, o número de emails também voltou aos valores pré-confinamento.

O estudo encontrou algumas diferenças entre os trabalhadores na América e na Europa. Em muitas cidades europeias, por exemplo, a redução no tempo das reuniões foi maior, enquanto a diminuição nas cidades norte-americanas foi relativamente menor. E enquanto o dia de trabalho se manteve longo nalgumas cidades, incluindo Nova Iorque, voltou ao normal noutras no período do pós-confinamento.

Ter uma jornada de trabalho mais longa não quer necessariamente dizer que as pessoas trabalharam mais horas nesse dia, realça, com cuidado, Polzer. Analisar o primeiro e o último email e o calendário não tem em conta aqueles que tiveram de cuidar de pais idosos, gerir interrupções de crianças em casa ou que simplesmente foram passear o cão pela terceira vez nesse dia.

Mas um dia passado em reuniões mais curtas ou que se estende até à noite – mesmo se o número total de horas de trabalho não for maior – pode ter desvantagens também. “É trabalhar em casa, viver no trabalho ou ambos?”, questiona Polzer. “Ao tentarmos gerir o nosso trabalho no ambiente de casa, é muito difícil desligarmo-nos do trabalho. Sempre foi esse o caso desde que os nossos telemóveis nos seguem para casa, mas agora este fenómeno cresceu.”

Polzer afirma que os investigadores não dividiram os dados por género para perceberem se os dias de trabalho se alongaram mais para os homens ou para as mulheres. Nos primeiros meses de pandemia, muitos ficaram preocupados por as carreiras das mulheres sofrerem mais a longo prazo, visto que escolas e creches estavam fechadas e, desproporcionalmente, eram as mulheres que perdiam os empregos ou eram obrigadas a fazer escolhas entre as carreiras ou cuidar dos filhos.

Ao longo do tempo, diz Polzer, a tendência para dias mais longos de trabalho não vai ser sustentável. “As organizações estão a tentar perceber a capacidade para lidar com este tipo de trabalho”, afirma. “As pessoas vão começar a sofrer de burnout se não repensarmos como estão a passar o seu tempo.”

Precários na linha da frente da perda de emprego durante a pandemia

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Mais afastados de medidas de protecção como o layoff simplificado, os trabalhadores com contratos a prazo ou vínculos ainda mais frágeis foram os que em maior número perderam o emprego nos últimos meses.

Com contratos a prazo ou simplesmente a “recibos verdes”, os trabalhadores com uma situação contratual mais precária, com um nível de escolaridade mais baixo e predominantemente a trabalhar nos serviços foram aqueles que, nos primeiros meses da pandemia, perderam os seus empregos. Entre os trabalhadores com contratos mais estáveis, a medida do layoff simplificado evitou para já uma perda de emprego, que no futuro se pode tornar inevitável.

É uma das características habituais do mundo do emprego e o do trabalho: aqueles que vivem uma situação de maior precariedade no seu emprego são normalmente os que mais sofrem quando chega uma crise – mas nunca isso terá sido tão evidente como agora.

Os dados do inquérito de emprego publicados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística revelam que, entre o final do ano passado e o segundo trimestre deste ano, a perda de empregos registada em Portugal centrou-se naqueles que o faziam com um contrato a termo, com outro tipo de relação contratual de carácter também muito frágil ou registando-se como trabalhadores por conta própria.

Entre o final do ano passado e o segundo trimestre deste ano o mercado perdeu, diz o INE, cerca de 176 mil empregos, isto é, 3,6% do total. Só durante o segundo trimestre, a perda foi de 135 mil empregos. Mas quando se olha para os contratos sem termo, aqueles que asseguram aos trabalhadores uma maior estabilidade, aquilo que aconteceu durante os últimos seis meses foi um aumento de cerca de 12 mil empregos (uma ligeira variação positiva de 0,5%).

Em contrapartida, perderam-se cerca de 128 mil empregos com contratos a prazo, uma variação negativa de 18,1%, e cerca de 33 mil empregos em que o contrato é de outro tipo, o que corresponde a uma perda de 26,2%.

De igual modo, no que diz respeito aos trabalhadores classificados como estando por conta própria, a perda no número de empregos foi de 27 mil, ou 3,3%.

Olhando para outros indicadores, fica-se ainda com um perfil mais completo daqueles que já perderam o emprego durante esta crise. Primeiro, trabalham na sua maioria no sector dos serviços, em que se perderam 144 mil empregos, sendo 51 mil destes relativos ao alojamento e restauração e 50 mil ao comércio por grosso ou a retalho.

Depois, têm um nível de escolaridade tendencialmente mais baixo. Nos últimos seis meses, passou a haver menos 183 mil pessoas empregadas que estudaram até ao ensino básico, enquanto com o ensino secundário há menos 42 mil empregos e com o ensino superior mais 49 mil empregos.

No auge da crise anterior, o número de empregos de maior precariedade também diminuiu, mas menos do que os empregos com contrato sem termo, algo que deverá ter acontecido porque, com os sectores associados ao turismo a serem, desde cedo, uma tábua de salvação para quem perdia o emprego, vários trabalhos temporários e mais informais foram surgindo. Agora, o sector do turismo é, pelo contrário, um dos mais afectados pela pandemia.

O impacto do layoff simplificado

A explicação para a diferença de impacto entre trabalhadores mais e menos precários nesta fase inicial da crise é a habitual: tendo uma situação contratual mais frágil, os trabalhadores com contrato a prazo ou outra ligação ainda mais precária são os primeiros sacrificados pelas empresas, quando estas reduzem o nível de actividade. Porém, desta vez há uma explicação adicional. É que, com a introdução da medida do layoff simplificado, foi possível a muitas empresas e trabalhadores (maioritariamente com um contrato sem termo) manterem o vínculo laboral.

Para esses trabalhadores, alvo do layoff e que deixaram de trabalhar total ou parcialmente, o impacto da crise foi sentido por via de uma perda de rendimento. O emprego, esse, não foi ainda perdido.

Nos dados publicados esta quarta-feira, o INE inclui diversa informação que permite perceber a dimensão dos efeitos do layoff simplificado no mercado de trabalho português.

A mais impressionante é a que revela que, no que diz respeito ao segundo trimestre deste ano, apesar de a perda de empregos ser de 2,8%, a diminuição das horas trabalhadas pelos portugueses ascendeu 22,7%, um resultado nunca antes visto.

Esta queda tão acentuada leva em conta o efeito da colocação em layoff de muitos milhares de trabalhadores durante este período. O INE assinala que “a redução do volume de horas trabalhadas está sobretudo associada ao aumento da população empregada ausente do trabalho”, um acréscimo que correspondeu a 1,08 milhões de pessoas ou 22,8% da população empregada, um valor que é “mais do dobro da observada no trimestre anterior e quase o quádruplo da existente no trimestre homólogo”.

E especifica ainda que, deste aumento de 1,08 milhões de pessoas, a maior parte ficou a dever-se “à redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa (que inclui a suspensão temporária do contrato e o layoff), razão apontada por 680,1 mil daquelas pessoas (cerca de dez vezes o número do trimestre anterior)”.

No futuro, com o desaparecimento das condições mais favoráveis da medida do layoff e com o prolongamento de uma situação difícil no mercado para muitas empresas, este efeito de protecção do emprego pode começar a esbater-se, provocando perdas de emprego significativas para outros grupos de trabalhadores, seja qual for o tipo de contrato de trabalho ou o nível de qualificação.

Mas para já na linha da frente desta batalha, menos protegidos pelas medidas anticrise lançadas pelo Governo, estão os trabalhadores mais precários, com a agravante de que são estes que mais vezes se encontram numa situação em que não possuem os requisitos necessários para receber o subsídio de desemprego.

Pandemia provoca redução brusca no crescimento dos salários em Portugal

Sérgio Aníbal, in Público on-line

O efeito negativo mais significativo e imediato nos salários foi sentido nas empresas que recorreram ao layoff. Nas outras empresas, a tendência de crescimento que se registava antes da crise ainda não foi anulada.

A quebra nos vencimentos dos trabalhadores abrangidos pelo layoff simplificado conduziu, durante os meses da pandemia, a uma redução do ritmo de crescimento das remunerações praticadas em Portugal para um valor que é metade daquele que se verificava antes da crise.

De acordo com os dados publicados esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística com base na informação disponibilizada pela Segurança Social, o salário bruto médio em Portugal registou, durante o segundo trimestre deste ano, um crescimento nominal de 1,6% face ao período homólogo do ano anterior. Em termos reais, uma vez que a taxa de inflação apresenta neste momento valores negativos, a variação foi de 1,8%.

Em Março, quando a pandemia chegou ao país, a taxa de crescimento do salário bruto médio nacional situava-se em 3,2%, um valor em linha com aquilo que vinha acontecendo em Portugal nos últimos dois anos, período de uma maior aceleração salarial, provocada pela combinação do crescimento da economia com as taxas de desemprego relativamente baixas.

Agora, com a crise, que provocou uma queda da economia e deverá fazer subir o desemprego, a tendência será, de forma quase inevitável, um abrandamento dos salários. O facto de os salários, em média, continuarem a apresentar uma variação positiva no segundo trimestre até pode surpreender, tendo em conta a dimensão do choque económico, mas é explicado por, nas empresas onde não houve um recurso ao layoff, o nível salarial não ter sido ainda afectado nestes meses iniciais de crise. Isto faz com que, quando se calculam as variações face ao período homólogo, a tendência de subida que se registava antes da crise ainda se fazer sentir.

Já no que diz respeito aos trabalhadores das empresas que, por serem mais afectadas pela crise, recorreram ao layoff simplificado, a diminuição das remunerações, mesmo em relação ao ano passado, é já uma realidade.

O INE apresenta dados para demonstrar a diferença entre estes dois tipos de empresas. Assim, se nas empresas que não recorreram ao layoff simplificado a taxa de crescimento do salário bruto médio foi de 5,5%, não revelando uma deterioração face aos valores registados antes da crise, no que diz respeito às empresas que recorreram ao layoff, o mesmo indicador caiu já 2%.

Para o futuro, à medida que as empresas vão saindo do regime de layoff, alguns trabalhadores podem recuperar o seu nível de remuneração. No entanto, em contrapartida, assumindo-se que se irá assistir a uma evolução da economia menos favorável e o número de trabalhadores no desemprego será maior (reduzindo a capacidade de reivindicação salarial), a tendência no mercado de trabalho poderá ser de uma um crescimento bem mais moderado dos vencimentos dos trabalhadores.

Teletrabalho: um privilégio dos que estão melhor e que permitiu trabalhar menos

Victor Ferreira, in Público on-line

Dados do INE expõem diferenças vincadas: os precários ou com formação mais baixa ficaram menos em casa e quem trabalhou na empresa teve jornadas mais longas.

Quase um quarto da população empregada em Portugal esteve em teletrabalho durante o segundo trimestre de 2020. Se fosse possível fazer um retrato robô, baseado na distribuição maioritária por género, origem geográfica, idade, escolaridade e tipo de contrato de trabalho e de funções que exercem, obteríamos a imagem de uma mulher, com 35 anos ou mais e formação superior, que reside na Área Metropolitana de Lisboa e provavelmente trabalha como efectiva numa empresa ou entidade pública do sector dos serviços.

Porém, há muitas nuances nos dados do Inquérito ao Emprego, revelados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e que dariam a este retrato robô contornos mais indefinido, sobretudo no que toca ao género – é verdade que houve mais mulheres do que homens em teletrabalho, mas a diferença, em valor absoluto, não é assim tão grande.

O que fica, sim, marcado a traço firme é que o teletrabalho foi um privilégio dos que devem considerar-se como tendo melhores condições de vida profissional: têm um lugar no quadro de uma empresa, formação superior e funções ou cargos mais altos, ligados ao conhecimento e aos serviços. Portanto, a pandemia acentuou ainda mais a desigualdade laboral e social no país, expondo ao risco de contraírem a doença em maior grau os mais jovens, os precários, os indiferenciados, os que ganham menos. No fundo, os mesmos que foram mais atingidos também pelo layoff e, sobretudo, pelo desemprego.

Nas contas do INE, entre Abril e Junho de 2020 houve 1.094.000 pessoas a trabalharem a partir de casa. “Destas, 998.500 pessoas (91,2%) indicaram que a razão principal para ter trabalhado em casa se deveu à pandemia”, explica a autoridade estatística portuguesa.

Os cerca de 1,1 milhões representam 23,1% dos trabalhadores 4.731.200 trabalhadores residentes no país e contabilizados pelo INE. A distribuição geográfica foi muito assimétrica: a Área Metropolitana de Lisboa (AML) foi a que teve mais pessoas em teletrabalho, destacando-se a léguas de todas as outras regiões do país.

Com cerca de 1,27 milhões de trabalhadores no total, a AML teve a maior proporção, 458.600 mil pessoas (36%), em teletrabalho. Já na região Norte, que tem a maior quantidade de trabalhadores do país (1,68 milhões), essa percentagem caiu para quase metade: o teletrabalho envolveu 19,8%, ou 333.200 pessoas.

As regiões com menor proporção de teletrabalho foram a do Centro (16,7% de um total de 1,03 milhões de trabalhadores) e, nas ilhas, a dos Açores, com 16,4% de 112 mil trabalhadores.

Estas diferenças podem explicar-se pela preponderância da indústria nas regiões Norte e Centro, em comparação com a AML, assente nos serviços, já que na análise por sector laboral verifica-se que o campo e a indústria tiveram menos hipótese de proteger os seus funcionários através do trabalho a partir de casa.

Nota-se também que onde houve menos teletrabalho, como no Norte, houve mais infecções na primeira fase da pandemia, até porque havia mais trabalhadores em casa na AML, onde passou a haver mais casos novos após o desconfinamento.

Sem surpresa, foi nos serviços (que emprega 3,3 milhões de pessoas) que a percentagem de teletrabalho foi mais elevada: 28,5%. Educação, administração pública, consultoria e informação foram os sectores dos serviços com maior número de empregados em teletrabalho.

Por género, verificou-se que houve mais mulheres (25,2%) do que homens (21,1%) em teletrabalho. O que não é necessariamente melhor para as mulheres: Abril foi um mês de estado de emergência e confinamento, e sem aulas, tal como Maio e Junho para os estudantes do ensino básico. O que significa que muitas dessas mulheres acumularam mais do que os homens o trabalho da esfera doméstica com o de ordem profissional.

Por idades, a preponderância foi para a faixa etária dos 35 em diante. E quanto mais alto o nível de escolaridade, maior tendência houve para o teletrabalho. Entre os que têm escolaridade básica (até ao 3.º ciclo), a percentagem de teletrabalho foi de 4,7%, ao passo que entre trabalhadores com ensino superior essa percentagem disparou para os 53,8%.

Noutros inquéritos ao teletrabalho foram recolhidas opiniões que apontavam para maior carga horária de trabalho. Contudo, segundo o INE, “comparando as horas trabalhadas, não há grande diferença entre trabalhar em casa ou fora de casa”. Aliás, quem ficou em casa trabalhou menos.

“Quem não esteve ausente, e trabalhou fora de casa, trabalhou em média 36 horas nessa semana e quem não esteve ausente, e trabalhou a partir de casa, trabalhou 35 horas”, conclui o INE.

Este inquérito apurou ainda que, durante o período de referência, houve 643.800 pessoas que não trabalharam no emprego principal, nem em casa, nem noutro local, 76,3% (491.500) das quais devido à pandemia. Ao PÚBLICO, o INE explicou que estes são trabalhadores ausentes por férias, doença, licença de maternidade/paternidade e também redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa (que inclui a suspensão temporária do contrato ou layoff).

"Pandemia desnudou o tanto que nos falta fazer para combater as desigualdades", escrevem bispos portugueses

in RR

Mensagem parte do texto que o Papa Francisco escreveu para o 106.º Dia Mundial do Migrante e Refugiado (27 de setembro), este ano centrado nas “migrações forçadas".

A Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana (CEPSMH), da Igreja Católica em Portugal, publicou uma mensagem em que destaca a necessidade de solidariedade, num momento marcado pela pandemia, que agrava a situação dos migrantes e refugiados.

“A pandemia desnudou o tanto que nos falta fazer para combater as desigualdades, mas sobretudo revelou a capacidade humana de convergir em sociedade, apesar das nossas diferenças. Enquanto Igreja a nossa fé e a nossa esperança recaem sobre o potencial de humanização que nos habita”, refere o texto, enviado esta terça-feira à agência Ecclesia.

A Mensagem da CEPSMH e da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) tem como título ‘Entre a incerteza e a esperança há uma ponte em construção’.

A Igreja Católica em Portugal vai promover de 9 a 16 de agosto a Semana Nacional de Migrações, inspirada pela mensagem do Papa Francisco, ‘Forçados, como Jesus Cristo a Fugir’, procurando apresentar “testemunhos de vida” sobre a realidade das deslocações forçadas, por causa da pobreza ou da guerra.

Durante esta semana decorre ainda a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado a Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto.

A iniciativa, que nasceu há 48 anos, visa “sensibilizar a Igreja, as instituições estatais e a sociedade civil, para os dramas e inquietações” das pessoas em mobilidade.

A CEPSMH e a OCPM vão promover um recolha de testemunhos – vídeos, cartas, depoimentos áudio, fotos – através do endereço eletrónico ocpm@ecclesia.pt, para divulgação nas redes sociais.

"O objetivo é contribuir para que se conheça e compreenda, a fim de não termos medo de nos aproximar e servir, aprendermos a escutar para reconciliar, a fim de juntos partilharmos para crescer, coenvolver migrantes, refugiados autóctones, para promover comunidades mais inclusivas, estimular a colaboração interinstitucional para construir uma sociedade mais coesa, justa e fraterna, com um lugar para todos.”

A mensagem parte do texto que o Papa Francisco escreveu para o 106.º Dia Mundial do Migrante e Refugiado (27 de setembro), que se centra este ano nas “migrações forçadas, as suas causas, os deslocados internos e a cooperação internacional”.

“Queremos muito ir para além do enfoque sobre os deslocados internos, esta é uma oportunidade para ir às periferias sociais e existenciais, e concretizar o que nos permite ser uma sociedade mais capaz de Acolher, Proteger, Promover e Incluir migrantes e refugiados”, aponta a CEPSMH.

Os bispos portugueses recordam, a este respeito, a situação em Cabo Delgado, norte de Moçambique, onde a violência formou “mais de 200 mil pessoas a sair das suas casas”.

“Escutamos os apelos incessantes, da Diocese de Pemba que os acolhe, à solidariedade Internacional e à rápida intervenção das instâncias políticas que tem o poder de travar, o massacre”, alertam os responsáveis católicos. 





Pandemia agravou situações de depressão e perturbações alimentares nos jovens

in RR

A Covid-19 “veio a agravar a fobia, os medos”, mas também o aumento dos consumos de tabaco e de álcool.

A pandemia agravou muitas situações de ansiedade, depressão e perturbações do comportamento alimentar nos jovens, bem como os consumos de álcool e tabaco, segundo a coordenadora do centro de atendimento para adolescentes Aparece.

Devido ao confinamento imposto pela Covid-19, “os jovens ficaram em casa, comeram mais, engordaram. Outros começaram a fazer dietas restritivas porque tinham engordado muito”, afirmou em entrevista à agência Lusa Maria de São José Tavares.

Segundo a médica, estas são as situações mais evidentes nos adolescentes que recorrem atualmente ao Aparece– Saúde Jovem, um espaço criado há 21 anos pelo Governo no Centro de Saúde de Sete Rios, em Lisboa, para que os adolescentes tivessem um espaço dedicado exclusivamente aos seus problemas e pudessem partilhar todas as suas dúvidas num espaço de confidencialidade e privacidade.

“O Aparece tem tido um papel importantíssimo, e que vai continuar a ter, nesta fase de pandemia”, sendo que neste momento 90% dos atendimentos são por teleconsulta: “Todos os dias, são contactados oito a nove adolescentes com quem estamos mais preocupados e que são muitos".

As grávidas têm sido sempre atendidas presencialmente, assim como os jovens que aparecem “sem marcação”.

Neste momento, o Aparece tem “imensos apelos”, mesmo para primeiras consultas, “a que é preciso responder” de “uma forma eficaz” nesta fase “em que as famílias estão tão aflitas e os adolescentes também”.

Questionada se os jovens estão com receio de voltar à escola e contrair a Covid-19 e contagiar os familiares, a médica afirmou que há “um receio muito grande”.

“Temos vários adolescentes que se infetaram neste percurso, mesmo muitos, e famílias inteiras”, disse Maria de São José Tavares, contando que houve muitos jovens que, “quando foi o período de maior liberdade, exageraram e fizeram disparates, e outros que têm mesmo medo de sair e estão isolados”.

“Isto é muito heterogéneo, mas o ambiente na generalidade é de fragilidade em muitos adolescentes”, afirmou, sublinhando que a pandemia “veio a agravar a fobia, os medos”, mas também o aumento dos consumos de tabaco e de álcool.

Para a coordenadora do Aparece, o impacto desta pandemia na sociedade é enorme: “Temos imensos adolescentes que os pais estão desempregados” e, por isso, apontando que é preciso dar-lhes atenção e não tirar “a energia a um serviço que é tão importante”.

Neste momento, há 3.500 adolescentes inscritos no Aparece, metade dos quais do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Lisboa Norte e os restantes de outros agrupamentos da Área Metropolitana de Lisboa.

“Nós temos por mês a entrada, no mínimo, de 30 novos adolescentes. Com a pandemia tivemos um decréscimo, o que tem a ver com o contexto ambiental e social”, disse, esperando que as consultas presenciais reabrem em setembro.

Como razões para este decréscimo, apontou o facto de os jovens saírem menos de casa e as aulas presenciais terem dado lugar à telescola.

“Portanto, tudo isto mudou muito” e “os adolescentes vão sair desta pandemia com tantas fragilidades, com tantos medos acrescidos, com tantas impossibilidades para compensar todo este período em que estiveram confinados”.

Por estas razões, defendeu, “é preciso estar muito atento às suas necessidades e evitar a criação de novas barreiras no acesso ao centro de atendimento aos adolescentes Aparece.

Em Portugal, morreram 1.740 pessoas das 51.848 confirmadas como infetadas, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Micro e pequenas empresas podem candidatar-se a linha de apoio de mil milhões

in RR

Para se poderem candidatar terão de provar ter tido uma quebra de pelo menos 40% da faturação e não ter beneficiado de outras linhas de crédito.

As micro e pequenas empresas afetadas pela pandemia já se podem candidatar a uma Linha de Apoio à Economia Covid-19, que tem uma verba de mil milhões de euros.

As microempresas podem obter um financiamento máximo de 50 mil euros, enquanto as pequenas empresas podem vir a receber até 250 mil.

Para se poderem candidatar terão de provar ter tido uma quebra de pelo menos 40% da faturação e não ter beneficiado de outras linhas de crédito com garantia mútua. Mas também não vão ser consideradas as candidaturas de empresas em dificuldades até 31 de dezembro de 2019 e de empresas com sede em “offshores”.

O prazo máximo da operação será de seis anos, que incluem 18 meses de carência de capital, e uma garantia ate 90% do capital em dívida.

Esta nova linha de apoio, para empresas de todos os setores, foi anunciada pelo ministro da Economia no início de julho.

Desperdício alimentar. É preciso ajustar logística entre supermercados e instituições

Marta Grosso , Beatriz Lopes (entrevistas), in RR

Portugal desperdiça, em média, um milhão de toneladas de alimentos por ano. Um vídeo divulgado nas redes sociais lançou a polémica e a Renascença foi saber mais, junto da Associação de Empresas de Distribuição e do Banco Alimentar.

Numa altura em que muitas pessoas passam mais dificuldades por causa da pandemia de Covid-19, o desperdício alimentar assume ainda mais relevância. Segundo o diretor-geral da Associação de Empresas de Distribuição (APED), os consumidores são quem mais desperdiça comida.

“Os estudos indicam que o retalho, a distribuição é responsável por 5% do total de desperdício alimentar e os consumidores domésticos são responsáveis por 42%”, indica Gonçalo Lobo Xavier à Renascença.

Em média, Portugal desperdiça um milhão de toneladas de alimentos por ano, muitas delas deitadas ao lixo por super e hipermercados, como mostrou um vídeo que circulou nas redes sociais.

“Não podemos ter na loja produtos em fim de vida que, do ponto de vista legal e do ponto de vista da qualidade alimentar, não cumpram os requisitos necessários”, explica o diretor-geral da APED.

O responsável reconhece que os supermercados são obrigados a adotar práticas muito exigentes para assegurar a qualidade alimentar dos produtos e a saúde dos consumidores, mas admite que “há procutos que não estão, do ponto de vista comercial, disponíveis para serem apresentados em loja e têm a qualidade suficiente para serem consumidos e doados”.

Nesse sentido, garante, são cada vez mais as medidas adotadas pelos supermercados para combater o desperdício alimentar, nomeadamente através da venda de produtos em final de prazo a preços reduzidos ou no aproveitamento dos chamados "legumes feios" para sopas.

Ponte frágil entre supermercados e instituições

Porque não chegam mais “sobras” dos supermercados às famílias portuguesas carenciadas? Gonçalo Lobo Xavier aponta para uma carência no voluntarismo.

“Há cada vez mais voluntários junto das IPSS para levantar os produtos nas nossas instalações. Temos muitos protocolos com estas instituições, mas também verificamos que nem sempre há o voluntarismo das pessoas para fazer chegar, em tempo útil, os produtos às famílias mais necessitadas”, afirma.

São mais de 700 as instituições privadas de solidariedade social (IPSS) que recebem alimentos para entregar a famílias carenciadas. No ano passado, foram entregues mais de 16 mil toneladas de alimentos, o que representa um crescimento de 14 % em relação ao ano anterior.

Então, o que se passa? Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, explica que o problema não está na falta de voluntários, mas nos horários de recolha.

“Estamos a falar muitas vezes de produtos perecíveis, como o pão, os bolos, fruta já madura, legumes que já não podem ser vendidos e todos estes produtos requerem um cuidado, seja na sua angariação seja depois na sua distribuição. E a grande questão que existe hoje é sobretudo logística, de horários. As cadeias de distribuição, os supermercados fecham às 21h00, quase todos à mesma hora, há ainda os hipermercados que encerram mais tarde e a essa hora a maior parte das instituições de solidariedade social já está encerrada”, começa por dizer.

Neste sentido, “mesmo havendo boa vontade de voluntários, há aqui um desajuste entre as horas a que se pode recolher os produtos e aquelas em que estes produtos podem ser distribuídos e entregues”.

Nestas declarações à Renascença, Isabel Jonet diz ainda que é preciso ter cuidado com os vídeos que alertam para o desperdício alimentar quando não se conhece a realidade e as dificuldades logísticas no terreno.

Eis o vídeo que correu as redes e lançou a polémica.

Alice Ramos. Estereótipos, preconceito e racismo

José Maria Pimentel, in Público on-line

Esta semana, no podcast 45 Graus, ouvimos Alice Ramos, doutorada em Ciências Sociais, com especialidade em Sociologia pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde é actualmente investigadora. Tem-se dedicado a analisar o impacto conjugado de factores individuais e contextos sociais nas atitudes face aos imigrantes e no preconceito racial.

Desde Janeiro de 2018, é também a coordenadora nacional do Inquérito Social Europeu e do Estudo Europeu dos Valores. O Inquérito Social Europeu é uma sondagem realizada a cada dois anos, desde 2001, com o objectivo de avaliar as atitudes e comportamentos dos cidadãos de 24 países europeus sobre um leque muito variado de assuntos. No caso português, uma área específica trouxe recentemente os resultados do inquérito para a ribalta: o nível do racismo em Portugal, que o inquérito indica ser desconfortavelmente mais elevado do que tendemos a achar.

Os resultados da versão mais recente do inquérito foram divulgados há cerca de um mês e mostram que quase dois terços dos portugueses manifestam pelo menos uma forma de racismo, e apenas cerca de 10% da população discorda de todas as crenças que o inquérito identifica como racistas. Estes números caem como uma bomba no debate público e na discussão sobre a dimensão do racismo em Portugal, um debate antigo mas que tem ganho tracção nos últimos anos, à boleia de estudos como este mas, talvez mais ainda, de um activismo crescente que chama a atenção quer para desigualdades estruturais quer para a violência policial sobre minorias e crimes com motivações racistas. Foi isso que aconteceu no caso recente do assassinato do actor Bruno Candé, que aconteceu poucos dias depois da gravação deste episódio (sendo que, neste caso, tudo indica que o preconceito racista do homicida teve, no mínimo, influência no crime).

Avaliar a dimensão do racismo em Portugal é, evidentemente, um exercício muito complexo, até por ter várias dimensões. A discussão nas redes sociais rapidamente se encarrega, com a sua pulsão para o pensamento binário e comportamento tribal, de politizar a discussão e de a reduzir a um debate entre dois campos opostos: o dos que garantem que Portugal “é um país racista” (excluindo, claro, depreende-se, os virtuosos autores do diagnóstico) e o campo dos que continuam a negá-lo.

A convidada Alice Ramos ajuda a compreender, com a calma que um podcast proporciona, a dimensão, as expressões e, sobretudo, as causas do racismo em Portugal, fazendo-o a partir da base, isto é, começando por tentar compreender por que existem e como funcionam aspectos quase universais da psicologia humana e da sociedade, como os estereótipos, o preconceito e os comportamentos discriminatórios.

Há alguns conceitos que a convidada convoca que, nesta área, têm um significado mais específico do que o seu uso no quotidiano: os valores são os princípios com que orientamos a nossa vida, são aquilo que nos permite distinguir o que é bom do que é mau; os nossos valores influenciam as nossas atitudes, que são predisposições para agir de uma determinada forma, avaliações sobre situações específicas; o preconceito é uma atitude, mas também o é a nossa opinião face à legalização do aborto ou face à intervenção do Estado na economia, etc; finalmente, os comportamentos, são as atitudes em acção: é o que verdadeiramente fazemos. A discriminação é um comportamento.

IPS alerta para fragilidade da Economia Social em tempo de pandemia

in Distrito on-line

Uma em cada cinco organizações pode fechar portas, conclui estudo

Um estudo desenvolvido por investigadores dos institutos politécnicos de Setúbal (IPS) e de Portalegre conclui que uma em cada cinco organizações da Economia Social (OES) corre o risco de fechar portas nos próximos dois meses, na sequência do impacto causado pela pandemia no setor.

Coordenada pelo Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), a investigação, denominada “Economia Social no contexto COVID-19”, baseou-se num inquérito online, realizado entre finais de maio e inícios de julho, que contou com a participação de 557 instituições, entre IPSS, Misericórdias, Cooperativas e delegações distritais do Banco Alimentar e da Cáritas, de todos os distritos de Portugal (incluindo regiões autónomas).

As conclusões, que são um “grito de alerta”, apontam para “uma perda de receitas significativa e um aumento dos custos”, que afetaram a maioria das instituições inquiridas, sendo que “a pandemia também afetou a capacidade de prestação de serviços, sobretudo nas áreas da educação, artes e cultura”, explica Pedro Dominguinhos, presidente do CCISP e também do IPS.

A redução das contribuições devido ao cancelamento de serviços e um decréscimo nas doações são os principais desafios identificados pelo estudo, que aponta para o risco de encerramento de 19% destas instituições nos próximos dois meses. No topo das necessidades identificadas encontra-se o apoio no processo de reavaliação das estratégias de angariação de fundos, tendo sido também reportadas, por 23% das inquiridas, dificuldades de comunicação com entidades públicas, nomeadamente a Segurança Social e as câmaras municipais.

“O estudo é claro ao apontar que cerca de 20 por cento das organizações têm receio de que nos próximos meses tenham de fechar as portas, se não houver uma intervenção significativa da arrecadação das receitas extraordinárias, doações ou outras iniciativas do Estado que possam ajudar estas organizações”, adianta o responsável, sublinhando a necessidade de uma nova abordagem, quer em termos de políticas públicas, quer de gestão das próprias organizações envolvidas.

A título de exemplo, Pedro Dominguinhos defende uma “reavaliação da estratégia de angariação de fundos, ao nível do apoio tecnológico, porque estas instituições têm de ter uma comunicação muito eletrónica de interfaces com instituições públicas. Por outro lado, a divulgação de um reporte em tempo real sobre as necessidades destas organizações de economia social.”

“Algo que é essencial é perceber que estas organizações precisam de capacidade de gestão financeira e recursos humanos e de interação com organismos da segurança social. A maioria destas organizações são de reduzida dimensão e assentam no voluntariado. Outra área em que estas organizações pedem ajuda é ao nível do planeamento financeiro”, explica.

A maioria das OES inquiridas tem mais de 20 anos de experiência e opera com o estatuto de IPSS no apoio à pessoa idosa, educação, artes e cultura, juventude, serviços sociais, desporto e saúde, concentrando-se sobretudo nos centros urbanos de Lisboa, Porto e Setúbal. Os resultados revelam que 24% terá dificuldades em pagar por completo as remunerações nos próximos dois meses, principalmente as que operam nas áreas das artes e cultura, sendo que a grande maioria (82%) afirma ter registado uma diminuição de receitas nos últimos tempos.

Maioria dos trabalhadores sentem-se seguros quanto à manutenção do emprego, segundo estudo da Universidade Europeia

in o Observador

Segundo as conclusões do estudo, "a maior parte da população inquirida sente-se segura no trabalho face à ameaça da pandemia", tendo em conta uma média apurada de 3,80 (entre 1 e 5).

A maioria dos trabalhadores sentem-se seguros quanto às condições laborais, face ao impacto da pandemia de Covid-19, e acredita que o seu empregador irá manter os postos de trabalho, segundo um estudo da Universidade Europeia divulgado esta terça-feira.

O estudo “(In)segurança Laboral”, promovido pela Faculdade de Ciências Empresariais e Sociais da Universidade Europeia, foi realizado entre 22 de maio e 22 de junho e analisou as respostas de 1.519 trabalhadores.

Segundo as conclusões do estudo, “a maior parte da população inquirida sente-se segura no trabalho face à ameaça da pandemia”, tendo em conta uma média apurada de 3,80 (entre 1 e 5).

Além disso, a maioria dos inquiridos “concorda que a empresa na qual trabalha manterá todos os postos de trabalho” apresentando uma média de 3,54, e que o empregador “assegurará as condições de segurança no trabalho necessárias face às ameaças da Covid-19 (média de 4,02)”, revela.

Por outro lado, “os 1.519 inquiridos revelam alguma perceção de insegurança no trabalho” tanto face à continuidade/manutenção do emprego (segurança quantitativa) e face às condições e conteúdo do trabalho (segurança qualitativa), com médias de 2,12 e de 2,62 respetivamente.

Os participantes com menos de 25 anos são os que manifestam um nível de insegurança laboral qualitativa (média de 2,89) e quantitativa (2,73) mais elevada, assim como os trabalhadores com vínculos laborais precários que apresentam uma média de perceção de insegurança laboral qualitativa de 3,42 e quantitativa de 3,15.

As mulheres apresentam uma perceção de insegurança laboral, de natureza qualitativa, “significativamente mais elevada do que os homens”, pode ler-se no documento.

Os autores concluem ainda que “o facto de deter mais habilitações parece ter um efeito atenuador na perceção de insegurança laboral quantitativa, uma vez que os participantes no estudo com doutoramento diferem significativamente dos restantes participantes por apresentarem um valor inferior no que se refere a esta variável”, com uma média de 1,89.

Quanto ao estado civil, os participantes solteiros revelaram uma perceção de insegurança laboral, tanto qualitativa, como quantitativa mais elevada do que os restantes participantes.

Também os que não estão em teletrabalho revelam uma perceção de insegurança laboral mais alta do que os que estão em casa.

No estudo, os homens parecem crer menos que a empresa reduzirá os postos de trabalho e manifestam-se mais seguros no trabalho face à ameaça da Covid-19.

5.8.20

Férias inclusivas lançam projeto de combate à pobreza infantil em Tavira

Por Sul Informação

Iniciativa é coordenada pela Fundação Irene Rolo

Férias inclusivas, a decorrer já no atual mês de Agosto, vão dar o pontapé de saída ao projeto “Educarte”, uma iniciativa coordenada pela Fundação Irene Rolo que visa combater a pobreza infantil no concelho de Tavira.

A primeira atividade deste projeto, um Contrato Local de Desenvolvimento Social de 4ª Geração, destina-se a crianças e jovens tavirenses em situação de vulnerabilidade.

«Num contexto de pandemia, reforçamos a importância deste tipo de ações, que visam oferecer um conjunto de atividades lúdicas aos destinatários, que se viram nos últimos meses privados das suas rotinas e contactos sociais», ilustra a Fundação Irene Rolo.

A Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) tavirense realça «a importância do brincar no desenvolvimento psicossocial das crianças, assim como a relevância desta ação ao nível da conciliação familiar e profissional para os pais dos participantes».

As Férias Inclusivas do “Educarte” também vão contar com crianças com deficiência, que serão acompanhadas por «uma equipa técnica especializada, de forma a dar resposta às necessidades e expectativas de todos os participantes».

«Para além desta ação, ao longo do projeto, que terá a duração de 3 anos, será dinamizado um conjunto de atividades com vista à promoção da inclusão social de grupos populacionais que revelem maiores níveis de fragilidade social e à valorização de uma intervenção de proximidade», acrescentou a Fundação Irene Rolo.

O concelho de Tavira «foi identificado como um território que se carateriza por “situações críticas de pobreza, particularmente infantil”, tendo por base as suas caraterísticas em termos de fragilidade social, pelo que a intervenção do projeto será ao nível do “Eixo 2: Intervenção familiar e parental, preventiva da pobreza infantil”, do CLDS 4G».

«Para o efeito irão ser mobilizados, de forma integrada, diferentes agentes e recursos locais, pretendendo-se uma intervenção de proximidade realizada em parceria, com vista a uma intervenção familiar e parental, preventiva da pobreza infantil, assente num plano de ação elaborado com a colaboração do núcleo executivo do conselho local de ação social», conclui a IPSS tavirense.

Desigualdades sociais causam alterações biológicas nas crianças já aos sete e aos dez anos

Alexandra Campos, in Público on-line

As crianças que nascem em famílias com níveis de escolaridade e rendimentos mais baixos e com profissões menos diferenciadas têm níveis mais elevados de índice de massa corporal, de pressão arterial e de inflamação

As crianças que nascem em contextos sócio-económicos menos favorecidos apresentam já aos sete e aos dez anos alterações biológicas que indicam que estão a crescer numa trajectória de saúde mais adversa e que poderão, assim, ter um maior risco de desenvolvimento de doenças na idade adulta, indicam dois estudos do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) recentemente publicados, que evidenciam a necessidade de intervir numa fase bem precoce.

Os investigadores quiseram perceber de que forma as condições socioeconómicas dos pais no altura do nascimento das crianças poderiam influenciar alguns dos seus marcadores da saúde cardiometabólica - como a pressão arterial, o perímetro da cintura e o índice de massa corporal (IMC), que são indicadores habitualmente utilizados pelos médicos para avaliar o estado de saúde cardiovascular das pessoas na idade adulta.

Os resultados são preocupantes: as crianças que nascem em famílias com níveis de escolaridade e rendimentos mais baixos e com profissões menos diferenciadas têm, já aos sete e aos dez anos, níveis mais elevados de IMC, tal como de pressão arterial sistólica e de perímetro de cintura, sintetiza Sara Soares, que é a primeira autora dos dois artigos assinados por uma equipa de investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).

Para as duas investigações foi utilizada informação dos exames e análises das crianças que integram a coorte Geração XXI - um estudo longitudinal do ISPUP que segue, desde 2005, cerca de 8600 crianças que nasceram nas maternidades públicas da Área Metropolitana do Porto.

Já se sabia que as doenças cardiovasculares e os piores resultados em saúde são mais frequentes em adultos com um estatuto socioeconómico mais baixo. Mas os investigadores, no estudo intitulado Early life socioeconomic circumstances and cardiometabolic health in childhood: evidence from the Generation XXI cohort e publicado na edição de Abril da revista Psychoneuroendocrinology, quiseram ir mais longe e perceber se havia alterações na biologia logo nos primeiros anos de vida. Para este estudo foram analisados os dados de 2962 participantes no projecto Geração XXI.

Se aos sete e 10 anos este fenómeno é claro, “mesmo aos quatro anos de idade também já se verificam alterações”, destaca Sara Soares. “Estes resultados mostram-nos que o ambiente socioeconómico em que a criança nasce parece condicionar alterações biológicas já na infância. Ainda que isto não signifique necessariamente que estas crianças irão desenvolver doenças mais tarde na vida, o estudo parece evidenciar que as que nascem em contextos mais desfavorecidos podem estar a crescer numa trajectória de saúde menos favorável”, acentua.

Num segundo estudo, intitulado How do early socioeconomic circumstances impact inflammatory trajectories? Findings from Generation XXI, que vai ser publicado na edição impressa de Setembro da mesma revista, os investigadores comprovaram que as condições socioeconómicas têm igualmente impacto noutro tipo de marcadores biológicos.

Para este estudo foram avaliados os níveis de proteína C-reactiva - um marcador inflamatório indicador de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares - de 2510 crianças. E as que têm pais mais escolarizados, com profissões mais diferenciadas e rendimentos mais altos apresentaram também, neste caso aos 10 anos idade, níveis mais elevados de HDL (o chamado colesterol bom) em comparação com crianças de famílias menos favorecidas.

Níveis de inflamação elevados

Nesta investigação foi possível concluir que as crianças que nascem em famílias com condições socioeconómicas menos favorecidas apresentam níveis de inflamação mais elevados logo na primeira década de vida. Este impacto até agora apenas “tem vindo a ser demonstrado em estudos realizados em adultos”, enfatiza Sara Soares.

O estudo permitiu perceber que os níveis de proteína C reactiva vão aumentando e atingem o valor máximo aos 10 anos. Em síntese, os resultados indicam que já é possível observar em idades muito precoces alterações biológicas olhando para o contexto de adversidade socioeconómica das crianças.

Poderá este processo de inflamação ser revertido mais tarde? “Não sabemos se as crianças vão conseguir ultrapassar esta trajectória menos favorável durante a adolescência ou a idade adulta”, responde a investigadora. O que se percebe é que “o estatuto socioeconómico dos pais provoca, logo nos primeiros dez anos de vida, alterações biológicas nos filhos”, repete.

Os resultados dos dois estudos evidenciam, assim, “a importância de reduzir as desigualdades socioeconómicas para prevenir desigualdades em saúde”, enfatiza. Há uma imagem que tem sido utilizada para ilustrar o impacto das desigualdades sociais e económicas no percurso das pessoas: as crianças que nascem em famílias mais desfavorecidas partem já atrás das outras na “corrida” ao longo da vida.

Só uma sociedade “mais igualitária ajudará a ultrapassar as desigualdades em saúde que se iniciam e manifestam bem cedo”, defende a investigadora, para quem esta estratégia terá que ser definida pelos políticos, mas poderá passar, eventualmente, pelo “aumento da escolaridade obrigatória, dos rendimentos e dos apoios à família”. Esta intervenção, conclui, “deve acontecer numa fase precoce, é necessário garantir que todas as crianças têm bom um início de vida para reduzir as desigualdades em saúde”.

Vendas de retalho aumentam 5,7% na zona euro em junho

Inês Pinto Miguel, in Económico

“Isto significa que o volume de trocas no retalho, em ambas as zonas, retomaram a níveis registados em fevereiro de 2020, antes do início das medidas de confinamento”, sustenta o Eurostat após o retalho observar aumentos pelo segundo mês consecutivo.

O volume de negócios a retalho na zona euro continuou a verificar sinais de recuperação em junho, continuando a ser marcado pelo levantamento das medidas de restrição face à Covid-19. Durante o mês em análise, as vendas na zona euro aumentaram 5,7% e 5,2% na União Europeia, quando comparados com maio de 2020, estima o Eurostat esta quarta-feira, 5 de agosto.

Segundo as estimativas do gabinete estatístico europeu, registou-se um crescimento de 20,3% na zona euro e de 18,3% na União Europeia em comparação com o mês anterior. “Isto significa que o volume de trocas no retalho, em ambas as zonas, retomaram a níveis registados em fevereiro de 2020, antes do início das medidas de confinamento”, sustenta o Eurostat.

Em comparação com junho de 2019, verificou-se um aumento de 1,3% no índice de vendas de retalho nas duas áreas europeias.

Comparativamente com maio do presente ano, na zona euro, o volume de comércio de retalho aumentou 20,4% nos combustíveis e 12,1% em produtos não alimentares, enquanto alimentos, bebidas e tabaco diminuíram 2,7%. Na União Europeia, o volume de comércio a retalho aumentou 16,9% para combustíveis automóveis e 10,6% para produtos não alimentares, enquanto a categoria de alimentos, bebidas e tabaco diminuíram 2,2%.


Entre os países-membros, os aumentos mais significativos registaram-se na Irlanda, com um crescimento de 21,9%, em Espanha, que verificou um aumento de 16,5%, e na Índia, com um crescimento de 13,8%. A Áustria e a Alemanha observaram decréscimos de 2,5% e 1,6%, respetivamente.

Em junho de 2020, Portugal, por sua vez, observou um aumento de 4,4% no mês de junho, face ao crescimento significativo de 14,7% registado no mês anterior. Face ao período homólogo, Portugal verificou um decréscimo de 6,3%.

A importância da proximidade e humanização nos serviços/produtos vs. digitalização da economia e teletrabalho


Enquanto que o mundo avalia os benefícios inegáveis da digitalização empresarial, há quem pare para pensar no valor indispensável que a proximidade e o tacto acrescentam a um negócio. Conheça a opinião de Bruno Mesquita.

Qual, na sua opinião, será o papel das agências de comunicação no desenvolvimento da comunicação das empresas neste mundo cada vez mais digital e mais próximo?

Neste momento, mais do que nunca, a digitalização e a importância da comunicação digital nas empresas e entidades públicas torna-se cada vez mais evidente. A responsabilidade das agências de comunicação e respetivos departamentos de marketing das empresas será cada vez maior.

A manutenção dos seus recursos humanos, a fidelização dos seus clientes e a pesquisa de potenciais neste mercado tão agressivo são os principais objetivos de qualquer empresa, neste sentido o investimento em estratégias que visam aumentar o brand awareness (como a empresa é percecionada pelos seus parceiros), employer branding (como os seus colaboradores vêm a própria empresa) são fundamentais e têm de ser implementadas por profissionais que valorizem e comuniquem de forma eficaz a mensagem e os valores de cada marca ou empresa.

Quais são as grandes dificuldades que as empresas sentiram quando se viram obrigados a colocar alguns trabalhadores em teletrabalho?

É fundamental percebermos que a importância do trabalho em equipa nunca se vai sobrepor ao trabalho individual: é nisto que acredito e tento transmitir às minhas equipas. Se partirmos desta premissa e a assumirmos como fundamental para o sucesso das empresas é óbvio que o teletrabalho, por vezes, pode não ser favorável para a qualidade dos serviços que se pretendem entregar.

Confesso que, na minha opinião, a grande maioria das empresas não estava pronta para colocar os seus trabalhadores em casa, não só por uma questão de confiança que se levanta quando estão fora do radar dos donos do negócio, mas também por uma questão logística e de meios informáticos para tal.

Enquanto que a primeira questão se resolve com uma implementação de medidas de responsabilização dos colaboradores e uma forte cultura empresarial que assenta em princípios e valores fundamentais para qualquer empresa confiança, transparência e responsabilidade laboral a outra resolve-se com um forte investimento em hardware e software que, na parte das empresas, com a dificuldade que têm tido, não foi fácil investir.

Está confiante de que o Plano de Estabilização Económica e Social (PEES) pode ser útil na digitalização da economia?

Tendo como base a negociação e conclusão do processo de distribuição de fundos comunitários e sendo uma das principais bandeiras da União Europeia para o desenvolvimento e capacitação do tecido empresarial europeu, acredito que poderá ter um papel fundamental para as empresas.

Não estando ainda definidos limites, bem como áreas específicas de atuação deste programa na digitalização das empresas, esperemos ter algumas novidades em breve. Para além dos meios óbvios de comunicação como são um website, uma loja online ou a gestão das redes sociais, é fundamental que as empresas não fiquem estagnadas num investimento inicial e que tenham uma atitude proativa na atualização de conteúdos desses mesmos meios.

Bruno Mesquita, CEO da Belo Digital
Tivemos conhecimento de que a Belo Digital tem tido um papel relevante no apoio às empresas, no entanto, devido a esta pandemia e o futuro estar rodeado de incerteza, quais as dificuldades que prevê nesta temática?

Não colocaria a questão nas dificuldades de implementação de estratégias de comunicação, mas sim na consciencialização da importância e necessidade de transmitirem, de uma maneira profissional e planeada, toda a sua comunicação empresarial a fim de se destacarem de forma positiva e clara da sua concorrência.

Para uma agência que se instalou no mercado de Leiria há pouco mais de 3 anos o reconhecimento do nosso trabalho tem sido extremamente gratificante. Com mais de 250 projetos na área da comunicação digital desde websites, criação e ativação de marcas, rebranding de logótipos e gestão de redes sociais somos responsáveis pela gestão da comunicação de empresas que, em média, já contam mais de 20 anos de existência e que representam mais de €50M de faturação anual — o que implica um sentido de responsabilidade acrescido.

Não é por acaso que temos sido apelidados como “o departamento de marketing” das empresas, dada a proximidade e atenção que damos a cada um dos nossos clientes. Aliás, só assim podemos ir ao encontro das suas necessidades e, principalmente, das necessidades que os seus clientes têm ou possam vir a ter.

Fale-nos um pouco de si. Como consegue o Bruno Mesquita gerir o seu dia-a-dia já que tem uma grande variedade de áreas de negócio em que está envolvido?

Só com a melhor esposa e amiga do mundo e uma família e amigos muito compreensivos comigo é que consigo transmitir o meu conhecimento, a minha experiência, os meus princípios e valores a quem me acompanha diariamente. Confesso que sou um felizardo por ter as melhores pessoas a trabalhar comigo e que transformam as várias tarefas e decisões difíceis em momentos em equipa que, quando são partilhados, se tornam muito mais fáceis de decidir.

Tudo começou nas bases que me deram enquanto pessoa, a formação que tive em Vila Nova de Famalicão em Eng. Eletrónica e Informática em que aprendi imenso com professores fantásticos, até à partilha das primeiras experiências profissionais que adquiri enquanto trabalhador e enquanto gerente, administrador e gestor de empresas.

Neste momento tenho como responsabilidades principais a gestão da Belo Digital – Agência de Comunicação, em Leiria, onde são desenvolvidas estratégias de comunicação para empresas, a gestão na Belo Solutions – Indústria Têxtil, onde produzimos vestidos de noiva e mais recentemente equipamentos de proteção individual e como administrador da Rectimold – Produção de Moldes de Alta precisão, onde produzimos moldes técnicos para as áreas da saúde, relojoaria, armamento, irrigação e automóvel.

“Desemprego em Portugal pode fechar o ano nos 10%”

in Jornal Económico

Filipe Garcia, economista e presidente da IMF-Informação de Mercados Financeiros. foi o convidado da última edição do programa da JE TV “Mercados em Ação”. O economista realçou neste programa que o desemprego em Portugal pode fechar o ano nos 10%.

Trabalhadores com menos de 25 anos revelam níveis de insegurança laboral mais elevados, aponta estudo

José Varela Rodrigues, in Económico

São os mais jovens que revelam níveis mais elevados de insegurança laboral. Mas entre os inquiridos, a insegurança relacionada com o receio de perder ou reduzir condições e qualidade do trabalho, é superior ao receio de perder o emprego. É entre as mulheres que se regista um maior receio em perder o emprego.

A pandemia da Covid-19 tem gerado efeitos económicos nefastos e levantado receios junto da população laboral nacional em todas as áreas de atividade. Neste sentido, são os trabalhadores mais jovens, com idade inferior a 25 anos, que apresentam níveis mais elevados de insegurança laboral, segundo as conclusões de um estudo da Universidade Europeia sobre segurança no trabalho em contexto de pandemia, divulgado na terça-feira.

Aos receios dos mais jovens, acresce que os trabalhadores com vínculos laborais mais precários – seja por contratos a termo certo com empresas de trabalho temporário ou por contratos a termo – são os que “apresentam uma perceção de insegurança laboral mais elevada”.

Ou seja, segundo a análise da Universidade Europeia, “a insegurança relacionada com o receio de perder ou reduzir condições e qualidade do trabalho, é superior ao receio de perder o emprego”.

Já quanto à questão sobre que género apresenta maiores receios de insegurança laboral, concluiu-se que as mulheres revelam uma insegurança laboral “significativamente mais elevada do que os homens”. Ou seja, o estudo concluiu que o receio de perder o emprego e o receio em perder ou ver reduzida a qualidade das condições de trabalho, é superior entre as mulheres.


Quando a análise recaiu sobre as perceções de segurança ou insegurança laboral entre quem trabalha em regime de teletrabalho e quem não está em trabalho remoto, verificou-se que a maior parte da população que não está em teletrabalho revelou maior insegurança laboral.

Contudo, num contexto macroeconómico pós-pandemia, o estudo da Universidade Europeia concluiu que “a maior parte da população inquirida sente-se segura no trabalho face à ameaça da pandemia e concorda que a empresa na qual trabalha manterá todos os postos de trabalho e assegurará as condições de segurança no trabalho necessárias face às ameaças da Covid19”.

Ou seja, “o estudo deparou-se com um contexto de alguma tranquilidade e otimismo no que concerne à segurança nas condições de trabalho e no emprego”, apesar dos receios apurados entre os inquiridos.

As conclusões do estudo da Universidade Europeia basearam-se nas respostas de 1.519 inquiridos.

População disponível que não procurou trabalho regista aumento superior a 85%

João Barros, in Económico

Dados do INE revelam uma descida no desemprego para os 5,6%, mas também na população ativa e na empregada.

O desemprego em Portugal desceu para os 5,6% no segundo trimestre do ano, revelam os dados divulgados esta quarta-feira. Esta descida corresponde a menos 69,7 mil desempregados em relação ao trimestre anterior e menos 50,1 mil do que no mesmo período de 2019. O número total de desempregados no país é agora de 278,4 mil pessoas.

Já a população inativa aumentou 5,7% e 7,5%, comparando com o trimestre anterior e com o mesmo período de 2019, respetivamente, subidas estas mais elevadas do que alguma vez registadas desde o início da série, em 2011. Estes aumentos são explicados, em grande parte, pelo aumento da população inativa que, apesar de estar disponível, não procurou trabalho, que contabilizam 312,1 mil pessoas. Isto significa aumentos de 87,6% e 85,6% quando comparando, respetivamente, com o trimestre anterior e o período homólogo.

Também a população ativa e a empregada registaram descidas no período em análise, tanto em termos homólogos como relativamente ao trimestre anterior. A população ativa caiu 3,9% em relação ao primeiro trimestre do ano e 4,5%, comparando com o período homólogo; a população empregada registou uma diminuição de 2,8% face ao trimestre anterior e de 3,8%, comparando com o segundo trimestre de 2019.

Outro indicador salientado pelo INE é o volume de horas trabalhadas, em que se verifica reduções de 22,7% numa comparação trimestral e de 26,1% numa análise homóloga. Ambas as variações são as maiores registadas desde 2011 e são explicadas, sobretudo, pela população empregada ausente do trabalho. Estes valores resultam da falta ou redução de horário (que inclui situações de layoff, um mecanismo amplamente utilizado no contexto de pandemia que se vive), situação reportada por 680,1 mil pessoas. A taxa de subutilização do trabalho ficou-se nos 14%, mais 1,1pp do que no último trimestre e 1,6pp no mesmo período de 2019.


Do primeiro para o segundo trimestre do ano, 86,8 mil pessoas transitaram do emprego para o desemprego e 264,6 mil do emprego para a inatividade, o que contabiliza 351,4 mil pessoas que deixaram de estar empregadas no intervalo de um trimestre. Em sentido inverso, do desemprego para o emprego passaram 64,3 mil pessoas e mais 152,4 mil transitaram da inatividade para uma situação de emprego, perfazendo 216,8 mil pessoas a passarem para o emprego no período.

Em termos regionais, o Algarve exibe a maior taxa de desemprego, com 7,4%, seguido de Madeira e Lisboa, com 6,7& e 6,5%, respetivamente. No Alentejo verifica-se a mais baixa taxa de desemprego, com 3,3%.

Mais de um milhão de portugueses trabalharam a partir de casa

André Cabrita-Mendes, in Económico

Mais de um quinto da população portuguesa empregada esteve a trabalhar a partir de casa no segundo trimestre. Deste total, 91% disseram que isto deveu-se à pandemia da Covid-19.

Quase 1,1 milhões de portugueses trabalharam a partir de casa no segundo trimestre deste ano, segundo dados divulgados hoje pelo INE.

Este valor representa 23,1% do total da população empregada no país. Deste total, 91,2% disseram que a razão para estarem a trabalhar a partir de casa devido à pandemia da Covid-19.

No total, 1,038 milhões de pessoas utilizaram “tecnologias de informação e comunicação para poderem exercer a sua profissão em casa”.

Já um total de 643,8 mil pessoas com emprego não trabalharam no seu emprego principal durante este período nem em casa, nem noutro local. Deste total, 76,3% disseram que isto deveu-se à pandemia da Covid-19.

INE divulga esta quarta-feira números do desemprego no segundo trimestre em Portugal

João Barros, in Económico

INE divulga dados do desemprego no trimestre que começa em abril, quando a situação epidemiológica mais condicionou a economia

São conhecidos esta quarta-feira os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o desemprego em Portugal no segundo trimestre do ano. A divulgação tem sido bastante aguardada, dado o contexto de pandemia que se vive e o impacto profundo que esta teve no mercado de trabalho, tanto no nível do emprego de quase todas as economias mundiais, como na forma como este se organiza.

Apesar do contexto adverso em que se encontra a economia portuguesa, os efeitos na taxa de desemprego não se fizeram sentir como alguns adivinhariam. No último trimestre, a taxa registada pelo INE foi de 6,7%, a mesma que no último trimestre de 2019.

Na realidade, grande parte do impacto no mercado de trabalho traduziu-se na destruição de postos de trabalho e num sub-emprego galopante, que reflete o recurso em massa aos regimes de layoff simplificado. Nestas condições, os trabalhadores não contam como desempregados e, portanto, não se verifica um aumento na taxa de desemprego. Também trabalhadores em confinamento ou a cuidar dos filhos em casa deixam de poder procurar ativamente um emprego, pelo que são contabilizados como inativos.

Dados provisórios divulgado esta semana pelo Eurostat apontam para uma taxa de desemprego de 7% na economia nacional. Já o Banco de Portugal, no seu Boletim Económico de junho, previa que o ano terminasse com 10,1% de taxa de desemprego, alertando, no entanto, para o efeito mitigador neste número das medidas de apoio ao emprego, nomeadamente o regime de layoff.


Esta semana, além dos dados do Eurostat, foram conhecidos os números do desemprego em Espanha, que, apesar de ter verificado uma pequena descida, regista a maior taxa da UE (15,33% no segundo trimestre de 2020). Espanha é o maior parceiro comercial português. Também os EUA apresentarão os números relativos ao desemprego em julho esta sexta-feira.

Há quatro anos que não havia tantos desempregados com o ensino secundário

Sónia M. Lourenço, in Expresso

O número de desempregados registados no centros de emprego subiu em força desde o início da pandemia e são os trabalhadores com habilitações ao nível do ensino secundário que mais estão a alimentar este aumento. São já acima de 129 mil, o valor de maior expressão desde maio de 2016

São mais de 129 mil. É esse o número de desempregados inscritos nos centros de emprego com qualificações ao nível do ensino secundário. É o valor mais elevado dos últimos quatro anos.

O Expresso analisou os números do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e concluiu que são estes trabalhadores com qualificações intermédias que mais estão a alimentar a subida do desemprego registado desde o início da crise provocada pela pandemia de Covid-19.

Comparando o mês de junho (últimos dados disponíveis) com o mês fevereiro (pré-pandemia), o número de desempregados inscritos nos centros de emprego subiu em força. São mais 91.103 pessoas (29%), atingindo um total de 406.665 desempregados.

Ora, 42% deste aumento (mais 37.838 pessoas) é explicado por desempregados com qualificações ao nível do ensino secundário. São agora 129.059, mais 41% do que em fevereiro. E economistas ouvidos pelo Expresso alertam que o seu regresso ao emprego pode tardar.

Mais ainda, este é o valor mais elevado desde maio de 2016. Ou seja, há mais de quatro anos que não havia tantos desempregados registados em Portugal com habilitações ao nível do ensino secundário.

O peso destes profissionais no aumento do desemprego registado é, até agora, muito superior ao dos trabalhadores com o terceiro ciclo do ensino básico (9º ano de escolaridade), que, com mais 22.221 pessoas, ocupam o segundo lugar neste ranking.

Já os desempregados com qualificações mais elevadas (ensino superior) ou mais modestas (até ao segundo ciclo do ensino básico) sofreram, até agora, aumentos menos marcados no desemprego registado.



Portugueses foram menos às compras mas gastaram mais até junho

in Dinheiro Vivo

Compras no online de bens de grande consumo cresceram 50% mas só representam 3,2% do mercado, segundo estudo da Kantar e Centromarca.

O mercado de grande consumo, que inclui alimentação, bebidas, higiene pessoal e do lar, cresceu, em valor, quase 12% no primeiro semestre, face a 2019, segundo um estudo da Kantar para a Centromarca revelado esta terça-feira.

“Nos primeiros seis meses do ano, o mercado dos ‘Fast Moving Consumer Goods’ (FMCG), que engloba as categorias de alimentação, bebidas, higiene pessoal e higiene do lar, apresentou um crescimento, em valor, de 11,8% face a igual período de 2019”, indicou, em comunicado, a Kantar.

De acordo com o estudo, “se cada lar realizou, durante o primeiro semestre de 2019, 64,6 idas a lojas para a compra de produtos de grande consumo”, nos primeiros seis meses de 2020, verificaram-se menos quatro visitas por lar, um decréscimo compensado por uma progressão de 14% no volume adquirido em cada compra, bem como pelo crescimento de 18,7% no valor gasto.

“Nos primeiros seis meses deste ano, ocorreram menos 15 milhões de ocasiões de compra em FMCG face ao mesmo período do ano passado.

O estudo mostra uma redução do número de visitas às lojas e uma duração menor de cada uma dessas idas às compras, mas também a resistência dos alimentos, das bebidas e dos produtos de higiene que registam até algum crescimento”, notou, citado no mesmo documento, a ‘manufacturers sector director’ da Kantar, Marta Santos.

Por sua vez, o consumo fora de casa tem registado um “regresso gradual” associado ao desconfinamento progressivo, verificando-se o crescimento do ‘snacking’ e do consumo de produtos de indulgência, como gelados e algumas bebidas alcoólicas.

Durante o confinamento, verificou-se uma estabilização dos preços médios e o crescimento das vendas em volume e valor, “bastante mais relevante no caso das marcas de distribuidor do que nas marcas de fabricante”. Conforme explicou a mesma responsável, nos primeiros meses da pandemia de covid-19, não se assistiu a um aumento dos preços, mas a uma redução do número de promoções dos produtos menos vendidos “na fase de maior confinamento”.

Já no que se refere aos locais de compra, os híper e supermercados “perdem algum espaço” para os ‘discounts’ e para o comércio tradicional. Por sua vez, no ‘online’ as vendas FMCG subiram cerca de 50%, passando a representar, no final do semestre, 3,2% das vendas totais. “A dinâmica do canal ‘online’ é um dos aspetos que marca mais este semestre e os comportamentos de consumo associados à pandemia, sendo expectável que o crescimento continue a verificar-se no curto/médio prazo.

É também interessante avaliar como a ‘performance’ do retalho apresenta altos e baixos, e verificar que alguns operadores relevantes mostram fortes dificuldades neste período, enquanto outros apresentam uma trajetória vencedora nos últimos meses”, considerou, por seu turno, o diretor-geral da Centromarca, Pedro Pimentel.

Os consumidores avançaram ainda que, nos próximos tempos, pretendem aumentar a compra de produtos locais, recorrer a estabelecimentos mais perto de casa, reduzir o tempo passado dentro das lojas e substituir, sempre que possível, as compras físicas pelas ‘online’. Este estudo baseou-se no painel de lares de Kantar, com uma amostra de quatro mil lares participantes, representativos de Portugal continental. Os resultados têm um nível de confiança de 95% e um erro amostral associado de 1,96%.

Economia 43% das empresas de restauração e bebidas pondera a insolvência

Ana Sofia Santos, in Expresso

Inquérito da AHRESP revela que a incapacidade para fazer face às despesas não deixa outra hipótese aos empresários. Cenário de crise no sector “intensifico-se”, apesar do início da retoma da atividade económica e de estarmos em período de época alta 

“No início da retoma, e em pleno período da tradicional ‘época alta’, a crise já instalada na restauração e no alojamento intensificou-se” é desta forma que a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) inicia um comunicado a dar conta dos “resultados verdadeiramente alarmantes” do seu inquérito mensal às empresas.

No total, a organização obteve 1377 respostas válidas, numa auscultação feita entre 31 de julho e 3 de agosto, que traçam um “cenário sem esperança para milhares de empresas e dezenas de milhares de postos de trabalho”.

No sector da restauração e bebidas, 43% das empresas ponderam avançar para insolvência, “dado que a esmagadora maioria refere que não irá conseguir suportar os encargos habituais, como pessoal, rendas, energia, fornecedores e outros, a partir do mês de agosto”. No caso dos espaços de animação noturna (bares e discotecas) a realidade é mais grave: 62% dos operadores estão à beira de atingir uma situação em que já não são capazes de fazer face às obrigações assumidas.

A AHRESP adianta ainda que os inquiridos frisam que “a faturação do mês de julho foi avassaladora”, com 75% das empresas a registarem perdas acima dos 40%. No que respeita aos salários devidos no mês que passou, o inquérito revela que mais de 16% dos empresários não conseguiram remunerar os trabalhadores e que 14% só pagou parcialmente.

“Com esta realidade, 16% das empresas já efetuaram despedimentos desde o início do estado de emergência e mais de 30% das empresas assumem que não vão conseguir manter todos os postos de trabalho até ao final do ano”, refere a associação.

Sobre os apoios ao sector, 44% dos inquiridos pretendem recorrer aos novos mecanismos de apoio à manutenção dos postos de trabalho e 52% destes irá optar pelo apoio à retoma progressiva e 48% pelo incentivo extraordinário à normalização da atividade (cujas candidaturas se iniciaram ontem, terça-feira). No que toca a medidas de âmbito financeiro, 54% das empresas recorreram a financiamento, com 84% a terem o processo aprovado. Por outro lado, 39% dos empresários indicam que irão recorrer à nova linha de crédito dos mil milhões de euros.

Alojamento turístico também permanece em maus lençóis

No sector do alojamento turístico o retrato não destoa e é “igualmente alarmante”. “Durante todo o mês de julho, 27% das empresas não registaram qualquer ocupação e 20% indicou uma ocupação máxima de 10%. Estes resultados traduzem-se numa quebra homóloga superior a 90% na taxa de ocupação, referida por cerca de 36% das empresas”, indicam os dados do inquérito da AHRESP.

E agosto não augura melhorias. Aliás, “indicia resultados muito preocupantes, pois 19% das empresas não esperam uma taxa de ocupação acima dos 10%, e mais de 24% das empresas perspetivam uma ocupação entre 10% e 30%”.

O que leva 17% dos agentes económicos a equacionarem ter de avançar para insolvência, “caso não consigam suportar todos os encargos”.

Quanto aos vencimentos devidos aos colaboradores, mais de 22% das empresas não conseguiram efetuar o pagamento dos salários em julho e 9% só o fez de forma parcial. Além disso, com esta realidade, “cerca de 15% das empresas assumem que não vão conseguir manter todos os postos de trabalho até ao final do ano, e 61% das empresas ainda não sabem se vão conseguir manter a totalidade dos seus trabalhadores”.

No caso dos apoios à manutenção dos postos de trabalho, apenas 25% sinaliza a intenção de usufruir deste mecanismo, enquanto 31% das empresas recorreram a financiamento (dessas, 86% tiveram luz verde da instituição financeira).

A AHRESP adianta ainda que os dados nacionais, quer da restauração e bebidas, quer do alojamento turístico, “não evidenciam diferenças muito significativas entre as várias regiões”, sendo que esta avaliação foi feita nas cinco regiões do continente (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve) e nas duas regiões autónomas (Açores e Madeira).