28.12.20

“Tudo o que tinha foi enfiado em dois sacos. Foi como se me tivessem enfiado a mim naqueles sacos”

Natália Faria, in Público on-line

Maria Júlia Costa e Almeida, 93 anos, utente d’ O Lar do Comércio, em Matosinhos. Relato de uma conversa mantida através de vídeochamada, dada a interdição de entradas e saídas do lar.

Quando fiz 93 anos de idade, no dia 1 de Maio, estávamos aqui largados no bar do lar. Tinham-me batido à porta do quarto, pelas oito e meia da noite, e disseram-me: “Pegue na sua almofada e vá lá para baixo”. E eu fui, sem saber o que se passava. Estava o bar com umas 30 camas em fila, com uma cadeira cada, e ali ficámos durante três semanas. Nem direito a banho tivemos. A única pessoa que lá entrou durante esse tempo todo foi o senhor Amândio com a comida. O que me valeu foi que, no momento em que me foram chamar, calhou de estar com o telefone e enfiei-o no bolso do roupão. E com isso fui podendo falar com os meus filhos, porque aqui dentro ninguém nos dizia nada. Mas não gosto muito de falar disso.

Sabe o que me aconteceu nesse dia em que fiz 93 anos? O meu filho arranjou maneira de me fazer chegar um aparelho, como se fosse um telemóvel, e, quando carreguei no botão, apareceu-me um filme com a minha família toda a dar-me os parabéns. Foi uma surpresa tão boa, tão boa. Isso e a rosa que a minha filha Isabel também me fez chegar. Até a fotografei depois, já com este telemóvel que a minha afilhada me deu – ela sempre que muda para um telemóvel de gama alta dá-me o antigo - e que já me permite vê-los a todos por vídeo: filhos, netos e bisnetos. E olhe que eu ainda sou do tempo em que apareceram aquelas máquinas – não me recordo do nome - em que mandavam uns papéis de Lisboa e no mesmo segundo estava a apanhá-los no Porto. Eu não saía de ao pé daquela máquina. Como é que podia ser tal maravilha? E o mesmo digo agora: como é possível estarem as pessoas a ver-se, estando tão distantes? Já viu como o mundo mudou? Mudou muito, muito, muito.

Depois daquelas três semanas em que estivemos no bar (e durante as quais nem os dentes pudemos lavar, porque nem tempo deram para levar escova ou pasta e também ninguém no-las ofereceu) mudaram-nos para o infantário, onde passámos mais 15 dias. E ainda foi pior: num sítio como no outro, só havia uma sanita. Conseguíamos lavar a cara e por baixo no bidé e mais nada. Andávamos todos fardados porque ninguém tinha tido tempo de trazer roupa.

Eu no início fiquei muito nervosa porque não tinha a medicação comigo. E, como estava aflita, liguei para a farmácia, onde são todos muito meus amigos e já sabem do que sofro, para ver se me mandavam os meus comprimidos. E lá mandaram. Nessa altura, a gente não sabia o que era a covid nem nada. E eu julguei que estava bem, porque não me doía nada. Só depois é que a minha filha Manuela me explicou que uma daquelas coisinhas que me tinham metido no nariz tinha apanhado alguma coisa. Foi ela que me trouxe uma pilha para eu na altura poder ir à casa de banho de noite, porque eles a uma certa hora desligavam a luz e nós ali ficávamos às escuras. Ainda a tenho comigo, à pilha, até lhe chamo Manelinha.

Quando pude voltar ao meu quarto tive outra decepção. Tudo o que tinha na parede foi enfiado em dois sacos. Senti uma tristeza medonha. A minha vida estava toda naquela parede: fotografias, desenhos, enfeites de Natal, um vaso com flores de papel, recordações disto e daquilo. Toda a gente que cá vinha ficava admirada, porque aquilo ficava muito bem, pronto. Quanto a estar mal ou bem, cá me vou remediando, mas custa-me muito agora olhar para aquela parede e ver aqueles buracos todos.

Como tenho uma pequena estante fixa na parede, há tempos lá arranjei coragem para abrir um dos sacos e recuperei algumas fotografias. Se eu rodar o telemóvel até lhas consigo mostrar, mas veja lá não me desapareça: esta sou eu (gosto muito desta fotografia porque, e desculpe-me, mas eu aos 20 anos era mesmo muito bonita); esta mais pequena é do meu marido, Manuel, que morreu aos 60 anos, e aqui estão os meus três filhos novinhos ainda.

Quando fiz a inscrição para poder vir para aqui, há 42 anos, este lar era um sonho: tinha cabeleireiro, biblioteca, sala de jogos, com um bilhar e uns joguitos de mesa, muita coisa. Havia dois médicos cá dentro. E havia ginástica e canto coral. Na altura, fiquei encantada e disse: “Se ficar viúva, é para aqui que venho”. E, no início, foi bom. Antes disto ter começado a morrer, eu saía e entrava quando queria e os meus filhos também, que eu, graças a Deus, tenho uns filhos que fazem tudo por mim, admito que por ter sido uma boa mãe para eles. Enquanto pude, fiz questão de os levar a todo o lado: a Lisboa, para lhes mostrar aqueles museus todos, ao cinema, e se se fosse preciso mentir na idade para que pudessem entrar, mentia. Queria que fossem instruídos como eu era antes de a doença ter começado a dar cabo de mim.

Sempre fui muito amiga de ajudar toda a gente - a minha mãe, a minha sogra, uma tia-avó, fui eu que tratei delas todas. Já eu, não gosto que cuidem de mim. Pode ser uma tolice, mas é assim que sou. Nunca quis maçar ninguém. Por isso é que não penso sair do lar. Nem nesta época de festas, porque, se sair, já sei que depois tenho de ficar em quarentena e antes quero morrer do que ter de passar por isso outra vez. Ainda se me pusessem de quarentena aqui no meu quarto, onde sempre me vou entretendo com as minhas palavras cruzadas, lavando uma peça ou outra de roupa que ponho a secar na varanda, onde posso beber as minhas quatro garrafinhas de chã. Há dias, pedi ao meu filho que me trouxesse um papel com o hino francês escrito. O português ainda sei todo, mas do francês já estava esquecida. E ele arranjou-mo. Já me consigo pôr agora a cantá-lo baixinho. Por isso, se me deixassem fazer a quarentena aqui, ainda admitia. Mas não é assim que eles fazem. Põe-nos num sítio e limitam-se a levar a comida numa marmita: se eu gostasse comia, se não gostasse não comia. Não.

Custa-me muito não poder estar um bocadinho com os meus filhos, com os meus netos. De sair já nem tanto porque envelheci muito nos últimos meses e já não me consigo mexer como dantes. Há tempos pedi ao meu filho que me arranjasse um banquinho, só para eu poder crescer mais um palmo para os poder ver pela janela quando me vêm trazer as encomendas. Ainda não me medi, mas parece que já minguei. Com o banco, eles dizem a hora a que chegam, e eu ponho-me à janela a dizer adeus e a mandar beijinhos. Com isso e com o telemóvel, lá vou andando.

Se a vacina chegar aqui, e as coisas começarem a melhorar cá dentro e lá fora, vou pedir que deixem entrar o meu filho para ele me colocar as coisas todas na parede outra vez. Não sei o que me parece olhar para o chão e ver as coisas todas enfiadas nos sacos. Foi como se me tivessem enfiado a mim naqueles sacos. Será por isso que também ando mais abatida.

Mas, olhe, não ligue. Acredito que as coisas vão melhorar e, enquanto falei, estive entretida. Já sabe que não estive sentada, porque não me dou parada. Fui falando e andando aqui pelo quarto. Desculpe se a chateei. Sei que aí por fora andam todos muito ocupados. Se calhar de voltar a falar com a minha Manuela, diga-lhe que não se esqueça das rabanadas que lhe pedi.

Texto escrito a partir de uma conversa com Natália Faria


GNR visitou no Natal mais de 3100 idosos que vivem sozinhos

in Público on-line

O objectivo passa não só por diminuir o isolamento social, mas também por proteger os idosos, “no âmbito do policiamento de proximidade”.

A GNR visitou neste período natalício mais de 3100 idosos que vivem sós e passaram o Natal sozinhos, numa campanha que pretendeu diminuir o seu isolamento social numa altura de pandemia.

“No contexto da pandemia covid-19, e em complemento de todas as acções que vêm sendo desencadeadas por todo o seu dispositivo, a Guarda Nacional Republicana, desenvolveu, entre 18 e 24 de Dezembro, uma campanha de acompanhamento dos idosos que vivem sozinhos”, lê-se num comunicado enviado à imprensa. O objectivo passa não só por diminuir o isolamento social, mas também por proteger os idosos, “no âmbito do policiamento de proximidade”.

Uma vez que “o isolamento é maior este ano, devido às recomendações das autoridades de saúde, e sabendo que cerca de 3149 idosos iriam passar o natal sozinhos”, a GNR, através das secções de prevenção criminal e policiamento comunitário, “procurou estar presente, em especial no dia 24 de Dezembro, junto daqueles cujo o isolamento é maior nestas últimas semanas e sobretudo na noite de consoada, data em que tradicionalmente se reúnem as famílias”.

A campanha, promovida pela Secções de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário, decorreu de 18 até quinta-feira e abrangeu 3149 idosos.

De acordo com o comunicado, a GNR tem, nesta quadra, “reforçado as acções junto dos idosos, sobretudo junto dos mais de 42 mil que, durante a Operação Censos Sénior 2020”, foram sinalizados como vivendo sozinhos ou isolados. Pretende dar-se “apoio social” e sensibilizar “para os de crimes de burla, que incidem sobretudo sobre a população mais vulnerável, como é o caso dos idosos, através de visitas regulares às suas residências”. A campanha chama-se “Natal a GUARDAr os nossos idosos”.

O número de idosos que passaram o Natal sozinhos concentra-se mais nos distritos de distritos de Viseu, Vila Real, Leiria e Viana do Castelo.

Ministério testa aprendizagens de 30 mil alunos no início do 2.º período

Samuel Silva, in Público on-line

Estudo inédito vai perceber impactos da suspensão das aulas sobre os conhecimentos de Matemática, Ciências e Leitura, envolvendo estudantes do 3.º, 6.º e 9.º anos.

Cerca de 30 mil alunos do ensino básico vão ser testados no início do 2.º período para perceber de que forma a suspensão das aulas, durante o ano lectivo passado, afectou as suas aprendizagens. Não se trata de um exame nem de uma prova de aferição, mas de um estudo, pedido pelo Ministério da Educação (ME), que envolve alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos. O objectivo é dar informação às escolas para que possam ajudar os alunos a recuperar as matérias atrasadas.

O Diagnóstico de Aferição das Aprendizagens – que arranca a 6 de Janeiro, dois dias depois do regresso às aulas, após as férias – será feito em moldes semelhantes aos de provas internacionais como o PISA (Programme for International Student Assessment) ou o TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study). É testada uma amostra da população escolar e são avaliadas “literacias transversais”. As questões que serão colocadas aos estudantes têm por base competências que estão previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, em dimensões como linguagens e textos, raciocínio e resolução de problemas, pensamento crítico e pensamento criativo ou ainda saber científico, técnico e tecnológico.

Este estudo nacional, que tinha sido anunciado pelo ME em Julho, quando apresentou o plano de regresso às aulas depois da suspensão motivada pela pandemia, vai focar-se em três áreas: Matemática, Ciências e Leitura e Informações. Será feito um único teste, dividido em três partes, uma para cada disciplina, sendo dedicados 30 minutos a cada tarefa, com intervalos entre cada uma. No final, os estudantes respondem também a um questionário de contexto, onde se pretende recolher dados sobre a forma como cada escola lidou com o ensino à distância.

O teste diagnóstico está desenhado para “tirar uma fotografia do estado das aprendizagens”, avança ao PÚBLICO o presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), Luís Pereira dos Santos, a quem o ME entregou a responsabilidade de preparar o estudo diagnóstico, que é inédito em Portugal.

Os alunos vão ser testados até 22 de Janeiro. Ou seja, durante as três primeiras semanas do 2.º período lectivo. As escolas terão margem para estabelecer os dias em que cada turma vai responder ao teste. O diagnóstico não implica que todos respondam ao mesmo tempo, como acontece com os exames nacionais, desde logo porque os alunos não terão acesso a um enunciado em papel. As tarefas são respondidas online, através de um computador. Além disso, o sistema informático define aleatoriamente as questões apresentadas a cada estudante.

Resultados conhecidos em Março

Os resultados serão divulgados através de um relatório público, que deverá ser conhecido em Março. Os alunos serão divididos por níveis de desempenho, à semelhança do que acontece com os estudos internacionais como o PISA ou o TIMSS. A intenção é permitir às escolas e ao próprio ME, “tomar decisões relativamente às literacias que estejam em maior défice”, avança Pereira dos Santos.

Essas aprendizagens podem ser recuperadas “durante este ano e também no próximo”, defende, mas a questão é especialmente crítica para os alunos do 9.º ano, que, no final do ano lectivo, têm provas finais a Matemática e a Português. Os resultados do diagnóstico das aprendizagens “ainda vêm a tempo de permitir aos professores, no 3.º período, trabalhar mais intensamente alguma parte do currículo”, acredita o presidente do Iave.

Vão participar no estudo 30 mil alunos, 10 mil por cada um dos anos de escolaridade em que este será realizado (3.º, 6.º e 9.º anos). São, grosso modo, os mesmos estudantes que, no ano passado não puderam realizar as provas de aferição (no 2.º, 5.º e 8.º anos) – que, tal como as provas finais do 9.º ano, foram canceladas no ano passado, como consequência da pandemia. O teste vai ser aplicado em 154 agrupamentos públicos (que totalizam 1247 estabelecimentos de ensino) do continente, e outras 79 escolas nos Açores e Madeira, bem como 102 colégios. A escolha da amostra teve em conta três aspectos, de modo a manter a representatividade da população escolar: o número de alunos por região (NUT II), os que frequentam escolas públicas e privadas e ainda os estudantes com Acção Social Escolar.

O teste de diagnóstico pedido pelo ME esteve previsto para o 1.º período e chegou a ter as duas primeiras semanas de Dezembro previstas para a sua realização, mas acabou por ser adiado para Janeiro. Isso aconteceu, por um lado, porque o Iave decidiu fazer alterações à amostra inicialmente definida, optando por incluir menos turmas de cada escola, de modo a ter mais estabelecimentos de ensino a participar no estudo. Por outro lado, foi resultado da decisão do Governo de encerrar as escolas nas vésperas dos feriados do início deste mês, que reduziu o tempo disponível nas escolas, numa fase em que as atenções de alunos e professores estavam já centradas nas avaliações de final de período.

“As pessoas precisam de ter alguma alegria no meio disto tudo, não é?”

Márcio Berenguer, in Público on-line

Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, justifica a realização do fogo de artifício no Funchal na passagem de ano e insurge-se contra o Governo da República: “Começo a perguntar se vale a pena fazer parte do Estado português?”.

Neste contexto de pandemia, com a perda de turistas do Reino Unido, continua a fazer sentido o espectáculo de fogo-de-artifício da passagem de ano?
Completamente. Nós temos uma tradição. Somos das regiões turísticas mais importantes do país. Temos turismo, temos os locais. O fogo já está contratado, há muito tempo [vai custar cerca de um milhão de euros, mais sensivelmente outro milhão de euros para as iluminações de Natal]. Portanto vai ser dado e ainda bem que vai ser dado, porque as pessoas também precisam de ter alguma alegria, no meio disto tudo. Não é? As pessoas vão cumprir o distanciamento. A maioria vai ver em casa, temos espaços delimitados nas ruas para manter o distanciamento. Portanto vai tudo correr bem.

Que a imagem da Madeira é que vai ser projectada com este fim de Ano?Este fogo é um sinal de esperança para o próximo ano. Nós precisamos de ter alguma esperança. Ninguém consegue viver sempre com este peso, e estas restrições. Como sabem, nós somos a região do país, com menos infecções por 100 mil habitantes, e também menos óbitos registados. Temos a situação controlada, as cadeias de transmissão identificadas e controladas. E precisamos de retomar.

E terá assim tanto impacto na retoma?
O espectáculo é transmitido pela televisão, e as imagens são vistas em todo o mundo. O fogo-de-artifício também é isso. É preciso não esquecer a importância do Turismo para a economia da região. O sector representa 26% do PIB da Madeira, e não podemos estar à espera do Estado português, porque a nós não nos dão nada. Agora começo a perguntar se vale a pena fazer parte do Estado português, porque o Estado português não nos ajuda nem na pandemia, nem em situação nenhuma.

Ainda nos tentam rebentar com o Centro Internacional de Negócios e estão sempre a atacar as receitas da Madeira. Portanto eu quero saber, o quê que o Estado quer? Essa é a pergunta que os madeirenses começam a fazer.

Tem esperança na bazuca europeia?
Vamos ver. Espero que a Madeira seja compensada. Mas é um mecanismo europeu, já o Estado português tem feito zero pela Madeira. E se houver discriminação da parte do Estado, se o Estado tentar de alguma forma intervir na atribuição dos fundos comunitários para nos prejudicar, podem acreditar que vamos fazer uma queixa à União Europeia.

Abel libertou-se das drogas na prisão e agora trabalha com quem lá está

Ana Cristina Pereira (Texto) e Adriano Miranda (Fotos), in Público on-line

Entrou a ressacar. Passou pelo Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente e pela Unidade Livre de Drogas. Cumpriu os passos. Fez teatro. Uma vez liberto, vai às prisões como voluntário e como mediador. O seu sonho é criar uma comunidade para quem sai da cadeia e não tem cá fora um familiar ou um amigo que lhe dê a mão.

Não é um discurso comum sobre a prisão, o de Abel Sousa. “Bendita a hora que fui preso. Se não tivesse sido preso, se calhar não estava aqui hoje. Ainda fui a tempo de me lembrar da educação que tive. O mundo das drogas podia ter-me flipado todos os neurónios. Eu podia ter ficado sem capacidade para dar a volta.”

Usando a terminologia do criminologista Cândido Agra, não era um delinquente-toxicodependente, mas um toxicodependente-delinquente, com família mais estruturada, a cometer crimes para consumir. “Eu tive uma infância espectacular. Nunca me faltou nada.” Tão-pouco na adolescência. Tinha a família, os amigos, a namorada, a ambição do futebol profissional. “Estava no Boavista com pré-acordo para o Sporting. Achava que o futebol me ia dar tudo.” De súbito, uma grave lesão num joelho, três cirurgias. “Vi o meu sonho cair por terra.”

Tentava convencer-se de que não era o fim do mundo, que podia trabalhar com o pai da rapariga com quem namorava desde os doze anos, ali, em Penafiel. “Fui caço com a melhor amiga dela. Estava a dois meses de me casar. Tinha 19 anos.” Que fazer? “Sempre fui um baldas nos estudos.” Tinha de pensar. “Isolei-me no Algarve e, numa noite, muito bêbado, experimentei heroína.”

Volvidos quase 30 anos, já lhe custa explicar o que sentiu naquela primeira vez. “É o paraíso. A heroína abafa os problemas. Dentro do efeito, a vida há-de continuar.” A partir dali, andou “atrás daquela primeira sensação”, sem jamais a reencontrar. Num instante, o corpo a pedir mais, a ressaca, a urgência de calar.

A degradação progressiva

No princípio, ainda conseguia esconder. Pouco a pouco, a família percebeu. “É mentiras. É dormir fora de casa. É eles a andar atrás de mim.” Os pais tentavam libertá-lo. E ele acedia. Sujeitava-se a desintoxicações. Ficava meses em comunidades terapêuticas. “Aguentava-me um ano, dois, recaia. Um ano, dois, recaia.”

No topo da lista dos episódios de que se arrepende está o roubo do cartão dourado do pai. “Tinha 23 ou 24 anos, gastei doze ou treze mil contos em nove ou dez dias com drogas, hotéis, restaurantes, carros.” Comove-se ao falar no pai. “Sempre fez tudo por mim.” Não vacilou nem quando, cancelado o cartão, a polícia apanhou o filho a tentar pedir um cheque em seu nome. “Quando cheguei a casa, deu-me um abraço e teve um ataque de miocárdio. Foi do choque. Peguei nele e levei-o para o hospital. Estava desesperado. Pus-me a dizer que, se ele não sobrevivesse, matava os médicos todos.”

Aquela aflição não o fez mudar de vida, pelo contrário. Enterrou-se ainda mais, apesar de todos os apelos dos pais e dos irmãos. “Eu nunca fui abandonado por eles. Eu é que senti que tinha de os abandonar porque estava a fazê-los sofrer demasiado. Se me queria matar, matava-me sozinho.”

Já não era só a heroína. Metera-se na base de cocaína. “Vivia no mundo da droga. Dormia ao relento, nos carros.” Só ia a casa de meses a meses, cada vez mais magro, mais desdentado, mais maltrapilho. “Tive de começar a roubar, a entrar em esquemas, a fazer transporte de droga.” Pouco antes de morrer, o pai ainda lhe disse: “Esperei ver-te recuperado, mas, neste momento, o que vejo à minha frente não é o meu filho, é um cadáver ambulante.”

Mais de 400 processos

Quando o levaram para a prisão, contava 36 anos. “Fiquei muito tempo na cadeia porque tinha muita coisa para responder. Mais de 400 processos.” Quase tudo por furtar em supermercados e por atestar o depósito e não pagar. “Fui muitas vezes caço nesses anos todos. Era detido. Ia à polícia. Isto ia acumulando.”

Havia de ficar encarcerado quatro anos e nove meses. No início, revolta. “Entrei a ressacar. Meu Deus!” Um ano antes, em 2007, o Estabelecimento Prisional do Porto criara o programa Observação (OBS), entretanto renomeado Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente. Naquele lugar, fazem a desabituação física das ditas drogas de abuso e a recuperação psicológica.

Abel pouco tem a dizer sobre o primeiro mês. “É só mediação. É voltar a raciocinar.” Ficavam naquele espaço 22 horas por dia, só dispunham de duas horas de recreio a céu aberto e de uma visita semanal. Ao fim de um a três meses, os reclusos podem passar às áreas comuns. Abel preferiu ficar até abrir vaga na unidade livre de drogas (ULD), opção que existe em poucas cadeias. “Senti que já chegava, que tinha de dar um rumo à minha vida. Nos pavilhões, droga é porta sim, porta não. Quem não cai na tentação?”

Este segundo programa combina actividades educativas, ocupacionais e terapêuticas. “Na ULD foi um crescer. Estamos presos, mas, ao mesmo tempo, acabamos por nos conseguir libertar. As terapias, as regras, a vigilância, o controlo, tudo tem um objectivo.” Foi ultrapassando as várias etapas: novo membro, membro responsável, velho membro, responsável de unidade, mentor. Não diz que foi fácil. Ao fim-de-semana, os técnicos não trabalhavam. E Abel, enquanto responsável de unidade, insistia nas terapias de grupo. “Alguns não queriam.” “Podias dar uma folga”, diziam-lhe. “Ouve lá, tu ao sábado, drogavas-te, ao domingo drogavas-te, aos feriados drogavas-te. Não vai haver reunião porque queres dormir mais um bocado? Não! Comigo isso não funciona!”

No seu caminho de toxicodependente em recuperação, ajudou trabalhar num projecto da PELE – Espaço de Contacto Social e Cultural. Entrou no espectáculo Entrado (2009/2010). Foram nove meses num exercício de autoconhecimento e expressão, sentido ético e artístico. O público foi desafiado a entrar na prisão e a fazer um percurso, confrontando-se com percepções e vivências daquele lugar, culpa e perdão. Que orgulho em cada um dos dias de espectáculo, que levou 200 pessoas por noite à prisão. “Foi mais um desafio superado.”

Abel sentiu-se ligado ao director artístico, Hugo Cruz, à adjunta, Maria João Mota, ao director musical, Artur Carvalho. “São pessoas que nos transmitiram que conseguimos.” Um dia depois de sair da prisão, em Agosto de 2012, estava a ligar a Hugo Cruz. “Tenho trabalho para ti em Setembro”, disse-lhe. Era o Mexe – Encontro Internacional de Artes e Comunidade. Ia carregar material e ajudar a montá-lo. Desde então, a PELE chama-o. “Foram eles os primeiros. Ganhar algum dinheiro quando saí da cadeia foi com a PELE.” Trabalhos pontuais, já se vê. “Não era um sustento viável”.

Tinha de arranjar algo mais consistente. “Pedi a um primo que trabalhava em ar condicionado. Ele estava com um pé atrás – as minhas passagens pelos negócios da família tinham sido sempre drásticas, havia recaídas, roubos e afins –, mas ele acreditou em mim. Trabalhei com ele três ou quatro anos.”

O regresso à prisão

Agarrou a oportunidade de voltar à prisão, noutros moldes, os que idealizava. Em 2014-2016, a PELE desenvolveu o Ecoar – Empregabilidade, Competências e Arte em quatro estabelecimentos prisionais. Abel assumiu o papel de mediador. “O recluso estranha quem chega. Eu podia dar a minha experiência. Saber que estava ali alguém que foi igual a eles era meio caminho andado para a confiança, facilitava o trabalho do mundo artístico.”

A ideia era orientar a criação artística para a aquisição de competências de empregabilidade. E aquilo fazia-lhe sentido. “Reaprender a trabalhar em equipa, a estar próximo do outro, a saber ouvir o outro, a olhar para o outro, a ver qualidades no outro: ‘Não és só um ladrão, também sabes ser humilde, ter uma conversa franca.’ Foi isso que o teatro me deu.”

Falando sobre prática artística em meio prisional, Hugo Cruz diz o mesmo: “O que a criação artística traz é, muitas vezes, um espaço para as pessoas estarem em contacto consigo e com os outros, para experimentarem outras formas na relação com os outros. Quando estou a ter um ensaio de música, de teatro ou de dança, tenho oportunidade de criar situações que me permitem reformular as minhas visões de vida, perceber que posso funcionar de outra maneira.”

Não quer romantizar. Não diz que a arte salva. “Não vai resolver o problema do emprego, a percepção negativa que muitas vezes se tem sobre quem esteve preso.” Pode, sim, “preparar, fortalecer estas pessoas para estarem nessas situações com consciência de si mesmas e dos seus direitos”.

Nos vários projectos que desenvolveu em prisões, Hugo Cruz viu pessoas que não iam à escola passar a fazê-lo. “Também se trabalha uma segurança. A pessoa começa a perceber que pode ocupar esse espaço. Muitas vezes, não o fazia, não por preguiça, por toda a vida achar que aquele espaço não é para si.”

Refizera a vida. Um mês depois de sair da prisão reencontrara Sara, com quem tivera um curto envolvimento na adolescência. Ela tinha quatro filhos – dois pequenos e dois adolescentes. “Foi mãe muito cedo. Sempre criou os filhos sozinha. Sempre trabalhou. Os filhos têm uma educação tremenda. Também me apaixonei por ela por isso.” Ao fim de dois meses, estavam a viver juntos. “Os miúdos foram crescendo a ver-me como pai deles e eu a vê-los como meus filhos. Para mim, são meus filhos. Fomos crescendo como família.”

Nunca pôs o passado atrás das costas. Foi fazendo voluntariado na Pastoral Penitenciária, da Igreja Católica em Portugal. Às vezes, pais de jovens consumidores de drogas pedem-lhe ajuda. “Miúdos de 16 anos têm de ser desmontados. Estão a viver o melhor da droga. Depois vem o resto – as mentiras, os roubos, a desgraça.” Confronta-os com um futuro hipotético que reflecte o seu passado.

Já em 2019, a PELE tornou a desafia-lo para um novo projecto, o Laboratório de arte e cidadania. Ia voltar a trabalhar com jovens nas prisões e experimentar trabalhar com jovens em centros educativos, com enfoque naqueles com percursos de insucesso e abandono escolar, uma vez mais, tendo em vista a empregabilidade. Veio a pandemia de covid-19. “A gente tenta através do Zoom fazer reuniões e chegar a eles lá dentro, mas não é igual nem para lá caminha.”

Um sonho maior

Tinha assumido a exploração de um café perto de casa, em Galegos, Penafiel. Enquanto ali está, a servir quem chega, Abel vai pensado noutra hipótese. “O meu sonho é ter uma casa para ajudar quem sai da prisão e não tem suporte. Quem não tem um pai, uma mãe, um irmão, alguém que lhe deite a mão, volta para o crime e para a droga.”

Planeia criar uma associação e recorrer a dinheiros públicos. Tem uma quinta que, para já, é só um grande terreno e uma casa em ruínas. “Vou montar uma comunidade terapêutica de auto-sustento.” As terapias ocupacionais vão incluir plantar batatas, feijão ou cenouras e cuidar de galinhas, coelhos ou porcos. Serão parte de programa de busca de harmonia entre trabalho, autocuidado, lazer e descanso. “Com as terapias, vão descobrir em que são bons.”

Aos 48 anos, está confiante que descobriu em que é bom. “O meu nome já chegou a muita gente. Há famílias que me têm pedido ajuda e eu tenho ajudado. Já falei em colóquios de toda a maneira e feitio. Isto dá alento.” Mas a comunidade é o futuro. O presente é a pandemia. “Neste momento, já ponderámos fechar o café. Primeiro que se sobreviva, é terrível. Já ganhámos dinheiro como este café, mas agora não. Tem dado para as despesas. Quando não der para as despesas, fechamos a porta. Não vale a pena.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens apoiadas, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

Núcleo de Beja/EAPN: com plano de atividades traçado para 2021

Ana E. de Freitas, in a Voz da Planície

A EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal, é uma organização não governamental que desenvolve a sua atividade no âmbito da luta contra a pobreza e exclusão social em Portugal e o Núcleo de Beja já traçou o seu plano de atividades para 2021.

Em funcionamento desde outubro de 2002, o Núcleo Distrital de Beja tem vindo a implementar um conjunto de atividades, que se espera poderem contribuir para informar e capacitar os recursos técnicos e institucionais com intervenção na região.

Em 2021, a newletter “Planície em Rede” vai prosseguir com as suas edições on-line, no âmbito da Iniciativa pelo Combate à Pobreza e Exclusão Social, o dia 17 de outubro será assinalado com um conjunto de atividades e vários parceiros; as reuniões de associados e encontro distrital, assim como a realização de visitas institucionais individuais a realizar pelo Técnico e pelo Presidente da Mesa do Conselho Geral são para concretizar, igualmente, no próximo ano.

A Iniciativa Escolas Contra a Pobreza para o conhecimento acerca das questões da pobreza e da exclusão social; as Oficinas de prática e conhecimento, no sentido de produzir mudança junto do tecido social do distrito e o Encontro Regional dos Conselhos Locais de Cidadãos do Sul para aproximar os elementos dos CLC da região Sul, desenvolvendo atividades conjuntas são metas traçadas, também, para 2021.

A Semana da Interculturalidade/Fórum das comunidades ciganas, com a realização de ações de sensibilização/informação sobre comunidades ciganas ao longo da semana; formação, com 48 horas previstas neste programa; a investigação e a articulação estreita com diversas instituições com o objetivo de apoiar as entidades da economia social no seu processo de melhoria contínua na qualidade dos serviços prestados nas respostas sociais dirigidas às pessoas idosas são, ainda, iniciativas que o Núcleo de Beja quer cumprir em 2021.

Alunos que ajudavam colegas carenciados são quem agora precisa de apoio

Por Notícias ao Minuto

Alunos de famílias de classe média, que antes participavam em campanhas de solidariedade, são agora quem precisa dessa ajuda e algumas escolas receiam não conseguir acudir a todos.

Os efeitos da crise económica provocada pela pandemia de covid-19 começam a notar-se nas escolas, segundo relatos de diretores escolares feitos à Lusa.

Nas salas de aula ou nos recreios, os professores e funcionários sinalizam cada vez mais casos de dificuldades financeiras. Entre os alunos repetem-se as histórias de familiares atirados para o desemprego.

"Já não são as tradicionais famílias que estão em dificuldades. A classe média também está a passar mal", revelou o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP).

Segundo Filinto Lima, "a necessidade de acudir às famílias está a aumentar e por isso a faceta social das escolas está também a emergir".

A pandemia não conseguiu abalar tradições como os projetos de solidariedade na época de natal. Mas, em alguns estabelecimentos de ensino, alterou os destinatários.

Se antes tinham como objetivo principal ajudar as famílias de bairros carenciados ou "os vizinhos da escola", agora voltaram-se para os seus estudantes, contou Filinto Lima.

Em Loures, a paróquia costumava receber os cabazes de natal do agrupamento n. 2. Este ano foram todos entregues a estudantes: "Sentimos que tínhamos que nos virar mais para dentro, porque os nossos alunos são quem mais precisa", disse à Lusa a diretora do agrupamento, Irene Louro.

Também no Norte, 89 famílias de estudantes do agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos receberam na semana passada um cabaz.

"Algumas das famílias que antes ofereciam alimentos estão agora do outro lado, a receber ajuda", alertou Filinto Lima, que é também diretor do agrupamento Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia.

Segundo este diretor, há escolas que já não conseguem acudir a todos. O problema não está na quantidade de bens recolhidos, mas no aumento de pessoas a precisar de ajuda.

Os últimos números do Instituto de Emprego e Formação Profissional mostram um país com mais de 400 mil desempregados e mais de 12 mil casais em que ambos deixaram de ter qualquer fonte de rendimentos.

A estes, juntam-se milhares de "desempregados invisíveis", que não estão inscritos nos centros de emprego nem recebem subsídio de desemprego. Muitos destes casos são sinalizados pelas escolas.

Nas grandes cidades, os vizinhos mal se conhecem e a entreajuda torna-se mais difícil. Muitas vezes, só o convívio e ambiente escolar conseguem aniquilar o anonimato das grandes urbes.

"Há muita pobreza encoberta e as pessoas têm receio e vergonha de mostrar o quanto necessitam. Nós conhecemos bem as famílias e, infelizmente, são muitas as que precisam. Mas para nós é fácil falar com elas", contou Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares (ANDE).

Manuel Pereira é também diretor do Agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães, que ofereceu mais de 50 cabazes de natal aos seus alunos. Mas Manuel Pereira lembrou que, nas escolas, as ações de solidariedade não têm "época" nem prazo de validade. Acontecem durante todo o ano.

Dão-se refeições que não estavam contempladas, fazem-se campanhas de recolha de material escolar, de roupa e até de brinquedos. É um trabalho silencioso, continuo, só reconhecido pela comunidade escolar.

"São coisas genuínas que nascem das comunidades educativas", saudou Filinto Lima.

Muitas das iniciativas começam da perceção dos funcionários de que algo de estranho se passa com um aluno, mas também nascem de conversas e partilha de preocupações entre professores.

"Os alunos de famílias mais carenciadas procuram a escola e nós procuramos ajudar com aquilo que podemos", corroborou Irene Louro, sublinhando que as ações solidárias fazem parte da "filosofia da escola".

Desde março, quando começou o confinamento, o trabalho não tem parado.

Nas escolas de Cinfães, por exemplo, realizaram-se três campanhas ao longo do ano. Resultado: À casa dos alunos chegaram alimentos como arroz, massa, azeite, leite, pão ou cereais, contou o diretor.

Naquela vila da zona de Viseu, as escolas trabalham em colaboração com a autarquia que é avisada quando surge um caso de carência económica. As autoridades locais passam a garantir cabazes de alimentos a essas famílias, explicou Manuel Pereira.

Em todas estas ações, as escolas "apreciam e motivam" quem dá e empenham de igual forma para que a ajuda seja feita de forma "discreta", sublinhou por seu turno a diretora das escolas em Loures.

À missão de ensinar as escolas somam assim o trabalho solidário, mas sem procurar reconhecimento: "Tentamos fazer isto de uma forma quase licenciosa", contou Irene Louro.

Trabalhar em troca de alojamento: será esta a nova alternativa para os alunos da UAlg?

Por Lara Rivera, in Sul Informação

Reportagem sobre os estudantes que, sem dinheiro para pagar um quarto em Faro, são voluntários a troco de alojamento

É de manhã bem cedo e o aroma a café acabado de fazer começa a espalhar-se pelos corredores do hostel Ria Terrace, situado no centro da cidade de Faro. Keven Prado prepara-se para começar o dia. Procura um canto sossegado e sem distrações para participar na sua aula online.

«Às vezes, é difícil morar com 9 pessoas na mesma casa, só temos uma casa de banho, só uma sala», relata, enquanto bebe o seu café.

Do outro lado da casa, entre cumprimentos de bom dia, máscara e corridas para o terminal rodoviário, já não é estranho ter um pouco de adrenalina no dia-a-dia de R.S., que frequenta as suas aulas presenciais todas as manhãs no Campus de Gambelas da Universidade do Algarve (UAlg).

Estes são os casos de dois alunos da UAlg, que, neste momento, se apresentam como voluntários em troca de alojamento no Hostel Ria Terrace, na Rua Conselheiro Bivar, em Faro.

Esta forma de voluntariado consiste em dedicar uma determinada carga horária semanal (entre 16 a 25 horas), recebendo em troca a possibilidade de se alojar no hostel, com uma cama disponível em quarto partilhado, juntamente com o resto da equipa.

«Muita gente se surpreende quando digo que moro num hostel»,comenta Keven ao enrolar o cigarro. «O meu rendimento não dá para pagar um quarto, no momento essa é (talvez) a minha única e melhor opção».

Keven Prado, de 20 anos, está atualmente a frequentar o 2.º ano de Psicologia na Universidade do Algarve. Chegou a Portugal pela primeira vez em Agosto de 2019. A partir daí, e por recomendação de outros amigos e alunos, encontrou uma nova alternativa para “minorar” as suas despesas através do voluntariado.

«Quando saí do Brasil, cheguei à Europa com apenas 600 euros na carteira. Tive que procurar um trabalho urgente, porque, com aquele dinheiro, só dava para alugar um quarto por um mês e o resto tinha que distribuir entre alimentação, despesas gerais e transporte para a Universidade».

«No primeiro hostel onde fiquei, encontrei uma amiga que viaja e conseguiu poupar grande parte do seu dinheiro graças ao voluntariado, e eu nem sabia que isso era possível. Depois descobri que muitos outros alunos apostam nesta atividade».

Trata-se de uma opção particularmente popular para aqueles que desejam passar vários anos de suas vidas viajando. Existem várias plataformas online, como Worldpackers ou WorkAway, onde é possível criar uma conta e candidatar-se a voluntariado em quase qualquer parte do mundo. Nessas plataformas, pode encontrar-se anúncios onde muitos hostels, hotéis, campos agrícolas ou de permacultura, e até ONGs, procuram pessoas que querem dedicar horas de trabalho em troca de um lugar para dormir e ainda receber uma ou mais refeições por dia.

Pode ser uma solução eficaz e útil para quem planeia viajar por longos períodos, quando é essencial gastar o mínimo de dinheiro possível. É também funcional para aquelas pessoas que, por diferentes motivos e situações de vida, precisam mesmo de um local seguro para dormir e optam por tomar esta opção como “tábua de salvação”, como descreve Rui Silva.

«No começo não foi fácil, a minha mãe estava muito preocupada com o que poderia acontecer, as pessoas que eu poderia encontrar e essa pandemia dá ainda mais motivos para desconfiar», diz. Mas, «para ser sincero, nunca senti medo», acrescenta. «É a única opção viável para mim neste momento».

R.S., natural de Coimbra, é estudante de Ciências Agrárias na Universidade do Algarve. Por motivos pessoais, deixou a sua cidade e casa para continuar os estudos, mas desta vez na cidade de Faro.

Diante da dificuldade de manter um emprego e estudar ao mesmo tempo, recebe uma bolsa do Estado para cobrir as suas necessidades básicas, como alimentação e hospedagem. Também recebe ajuda de sua mãe, que, com muito esforço e sacrifício, consegue mandar para o filho algum dinheiro para continuar a pagar os estudos da universidade.

Esta situação afeta R.S. de uma forma pessoal: «não quero que isso se prolongue a longo prazo, quero muito trabalhar». «Estou apenas a aguentar-me», acrescenta, dizendo que «entre as horas de voluntariado e as aulas, mal consigo acomodar o meu tempo para estudar».

O desemprego, a escassez de novos empregos, a incerteza e a impossibilidade de fazer planos para o futuro, são alguns dos vestígios pós-pandémicos que nos deixa este 2020.

Keven diz que uma das suas fontes de rendimento foi dar aulas particulares de Inglês como professor independente. «Voltar ao meu país para passar a quarentena foi a pior decisão da minha vida; Perdi grande parte dos meus alunos com a pandemia, agora só tenho um cliente e o dinheiro que ganho só dá para o que como durante a semana».

«Felizmente, tive a sorte de encontrar algumas pessoas maravilhosas que também são voluntárias na Ria. Se a minha realidade mudasse agora, eu ficaria apenas por causa deles e da convivência. Nós nos ajudamos, pois a maioria passa pela mesma situação».

Tanto R.S. como Keven concordam que, para ambos, a experiência do voluntariado é enriquecedora de várias formas. Para além do dinheiro que podem poupar e de ter um sítio seguro para dormir, «a oportunidade de criar novos laços e ligações com outras pessoas de diferentes realidades é inestimável», afirma Rui. «Formamos laços fortes, somos agora uma família».

Nota: Lara Rivera é aluna do 2º ano do curso de Fotografia Profissional da ETIC_Algarve, Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve

 

Pais em tempos de crises: Que Natal em crianças desfavorecidas?

Mário Freire, in Reconquista

Assinalou-se no passado dia 20 de Novembro o “Dia Universal dos Direitos da Criança”. Com ele pretendeu sensibilizar-se a comunidade mundial para tudo o que afecta a vida da criança.

Em Portugal, a UNICEF associou-se à Pordata (base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos) para dar a conhecer realidades relativas à infância e adolescência no nosso País.

Assim, de entre os muitos dados apresentados, verifica-se que os agregados familiares monoparentais têm vindo a aumentar, continuando a ser essencialmente matriarcais. Além disso, cerca de 330 mil crianças e adolescentes estão, actualmente, em risco de pobreza em Portugal, sendo este risco mais acentuado naquele tipo de famílias.

Em 2018, se não fossem os apoios sociais, 28,4% das crianças e adolescentes viveriam abaixo do limiar da pobreza. Como corolário destes dados, em 2019, 229.846 estudantes do ensino público não superior beneficiaram de refeições subsidiadas pela Acção Social Escolar em Portugal Continental.

Outro aspecto que os dados estatísticos nos apresentam é o de em 2018 terem sido adoptadas 253 crianças com vínculo de adopção plena. Em contraposição com este número, o Jornal de Notícias daquele mesmo dia 20 de Novembro dizia que, nos últimos quatro anos, voltaram às casas de acolhimento pelo menos 67 crianças que já tinham sido adoptadas ou que estavam em período de pré-adopção. Se compararmos com o número de crianças que foram adoptadas desde 2016 (935), as crianças devolvidas representam 7,2%. Entretanto, mais de 300 crianças continuam à espera de ser adoptadas e há mais de 7 mil crianças que não vivem com as respectivas famílias. Que significado têm estes números?

Estamos a viver neste Natal uma grave crise sanitária, económica e social. Ora, ao Natal associam-se as ideias de família, votos de felicidades, de paz, presentes e, para os lares cristãos, também o presépio e a celebração do nascimento de Jesus. De que modo, para aqueles 330.000 menores de 18 anos que estão em risco de pobreza, o Natal é vivido? Como é que aquelas mais de sete mil crianças e adolescentes que foram retiradas da família irão passar estes dias? E quanto àquelas crianças que foram devolvidas à procedência, como se de mercadoria se tratasse?

Perguntas que inquietam, num tempo que deveria ser de tranquilidade e de alegria. Mas só o confronto (desde cada pessoa ao Estado) com este tipo de realidades pode ajudar a encontrar soluções ou, pelo menos, a minorá-las.

Que este Natal seja para todos, e especialmente para as crianças que não têm a família que as protege, um tempo de esperança de dias felizes.

À roda dos valores em Portugal: os valores humanos durante a infância e a adolescência

Iva Tendais, in Público on-line

Este artigo é sobre um projeto de investigação centrado nos valores das crianças e dos adolescentes, bem como nos fatores que os influenciam e que são por eles influenciados. Esta é a história de um projeto marcado pela pandemia de covid-19 e no qual participaram já mais de 4000 pessoas.

Oque nos move? A justiça social ou o prestígio pessoal? O risco ou a segurança? A busca de prazer ou o cumprimento das normas sociais? Estas são algumas motivações que estão na base dos valores —​ objetivos desejáveis que servem como princípios orientadores da vida para a generalidade das situações. Por isso, os valores assumem um papel central, influenciando uma grande variedade de esferas da vida como relações sociais, pertença a grupos, comportamento moral, orientações políticas, religiosidade, hábitos de consumo ou educação dos filhos. Ou seja, os valores tanto influenciam as atitudes e os comportamentos presentes como os seus efeitos se projetam no futuro através da socialização das crianças e dos jovens.

Muito recentemente, a investigação científica fez importantes avanços no estudo dos valores das crianças com o desenvolvimento de métodos de recolha de informação através de jogos, que são adaptados às suas capacidades e formas de captar a realidade social. Isto tem permitido saber a partir de que idade se definem os valores, como se organizam entre si e como mudam ao longo da vida.

Em Portugal, uma equipa de investigadores — na qual me integro — do ICS-ULisboa e do Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, responsáveis pelo projeto Clave, está a estudar a formação, o desenvolvimento, a organização e a hierarquização dos valores humanos durante a infância e a adolescência (dos seis aos 14 anos) e o seu impacto, nomeadamente, no bem-estar pessoal.

A tipologia de valores do Clave tem por base o modelo de Shalom Schwartz (1992). Dez valores básicos organizam-se numa estrutura circular (ver gráfico) em quatro valores “macro”, numa lógica de maior ou menor compatibilidade entre si e com diferentes motivações subjacentes: 1) Autotranscendência — preocupação com o bem-estar dos outros; 2) Autopromoção — preocupação com o sucesso individual; 3) Abertura à mudança —​ recetividade ao imprevisto, independência na maneira de pensar e de agir; 4) Conservação — preservação das tradições, da ordem e da estabilidade pessoal e social. Por exemplo, as motivações que estão na base dos princípios do universalismo, valor que se inscreve na categoria da “autotranscendência”, são contrárias às motivações que estão na base do valor “poder”, que se situa no valor “macro” da “autopromoção”. Significa isto que, quanto mais importante for para uma pessoa o valor do universalismo, menos importante será o valor do poder. Por exemplo, se o bem-estar da generalidade das pessoas na sociedade for muito importante para uma pessoa, ela tenderá a dar pouca importância ao exercício do poder e do controlo sobre as outras pessoas.



O Clave noutras regiões e países

Poucos meses antes do surgimento da pandemia de covid-19, o trabalho que realizámos com 218 alunos do 1.º ciclo de escolas públicas de Lisboa (entre os seis e os dez anos) permitiu-nos tirar três conclusões fundamentais: 1) é possível medir os valores das crianças portuguesas de forma fidedigna e válida recorrendo a instrumentos desenvolvidos e testados com crianças de outros países; 2) a estrutura circular de valores das crianças portuguesas é semelhante à de crianças de outros países; 3) as crianças portuguesas apresentam uma estrutura e hierarquização de valores semelhante à dos adultos, sendo os valores da autotranscendência os mais importantes e os da autopromoção os menos importantes.

Com o estado de emergência e o encerramento das escolas, foi necessário encontrar uma alternativa ao contacto presencial, mantendo o objetivo de ter uma participação superior a 1000 crianças, adolescentes e pais. Recolher os dados online foi a solução encontrada e, apesar de se tratar de um plano de recurso, permitiu chegar a um maior e mais diversificado número de pessoas. Graças ao envolvimento de diretores de estabelecimentos de ensino público e privado em Portugal continental e nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, responderam ao inquérito do Clave 1744 crianças e adolescentes dos seis aos 14 anos e 2385 encarregados de educação, na sua maioria, mães.

A decorrer também em Espanha e no Brasil, os próximos resultados vão permitir comparar os valores de crianças e pais em três contextos culturais diversos, bem como identificar diferenças e semelhanças na forma como viveram (e continuam a viver) a pandemia.

A pandemia mudou os valores das crianças?

Apesar de o grupo de crianças que participou no Clave antes e durante a pandemia não ser o mesmo, a hierarquização dos valores das crianças nos dois momentos foi comparada. Para as crianças entre os seis e os dez anos, os valores considerados como mais importantes são os mesmos antes e durante a pandemia. Em primeiro lugar, surge a benevolência, valor que indica a preocupação com o bem-estar das pessoas mais próximas (família, amigos e colegas). Em segundo lugar, o universalismo, que traduz a preocupação com o bem-estar da Humanidade, bem como com a preservação do meio ambiente. E em terceiro lugar a segurança, um valor central para quem aprecia a estabilidade nas relações pessoais e na sociedade. O que também não mudou com a pandemia foi o valor menos importante — o poder. Este valor reflete a motivação para alcançar prestígio pessoal e um estatuto social facilitador do controlo de pessoas e recursos materiais.

Foi nos valores considerados como moderadamente importantes que se registaram mudanças, ainda que pouco expressivas. Os valores do hedonismo (procura de prazer e gratificação individual), da autonomia (independência na maneira de pensar e de agir), do conformismo (cumprimento das normas sociais) e da estimulação (abertura à novidade e aos desafios da vida) ganharam importância no contexto da pandemia. Isto ao contrário do valor da realização (valorização pessoal através da demonstração pública das capacidades pessoais), que perdeu importância. A excepção a este padrão de pequenas mudanças foi a tradição (respeito pelos costumes e pelas tradições culturais e religiosas da família de origem), que passou a ter uma relevância muito menor no actual contexto que vivemos (passou da quarta para a sétima posição).

A benevolência, o universalismo e a segurança são também os valores prioritários para os pais que participaram no Clave durante a pandemia. Crianças e pais concordam que o poder é o valor menos importante. Apesar das crianças/adolescentes e dos adultos, enquanto grupos, estarem de acordo sobre os valores mais e menos importantes, dentro da mesma família o grau de acordo não é tão grande como se poderia esperar. Isto é, não é pelo facto de os pais darem muita importância, por exemplo, à realização, valorizando a demonstração social das suas capacidades individuais, que os filhos irão atribuir o mesmo grau de importância a este valor.

Pandemia, bem-estar e valores

Com a pandemia, também o âmbito do Clave teve de ser adaptado. Para além dos valores e do bem-estar, o inquérito passou a incluir questões sobre o impacto do confinamento na atividade escolar das crianças e dos adolescentes, na atividade profissional dos pais e nos relacionamentos sociais.

Como indicador adicional de bem-estar quisemos saber se as crianças e os adolescentes tinham medo do coronavírus. A maioria (63%) disse ter “algum” ou “muito medo”, tendo os mais novos (seis a dez anos) mais medo do coronavírus do que os mais velhos (11 a 14 anos).

E será que os valores se relacionam de algum modo com a percepção de risco face ao coronavírus? No caso das crianças e dos adolescentes, os resultados do inquérito indicam que, independentemente da idade, as crianças e os adolescentes que consideram a segurança o valor mais importante têm uma probabilidade duas vezes maior de ter muito medo do novo coronavírus do que as que valorizam mais a estimulação.

As dificuldades durante a pandemia em números

Das crianças e adolescentes:
22% considerou que foi mau ou muito mau estar em casa devido ao encerramento da escola e para 46% não foi bom, nem mau;
51% a 65% achou que os contactos sociais foram piores ou muito piores quando comparados com o período antes da pandemia (51% avós; 54% outros familiares próximos; 65% amigos);
80% dos pais indicou as saudades dos amigos como uma das maiores dificuldades sentidas pelas crianças/adolescentes.

Dos pais:
61% achou muito difícil conciliar trabalho, ensino, cuidado das crianças e tarefas domésticas;
58% apontou a preocupação com pessoas idosas da família como uma das maiores dificuldades;
54% indicou a falta de contacto com outras pessoas como uma das maiores dificuldades que sentiu.

O bem-estar das crianças e adolescentes durante a pandemia em números

84% sentiu-se saudável sempre ou muitas vezes;
82% achou que as coisas corriam sempre ou muitas vezes bem nas aulas;
73% achou que as coisas corriam sempre ou muitas vezes bem em casa;
66% achou que as coisas corriam sempre ou muitas vezes bem com os amigos.

O contributo do Clave nas escolas

O conhecimento produzido pelo Clave pode ser muito relevante para as escolas, facilitando-lhes o mapeamento dos valores na sua comunidade educativa. Este contributo é particularmente importante num momento em que as escolas são desafiadas a organizarem o seu currículo e as práticas pedagógicas com vista ao desenvolvimento do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Neste perfil, os valores constituem uma dimensão central a promover e a desenvolver, onde se incluem os valores da liberdade, curiosidade, reflexão e inovação (valores com motivações muito próximas aos valores da abertura à mudança do modelo de Schwartz), responsabilidade, integridade, cidadania e participação (valores próximos da autotranscendência) e, finalmente, a excelência e exigência (valores próximos da autopromoção).

O Clave tem previsto um novo inquérito, aberto a novas participações. Para quem participou no primeiro e aceitou ser novamente contactado, os dados recolhidos irão permitir identificar mudanças (ou estabilidade) nos valores, na vida quotidiana de crianças, adolescentes e pais, e perceber em que medida essas tendências poderão estar relacionadas com a evolução da pandemia.

Psicóloga, ICS-ULisboa
A equipa do Clave agradece a participação entusiasta e generosa de todos os intervenientes no primeiro inquérito (escolas, alunos e pais) bem como daqueles que venham a participar nos futuros inquéritos. Agradeço à equipa do projeto Clave, designadamente à Alice Ramos, à Evelia Alvarez e ao Ricardo Borges Rodrigues pelos valiosos contributos para este artigo

O Clave é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/SOC-SOC/30635/2017)

Ciências Sociais em Público

O Instituto de Ciências Sociais (ICS) é uma escola da Universidade de Lisboa e um Laboratório Associado do Sistema Científico Nacional dedicado à investigação, aos estudos pós-graduados e à divulgação de ciência nas áreas de Antropologia, Ciência Política, Economia, Geografia, História, Psicologia Social e Sociologia (www.ics.ulisboa.pt). Durante um ano, todos os domingos, investigadoras e investigadores com diferentes formações, idades e percursos académicos partilham o seu trabalho com os leitores do P2.

“Chegámos a ter pessoas que já não tinham como pôr um prato de sopa na mesa”

Mariana Duarte, in Público on-line

David Santos, técnico de luz de 45 anos, é um dos muitos trabalhadores da cultura desempregados na sequência da pandemia. Desde Agosto que se dedica à União Audiovisual, grupo de entreajuda que apoia os profissionais do sector da cultura. Actualmente distribuem 250 cabazes de alimentos por mês. “Eu próprio já tive de recorrer à ajuda da União. Não tenho vergonha de o dizer.” Testemunho na primeira pessoa.

Como para toda a gente, as coisas aconteceram muito de repente. Eu estava como responsável, em Portugal, de uma empresa multinacional de audiovisuais, aluguer de equipamentos e produção de eventos que tinha aberto um escritório em Lisboa em 2018. 2019 foi um ano muito bom porque consegui fomentar o negócio cá, a empresa estava a crescer. Em Março, no início da pandemia, a empresa não fechou logo. Mas a partir daí começaram a surgir os cancelamentos. Entre Março e Maio não consegui gerar negócio. Eu ia na mesma para o escritório todos os dias, apesar de não termos trabalho. Falava com os nossos parceiros e fornecedores, e todos eles diziam o mesmo, que a coisa ia parar. Em Maio, a empresa decidiu encerrar todos os escritórios que tinham aberto, inclusive o de Portugal. Ou seja, a partir de Maio fiquei sem emprego.

Quando tudo fechou, quando todos os eventos, concertos e festivais foram cancelados, previu-se o pior e confirmou-se. Com a empresa aberta contratávamos muitos freelancers. Todas as pessoas que colaboravam comigo ficaram sem trabalho, aquele primeiro confinamento foi o suficiente – como esta área é sustentada por pessoal a recibos verdes, não podemos parar nenhum mês. Felizmente, eu não estava a recibos verdes. Era a única pessoa nessa situação.

Quando fui para casa, comecei a dedicar-me à carpintaria. A minha primeira reacção foi tentar manter-me ocupado, não parar. Tentei fazer com que a semana de segunda a sexta fosse uma jornada de trabalho. Continuei a investigar coisas da minha área, mas chegou uma altura em que isso já era muito pouco. Eu chegava a ter jornadas de trabalho de 12 horas seguidas. Pessoas habituadas a isso não conseguem parar de um momento para o outro. Sim, de certa forma andava a iludir-me. A gente entra nesse limbo: “isto vai melhorar, vamos esperar”. Eu não quero mesmo sair desta área. Eu era um daqueles lucky guys que acordava de manhã e ia trabalhar com gosto.

A ficha caiu-me quando comecei a prestar mais atenção às acções da União Audiovisual. Foi um movimento que cresceu muito rapidamente. Passou a haver muita gente interessada em ajudar e muita gente a precisar de ajuda. Como já disse, a maioria das pessoas desta área trabalha a recibos verdes, portanto ao fim de dois meses quem fica sem trabalho começa a ter dificuldades. Eu naquela altura inicial aguentei porque a empresa deu-me uma indemnização, e é disso que estou a viver agora. Mas essa indemnização vai acabar em breve. Não chega para tudo. Eu próprio já tive de recorrer à ajuda da União. Não tenho vergonha de o dizer.

Entrei para a União Audiovisual em Agosto. Comecei por me voluntariar para as recolhas de alimentos, em vários pontos de Lisboa. Em finais de Setembro comecei também a fazer cabazes e, neste momento, pertenço ao núcleo duro do grupo. O nosso dia-a-dia passa por receber bens alimentares e fazer recolhas nos pontos fixos que temos em Lisboa – estou a falar da célula à qual pertenço, mas a União conta com quase 20 pontos fixos de recolha de bens alimentares em todo o país: Porto, Coimbra, Leiria, Alentejo, Algarve… Depois, duas vezes por mês reunimo-nos no nosso armazém para organizar a entrega dos cabazes.

A União Audiovisual está muito feliz com a reacção do sector artístico, da sociedade civil e do meio empresarial. Temos recebido cada vez mais apoios, de dentro e de fora da cultura. Em Lisboa, algumas das instituições culturais que nos têm ajudado com a recolha de bens são o Village Underground, o Cinema São Jorge, o Teatro Tivoli, o Teatro do Bairro Alto, o Teatro Maria Matos, entre outros. Qualquer pessoa que vá assistir a um espectáculo nesses locais pode levar consigo bens não perecíveis. Temos também várias empresas que são nossas parceiras. O Continente, por exemplo, que neste momento está a fazer uma campanha de apoio, com publicidade nas televisões e nas rádios.

Tivemos ainda a ajuda da iniciativa Rock ‘n’ Law. Uma vez por ano, advogados de diferentes escritórios formam bandas de rock e fazem um espectáculo em que angariam fundos para apoiar projectos de solidariedade social. Este ano decidiram atribuir os donativos recebidos à União Audiovisual. É importante mencionar também o restaurante Solar dos Presuntos, que nos doou dez por cento das receitas do serviço de entrega ao domicílio e do take away durante duas semanas, e a Uncancell Collection, cujas receitas da venda online de merchandising de eventos cancelados em 2020 reverteram a favor da União Audiovisual. O dinheiro que nós recebemos é convertido em bens alimentares. Nós somos uma organização sem fins lucrativos que se dedica especificamente à distribuição de bens alimentares.

A União começou por entregar vinte, trinta cabazes a nível nacional. Actualmente vamos nos 250 por mês. Em Lisboa é onde entregamos mais, cerca de metade, tanto a pessoas individuais como a famílias. Além dos técnicos de som, de luz e de vídeo também apoiamos artistas, maquilhadores, produtores, road managers, runners, riggers, as pessoas que fazem os caterings dos festivais… No início, este movimento era, sem dúvida, para os técnicos, porque foram eles que o formaram. Mas entretanto abrimos o leque a toda a gente que trabalha na cultura. Nós chegámos a ter pessoas que já não tinham como pôr um prato de sopa na mesa. A nossa vontade em continuar a fazer o que fazemos é não permitir que isso aconteça. Não permitir que ninguém bata no fundo, que ninguém fique para trás, que ninguém fique sem comida para pôr na mesa. Estamos a conseguir e é isso que nos dá força. A experiência está a ser tão boa que, no futuro, queremos ir além da entrega de bens essenciais. Queremos ir um pouco mais longe. São projectos que estão em desenvolvimento, não quero desvendar já muita coisa, mas um dos objectivos é tentar garantir que numa próxima crise não voltemos a passar por tantas necessidades e que não estejamos tão desprotegidos.

Eu acredito que a sociedade civil começa a ter um princípio de noção de que não são só os artistas que fazem a cultura. Daí também o grande apoio que estamos a receber. Ao princípio sentíamo-nos um pouco invisíveis, mas nós não culpamos as pessoas por não nos conhecerem: afinal, a nossa função é trabalhar nos bastidores. Com esta crise fomos empurrados a dizer “nós existimos”, “somos nós que estamos por trás desta gente toda”. Nós estamos a receber esse reconhecimento dos próprios artistas. O que esta crise está a trazer de positivo é unir uma área que dantes não era unida. Ainda não estamos como devíamos estar, mas sem dúvida que a entreajuda e a solidariedade nos uniram mais.

23.12.20

Recibos verdes: Segurança Social regulariza apoios em atraso até ao fim do ano

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Trabalhadores que não apresentaram a declaração trimestral e que aguardam prestações de Julho a Outubro deverão receber a 30 de Dezembro. Valor de Novembro deverá ser pago hoje.

A Segurança Social regularizou no final de Novembro os pagamentos em atraso do apoio fixo de 438,81 euros a cerca de 11 mil trabalhadores independentes e informais em situação de desprotecção económica e social, mas ainda tem alguns casos pendentes que só serão regularizados agora, até ao final do ano.

Numa nota publicada no seu site, o Instituto da Segurança Social indica a 30 de Dezembro serão pagas de forma retroactiva relativamente aos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro as pessoas que não foram abrangidas no primeiro processamento das prestações.

Em causa estão os trabalhadores independentes com contabilidade organizada que tenham estado isentos de pagar as contribuições sociais ou que não tenham apresentado a declaração trimestral.

Para este universo de trabalhadores, a Segurança Social exigia que os trabalhadores declarassem a quebra de rendimentos através de uma declaração certificada por um contabilista, mas os apoios deverão ser regularizados mesmo sem essa condição (prevista numa portaria do Governo).

À Provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, chegaram recentemente 21 queixas sobre atrasos, o que levou os serviços deste órgão de Estado a reunir-se com o Instituto da Segurança Social. Ao PÚBLICO, a assessora de imprensa da Provedora adiantou que, “com vista a ultrapassar rapidamente a situação”, a Segurança Social informou a Provedora de que “fora decidido que se iria prescindir de tais notificações”.

Os atrasos também afectam os trabalhadores com actividade iniciada há menos de três meses que, de acordo com a mesma portaria do Governo, deveriam ser “notificados para indicarem a entidade empregadora a quem foi prestado trabalho”.

Questionada sobre os processamentos em atraso, o Instituto da Segurança Social assegurou ao PÚBLICO que os beneficiários que reuniam as condições para aceder à medida foram pagos em Novembro de forma retroactiva relativamente aos meses de Julho a Outubro, tal como prometido pela ministra do Trabalho. Faltava, no entanto, resolver as situações em que era exigido aos trabalhadores mais obrigações. São esses os apoios que agora deverão ser regularizados.

Já a prestação relativa ao mês de Novembro deverá ser paga nesta quarta-feira para 17.500 beneficiários (7,6 milhões de euros em prestações sociais), indica a Segurança Social no seu site. “Recorde-se que a 30 de Novembro foram pagos apoios a 11 mil beneficiários, relativos aos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro, no montante de 9,2 milhões de euros. Com o processamento desta quarta-feira, dia 23, os pagamentos ascenderão a 16,8 milhões de euros”, indica o organismo liderado por Rui Fiolhais.

Prestações reprocessadas

O apoio fixo de 438,81 euros mensais (a atribuir de Julho a Dezembro) foi criado no Verão com o Orçamento Suplementar para amparar os cidadãos que estavam sem ajuda da Segurança Social por não cumprirem as condições de acesso a um dos três primeiros apoios anteriores, desenhados com regras mais apertadas.

Mas, embora em vigor desde finais de Julho, a medida demorou a passar do papel à prática. O período de acesso à medida só foi aberto em Setembro e só a 23 de Outubro é que foi publicada a portaria do Governo com a regulamentação da norma.

Entretanto, os serviços da Segurança Social atribuíram o apoio a 10.921 cidadãos, pagando 9,2 milhões de euros, que resultam da soma dos valores que estavam em atraso (703 mil euros relativos a Julho, 1,2 milhões a Agosto e 2,5 milhões a Setembro) com os valores de Outubro (4,8 milhões de euros).

Além destes cerca de 11 mil cidadãos, há outros trabalhadores apoiados, porque as outras medidas continuam a correr em paralelo.

Os trabalhadores independentes que já esgotaram o acesso à primeira medida de apoio – com seis meses de duração máxima, seguidos ou interpolados – puderam requerer este apoio fixo de 438,81 euros. Por exemplo, quem começou a enfrentar uma quebra de actividade em Março e pediu essa primeira prestação de forma ininterrupta (de Março a Agosto), teve necessariamente de transitar para este novo apoio alternativo a partir de Setembro se tiver continuado a enfrentar uma redução na sua facturação.

Como este apoio de 438,81 euros é atribuído em alternativa a esse primeiro se o valor deste for mais baixo, a Segurança Social teve de reprocessar as prestações sociais de forma retroactiva a Julho. E nos casos em que já tinha pago o tal primeiro montante, os beneficiários “receberam a diferença entre os 438,81 euros e o valor do apoio já pago” ao abrigo da medida, esclarece o Instituto da Segurança Social.

Os dados mais recentes publicados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho que permitem ver quantos trabalhadores foram apoiados por quebra de actividade só incluem dados actualizados até meados de Outubro. Em Setembro, havia 35.826 trabalhadores independentes que continuavam a pedir apoio (prorrogações) e outros 1500 que representavam novos pedidos.

Em Julho, o provedor de Justiça-adjunto Joaquim Cardoso da Costa escreveu ao presidente do Instituto da Segurança Social a chamar a atenção para o facto de o organismo estar a exigir um requisito não previsto na lei para conceder os apoios à quebra de actividade (o primeiro), condicionando a concessão à “existência de obrigação contributiva no mês imediatamente anterior ao mês do impedimento para o exercício da actividade”.

Os trabalhadores terão de declarar os montantes que receberam da Segurança Social para efeitos de IRS, devendo inscrevê-los quando apresentarem a declaração de rendimentos de 2020 na Primavera, porque, apesar de esta ser uma prestação social, o fisco entende que devem ser considerados como rendimento profissional e não como “apoios sociais” na acepção dada pela lei que estabelece as bases do sistema de Segurança Social às prestações sociais.

Portugal: Número de beneficiários de prestações de desemprego sobe 40% em novembro

 in Portugal Digital

O número de beneficiários de prestações de desemprego em Portugal cresceu 40,3% em novembro, face ao período homólogo, e 2,3% em comparação com outubro, para 228.215, de acordo com as estatísticas mensais da Segurança Social.

“Em novembro de 2020 registaram-se 228.215 prestações de desemprego, revelando um acréscimo de 2,3% face ao mês anterior e de 40,3% tendo em conta novembro de 2019 (neste total não estão incluídas as prorrogações das prestações de desemprego)”, lê-se no documento.

No mês em causa, o número de beneficiários do subsídio de desemprego fixou-se em 194.012, mais 2,1% face a outubro e mais 41,7% em comparação com novembro do ano anterior.

Por sua vez, o subsídio social de desemprego inicial incluiu 9.717 pessoas, o que se traduziu numa descida de 0,7% em relação ao mês anterior e numa progressão de 80,5% face a novembro de 2019.

Já o subsídio social de desemprego subsequente abrangeu 24.044 pessoas, no mês de referência, uma subida de 5,9% face a outubro e de 23,5% em comparação com o período homólogo.

Apesar de, neste período, continuarem a registar-se subidas em todos os grupos etários, destacam-se os grupos mais jovens, nomeadamente, com 24 ao menos anos (111,6%), entre os 25 e os 34 anos (74,5%), entre os 35 e os 44 anos (44,3%) e entre os 45 e os 54 anos (33,6%).

53 concelhos do país têm menos desempregados do que antes da pandemia

Cátia Mateus, Sofia Miguel Rosa, in Expresso

O número de desempregados inscritos nos centros de emprego nacionais recuou em novembro, pelo segundo mês consecutivo. Há vários concelhos do país que estão a conseguir contrariar o aumento do desemprego causado pela pandemia. 19% dos 278 concelhos do continente já estão em níveis de desemprego pré-covid

Apesar de ainda não haver sinais de recuperação económica nem perspetivas de quando ela se poderá iniciar, o número de desempregados inscritos nos centros de emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) voltou a dimunuir em novembro face ao mês anterior. É o segundo mês consecutivo que o desemprego registado desce em cadeia, contrariando os impactos da pandemia na economia nacional, que tem feito tremer o mercado de trabalho. Novembro fechou com 398.287 indíviduos desempregados, menos 5.267 do que no mês anterior, o equivalente a uma redução percentual de 1,3%. Há atualmente 53 concelhos do país onde o desemprego registado é inferior ao contabilizado em fevereiro, último mês livre dos impactos da pandemia.

É uma redução mais contida do que a registada em outubro, mês em que o número de inscritos nos centros de emprego nacionais diminuiu 1,6% (menos 6.620 indivíduos) face ao mês anterior, mas é o segundo mês consecutivo em que o desemprego registado recua em território nacional. Os dados divulgados esta quinta-feira pelo IEFP sinalizam uma ligeira retoma do mercado de trabalho nacional, muito embora a economia não esteja a acompanhar essa tendência.

É um facto que o desemprego registado em novembro continuou a ficar 30% acima do contabilizado em período homólogo, ou seja, no mesmo mês de 2019. Mas na evolução em cadeia, mês a mês desde o ínicio da pandemia, há melhorias a assinalar. É menos sombrio do que em outubro o mapa que ilustra agora a distribuição do desemprego registado nos 278 concelhos do continente, para os quais o IEFP disponibiliza informação desagregada.

Como o Expresso avançou, no fim do mês de novembro de 2020 estavam registados, nos Serviços de Emprego do Continente e Regiões Autónomas, 398.287 indivíduos desempregados. Um número que representa 69,6% de um total de 571.866 pedidos de emprego registados durante o mês. Na nota explicativa que acompanha os indicadores, o IEFP realça ainda que "o total de desempregados registados no país foi [em novembro] superior ao verificado no mesmo mês de 2019 (+92.326; +30,2%) e inferior face ao mês anterior (-5.267; -1,3%)", altura em que os centros de emprego contabilizavam mais de 403 mil desempregados inscritos.

A pandemia provocou uma acentuada subida do desemprego nacional nos últimos nove meses. O maior aumento aconteceu em abril, o primeiro mês completo de confinamento no país, altura em que o número de desempregados registados nos centros de emprego nacionais aumentou em mais de 49 mil indivíduos face ao mês anterior, alcançando o patamar dos 392.323 desempregados. Um número que logo no mês seguinte, em maio, acabaria por superar a fasquia dos 408 mil desempregados.

Essa trajetória de subida só viria a ser interrompida em junho, quando o Governo decretou o desconfinamento da economia que se traduziu numa ligeira diminuição do desemprego registado para os 406.665 indíviduos. Este aparente alívio não seria, no entanto, duradouro. Julho traduziu-se num novo agravamento e a tendência de subida do desemprego registado manteve-se por mais dois meses tendo registado em outubro o primeiro recuo em cadeia.

DESEMPREGO REGISTADO MAIS PRÓXIMO DA ERA PRÉ-COVID

Novembro, ao que tudo indica, consolidou essa tendência ao afirmar-se como o mês em que o número de desempregados registados nos centros de emprego volta a descer abaixo dos 400 mil, aproximando-se dos indicadores do período pré-pandemia.

Essa tendência de melhoria é visível na habitual análise mensal do desemprego por concelho que o Expresso realiza com base nos dados do IEFP. Novembro fechou com a maior percentagem de concelhos (19,02%) onde o desemprego registado estava abaixo do verificado em fevereiro, último mês completo livre dos efeitos da pandemia. São 53 os concelhos que registam agora menos desempregados do que em fevereiro.

Ponte de Sôr, Oleiros, Figueiró dos Vinhos, Arronches, Miranda do Douro, Mourão, Vimioso e Valpaços destacam-se neste ranking, que pode percorrer na infografia abaixo. Mas não são caso único. 31 dos 278 concelhos do continente registam também uma recuperação dos níveis de emprego face a outubro, embora se mantenham ainda com um nível de desemprego registado superior ao de fevereiro deste ano.

A análise mensal realizada pelo Expresso mostra que 81% dos 278 concelhos do continente ainda lutam para recuperar os níveis de desemprego pré-covid. Mas está a diminuir a percentagem de concelhos onde o desemprego aumentou acima dos 75%. Em outubro eram três os concelhos nestas condições - Odivelas, Castro Verde e Loulé -, em novembro só dois se mantêm neste patamar: Odivelas e Castro Verde. Ainda assim, ambos os concelhos registaram uma diminuição do número de desempregados inscritos nos centros de emprego locais no último mês.

A região do Algarve é a que regista maior aumento do desemprego registado desde fevereiro. Em nove meses a região viu aumentar em 52% (+9.894) o número de trabalhadores no desemprego, totalizando em novembro 29.082 desempregados inscritos nos centros de emprego. Lisboa e Vale do Tejo é a segunda região mais fustigada pela crise pandémica com um aumento de 39% (+35.566) tendo fechado novembro com 128.024 desempregados registados. Norte, Centro e Alentejo fecham a lista com aumentos de 20,2%, 14,1% e 14%, respetivamente.

Os dados disponibilizados pelo IEFP mostram que no último mês, à semelhança do que foi prática desde o início da pandemia, o fim dos contratos de trabalho não permanentes continua a ser o principal motivo de inscrição nos centros de emprego. Em novembro, 57% dos novos desempregados inscritos indicaram este motivo. Logo a seguir estão os despedimentos (14,4%).

Apoio Extraordinário. Trabalhadores sem proteção social esperam subsídio desde julho

in Expresso

Milhares de pedidos para o Apoio Extraordinário de Proteção Social para Trabalhador estão por processar e há trabalhadores independentes com quebras nos rendimentos superiores a 40%, ou que cessaram atividade este ano, que ainda esperam pelo subsídio de apoio de 438,81 euros. Instituto da Segurança Social garante pagamentos até 30 de dezembro

A Segurança Social tem milhares de pedidos pendentes relativos ao Apoio Extraordinário de Proteção Social para Trabalhador. Segundo o "Jornal de Notícias", são vários os trabalhadores sem proteção social que não recebem o apoio mensal anunciado pelo Governo desde julho. As queixas têm vindo a aumentar e, esta terça-feira, um grupo de trabalhadores independentes decidiu denunciar os casos à provedora de justiça e aos vários grupos parlamentares.

Dezenas de trabalhadores, escreve o "Jornal de Notícias", deveriam ter recebido o apoio mensal de 438,81 euros desde julho, já que apresentaram quebras de rendimentos superiores a 40% ou cessaram a atividade este ano. No entanto, as candidaturas ao Apoio Extraordinário de Proteção Social para Trabalhador começaram apenas em setembro e muitos dos trabalhadores ainda não receberam qualquer resposta da Segurança Social.

Além da falta de resposta, os trabalhadores independentes consideram que existe desigualdade no tratamento dos processos, uma vez que há também candidatos que já receberam uma resposta e o respetivo pagamento.

Na sequência das denúncias, o Instituto da Segurança Social publicou uma nota, informando os trabalhadores de que "vai proceder, nos dias 23 e 30 de dezembro, a novos pagamentos". Esta quarta-feira "serão pagos apoios a um total de 17.500 beneficiários", no valor de "7,6 milhões de euros", referentes ao mês de novembro. Mais tarde, a 30 de dezembro, "serão pagos os retroativos de julho a outubro para um conjunto de beneficiários", acrescenta o instituto na nota informativa.

O ano em que o fim do mundo se tornou possível

Isabel Salema, in Público on-line

2020 foi o ano em que convivemos com a catástrofe e o fim ficou mais perto. O que é que a pandemia nos ensinou? Os filósofos andam às voltas com o problema, enquanto os artistas tacteiam caminhos para sair do caos. Entre distopias e utopias, é o corpo do espectador que pode renascer.

José Gil, um filósofo muito cá de casa, escreveu dois ensaios sobre a pandemia publicados neste jornal em Março e Abril. No primeiro, intitulado Medo, explicava como o receio de uma morte imprevista e absurda igualizava homens e mulheres, introduzindo a experiência de uma “globalização existencial”, com todos a vivermos o mesmo tempo pandémico; no segundo, com o corpo já a acumular várias semanas de confinamento, propunha que a pandemia pudesse vir a modificar o modo de vida das sociedades actuais ancoradas no capitalismo industrial financeiro, mas já com um pé no capitalismo digital.

O ensaio A pandemia e o capitalismo numérico, o que causou mais ondas de choque, propunha que a covid-19 tinha acelerado a nossa entrada numa sociedade dependente do digital com a generalização do teletrabalho, a digitalização máxima dos serviços e a virtualização das deslocações, das relações sociais, do lazer e da cultura. Ao impor sem entraves o capitalismo há muito sonhado pelas empresas tecnológicas num salto brutal, a pandemia iria fazer florescer as subjectividades digitais, que tendem a dispensar o corpo físico, até se tornarem dominantes: “Serão subjectividades desterritorializadas, de certo modo, nómadas e transparentes, mas reterritorializadas no digital.”

Os dois ensaios foram recentemente reunidos no livro O Tempo Indomado (Relógio d’Água), que inclui mais duas reflexões em que José Gil voltou à pandemia para apresentar um outro mundo possível, uma possível utopia para um futuro instável que nos espera.

Mas antes de chegarmos ao futuro, para saber o que pode a filosofia nos tempos que correm, parafraseando um jovem filósofo e musicólogo também ouvido neste texto, procurámos descortinar que novas subjectividades surgiram afinal em 2020 e como poderá renascer a cultura, depois do ano em que convivemos com a catástrofe e em que o fim do mundo ficou mais perto. A pandemia vai transformar-nos em espectadores diferentes?

“Quando me pergunta o que é que vai ficar do que a pandemia nos ensinou, fico com a impressão que nada é para ficar, porque os tempos que vêm serão de grande instabilidade. A instabilidade vai tornar-se, paradoxalmente, cada vez mais regular”José Gil

Nos primeiros meses da epidemia, quando começaram os lockdowns, um dos termos que invadiu a nossa globalização existencial, as instituições musicais de todo o mundo, da Filarmónica de Berlim à Fundação Calouste Gulbenkian, do Lincoln Center ao Teatro Nacional de São Carlos, ensaiaram várias alternativas aos programas ao vivo. Uns com mais sucesso do que outros, uns com mais meios do que outros, o que todos constataram, e que significou um verdadeiro terramoto, é que a única audiência possível era mesmo a que estava online, agarrada em casa aos ecrãs. Levou ainda algum tempo até que programas live streaming, com orquestras ou agrupamentos de câmara a actuarem perante auditórios vazios, começassem a surgir nos websites respectivos. O mesmo tempo em que a ciência hesitou quanto à forma como o vírus SARS-CoV-2 se transmitia no ar, tornando especialmente problemáticos os concertos com vozes ou instrumentos de sopro.

No final do Verão, um gigante como a Metropolitan Opera, a maior instituição norte-americana dedicada às artes performativas, anunciava que não iria reabrir tão cedo, estendendo o cancelamento da temporada 2020-2021 até Setembro do próximo ano. Peter Gelb, o administrador que lançou o programa de transmissão ao vivo das óperas do Met em 2006 (e que chegam a Portugal através da Gulbenkian), reafirmava o óbvio: distância social e grande ópera não podiam conviver.

Mas ao mesmo tempo que essas ondas de choque reverberavam em todo o mundo, Peter Gelb enviava uma nova mensagem: o Met ia aproveitar a paragem dos espectáculos ao vivo para reflectir sobre o seu futuro e repensar a programação. Um dos compromissos — prometia num ano fortemente marcado pelo movimento Black Lives Matter — era que a instituição, com 140 anos de história, iria pela primeira vez montar no seu palco uma ópera escrita por um compositor afro-americano. Fire Shut Up in My Bones, de Terence Blanchard, tem estreia marcada para 27 de Setembro, se tudo correr bem.

Tudo tem sido um nightmare

“Manter a funcionar o São Carlos é a atitude mais difícil, mas corajosa e necessária”, afirma Elisabete Matos, directora artística do único teatro de ópera público português em que trabalha o maior corpo artístico na área das artes do espectáculo, mas que tem de recorrer frequentemente a solistas externos. “A problemática que vem com a pandemia coloca os nossos artistas numa situação precária muito difícil. O mais fácil seria dizer ‘vamos para casa’ e esperar que houvesse condições óptimas para funcionar. Os músicos, o público, todos nós necessitamos da música. Esta profissão, que às vezes não é encarada como um bem essencial, tem de sê-lo.”

No Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, os espectáculos de ópera ainda não têm data oficial de regresso ao palco. Isso talvez aconteça lá para Abril ou Maio. Foram adiadas três das óperas previstas e cancelada outra. “Toda a temporada de ópera foi eliminada por causa das normas da Direcção-Geral de Saúde que impossibilitam a orquestra de usar o fosso. Até indicação em contrário, a orquestra tem de estar em palco, o que inviabiliza a ópera encenada”, explica a directora artística, acrescentando que a Orquestra Sinfónica Portuguesa voltou aos concertos em Junho, um pouco antes do coro.

Não tem havido muito tempo para pensar para lá do curto prazo e foram residuais as tentativas de transmitir espectáculos ao vivo. “A necessidade inventiva tem servido para ultrapassar os problemas e programar aquilo que é possível. Estar com um metro no palco e perguntar à pessoa responsável pela covid se posso fazer esta obra, se posso ter esta orquestração. Tudo isto tem sido um nightmare.”

Mas com a noção de que mesmo assim têm sido “uns privilegiados”, Elisabete Matos preocupou-se em programar a próxima temporada do teatro, que terá sido apresentada por estes dias, com mais músicos portugueses. “Há essa sensibilidade de solidariedade, de estar mais perto daqueles que não têm. Na próxima temporada mais de metade das pessoas que chamamos é portuguesa. Há muita gente com talento, mas que não consegue pôr cá fora todo o seu potencial. A nossa missão tornou-se mais óbvia com a pandemia: alimentar a alma das pessoas que precisam de música para viver. Não são só os seus executantes, mas também os espectadores, porque nada vai substituir a importância da partilha da arte no momento em que duas ou várias pessoas se encontram.”

Com a abertura das bilheteiras para a nova temporada anunciada em Agosto, a Fundação Gulbenkian percebeu que se exacerbava uma tendência que já vinha de trás: os assinantes tinham esgotado quase todos os lugares disponíveis para ouvir a Orquestra Gulbenkian num auditório que vira a sua capacidade reduzida a metade.

“Isso deixa-me muito feliz, porque mostra que o público tem confiança em nós”, afirma Risto Nieminen, director do Serviço de Música da Gulbenkian. “Percebemos que a música e a arte são importantes para as pessoas. Trazem uma dimensão espiritual à pandemia.” Mas trouxe também um problema para resolver: como dar acesso à música a mais pessoas numa altura tão sensível? “A situação da pandemia levou-nos a aprender muita coisa e a ser mais activos no streaming. Já tínhamos o serviço de audiovisual, com equipamento fixo no Grande Auditório, mas passámos de três câmaras para 11 em 2020. A nossa equipa audiovisual aprendeu muito no processo, está mais imaginativa.”

A Fundação Gulbenkian acelerou o seu investimento no programa de live streamig, com quase metade dos concertos da temporada a serem transmitidos gratuitamente através do site da fundação nos últimos meses. Na última quinta-feira ligámo-nos para fazer a experiência e o gongo soou impreterivelmente às 20h no nosso computador, chamando a atenção para o início da récita de A História do Soldado, de Igor Stravinsky, com o charmoso maestro Lorenzo Viotti a dirigir as cerimónias.

Um futuro diferente, esse, parece mais difícil de vislumbrar para Risto Nieminen e o director espera voltar à normalidade na temporada de 2021-22. “O que posso dizer é que o público que está agora na sala parece mais concentrado. Não temos praticamente telefones durante os concertos, não há tosses e acho que isso vem dessa ideia muito forte de estarmos a partilhar a mesma coisa no mesmo lugar, dessa ideia de comunhão. Gosto do facto de podermos transmitir por meios digitais, mas isso só sublinhou o meu amor pelo espectáculo ao vivo, essa comunicação extraordinária que só a arte e os artistas podem trazer.” E se Peter Gelb foi um inovador com o streaming do Met em 2006, isso também se deve ao facto de alguns encenadores já criarem produções a pensar mais na câmara do que no público na sala.

Síndrome maníaca de consumo

Há alguns indícios de que podemos vir a sentir-nos espectadores diferentes com os nossos corpos pós-pandémicos. O tema aflorou num “bate-papo virtual”, a que o Ípsilon assistiu no final do mês passado, entre a crítica de cinema brasileira Patrícia Mourão e a curadora portuguesa Marta Mestre, no âmbito da exposição Farsa. Língua, fractura, ficção: Brasil-Portugal, patente no Sesc Pompeia, em São Paulo. Com curadoria da programadora do Centro Internacional das Artes José Guimarães, em Guimarães, a exposição, que investiga a língua e a linguagem através da obra de 50 artistas portugueses e brasileiros, revelou essa clivagem a Patrícia Mourão.

“Havia muitos trabalhos que privilegiavam a boca do corpo. Filmes com planos fechados de boca, também muito próprios de uma produção brasileira dos anos 70. Ficava muito óbvio o estranhamento entre aquela imagética e o tempo em que a gente estava”, explicou numa conversa telefónica. “A primeira leva de aberturas de exposições veio com Farsa. Então, depois de sete meses, reaprendendo a estar na rua, no espaço público, encontrar aquele tipo de imagens era quase didáctico sobre o corte que tinha acontecido — porque a exposição mostrava exactamente aquilo que a gente precisava esconder. Foi absolutamente perturbador, como se tivessem dois tempos que não pudessem conviver mais.”

Com a quarentena, a curadora de cinema desenvolveu também uma espécie de fobia em relação às imagens em movimento. “Durante um tempo longo, cinco a seis meses, não consegui ver nada no computador em movimento. Só conseguia ler. Acho que isso teve que ver com um excesso de consumo de imagem em movimento, porque a gente viveu uma espécie de síndrome maníaca de consumo de imagens, de produção de imagens. Foi uma forma de lidar com todas as angústias de Março, Abril e Maio, porque houve um corte brutal no fluxo do tempo. Talvez ali estivéssemos só numa espécie de vómito não processado.”

“Durante um tempo longo só conseguia ler. Isso teve que ver com um excesso de consumo de imagem, porque a gente viveu uma síndrome maníaca de consumo de imagens, de produção de imagens. Talvez estivéssemos só numa espécie de vómito não processado”Patrícia Mourão, crítica de cinema

Nas suas rotinas anteriores à pandemia, Patrícia Mourão já passava muito tempo a ver imagens, mas o que era uma pesquisa individual tornou-se um excesso de programação que invadiu o computador pessoal. “Vinha da Whitechapel, de Serralves, do MoMA, e eu, que não estava mais restrita aos meus percursos físicos em São Paulo, de repente tinha uma live, um curador, um artista, para ver todos os dias. A minha programação cultural, ou o meu consumo cultural, se expandiu muito. Isso foi absolutamente aterrorizante. Estafante. Aí bloqueei.”

Nesse boom produtivo a que se assistiu, encontrou um esbatimento da diferença. “A sensação que tenho é que o que vi em 2020, de um artista londrino, brasileiro, nova-iorquino ou português, parece que se aproximou muito mais. Houve uma adaptação às plataformas muito pouco questionada. Todo o mundo se adaptou muito rapidamente à linguagem do Instagram, à linguagem das stories, num esforço de comunicar muito rápido.”

Remediação digital

Há uma semana, no lançamento do seu último livro, o jovem filósofo João Pedro Cachopo explicou ao público da livraria Snob, em Lisboa, como a pandemia provocou uma alteração da percepção do próximo e do distante. A Torção dos Sentidos, Pandemia e Remediação Digital, pequeno livro editado pela Documenta, começa por fazer um mapeamento das posições filosóficas sobre a pandemia e está escrito de forma simples com algum humor. Está lá o erro de Giorgio Agamben, que considerou a epidemia uma invenção, embora não tenha deixado de fazer perguntas importantes; a hipótese de Slavoj Žižek, que vê a pandemia como um potencial golpe fatal para o sistema capitalista; a suspeita de Byung-Chul Han, para quem a pandemia pode suscitar uma viragem autoritária do mundo ocidental por causa do aumento de medidas de vigilância. Entre optimistas e pessimistas, em que se inclui a hipótese de decrescimento de Bruno Latour, mas também nomes menos conhecidos como Emanuele Coccia, Peter Szendy, Catherine Malabou, João Pedro Cachopo procura trazer ângulos diferentes para a discussão.

O livro é provocador ao afirmar que a pandemia não é em si mesma o acontecimento desta crise. “A minha intuição é que o cerne do acontecimento não é simplesmente a pandemia enquanto fenómeno físico, médico, mas as consequências das medidas tomadas para conter a pandemia: o isolamento físico e o uso intensificado de tecnologias de remediação digital [representação de um media por outro media]”, diz ao Ípsilon. A seu ver, foram esses dois factores que contribuíram para a alteração da percepção do próximo e do distante. “O que, por sua vez, vai afectar uma série de aspectos da nossa vida, os tais sentidos da imaginação a que faço alusão logo no título: a viagem, o estudo, o amor, a comunidade e a arte. São apenas sentidos da nossa existência, que são inconcebíveis sem essas relações de proximidade e distância. O que é a viagem senão a aproximação do remoto? O que é o amor senão uma aproximação de uma alteridade? O que é a comunidade senão a criação de elos de proximidade?”

Mas na arte, sublinha o também musicólogo, o discurso ficou refém de uma espécie de prós e contras da remediação digital como o live streaming. “É muito importante abandonar os termos desse debate e perceber que a questão é mais complexa. A relação da arte com a tecnologia pode ter bastante a ganhar através dos novos media, mas esse ganho não tem que ver meramente com a transmissão.”

Para João Pedro Cachopo, sobretudo no caso das artes do espectáculo, importa compreender como a diferença entre o próximo e o distante não tem apenas que ver com o contraste entre o espectáculo ao vivo (com os intérpretes próximos do público) e o espectáculo remediado (com os intérpretes distantes do público). “O recurso a tecnologias de remediação no contexto de espectáculos ao vivo já convoca o distante. E esse distante pode assumir diversas formas — o ‘afastado’, o ‘remoto’, o ‘fictício’, o ‘inquietante’, o ‘primordial’ —, algumas delas metafóricas. Nada disto é inteiramente novo: as tecnologias cuja exploração a pandemia tornou necessária já existiam e as soluções em que são utilizadas estão mais esbatidas do que nós equacionamos. Mas os debates a que essa exploração sistemática dá lugar são potencialmente novos e acredito que possa haver uma abertura no que diz respeito à percepção do que significa assistir a um espectáculo.”

O filósofo e musicólogo dá o exemplo da ópera Twilight: Gods, a adaptação de O Crepúsculo dos Deuses de Wagner que Yuval Sharon montou no parque de estacionamento da Michigan Opera Theater em Detroit. O crítico do New York Times, Joshua Barone, escreveu que teve de combater as lágrimas, depois de eclipse da ópera que durou vários meses, nesta espécie de mistura entre a ópera de câmara e a casa assombrada: “Alguma coisa vai emergir deste momento de crise na ópera. Espero que o que quer que seja se pareça com Twilight: Gods.”

O livro de João Pedro Cachopo propõe que estejamos o mais próximo do distante possível, como cidadãos ou como espectadores. “É um repto a que a imaginação não se deixe capturar pelos imaginários nacionais, que permaneça o mais próxima do distante que puder. É o horror dos nacionalismos, como refiro no final, e não uma distopia tecnológica, o que devemos temer, hoje, em primeiro lugar.”

Distopia e militância

O dramaturgo Tiago Rodrigues, director do Teatro Nacional D. Maria II, acabou de apresentar em Lisboa, no CCB, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, escrita e encenada já durante a pandemia, que aborda o perigo do fechamento no nacionalismo com o aparecimento dos discursos populistas em Portugal — “é uma viagem distópica do que poderá ser os próximos oito anos de vida política no país”.

Passada no território alentejano de Catarina Eufémia, numa Baleizão que avançou até 2028, conta a história de uma família que tem a tradição de matar fascistas, já lá vão mais de 70, até que é confrontada com a dúvida de um dos seus membros.

Tiago Rodrigues sente que dos oito actores da peça emana uma energia especial, porque têm sede de fazer teatro. Essa é a diferença mais visível passados dez meses sobre o início da pandemia: “Quando meses de contacto com o público se vão reduzir a duas noites, é completamente diferente. Foram pessoas que se isolaram durante semanas para garantir que estavam protegidas agora. Isto é uma energia que é palpável. Vivemos sucessivos cancelamentos desde Maio, quando a peça devia ter sido estreada. Conseguimos encontrar duas noites no CCB e apresentá-la ao público em Lisboa, antecipando a estreia no D. Maria em Abril.”

Se os actores estão ávidos de teatro — a peça devia estar numa digressão em França com a apresentação de 47 espectáculos —, Tiago Rodrigues encontra a mesma urgência no público. “Muitos artistas sentem que o público quer saciar-se de teatro, não só por causa deste ano péssimo que vivemos mas também porque está mais militante — ou seja, vai ao teatro como uma forma de apoio àquela parte da sua vida e às pessoas que a preenchem. No CCB foi nítido que o público queria absolutamente estar ali. Não é fácil neste momento sair de casa e tomar a decisão de ir para uma sala como o Grande Auditório, onde vão estar 600 pessoas, por muito que as regras de segurança sejam rigorosas. O que reparo em muitas salas onde tenho ido é que o público vem com essa energia. Vem de peito aberto para apoiar aquela parte da nossa sociedade e com uma grande abertura como espectador.”

Se há algo que vai acontecer às formas teatrais — “Não tenho dúvidas de que a pandemia vai transformar o modo como fazemos teatro, como vemos teatro, como artistas e público se relacionam” —, Tiago Rodrigues lembra que o teatro foi fortemente afectado pela ausência de público ou pelas limitações à sua presença e que ainda é difícil fazer profecias. Em relação a coisas mais práticas, pensa que a antecipação dos horários é algo que poderá estar para ficar e que vê como uma sequela positiva. “No futuro os horários serão mais cedo e isso aprendemo-lo agora com o recolher obrigatório, mas sobretudo por causa da felicidade do público. Já fazíamos alguns espectáculos às sete da tarde, mas percebemos agora que podemos antecipá-los a todos.”

Com Patrícia Mourão a sublinhar que se assistiu durante a pandemia a uma uniformização do discurso em volta de determinados temas, a curadora concorda com João Pedro Cachopo de que é preciso pensar a tecnologia como um aliado. “Subjectividade tecnológica não é necessariamente um desagenciamento, uma perda de poder crítico. Acho que uma subjectividade ecológica, ou uma apropriação e manipulação de uma subjectividade tecnológica, pode vir junto com uma preocupação ecológica.” Nestes universos, surgem seres híbridos, ciborgues, uma mistura entre humano, animal e tecnologia, de que os filmes do português Pedro Neves Marques são um exemplo.

Podemos imaginar o que vem aí depois da pandemia? — perguntamos a José Gil. “Sim, mas a curto prazo; ter uma ideia a médio e a longo prazo já não é possível. Quando me pergunta o que é que vai ficar do que a pandemia nos ensinou, fico com a impressão que nada é para ficar, porque os tempos que vêm serão de uma grande instabilidade. Uma das quase certezas que podemos ter é que a instabilidade vai tornar-se, paradoxalmente, cada vez mais regular. O que significa que não vamos ter, afinal, uma sociedade digital.” É o que o filósofo de O Tempo Indomado defende no ensaio que fecha o livro e a que chamou Catástrofe e Revolução. “A grande transformação em que a economia e a política ficassem dependentes dos dispositivos digitais não vai simplesmente acontecer pela simples razão de que a instabilidade vai acelerar por causa das alterações climáticas.”

A pandemia funcionou como o arauto da catástrofe que pode conduzir à revolução. “Inaugurou o tempo da instabilidade permanente, que se instalou para ficar. E isto é uma novidade absoluta”, escreve o autor. “Nós estamos sempre à espera — afirma ao Ípsilon — de voltar a uma sociedade estável, porque tudo o que vivemos até agora, em todas as sociedades humanas, se projectou sobre um fundo de estabilidade, de regularidade, mas as alterações climáticas vão criar um tipo de quotidianidade que vai subverter tudo. Vai haver imensas deslocações, perturbações, cada vez mais próximas umas das outras: um cataclismo nas Filipinas, uns meses depois mais incêndios na Califórnia ou uma nova seca extrema no Alentejo. Cada vez mais haverá uma globalização da catástrofe.”

Nada desta visão pode ser considerada pessimista? “Não, não, não sou pessimista. Chamava pessimista ao António Guterres? Era disto que falava [o secretário-geral das Nações Unidas] no último discurso e no penúltimo. Essa é a única condição para que possamos enfrentar lucidamente o que aí vem e que ameaça destruir-nos. Estou a dizer isto porque leio os cientistas. Há uma coisa de que as pessoas não se dão conta — porque para se poder viver é preciso não se darem conta —, mas o anúncio do fim do mundo foi feito pela primeira vez na história da humanidade por cientistas. Não foi por religiosos, fanáticos, milenaristas, profetas, é a ciência que diz: a extinção da espécie é uma possibilidade provável, se não fizermos nada. Se alguém dissesse em Setembro de 2019 que vinha aí uma pandemia extraordinária que iria paralisar a economia global, nós dizíamos-lhe imediatamente: ‘Mas tu és de um pessimismo extraordinário...’”

Por isso, cabe ao filósofo apelar à acção, como é proposto nas últimas páginas do ensaio, num texto em que não deixa de citar a filósofa Isabelle Stengers e o seu livro No Tempo das Catástrofes: “A palavra ‘revolução’ reapareceu no vocabulário ecológico e científico, mas hesita ainda em reocupar um lugar na terminologia política.”

Neste tempo do Antropoceno, surgem obras como o Concerto para Bioceno, também chamado Concerto para 2292 Plantas, produzido pelo Gran Teatre del Liceu, a ópera de Barcelona, uma intervenção do artista visual Eugenio Ampudia, que correu os jornais mundiais quando foi apresentada em Junho e está agora na capa do Ípsilon, mostrando como se expandem as questões do pós-humano, da multiespécie, do hibridismo. “Ficou muito mais comum um discurso em que se está ligando uma questão ecológica com uma questão tecnológica, com uma modalidade meio ciborgue, não essencialista. Seres entre o animal, o humano e a tecnologia. A própria ideia de ficção científica, uma abordagem do presente e do passado que não passa mais por uma recuperação histórica, mas por uma ficcionalização especulativa de futuros, em que tecnologia e animalidades estão mais implicados. São coisas superinteressantes e muito potentes”, comenta a curadora brasileira. “É possível que a gente saia dessa com um tipo de aguçamento para o espaço e para o nosso corpo no espaço que talvez tenha sido o grande sonho de boa parte da arte contemporânea na segunda metade do século XX.”