Carlos Ferro, in Diário de Notícias
Recrutamento está a aumentar. A procura já é superior à oferta. Salários chegam a ultrapassar os 1800 euros, mais o alojamento
O Reino Unido e a Alemanha estão a contratar em Portugal dezenas de auxiliares para trabalhar em lares, centros de saúde e em casas de idosos do país. Os britânicos pagam três vezes mais do que em Portugal, com salários a chegarem aos 1800 euros. Profissionais da área da saúde e desempregados são os mais recrutados. O interesse no recrutamento de cidadãos nacionais para esta área de cuidados de saúde especializados sofreu um grande aumento no ano passado, mantendo-se nos primeiros dois meses de 2017 dezenas de ofertas para o setor em sites de empresas de recrutamento. Isto apesar do brexit, cujos eventuais efeitos são, para já, desvalorizados.
Para conseguir convencer as pessoas a irem trabalhar para Inglaterra, é oferecido um salário que pode chegar aos 1800 euros mensais (se for para ficar em casa de um idoso pode subir, e ir até aos cem euros/dia em média), quando em Portugal um auxiliar ganha, na maior parte dos casos, o salário mínimo: 557 euros. Além de existir a possibilidade de lhes ser oferecido o alojamento e as refeições, no caso das pessoas que são contratadas para trabalhar como internas.
A procura é tal que, segundo garantiram ao DN responsáveis de algumas das empresas contactadas, chega a não haver resposta para tanto interesse, principalmente das instituições britânicas. "Há uma procura massiva de auxiliares de ação médica e geriatria. Até está a acontecer que algumas empresas inglesas estão a instalar filiais em Portugal. Apesar de outras preferirem fazer parcerias com empresas nacionais", confirmou ao DN Helena Ribeiro, responsável da Go Work, uma das firmas de recrutamento que trabalham na área da saúde.
"Esta área é muito forte no Reino Unido. Têm muitos idosos que precisam de cuidados, mesmo em casa", sublinhou ao DN Filipe Amorim, da Manda-te.com. "Neste último ano, colocámos 40 pessoas", acrescentou , lembrando que nesse período receberam 3000 candidaturas para trabalhar na área.
Cuidar de doentes como a sogra
Nas ofertas de trabalho que existem online não é feita nenhuma exigência especial, basta falar um pouco de inglês. Não é pedida experiência ou formação para trabalhar com idosos, nem idades específicas. Até porque ao chegar a Inglaterra - o mercado que mais procura estes profissionais em Portugal, tendo também a Alemanha contratado muitas pessoas - as entidades para as quais vão trabalhar são obrigadas a dar formação aos funcionários de forma a receberem o certificado que os autoriza a trabalhar.
Com uma população idosa de cerca de 11 milhões de pessoas (com mais de 65 anos e segundo dados do início de 2016), para uma população total de 64 milhões (em 2014, os dados oficiais mais recentes), o Reino Unido necessita de pessoal para trabalhar neste setor para o qual as entidades locais não parecem encontrar interessados. "Aquilo de que nos vamos apercebendo é que a razão para os ingleses contratarem pessoas para tratar dos idosos está relacionada com a sua falta de aptidão técnica e comportamental para este trabalho. Não é qualquer pessoa que tem aptidão para tratar de um idoso ou de uma pessoa acamada", adiantou ao DN Helena Ribeiro, cuja empresa está a colocar pessoas a trabalhar em centros de saúde.
Maria do Carmo (55 anos) é um exemplo de uma pessoa que decidiu deixar Portugal para ir tratar de idosos, atualmente em Londres. "Estava desempregada e decidi emigrar, já estive em três países e agora estou no Reino Unido", contou ao DN. Cuida de idosos com Alzheimer, um trabalho que "exige grande disponibilidade, atenção e dedicação. O facto de ter cuidado da minha sogra, que sofria dessa doença, despertou-me a sensibilidade e foi no Reino Unido, que tem uma grande percentagem de idosos portadores dessa doença, que encontrei muita necessidade de geriatras".
Esta facilidade de trabalhar com pessoas de idade que os portugueses demonstram é um fator que contribui para a boa imagem que lhes é reconhecida e para a qual foi importante o trabalho dos enfermeiros que emigraram em força para o Reino Unido a partir de 2011.
"Há falta de pessoal na área da saúde e por isso eles [as empresas inglesas] recorrem a Portugal. Até 2013 recorriam a enfermeiros, mas, como passou a ser obrigatório um exame de inglês para esta classe poder trabalhar lá - tem de ter uma nota de sete numa escala que vai até nove -, as empresas começaram a recorrer mais aos auxiliares", explicou ao DN Ricardo Magalhães, da Reach Health Recruitment. Que garante ter a sua empresa candidaturas de pessoas com e sem formação e de várias idades. Em Inglaterra vão trabalhar para lares (privados ou públicos) e com um vencimento que não é comparável ao oferecido em Portugal. "Vão receber 1800 euros por mês, cá não ganham nada parecido", frisou.
Aproveitar, apesar do brexit
Ir para o Reino Unido com pouco mais de 300 euros foi o desafio de Filipa Silva, que aos 39 anos e desempregada decidiu aceitar a proposta de trabalho como "auxiliar de saúde". "Falava-se no brexit, é evidente que pensei como seria o cenário dos próximos tempos, mas também pensei que se não aproveitasse esta oportunidade podia não ter outra", adiantou ao DN esta estudante de Gestão, do ISCAL, e que sempre trabalhou na área administrativa.
Sobre o trabalho, frisa que foi "um desafio, confesso que pela positiva. Sabia que o meu interesse pela área da saúde é imenso, mas daí a imaginar que viria a trabalhar na área nunca me passou pela cabeça. São 12 horas por dia, verdadeiramente árduos em termos físicos e psicológicos", contou.
Entre os trabalhadores e recrutadores ouvidos pelo DN, o brexit (saída do Reino Unido da União Europeia, com consequências a nível da mobilidade e autorizações de trabalho) não atemoriza. Em geral, dizem que o risco ainda compensa.
Em Portugal falta pessoal
A falta de auxiliares de geriatria não é um problema apenas no Reino Unido ou na Alemanha. Também em Portugal os lares e as casas de repouso têm dificuldades em criar equipas, como disse ao DN João Ferreira de Almeida. O presidente da Associação de Apoio Domiciliário, de Lares e Casas de Repouso de Idosos reconhece que esta questão é problemática, mas não porque as pessoas estejam a emigrar. "Há muitos anos que temos dificuldades de recrutamento de ajudantes de ação direta, como é o nome da profissão", diz, explicando a razão: "A maioria ganha o ordenado mínimo, apesar de haver lares a pagar acima disso. Já disse a muitos sócios que se estão satisfeitos com as equipas lhes devem pagar melhor, para que fiquem. Além disso, há muita falta de profissionalismo."
7.3.17
Emigração portuguesa para o Reino Unido caiu 5% em 2016
in Diário de Notícias
Em 2015 as inscrições na segurança social britânica atingiram um pico de 32.301
O número de portugueses que emigrou para o Reino Unido para trabalhar caiu cinco por cento em 2016, em linha com a queda do fluxo migratório geral registado após o voto para o Brexit, foi hoje divulgado.
Em 2016, 30.543 portugueses pediram um número de Segurança Social no Reino Unido, menos 1.758 do que em 2015, ano em que as inscrições atingiram um pico de 32.301.
A inscrição na Segurança Social britânica é obrigatória para as pessoas que queiram trabalhar no país pela primeira vez, porém não equivale ao número exato de emigrantes portugueses que chegaram e ficaram ao Reino Unido porque não contabiliza dependentes nem pessoas inativas profissionalmente.
Estas foram as primeiras estatísticas indicativas dos fluxos migratórios publicadas desde o voto no referendo de 23 de junho de 2016 que ditou a saída britânica da União Europeia.
Os mesmos números, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Pensões, indicam que registaram-se quebras na imigração de outros países europeus, como Polónia (-16%, para 93.372), Hungria (-14%, para 19.152) ou Irlanda (-13%, para 15.332).
Ainda assim, Portugal continua a ser a sexta maior fonte de imigração para o Reino Unido, atrás da Roménia, Polónia, Itália, Espanha, Bulgária e Índia.
Em dados separados, o Instituto Nacional de Estatísticas indicou que o número total de imigrantes desceu abaixo da barreira dos 300 mil, resultado tanto da diminuição de estrangeiros que entraram no país, como de residentes, britânicos e estrangeiros, que deixaram o Reino Unido.
No período entre setembro de 2015 e setembro de 2016 entraram no país cerca de 596 mil pessoas, mas saíram 323 mil, o que resulta numa "imigração líquida" de 273 mil pessoas, menos 49 mil pessoas do que as 322 mil registadas entre setembro de 2014 e 2015.
Em 2015 as inscrições na segurança social britânica atingiram um pico de 32.301
O número de portugueses que emigrou para o Reino Unido para trabalhar caiu cinco por cento em 2016, em linha com a queda do fluxo migratório geral registado após o voto para o Brexit, foi hoje divulgado.
Em 2016, 30.543 portugueses pediram um número de Segurança Social no Reino Unido, menos 1.758 do que em 2015, ano em que as inscrições atingiram um pico de 32.301.
A inscrição na Segurança Social britânica é obrigatória para as pessoas que queiram trabalhar no país pela primeira vez, porém não equivale ao número exato de emigrantes portugueses que chegaram e ficaram ao Reino Unido porque não contabiliza dependentes nem pessoas inativas profissionalmente.
Estas foram as primeiras estatísticas indicativas dos fluxos migratórios publicadas desde o voto no referendo de 23 de junho de 2016 que ditou a saída britânica da União Europeia.
Os mesmos números, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Pensões, indicam que registaram-se quebras na imigração de outros países europeus, como Polónia (-16%, para 93.372), Hungria (-14%, para 19.152) ou Irlanda (-13%, para 15.332).
Ainda assim, Portugal continua a ser a sexta maior fonte de imigração para o Reino Unido, atrás da Roménia, Polónia, Itália, Espanha, Bulgária e Índia.
Em dados separados, o Instituto Nacional de Estatísticas indicou que o número total de imigrantes desceu abaixo da barreira dos 300 mil, resultado tanto da diminuição de estrangeiros que entraram no país, como de residentes, britânicos e estrangeiros, que deixaram o Reino Unido.
No período entre setembro de 2015 e setembro de 2016 entraram no país cerca de 596 mil pessoas, mas saíram 323 mil, o que resulta numa "imigração líquida" de 273 mil pessoas, menos 49 mil pessoas do que as 322 mil registadas entre setembro de 2014 e 2015.
Taxa de pobreza melhorou, mas continua acima de valores de 2010
in Notícias ao Minuto
A taxa de risco de pobreza desceu em 2015 para 19% da população portuguesa com rendimentos mais baixos e que recebe prestações sociais, mas mantém-se acima dos valores registados no início da década, segundo dados divulgados hoje pelo INE.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou hoje um conjunto de indicadores socioeconómicos atualizados entre 1990 e 2015, concluindo que o risco de pobreza após prestações sociais se tenha situado em 19% em 2015.
Isto significa uma queda de 0,5 pontos percentuais face aos dois anos anteriores (19,5%, o valor mais elevado desde 2004), mas significa que a taxa se mantém em valores "mais elevados do que o alcançado no início da década (o diferencial é de um ponto percentual)".
Este indicador, que mede a percentagem do total da população cujo rendimento se encontra abaixo da linha de pobreza (definida como 60% do rendimento mediano), engloba os rendimentos provenientes das pensões (velhice e sobrevivência), bem como as transferências sociais (relacionadas com doença, incapacidade, apoio à família, desemprego e inserção social).
"Considerando apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, o risco de pobreza seria de 46,3%, menos 1,5 pontos percentuais do que em 2013 e 2014 e um pouco acima do que se verificara em 2012", alerta o INE.
"Considerando adicionalmente as pensões, o risco de pobreza em 2015 seria de 25,1%, o que representa uma melhoria face ao ano precedente, e também melhorando face ao valor de 2012", acrescenta.
Já comparando com a União Europeia, o risco de pobreza tem sido mais elevado em Portugal: a taxa média para o conjunto dos 28 Estados-membros foi de 17,3% em 2014 (último ano disponível com indicadores a nível europeu), contra 19,5% para Portugal.
O INE revela já dados da taxa de privação material (a percentagem de pessoas que viviam em agregados com a falta de pelo menos três dos nove itens de privação por motivos económicos) de 2016: foi de 19,5%, o que representa uma melhoria de 2,1 pontos percentuais, embora mais lenta do que a registada no ano anterior (4,1 pontos percentuais).
"Porém, numa perspetiva temporal mais alargada, este indicador não tem apresentado uma tendência evidente, sendo o seu valor médio na ordem de 22,3%", afirma o INE.
Os números do INE demonstram também que em 2015 se registou uma atenuação da desigualdade na distribuição do rendimento, "contrariando o que acontecera nos cinco anos precedentes".
Em 2015, "o rendimento monetário líquido equivalente de 20% da população com maior rendimento foi 5,9 vezes superior ao rendimento de 20% da população com menor rendimento". Este valor representa um ténue decréscimo face aos resultados do ano precedente, de novo contrariando a tendência de aumento que se observara entre 2010 e 2013.
Este indicador "continua a refletir uma situação de maior desigualdade relativamente à média europeia, embora em menor grau do que nos primeiros cinco anos da década anterior, período em que o diferencial foi superior a 2,2 pontos percentuais".
A taxa de risco de pobreza desceu em 2015 para 19% da população portuguesa com rendimentos mais baixos e que recebe prestações sociais, mas mantém-se acima dos valores registados no início da década, segundo dados divulgados hoje pelo INE.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou hoje um conjunto de indicadores socioeconómicos atualizados entre 1990 e 2015, concluindo que o risco de pobreza após prestações sociais se tenha situado em 19% em 2015.
Isto significa uma queda de 0,5 pontos percentuais face aos dois anos anteriores (19,5%, o valor mais elevado desde 2004), mas significa que a taxa se mantém em valores "mais elevados do que o alcançado no início da década (o diferencial é de um ponto percentual)".
Este indicador, que mede a percentagem do total da população cujo rendimento se encontra abaixo da linha de pobreza (definida como 60% do rendimento mediano), engloba os rendimentos provenientes das pensões (velhice e sobrevivência), bem como as transferências sociais (relacionadas com doença, incapacidade, apoio à família, desemprego e inserção social).
"Considerando apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, o risco de pobreza seria de 46,3%, menos 1,5 pontos percentuais do que em 2013 e 2014 e um pouco acima do que se verificara em 2012", alerta o INE.
"Considerando adicionalmente as pensões, o risco de pobreza em 2015 seria de 25,1%, o que representa uma melhoria face ao ano precedente, e também melhorando face ao valor de 2012", acrescenta.
Já comparando com a União Europeia, o risco de pobreza tem sido mais elevado em Portugal: a taxa média para o conjunto dos 28 Estados-membros foi de 17,3% em 2014 (último ano disponível com indicadores a nível europeu), contra 19,5% para Portugal.
O INE revela já dados da taxa de privação material (a percentagem de pessoas que viviam em agregados com a falta de pelo menos três dos nove itens de privação por motivos económicos) de 2016: foi de 19,5%, o que representa uma melhoria de 2,1 pontos percentuais, embora mais lenta do que a registada no ano anterior (4,1 pontos percentuais).
"Porém, numa perspetiva temporal mais alargada, este indicador não tem apresentado uma tendência evidente, sendo o seu valor médio na ordem de 22,3%", afirma o INE.
Os números do INE demonstram também que em 2015 se registou uma atenuação da desigualdade na distribuição do rendimento, "contrariando o que acontecera nos cinco anos precedentes".
Em 2015, "o rendimento monetário líquido equivalente de 20% da população com maior rendimento foi 5,9 vezes superior ao rendimento de 20% da população com menor rendimento". Este valor representa um ténue decréscimo face aos resultados do ano precedente, de novo contrariando a tendência de aumento que se observara entre 2010 e 2013.
Este indicador "continua a refletir uma situação de maior desigualdade relativamente à média europeia, embora em menor grau do que nos primeiros cinco anos da década anterior, período em que o diferencial foi superior a 2,2 pontos percentuais".
Mães antes do tempo. Seis adolescentes dão à luz todos os dias em Portugal
Joana Capucho, in Diário de Notícias
O número está a descer, mas, em 2015, ainda houve 2295 nascimentos de mães entre os 11 e os 19 anos. Em 1980, eram quase 18 mil
"Quando descobri que estava grávida de dois meses tinha 16 anos. Falaram-me no aborto, mas isso nunca foi uma hipótese. Tive medo, claro, porque não sabia o que era ser mãe. Mas, por outro lado, também fiquei contente." Susana, de 18 anos, vive desde novembro de 2015 numa instituição que apoia mães adolescentes, na Maia. Depois do choque inicial, a mãe "acabou por aceitar a gravidez", mas "não tinha condições" para a criar, nem à neta. "Não havia outra hipótese a não ser uma instituição." Belany tem hoje 16 anos, um filho de 1 ano e uma história idêntica. Vive na casa de acolhimento para adolescentes da Associação Humanidades, em Lisboa. Chegou ali aos 15 anos, no início da gravidez, mas já vinha de uma outra instituição para jovens, onde viveu durante algum tempo. A família, apesar de não ter meios para a receber, sempre a apoiou, "não é uma família ausente". Tanto que agora já vai a casa passar alguns fins de semana. O bebé de Belany nasceu prematuramente, não foi fácil. Agora, está ótimo, a crescer normalmente, e ela voltou à escola, para completar a escolaridade obrigatória, que tinha interrompido.
Em Portugal, uma média de seis adolescentes dão à luz todos os dias. Segundo dados de 2015, os últimos disponíveis, nasceram 2295 bebés de mães entre os 11 e os 19 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), este número foi o mais baixo de sempre, desde o final da década dos anos de 1970. No início desta década, a média de adolescentes que davam à luz atingia as dez por dia. Em 2011, por exemplo, nasceram 3663 bebés na faixa etária mais jovem. Para Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família, a diminuição da maternidade na adolescência não pode ser analisada sem se ter em conta que "Portugal tem hoje menos adolescentes do que tinha". Mas essa não é a única explicação: "O acesso à informação é mais fácil e existe uma generalização da educação para a saúde nas escolas", afirma, destacando que tivemos "anos de crise, e há mais preocupação em não engravidar. Os adolescentes acabam por se informar mais".
Elsa Mota, psicóloga da Divisão de Saúde Sexual Reprodutiva, Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde, confirma que esta diminuição está relacionada "com estratégias múltiplas da saúde e educação, como a disponibilização de métodos contracetivos no Serviço Nacional de Saúde, contraceção de emergência e com o acesso a consultas de planeamento familiar". Os números de gravidezes precoces, que coincidem quase sempre com o número de nascimentos, a não ser que haja um caso raro de gravidez gemelar, baixaram. Isto sem que tivesse aumentado o número de interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Ainda de acordo com os dados do INE, em 2011 houve 2274 IVG em jovens entre os 15 e os 19 anos (11,1% do total em todas as mulheres). Em 2015, as IVG baixaram para os 1708 (10,38%).
Na década de 1980, Portugal era dos países da Europa com uma das taxas mais elevadas de mães adolescentes (ver texto ao lado ). Os números provam: em 1980, houve 17 973 mães adolescentes que deram à luz. Duarte Vilar reconhece que os números "são hoje menos preocupantes", mas "uma mãe adolescente deve ser sempre um motivo de preocupação". Ainda há muitas situações em que "a maternidade na adolescência gera pobreza e abandono, até porque muitas jovens já são originárias de famílias carenciadas e vulneráveis". A psicóloga Elsa Mota diz: "Só em determinados meios é que uma gravidez aos 16 anos é bem enquadrada, a maioria dos pais não aceita. É mais um bebé para eles."
Escolas e pais alinhados
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, diz que "as escolas estão muito sensibilizadas para fazer que a gravidez na adolescência diminua", tanto pela ação de "psicólogos como nas aulas de educação para a cidadania, onde professores, médicos e enfermeiros fazem um trabalho notável". Na opinião deste dirigente de escolas, "os pais também têm hoje um diálogo mais aberto e franco sobre esta temática com os filhos". Mas seria importante, sugere, que "os professores das diferentes disciplinas tivessem formação" para abordar os mesmos assuntos nas aulas. Dados do estudo Health Behaviour in School-Aged Children revelam que, na generalidade, os adolescentes de 15 anos que já tiveram relações sexuais são cada vez menos - passaram de 18,2% para 16,1% entre 2006 e 2014 -, mas os que são sexualmente ativos usam menos o preservativo (25% não usaram, em 2014), quando, em 2010, só 10% diziam não o fazer.
A socióloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora nacional do estudo, diz que "o uso do preservativo baixou, o que é um risco para as infeções sexualmente transmissíveis". No entanto, sublinha, houve alterações que têm resultado na diminuição da gravidez na adolescência, como o uso de outros meios de contraceção, a pílula, disponibilizada nas consultas de planeamento nos centros de saúde.
Uma gravidez precoce tem riscos biológicos, mas um impacto social mais alargado. "Os jovens "saltam passos" numa trajetória de desenvolvimento pessoal e social, com prejuízo da sua escolarização, do seu convívio entre pares e da vivência da sua própria adolescência", alerta a socióloga. Carla, 19 anos, entrou na Associação Humanidades, em Lisboa, aos 15 e recorda que quando ficou grávida achou que "nunca mais acabaria os estudos". Estava sozinha, sem o apoio do pai do bebé ou da família. "Ouvi comentários negativos, olhavam para mim de lado." Enquanto viveu na instituição conseguiu acabar o 12.º ano. Renata Cortiço, responsável pela residência que acolhe estas mães, não nota diminuição na maternidade entre as jovens, porque os seis quartos da unidade estão sempre cheios. Ali vão parar casos referenciados pelo tribunal ou pelas comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. "Muitas vezes, as coisas já não estavam a correr bem na vida destas jovens antes da gravidez. Normalmente, já havia o abandono escolar." E, em algumas situações, "há quem já esteja a viver em instituições, devido a casos de abuso sexual, violência ou de maus--tratos dentro da família".
O número está a descer, mas, em 2015, ainda houve 2295 nascimentos de mães entre os 11 e os 19 anos. Em 1980, eram quase 18 mil
"Quando descobri que estava grávida de dois meses tinha 16 anos. Falaram-me no aborto, mas isso nunca foi uma hipótese. Tive medo, claro, porque não sabia o que era ser mãe. Mas, por outro lado, também fiquei contente." Susana, de 18 anos, vive desde novembro de 2015 numa instituição que apoia mães adolescentes, na Maia. Depois do choque inicial, a mãe "acabou por aceitar a gravidez", mas "não tinha condições" para a criar, nem à neta. "Não havia outra hipótese a não ser uma instituição." Belany tem hoje 16 anos, um filho de 1 ano e uma história idêntica. Vive na casa de acolhimento para adolescentes da Associação Humanidades, em Lisboa. Chegou ali aos 15 anos, no início da gravidez, mas já vinha de uma outra instituição para jovens, onde viveu durante algum tempo. A família, apesar de não ter meios para a receber, sempre a apoiou, "não é uma família ausente". Tanto que agora já vai a casa passar alguns fins de semana. O bebé de Belany nasceu prematuramente, não foi fácil. Agora, está ótimo, a crescer normalmente, e ela voltou à escola, para completar a escolaridade obrigatória, que tinha interrompido.
Em Portugal, uma média de seis adolescentes dão à luz todos os dias. Segundo dados de 2015, os últimos disponíveis, nasceram 2295 bebés de mães entre os 11 e os 19 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), este número foi o mais baixo de sempre, desde o final da década dos anos de 1970. No início desta década, a média de adolescentes que davam à luz atingia as dez por dia. Em 2011, por exemplo, nasceram 3663 bebés na faixa etária mais jovem. Para Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família, a diminuição da maternidade na adolescência não pode ser analisada sem se ter em conta que "Portugal tem hoje menos adolescentes do que tinha". Mas essa não é a única explicação: "O acesso à informação é mais fácil e existe uma generalização da educação para a saúde nas escolas", afirma, destacando que tivemos "anos de crise, e há mais preocupação em não engravidar. Os adolescentes acabam por se informar mais".
Elsa Mota, psicóloga da Divisão de Saúde Sexual Reprodutiva, Infantil e Juvenil da Direção-Geral da Saúde, confirma que esta diminuição está relacionada "com estratégias múltiplas da saúde e educação, como a disponibilização de métodos contracetivos no Serviço Nacional de Saúde, contraceção de emergência e com o acesso a consultas de planeamento familiar". Os números de gravidezes precoces, que coincidem quase sempre com o número de nascimentos, a não ser que haja um caso raro de gravidez gemelar, baixaram. Isto sem que tivesse aumentado o número de interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Ainda de acordo com os dados do INE, em 2011 houve 2274 IVG em jovens entre os 15 e os 19 anos (11,1% do total em todas as mulheres). Em 2015, as IVG baixaram para os 1708 (10,38%).
Na década de 1980, Portugal era dos países da Europa com uma das taxas mais elevadas de mães adolescentes (ver texto ao lado ). Os números provam: em 1980, houve 17 973 mães adolescentes que deram à luz. Duarte Vilar reconhece que os números "são hoje menos preocupantes", mas "uma mãe adolescente deve ser sempre um motivo de preocupação". Ainda há muitas situações em que "a maternidade na adolescência gera pobreza e abandono, até porque muitas jovens já são originárias de famílias carenciadas e vulneráveis". A psicóloga Elsa Mota diz: "Só em determinados meios é que uma gravidez aos 16 anos é bem enquadrada, a maioria dos pais não aceita. É mais um bebé para eles."
Escolas e pais alinhados
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas, diz que "as escolas estão muito sensibilizadas para fazer que a gravidez na adolescência diminua", tanto pela ação de "psicólogos como nas aulas de educação para a cidadania, onde professores, médicos e enfermeiros fazem um trabalho notável". Na opinião deste dirigente de escolas, "os pais também têm hoje um diálogo mais aberto e franco sobre esta temática com os filhos". Mas seria importante, sugere, que "os professores das diferentes disciplinas tivessem formação" para abordar os mesmos assuntos nas aulas. Dados do estudo Health Behaviour in School-Aged Children revelam que, na generalidade, os adolescentes de 15 anos que já tiveram relações sexuais são cada vez menos - passaram de 18,2% para 16,1% entre 2006 e 2014 -, mas os que são sexualmente ativos usam menos o preservativo (25% não usaram, em 2014), quando, em 2010, só 10% diziam não o fazer.
A socióloga Margarida Gaspar de Matos, coordenadora nacional do estudo, diz que "o uso do preservativo baixou, o que é um risco para as infeções sexualmente transmissíveis". No entanto, sublinha, houve alterações que têm resultado na diminuição da gravidez na adolescência, como o uso de outros meios de contraceção, a pílula, disponibilizada nas consultas de planeamento nos centros de saúde.
Uma gravidez precoce tem riscos biológicos, mas um impacto social mais alargado. "Os jovens "saltam passos" numa trajetória de desenvolvimento pessoal e social, com prejuízo da sua escolarização, do seu convívio entre pares e da vivência da sua própria adolescência", alerta a socióloga. Carla, 19 anos, entrou na Associação Humanidades, em Lisboa, aos 15 e recorda que quando ficou grávida achou que "nunca mais acabaria os estudos". Estava sozinha, sem o apoio do pai do bebé ou da família. "Ouvi comentários negativos, olhavam para mim de lado." Enquanto viveu na instituição conseguiu acabar o 12.º ano. Renata Cortiço, responsável pela residência que acolhe estas mães, não nota diminuição na maternidade entre as jovens, porque os seis quartos da unidade estão sempre cheios. Ali vão parar casos referenciados pelo tribunal ou pelas comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. "Muitas vezes, as coisas já não estavam a correr bem na vida destas jovens antes da gravidez. Normalmente, já havia o abandono escolar." E, em algumas situações, "há quem já esteja a viver em instituições, devido a casos de abuso sexual, violência ou de maus--tratos dentro da família".
Teresa Bombas: "Ainda é um indicador de pobreza do país"
in Diário de Notícias
Teresa Bombas é especialista em ginecologia e obstetrícia
Diz que é preciso assumir que a gravidez na adolescência é um indicador de pobreza. Para minimizar ainda mais o problema, é necessário melhorar as condições de vida das famílias.
Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção, considera que a nova geração tem mais informação e mais expectativas, ou, pelo menos, expectativas que não passam por ter filhos em idade precoce.
Como vê a descida do número de mães adolescentes em Portugal nos últimos anos?
Este é um indicador favorável da evolução do país. A gravidez na adolescência, e mais especificamente o número de adolescentes que são mães, é um dos indicadores de pobreza de um país. Basta olhar para o resto do mundo. O diminuir deste número é o resultado de várias condições: a natalidade baixou globalmente, a literacia aumentou, o número de anos da escolaridade obrigatória também, há acesso a uma educação e informação diferentes. Houve um aumento da riqueza das famílias, o que, de alguma maneira, permite que os filhos tenham expectativas diferentes dos pais. Obviamente, houve também maior divulgação e acessibilidade à contraceção.
Um dado positivo é que esta quebra não foi acompanhada de um aumento da interrupção voluntária da gravidez nestas faixas etárias...
O início da atividade sexual acontece em idades mais jovens, o número de gravidezes e partos em adolescentes baixa sem que tenha aumentado o número de interrupções neste grupo etário. Também sabemos que passaram a usar mais contraceção. Digamos que, globalmente, a nova geração está mais bem informada e parece tender a ter mais expectativas ou expectativas individuais diferentes que não passam por serem pais em idades em que ainda devem ser filhos.
Apesar desta quebra, continuamos a ter uma média de seis adolescentes mães por dia. O que está a falhar?
Continuamos a ter um problema social grave. Continua a haver gravidez na adolescência em grupos sociais carenciados, maioritariamente onde a gravidez na adolescência não é um novo acontecimento, mas sim um acontecimento de repetição. O que falha: melhorar as condições de vida da população. Há menos gravidez na adolescência, mas continuam a verificar-se situações sociais muito graves e estas, infelizmente, não diminuíram. É nas famílias mais carenciadas que este acontecimento se continua a verificar. O número de adolescentes institucionalizadas com filhos proporcionalmente não diminui, o número de famílias a receber rendimento de inserção social também não, o número de jovens com situações sob orientação da proteção de menores também não diminui proporcionalmente.
O que é que é preciso fazer para evitar a gravidez na adolescência?
Melhorar a vida da população. É preciso investir na melhoria da exclusão social e assumir definitivamente que este é um indicador de pobreza. Se uma jovem de 15 ou 16 anos, sabendo que existe contraceção, sabendo que se engravidar pode interromper a gravidez e decide (consciente ou inconscientemente) engravidar e continuar a gravidez, assumindo este como o único projeto de vida que tem, alguma coisa está a correr mal... No rendimento da família, que não consegue ter padrões de identificação que permitam aos seus filhos "sonhar diferente" para si.
Como é que isso se altera?
É preciso continuar a trabalhar educação sexual e tornar a contraceção acessível para todos. Temos de melhorar o nível de educação e sobretudo o rendimento das famílias. Não vou dizer que são só os com mais dificuldade e menos literacia que são pais na adolescência, mas sobretudo estes e ainda são muitos...
Teresa Bombas é especialista em ginecologia e obstetrícia
Diz que é preciso assumir que a gravidez na adolescência é um indicador de pobreza. Para minimizar ainda mais o problema, é necessário melhorar as condições de vida das famílias.
Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção, considera que a nova geração tem mais informação e mais expectativas, ou, pelo menos, expectativas que não passam por ter filhos em idade precoce.
Como vê a descida do número de mães adolescentes em Portugal nos últimos anos?
Este é um indicador favorável da evolução do país. A gravidez na adolescência, e mais especificamente o número de adolescentes que são mães, é um dos indicadores de pobreza de um país. Basta olhar para o resto do mundo. O diminuir deste número é o resultado de várias condições: a natalidade baixou globalmente, a literacia aumentou, o número de anos da escolaridade obrigatória também, há acesso a uma educação e informação diferentes. Houve um aumento da riqueza das famílias, o que, de alguma maneira, permite que os filhos tenham expectativas diferentes dos pais. Obviamente, houve também maior divulgação e acessibilidade à contraceção.
Um dado positivo é que esta quebra não foi acompanhada de um aumento da interrupção voluntária da gravidez nestas faixas etárias...
O início da atividade sexual acontece em idades mais jovens, o número de gravidezes e partos em adolescentes baixa sem que tenha aumentado o número de interrupções neste grupo etário. Também sabemos que passaram a usar mais contraceção. Digamos que, globalmente, a nova geração está mais bem informada e parece tender a ter mais expectativas ou expectativas individuais diferentes que não passam por serem pais em idades em que ainda devem ser filhos.
Apesar desta quebra, continuamos a ter uma média de seis adolescentes mães por dia. O que está a falhar?
Continuamos a ter um problema social grave. Continua a haver gravidez na adolescência em grupos sociais carenciados, maioritariamente onde a gravidez na adolescência não é um novo acontecimento, mas sim um acontecimento de repetição. O que falha: melhorar as condições de vida da população. Há menos gravidez na adolescência, mas continuam a verificar-se situações sociais muito graves e estas, infelizmente, não diminuíram. É nas famílias mais carenciadas que este acontecimento se continua a verificar. O número de adolescentes institucionalizadas com filhos proporcionalmente não diminui, o número de famílias a receber rendimento de inserção social também não, o número de jovens com situações sob orientação da proteção de menores também não diminui proporcionalmente.
O que é que é preciso fazer para evitar a gravidez na adolescência?
Melhorar a vida da população. É preciso investir na melhoria da exclusão social e assumir definitivamente que este é um indicador de pobreza. Se uma jovem de 15 ou 16 anos, sabendo que existe contraceção, sabendo que se engravidar pode interromper a gravidez e decide (consciente ou inconscientemente) engravidar e continuar a gravidez, assumindo este como o único projeto de vida que tem, alguma coisa está a correr mal... No rendimento da família, que não consegue ter padrões de identificação que permitam aos seus filhos "sonhar diferente" para si.
Como é que isso se altera?
É preciso continuar a trabalhar educação sexual e tornar a contraceção acessível para todos. Temos de melhorar o nível de educação e sobretudo o rendimento das famílias. Não vou dizer que são só os com mais dificuldade e menos literacia que são pais na adolescência, mas sobretudo estes e ainda são muitos...
Com 81 anos, a avó Michalina anda como o Colin McRae
in Jornal de Notícias
Lançado há mais de 20 anos, o Subaru Impreza WRX tem puxado pela adrenalina de muitos jovens que gostam de andar nos limites. Inspirados pelas façanhas de Colin McRae, que ajudou a popularizar o carro desportivo japonês, contribuíram para dar estatuto de culto à Subaru e ao Impreza WRX. Entre esses entusiastas está uma "jovem", de 81 anos, a avó Michalina. Michalina Borowczyk-Jerdrzejek tem um nome complicado de pronunciar, mas uma paixão fácil de descrever. A avó de nacionalidade polaca, da cidade de Katowice, tem um Subaru Impreza WRX STI da última geração, com 300 cv, e é fã incondicional do desportivo japonês.
Aliás, este é o terceiro Impreza de que já foi dona. Quando lhe perguntam porque não prefere um carro confortável, a avó Michalina confessa que "conforto tenho no sofá em casa. Gosto de conduzir um carro que me dá sensações. [...]
Lançado há mais de 20 anos, o Subaru Impreza WRX tem puxado pela adrenalina de muitos jovens que gostam de andar nos limites. Inspirados pelas façanhas de Colin McRae, que ajudou a popularizar o carro desportivo japonês, contribuíram para dar estatuto de culto à Subaru e ao Impreza WRX. Entre esses entusiastas está uma "jovem", de 81 anos, a avó Michalina. Michalina Borowczyk-Jerdrzejek tem um nome complicado de pronunciar, mas uma paixão fácil de descrever. A avó de nacionalidade polaca, da cidade de Katowice, tem um Subaru Impreza WRX STI da última geração, com 300 cv, e é fã incondicional do desportivo japonês.
Aliás, este é o terceiro Impreza de que já foi dona. Quando lhe perguntam porque não prefere um carro confortável, a avó Michalina confessa que "conforto tenho no sofá em casa. Gosto de conduzir um carro que me dá sensações. [...]
6.3.17
Problemas ambientais matam mais de 1,7 milhões de crianças
in Diário de Notícias
Entre os riscos ambientais listados pela OMS está a poluição do ar interior e exterior, exposição a fumo de tabaco, insalubridade da água ou a falta de saneamento e de higiene
Mais de 1,7 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem, por ano, devido a doenças relacionadas com problemas ambientais, como poluição do ar ou exposição a produtos químicos, denunciou a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Aquele número representa cerca de um quarto do total de mortes de crianças até aos cinco anos em todo o mundo, segundo informação da OMS hoje divulgada.
A agência da ONU publicou os estudos "Herdando um mundo sustentável: Atlas sobre a saúde das crianças e o ambiente" e "Não contamines o meu futuro" que analisam a relação entre a saúde dos mais novos e o que os rodeia.
Entre os riscos ambientais listados está a poluição do ar interior e exterior, exposição a fumo de tabaco, insalubridade da água ou a falta de saneamento e de higiene.
Do total das 1,7 milhões de mortes, cerca de 570 mil devem-se a infeções respiratórias, como pneumonia, que podem atribuir-se à poluição do ar interior e exterior assim como à exposição ao fumo de tabaco, enquanto 361 mil crianças são vítimas de diarreias devido à falta de acesso a água potável e ao insuficiente saneamento e falta de condições de higiene.
"Um ambiente poluído é mortal, particularmente para as crianças mais novas", referiu a diretora geral da OMS, Margaret Chan, citada num comunicado da entidade.
As crianças são mais vulneráveis à poluição do ar e da água já que "os seus organismos e sistemas imunitários estão ainda a desenvolver-se" e, por exemplo, o seu aparelho respiratório é frágil, explicou.
Segundo a OMS, grande parte das doenças que são as principais causas de morte de crianças entre um mês e cinco anos poderiam ser evitadas com intervenções que se sabe reduzem os riscos ambientais, como o acesso a água potável e a utilização de combustíveis adequados à preparação das refeições.
A maior parte das mortes relacionadas com fatores ambientais registam-se nos países em vias de desenvolvimento onde, por exemplo, a poluição causa mais de metade das infeções respiratórias nos mais novos.
Os especialistas apontam novos perigos ambientais que ameaçam a saúde das crianças, como os resíduos elétricos e eletrónicos, como os telemóveis em final de vida, que não são corretamente reciclados, expondo os mais novos a toxinas que podem levar à redução das aptidões cognitivas, ao défice de atenção, a lesões pulmonares ou mesmo cancro.
As alterações climáticas fazem aumentar as temperaturas e os níveis de dióxido de carbono, o que favorece a produção de pólen, associada ao aumento dos casos de asma entre as crianças.
Atualmente, segundo o estudo da OMS, 44% dos casos de asma entre crianças com mais de cinco anos é uma consequência direta da poluição atmosférica.
A OMS referiu ainda que, em cada ano, cerca de 200 mil crianças até aos cinco anos morrem devido a quedas, acidentes rodoviários, envenenamentos, incêndios ou afogamento.
Entre os riscos ambientais listados pela OMS está a poluição do ar interior e exterior, exposição a fumo de tabaco, insalubridade da água ou a falta de saneamento e de higiene
Mais de 1,7 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem, por ano, devido a doenças relacionadas com problemas ambientais, como poluição do ar ou exposição a produtos químicos, denunciou a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Aquele número representa cerca de um quarto do total de mortes de crianças até aos cinco anos em todo o mundo, segundo informação da OMS hoje divulgada.
A agência da ONU publicou os estudos "Herdando um mundo sustentável: Atlas sobre a saúde das crianças e o ambiente" e "Não contamines o meu futuro" que analisam a relação entre a saúde dos mais novos e o que os rodeia.
Entre os riscos ambientais listados está a poluição do ar interior e exterior, exposição a fumo de tabaco, insalubridade da água ou a falta de saneamento e de higiene.
Do total das 1,7 milhões de mortes, cerca de 570 mil devem-se a infeções respiratórias, como pneumonia, que podem atribuir-se à poluição do ar interior e exterior assim como à exposição ao fumo de tabaco, enquanto 361 mil crianças são vítimas de diarreias devido à falta de acesso a água potável e ao insuficiente saneamento e falta de condições de higiene.
"Um ambiente poluído é mortal, particularmente para as crianças mais novas", referiu a diretora geral da OMS, Margaret Chan, citada num comunicado da entidade.
As crianças são mais vulneráveis à poluição do ar e da água já que "os seus organismos e sistemas imunitários estão ainda a desenvolver-se" e, por exemplo, o seu aparelho respiratório é frágil, explicou.
Segundo a OMS, grande parte das doenças que são as principais causas de morte de crianças entre um mês e cinco anos poderiam ser evitadas com intervenções que se sabe reduzem os riscos ambientais, como o acesso a água potável e a utilização de combustíveis adequados à preparação das refeições.
A maior parte das mortes relacionadas com fatores ambientais registam-se nos países em vias de desenvolvimento onde, por exemplo, a poluição causa mais de metade das infeções respiratórias nos mais novos.
Os especialistas apontam novos perigos ambientais que ameaçam a saúde das crianças, como os resíduos elétricos e eletrónicos, como os telemóveis em final de vida, que não são corretamente reciclados, expondo os mais novos a toxinas que podem levar à redução das aptidões cognitivas, ao défice de atenção, a lesões pulmonares ou mesmo cancro.
As alterações climáticas fazem aumentar as temperaturas e os níveis de dióxido de carbono, o que favorece a produção de pólen, associada ao aumento dos casos de asma entre as crianças.
Atualmente, segundo o estudo da OMS, 44% dos casos de asma entre crianças com mais de cinco anos é uma consequência direta da poluição atmosférica.
A OMS referiu ainda que, em cada ano, cerca de 200 mil crianças até aos cinco anos morrem devido a quedas, acidentes rodoviários, envenenamentos, incêndios ou afogamento.
Portugal acolhe 1150 refugiados e vai receber mais 91 yazidis em breve
Manuel Carlos Freire, in Diário de Notícias
Ministro Eduardo Cabrita diz que taxas de saída de refugiados em Portugal "são semelhantes" às de países como Luxemburgo e Suíça.
O ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, disse esta segunda-feira que a chegada a Lisboa de 24 cidadãos yazidis eleva para 1150 o número de refugiados acolhidos por Portugal no âmbito dos programas de recolocação da UE.
O governante falava aos jornalistas no aeroporto de Lisboa, momentos após reunir com o grupo de refugiados yazidis vindos da Grécia - depois de terem fugido da perseguição do Estado Islâmico no Iraque - e que ainda esta tarde vão ser instalados em Guimarães.
"Thanks Portugal". 24 yazidis já chegaram a Portugal
Eduardo Cabrita, acompanhado pela vereadora de Ação Social da autarquia de Guimarães, frisou que os refugiados são cidadãos livres e que Portugal "não terá nenhuma estratégia que leve a qualquer limitação da sua liberdade de circulação".
"Temos um processo [de recolocação de refugiados] que é considerado uma referência no quadro europeu e da ONU", sublinhou Eduardo Cabrita, deixando ainda uma garantia: "Não temos em Portugal campos de refugiados, nunca os iremos ter."
"Temos um profundo envolvimento das comunidades locais, das estruturas da sociedade civil", de organismos ligados às igrejas e ainda nove dezenas de municípios que "decidiram participar neste esforço nacional" de acolhimento, realçou o ministro Adjunto.
Ministro Eduardo Cabrita diz que taxas de saída de refugiados em Portugal "são semelhantes" às de países como Luxemburgo e Suíça.
O ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, disse esta segunda-feira que a chegada a Lisboa de 24 cidadãos yazidis eleva para 1150 o número de refugiados acolhidos por Portugal no âmbito dos programas de recolocação da UE.
O governante falava aos jornalistas no aeroporto de Lisboa, momentos após reunir com o grupo de refugiados yazidis vindos da Grécia - depois de terem fugido da perseguição do Estado Islâmico no Iraque - e que ainda esta tarde vão ser instalados em Guimarães.
"Thanks Portugal". 24 yazidis já chegaram a Portugal
Eduardo Cabrita, acompanhado pela vereadora de Ação Social da autarquia de Guimarães, frisou que os refugiados são cidadãos livres e que Portugal "não terá nenhuma estratégia que leve a qualquer limitação da sua liberdade de circulação".
"Temos um processo [de recolocação de refugiados] que é considerado uma referência no quadro europeu e da ONU", sublinhou Eduardo Cabrita, deixando ainda uma garantia: "Não temos em Portugal campos de refugiados, nunca os iremos ter."
"Temos um profundo envolvimento das comunidades locais, das estruturas da sociedade civil", de organismos ligados às igrejas e ainda nove dezenas de municípios que "decidiram participar neste esforço nacional" de acolhimento, realçou o ministro Adjunto.
Consumo de canábis: "É bué fixe mas não é assim tão fixe"
Fernanda Câncio, in Diário de Notícias
Miúdos de 18, adultos de 60. Estudantes, artistas, bancários, empresários. Em comum, a canábis. No momento em que o BE prepara propostas de legalização de uso recreativo e terapêutico, dizem porque consomem e como se dão com isso
"A grande maioria dos meus colegas fuma. São pessoas que para entrarem no curso tiveram médias altas, são bons alunos. Toda a gente com quem me dou fuma regularmente, e isso não afeta em nada o desempenho. Não são nenhuns carochos." Sara Anselmo, 19 anos, aluna do 1.º ano de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, ri-se. Fuma também, mas "no máximo duas vezes por mês; às vezes não chega a tanto". E nunca comprou: "É sempre oferecido, e geralmente é erva [marijuana, a flor da planta]."
Sara, que entrou no curso com 16,8, começou a fumar no último ano antes da faculdade, aos 18. E não escondeu da mãe, com quem vive: "Ela agradeceu-me ser sincera e alertou-me para os excessos. Acho que há um grande estigma à volta de todo este assunto, as pessoas tendem a pensar que uma ganza faz logo de uma pessoa uma drogada. Mas é como com o álcool, não temos todos de beber em excesso. Também sei de pessoas que estão constantemente a fumar e ficam um pouco alheadas. E isso sou contra. Uma coisa é de vez em quando, outra é viveres para aquilo."
E fuma porquê? "O álcool puxa-nos mais para a parvoíce, a erva dá para sermos introspetivos, para termos conversas mais sérias. Mas já tive experiências de não gostar da moca - lá está, nunca sabemos o que estamos a fumar, por ser ilegal." Sara é uma das dezenas de pessoas que responderam ao pedido, feito no Twitter, de testemunhos de utilizadores de canábis. Houve quem aventasse que se podia tratar de um truque da PJ, mas muita gente quis falar.
Gonçalo Ferreira, 18 anos, fumou o primeiro charro há quatro meses e fuma uma ou duas vezes por mês. Disse aos pais e juntos pesquisaram na net quais os efeitos adversos
Caso do também universitário Gonçalo Ferreira, que começou a fumar exatamente na festa dos seus 18 anos, há quatro meses. Consome esporadicamente, como Sara - duas a três vezes por mês, quando sai com os amigos -, e também ele informou os pais. "Não é coisa que apoiem, mas sabem. Fumaram tabaco durante 40 anos e aceitaram porque sabem que é de vez em quando. E em tempo de exames e de muitos trabalhos não fumo." Quanto à "normalidade", faz coro com Sara: "Hoje em dia na faculdade qualquer um fuma ou já experimentou. É como fumar um cigarro." Desportista desde criança (joga basquete), Gonçalo esteve com os pais a pesquisar na net as consequências do consumo. "Pode trazer perdas de memória, cancro do pulmão... Mas o tabaco, que é legal, tem seis mil e tal substâncias que fazem mal." Entre as pesquisas feitas, porém, falhou uma informação importante: confundia legalização com descriminalização do consumo, a qual, em vigor desde 2001, significa não ser delito penal consumir embora continue a ser proibido (se apanhado, o prevaricador é presente a uma Comissão de Dissuasão de Consumo e pode ser multado; em 2015, houve 8608 processos de contraordenação relativos a posse/consumo de canábis, 85% do total das contraordenações relativas a consumo de substâncias ilícitas). Uma confusão provavelmente muito comum entre os mais jovens. "Achei que era permitido, e que vivíamos um paradoxo, com consumo legal e venda ilegal. Mas acho que não faz sentido nenhum ser proibido. Para já trazia lucro ao Estado, por causa dos impostos, e seria bom para a saúde porque saberíamos o que estamos a comprar, haveria controlo de qualidade. E fazer mal não é motivo para proibir - o tabaco e o álcool fazem e são legais - nem alterar o estado de consciência, porque beber também altera. As pessoas devem estar informadas dos benefícios e malefícios e decidir por elas. Cabe a cada um decidir o que quer fazer com a sua vida."
"Aos 63 anos arrisco ir de cana"
Sara e Gonçalo integram-se nos 5% de jovens adultos (15/34 anos) que assumiram, no último estudo publicado sobre consumo - o "III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População", efetuado em 2012 -, ter fumado canábis no último ano. Essa faixa etária corresponde a mais de metade dos cerca de 200 mil portugueses entre 15 e 64 anos que consumiram nos últimos 365 dias. Muitos mais - 700 mil - são os que, no mesmo intervalo de idades, asseveram ter consumido a substância alguma vez ao longo da vida.
Alberto Lopes está no extremo superior do intervalo. Aos 63 anos, conta mais de metade da vida a fumar regularmente canábis. "Comecei nos anos 1970. Lembro-me bem da primeira vez, foi uma pedra fenomenal. De repente foi como se os meus ouvidos se abrissem. Achei um fenómeno muito curioso, essa alteração da perceção. Agora já conto com isso." A experiência ocorreu aos 17, durante um ensaio da banda em que tocava, antes do 25 de Abril. "Quando andava no liceu houve um grupo de malucos que fez uma plantação no jardim da Praça de Londres. Ainda esteve lá uns anos até a polícia descobrir e haver uma grande bronca nos jornais. Aí percebemos que estávamos no capítulo "drogados"." Ri-se. "A maneira como isto é tratado pela sociedade é completamente idiota e inexplicável. Não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista." Definindo-se como artista - faz teatro, música e vídeo - só houve uma altura da vida de adulto em que não consumiu canábis, a que correspondeu à infância dos filhos, nos anos oitenta. "Consumir diariamente ou não depende do ciclo em que estou. Neste momento estou a escrever, não consumo. Mas quando estou a ensaiar estou sempre a fumar. É uma forma de estar concentrado." Irrita-o "andar a brincar aos cowboys com a polícia aos 63 anos e arriscar ir de cana". É ridículo, comenta: "Não devíamos ser forçados a lidar com pintas para comprar."
João Quadros, humorista, 53 anos, fuma “várias vezes por dia”, e quando está a trabalhar: “Como há quem beba uns copos, eu fumo enquanto escrevo”
Jorge, 53 anos, agente imobiliário, não podia concordar mais. Fumando "praticamente todos os dias" desde os 17/18, conta 35 ou 36 anos de consumo consistente. Efeitos? "Li tudo o que pude sobre a substância para ver o que podia ser problema, e não reconheço nenhum efeito em mim que não possa ser atribuído a outra coisa. Tenho falhas de memória, mas acho normal nesta idade. E imponho-me fases de abstinência regularmente. Fico duas ou três semanas sem fumar." E sente falta? "Claro que sinto. E como agora não estou numa fase muito boa profissionalmente ainda sinto mais, porque quando fumo sinto menos as agressões."
Um dos efeitos adversos mais comummente apontados em quem consome canábis com muita frequência é o síndroma amotivacional, uma indolência desinteressada, "mole", falta de iniciativa, dificuldade de concentração, problemas com as obrigações normais da existência, alheamento social. Jorge está atento: "Faço um esforço enorme de lucidez e no contacto com os outros para perceber se há alguma coisa diferente em mim. Mas já vi amigos terem um comportamento antissocial por causa disto. Tiveram de largar." Há porém um efeito indesmentível do fumar quotidiano: no bolso. São cerca de 150 euros por mês, mais coisa menos coisa. Compra como? "Eles vendem placas de 200 e compro meia. Tento arranjar alguém de confiança. Agora costumo comprar a um tipo que está desempregado e faz isto para ter com que pagar a renda. Confesso que me custa alimentar a economia paralela, acho esta situação uma estupidez, para mais com esta idade. Não posso sequer ter umas plantas no terraço, porque tenho um polícia no prédio, senão tinha."
Em casa, a filha, de 17, sabe desde os 11 que aqueles cigarros que o pai enrola não são só tabaco. Mas o convívio não parece tê-la contaminado: "Ela não fuma sequer tabaco. Ajudei-a a fazer as escolhas dela. Disse-lhe que ter fumado o primeiro cigarro foi a maior estupidez da minha vida. E comecei a afastar-me quando fumo."
Isabel, 52 anos, tem uma história similar. O facto de ser empresária impede-a de "dar a cara", mas voluntaria-se, por e-mail, para entrevista presencial: "Tenho uma porta aberta ao público e não posso ser identificada - é uma questão de prudência, não de cobardia, na minha vida pessoal não escondo -, mas falo porque me irrita profundamente que se meta a canábis no mesmo saco das drogas duras, deixando convenientemente de lado o álcool, quanto a mim bem mais nefasto. Posso passar o ano inteiro sem beber uma gota de álcool e sempre disse aos meus filhos que prefiro vê-los fumar um charro do que beber um whisky ou um shot! Infelizmente conheço de perto tanto o alcoolismo como a toxicodependência e creio que teremos todos a ganhar com a desmistificação da canábis. Àqueles que defendem que leva ao consumo de outras substâncias respondo que pelo contrário, se os miúdos não tivessem de ir comprar a vendedores sem escrúpulos, que aproveitam para lhes impingir outras coisas, essas sim perigosíssimas, talvez as coisas corressem melhor."
"Já levei ganza para a TV"
Mora a cem quilómetros de Lisboa, com o marido e dois filhos, de 22 e 15 anos, e tanto ela como o marido fumam diariamente, exceto quando viajam ("Não dá para passar fronteiras com substâncias ilícitas na bagagem", comenta com uma gargalhada). Costumam consumir à noite e "às vezes ou muito frequentemente depois do almoço". E porquê? Isabel reflete. "Acho que passa muito pelo ritual de enrolar a ganzinha. E claro que há um efeito relaxante. Mas não estamos a falar de consumos idiotas, uma pessoa não anda a fumar ganzas o dia inteiro. É um vício, sim, mas está ao nível do café ou do tabaco." Sequelas, sente? "Muitas vezes penso que a minha falta de memória pode vir daí. Mas tenho imensas amigas que não fumam e têm as mesmas brancas. Sem qualquer arrogância, tenho esta idade, dois filhos, e uma empresa que funciona há 20 anos; acho que não me prejudicou." E como é com os filhos? "Sempre nos viram fumar. Um dia, devia ter uns 12, o mais novo apareceu com um pacotinho de erva a perguntar o que era. Explicámos, dissemos que era ilegal e reagiram com muita naturalidade, nunca mais perguntaram nada. Mas nunca lhes disse: "Vamos lá fumar ganzas que é muito bom para a saúde." Acho que o mais velho experimentou mas não se interessa por isso, é supersaudável, não fuma, não bebe..." Aliás, prossegue Isabel, "o combate ao álcool devia ser muito mais importante, aceita-se que um miúdo de 14 anos apanhe uma bebedeira de caixão à cova".
Gustavo Godinho, 36 anos, operador turístico, aqui com a cadela, Catarina, nunca fuma quando trabalha. “Não dá para acordar, fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas”
O humorista João Quadros, um ano mais velho do que Isabel, concorda: "Acho que dificilmente daqui a uns anos os meus filhos vão perceber que uma pessoa pudesse apanhar uma bezana com shots e ficar estendida no chão e não pudesse fumar uma ganza." Como Isabel, João tem dois filhos, de 10 e 12, uma rapariga e um rapaz. Ainda não teve uma conversa com eles sobre o assunto e nunca fuma quando estão presentes. "Evito estar ganzado quando estou com eles. Se quero que os meus filhos fumem? Não me importo, mas espero que saibam fazê-lo. E não serei daqueles pais que dizem "embora aí fumar uma ganza"." Afirmando "detestar vícios e dependências", só consome "drogas leves": "Metade da minha geração morreu por causa das drogas. Haxe é aquela coisa a meio. Não gosto de coisas em que deixe de me controlar. Comecei a consumir aos 18 e nessa altura havia haxixe a sério. Desde há uns 20 anos deixou de haver, só há bolota e pólen. A bolota é muito forte e muito cara. Geralmente fumo pólen. E a erva que há é skank [marijuana modificada em laboratório para ser mais potente]. Fuma--se e fica-se a olhar para a parede." Coisa que não convém a quem fuma para trabalhar: "Não tem a ver com ideias novas. Tens mais paciência para estar dentro do texto e ficas mais obsessivamente dentro do texto. Fumo várias vezes por dia. Como há pessoas que bebem uns copos, eu gosto de fumar enquanto trabalho."
Defensor da legalização, o humorista até já levou a substância para um programa de TV. "Foi na SIC Radical, quando a GNR andou a revistar as camionetas dos putos que iam de viagem de finalistas à procura de droga. Apanharam garrafas e garrafas de álcool e só quatro gramas de canábis, de modo que levei uma pedra de quatro gramas para mostrar, em pleno programa. O Pedro Boucherie [diretor do canal] dizia que não era verdadeira, e eu: "É, é ganza."" Ri-se. "É ridículo ser proibido. Já passei pelas piores coisas para comprar, inclusive ser roubado. Isto enquanto temos uma cultura de beber em todas as circunstâncias, incluindo no horário de trabalho." Ainda assim, não nega riscos. "Pode dar alguma dependência. Como tantas outras coisas. Se paro de fumar, e de vez em quando faço isso durante uns 15 dias, fico um bocado ansioso. E já houve alturas em que tive mesmo de parar. Sou meio bipolar e sei que por vezes o fumar me conduz a processos obsessivos. O meu psiquiatra diz que não é muito bom fumar quando estou nesses estados."
"Não é bom estar sempre mocado"
Fazer pausas no consumo para aferir da capacidade de controlo parece ser uma constante em quem fuma diariamente ou com muita frequência. Assim é também com Gustavo Godinho, 36 anos: "Há dias em que fumo duas vezes por dia, outros cinco, e semanas em que faço uma pausazinha para o corpo descansar." Tem uma empresa turística em Lisboa e, ao contrário de Quadros, quando está a trabalhar não fuma: "Ganzas a trabalhar não funciona. Claro que se pode acordar e fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas, mas não dá. Já me aconteceu e não é bom." Depende, decerto, do que se faz na vida. Bernardo Fachada, conhecido como B Fachada, músico, 32 anos, também fuma todos os dias e reconhece na erva um potencial criativo. Mas nem sempre. "Nem toda a erva é criativa. A componente criativa é muito recente, tem que ver com o facto de a erva ter ficado muito mais forte [devido às modificações laboratoriais citadas]." De todos os entrevistados, é o único que vaporiza em vez de fumar. "A minha relação com a erva mudou muito desde que comecei a vaporizar. O ato de fumar é muito mais pesado, deixa muito mais problemas no corpo." Mostra o vaporizador, que comprou pela net: um tubo de metal prateado, com uma extremidade que se desenrosca e onde se coloca a erva. "É muito mais difícil ter consciência da própria tolerância quando se fuma. Com o vaporizador já não uso quantidades relevantes nem preciso de paragens longas. E gasto muito menos, uns 30 euros por mês." Uma das razões pelas quais as pessoas param, explica, para além da aferição da dependência - "que é psicológica, daí a importância de se saber que se mantém o controlo" -, é para voltarem a sentir com intensidade. "Porque acontece a tolerância à substância disparar para níveis em que já não se sente nada."
Bernardo Fachada, o músico conhecido como B Fachada, 32 anos, consome há dez. Agora, nos últimos dois anos, vaporiza em vez de fumar, e considera que é “menos pesado”. Defende uma legalização “à europeia”, com o Estado a controlar a venda, “como os nórdicos fazem com o álcool.”
Também músico, dois anos mais novo, Pedro está precisamente num momento de paragem: não consome há duas semanas. "Adoro fumar erva. Recreativamente é altamente. Mas pode dar dependência. Se tiver, passo a vida a fumar. Portanto, a minha solução é não ter. Se alguém com quem estou tiver posso fumar, se ninguém tem nem penso nisso." Não quer identificar-se, explica, não porque esconda o facto de consumir, mas porque não quer fazer a apologia: "É bué fixe mas não é assim tão fixe. Fumar não é bom, não é saudável." Já lhe sucedeu, numa altura em que viveu fora do país, fumar sem parar. "Foi fixe, só que não é assim tão bom estares sempre mocado. Para certas funções criativas é ótimo, para fazer arranjos de canções, por exemplo, quando precisas de estar mesmo livre. Tira-te o filtro. E aguento sessões de estúdio mais longas. Mas também se corre o risco de estar tudo uma merda e achares que está ótimo." Alguma vez teve medo de estar a ficar dependente? "Não. Mas fiquei com medo de passar a achar que precisava de fumar para fazer música. E acho que é assim que se torna um vício. Sei que não preciso, mas a questão é que te põe num sítio diferente, num mundo à parte, um mundo especial. É como o álcool, mas numa versão mais funcional." Começou a beber e a fumar relativamente tarde - "Na minha escola toda a gente fumava aos 16. Só comecei a beber aos 18, e só fumei o primeiro cigarro por essa altura. Sempre tive um bocado de aversão à ideia de ter de fumar e beber para me integrar"- e nunca experimentou outras substâncias, além do álcool: "Não sinto falta e se gostasse acho que correria um sério risco de me passar para o outro lado. Ninguém lixa a vida toda por causa de ganzas."
Há quem conteste isso. Caso de Ricardo, 40 anos, emigrado nos EUA. Começou a fumar diariamente a partir dos 21, quando foi para a faculdade, longe da terra natal. E foi aí, diz, que as coisas se complicaram. "Sempre gostei do efeito da erva, a maneira como expande o cérebro. Na altura andava a reler Eça e, lembro-me, apontava nas margens os paralelismos com a sociedade e os tempos que corriam. (A Relíquia com moca da erva é um fartote de rir.) Mas rapidamente tudo deixou de ter graça. Como vim a descobrir anos mais tarde, a entrada na universidade, a distância para com o núcleo familiar e amigos de sempre, desencadeou uma depressão que continuou a agravar-se enquanto se agravava o consumo de álcool e haxixe. No segundo ano da universidade já ia para as aulas sob o efeito da droga. A droga aliada à depressão isolou-me." Casou-se e desistiu da universidade. Com a mulher, fumavam "duas ou três ganzas por noite, depois do trabalho"
Gastavam cerca de 20 euros por dia (600 por mês) e, acumulando dívidas, Ricardo começou a desfalcar a empresa em que trabalhava. "Nessa altura já só fumava para me alienar. Em 2009, dei o berro. Começaram os ataques de pânico, os vómitos constantes, o deixar de comer e o perder peso. O casamento, que há muito não andava bem, acabou." Confessou-se ao patrão e foi despedido. Pesava 43 quilos quando finalmente, após uma cirurgia no hospital, lhe marcaram uma consulta de psiquiatria. "A psiquiatra disse-me que nunca ia curar a depressão enquanto continuasse a fumar, porque o THC [o princípio ativo da canábis] acaba por ter um efeito depressivo e, além disso, enquanto fumasse era impossível organizar a minha vida, fator indispensável para a cura da depressão." Parou de fumar quando emigrou, em 2012. "Nos primeiros dois anos não toquei em nada. Mas tenho a depressão controlada e a anorexia curada e voltei a fumar há dois anos. Agora fumo pelo prazer da moca, limito-me a dar três bafos no cachimbo uma vez por semana. Ver a Fox News com a moca dá-me quase tanto gosto como ler A Relíquia." Conclui: "A erva tem os seus encantos, no entanto não deixo de sorrir quando leio ou ouço alguém dizer que não tem nem traz coisas más."
"Faz sorrir às portas da morte"
É inevitável concluir que tudo depende das pessoas. Há quem toda a vida beba álcool e nunca fique alcoólico ou sequer se embebede; há quem morra de cirrose. De acordo com o estudo citado, foram 2,8% as pessoas que, tendo consumido canábis ao longo da vida, sentiram necessidade de recorrer a ajuda. Não chegaram a 1% (0,8) aquelas que associaram o consumo a não realização de atividades importantes e menos ainda (0,7) a problemas de saúde. É quase inexistente o número dos que reconhecem mau rendimento escolar ou profissional (0,1%). O forte desejo pela substância e não resistência (2,9%) e o seu menor efeito (2,4%) são as alíneas com mais queixas. E há 10% dos consumidores que não conseguem imaginar a sua vida sem a canábis. O estudo conclui que 0,7% da população residente em Portugal, ou seja, 70 mil pessoas, "apresenta sintomas de dependência do consumo de canábis". Trata-se de um décimo dos que assumiram ter consumido ao longo da vida e de um terço dos que consumiram no último ano. E se o número dos que pedem ajuda por causa da dependência de canábis está a aumentar, mantém-se muito baixo: em 2015 foram contabilizadas 2637 pessoas em tratamento por consumo desta substância; em 2014 tinham sido 2315 e em 2013 foram 2045.
Justificarão estes números a proibição por motivos de saúde? Para Manuel, 39 anos, residente em Vila Real e estudante de Enfermagem, nem pensar: "É estúpido." Defende aliás que a substância deve ser legalizada precisamente por motivos de saúde. "Tive um grande amigo que estava com cancro no fígado e fumava. Via nos olhos dele o antes e o depois. Imagine que está às portas da morte e há algo que a põe bem-disposta, a faz sorrir e ser capaz de estar com os seus filhos, mesmo sabendo que vai morrer. Não há medicação química que dê esse efeito. É daqueles assuntos que nem têm discussão." Daí que Manuel, que fuma de vez em quando com a mulher, também enfermeira, e os amigos ("A última vez que fumei foi no concerto dos Waterboys, com a minha mulher e um grupo de amigos que incluía professores universitários e outra gente de bem"), e é apologista da legalização, preconize que se comece pela legalização por razões médicas.
Alberto Lopes, artista, 63 anos, começou a fumar aos 17, antes do 25 de Abril. Crê que “não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista”
O consumo de canábis por motivos médicos, legalizado em 29 estados americanos, é, de acordo com os resultados de uma revisão recente de milhares de estudos, eficaz no alívio das náuseas relacionadas com a quimioterapia, na redução dos espasmos da esclerose múltipla e no alívio da dor crónica. Mas os consumidores garantem outras benesses. B Fachada, que conhece quem, estando a fazer quimioterapia, se tenha inscrito num "clube de canábis" catalão para ter acesso à substância de forma segura, crê que fumar "ajuda a lidar com a ansiedade, o stress, as "dores de músico", tendinites, toda a parte de desgaste físico da profissão". Ana, 52 anos, funcionária da banca privada, recomeçou a consumir, depois de muitos anos sem tocar em canábis, para aliviar sintomas de "uma pré-menopausa horrível": "Tinha problemas para dormir, passei por períodos de quase anorexia, e aquilo regularizou-me o sono. Também me ajuda com as dores nas costas, cheguei a estar quase entrevada."
Tinha experimentado aos 17, numa altura em que, admite, provou "praticamente todas as drogas". Depois, ter sido mãe muito cedo (aos 19) e tido de ser autossuficiente levou-a a abandonar consumos. "Só voltei a consumir quando as minhas filhas estavam na faculdade." Fuma habitualmente ao chegar a casa do trabalho, ou antes de dormir. Como Manuel, acha que se deve começar pela legalização do uso terapêutico. Admitindo, porém, que o consumo possa de algum modo prejudicar-lhe aspetos da saúde enquanto melhora outros, questiona: "Com quem é que falo sobre isso? A que médico? Como sei que está informado e que o meu diagnóstico de outras coisas não poderá ser afetado, por causa dos preconceitos e da falta de informação?"
Miúdos de 18, adultos de 60. Estudantes, artistas, bancários, empresários. Em comum, a canábis. No momento em que o BE prepara propostas de legalização de uso recreativo e terapêutico, dizem porque consomem e como se dão com isso
"A grande maioria dos meus colegas fuma. São pessoas que para entrarem no curso tiveram médias altas, são bons alunos. Toda a gente com quem me dou fuma regularmente, e isso não afeta em nada o desempenho. Não são nenhuns carochos." Sara Anselmo, 19 anos, aluna do 1.º ano de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, ri-se. Fuma também, mas "no máximo duas vezes por mês; às vezes não chega a tanto". E nunca comprou: "É sempre oferecido, e geralmente é erva [marijuana, a flor da planta]."
Sara, que entrou no curso com 16,8, começou a fumar no último ano antes da faculdade, aos 18. E não escondeu da mãe, com quem vive: "Ela agradeceu-me ser sincera e alertou-me para os excessos. Acho que há um grande estigma à volta de todo este assunto, as pessoas tendem a pensar que uma ganza faz logo de uma pessoa uma drogada. Mas é como com o álcool, não temos todos de beber em excesso. Também sei de pessoas que estão constantemente a fumar e ficam um pouco alheadas. E isso sou contra. Uma coisa é de vez em quando, outra é viveres para aquilo."
E fuma porquê? "O álcool puxa-nos mais para a parvoíce, a erva dá para sermos introspetivos, para termos conversas mais sérias. Mas já tive experiências de não gostar da moca - lá está, nunca sabemos o que estamos a fumar, por ser ilegal." Sara é uma das dezenas de pessoas que responderam ao pedido, feito no Twitter, de testemunhos de utilizadores de canábis. Houve quem aventasse que se podia tratar de um truque da PJ, mas muita gente quis falar.
Gonçalo Ferreira, 18 anos, fumou o primeiro charro há quatro meses e fuma uma ou duas vezes por mês. Disse aos pais e juntos pesquisaram na net quais os efeitos adversos
Caso do também universitário Gonçalo Ferreira, que começou a fumar exatamente na festa dos seus 18 anos, há quatro meses. Consome esporadicamente, como Sara - duas a três vezes por mês, quando sai com os amigos -, e também ele informou os pais. "Não é coisa que apoiem, mas sabem. Fumaram tabaco durante 40 anos e aceitaram porque sabem que é de vez em quando. E em tempo de exames e de muitos trabalhos não fumo." Quanto à "normalidade", faz coro com Sara: "Hoje em dia na faculdade qualquer um fuma ou já experimentou. É como fumar um cigarro." Desportista desde criança (joga basquete), Gonçalo esteve com os pais a pesquisar na net as consequências do consumo. "Pode trazer perdas de memória, cancro do pulmão... Mas o tabaco, que é legal, tem seis mil e tal substâncias que fazem mal." Entre as pesquisas feitas, porém, falhou uma informação importante: confundia legalização com descriminalização do consumo, a qual, em vigor desde 2001, significa não ser delito penal consumir embora continue a ser proibido (se apanhado, o prevaricador é presente a uma Comissão de Dissuasão de Consumo e pode ser multado; em 2015, houve 8608 processos de contraordenação relativos a posse/consumo de canábis, 85% do total das contraordenações relativas a consumo de substâncias ilícitas). Uma confusão provavelmente muito comum entre os mais jovens. "Achei que era permitido, e que vivíamos um paradoxo, com consumo legal e venda ilegal. Mas acho que não faz sentido nenhum ser proibido. Para já trazia lucro ao Estado, por causa dos impostos, e seria bom para a saúde porque saberíamos o que estamos a comprar, haveria controlo de qualidade. E fazer mal não é motivo para proibir - o tabaco e o álcool fazem e são legais - nem alterar o estado de consciência, porque beber também altera. As pessoas devem estar informadas dos benefícios e malefícios e decidir por elas. Cabe a cada um decidir o que quer fazer com a sua vida."
"Aos 63 anos arrisco ir de cana"
Sara e Gonçalo integram-se nos 5% de jovens adultos (15/34 anos) que assumiram, no último estudo publicado sobre consumo - o "III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População", efetuado em 2012 -, ter fumado canábis no último ano. Essa faixa etária corresponde a mais de metade dos cerca de 200 mil portugueses entre 15 e 64 anos que consumiram nos últimos 365 dias. Muitos mais - 700 mil - são os que, no mesmo intervalo de idades, asseveram ter consumido a substância alguma vez ao longo da vida.
Alberto Lopes está no extremo superior do intervalo. Aos 63 anos, conta mais de metade da vida a fumar regularmente canábis. "Comecei nos anos 1970. Lembro-me bem da primeira vez, foi uma pedra fenomenal. De repente foi como se os meus ouvidos se abrissem. Achei um fenómeno muito curioso, essa alteração da perceção. Agora já conto com isso." A experiência ocorreu aos 17, durante um ensaio da banda em que tocava, antes do 25 de Abril. "Quando andava no liceu houve um grupo de malucos que fez uma plantação no jardim da Praça de Londres. Ainda esteve lá uns anos até a polícia descobrir e haver uma grande bronca nos jornais. Aí percebemos que estávamos no capítulo "drogados"." Ri-se. "A maneira como isto é tratado pela sociedade é completamente idiota e inexplicável. Não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista." Definindo-se como artista - faz teatro, música e vídeo - só houve uma altura da vida de adulto em que não consumiu canábis, a que correspondeu à infância dos filhos, nos anos oitenta. "Consumir diariamente ou não depende do ciclo em que estou. Neste momento estou a escrever, não consumo. Mas quando estou a ensaiar estou sempre a fumar. É uma forma de estar concentrado." Irrita-o "andar a brincar aos cowboys com a polícia aos 63 anos e arriscar ir de cana". É ridículo, comenta: "Não devíamos ser forçados a lidar com pintas para comprar."
João Quadros, humorista, 53 anos, fuma “várias vezes por dia”, e quando está a trabalhar: “Como há quem beba uns copos, eu fumo enquanto escrevo”
Jorge, 53 anos, agente imobiliário, não podia concordar mais. Fumando "praticamente todos os dias" desde os 17/18, conta 35 ou 36 anos de consumo consistente. Efeitos? "Li tudo o que pude sobre a substância para ver o que podia ser problema, e não reconheço nenhum efeito em mim que não possa ser atribuído a outra coisa. Tenho falhas de memória, mas acho normal nesta idade. E imponho-me fases de abstinência regularmente. Fico duas ou três semanas sem fumar." E sente falta? "Claro que sinto. E como agora não estou numa fase muito boa profissionalmente ainda sinto mais, porque quando fumo sinto menos as agressões."
Um dos efeitos adversos mais comummente apontados em quem consome canábis com muita frequência é o síndroma amotivacional, uma indolência desinteressada, "mole", falta de iniciativa, dificuldade de concentração, problemas com as obrigações normais da existência, alheamento social. Jorge está atento: "Faço um esforço enorme de lucidez e no contacto com os outros para perceber se há alguma coisa diferente em mim. Mas já vi amigos terem um comportamento antissocial por causa disto. Tiveram de largar." Há porém um efeito indesmentível do fumar quotidiano: no bolso. São cerca de 150 euros por mês, mais coisa menos coisa. Compra como? "Eles vendem placas de 200 e compro meia. Tento arranjar alguém de confiança. Agora costumo comprar a um tipo que está desempregado e faz isto para ter com que pagar a renda. Confesso que me custa alimentar a economia paralela, acho esta situação uma estupidez, para mais com esta idade. Não posso sequer ter umas plantas no terraço, porque tenho um polícia no prédio, senão tinha."
Em casa, a filha, de 17, sabe desde os 11 que aqueles cigarros que o pai enrola não são só tabaco. Mas o convívio não parece tê-la contaminado: "Ela não fuma sequer tabaco. Ajudei-a a fazer as escolhas dela. Disse-lhe que ter fumado o primeiro cigarro foi a maior estupidez da minha vida. E comecei a afastar-me quando fumo."
Isabel, 52 anos, tem uma história similar. O facto de ser empresária impede-a de "dar a cara", mas voluntaria-se, por e-mail, para entrevista presencial: "Tenho uma porta aberta ao público e não posso ser identificada - é uma questão de prudência, não de cobardia, na minha vida pessoal não escondo -, mas falo porque me irrita profundamente que se meta a canábis no mesmo saco das drogas duras, deixando convenientemente de lado o álcool, quanto a mim bem mais nefasto. Posso passar o ano inteiro sem beber uma gota de álcool e sempre disse aos meus filhos que prefiro vê-los fumar um charro do que beber um whisky ou um shot! Infelizmente conheço de perto tanto o alcoolismo como a toxicodependência e creio que teremos todos a ganhar com a desmistificação da canábis. Àqueles que defendem que leva ao consumo de outras substâncias respondo que pelo contrário, se os miúdos não tivessem de ir comprar a vendedores sem escrúpulos, que aproveitam para lhes impingir outras coisas, essas sim perigosíssimas, talvez as coisas corressem melhor."
"Já levei ganza para a TV"
Mora a cem quilómetros de Lisboa, com o marido e dois filhos, de 22 e 15 anos, e tanto ela como o marido fumam diariamente, exceto quando viajam ("Não dá para passar fronteiras com substâncias ilícitas na bagagem", comenta com uma gargalhada). Costumam consumir à noite e "às vezes ou muito frequentemente depois do almoço". E porquê? Isabel reflete. "Acho que passa muito pelo ritual de enrolar a ganzinha. E claro que há um efeito relaxante. Mas não estamos a falar de consumos idiotas, uma pessoa não anda a fumar ganzas o dia inteiro. É um vício, sim, mas está ao nível do café ou do tabaco." Sequelas, sente? "Muitas vezes penso que a minha falta de memória pode vir daí. Mas tenho imensas amigas que não fumam e têm as mesmas brancas. Sem qualquer arrogância, tenho esta idade, dois filhos, e uma empresa que funciona há 20 anos; acho que não me prejudicou." E como é com os filhos? "Sempre nos viram fumar. Um dia, devia ter uns 12, o mais novo apareceu com um pacotinho de erva a perguntar o que era. Explicámos, dissemos que era ilegal e reagiram com muita naturalidade, nunca mais perguntaram nada. Mas nunca lhes disse: "Vamos lá fumar ganzas que é muito bom para a saúde." Acho que o mais velho experimentou mas não se interessa por isso, é supersaudável, não fuma, não bebe..." Aliás, prossegue Isabel, "o combate ao álcool devia ser muito mais importante, aceita-se que um miúdo de 14 anos apanhe uma bebedeira de caixão à cova".
Gustavo Godinho, 36 anos, operador turístico, aqui com a cadela, Catarina, nunca fuma quando trabalha. “Não dá para acordar, fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas”
O humorista João Quadros, um ano mais velho do que Isabel, concorda: "Acho que dificilmente daqui a uns anos os meus filhos vão perceber que uma pessoa pudesse apanhar uma bezana com shots e ficar estendida no chão e não pudesse fumar uma ganza." Como Isabel, João tem dois filhos, de 10 e 12, uma rapariga e um rapaz. Ainda não teve uma conversa com eles sobre o assunto e nunca fuma quando estão presentes. "Evito estar ganzado quando estou com eles. Se quero que os meus filhos fumem? Não me importo, mas espero que saibam fazê-lo. E não serei daqueles pais que dizem "embora aí fumar uma ganza"." Afirmando "detestar vícios e dependências", só consome "drogas leves": "Metade da minha geração morreu por causa das drogas. Haxe é aquela coisa a meio. Não gosto de coisas em que deixe de me controlar. Comecei a consumir aos 18 e nessa altura havia haxixe a sério. Desde há uns 20 anos deixou de haver, só há bolota e pólen. A bolota é muito forte e muito cara. Geralmente fumo pólen. E a erva que há é skank [marijuana modificada em laboratório para ser mais potente]. Fuma--se e fica-se a olhar para a parede." Coisa que não convém a quem fuma para trabalhar: "Não tem a ver com ideias novas. Tens mais paciência para estar dentro do texto e ficas mais obsessivamente dentro do texto. Fumo várias vezes por dia. Como há pessoas que bebem uns copos, eu gosto de fumar enquanto trabalho."
Defensor da legalização, o humorista até já levou a substância para um programa de TV. "Foi na SIC Radical, quando a GNR andou a revistar as camionetas dos putos que iam de viagem de finalistas à procura de droga. Apanharam garrafas e garrafas de álcool e só quatro gramas de canábis, de modo que levei uma pedra de quatro gramas para mostrar, em pleno programa. O Pedro Boucherie [diretor do canal] dizia que não era verdadeira, e eu: "É, é ganza."" Ri-se. "É ridículo ser proibido. Já passei pelas piores coisas para comprar, inclusive ser roubado. Isto enquanto temos uma cultura de beber em todas as circunstâncias, incluindo no horário de trabalho." Ainda assim, não nega riscos. "Pode dar alguma dependência. Como tantas outras coisas. Se paro de fumar, e de vez em quando faço isso durante uns 15 dias, fico um bocado ansioso. E já houve alturas em que tive mesmo de parar. Sou meio bipolar e sei que por vezes o fumar me conduz a processos obsessivos. O meu psiquiatra diz que não é muito bom fumar quando estou nesses estados."
"Não é bom estar sempre mocado"
Fazer pausas no consumo para aferir da capacidade de controlo parece ser uma constante em quem fuma diariamente ou com muita frequência. Assim é também com Gustavo Godinho, 36 anos: "Há dias em que fumo duas vezes por dia, outros cinco, e semanas em que faço uma pausazinha para o corpo descansar." Tem uma empresa turística em Lisboa e, ao contrário de Quadros, quando está a trabalhar não fuma: "Ganzas a trabalhar não funciona. Claro que se pode acordar e fumar duas ganzas e querer fazer coisas produtivas, mas não dá. Já me aconteceu e não é bom." Depende, decerto, do que se faz na vida. Bernardo Fachada, conhecido como B Fachada, músico, 32 anos, também fuma todos os dias e reconhece na erva um potencial criativo. Mas nem sempre. "Nem toda a erva é criativa. A componente criativa é muito recente, tem que ver com o facto de a erva ter ficado muito mais forte [devido às modificações laboratoriais citadas]." De todos os entrevistados, é o único que vaporiza em vez de fumar. "A minha relação com a erva mudou muito desde que comecei a vaporizar. O ato de fumar é muito mais pesado, deixa muito mais problemas no corpo." Mostra o vaporizador, que comprou pela net: um tubo de metal prateado, com uma extremidade que se desenrosca e onde se coloca a erva. "É muito mais difícil ter consciência da própria tolerância quando se fuma. Com o vaporizador já não uso quantidades relevantes nem preciso de paragens longas. E gasto muito menos, uns 30 euros por mês." Uma das razões pelas quais as pessoas param, explica, para além da aferição da dependência - "que é psicológica, daí a importância de se saber que se mantém o controlo" -, é para voltarem a sentir com intensidade. "Porque acontece a tolerância à substância disparar para níveis em que já não se sente nada."
Bernardo Fachada, o músico conhecido como B Fachada, 32 anos, consome há dez. Agora, nos últimos dois anos, vaporiza em vez de fumar, e considera que é “menos pesado”. Defende uma legalização “à europeia”, com o Estado a controlar a venda, “como os nórdicos fazem com o álcool.”
Também músico, dois anos mais novo, Pedro está precisamente num momento de paragem: não consome há duas semanas. "Adoro fumar erva. Recreativamente é altamente. Mas pode dar dependência. Se tiver, passo a vida a fumar. Portanto, a minha solução é não ter. Se alguém com quem estou tiver posso fumar, se ninguém tem nem penso nisso." Não quer identificar-se, explica, não porque esconda o facto de consumir, mas porque não quer fazer a apologia: "É bué fixe mas não é assim tão fixe. Fumar não é bom, não é saudável." Já lhe sucedeu, numa altura em que viveu fora do país, fumar sem parar. "Foi fixe, só que não é assim tão bom estares sempre mocado. Para certas funções criativas é ótimo, para fazer arranjos de canções, por exemplo, quando precisas de estar mesmo livre. Tira-te o filtro. E aguento sessões de estúdio mais longas. Mas também se corre o risco de estar tudo uma merda e achares que está ótimo." Alguma vez teve medo de estar a ficar dependente? "Não. Mas fiquei com medo de passar a achar que precisava de fumar para fazer música. E acho que é assim que se torna um vício. Sei que não preciso, mas a questão é que te põe num sítio diferente, num mundo à parte, um mundo especial. É como o álcool, mas numa versão mais funcional." Começou a beber e a fumar relativamente tarde - "Na minha escola toda a gente fumava aos 16. Só comecei a beber aos 18, e só fumei o primeiro cigarro por essa altura. Sempre tive um bocado de aversão à ideia de ter de fumar e beber para me integrar"- e nunca experimentou outras substâncias, além do álcool: "Não sinto falta e se gostasse acho que correria um sério risco de me passar para o outro lado. Ninguém lixa a vida toda por causa de ganzas."
Há quem conteste isso. Caso de Ricardo, 40 anos, emigrado nos EUA. Começou a fumar diariamente a partir dos 21, quando foi para a faculdade, longe da terra natal. E foi aí, diz, que as coisas se complicaram. "Sempre gostei do efeito da erva, a maneira como expande o cérebro. Na altura andava a reler Eça e, lembro-me, apontava nas margens os paralelismos com a sociedade e os tempos que corriam. (A Relíquia com moca da erva é um fartote de rir.) Mas rapidamente tudo deixou de ter graça. Como vim a descobrir anos mais tarde, a entrada na universidade, a distância para com o núcleo familiar e amigos de sempre, desencadeou uma depressão que continuou a agravar-se enquanto se agravava o consumo de álcool e haxixe. No segundo ano da universidade já ia para as aulas sob o efeito da droga. A droga aliada à depressão isolou-me." Casou-se e desistiu da universidade. Com a mulher, fumavam "duas ou três ganzas por noite, depois do trabalho"
Gastavam cerca de 20 euros por dia (600 por mês) e, acumulando dívidas, Ricardo começou a desfalcar a empresa em que trabalhava. "Nessa altura já só fumava para me alienar. Em 2009, dei o berro. Começaram os ataques de pânico, os vómitos constantes, o deixar de comer e o perder peso. O casamento, que há muito não andava bem, acabou." Confessou-se ao patrão e foi despedido. Pesava 43 quilos quando finalmente, após uma cirurgia no hospital, lhe marcaram uma consulta de psiquiatria. "A psiquiatra disse-me que nunca ia curar a depressão enquanto continuasse a fumar, porque o THC [o princípio ativo da canábis] acaba por ter um efeito depressivo e, além disso, enquanto fumasse era impossível organizar a minha vida, fator indispensável para a cura da depressão." Parou de fumar quando emigrou, em 2012. "Nos primeiros dois anos não toquei em nada. Mas tenho a depressão controlada e a anorexia curada e voltei a fumar há dois anos. Agora fumo pelo prazer da moca, limito-me a dar três bafos no cachimbo uma vez por semana. Ver a Fox News com a moca dá-me quase tanto gosto como ler A Relíquia." Conclui: "A erva tem os seus encantos, no entanto não deixo de sorrir quando leio ou ouço alguém dizer que não tem nem traz coisas más."
"Faz sorrir às portas da morte"
É inevitável concluir que tudo depende das pessoas. Há quem toda a vida beba álcool e nunca fique alcoólico ou sequer se embebede; há quem morra de cirrose. De acordo com o estudo citado, foram 2,8% as pessoas que, tendo consumido canábis ao longo da vida, sentiram necessidade de recorrer a ajuda. Não chegaram a 1% (0,8) aquelas que associaram o consumo a não realização de atividades importantes e menos ainda (0,7) a problemas de saúde. É quase inexistente o número dos que reconhecem mau rendimento escolar ou profissional (0,1%). O forte desejo pela substância e não resistência (2,9%) e o seu menor efeito (2,4%) são as alíneas com mais queixas. E há 10% dos consumidores que não conseguem imaginar a sua vida sem a canábis. O estudo conclui que 0,7% da população residente em Portugal, ou seja, 70 mil pessoas, "apresenta sintomas de dependência do consumo de canábis". Trata-se de um décimo dos que assumiram ter consumido ao longo da vida e de um terço dos que consumiram no último ano. E se o número dos que pedem ajuda por causa da dependência de canábis está a aumentar, mantém-se muito baixo: em 2015 foram contabilizadas 2637 pessoas em tratamento por consumo desta substância; em 2014 tinham sido 2315 e em 2013 foram 2045.
Justificarão estes números a proibição por motivos de saúde? Para Manuel, 39 anos, residente em Vila Real e estudante de Enfermagem, nem pensar: "É estúpido." Defende aliás que a substância deve ser legalizada precisamente por motivos de saúde. "Tive um grande amigo que estava com cancro no fígado e fumava. Via nos olhos dele o antes e o depois. Imagine que está às portas da morte e há algo que a põe bem-disposta, a faz sorrir e ser capaz de estar com os seus filhos, mesmo sabendo que vai morrer. Não há medicação química que dê esse efeito. É daqueles assuntos que nem têm discussão." Daí que Manuel, que fuma de vez em quando com a mulher, também enfermeira, e os amigos ("A última vez que fumei foi no concerto dos Waterboys, com a minha mulher e um grupo de amigos que incluía professores universitários e outra gente de bem"), e é apologista da legalização, preconize que se comece pela legalização por razões médicas.
Alberto Lopes, artista, 63 anos, começou a fumar aos 17, antes do 25 de Abril. Crê que “não há qualquer fundamento científico para proibir ou para tratar isto como comportamento desviante. Há um fundo de fé, ou moralista”
O consumo de canábis por motivos médicos, legalizado em 29 estados americanos, é, de acordo com os resultados de uma revisão recente de milhares de estudos, eficaz no alívio das náuseas relacionadas com a quimioterapia, na redução dos espasmos da esclerose múltipla e no alívio da dor crónica. Mas os consumidores garantem outras benesses. B Fachada, que conhece quem, estando a fazer quimioterapia, se tenha inscrito num "clube de canábis" catalão para ter acesso à substância de forma segura, crê que fumar "ajuda a lidar com a ansiedade, o stress, as "dores de músico", tendinites, toda a parte de desgaste físico da profissão". Ana, 52 anos, funcionária da banca privada, recomeçou a consumir, depois de muitos anos sem tocar em canábis, para aliviar sintomas de "uma pré-menopausa horrível": "Tinha problemas para dormir, passei por períodos de quase anorexia, e aquilo regularizou-me o sono. Também me ajuda com as dores nas costas, cheguei a estar quase entrevada."
Tinha experimentado aos 17, numa altura em que, admite, provou "praticamente todas as drogas". Depois, ter sido mãe muito cedo (aos 19) e tido de ser autossuficiente levou-a a abandonar consumos. "Só voltei a consumir quando as minhas filhas estavam na faculdade." Fuma habitualmente ao chegar a casa do trabalho, ou antes de dormir. Como Manuel, acha que se deve começar pela legalização do uso terapêutico. Admitindo, porém, que o consumo possa de algum modo prejudicar-lhe aspetos da saúde enquanto melhora outros, questiona: "Com quem é que falo sobre isso? A que médico? Como sei que está informado e que o meu diagnóstico de outras coisas não poderá ser afetado, por causa dos preconceitos e da falta de informação?"
Belas e poderosas. Esta é a mensagem do IPO de Lisboa para o dia da mulher
Marta F. Reis, in iOnline
Quarta-feira vai ser instalado um estúdio de maquilhagem no pavilhão central da instituição
O IPO de Lisboa vai assinalar o Dia Internacional da Mulher com um workshop de beleza e sessões de maquilhagem, flores e ofertas surpresa. A data celebra-se todos os anos a 8 de março e desta vez a instituição preparou uma iniciativa diferente, com o apoio das empresas Lancôme e Florineve.
O workshop, marcado para as 12h00, no anfiteatro, tem a duração de uma hora e pode ser participado por profissionais da casa e utentes, informa a instituição.
No dia, as consultoras de beleza da marca vão ensinar técnicas para aplicação dos produtos e truques que permitirão realçar os melhores traços de cada rosto. A hidratação da pele, a escolha da base, a iluminação do rosto, o contorno dos olhos e dos lábios, os pincéis e as cores são alguns dos temas a tratar numa sessão em que também serão oferecidas flores e pequenos presentes a todas as participantes.
Além do workshop, será montado um estúdio de maquilhagem profissional, também da Lancôme, no átrio do pavilhão central, no Piso 1. As sessões de maquilhagem, que se destinam a todas as mulheres IPO – profissionais, doentes ou acompanhantes - começam por volta das 10h00 e estendem-se pelo período da tarde, até às 16h30.
“Mulheres IPO são belas e poderosas”, diz o IPO de Lisboa. “No Dia Internacional da Mulher e sempre!”
Quarta-feira vai ser instalado um estúdio de maquilhagem no pavilhão central da instituição
O IPO de Lisboa vai assinalar o Dia Internacional da Mulher com um workshop de beleza e sessões de maquilhagem, flores e ofertas surpresa. A data celebra-se todos os anos a 8 de março e desta vez a instituição preparou uma iniciativa diferente, com o apoio das empresas Lancôme e Florineve.
O workshop, marcado para as 12h00, no anfiteatro, tem a duração de uma hora e pode ser participado por profissionais da casa e utentes, informa a instituição.
No dia, as consultoras de beleza da marca vão ensinar técnicas para aplicação dos produtos e truques que permitirão realçar os melhores traços de cada rosto. A hidratação da pele, a escolha da base, a iluminação do rosto, o contorno dos olhos e dos lábios, os pincéis e as cores são alguns dos temas a tratar numa sessão em que também serão oferecidas flores e pequenos presentes a todas as participantes.
Além do workshop, será montado um estúdio de maquilhagem profissional, também da Lancôme, no átrio do pavilhão central, no Piso 1. As sessões de maquilhagem, que se destinam a todas as mulheres IPO – profissionais, doentes ou acompanhantes - começam por volta das 10h00 e estendem-se pelo período da tarde, até às 16h30.
“Mulheres IPO são belas e poderosas”, diz o IPO de Lisboa. “No Dia Internacional da Mulher e sempre!”
1.3.17
Lúcia quer poder escolher a pessoa que vai entrar na sua vida
Ana Dias Cordeiro, in Público on-line
O Modelo de Apoio à Vida Independente proposto pelo Governo não resolve problemas essenciais. Quem o diz é Lúcia Fisteus, que nasceu com uma paralisia cerebral.
Lúcia Fisteus tem uma amiga que mora dois andares acima dela no prédio onde vive desde 2015, em Lisboa. É uma senhora mais velha, também sozinha, que a ajuda em caso de emergência, a acompanha ao médico e desce, para a ver, no momento de aquecer a refeição que o apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) entrega às terças e sextas-feiras para toda a semana.
PUB
Antes disso, Lúcia pouco comia, a não ser iogurtes. Bebia água com os comprimidos que o psiquiatra lhe receitou para superar um entre os muitos momentos da vida que lhe trouxeram dor. O ex-companheiro, que saiu de casa em Novembro passado, cozinhava e dava-lhe “muito apoio”. Juntos iam a concertos ao ar livre, ao cinema, e passeavam na rua de mão dada. “Toda a gente olhava”, diz, rindo. “Tínhamos uma vida social mais agitada do que pessoas normais.” E uma vida conjugal feliz. Lúcia chama “normais” às pessoas (como o ex-companheiro) que não têm uma deficiência como ela. Nasceu com uma paralisia cerebral, resultante do parto, que a deixou sem mexer as pernas.
A amiga do 4.º andar, e outras pessoas, estão lá para o que for preciso. E essa é uma das muitas razões pelas quais não quer deixar esta casa — agora que a Santa Casa lhe propõe uma outra, com uma renda abaixo dos 560 euros (que paga com o apoio de 500 euros que a SCML lhe dá para o efeito). “As pessoas sem deficiência não percebem isto, mas o importante, para nós, é se há condições no prédio, se estamos enquadrados na comunidade e sentimos o apoio por parte dos vizinhos. Para nós, deficientes, não é justificável a questão financeira.”
O certo, diz Lúcia Fisteus, “seria termos o direito de escolher, contratar e despedir”, se necessário. “Temos de ter empatia com a pessoa que vai dar banho, vestir, vai ser as nossas pernas e os nossos braços. Não pode ser uma pessoa imposta”
Pedimos a Lúcia que comentasse as propostas do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social para as pessoas com deficiência que estão, neste momento, em processo de consulta pública, e que serão posteriormente apresentadas no Parlamento. A saber: a nova Prestação Social para a Inclusão, que prevê o pagamento de uma prestação única para as pessoas que recebem a Pensão Social de Invalidez ou o Subsídio Mensal Vitalício (que serão ambos extintos), e o novo Modelo de Apoio à Vida Independente para Portugal, que irá permitir que quem tem uma incapacidade igual ou acima dos 60% possa ter um assistente pessoal.
Na prática, estes assistentes pessoais servirão para ajudar em actividades da vida diária (higiene, alimentação, deslocações, por exemplo) definidas pela pessoa com deficiência com os Centros de Apoio à Vida Independente (CAVI). Estes assistentes serão pré-seleccionados por esses centros, com quem quem celebrarão contratos de trabalho em comissão de serviço, com formação obrigatória. É o que está previsto.
O que é isso de vida independente?
Uma e outra proposta deste Governo — nova prestação e apoio à vida independente — inspiram-se no princípio da cidadania plena. Mas não é assim que Lúcia Fisteus as vê. “A Vida Independente não pode basear-se só num assistente pessoal que dá apoio durante umas horas por dia. Há as pessoas que não têm família e há as pessoas de quem as famílias não querem saber.” Como, diz, é o caso dela.
Além disso, defende que o dinheiro para contratar um assistente seja pago directamente à pessoa portadora de deficiência, com um sistema de fiscalização. “Defendo o poder de escolha da pessoa que vai entrar na nossa vida, na nossa intimidade, muito mais do que a nossa melhor amiga entraria.”
“Uma pessoa imposta”
O certo, prossegue, “seria termos o direito de escolher, contratar e despedir”, se necessário. “Temos de ter empatia com a pessoa que, em muitos casos, vai dar banho, vestir, vai ser as nossas pernas e os nossos braços. Não pode ser uma pessoa imposta”, afirma. Ora, continua, “o que estão a propor é que sejam os CAVI, que são instituições particulares de solidariedade social (IPSS) a poder candidatar-se” para gerir estes processos. E defende: “Deviam dar a mesma oportunidade às associações, mesmo não sendo IPSS, porque o sistema burocrático para criar uma IPSS é tão complexo que só as que já existem vão acabar por concorrer a esses fundos. E a grande maioria não tem pessoas com deficiência nos seus órgãos de direcção, não tem sensibilidade para os problemas porque não os vivem na pele.”
Modelo de vida independente em discussão é “limitado”
Mas Lúcia aponta outras falhas ao modelo que está em discussão pública: oito horas de assistência pessoal (o máximo previsto) não vão resolver o problema das pessoas que estão completamente sozinhas. E lembra que viver com dignidade uma cidadania plena passa também pelo direito a não ser institucionalizado.
Com os 325,58 euros que actualmente recebe de pensão mensal, Lúcia Fisteus paga água, electricidade, telefone, Internet e luz, transportes e despesas do dia, que antes de receber o apoio da SCML incluíam também a alimentação.
Passou a ter esse apoio de alimentação diária desde que ficou sozinha e sem vontade de cozinhar só para si. Foi ficando fraca, com hipoglicemia (baixa concentração de açúcar no sangue), esteve internada, e agora, ao lado da cama, tem um sistema de tele-assistência com um botão — e ligação aos bombeiros — para pressionar sempre que sente que vai desmaiar. Aconteceu várias vezes.
Prestação baixa
Associações de deficientes que se candidatem à Vida Independente precisam de estatuto de IPSS
Para ficar na casa onde vive — com um elevador suficientemente espaçoso para a sua cadeira eléctrica e portas largas para circular facilmente entre divisões, além de ter vizinhos que são como uma família — pretende arrendar os dois quartos livres. Diz que não quer ter de depender de nenhum tipo de apoio financeiro.
Sobre a nova Prestação Social para a Inclusão (que prevê o pagamento de uma prestação única para as pessoas que recebem a pensão social de invalidez ou o subsídio mensal vitalício, representando um ligeiro aumento dos valores actuais, e dá a possibilidade a quem trabalha de acumular a prestação com o rendimento desse trabalho, desde que o valor não exceda os 607 euros mensais) Lúcia também tem críticas a fazer: “A prestação única prevê que uma pessoa com incapacidade igual ou superior a 80% receba 260 euros de valor-base, ao qual acrescem os 91,51 euros do complemento de dependência e, se houver o aumento previsto, para 2018, de 71,59 euros mensais. Assim, essa pessoa recebe 423 euros mensais, ficando ainda a faltar 134 euros para atingir o salário mínimo nacional”, explica.
Ou seja, acusa, o Governo, que define um salário mínimo de 557 euros mensais para as pessoas viverem com dignidade, propõe que as pessoas com deficiência vivam sem dignidade.
Num dos momentos mais difíceis, quando fugiu da casa da mãe e foi morar para Lisboa, Lúcia Fisteus participou num programa da RTP. “Apareceram mil soluções” de pessoas que a tinham visto no programa. Um senhor iria ensiná-la a cantar para depois andar com ela a pedir dinheiro na rua. “Mas nenhuma se concretizou”, ao contrário das soluções que a comunidade e os amigos lhe garantiram na infância.
Na escola, pouco distinguia Lúcia dos seus colegas, a não ser o autocarro adaptado que a transportava. A partir do 9.º ano, passaram a ser os bombeiros da Junta de Freguesia de Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, onde era a casa dos avós, que a levavam para as aulas. Todos ajudavam e os professores facilitavam. “Os meus amigos levavam-me para todo o lado. Ia a festas, divertia-me e apanhei bebedeiras como qualquer adolescente”, recorda.
As gargalhadas que solta escondem um passado de maus tratos pela mãe e a frustração provocada pelo fosso entre aquilo que deseja para si hoje — viver com a dignidade uma vida independente, comprar casa, trabalhar e constituir família — e a realidade onde todos os dias acorda e na qual a caridade se sobrepõe à igualdade.
O Modelo de Apoio à Vida Independente proposto pelo Governo não resolve problemas essenciais. Quem o diz é Lúcia Fisteus, que nasceu com uma paralisia cerebral.
Lúcia Fisteus tem uma amiga que mora dois andares acima dela no prédio onde vive desde 2015, em Lisboa. É uma senhora mais velha, também sozinha, que a ajuda em caso de emergência, a acompanha ao médico e desce, para a ver, no momento de aquecer a refeição que o apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) entrega às terças e sextas-feiras para toda a semana.
PUB
Antes disso, Lúcia pouco comia, a não ser iogurtes. Bebia água com os comprimidos que o psiquiatra lhe receitou para superar um entre os muitos momentos da vida que lhe trouxeram dor. O ex-companheiro, que saiu de casa em Novembro passado, cozinhava e dava-lhe “muito apoio”. Juntos iam a concertos ao ar livre, ao cinema, e passeavam na rua de mão dada. “Toda a gente olhava”, diz, rindo. “Tínhamos uma vida social mais agitada do que pessoas normais.” E uma vida conjugal feliz. Lúcia chama “normais” às pessoas (como o ex-companheiro) que não têm uma deficiência como ela. Nasceu com uma paralisia cerebral, resultante do parto, que a deixou sem mexer as pernas.
A amiga do 4.º andar, e outras pessoas, estão lá para o que for preciso. E essa é uma das muitas razões pelas quais não quer deixar esta casa — agora que a Santa Casa lhe propõe uma outra, com uma renda abaixo dos 560 euros (que paga com o apoio de 500 euros que a SCML lhe dá para o efeito). “As pessoas sem deficiência não percebem isto, mas o importante, para nós, é se há condições no prédio, se estamos enquadrados na comunidade e sentimos o apoio por parte dos vizinhos. Para nós, deficientes, não é justificável a questão financeira.”
O certo, diz Lúcia Fisteus, “seria termos o direito de escolher, contratar e despedir”, se necessário. “Temos de ter empatia com a pessoa que vai dar banho, vestir, vai ser as nossas pernas e os nossos braços. Não pode ser uma pessoa imposta”
Pedimos a Lúcia que comentasse as propostas do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social para as pessoas com deficiência que estão, neste momento, em processo de consulta pública, e que serão posteriormente apresentadas no Parlamento. A saber: a nova Prestação Social para a Inclusão, que prevê o pagamento de uma prestação única para as pessoas que recebem a Pensão Social de Invalidez ou o Subsídio Mensal Vitalício (que serão ambos extintos), e o novo Modelo de Apoio à Vida Independente para Portugal, que irá permitir que quem tem uma incapacidade igual ou acima dos 60% possa ter um assistente pessoal.
Na prática, estes assistentes pessoais servirão para ajudar em actividades da vida diária (higiene, alimentação, deslocações, por exemplo) definidas pela pessoa com deficiência com os Centros de Apoio à Vida Independente (CAVI). Estes assistentes serão pré-seleccionados por esses centros, com quem quem celebrarão contratos de trabalho em comissão de serviço, com formação obrigatória. É o que está previsto.
O que é isso de vida independente?
Uma e outra proposta deste Governo — nova prestação e apoio à vida independente — inspiram-se no princípio da cidadania plena. Mas não é assim que Lúcia Fisteus as vê. “A Vida Independente não pode basear-se só num assistente pessoal que dá apoio durante umas horas por dia. Há as pessoas que não têm família e há as pessoas de quem as famílias não querem saber.” Como, diz, é o caso dela.
Além disso, defende que o dinheiro para contratar um assistente seja pago directamente à pessoa portadora de deficiência, com um sistema de fiscalização. “Defendo o poder de escolha da pessoa que vai entrar na nossa vida, na nossa intimidade, muito mais do que a nossa melhor amiga entraria.”
“Uma pessoa imposta”
O certo, prossegue, “seria termos o direito de escolher, contratar e despedir”, se necessário. “Temos de ter empatia com a pessoa que, em muitos casos, vai dar banho, vestir, vai ser as nossas pernas e os nossos braços. Não pode ser uma pessoa imposta”, afirma. Ora, continua, “o que estão a propor é que sejam os CAVI, que são instituições particulares de solidariedade social (IPSS) a poder candidatar-se” para gerir estes processos. E defende: “Deviam dar a mesma oportunidade às associações, mesmo não sendo IPSS, porque o sistema burocrático para criar uma IPSS é tão complexo que só as que já existem vão acabar por concorrer a esses fundos. E a grande maioria não tem pessoas com deficiência nos seus órgãos de direcção, não tem sensibilidade para os problemas porque não os vivem na pele.”
Modelo de vida independente em discussão é “limitado”
Mas Lúcia aponta outras falhas ao modelo que está em discussão pública: oito horas de assistência pessoal (o máximo previsto) não vão resolver o problema das pessoas que estão completamente sozinhas. E lembra que viver com dignidade uma cidadania plena passa também pelo direito a não ser institucionalizado.
Com os 325,58 euros que actualmente recebe de pensão mensal, Lúcia Fisteus paga água, electricidade, telefone, Internet e luz, transportes e despesas do dia, que antes de receber o apoio da SCML incluíam também a alimentação.
Passou a ter esse apoio de alimentação diária desde que ficou sozinha e sem vontade de cozinhar só para si. Foi ficando fraca, com hipoglicemia (baixa concentração de açúcar no sangue), esteve internada, e agora, ao lado da cama, tem um sistema de tele-assistência com um botão — e ligação aos bombeiros — para pressionar sempre que sente que vai desmaiar. Aconteceu várias vezes.
Prestação baixa
Associações de deficientes que se candidatem à Vida Independente precisam de estatuto de IPSS
Para ficar na casa onde vive — com um elevador suficientemente espaçoso para a sua cadeira eléctrica e portas largas para circular facilmente entre divisões, além de ter vizinhos que são como uma família — pretende arrendar os dois quartos livres. Diz que não quer ter de depender de nenhum tipo de apoio financeiro.
Sobre a nova Prestação Social para a Inclusão (que prevê o pagamento de uma prestação única para as pessoas que recebem a pensão social de invalidez ou o subsídio mensal vitalício, representando um ligeiro aumento dos valores actuais, e dá a possibilidade a quem trabalha de acumular a prestação com o rendimento desse trabalho, desde que o valor não exceda os 607 euros mensais) Lúcia também tem críticas a fazer: “A prestação única prevê que uma pessoa com incapacidade igual ou superior a 80% receba 260 euros de valor-base, ao qual acrescem os 91,51 euros do complemento de dependência e, se houver o aumento previsto, para 2018, de 71,59 euros mensais. Assim, essa pessoa recebe 423 euros mensais, ficando ainda a faltar 134 euros para atingir o salário mínimo nacional”, explica.
Ou seja, acusa, o Governo, que define um salário mínimo de 557 euros mensais para as pessoas viverem com dignidade, propõe que as pessoas com deficiência vivam sem dignidade.
Num dos momentos mais difíceis, quando fugiu da casa da mãe e foi morar para Lisboa, Lúcia Fisteus participou num programa da RTP. “Apareceram mil soluções” de pessoas que a tinham visto no programa. Um senhor iria ensiná-la a cantar para depois andar com ela a pedir dinheiro na rua. “Mas nenhuma se concretizou”, ao contrário das soluções que a comunidade e os amigos lhe garantiram na infância.
Na escola, pouco distinguia Lúcia dos seus colegas, a não ser o autocarro adaptado que a transportava. A partir do 9.º ano, passaram a ser os bombeiros da Junta de Freguesia de Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, onde era a casa dos avós, que a levavam para as aulas. Todos ajudavam e os professores facilitavam. “Os meus amigos levavam-me para todo o lado. Ia a festas, divertia-me e apanhei bebedeiras como qualquer adolescente”, recorda.
As gargalhadas que solta escondem um passado de maus tratos pela mãe e a frustração provocada pelo fosso entre aquilo que deseja para si hoje — viver com a dignidade uma vida independente, comprar casa, trabalhar e constituir família — e a realidade onde todos os dias acorda e na qual a caridade se sobrepõe à igualdade.
Porto vai aumentar rendas apoiadas, Lisboa prevê baixar
in Jornal de Notícias
A Câmara do Porto afirmou, esta quarta-feira, que as alterações ao regime de arrendamento apoiado vão gerar um "aumento generalizado do valor das rendas", enquanto Lisboa prevê uma diminuição.
Apesar de as alterações ao regime de arrendamento apoiado terem entrado em vigor há seis meses, a Câmara do Porto só vai proceder à revisão do valor das rendas a partir de abril, explicando que "a demora deveu-se à necessidade de encontrar um critério justo e uniforme para proteger as famílias do aumento generalizado do valor das rendas", que ocorreria se a autarquia fizesse a aplicação direta do diploma legislativo.
Na solução encontrada pelo município do Porto, que tem 12.098 famílias a viver em habitação social e 974 famílias em lista de espera para atribuição de um fogo, "haverá 3452 famílias cuja renda vai diminuir (em média 13,55 euros), 5716 famílias cuja renda vai aumentar (em média 10,67 euros) e 2470 famílias cuja renda se vai manter", revelou à Lusa fonte da autarquia.
Se a Câmara do Porto procedesse à aplicação das alterações ao regime "sem nenhum mecanismo de mitigação o valor global de rendas emitidas aumentaria de 8,14 milhões de euros para 10,58 milhões de euros (cerca de 29,94%)".
Neste sentido, a autarquia do Porto prevê que "a receita emitida aumente cerca de 160 mil euros por ano", frisando que a aplicação das alterações ao regime "sem mecanismo de mitigação aumentaria a receita em 2,43 milhões de euros por ano".
Já a Câmara de Lisboa - a maior senhoria de habitação social do país com cerca de 23 mil fogos - optou por implementar as alterações desde setembro, pelo que a nova fórmula de cálculo da renda apoiada "já está a ser implementada nas novas atribuições de habitação e nas situações de reavaliação de renda".
"Caso o rendimento da família não se tenha alterado, nem a composição do agregado, a nova fórmula levará à diminuição da renda", afirmou à Lusa fonte do município de Lisboa, informando que o valor da renda mínima é de 4,19 euros.
De acordo com a autarquia de Lisboa, desde 2012 que a empresa municipal de habitação Gebalis tem vindo a registar "uma diminuição nas receitas, de cerca de 12 milhões euros, associada principalmente à redução de rendas devido à perda de rendimentos comprovada".
Questionada sobre o efeito das alterações ao regime de arrendamento apoiado, o município de Lisboa esclareceu que o impacto vai depender da composição dos novos agregados e dos rendimentos por estes auferidos.
"No que toca aos atuais arrendatários, só haverá revisão da renda por solicitação dos próprios, tendo a Câmara de Lisboa disponibilizado um simulador que permite às famílias efetuarem o cálculo da sua renda, com base nos novos critérios, e aferir se é vantajoso ou não solicitar a revisão da mesma", informou a autarquia lisboeta.
Em relação ao Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), que gere 11.386 habitações sociais um pouco por todo o país e que tem 1920 contratos sob o regime do arrendamento apoiado, a revisão do valor da renda apoiada devido às alterações legislativas só se começou a verificar a partir de 01 de janeiro deste ano, aquando da entrada em vigor do Orçamento do Estado.
"O IHRU tem vindo a tratar dos pedidos de revisão de renda, tendo já procedido à aplicação da nova renda em 800 casos", declarou à Lusa, referindo que ainda não é possível adiantar mais informação sobre o processo de revisão das rendas "dado que a amostra em causa não é representativa e não permite disponibilizar valores fidedignos e consolidados".
Segundo o IHRU, no final de 2016 foram enviadas cartas "a todos os arrendatários que poderiam beneficiar do regime em causa, no total de 8747, informando-os sobre a entrada em vigor das alterações ao regime do arrendamento apoiado".
A lei que estabelece o atual regime do arrendamento apoiado, aplicável aos cerca de 120 mil fogos sociais existentes no país, geridos pelo IHRU e pelas autarquias, entrou em vigor em março de 2015, altura em que foi contestada pelos moradores dos bairros sociais devido ao aumento das rendas e à facilitação dos despejos, tendo sofrido alterações em setembro de 2016 com vista a "uma maior justiça social".
A Câmara do Porto afirmou, esta quarta-feira, que as alterações ao regime de arrendamento apoiado vão gerar um "aumento generalizado do valor das rendas", enquanto Lisboa prevê uma diminuição.
Apesar de as alterações ao regime de arrendamento apoiado terem entrado em vigor há seis meses, a Câmara do Porto só vai proceder à revisão do valor das rendas a partir de abril, explicando que "a demora deveu-se à necessidade de encontrar um critério justo e uniforme para proteger as famílias do aumento generalizado do valor das rendas", que ocorreria se a autarquia fizesse a aplicação direta do diploma legislativo.
Na solução encontrada pelo município do Porto, que tem 12.098 famílias a viver em habitação social e 974 famílias em lista de espera para atribuição de um fogo, "haverá 3452 famílias cuja renda vai diminuir (em média 13,55 euros), 5716 famílias cuja renda vai aumentar (em média 10,67 euros) e 2470 famílias cuja renda se vai manter", revelou à Lusa fonte da autarquia.
Se a Câmara do Porto procedesse à aplicação das alterações ao regime "sem nenhum mecanismo de mitigação o valor global de rendas emitidas aumentaria de 8,14 milhões de euros para 10,58 milhões de euros (cerca de 29,94%)".
Neste sentido, a autarquia do Porto prevê que "a receita emitida aumente cerca de 160 mil euros por ano", frisando que a aplicação das alterações ao regime "sem mecanismo de mitigação aumentaria a receita em 2,43 milhões de euros por ano".
Já a Câmara de Lisboa - a maior senhoria de habitação social do país com cerca de 23 mil fogos - optou por implementar as alterações desde setembro, pelo que a nova fórmula de cálculo da renda apoiada "já está a ser implementada nas novas atribuições de habitação e nas situações de reavaliação de renda".
"Caso o rendimento da família não se tenha alterado, nem a composição do agregado, a nova fórmula levará à diminuição da renda", afirmou à Lusa fonte do município de Lisboa, informando que o valor da renda mínima é de 4,19 euros.
De acordo com a autarquia de Lisboa, desde 2012 que a empresa municipal de habitação Gebalis tem vindo a registar "uma diminuição nas receitas, de cerca de 12 milhões euros, associada principalmente à redução de rendas devido à perda de rendimentos comprovada".
Questionada sobre o efeito das alterações ao regime de arrendamento apoiado, o município de Lisboa esclareceu que o impacto vai depender da composição dos novos agregados e dos rendimentos por estes auferidos.
"No que toca aos atuais arrendatários, só haverá revisão da renda por solicitação dos próprios, tendo a Câmara de Lisboa disponibilizado um simulador que permite às famílias efetuarem o cálculo da sua renda, com base nos novos critérios, e aferir se é vantajoso ou não solicitar a revisão da mesma", informou a autarquia lisboeta.
Em relação ao Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), que gere 11.386 habitações sociais um pouco por todo o país e que tem 1920 contratos sob o regime do arrendamento apoiado, a revisão do valor da renda apoiada devido às alterações legislativas só se começou a verificar a partir de 01 de janeiro deste ano, aquando da entrada em vigor do Orçamento do Estado.
"O IHRU tem vindo a tratar dos pedidos de revisão de renda, tendo já procedido à aplicação da nova renda em 800 casos", declarou à Lusa, referindo que ainda não é possível adiantar mais informação sobre o processo de revisão das rendas "dado que a amostra em causa não é representativa e não permite disponibilizar valores fidedignos e consolidados".
Segundo o IHRU, no final de 2016 foram enviadas cartas "a todos os arrendatários que poderiam beneficiar do regime em causa, no total de 8747, informando-os sobre a entrada em vigor das alterações ao regime do arrendamento apoiado".
A lei que estabelece o atual regime do arrendamento apoiado, aplicável aos cerca de 120 mil fogos sociais existentes no país, geridos pelo IHRU e pelas autarquias, entrou em vigor em março de 2015, altura em que foi contestada pelos moradores dos bairros sociais devido ao aumento das rendas e à facilitação dos despejos, tendo sofrido alterações em setembro de 2016 com vista a "uma maior justiça social".
Desemprego em queda
Magalhães Afonso, in iOnline
O desemprego caiu para 10,2% em dezembro de 2016 e a estimativa para janeiro de 2017 é que se tenha mantido no mesmo valor.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) a taxa de desemprego definitiva de dezembro de 2016 caiu para 10,2%, valor que compara com os 10,5% de novembro. O indicador mantém a tendência de queda desde o início do ano passado e já está no nível mais baixo desde março de 2009.
De acordo com o INE, “a população desempregada de dezembro foi estimada em 520,7 mil pessoas, tendo diminuído 3,2% em relação ao mês precedente (menos 17,3 mil pessoas), enquanto a população empregada foi estimada em 4 601,6 mil pessoas, tendo aumentado 0,4% (mais 16,9 mil pessoas) face ao mês anterior”. Entre os jovens, a taxa de desemprego fixou-se nos 26,2% em dezembro
A primeira estimativa do INE aponta para um desemprego de 10,2% em janeiro deste ano. A estimativa provisória da população desempregada em janeiro foi de 521,8 mil pessoas e a da população empregada foi de 4,593 milhões de pessoas.
Segundo o INE, a tendência é um pouco menos animadora: "a estimativa provisória da população empregada foi de 4 593,2 mil pessoas, tendo diminuído 0,2% (8,4 mil) face ao mês anterior (dezembro de 2016) e aumentado 0,2% (10,2 mil) em relação a três meses antes".
Entre os jovens, o desemprego terá caído no primeiro mês de 2017 para os 25,7%.
O desemprego caiu para 10,2% em dezembro de 2016 e a estimativa para janeiro de 2017 é que se tenha mantido no mesmo valor.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) a taxa de desemprego definitiva de dezembro de 2016 caiu para 10,2%, valor que compara com os 10,5% de novembro. O indicador mantém a tendência de queda desde o início do ano passado e já está no nível mais baixo desde março de 2009.
De acordo com o INE, “a população desempregada de dezembro foi estimada em 520,7 mil pessoas, tendo diminuído 3,2% em relação ao mês precedente (menos 17,3 mil pessoas), enquanto a população empregada foi estimada em 4 601,6 mil pessoas, tendo aumentado 0,4% (mais 16,9 mil pessoas) face ao mês anterior”. Entre os jovens, a taxa de desemprego fixou-se nos 26,2% em dezembro
A primeira estimativa do INE aponta para um desemprego de 10,2% em janeiro deste ano. A estimativa provisória da população desempregada em janeiro foi de 521,8 mil pessoas e a da população empregada foi de 4,593 milhões de pessoas.
Segundo o INE, a tendência é um pouco menos animadora: "a estimativa provisória da população empregada foi de 4 593,2 mil pessoas, tendo diminuído 0,2% (8,4 mil) face ao mês anterior (dezembro de 2016) e aumentado 0,2% (10,2 mil) em relação a três meses antes".
Entre os jovens, o desemprego terá caído no primeiro mês de 2017 para os 25,7%.
INE confirma subida de 1,4% do PIB em 2016
in RR
Os valores para o quarto trimestre foram também revistos em alta.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou, esta quarta-feira, que o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 1,4% em 2016.
De acordo com os dados do INE, no ano passado o PIB atingiu cerca de 185 mil milhões de euros em termos nominais, tendo registado um aumento de 1,4% em volume, menos 0,2 pontos percentuais do que o verificado no ano anterior.
"O contributo da procura interna para a variação do PIB diminuiu, situando-se em 1,5 pontos percentuais em 2016 (2,6 pontos percentuais em 2015), reflectindo, principalmente, a redução do investimento e, em menor grau, o ligeiro abrandamento do consumo privado", refere o instituto.
"A aceleração do PIB resultou do maior contributo da procura interna, que passou de 1,1 pontos percentuais no terceiro trimestre para 2,5 pontos percentuais, observando-se uma recuperação do investimento e um crescimento mais intenso do consumo privado", acrescenta.
Em sentido contrário, acrescenta, a procura externa passou a registar um contributo negativo, devido ao forte crescimento das importações de bens e serviços.
O INE reviu ainda em alta o valor em termos trimestrais, face à estimativa rápida, para os 2%. Na estimativa rápida realizada a 14 de Fevereiro, tinha avançado uma subida de 1,9% no quarto trimestre.
Os valores para o quarto trimestre foram também revistos em alta.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou, esta quarta-feira, que o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 1,4% em 2016.
De acordo com os dados do INE, no ano passado o PIB atingiu cerca de 185 mil milhões de euros em termos nominais, tendo registado um aumento de 1,4% em volume, menos 0,2 pontos percentuais do que o verificado no ano anterior.
"O contributo da procura interna para a variação do PIB diminuiu, situando-se em 1,5 pontos percentuais em 2016 (2,6 pontos percentuais em 2015), reflectindo, principalmente, a redução do investimento e, em menor grau, o ligeiro abrandamento do consumo privado", refere o instituto.
"A aceleração do PIB resultou do maior contributo da procura interna, que passou de 1,1 pontos percentuais no terceiro trimestre para 2,5 pontos percentuais, observando-se uma recuperação do investimento e um crescimento mais intenso do consumo privado", acrescenta.
Em sentido contrário, acrescenta, a procura externa passou a registar um contributo negativo, devido ao forte crescimento das importações de bens e serviços.
O INE reviu ainda em alta o valor em termos trimestrais, face à estimativa rápida, para os 2%. Na estimativa rápida realizada a 14 de Fevereiro, tinha avançado uma subida de 1,9% no quarto trimestre.
Quaresma. Refugiados e crise humanitária no Sudão do Sul preocupam bispos portugueses
Ângela Roque, in RR
As mensagens dos bispos portugueses para a Quaresma, que se inicia esta quarta-feira, não esquecem o acolhimento aos refugiados e a crise humanitária que se vive no Sudão do Sul. Parte das renúncias quaresmais deste ano serão canalizadas para esse país africano, mas há dioceses onde os donativos terão outros destinos, como o apoio às grávidas em dificuldade ou às crianças que vivem em extrema pobreza.
O bispo de Portalegre e Castelo Branco foi dos primeiros a responder ao apelo do Papa em favor do Sudão do Sul. Metade dos donativos que forem recolhidos durante a Quaresma serão para ajudar a população daquele país africano, “devastado por um conflito fratricida e uma grave crise alimentar, onde milhares de pessoas morrem de fome, mais de um milhão estão em risco e um milhão e meio são refugiados”, lembra D. Antonino Dias na sua mensagem. A outra metade das renúncias quaresmais deste ano será para a Cáritas local apoiar os refugiados acolhidos na diocese.
Também os bispos de Aveiro e de Santarém desafiam os católicos das suas dioceses a ajudarem o povo do Sudão do Sul. D. António Moiteiro recorda os apelos do Papa em favor das “crianças pobres” que ali “passam fome”, D. Manuel Pelino fala na “situação aflitiva" que se vive naquele país “onde falta tudo: tendas, comida, água, medicamentos e outras necessidades urgentes”. Nos dois casos o que for recolhido na Quaresma será entregue aos missionários combonianos que estão a ajudar a população no terreno.
A diocese de Viseu decidiu este ano ajudar os refugiados na Turquia, com os donativos recolhidos durante a Quaresma. É uma resposta ao apelo lançado pela Cáritas Portuguesa, que lançou uma campanha de recolha de fundos para apoiar a sua congénere naquele país. O bispo D. Ilídio Leandro lembra que “a situação social, económica e de segurança no mundo” continua “a pedir respostas de solidariedade, de acolhimento e de justiça social”. A diocese mantém a disponibilidade para receber quem chegue nessas condições.
Os refugiados preocupam também a diocese de Setúbal, que anunciou que vai usar os donativos recolhidos na Quaresma para criar um fundo diocesano destinado a apoiar o seu acolhimento. A chamada renúncia quaresmal vai ainda auxiliar a paróquia da Arrentela.
Já a diocese da Guarda vai ajudar as comunidades cristãs do Iraque e da Síria. D. Manuel Felício afirma que é necessário “encontrar forma de acolher os refugiados” e tentar que “voltem a ter condições de vida nas suas terras”. A recolha que for feita durante a Quaresma será entregue à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que está a apoiar as populações daqueles dois países.
Na diocese de Beja a renúncia quaresmal deste ano vai ser destinada, em partes iguais, aos cristãos perseguidos da Síria e ao Fundo de Emergência administrado pela Cáritas diocesana. “Faremos chegar a nossa ajuda aos cristãos sírios por meio de uma religiosa portuguesa do mosteiro de S. Tiago Mutilado, de Qâra”, esclarece D. João Marcos na sua mensagem.
Em Leiria-Fátima os donativos das renúncias também vão ser canalizados para a ajuda aos refugiados, na Grécia ou noutros países, “onde vivem em condições de miséria”. O montante recolhido será entregue à Cáritas Portuguesa. Mas a diocese vai também aproveitar este tempo especial de preparação para a Páscoa para promover o apoio a grávidas em dificuldade.
“Vai ser apresentado publicamente o Serviço de Apoio à Maternidade em Dificuldade, no âmbito da Cáritas diocesana. Façamos chegar essa informação às mulheres grávidas que necessitem de ajuda para acolherem e educarem o seu filho”, escreve D. António Marto na sua mensagem.
Aborto, pobreza, meditação
O arcebispo de Braga alerta na sua mensagem de Quaresma para a necessidade de respeitar o direito “fundamental e inviolável” à vida, insurgindo-se contra as práticas do aborto e da eutanásia. D. Jorge Ortiga convida a fazer do tempo de preparação para a Páscoa uma momento para “educar para a vida”.
Fazer desta Quaresma um “tempo de diferença” é o desafio lançado pelo bispo de Lamego. O que for recolhido na diocese até à Páscoa será dividido entre o Fundo Solidário Diocesano, que apoia quem mais precisa na região, e a ajuda que é prestada em Moçambique e na Bolívia pelos missionários do Espírito Santo, que estão a celebrar 150 anos de presença em Portugal.
Nos Açores, o bispo de Angra destinou a renúncia quaresmal deste ano ao Fundo Diocesano para as crianças em extrema pobreza. D. João Lavrador escreve que nesta Quaresma toda a caminhada em direcção a Deus “obriga necessariamente” a ser solidário, e pede aos sacerdotes que dediquem “o tempo necessário” para atender quem precisa.
O bispo do Porto desafia as comunidades diocesanas a aproveitarem o tempo da Quaresma e da Páscoa para prepararem a vinda do Papa Francisco a Portugal e ao Santuário de Fátima, por ocasião do centenário das aparições. No “site” da diocese é possível descarregar os materiais para a caminhada proposta, e que inclui a oração do terço. D. António Francisco dos Santos pede a “meditação de, pelo menos, um mistério do Rosário por semana, de modo a revitalizar a família como Igreja orante”.
O bispo de Bragança-Miranda convida os católicos a fazerem desta Quaresma um “tempo aberto à misericórdia” e atento aos que mais precisam. D. José Cordeiro propôs que a renúncia quaresmal seja este ano destinada à Cáritas Diocesana, que, segundo os dados relativos a 2016, apoia mais de 17 mil pessoas.
O arcebispo de Évora pede aos católicos que tomem os “três remédios” que permitem olhar com mais atenção para quem está à volta – a oração, o jejum e a esmola. Na arquidiocese a renúncia quaresmal destina-se à manutenção do seminário “Redemptoris Mater”, que “não tem receitas próprias” e onde se encontram a estudar “11 jovens que sentiram o chamamento de Deus”.
Já o bispo das Forças Armadas e de Segurança recorda, na sua mensagem para a Quaresma e Páscoa, os militares e polícias que vivem situações “particularmente graves”. D. Manuel Linda determinou, por isso, que no Ordinariato Castrense metade dos donativos recolhidos irá para ajudar estes casos. Os outros 50% vão seguir para Timor-Leste, sendo a sua utilização determinada pelos bispos católicos do país.
As mensagens dos bispos portugueses para a Quaresma, que se inicia esta quarta-feira, não esquecem o acolhimento aos refugiados e a crise humanitária que se vive no Sudão do Sul. Parte das renúncias quaresmais deste ano serão canalizadas para esse país africano, mas há dioceses onde os donativos terão outros destinos, como o apoio às grávidas em dificuldade ou às crianças que vivem em extrema pobreza.
O bispo de Portalegre e Castelo Branco foi dos primeiros a responder ao apelo do Papa em favor do Sudão do Sul. Metade dos donativos que forem recolhidos durante a Quaresma serão para ajudar a população daquele país africano, “devastado por um conflito fratricida e uma grave crise alimentar, onde milhares de pessoas morrem de fome, mais de um milhão estão em risco e um milhão e meio são refugiados”, lembra D. Antonino Dias na sua mensagem. A outra metade das renúncias quaresmais deste ano será para a Cáritas local apoiar os refugiados acolhidos na diocese.
Também os bispos de Aveiro e de Santarém desafiam os católicos das suas dioceses a ajudarem o povo do Sudão do Sul. D. António Moiteiro recorda os apelos do Papa em favor das “crianças pobres” que ali “passam fome”, D. Manuel Pelino fala na “situação aflitiva" que se vive naquele país “onde falta tudo: tendas, comida, água, medicamentos e outras necessidades urgentes”. Nos dois casos o que for recolhido na Quaresma será entregue aos missionários combonianos que estão a ajudar a população no terreno.
A diocese de Viseu decidiu este ano ajudar os refugiados na Turquia, com os donativos recolhidos durante a Quaresma. É uma resposta ao apelo lançado pela Cáritas Portuguesa, que lançou uma campanha de recolha de fundos para apoiar a sua congénere naquele país. O bispo D. Ilídio Leandro lembra que “a situação social, económica e de segurança no mundo” continua “a pedir respostas de solidariedade, de acolhimento e de justiça social”. A diocese mantém a disponibilidade para receber quem chegue nessas condições.
Os refugiados preocupam também a diocese de Setúbal, que anunciou que vai usar os donativos recolhidos na Quaresma para criar um fundo diocesano destinado a apoiar o seu acolhimento. A chamada renúncia quaresmal vai ainda auxiliar a paróquia da Arrentela.
Já a diocese da Guarda vai ajudar as comunidades cristãs do Iraque e da Síria. D. Manuel Felício afirma que é necessário “encontrar forma de acolher os refugiados” e tentar que “voltem a ter condições de vida nas suas terras”. A recolha que for feita durante a Quaresma será entregue à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que está a apoiar as populações daqueles dois países.
Na diocese de Beja a renúncia quaresmal deste ano vai ser destinada, em partes iguais, aos cristãos perseguidos da Síria e ao Fundo de Emergência administrado pela Cáritas diocesana. “Faremos chegar a nossa ajuda aos cristãos sírios por meio de uma religiosa portuguesa do mosteiro de S. Tiago Mutilado, de Qâra”, esclarece D. João Marcos na sua mensagem.
Em Leiria-Fátima os donativos das renúncias também vão ser canalizados para a ajuda aos refugiados, na Grécia ou noutros países, “onde vivem em condições de miséria”. O montante recolhido será entregue à Cáritas Portuguesa. Mas a diocese vai também aproveitar este tempo especial de preparação para a Páscoa para promover o apoio a grávidas em dificuldade.
“Vai ser apresentado publicamente o Serviço de Apoio à Maternidade em Dificuldade, no âmbito da Cáritas diocesana. Façamos chegar essa informação às mulheres grávidas que necessitem de ajuda para acolherem e educarem o seu filho”, escreve D. António Marto na sua mensagem.
Aborto, pobreza, meditação
O arcebispo de Braga alerta na sua mensagem de Quaresma para a necessidade de respeitar o direito “fundamental e inviolável” à vida, insurgindo-se contra as práticas do aborto e da eutanásia. D. Jorge Ortiga convida a fazer do tempo de preparação para a Páscoa uma momento para “educar para a vida”.
Fazer desta Quaresma um “tempo de diferença” é o desafio lançado pelo bispo de Lamego. O que for recolhido na diocese até à Páscoa será dividido entre o Fundo Solidário Diocesano, que apoia quem mais precisa na região, e a ajuda que é prestada em Moçambique e na Bolívia pelos missionários do Espírito Santo, que estão a celebrar 150 anos de presença em Portugal.
Nos Açores, o bispo de Angra destinou a renúncia quaresmal deste ano ao Fundo Diocesano para as crianças em extrema pobreza. D. João Lavrador escreve que nesta Quaresma toda a caminhada em direcção a Deus “obriga necessariamente” a ser solidário, e pede aos sacerdotes que dediquem “o tempo necessário” para atender quem precisa.
O bispo do Porto desafia as comunidades diocesanas a aproveitarem o tempo da Quaresma e da Páscoa para prepararem a vinda do Papa Francisco a Portugal e ao Santuário de Fátima, por ocasião do centenário das aparições. No “site” da diocese é possível descarregar os materiais para a caminhada proposta, e que inclui a oração do terço. D. António Francisco dos Santos pede a “meditação de, pelo menos, um mistério do Rosário por semana, de modo a revitalizar a família como Igreja orante”.
O bispo de Bragança-Miranda convida os católicos a fazerem desta Quaresma um “tempo aberto à misericórdia” e atento aos que mais precisam. D. José Cordeiro propôs que a renúncia quaresmal seja este ano destinada à Cáritas Diocesana, que, segundo os dados relativos a 2016, apoia mais de 17 mil pessoas.
O arcebispo de Évora pede aos católicos que tomem os “três remédios” que permitem olhar com mais atenção para quem está à volta – a oração, o jejum e a esmola. Na arquidiocese a renúncia quaresmal destina-se à manutenção do seminário “Redemptoris Mater”, que “não tem receitas próprias” e onde se encontram a estudar “11 jovens que sentiram o chamamento de Deus”.
Já o bispo das Forças Armadas e de Segurança recorda, na sua mensagem para a Quaresma e Páscoa, os militares e polícias que vivem situações “particularmente graves”. D. Manuel Linda determinou, por isso, que no Ordinariato Castrense metade dos donativos recolhidos irá para ajudar estes casos. Os outros 50% vão seguir para Timor-Leste, sendo a sua utilização determinada pelos bispos católicos do país.
Espancamentos, fome, abusos sexuais. Menores em risco na rota do Mediterrâneo
>Catarina Santos, in RR
A Unicef denuncia que há refugiados e migrantes menores que são vítimas de violência sexual e outros abusos em centros de detenção na rota do Mediterrâneo Central. Num relatório publicado esta terça-feira, mulheres e crianças descreveram condições desumanas em locais sobrelotados, em todo o trajecto desde o continente africano até Itália - sobretudo na Líbia, onde os centros de detenção são geridos pelo governo e por milícias armadas.
[veja aqui a reportagem]
A Unicef denuncia que há refugiados e migrantes menores que são vítimas de violência sexual e outros abusos em centros de detenção na rota do Mediterrâneo Central. Num relatório publicado esta terça-feira, mulheres e crianças descreveram condições desumanas em locais sobrelotados, em todo o trajecto desde o continente africano até Itália - sobretudo na Líbia, onde os centros de detenção são geridos pelo governo e por milícias armadas.
[veja aqui a reportagem]
Corte de empregos no carvão e no aço
Magalhães Afonso, in iOn-line
A China anunciou que vai cortar este ano mais de 500 mil empregos nas indústrias do aço e do carvão.
O ministro dos Recursos Humanos, que anunciou os cortes em conferência de imprensa, revelou que as pessoas que serão despedidas entrarão num programa de procura de emprego ou ser-lhes-á oferecida uma reforma antecipada.
A China produz mais de metade do aço mundial, mas uma desaceleração do crescimento económico do país e uma procura mundial menos pujante deixou esta indústria com sobrecapacidade.
No ano passado o governo tinha anunciado um plano para a eliminação de 1,8 milhões de empregos na indústria do carvão e do aço. Em 2016 eliminou quase 730 mil.
Citado pela agência AFP, Yin Weimin afirmou que “todo o processo foi ordeiro e suave”, acrescentando não ter havido “especiais temas ou conflitos”.
Pequim quer reorientar a economia para um modelo de consumo interno em vez de investimento alimentado com dívida, ao mesmo tempo que quer emagrecer o setor industrial.
Em 2016 a economia cresceu 6,7%, o valor mais baixo em 25 anos.
A China anunciou que vai cortar este ano mais de 500 mil empregos nas indústrias do aço e do carvão.
O ministro dos Recursos Humanos, que anunciou os cortes em conferência de imprensa, revelou que as pessoas que serão despedidas entrarão num programa de procura de emprego ou ser-lhes-á oferecida uma reforma antecipada.
A China produz mais de metade do aço mundial, mas uma desaceleração do crescimento económico do país e uma procura mundial menos pujante deixou esta indústria com sobrecapacidade.
No ano passado o governo tinha anunciado um plano para a eliminação de 1,8 milhões de empregos na indústria do carvão e do aço. Em 2016 eliminou quase 730 mil.
Citado pela agência AFP, Yin Weimin afirmou que “todo o processo foi ordeiro e suave”, acrescentando não ter havido “especiais temas ou conflitos”.
Pequim quer reorientar a economia para um modelo de consumo interno em vez de investimento alimentado com dívida, ao mesmo tempo que quer emagrecer o setor industrial.
Em 2016 a economia cresceu 6,7%, o valor mais baixo em 25 anos.
Crianças escravizadas no Congo
in SicNotícias
Uma investigação da SKY News nas minas de cobalto da República Democrática do Congo revelou as condições chocantes em que é explorado o trabalho escravo de centenas de crianças. A extração de cobalto, utilizado no fabrico de baterias para telemóveis e computadores, é agora um negócio de milhões. As crianças mais pobres e vulneráveis das zonas mineiras são as primeiras vítimas.
[veja aqui a reportagem]
Uma investigação da SKY News nas minas de cobalto da República Democrática do Congo revelou as condições chocantes em que é explorado o trabalho escravo de centenas de crianças. A extração de cobalto, utilizado no fabrico de baterias para telemóveis e computadores, é agora um negócio de milhões. As crianças mais pobres e vulneráveis das zonas mineiras são as primeiras vítimas.
[veja aqui a reportagem]
Projeto pioneiro está a pôr os portugueses a parar, pensar e agir
in Sol
A cidadania não se decreta, pratica-se. Para dar uma ajuda ao ditado, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade impulsionou um projeto que pôs quase cinco mil pessoas a pensar sobre estas questões. O i foi passar um dia com a equipa que anda a percorrer o país
Quanto tempo é que você dura?"A pergunta inusitada pôs um sorriso na sala.O destinatário da questão era Afonso Lourenço Costa, presidente da junta de freguesia de Alverca e do Sobralinho.
O autarca demorou meio segundo a perceber que a pergunta de uma criança da escola do concelho não era um prenúncio de uma vida encurtada. "Os mandatos são de quatro anos", responde, aproveitando para acrescentar "que as eleições autárquicas são este ano". "E se não quiser ser mais presidente como faz para sair?", pergunta outro aluno. "Ninguém é obrigado a ficar, está previsto na lei que as pessoas que foram eleitas também podem renunciar", diz Afonso Costa.
"E isto não é uma profissão, é um cargo", aproveita para explicar Sandra Silvestre, coordenadora da associação Animar. "É assim uma espécie de missão. O presidente também tinha uma profissão antes de ser eleito, não tinha, senhor presidente?". O autarca - antigo editor discográfico - confirma e aproveita para falar um pouco melhor das funções de presidente.
Os alunos acabaram por ser eles, de certa forma, a dar a resposta: "Um presidente da junta gere a terra".
Sandra continua a interpelar os cerca de 15 alunos da Sol School, um centro de de estudos em Alverca criado pelo Centro Social Para o Desenvolvimento do Sobralinho e que, há uma semana, recebeu a equipa do Roteiro da Cidadania.
Cidadania sobre rodas O Roteiro da Cidadania - uma ideia da Animar (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local) e apoiada desde o início pela secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino - é um projeto pioneiro que, nos últimos 120 dias, já falou sobre as questões de cidadania com quase cinco mil pessoas nos quatro cantos do país.
A equipa tem andado pela estrada com uma carrinha equipada a rigor. E o rigor de que falamos nada tem a ver com brindes. Os melhores presentes desta carrinha são mesmo os técnicos que, de norte a sul, têm posto as diferentes comunidades a pensar - e a pensar em como agir - sobre a igualdade de género, violência doméstica, o ativismo na sociedade e o que é isto de ser cidadão. "A ideia é replicar, todos os dias, o Dia Municipal para a Igualdade, que existe desde 2010. Pensámos numa lógica de parceria que reativasse as redes sociais (as da vida real) entre as autarquias e as associações que estão no terreno", diz Célia Lavado, da Animar.
E como funciona o processo? Basicamente, é preciso uma organização local - como uma escola, ou uma associação - predispor-se a receber a equipa. Em troca, recebem uma resposta particular, já que os temas abordados em cada sessão dependem do trabalho ou dos interesses e problemas das comunidades. O único critério é que os temas escolhidos estejam inscritos nas temáticas do desenvolvimento sustentável. "O que preocupa as pessoas de Lisboa poderá não ser o mesmo das pessoas de Barrancos", disse Catarina Marcelino ao i. "Este projeto é nacional, vamos estar presentes dos Açores a Trás-os-Montes, mas tem uma base muito específica, porque tem em conta aquilo que são os objetivos de desenvolvimento local porque tem a ver com a realidade de cada sítio", resume.
Para a secretária de Estado, o grande desafio nesta matéria é a educação para a cidadania nas escolas. "O objetivo é mesmo criar pensamento e depois ação. Há aquela frase que diz que a cidadania não se decreta, pratica-se. Julgo que a educação para a cidadania é a chave para a consolidação não só da sociedade mas na vida de cada um de nós", disse ao i. Em paralelo, estão a ser organizados seis seminários sobre as mais diferentes temáticas, desde a economia social à educação para a saúde.
No final do projeto, marcado para julho, Catarina Marcelino quer usar a informação recolhida para medir o pulso do país e traçar novas metas. "Só assim podemos melhorar como sociedade", acredita.
Não é preciso esperar pelo fim para aceder às opiniões e sugestões dos cidadãos que já se cruzaram com o Roteiro: pode ser tudo consultado na página cidadaniaemportugal.pt.
Uma (mini)democracia participativa No dia em que o i acompanhou o Roteiro da Cidadania, a manhã começou na escola básica do Sobralinho.
Ao longo de duas sessões, as técnicas de serviço naquele dia - Sandra Silvestre, que já referimos, Vanda Godinho, Célia Lavado a quem compete também a coordenação do projeto e Raquel Gonçalves - convidaram os alunos de terceiro e de quarto ano da escola a pensar no que estava mal na sua freguesia - e que, portanto, deveria parar.
Divididos em grupos, os alunos identificaram alguns problemas. como os dejetos dos animais nas ruas, a falta de um lar de idosos, a poluição das fábricas e a falta de espaços verdes . As crianças também referiram que era importante ter a biblioteca aberta nas férias e disseram que faltava emprego e transportes públicos na freguesia.
"Temos aqui grandes ideias de governo!", brincou Sandra. "Agora pensem como podem agir para mudar", pediu. "Se calhar há coisas que vocês podem fazer. Muitos falaram do problema com os dejetos dos animais, porque não escrevem uma petição sobre este problema, reúnem as assinaturas e entregam ao presidente da junta?"
Já sobre a falta de lar de idosos, foi proposto aos alunos que, enquanto não há verbas, dessem o seu tempo como voluntários para acompanhar os mais idosos.
Não só o que é mau interessa, por isso os estudantes também identificaram as mais-valias do Sobralinho. O facto de toda a gente se cumprimentar, a escola nova, o pavilhão, a Torre de Relógio e a proximidade do rio Tejo foram mencionados por quase todos os grupos.
"Sabem o que significa ser cidadão?", perguntou outra das técnicas do Roteiro. "É ser parte de uma terra", respondeu um dos alunos. A lista de direitos e deveres tomou o resto da conversa. Pelo caminho, ainda houve tempo para explicar em linguagem simples a hierarquia dos órgãos de soberania e o que é a ONU e as instituições europeias.
Quando se saltaram fronteiras, os problemas identificados pelos alunos com idades, sensivelmente, entre os 8 e os 10 anos foram imediatos: a guerra na Síria e o muro proposto por Trump.
"Isto é muito interessante", comentava Felizarda Correia. Mesmo que não o saiba, Felizarda é um dos rostos da democracia participativa desta freguesia - esta senhora é um dos membros da direção da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos do Sobralinho que promove atividades para todas as idades. "Venham cá no 25 de Abril, vamos declamar poemas do Ary dos Santos", convida, enquanto prossegue a discussão com os conterrâneos de palmo e meio.
Luís Coelho, presidente do Centro Social para o Desenvolvimento do Sobralinho, também entrou na troca de ideias com um dos grupos. O organismo a que preside - que presta um apoio transversal à população - foi identificado pelos alunos como uma das valências positivas da freguesia. "É algo que me deixou muito emocionado", confessou mais tarde ao i.
No final da sessão, a descer as escadas, os habituais empurrões. "Não estás a ser um bom cidadão!", dispara um aluno. Nem que seja a curto prazo, a mensagem colou.
93 localidades Esta segunda-feira, o Roteiro da Cidadania já tinha passado por 93 locais e realizado 118 atividades. Um caminho que tem sido feito de descobertas. "O conservadorismo vem de onde menos se espera", contava Sandra Silvestre. "Já conversámos com um jovem de 19 anos que discordava por completo do facto de as mulheres fazerem relatos de futebol", exemplifica.
Sandra também já trocou ideias que a deixaram a pensar. "Em Guimarães, falei com três jovens sobre a violência contra as mulheres e o rapaz colocou-me um dilema, que é a questão do filho denunciar o próprio pai que é agressor ou vai deixar a mãe ser vítima. E o próprio rapaz disse que nunca tinha pensado nisto. Este trabalho é importante por isso, é deixar as pessoas a questionarem-se."
Também já houve momentos mais tensos de partilha. "Em Ponte de Lima, uma senhora contou pela primeira vez em público que tinha sido alvo de violência doméstica. E deixou um recado aos filhos, disse que, caso algum deles tivessem esse comportamento, ela acolheria as noras."
Sandra, formada em Relações Internacionais e ligada a várias organizações culturais, sociais e políticas -, parece ter sido talhada para o "Roteiro da Cidadania". É um daqueles casos felizes em que o percurso profissional e o projeto se cruzam. A técnica acredita - e espalha a mensagem de que "os territórios têm que ter a participação de todas as pessoas de todas as idades". Às vezes basta parar. Pensar. E agir.
A cidadania não se decreta, pratica-se. Para dar uma ajuda ao ditado, a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade impulsionou um projeto que pôs quase cinco mil pessoas a pensar sobre estas questões. O i foi passar um dia com a equipa que anda a percorrer o país
Quanto tempo é que você dura?"A pergunta inusitada pôs um sorriso na sala.O destinatário da questão era Afonso Lourenço Costa, presidente da junta de freguesia de Alverca e do Sobralinho.
O autarca demorou meio segundo a perceber que a pergunta de uma criança da escola do concelho não era um prenúncio de uma vida encurtada. "Os mandatos são de quatro anos", responde, aproveitando para acrescentar "que as eleições autárquicas são este ano". "E se não quiser ser mais presidente como faz para sair?", pergunta outro aluno. "Ninguém é obrigado a ficar, está previsto na lei que as pessoas que foram eleitas também podem renunciar", diz Afonso Costa.
"E isto não é uma profissão, é um cargo", aproveita para explicar Sandra Silvestre, coordenadora da associação Animar. "É assim uma espécie de missão. O presidente também tinha uma profissão antes de ser eleito, não tinha, senhor presidente?". O autarca - antigo editor discográfico - confirma e aproveita para falar um pouco melhor das funções de presidente.
Os alunos acabaram por ser eles, de certa forma, a dar a resposta: "Um presidente da junta gere a terra".
Sandra continua a interpelar os cerca de 15 alunos da Sol School, um centro de de estudos em Alverca criado pelo Centro Social Para o Desenvolvimento do Sobralinho e que, há uma semana, recebeu a equipa do Roteiro da Cidadania.
Cidadania sobre rodas O Roteiro da Cidadania - uma ideia da Animar (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local) e apoiada desde o início pela secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino - é um projeto pioneiro que, nos últimos 120 dias, já falou sobre as questões de cidadania com quase cinco mil pessoas nos quatro cantos do país.
A equipa tem andado pela estrada com uma carrinha equipada a rigor. E o rigor de que falamos nada tem a ver com brindes. Os melhores presentes desta carrinha são mesmo os técnicos que, de norte a sul, têm posto as diferentes comunidades a pensar - e a pensar em como agir - sobre a igualdade de género, violência doméstica, o ativismo na sociedade e o que é isto de ser cidadão. "A ideia é replicar, todos os dias, o Dia Municipal para a Igualdade, que existe desde 2010. Pensámos numa lógica de parceria que reativasse as redes sociais (as da vida real) entre as autarquias e as associações que estão no terreno", diz Célia Lavado, da Animar.
E como funciona o processo? Basicamente, é preciso uma organização local - como uma escola, ou uma associação - predispor-se a receber a equipa. Em troca, recebem uma resposta particular, já que os temas abordados em cada sessão dependem do trabalho ou dos interesses e problemas das comunidades. O único critério é que os temas escolhidos estejam inscritos nas temáticas do desenvolvimento sustentável. "O que preocupa as pessoas de Lisboa poderá não ser o mesmo das pessoas de Barrancos", disse Catarina Marcelino ao i. "Este projeto é nacional, vamos estar presentes dos Açores a Trás-os-Montes, mas tem uma base muito específica, porque tem em conta aquilo que são os objetivos de desenvolvimento local porque tem a ver com a realidade de cada sítio", resume.
Para a secretária de Estado, o grande desafio nesta matéria é a educação para a cidadania nas escolas. "O objetivo é mesmo criar pensamento e depois ação. Há aquela frase que diz que a cidadania não se decreta, pratica-se. Julgo que a educação para a cidadania é a chave para a consolidação não só da sociedade mas na vida de cada um de nós", disse ao i. Em paralelo, estão a ser organizados seis seminários sobre as mais diferentes temáticas, desde a economia social à educação para a saúde.
No final do projeto, marcado para julho, Catarina Marcelino quer usar a informação recolhida para medir o pulso do país e traçar novas metas. "Só assim podemos melhorar como sociedade", acredita.
Não é preciso esperar pelo fim para aceder às opiniões e sugestões dos cidadãos que já se cruzaram com o Roteiro: pode ser tudo consultado na página cidadaniaemportugal.pt.
Uma (mini)democracia participativa No dia em que o i acompanhou o Roteiro da Cidadania, a manhã começou na escola básica do Sobralinho.
Ao longo de duas sessões, as técnicas de serviço naquele dia - Sandra Silvestre, que já referimos, Vanda Godinho, Célia Lavado a quem compete também a coordenação do projeto e Raquel Gonçalves - convidaram os alunos de terceiro e de quarto ano da escola a pensar no que estava mal na sua freguesia - e que, portanto, deveria parar.
Divididos em grupos, os alunos identificaram alguns problemas. como os dejetos dos animais nas ruas, a falta de um lar de idosos, a poluição das fábricas e a falta de espaços verdes . As crianças também referiram que era importante ter a biblioteca aberta nas férias e disseram que faltava emprego e transportes públicos na freguesia.
"Temos aqui grandes ideias de governo!", brincou Sandra. "Agora pensem como podem agir para mudar", pediu. "Se calhar há coisas que vocês podem fazer. Muitos falaram do problema com os dejetos dos animais, porque não escrevem uma petição sobre este problema, reúnem as assinaturas e entregam ao presidente da junta?"
Já sobre a falta de lar de idosos, foi proposto aos alunos que, enquanto não há verbas, dessem o seu tempo como voluntários para acompanhar os mais idosos.
Não só o que é mau interessa, por isso os estudantes também identificaram as mais-valias do Sobralinho. O facto de toda a gente se cumprimentar, a escola nova, o pavilhão, a Torre de Relógio e a proximidade do rio Tejo foram mencionados por quase todos os grupos.
"Sabem o que significa ser cidadão?", perguntou outra das técnicas do Roteiro. "É ser parte de uma terra", respondeu um dos alunos. A lista de direitos e deveres tomou o resto da conversa. Pelo caminho, ainda houve tempo para explicar em linguagem simples a hierarquia dos órgãos de soberania e o que é a ONU e as instituições europeias.
Quando se saltaram fronteiras, os problemas identificados pelos alunos com idades, sensivelmente, entre os 8 e os 10 anos foram imediatos: a guerra na Síria e o muro proposto por Trump.
"Isto é muito interessante", comentava Felizarda Correia. Mesmo que não o saiba, Felizarda é um dos rostos da democracia participativa desta freguesia - esta senhora é um dos membros da direção da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos do Sobralinho que promove atividades para todas as idades. "Venham cá no 25 de Abril, vamos declamar poemas do Ary dos Santos", convida, enquanto prossegue a discussão com os conterrâneos de palmo e meio.
Luís Coelho, presidente do Centro Social para o Desenvolvimento do Sobralinho, também entrou na troca de ideias com um dos grupos. O organismo a que preside - que presta um apoio transversal à população - foi identificado pelos alunos como uma das valências positivas da freguesia. "É algo que me deixou muito emocionado", confessou mais tarde ao i.
No final da sessão, a descer as escadas, os habituais empurrões. "Não estás a ser um bom cidadão!", dispara um aluno. Nem que seja a curto prazo, a mensagem colou.
93 localidades Esta segunda-feira, o Roteiro da Cidadania já tinha passado por 93 locais e realizado 118 atividades. Um caminho que tem sido feito de descobertas. "O conservadorismo vem de onde menos se espera", contava Sandra Silvestre. "Já conversámos com um jovem de 19 anos que discordava por completo do facto de as mulheres fazerem relatos de futebol", exemplifica.
Sandra também já trocou ideias que a deixaram a pensar. "Em Guimarães, falei com três jovens sobre a violência contra as mulheres e o rapaz colocou-me um dilema, que é a questão do filho denunciar o próprio pai que é agressor ou vai deixar a mãe ser vítima. E o próprio rapaz disse que nunca tinha pensado nisto. Este trabalho é importante por isso, é deixar as pessoas a questionarem-se."
Também já houve momentos mais tensos de partilha. "Em Ponte de Lima, uma senhora contou pela primeira vez em público que tinha sido alvo de violência doméstica. E deixou um recado aos filhos, disse que, caso algum deles tivessem esse comportamento, ela acolheria as noras."
Sandra, formada em Relações Internacionais e ligada a várias organizações culturais, sociais e políticas -, parece ter sido talhada para o "Roteiro da Cidadania". É um daqueles casos felizes em que o percurso profissional e o projeto se cruzam. A técnica acredita - e espalha a mensagem de que "os territórios têm que ter a participação de todas as pessoas de todas as idades". Às vezes basta parar. Pensar. E agir.
Castelo Branco: Desafios da família em debate
in Reconquista
A organização pretende valorizar o papel da família para o enquadramento no contexto educativo.
Castelo Branco recebe a 8 de março o fórum "A Família na Sociedade de Hoje : Que desafios?", organizado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Castelo Branco e o núcleo distrital de Castelo Branco da Rede Europeia Anti Pobreza, em articulação com as escolas do concelho.
O local escolhido é o auditório da biblioteca.
A organização pretende “valorizar o papel da família assim como articular a prevenção entre parceiros e promover a reflexão e partilha de boas práticas de Intervenção, numa resposta integrada que visa o enquadramento da família no contexto educativo”.
A organização pretende valorizar o papel da família para o enquadramento no contexto educativo.
Castelo Branco recebe a 8 de março o fórum "A Família na Sociedade de Hoje : Que desafios?", organizado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Castelo Branco e o núcleo distrital de Castelo Branco da Rede Europeia Anti Pobreza, em articulação com as escolas do concelho.
O local escolhido é o auditório da biblioteca.
A organização pretende “valorizar o papel da família assim como articular a prevenção entre parceiros e promover a reflexão e partilha de boas práticas de Intervenção, numa resposta integrada que visa o enquadramento da família no contexto educativo”.
China retirou mais de 12 milhões de pessoas da pobreza em 2016
in RTP
A China retirou da pobreza 12,4 milhões de pessoas, no ano passado, segundo dados oficiais divulgados na terça-feira, parte de uma campanha do Governo para erradicar a pobreza até 2020.
Um total de 43,35 milhões de pessoas continua, no entanto, a viver abaixo do limiar da pobreza, estabelecido pelo Governo chinês em 2.300 yuan anuais (320 euros).
O país mais populoso do mundo, com cerca de 1.375 milhões de habitantes, prevê erradicar a pobreza até ao final desta década.
Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, em 2016, o rendimento anual per capita nas zonas rurais subiu 8,4%, para 8.452 yuan (1.160 euros).
Um programa liderado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma permitiu ainda transferir 2,49 milhões de residentes de áreas pobres para regiões mais prósperas do país.
A China retirou da pobreza 12,4 milhões de pessoas, no ano passado, segundo dados oficiais divulgados na terça-feira, parte de uma campanha do Governo para erradicar a pobreza até 2020.
Um total de 43,35 milhões de pessoas continua, no entanto, a viver abaixo do limiar da pobreza, estabelecido pelo Governo chinês em 2.300 yuan anuais (320 euros).
O país mais populoso do mundo, com cerca de 1.375 milhões de habitantes, prevê erradicar a pobreza até ao final desta década.
Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, em 2016, o rendimento anual per capita nas zonas rurais subiu 8,4%, para 8.452 yuan (1.160 euros).
Um programa liderado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma permitiu ainda transferir 2,49 milhões de residentes de áreas pobres para regiões mais prósperas do país.
Confiança dos consumidores em máximo de 17 anos
in TSF
INE destaca as contribuições positivas das expectativas relativas à evolução do desemprego, à evolução da situação financeira do agregado familiar, da situação económica do país e da poupança.
O indicador de confiança dos consumidores aumentou entre setembro de 2016 e fevereiro de 2017, sobretudo nos últimos três meses, atingindo máximos desde março de 2000, indicou o INE. Também o clima económico subiu nos últimos dois meses.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o indicador de confiança dos consumidores aumentou entre setembro e fevereiro, "retomando a trajetória positiva" verificada desde o início de 2013 e apresentando o valor mais elevado desde março de 2000.
Em fevereiro, diz o gabinete de estatísticas, o comportamento do indicador resultou do "contributo positivo" de todas as componentes, "mais expressivo no caso das expectativas relativas à evolução do desemprego", mas também no que diz respeito às perspetivas relativas à evolução da situação financeira do agregado familiar, da situação económica do país e da poupança.
No mesmo sentido, o indicador de clima económico aumentou nos últimos dois meses, depois das quedas registadas em novembro e dezembro.
Em fevereiro, o indicador de confiança da indústria transformadora estabilizou em fevereiro, interrompendo a expressiva trajetória positiva iniciada em junho, destacando-se por um lado o contributo positivo das opiniões sobre a procura global, mas por outro o contributo negativo das perspetivas de produção e das apreciações sobre a evolução dos 'stocks' de produtos acabados.
Sem a utilização de médias móveis de três meses, o indicador de confiança da indústria transformadora diminuiu em fevereiro, diz o INE.
O indicador de confiança da construção e obras públicas aumentou em janeiro e fevereiro, de forma expressiva em fevereiro, atingindo o máximo desde setembro de 2008, devido à evolução positiva das duas componentes, perspetivas de emprego e opiniões sobre a carteira de encomendas.
O indicador de confiança do comércio aumentou nos últimos dois meses, após ter diminuído nos três meses anteriores, resultado do contributo positivo das opiniões sobre o volume de vendas e do saldo das perspetivas de atividade, tendo as apreciações sobre o volume de 'stocks' contribuído negativamente.
O indicador de confiança dos serviços também aumentou nos últimos três meses, verificando-se uma evolução positiva nos últimos dois meses das opiniões sobre a atividade da empresa e das perspetivas sobre a evolução da carteira de encomendas.
INE destaca as contribuições positivas das expectativas relativas à evolução do desemprego, à evolução da situação financeira do agregado familiar, da situação económica do país e da poupança.
O indicador de confiança dos consumidores aumentou entre setembro de 2016 e fevereiro de 2017, sobretudo nos últimos três meses, atingindo máximos desde março de 2000, indicou o INE. Também o clima económico subiu nos últimos dois meses.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o indicador de confiança dos consumidores aumentou entre setembro e fevereiro, "retomando a trajetória positiva" verificada desde o início de 2013 e apresentando o valor mais elevado desde março de 2000.
Em fevereiro, diz o gabinete de estatísticas, o comportamento do indicador resultou do "contributo positivo" de todas as componentes, "mais expressivo no caso das expectativas relativas à evolução do desemprego", mas também no que diz respeito às perspetivas relativas à evolução da situação financeira do agregado familiar, da situação económica do país e da poupança.
No mesmo sentido, o indicador de clima económico aumentou nos últimos dois meses, depois das quedas registadas em novembro e dezembro.
Em fevereiro, o indicador de confiança da indústria transformadora estabilizou em fevereiro, interrompendo a expressiva trajetória positiva iniciada em junho, destacando-se por um lado o contributo positivo das opiniões sobre a procura global, mas por outro o contributo negativo das perspetivas de produção e das apreciações sobre a evolução dos 'stocks' de produtos acabados.
Sem a utilização de médias móveis de três meses, o indicador de confiança da indústria transformadora diminuiu em fevereiro, diz o INE.
O indicador de confiança da construção e obras públicas aumentou em janeiro e fevereiro, de forma expressiva em fevereiro, atingindo o máximo desde setembro de 2008, devido à evolução positiva das duas componentes, perspetivas de emprego e opiniões sobre a carteira de encomendas.
O indicador de confiança do comércio aumentou nos últimos dois meses, após ter diminuído nos três meses anteriores, resultado do contributo positivo das opiniões sobre o volume de vendas e do saldo das perspetivas de atividade, tendo as apreciações sobre o volume de 'stocks' contribuído negativamente.
O indicador de confiança dos serviços também aumentou nos últimos três meses, verificando-se uma evolução positiva nos últimos dois meses das opiniões sobre a atividade da empresa e das perspetivas sobre a evolução da carteira de encomendas.
Queixa contra "indícios da prática do crime de discriminação racial"
Miguel Marujo, in Diário de Notícias
Alto-Comissariado para as Migrações apresentou queixa ao Ministério Público por factos ocorridos em Santo Aleixo da Restauração, Moura
O Alto-Comissariado para as Migrações, através da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, apresentou ontem queixa ao Ministério Público "no seguimento dos factos ocorridos na localidade de Santo Aleixo da Restauração", no concelho alentejano de Moura, contra a comunidade cigana ali residente.
Em causa estarão "indícios da prática do crime de discriminação racial em razão da etnia, previsto no artigo 240º do Código Penal".
Segundo denúncia do SOS Racismo, verificaram-se "ameaças de morte pintadas por toda a povoação nos últimos dias" e "bombas lançadas para os quintais das casas da comunidade cigana, que dão credibilidade às próprias ameaças".
Em paredes da localidade apareceram frases escritas como "morte aos ciganos" ou "nós também não queremos aqui ciganos". Este caso não é de agora, tendo os primeiros incidentes começado no final do verão passado.
Alto-Comissariado para as Migrações apresentou queixa ao Ministério Público por factos ocorridos em Santo Aleixo da Restauração, Moura
O Alto-Comissariado para as Migrações, através da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, apresentou ontem queixa ao Ministério Público "no seguimento dos factos ocorridos na localidade de Santo Aleixo da Restauração", no concelho alentejano de Moura, contra a comunidade cigana ali residente.
Em causa estarão "indícios da prática do crime de discriminação racial em razão da etnia, previsto no artigo 240º do Código Penal".
Segundo denúncia do SOS Racismo, verificaram-se "ameaças de morte pintadas por toda a povoação nos últimos dias" e "bombas lançadas para os quintais das casas da comunidade cigana, que dão credibilidade às próprias ameaças".
Em paredes da localidade apareceram frases escritas como "morte aos ciganos" ou "nós também não queremos aqui ciganos". Este caso não é de agora, tendo os primeiros incidentes começado no final do verão passado.
ONU pede à Austrália que melhore proteção das mulheres vulneráveis
in Notícias ao Minuto
A ONU instou hoje a Austrália a melhorar a proteção das crianças e mulheres vulneráveis, incluindo as indígenas, requerentes de asilo, portadoras de deficiência e vítimas de violência doméstica.
No termo de uma visita de duas semanas à Austrália, a relatora especial da ONU sobre a violência contra a mulher, Dubravka Simonovic, afirmou, em conferência de imprensa, em Camberra, que ainda há uma lacuna significativa por sanar no que toca à igualdade de género e à violência contra as comunidades indígenas.
"As mulheres aborígenes e do Estreito de Torres [que separa a Austrália da Papua-Nova Guiné] enfrentam formas de discriminação institucional, sistemática, múltipla e cruzada. Ao sexismo e ao racismo soma-se uma discriminação de classe por causa do seu baixo estatuto socioeconómico, assim como uma exclusão social devido à sua localização regional ou remota", sublinhou.
Para Simonovic, estas formas de discriminação e exclusão geram "condições extremas" que derivam numa "alarmante prevalência" da violência contra as mulheres indígenas, as quais experienciam uma elevada taxa de violência doméstica, mais severa do que o resto das mulheres no país.
As mulheres indígenas australianas são 34 vezes mais suscetíveis de serem hospitalizadas por violência doméstica e uma probabilidade 3,7 superior de serem vítimas de agressões sexuais.
Simonovic também alertou para as práticas de separação das crianças aborígenes das suas famílias, recordando que as estatísticas mostram que esta franja da população é sete vezes mais propensa a que os seus pares não indígenas de estar ligada aos serviços de proteção de menores por negligência ou abuso.
Além disso, a relatora especial das Nações Unidas chamou a atenção, entre outros, para o grande número de mulheres indígenas na prisão, assim como para a sobrelotação das cadeias, para o confinamento solitário e falta de alternativas às sentenças, especialmente para as mulheres que têm filhos a seu cargo".
A representante da ONU também expressou preocupação pela elevada incidência de violência e abusos sexuais contra mulheres e meninas deficientes e para com as práticas de esterilização involuntária e forçada de mulheres com deficiências, segundo o texto enviado pelo Centro de Informação da ONU na Austrália à agência noticiosa espanhola Efe.
Simonovic sublinhou que a ONU criticou, por diversas vezes, o programa de refugiados da Austrália e que durante a sua visita lhe causou particular preocupação "os relatos graves e contínuos de violência contra mulheres e crianças, incluindo sexual".
A ONU instou hoje a Austrália a melhorar a proteção das crianças e mulheres vulneráveis, incluindo as indígenas, requerentes de asilo, portadoras de deficiência e vítimas de violência doméstica.
No termo de uma visita de duas semanas à Austrália, a relatora especial da ONU sobre a violência contra a mulher, Dubravka Simonovic, afirmou, em conferência de imprensa, em Camberra, que ainda há uma lacuna significativa por sanar no que toca à igualdade de género e à violência contra as comunidades indígenas.
"As mulheres aborígenes e do Estreito de Torres [que separa a Austrália da Papua-Nova Guiné] enfrentam formas de discriminação institucional, sistemática, múltipla e cruzada. Ao sexismo e ao racismo soma-se uma discriminação de classe por causa do seu baixo estatuto socioeconómico, assim como uma exclusão social devido à sua localização regional ou remota", sublinhou.
Para Simonovic, estas formas de discriminação e exclusão geram "condições extremas" que derivam numa "alarmante prevalência" da violência contra as mulheres indígenas, as quais experienciam uma elevada taxa de violência doméstica, mais severa do que o resto das mulheres no país.
As mulheres indígenas australianas são 34 vezes mais suscetíveis de serem hospitalizadas por violência doméstica e uma probabilidade 3,7 superior de serem vítimas de agressões sexuais.
Simonovic também alertou para as práticas de separação das crianças aborígenes das suas famílias, recordando que as estatísticas mostram que esta franja da população é sete vezes mais propensa a que os seus pares não indígenas de estar ligada aos serviços de proteção de menores por negligência ou abuso.
Além disso, a relatora especial das Nações Unidas chamou a atenção, entre outros, para o grande número de mulheres indígenas na prisão, assim como para a sobrelotação das cadeias, para o confinamento solitário e falta de alternativas às sentenças, especialmente para as mulheres que têm filhos a seu cargo".
A representante da ONU também expressou preocupação pela elevada incidência de violência e abusos sexuais contra mulheres e meninas deficientes e para com as práticas de esterilização involuntária e forçada de mulheres com deficiências, segundo o texto enviado pelo Centro de Informação da ONU na Austrália à agência noticiosa espanhola Efe.
Simonovic sublinhou que a ONU criticou, por diversas vezes, o programa de refugiados da Austrália e que durante a sua visita lhe causou particular preocupação "os relatos graves e contínuos de violência contra mulheres e crianças, incluindo sexual".
Ameaças e racismo contra ciganos motiva queixa-crime
Carlos Dias, in Público on-line
Alto Comissariado para as Migrações apresentou queixa ao Ministério Público por ameaças em Moura. Frases nas paredes ameaçam de morte comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração.
A comunidade de etnia cigana de Santo Aleixo da Restauração, no concelho de Moura, voltou a ser vítima de ameaças de morte. Em Setembro já tinha sido alvo de ataques incendiários, que não pouparam casas, viaturas automóveis e até o edifício da igreja onde as famílias realizavam o seu culto religioso.
Nos últimos dias, e em crescendo, foram surgindo nas paredes de casas e muros da freguesia frases escritas exigindo a expulsão da comunidade ou a “morte aos ciganos”. São acompanhadas de cruzes e de caixões pintados a negro. O alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, disse ao PÚBLICO que tem “acompanhado a situação” e que na segunda-feira esta entidade apresentou queixa-crime ao Ministério Público. Os conflitos com a comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração “atingiram um nível que nos preocupa”, nota.
À intranquilidade provocada pela “violência racista que veiculam ódio e ameaças xenófobas”, descreve José Falcão, dirigente da organização SOS Racismo, veio juntar-se o “pânico” gerado na noite de 23 de Fevereiro com “o lançamento de petardos para o interior dos quintais das casas onde vivem as famílias ciganas”.
Se a comunidade já vivia sobressaltada, “passou a viver em pânico”, conta ao PÚBLICO Prudêncio Canhoto, presidente da Associação de Mediadores Ciganos. A dimensão que “a afronta” tomou, suscita-lhe um alerta: “ Se não param com as provocações, ainda vamos assistir a uma tragédia.”
Os membros da etnia cigana contam que evitam agora circular pelas ruas, onde estão inscritas as frases a ameaçá-los de morte. “Dá-lhes pânico”, diz o mediador, dando conta que “nem as paredes do cemitério escaparam” às frases ameaçadoras. “É um crime” acentua Prudêncio Canhoto que tem acompanhado o desenrolar dos conflitos desde que começaram, no passado mês de Setembro.
Depois de uma certa acalmia que se verificava desde Dezembro, "as famílias ciganas voltaram a ser vítimas de situações que mais lembram a actuação do Ku Klux Klan” um gesto que “pode estar a ser encorajado pela ausência de medidas das instituições, pela inoperância das autoridades policiais, pela impunidade das práticas racistas e xenófobas”, sublinha José Falcão. O conteúdo das frases, comenta ainda, desconforta quem as lê, "tem um impacto fortíssimo”.
Manuel Caixinha, porta-voz das famílias ciganas, confirma ao PÚBLICO que nos últimos cinco dias “puseram escritos nas paredes, e na do cemitério também. “Depois mandaram duas bombas para o quintal do meu mano. Estamos todos com medo de mandar os nossos filhos à escola com receio que os levem.” Não sabe quem lhes quer fazer mal, diz apenas que “há um pouco de racismo nas ofensas” que são feitas.
O porta-voz do Comando Territorial de Beja da GNR, capitão Pedro Ribeiro, faz saber que a corporação não recebeu “qualquer denuncia” sobre a existência de “conflitos” em Santo Aleixo da Restauração. “Nada de oficial nos chegou nas últimas semanas”, acrescentou o militar, frisando que a situação “tem estado calma”, depois do pico de conflitos registado em Setembro e Outubro do ano passado.
Para o presidente da Câmara de Moura, Santiago Macias, os conflitos que envolvem a comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração revelam, essencialmente, “um problema de segurança pública”.
Alto Comissariado para as Migrações apresentou queixa ao Ministério Público por ameaças em Moura. Frases nas paredes ameaçam de morte comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração.
A comunidade de etnia cigana de Santo Aleixo da Restauração, no concelho de Moura, voltou a ser vítima de ameaças de morte. Em Setembro já tinha sido alvo de ataques incendiários, que não pouparam casas, viaturas automóveis e até o edifício da igreja onde as famílias realizavam o seu culto religioso.
Nos últimos dias, e em crescendo, foram surgindo nas paredes de casas e muros da freguesia frases escritas exigindo a expulsão da comunidade ou a “morte aos ciganos”. São acompanhadas de cruzes e de caixões pintados a negro. O alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, disse ao PÚBLICO que tem “acompanhado a situação” e que na segunda-feira esta entidade apresentou queixa-crime ao Ministério Público. Os conflitos com a comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração “atingiram um nível que nos preocupa”, nota.
À intranquilidade provocada pela “violência racista que veiculam ódio e ameaças xenófobas”, descreve José Falcão, dirigente da organização SOS Racismo, veio juntar-se o “pânico” gerado na noite de 23 de Fevereiro com “o lançamento de petardos para o interior dos quintais das casas onde vivem as famílias ciganas”.
Se a comunidade já vivia sobressaltada, “passou a viver em pânico”, conta ao PÚBLICO Prudêncio Canhoto, presidente da Associação de Mediadores Ciganos. A dimensão que “a afronta” tomou, suscita-lhe um alerta: “ Se não param com as provocações, ainda vamos assistir a uma tragédia.”
Os membros da etnia cigana contam que evitam agora circular pelas ruas, onde estão inscritas as frases a ameaçá-los de morte. “Dá-lhes pânico”, diz o mediador, dando conta que “nem as paredes do cemitério escaparam” às frases ameaçadoras. “É um crime” acentua Prudêncio Canhoto que tem acompanhado o desenrolar dos conflitos desde que começaram, no passado mês de Setembro.
Depois de uma certa acalmia que se verificava desde Dezembro, "as famílias ciganas voltaram a ser vítimas de situações que mais lembram a actuação do Ku Klux Klan” um gesto que “pode estar a ser encorajado pela ausência de medidas das instituições, pela inoperância das autoridades policiais, pela impunidade das práticas racistas e xenófobas”, sublinha José Falcão. O conteúdo das frases, comenta ainda, desconforta quem as lê, "tem um impacto fortíssimo”.
Manuel Caixinha, porta-voz das famílias ciganas, confirma ao PÚBLICO que nos últimos cinco dias “puseram escritos nas paredes, e na do cemitério também. “Depois mandaram duas bombas para o quintal do meu mano. Estamos todos com medo de mandar os nossos filhos à escola com receio que os levem.” Não sabe quem lhes quer fazer mal, diz apenas que “há um pouco de racismo nas ofensas” que são feitas.
O porta-voz do Comando Territorial de Beja da GNR, capitão Pedro Ribeiro, faz saber que a corporação não recebeu “qualquer denuncia” sobre a existência de “conflitos” em Santo Aleixo da Restauração. “Nada de oficial nos chegou nas últimas semanas”, acrescentou o militar, frisando que a situação “tem estado calma”, depois do pico de conflitos registado em Setembro e Outubro do ano passado.
Para o presidente da Câmara de Moura, Santiago Macias, os conflitos que envolvem a comunidade cigana de Santo Aleixo da Restauração revelam, essencialmente, “um problema de segurança pública”.
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