3.9.20

“Temos de passar a uma avaliação dos trabalhadores mais centrada nos resultados e não no número de horas”, diz Helena André

Isabel Patrício, in Ecoonline

Helena André diz que Portugal "sai-se muito bem na fotografia" com as políticas tomadas face à pandemia. Sobre o teletrabalho, a ex-ministra assume-me como defensora, mas reconhece que há perigos.

Os últimos meses ficaram marcadas pelo “maior experiência da história da humanidade” do teletrabalho, regime que Helena André defende, ainda que reconheça os perigos e tentações à espreita, defende.

Em entrevista ao ECO, a ex-ministra do Trabalho e atual diretora do Centro das Atividades para os Trabalhadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que o trabalho remoto não tem de ser sinónimo de perda de influência dos sindicatos nem de força das lideranças, sublinhando que pode ser vantajoso tanto para trabalhadores como para empregadores.

Sobre Portugal, Helena André diz que o Executivo de António Costa “sai-se muito bem na fotografia” com as respostas “rápidas” encontradas face à crise pandémica, mas avisa que vêm aí tempos “muito duros”, sendo essencial identificar os setores com potencial para a criação de emprego, mesmo em pleno de surto de Covid-19. 

A pandemia levou milhares de trabalhadores portugueses ao teletrabalho. Considera que o trabalho remoto veio para ficar?

Essa é uma pergunta à qual é muito difícil de responder, na fase da pandemia em que nos encontramos. Se olharmos um bocadinho para o que aconteceu no mês de março e em alguns meses subsequentes, em praticamente todo o mundo, o que vimos foi que, com o confinamento das pessoas em casa, houve um aumento massivo do número de pessoas em teletrabalho. Parece que, durante a pandemia e o confinamento, muitas empresas que já tinham praticado o teletrabalho como aquelas que nunca tinham recorrido a esta forma de prestação de trabalho passaram a fazê-lo. Estamos perante a maior experiência de teletrabalho do mundo e da história da humanidade. Isto terá consequências a longo prazo relativamente às quais ainda não temos muita informação.

Temos que pensar que, com a tecnologia certa, bons níveis de comunicação e alguma reorganização do trabalho, o potencial de tarefas que podem ser feitas à distância é muito mais elevado do que podia pensar antes. Mas acho que não é a mesma coisa falar do recurso ao teletrabalho antes da pandemia, durante a pandemia e aquela que poderá ser a sua utilização no pós-pandemia. Durante a pandemia, o recurso ao teletrabalho trouxe uma série de dificuldades para os pais que trabalham, para os cuidadores. A dificuldade do trabalho a partir de casa foi sempre em crescendo.

O teletrabalho pode colocar algumas questões relativamente à privacidade e à proteção de dados. Há sempre alguns empregadores que querem fiscalizar se os trabalhadores estão ou não a trabalhar.
Que problemas são levantados pelo teletrabalho? Pelo que me diz, compreendo que antecipa que os problemas de hoje não são os mesmos de ontem e não serão os mesmos do pós-pandemia…

Exato. As circunstâncias em que as pessoas passaram a ter de fazer o teletrabalho, com a família em casa, são completamente distintas do teletrabalho em circunstâncias normais. Por isso é que digo que temos de estudar as consequências daquilo que aconteceu neste período de confinamento. 

E que vantagens há no teletrabalho, na sua opinião?

Há vantagens e inconvenientes. Se olharmos para as vantagens, do ponto de vista do trabalhador, o teletrabalho permite uma maior autonomia e uma maior flexibilidade na organização dos tempos de vida, permite uma melhor conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar e permite uma maior qualidade de vida, já que o trabalhador poupa o tempo que gastaria nos trajetos entre casa e trabalho. Penso que esta última é uma vantagem não só do ponto de vista do trabalhador, mas também do ambiente.

O teletrabalho também pode resultar num menor número de despesas, por exemplo em termos de transportes para ir para o trabalho, em refeições que se tem de fazer fora de casa. Há uma série de vantagens do ponto de vista do trabalhador. Por exemplo, pode abrir novas oportunidades de emprego para as pessoas com dificuldades de mobilidade, porque dá uma maior liberdade na prestação do trabalho e uma maior possibilidade de procura de trabalho.

Para o empregador também há vantagens. O empregador tem uma redução dos custos da operação, tem uma capacidade de gerir melhor os seus espaços, tem eventualmente uma melhoria da produtividade do trabalhador, poderá ter uma redução do absentismo, poderá ter uma maior diversificação da mão-de-obra: Pode, por exemplo, contratar pessoas que se encontram noutros espaços geográficos.

Claro que não são só boas notícias. Há também uma série de inconvenientes. Do ponto de vista do trabalhador, temos um risco de isolamento social, temos um risco de deficiência na comunicação com os outros colegas de trabalho, temos um risco de mais horas de trabalho ou mais dificuldades no acesso à formação profissional, independentemente da lei que rege o teletrabalho preveja que nada disto aconteça.

Ao mesmo tempo, julgo que [o teletrabalho] pode colocar algumas questões relativamente à privacidade e à proteção de dados. Há sempre alguns empregadores que querem fiscalizar se os trabalhadores estão ou não a trabalhar.

O teletrabalho, da forma como está regulado, é voluntário, procura responder às necessidades dos trabalhadores e dos empregadores e aquilo que faz é modificar a forma como o trabalho é realizado e não a relação de emprego trabalhador e empregador. 

O teletrabalho como está hoje no Código do Trabalho precisa de ser ajustado à nova realidade? Em que sentido?

Quando eu trabalhava na Confederação Europeia dos Sindicatos e era uma das responsáveis desta organização, fui a negociadora do acordo quadro europeu sobre o teletrabalho. Isto foi em 2002. Aquilo que o Código do Trabalho fez em 2003 foi transpor praticamente todo o conteúdo do acordo europeu. Algumas coisas fez ainda melhor que o acordo europeu. O acordo europeu diz que o teletrabalho é voluntário. Muitas vezes não se tem esta noção porque nos tempos da pandemia deixou de ser voluntário, mas o teletrabalho, da forma como está regulado, é voluntário, procura responder às necessidades dos trabalhadores e dos empregadores e aquilo que faz é modificar a forma como o trabalho é realizado e não a relação de emprego, trabalhador e empregador.

Aquilo que define o teletrabalho é a forma como podemos organizar e executar o trabalho, usando as tecnologias da informação fora das instalações do empregador. Além de voluntário, o teletrabalho tem de ser compatível com a atividade desempenhada.

É importante não sobredimensionarmos as diferenças do teletrabalho relativamente a um trabalhador que está a trabalhar na empresa presencialmente e nas mesmas circunstâncias. O tratamento tem de ser igual. É importante que entendamos que o empregador tem de respeitar a legislação aplicável, os acordos coletivos, aplicar as regras da empresa e o trabalhador tem a responsabilidade de organizar o seu tempo de trabalho. Ou seja, as cargas de trabalho do trabalhador remoto são equivalentes às dos trabalhadores comparáveis nas instalações do empregador.

Em relação aos direitos coletivos, os trabalhadores remotos têm exatamente os mesmos. O nosso Código do Trabalho garante tudo isso. É tão protetor e tão justo como é o acordo europeu. Do meu ponto de vista, o Código do Trabalho estava adequado às circunstâncias. Agora tem de se aprofundar se existem áreas que precisam de ser olhadas, o que poderá ser feito através da negociação coletiva ou de alterações ao Código do Trabalho.

Eu sou defensora do teletrabalho. É uma forma de organização do trabalho importante. Se tivermos a capacidade de respeitar o que está na lei e nos acordos coletivos, poderá ser muito vantajoso para ambas as partes. 

Os trabalhadores em teletrabalho ficam mais desprotegidos? E isso torna o direito a desligar mais urgente?

Se há algo a olhar de uma forma muito séria é o direito a desligar e o direito à privacidade dos trabalhadores. O direito a desligar — já temos França e Itália com legislação nesse sentido — é fundamental em relação à questão do teletrabalho. A garantia da linha de fronteira entre a vida pessoal, privada e familiar tem de ser respeitada.

Portanto, depois de termos dito que as condições dos trabalhadores em teletrabalho são as mesmas que as condições dos trabalhadores que não estão nesse regime, implica que as horas normais de trabalho devem ser mantidas e que o volume de trabalho e a exigência em termos de desempenho não podem ser diferentes em relação a outros trabalhadores. Do meu ponto de vista, temos de passar a uma avaliação centrada nos resultados do que o trabalhador faz e não no número de horas trabalhadas.

Eu sou defensora do teletrabalho. É uma forma de organização do trabalho importante. Se tivermos a capacidade de respeitar o que está na lei e nos acordos coletivos, poderá ser muito vantajoso para ambas as partes. 

Como é que os responsáveis pela fiscalização das condições de trabalho, a ACT, por exemplo, se podem adaptar a essa modalidade?

Essa é uma das matérias que também terá de estar em cima da mesa. O Código do Trabalho prevê que possa haver uma fiscalização do empregador durante as horas de trabalho, mas penso que tudo isso tem de ser regulado à luz das experiências atuais. O problema dos abusos não está tanto do lado do trabalhador, mas do empregador e das formas sofisticadas de verificação se o trabalhador está em frente ao computador ou não.

Há outro aspeto importante que tem a ver com o facto de o teletrabalho poder ser, mas não ter de ser, a única forma de organização do trabalho. Temos em muitos países aquilo a que eu chamaria um regime misto. O trabalhador tem x dias por semana ou por mês em que está a trabalhar remotamente, mas depois tem também uma parte das horas de trabalho que é feita na empresa. Esta é provavelmente a forma mais sã de organizar o trabalho para não chegarmos ao isolamento social relativamente aos restantes colegas. Poderia ser uma forma mais correta de expandirmos o teletrabalho.

Acho que os sindicatos podem perder influência se não tiverem capacidade de diversificar a sua base de representatividade, se não procurarem organizar coletivamente trabalhadores que trabalham de outras formas que não apenas as tradicionais 

Com os trabalhadores a exercerem as suas funções remotamente, como ficam os sindicatos? Antecipa uma perda de influência?

Não acho que haja perda de influência. Acho que [os sindicatos] a podem perder se não tiverem capacidade de diversificar a sua base de representatividade, se não procurarem organizar coletivamente trabalhadores que trabalham de outras formas que não apenas as tradicionais. Portanto, a primeira coisa que os sindicatos têm que fazer é garantir que as pessoas que trabalham em teletrabalho fazem parte dos seus objetivos em termos de organização sindical.

Depois, se olharmos para aquilo que é o enquadramento legal sobre esta matéria, os trabalhadores têm os mesmos direitos, ou seja, não há qualquer impedimento para a comunicação com os representantes dos trabalhadores. Todos os instrumentos de implementação do teletrabalho reconhecem o facto de que os teletrabalhadores gozam dos mesmos direitos coletivos que os restantes trabalhadores e não pode ser colocado nenhum obstáculo à comunicação sindical. Não vejo que haja qualquer dificuldade. 

E como fica a liderança, nesta questão do teletrabalho? Os líderes saem enfraquecidos?

Não acho que o controlo à distância seja sinal de muito boa liderança. Aquilo que é muito importante é que o interlocutor seja muito claro naquilo que são as tarefas a realizar, tenha alguma disponibilidade e abertura para estar em contacto permanente com o trabalhador. Não acho que haja um enfraquecimento das chefias, acho que há uma nova forma de exercer a chefia que é vantajosa para ambas as partes. 

Portugal sofre de um problema de fraca produtividade. O teletrabalho poderia ser um trunfo na resolução desse problema?

O problema da produtividade é muito mais profundo do que a questão do teletrabalho. Penso que a produtividade pode aumentar para os trabalhadores em teletrabalho. Existe menos stress, maior autonomia, maior oportunidade de conciliação dos vários tempos da vida das pessoas. Nesse aspeto, pode levar a um aumento da produtividade, mas também pode diminuir.

Há trabalhadores que podem ter maior dificuldade no isolamento social e isso pode levar a um menor nível de produtividade. Se não houver uma clareza nas tarefas que o trabalhador tem de executar, também pode levar a uma redução da produtividade, pode implicar que ele tenha de usar muitas mais horas numa coisa que poderia fazer em muito menos tempo. Não acho que haja um preto e um branco.

Em Portugal, o apetite pela negociação coletiva não passa muito para além daquilo que são as questões salariais e as matérias que têm a ver com o gozo das férias e os tempos de trabalho, mas seria muito importante que a negociação coletiva olhasse também para o teletrabalho. 

As empresas portuguesas estão prontas para, por exemplo, adotaram regimes mistos de teletrabalho e trabalho presencial, com maior flexibilidade entre si?

Teoricamente, si. Sempre fui e continuo a ser defensora de que a via legal pode ser complementada pela via contratual, ou seja, parece-me que nesta matéria a negociação coletiva tem um papel muito importante a desempenhar.

Em Portugal, o apetite pela negociação coletiva não passa muito para além daquilo que são as questões salariais e as matérias que têm a ver com o gozo das férias e os tempos de trabalho, mas seria muito importante que a negociação coletiva olhasse também para esta questão do teletrabalho e como é que se pode organizar melhor do ponto de vista de responder àquilo que são as ansiedades dos trabalhadores em conciliarem os seus tempos e ao mesmo tempo aquilo que são as necessidades das empresas. 

Entende que a “poupança” que as empresas conseguem com os trabalhadores em teletrabalho se deverá traduzir em aumentos salariais?

Remeto-a mais uma vez para a negociação coletiva. Estas são matérias que têm de fazer parte da negociação coletiva.

Não acho que tenhamos de ter um regime de exceção, em termos de avaliação, relativamente aos trabalhadores em teletrabalho, até porque dizemos que têm as mesmas obrigações e direitos dos restantes trabalhadores da empresa. 

Como é que deve ser repensada a avaliação dos trabalhadores, agora que o teletrabalho se tornou uma realidade menos distante?

Volto a insistir no aspeto de que a avaliação do trabalhador deve centrar-se muito mais nos resultados e não no número de horas trabalhadas. O empregador pode ter a tentação de saber se o trabalhador está sempre ao computador durante o horário de trabalho, [mas isso] não é a forma correta de avaliar a prestação do trabalhador, porque se ele tiver feito tudo aquilo que foi pedido, no contexto das suas responsabilidades, ele não tem de estar sentado ao computador. Temos de passar a uma avaliação mais centrada nos resultados e não no número de horas trabalhadas, como se poderá ter a tendência para fazer.

Mais uma vez, acho que a negociação coletiva tem de ter uma palavra a dizer sobre essa matéria. Não acho que tenhamos de ter um regime de exceção relativamente aos trabalhadores em teletrabalho, até porque dizemos que têm as mesmas obrigações e direitos dos restantes trabalhadores da empresa. Agora, se houver um grande recurso ao teletrabalho, tem de haver conversas sobre essa matéria.




Voltar a uma “melhor normalidade” implica que tenhamos a capacidade de analisar quais são os setores potenciais de criação de emprego. Poderá ser uma oportunidade para a economia verde, para uma economia mais amiga do ambiente.
Por fim, quanto ao desemprego, antecipa um aumento em flecha? Os inativos vão continuar a camuflar essa subida?

Acho que isto vai ser tão duro que nem sequer gostaria de conversar sobre matérias de camuflagem. Ainda não vimos nada sobre quais são as consequências económicas e sociais desta pandemia. Estamos a começar a ver. E também não vimos nada, porque não sabemos como é que a pandemia vai comportar-se, ou seja, sabemos que o vírus continua entre nós, que provavelmente teremos de tomar outra vez medidas mais restritivas sobre a liberdade de movimento das pessoas conforme o vírus se comporte, começamos a ver os impactos catastróficos em vários setores de atividade. Por isso, acho que a tendência será que o desemprego aumente e não me parece que haja alguma hipótese de camuflar a relação entre o desemprego e a inatividade.

É difícil de prever qual vai ser o verdadeiro impacto na economia. Corremos o risco de ter alguns setores de atividade a demorar muitos anos até conseguir retomar algum nível de atividade. Ou se calhar temos outros que nem sequer vão retomar os mesmos níveis. E, por isso, voltar a uma “melhor normalidade” implica que tenhamos a capacidade de analisar quais são os setores potenciais de criação de emprego. Poderá ser uma oportunidade para a economia verde, para uma economia mais amiga do ambiente e terá de ser um período no qual as políticas públicas e as políticas de apoio social têm de estar muito presentes no terreno, porque os impactos nas pessoas vão ser assustadores. E quando há impactos nas pessoas assustadores, o impacto na economia faz-se sentir muito depressa também. Se as pessoas não têm capacidade de ter o seu salário, também não têm capacidade de consumir e as economias funcionam à base do consumo. Vai ser muito complicado.
Em relação às políticas públicas e sociais, que avaliação é que faz das medidas que têm sido lançadas nesse sentido em Portugal, nos últimos meses?

Não posso e não devo falar sobre questões concretas em relação Portugal. Se colocar [no contexto internacional] aquela que tem sido a ação do Governo português, e devo dizer também dos parceiros sociais, em procurar formas de mitigar ao máximo as consequências da crise nas pessoas, Portugal sai-se muito bem na fotografia.

Há de facto uma análise muito positiva em relação à forma como o Governo português, com os parceiros sociais, tem tido a capacidade de encontrar uma série de respostas rápidas, da forma que tem ajudado a não exacerbar demasiado os impactos negativos e imediatos.

Obviamente que os impactos a médio/longo prazo são um desafio para que as políticas públicas, em coordenação com os parceiros sociais, possam encontrar as melhores soluções para não termos o enfraquecimento daquilo que é a capacidade das empresas de gerarem e manterem emprego e daquilo que é a capacidade das pessoas de terem acesso ao mercado de trabalho.

Governo reforça programas de apoio à contratação, com o objetivo de assegurar a manutenção do emprego e a retoma da atividade económica.

in ACEGIS

O Governo publicou em Diário da República o reforço de duas medidas ativas de emprego para garantir que, na atual conjuntura de pandemia, os apoios chegam a mais pessoas e promovem a criação de mais postos de trabalho. As medidas Estágios ATIVAR.PT e o Incentivo ATIVAR.PT traduzem um aumento do apoio financeiro quer para os destinatários, quer para as entidades promotoras.

Estas medidas integram o ATIVAR.PT – Programa Reforçado de Apoios ao Emprego e à Formação Profissional, inscrito pelo Governo no Programa de Estabilização Económica e Social, com o objetivo de assegurar a manutenção do emprego e a retoma progressiva da atividade económica.

Para a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, «o reforço destas medidas vai permitir fortalecer o apoio à contratação de trabalhadores e aumentar os valores das bolsas para jovens qualificados procurando responder à situação atual. Traduz as prioridades que assumimos de direcionar apoios para emprego estável, com contratos sem termo, e valorizar os jovens».

2.9.20

Os “parasitas” que nos alimentam

Daniel Oliveira, in Expresso

“O distanciamento social é um privilégio”, disse o sindicalista e migrante Aboubakar Soumahoro às duas documentaristas que o usaram para registar as condições dos 200 mil imigrantes indocumentados em Itália que, durante a pandemia, mantiveram a agricultura em funcionamento. Quando vejo um líder de extrema-direita chamar “parasitas” aos que fazem o trabalho que mais ninguém quer sinto nojo. É bom ter o privilégio de não ver a desgraça dos que nos alimentam. Nem temos de lhes agradecer

Enquanto Itália se encerrava em casa, alguém garantia que a comida chegava aos pratos. Com o sector agrícola a ganhar uma total centralidade, descobriu quem quis descobrir que havia uns trabalhadores indispensáveis: os 200 mil migrantes indocumentados, a que o mundo “civilizado” chama “ilegais”, como se houvesse humanos que o fossem. Sem que outros imigrantes pudessem entrar e com os italianos pouco dispostos a aceitar tal trabalho, foram eles que trataram de dar de comer ao país.

Num acesso de “generosidade”, foi-lhes dada autorização de trabalho temporário, por seis meses. Matteo Salvini gravou um vídeo em que avisava os italianos que estavam em casa com medo de perder o emprego que o governo se prepara para a malfeitoria de legalizar aqueles que há tanto trabalham para eles. Mas estes imigrantes têm agora uma voz, uma liderança: o migrante, sindicalista e desde este ano dirigente da Lega dei Braccianti (jornaleiros), Aboubakar Soumahoro. Nasceu na Costa do Marfim, chegou a Itália em 1999, trabalhou nos campos, formou-se em sociologia e hoje dá voz a estes homens e mulheres: “legalizar todos os seres humanos, não porque seja conveniente, mas porque é responsabilidade do Estado”.

“O distanciamento social é um privilégio”, disse Soumahoro às duas documentaristas italianas a viver nos EUA, Carola Mamberto e Diana Ferrero, que o usaram como seu braço para registar o que ele tão bem conhece: as condições miseráveis dos migrantes em Itália. 14 ou 15 horas de trabalho por dia por apenas três ou quatro euros à hora, sem contratos, sem acesso a cuidados de saúde ou direitos de residência. Graças a isso, preços baixos nos supermercados.

Se querem saber porque é que na Suécia ou em Portugal os imigrantes foram dos mais afetados pelo coronavírus; porque é que os subúrbios de Lisboa foram o problema quando chegou o desconfinamento, atentem nestas palavras: “o distanciamento social é um privilégio”. E por ser um privilégio, as maiores vítimas da pandemia na população ativa foram os que estiveram na linha da frente e a quem ninguém bateu palmas. Essenciais para a economia.

Quando vejo um político de extrema-direita a chamar parasitas aos que fazem o trabalho que mais ninguém quer, aos que enchem s comboios às cinco da manhã com um tom de pele que eles teimam em colar ao crime, que limpam as casas, limpam as empresas, erguem os prédios e fazem as estradas, estão nas estufas no Alentejo ou nos campos agrícolas da Apúlia, sinto nojo. Chamam parasita a quem nos dá de comer. Os que, quando tantos puderam ficar em casa, mantiveram a casa das máquinas a funcionar.

É bom ter o privilégio de não ver a desgraça dos que nos alimentam. Nem temos de lhes agradecer. Não existem. Só na CMTV, quando se fala de crime. Só na boca de verdadeiros parasitas, que vivem da desgraça e da ignorância alheia, como o boçal Salvini, o inútil herdeiro Trump, o oportunista Ventura. No curto documentário, menos de dez minutos, Soumahoro dá-nos um resumo da tragédia destes migrantes. A que alimenta a superioridade civilizacional europeia que lhes esfregamos na cara com desprezo. Bom ter a barriga cheia para escarnecer de quem a enche.

Fórum para a Competitividade contra subida do salário mínimo. “Pode trazer desemprego e falências”

Tiago Varzim, in EcoOnline

O Fórum para a Competitividade é contra o aumento do salário mínimo em 2021, um cenário admitido pelo Governo. Teme que traga mais desemprego e falências em Portugal.

O primeiro-ministro admitiu que o salário mínimo pode subir em 2021, ainda que menos do que o previsto anteriormente. Os sindicatos querem mais enquanto os patrões nem querem ouvir falar no aumento. O Fórum para a Competitividade juntou-se ao coro de vozes que está contra esta subida no início do próximo ano, alertando que poderá trazer mais desemprego e falências.


“A subida da taxa de desemprego, a inflação nula e o facto de o turismo ser dos setores com maior prevalência de salário mínimo recomendam que não haja qualquer subida do salário mínimo em 2021“, escreve o Fórum para a Competitividade na nota de conjuntura de agosto divulgada esta terça-feira, prevendo que, no atual contexto, esta subida “pode trazer mais desemprego e falências”.

O objetivo do atual Executivo é acabar a legislatura, em 2023, com um salário mínimo de 750 euros, sendo que atualmente está nos 635 euros.

O Fórum considera que, como a generalidade das previsões aponta para uma taxa de desemprego superior a 7% — “ou seja, acima do limite superior da chamada taxa natural de desemprego” –, o Governo deveria desencadear “uma interrupção automática da subida extraordinária do salário mínimo”.

“Mas há argumentos adicionais que a recomendam”, adianta, referindo a taxa de inflação que “está praticamente a zero” e ainda a forma como a crise pandémica afeta particularmente o turismo. Este é o setor com uma maior percentagem de trabalhadores a receber o salário mínimo pelo que o Fórum conclui que um aumento poderá “trazer mais desemprego e falências”.

Apesar de discordar do aumento do salário mínimo, o Fórum abre a porta a uma ajuda direta do Estado a estes trabalhadores. “Uma alternativa mais prudente seria o Estado dar apoio direto a estes trabalhadores, mas, havendo recursos para tal, seria prioritário garantir que todos os novos desempregados estão a receber subsídio, o que não parece ser ainda o caso”, recomenda.

A discussão sobre o aumento do salário mínimo deverá acontecer no final deste ano em concertação social, entre o Governo, os patrões e os sindicatos. Para já, ainda só se conhece o exemplo da Alemanha onde o Governo, com base numa decisão de peritos, decidiu aumentar o salário mínimo em 2021 (e nos anos seguintes) de forma faseada. Contudo, o peso do salário mínimo no mercado de trabalho é significativamente mais baixo do que em Portugal.
Fórum ataca aposta no hidrogénio verde

Na nota de conjuntura de agosto, o Fórum para a Competitividade aproveita também para atacar a aposta que o Governo quer fazer no hidrogénio verde, garantindo que “há claras alternativas” em Portugal que são “menos arriscadas”.

“A ideia de investir maciçamente no hidrogénio verde baseia-se em vários equívocos”, considera, temendo que “quando um governo atribui um subsídio à produção a uma tecnologia imatura, rapidamente ultrapassada, incapaz, para todo o sempre, de ser competitiva, isso é um buraco sem fundo, em que todos os anos se perdem fundos“.

Quais são essas alternativas ao hidrogénio verde? “Por um lado, a promoção de sumidouros de carbono, pela redução estrutural do incêndios florestais e pela fixação de biomassa no solo. Por outro, pelo fomento da conservação de energia, nos edifícios, transportes e outras utilizações”, explica.

Além disso, Fórum defende que a maior aposta deveria estar na conservação da energia em Portugal na qual apresenta “indicadores embaraçosamente baixos, sendo demasiado frequentes as queixas de as casas portuguesas serem muito frias”. “Os subsídios atribuídos ao hidrogénio não beneficiam o quotidiano de ninguém, mas a melhoria das condições térmicas de escolas, centros de saúde, lares, repartições públicas, etc., têm impacto facilmente percetível pelas populações beneficiadas“, argumenta.

Para já, este deveria ser o foco do país, remetendo para mais tarde a utilização de outras tecnologias quando estas forem mais competitivas, diz o Fórum, “Depois de lidar com os sumidouros de carbono e com a conservação de energia, aí sim é que faz sentido a produção de energia renovável, mas, de preferência, com tecnologias já maduras e competitivas, que dispensem qualquer tipo de subsídio público”, conclui a análise à aposta do hidrogénio verde em Portugal.

Ensino presencial ou à distância? Crianças e jovens institucionalizados à espera de DGS

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Provedoria de Justiça está a ouvir as partes, incluindo quem se queixou de orientação para isolar crianças e jovens retiradas às famílias e integradas em instituições, ainda que com teste negativo, não só no momento da admissão, mas sempre que precisam de se ausentar.

A duas semanas do início do ano escolar, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) ainda não esclareceu se permitirá o regresso à escola de crianças e jovens em acolhimento residencial ou se lhes imporá o ensino à distância. Encarando como urgente a queixa contra o isolamento de crianças institucionalizadas com teste negativo de covid-19, a Provedoria de Justiça está a ouvir as partes.

O PÚBLICO perguntou à provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, o que pensa das orientações da DGS, se as considera compatíveis com a lei de protecção de crianças e jovens e como se conciliam com o regresso à escola. “Estamos a trabalhar sobre a queixa”, respondeu, por escrito, o gabinete de comunicação. “Nesta fase instrutória estamos a ouvir todas as entidades pertinentes, onde se incluem os próprios queixosos.”
Os queixosos são os membros da comissão instaladora da associação AjudAjudar, formada por profissionais de várias área dos direitos da criança – Sónia Rodrigues, Tito de Morais, João Pedro Gaspar, Tânia Mealha, Márcia Lemos, Eduarda Castro, Luís Fernandes, Vânia S. Pinto, Sofia Neves, Joana Antão, Francisca Pimentel, Pedro Teixeira, Catarina Ribeiro e Alfredo Sá Cunha. Consideram uma violação da Constituição a orientação para isolar 14 dias, mesmo com teste negativo de covid-19, crianças e jovens retiradas à família e entregues a instituições, não só no momento da admissão, mas sempre que precisam de se ausentar, ainda que por um período inferior a 24 horas. Vigora um “confinamento total”. Fica inviabilizado o convívio com familiares no exterior, como acordado com as comissões de protecção de crianças e jovens e os tribunais de família, e o regresso ao ensino presencial, em igualdade com os outros estudantes.

"Foram pedidos esclarecimentos por email”, confirma Sónia Rodrigues, por telefone​. “Querem exemplos de casas que estão a cumprir e de casas que não estão a cumprir a orientação da DGS e informações sobre as consequências. Sabemos que há miúdos que choram, que não aguentam o confinamento, que fogem.” O panorama é diverso. “Há casas de onde não saem para nada.” E casas de onde saem para actividades com supervisão.

O PÚBLICO perguntou ao Ministério da Saúde e à DGS se estas normas vão continuar em vigor no início das aulas. “A DGS está atenta às preocupações que lhe têm sido transmitidas”, lê-se na resposta conjunta, enviada por email. “Mantendo o habitual princípio de actualização contínua das normas e orientações, esta orientação está a ser revista”.

Na conferência de imprensa da passada quarta-feira, a directora-geral de saúde, Graça Freitas, só admitiu mudar as “condições de conforto” em que o isolamento de crianças e jovens se faz. O PÚBLICO quis perceber o significado desta expressão. E uma vez mais a resposta foi vaga: “Referia-se à garantia de aspectos como o conforto físico e acompanhamento regular dos utentes por profissionais.”

Para já, a DGS continua a equiparar crianças e jovens em acolhimento residencial a idosos em lares, toxicodependentes em comunidades terapêuticas ou reclusos em prisões. “Toda a literatura científica indica que os mecanismos de transmissão de SARS-CoV-2 são idênticos em qualquer idade, sendo que o principal meio de transmissão é através de gotículas contendo vírus, motivo pelo qual o distanciamento físico e a utilização de um método barreira, como uma máscara, são recomendados para casos positivos, seus contactos, mas também pessoas vindas do exterior para instalações fechadas, como as prisões, os Estruturas Residenciais para Idosos ou comunidades terapêuticas. Recomenda-se ainda o isolamento para protecção do grupo que está institucionalizado.”




Queixas por discriminação racial mais do que duplicam

Sofia Correia Baptista, in Público on-line

A nova lei de prevenção, proibição e combate à discriminação entrou em vigor a 1 de Setembro de 2017, ano em que se registaram 179 queixas, denúncias ou participações. Esse número subiu para 436 em 2019.

O número de participações, queixas e denúncias por discriminação racial mais do que duplicou desde a entrada em vigor, a 1 de Setembro de 2017, da nova lei de prevenção, proibição e combate à discriminação, informou esta terça-feira o Governo em comunicado.

Em 2017 registaram-se 179 queixas, denúncias ou participações. Em 2018 esse valor subiu para 346, continuando a aumentar em 2019, ano em que se contabilizaram 436.

A lei, que entrou em vigor há precisamente três anos, “simplificou os processos de contra-ordenação, concentrou a instrução de processos numa única entidade e acrescentou a ascendência e território de origem ao conjunto de factores protegidos”, indica o Governo.

A proibição da discriminação com base na origem racial e étnica, cor, nacionalidade, ascendência ou território de origem abrange “todas as pessoas singulares e colectivas, públicas e privadas” e aplica-se ao acesso e fornecimento de bens e serviços, protecção social, segurança social, saúde, benefícios sociais, educação e cultura, lê-se na nota.

O Governo “reitera que discriminação é crime” e destaca ainda que “qualquer pessoa que considere ter sido discriminada ou que tenha conhecimento de uma situação de discriminação” pode informar a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. Esta entidade remete as queixas para o Ministério Público ou para a Autoridade para as Condições do Trabalho, caso a situação seja na área do trabalho e emprego.


Governo prolonga regularização de imigrantes que esperam decisão final do SEF

Joana Gorjão Henriques, in Público on-line

SEF está a marcar agendamentos para Junho do próximo ano. Medida que abrangeu 130 mil imigrantes em despacho de Março pode prolongar-se por 2021. “Quando me disseram pensei que estavam a brincar”, diz Cátia, guineense. Imigrantes e associações estão preocupados com o que acontece a quem ficou de fora desta medida.

O Governo vai manter a regularização de todos os imigrantes que tinham processos pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) até 18 de Março, salvaguardando que continuam a ter acesso a direitos sociais, até que seja tomada uma decisão final sobre as suas autorizações de residência. Há várias pessoas com marcação para finais de Junho de 2021. Ou seja, esta medida poderá prolongar-se por 2021.

Em Maio, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, disse que tinham sido abrangidos por este despacho 130 mil imigrantes.

Segundo disse ao PÚBLICO o gabinete da ministra da Presidência, que tem a tutela das migrações, foi emitido um despacho (n.º 5793-A/2020) no qual se definiu que, até à decisão final sobre os pedidos pendentes no SEF até dia 18 de Março, “continua a considerar-se ser regular a permanência destes cidadãos em território nacional, beneficiando dos direitos ali referidos, por exemplo, para efeito de acesso a serviços públicos”. Também os vistos, documentos de autorização de residência ou licenças cuja data de validade tenha expirado quinze dias antes de 14 de Março continuam a ser aceites até 30 de Outubro de 2020 —, ou até depois se o titular tiver prova de que fez o agendamento da respectiva renovação.

O despacho permite que um imigrante que tivesse dado entrada com o processo até 18 de Março, dia da declaração do Estado de emergência, pudesse ter cartão de utente do Serviço Nacional de Saúde, acesso a abonos ou apoios aos trabalhadores independentes. O Governo ainda não respondeu, porém, à questão sobre o que irá acontecer a todos os que ficam de fora do despacho, ou seja, quem fez o seu pedido depois do despacho de Março.

A questão do que iria acontecer aos direitos dos imigrantes depois de 30 de Outubro, e quem não foi abrangido, preocupa imigrantes e associações que trabalham directamente na sua regularização. De acordo com o que experienciaram no quotidiano, há várias marcações para daqui a nove meses.

“É muito importante que se mantenham os direitos”, comenta Flora Silva, da associação Olho Vivo. “O prazo para legalização é muito prolongado, as pessoas ficam com vidas suspensas durante muito tempo. Mas o facto de serem salvaguardados os seus direitos é positivo porque são pessoas que fazem os seus descontos para a Segurança Social, apesar de não terem o título na mão”, acrescenta.

Já Timóteo Macedo, da Solidariedade Imigrante, e membro Conselho para as Migrações, considera que a medida “não traz ânimo às pessoas que estão de fora do despacho de Março e que ficaram para trás”. “Os processos são muito lentos a resolver e as pessoas ficam com a vida pendente. Não temos políticas de inclusão. O grande passo seria incluir neste usufruto de direitos aqueles que existem para além do 18 de Março.” 

Ainda esta terça-feira Cátia, guineense, 33 anos, que vive em Portugal há mais de um ano e está a trabalhar em limpezas, contou ao PÚBLICO que tinha iniciado o processo de regularização em Outubro de 2019, com a chamada manifestação de interesse junto do SEF, dirigido a quem está a trabalhar em Portugal. Passaram-se os meses e ela não teve resposta; meteu-se a pandemia e os serviços pararam. Quando finalmente conseguiu ter agendamento percebeu que irá estar, no total, um ano e meio à espera de um documento: só a 29 de Junho de 2021 é que irá ter a marcação. “Quando me disseram, pensei que estavam a brincar: tenho de esperar até Junho de 2021?!”, conta ao PÚBLICO no intervalo do trabalho. O filho, com um ano e nove meses, está numa ama particular a quem Cátia paga 150 euros mensais.

Cátia, nome fictício porque tem medo que isto prejudique ainda mais o seu processo, paga Segurança Social desde que trabalha — o mês passado foram mais de 100 euros. “Estou muito indignada por ficar tanto tempo à espera”, refere. “Este problema não é só meu, somos muitos nesta situação”, sublinha.

Serviço entupido

Segundo o SEF, a 10 de Agosto foram abertas cerca de 215 mil vagas para todos os assuntos, incluindo autorização de residência para trabalhadores ou reagrupamento familiar. O SEF diz que, dessas, 75 mil já têm agendamento e garantiu também que todos os cerca de 50 mil processos que ficaram suspensos por causa do encerramento do atendimento já começaram a ser reagendados, logo a partir do dia 1 Julho, por ordem cronológica.

Sublinhou ainda que simplificou os procedimentos, nomeadamente com um mecanismo que permite a renovação de autorizações de residência de forma automática para quem é trabalhador, algo que funciona desde 21 de Julho e por meio da qual já foram renovadas 47 mil autorizações. Desde a semana passada que esta funcionalidade pode ser feita também por cidadãos da União Europeia e seus familiares e o objectivo é alargá-la a outras categorias de estrangeiros residentes em Portugal, refere.

Apesar de considerar positiva a funcionalidade de renovação automática, Flora Silva refere que deveria ser alargada a outras autorizações. Queixa-se do serviço telefónico do SEF: a associação chegou a fazer mais de mil tentativas seguidas de contacto telefónico. A Olho Vivo conseguiu fazer poucas centenas de marcações online. Do mesmo se queixa a Solidariedade Imigrante: no dia em que abriram as marcações, o sistema esteve todo em baixo. “Na terça-feira conseguiu-se fazer alguns agendamentos. A Solim fez uns 50 mas temos centenas mais”, queixa-se Timóteo Macedo. Ainda receberam algumas marcações para este ano, mas tem para Abril, Maio e Junho de 2021. Critica: “Os portais servem para quem domina a língua portuguesa e tem conhecimento de informática. É preciso haver sistemas adaptados para não haver quem fique para trás.”
Efeito pandemia em serviços: imigração desce 16%

Entretanto, ao que tudo indica as quebras no serviço reflectiram-se nos números de regularizações. Desde Janeiro, e até 28 de Agosto, que o SEF regularizou menos 14.265 imigrantes do que no período homólogo do ano passado, ou seja, uma descida de 16%. A descida de 87.238 para 72.973 novas autorizações de residência concedidas não significa um abrandamento no crescimento da comunidade estrangeira em Portugal, já que, segundo o serviço, reflecte antes os efeitos do facto de os serviços oficiais terem estado encerrados durante a pandemia.

As grandes diferenças entre este ano e 2019 é que Angola, com 3.357 autorizações, passou para 3º lugar entre as nacionalidades mais representadas, e Itália saiu do 3º lugar para ficar em sétimo lugar, com 2.935 autorizações. O Brasil continua a liderar a lista com 29.289 títulos (foram 32.544 em período homólogo de 2019), seguido do Reino Unido (efeito Brexit, com 3.555, menos do que os 5.680 do ano passado).

Índia mantém-se em quarto lugar com 3.294 e Cabo Verde (3.122) ultrapassa o Nepal ficando no quinto lugar (Nepal passa a sexto, com 2.970); já a Guiné-Bissau, com 2.541, passa do nono para o oitavo lugar e Espanha mantém o décimo lugar com 1.734, França está agora em nono lugar, com 2.319 títulos, quando no ano passado estava em sexto lugar.

O que são afinal os temas da disciplina Educação para a Cidadania?

Catarina Pires, in DN

Cerca de cem personalidades, entre as quais Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, subscreveram um abaixo-assinado pelo direito dos pais à objeção de consciência em relação à disciplina de Educação para a Cidadania e nós fomos ver o que se aprende lá.

Direitos humanos, que incluem prevenção e combate ao discurso de ódio, prevenção e combate ao tráfico de seres humanos e direitos da criança; Igualdade de Género; Interculturalidade; Desenvolvimento Sustentável; Educação Ambiental; Saúde, que aborda saúde mental, educação alimentar, comportamentos aditivos e dependências, prevenção da violência em meio escolar e atividade física. São estes os domínios do primeiro grupo de Educação para a Cidadania, obrigatório para todos os níveis e ciclos de escolaridade.

Do segundo grupo, obrigatório em pelos menos dois ciclos do ensino básico, fazem parte a Sexualidade, em que são tratadas questões como a identidade e género, o desenvolvimento da sexualidade, os direitos sexuais e reprodutivos - prevenção de relações abusivas e a maternidade e paternidade - parentalidade responsável; os Media; as Instituições e Participação Democrática; a Literacia Financeira e Educação para o Consumo; a Segurança Rodoviária e o Risco.

Já no terceiro grupo, com aplicação opcional em qualquer ano de escolaridade, constam o Empreendedorismo; o Mundo do Trabalho, a Segurança, Defesa e Paz; o Bem Estar Animal e o Voluntariado.

São estes os domínios da disciplina de Educação para a Cidadania (cujos conteúdos podem ser consultados aqui) que motivaram um abaixo-assinado a favor do respeito pela objeção de consciência dos pais que não queiram que os seus filhos a frequentem e que juntou cerca de 100 personalidades, entre as quais Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, D. Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa, e Sérgio Sousa Pinto.

De acordo com o Observador, o abaixo-assinado, lançado pelos professores da Universidade Católica Manuel Braga da Cruz e Mário Pinto, na sequência do caso de irmãos de Vila Nova de Famalicão, com 12 e 14 anos, que foram inicialmente impedidos de progredir para o 7.º e o 9.º ano, respetivamente, por não terem frequentado as aulas de ECD, do Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco, por decisão dos seus pais.

Para a fundamentação do mesmo é citada, além da Constituição da República Portuguesa, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nem de propósito matérias obrigatórias da disciplina de Educação para a Cidadania.

O novo normal — seis meses que mudaram o nosso mundo

Ana Sá Lopes, in Público on-line

O primeiro caso de covid-19 em Portugal foi há seis meses, o que parece uma eternidade, tais as mudanças radicais que ocorreram no nosso próprio mundo. 

“Quem éramos nós? Quem queríamos ser? Quais as esperanças que a vida roubou?” Isto é um verso de Sérgio Godinho que pode ser tremendamente actual só porque talvez já não nos lembremos disso – de quem éramos nós antes da covid-19 ter posto as nossas vidas de pernas para o ar.

O vírus chegou há seis meses em Portugal e aterrou-nos. De um instante para o outro, mudámos. Abandonámos as escolas antes de o Governo as fechar, fomos trabalhar para casa (os que podiam) antes do estado de emergência, deixámos de tocar as pessoas que amamos mas que não viviam connosco. Entrar no supermercado, nos idos de Março, parecia um risco equivalente a sair à rua em plena guerra civil. Depois, muitos de nós chegavam a casa e punham-se a desinfectar as compras. O álcool-gel esgotou e chegou a estar mais caro do que o vodka.

Foi no dia 2 de Março, faz esta quarta-feira seis meses, que os primeiros dois casos foram identificados no Porto. O Governo foi rápido a reagir — data desse dia o despacho que coloca os funcionários públicos em teletrabalho. A 4 de Março é lançada a primeira linha de crédito para apoio a empresas, no valor de 100 milhões de euros.

Os casos iam aumentando, espalhando o terror em muitos cidadãos, nomeadamente nos mais vulneráveis e seus familiares. A 5 de Março a TAP cancela mil voos. Portugal tinha 78 casos registados quando, a 12 de Março, António Costa anuncia o fecho das escolas, apesar de o Conselho Superior de Saúde Pública não considerar a medida necessária. Além do fecho dos estabelecimentos de ensino — naquele momento apenas decidido “até à Páscoa” — Costa também determinou nesse dia o fecho das discotecas, condicionamento das visitas a lares de idosos em todo o país e limitações ao número de pessoas em centros comerciais e restaurantes.

O governo foi rápido a reagir à crise de saúde pública e contou com um inédito apoio da oposição, nomeadamente do maior partido, o PSD de Rui Rio, e do Presidente da República. Uma coisa separava Marcelo e Costa: o Presidente defendia a célere declaração do Estado de emergência, Costa prefere aguardar para mais tarde. Mas o primeiro-ministro rende-se ao desejo do Presidente e a 19 de Março é decretado o estado de emergência. Fecha tudo, com a excepção de serviços essenciais: supermercados, mercearias, farmácias, restaurantes a vender comida para fora, talhos, padarias, lotas, toda a produção e distribuição agro-alimentar. Não faltou um pão aos portugueses apesar de, nos primeiros tempos, ter sido notada uma fúria de açambarcamento que deixou algumas prateleiras vazias, o que o levou o ministro da Economia a reunir com os agentes económicos do sector. Tabacarias e papelarias também ficaram abertas e no meio da grande incerteza pudemos jogar no Euromilhões – os jogos sociais também não fecharam. As pessoas fecharam-se em casa: podiam sair com diminutas excepções e a polícia manteve intensa actividade a identificar os faltosos. Nunca tínhamos visto isto: o Estado a controlar, pela primeira vez desde o 25 de Abril, os nossos movimentos.









1.9.20

Seguir Ex-inativos fazem taxa de desemprego subir em julho para os 8,1%

Beatriz Ferreira, in o Observador

Com o fim do confinamento, muitos cidadãos que eram considerados inativos passaram a estar disponível para o trabalho e procurar ativamente emprego, o que se refletiu no aumento da taxa de desemprego.

A taxa de desemprego subiu para os 8,1% em julho, um aumento de 1,6 pontos percentuais face ao mesmo mês de 2019, segundo os dados provisórios do Instituto Nacional de Estatística (INE). Em junho, tinha-se fixado nos 7,3%. Para este aumento contribuíram os ex-inativos.

Segundo o INE, registou-se em julho uma diminuição face a junho do número de inativos — a população que, estando desempregada, não procura ativamente emprego e/ou não está disponível para trabalhar. Face a junho, este universo diminuiu (há menos 41 mil inativos), “sendo a maioria desta redução (32,9 mil) explicada pelo decréscimo no número de inativos disponíveis, mas que não procuram emprego”.

É que, escreve o INE, com o confinamento e as restrições, muitas pessoas deixaram de procurar emprego ou não estiveram disponíveis para trabalhar, por exemplo, porque tiveram de tomar conta dos filhos ou porque não foi possível ir a entrevistas de emprego. Por isso, a população inativa subiu numa primeira fase. O fim progressivo das restrições possibilitou a reabertura de diversas atividades económica e o fim do confinamento. “Tal terá possibilitado o começo do cumprimento dos critérios de procura ativa de emprego e de disponibilidade para começar a trabalhar, essenciais para a inclusão dos não empregados na população ativa enquanto desempregados”, e não na população inativa.

Por outras palavras, os trabalhadores que antes eram considerados inativos, passaram a ser considerados desempregados porque procuram ativamente emprego e/ou estão disponíveis para trabalhar. Segundo o instituto, o aumento da taxa de desemprego é, assim, “reflexo” da passagem da população inativa para a desempregada.

A possibilidade de cumprimento de ambos os critérios é já visível nos resultados definitivos de junho e reforçada nos resultados provisórios de julho, onde se observa um forte aumento da população desempregada em relação aos três períodos de comparação (mês anterior, três meses antes e mês homólogo de 2019) e uma diminuição mensal da população inativa que apenas cumpre um dos critérios necessários à classificação de desemprego, com reflexo no aumento da taxa de desemprego para 8,1% em julho”, refere o INE.

Por outro lado, em julho de 2020, a estimativa provisória da população empregada — que correspondeu a 4.671,3 mil pessoas aponta para um aumento de 0,1%, (2,7 mil) em relação ao mês anterior, tendo diminuído 1,7% (80,2 mil) relativamente a três meses antes e 3,5% (171,7 mil) por comparação com um ano antes. Esta evolução revela um travão no ritmo de destruição de empregos.

Já a taxa de desemprego dos jovens foi estimada em 26,3%, a que corresponde uma diminuição de 1,1 p.p. relativamente à taxa de junho de 2020.

Sociedade Portuguesa de Pediatria aconselha aulas presenciais com tempo e espaço para brincar

Ana Maia, in Público on-line

Numa nota conjunta com a Sociedade de Infecciologia Pediátrica e o Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, dizem ser necessário acompanhar os novos desenvolvimentos, mas referem que os estudos indicam que os surtos escolares são raros.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), a Sociedade de Infecciologia Pediátrica da SPP e o Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos aconselham o regresso às aulas presenciais. Numa nota disponível no site da SPP, as três direcções dizem ser necessário acompanhar os novos desenvolvimentos da pandemia, mas referem que os estudos para já conhecidos indicam que os surtos escolares são raros.

Sem desvalorizar os dados relacionados com as crianças, as três sociedades representantes dos pediatras procuram deixar uma mensagem de tranquilidade aos pais relativamente ao início do próximo ano escolar, marcado para a segunda quinzena de Setembro. Lembram que a interrupção das aulas em Março teve “grande impacto na saúde das crianças, a nível da aprendizagem, da socialização e da saúde mental”.

Salientam a insatisfação sentida pelas crianças, sobretudo as do 1º ciclo, com o ensino por videoconferência, dificuldades de concentração e em realizar tarefas, saudades dos colegas e dificuldades no acesso a meios informáticos que acentuaram as diferenças dos mais desfavorecidos.

“O apoio a crianças com necessidades educativas especiais foi escasso. Crianças com doença crónica complexa ficaram privadas das diferentes terapias de que beneficiavam em ambiente escolar, o que contribuiu, em muitos casos, para a regressão da condição de base”, apontam. A que se junta o “enorme esforço” exigido às famílias.

“São todas fortes razões para que se retome o ensino presencial”, afirmam os especialistas, que referem que a “inquietação quanto ao ensino presencial deve-se, sobretudo, ao possível impacto da abertura das escolas na propagação da covid-19 na comunidade”. Quanto a esta questão, referem que a informação existente sugere que as crianças não sejam o grande veículo de transmissão da infecção.

Os estudos disponíveis — que são ainda poucos, lembram as sociedades científicas —, sobre a transmissão da infecção em ambiente escolar “indicam que os surtos escolares são raros e tendem a ocorrer sobretudo por transmissão entre os profissionais adultos, em zonas onde a transmissão na comunidade é elevada, não parecendo ser a transmissão criança a criança nem adulto a criança relevante na propagação de surtos”. “Embora seja fundamental manter vigilância, pois os dados podem vir a sofrer alterações com a reabertura total das escolas, até agora as crianças parecem ter menor probabilidade de contrair a infecção na escola do que na comunidade.”

“Assim, para que o ano escolar decorra sem necessidade de interrupções, deverão ser mantidas as medidas propostas que evitem o cruzamento desnecessário de grandes grupos de crianças mas, em cada grupo, dever-se-á assegurar normalidade nas relações entre crianças, não impondo medidas estritas que sejam impossíveis de cumprir, sobretudo pelas mais jovens. É essencial que se retomem as brincadeiras nos intervalos das aulas e que estes tenham uma duração adequada”, afirmam no comunicado.

O mais importante é o cumprimento das regras de higiene e distanciamento físico por parte dos adultos, quer na escola quer na comunidade, e o isolamento precoce de casos sintomáticos e o rastreio rápido dos contactos. Sobre o uso de máscaras por parte das crianças, não fazem referência a idades. Dizem que o seu uso “terá de ter em conta os novos dados que estão a surgir na literatura”.

Os pediatras terminam a nota dizendo que “deve existir flexibilidade no cumprimento das normas, em cada momento e tendo em conta os dados locais de transmissão na comunidade” e fazem uma recomendação direccionada para as crianças que vão pela primeira vez para a escola: que sejam criadas condições para que possam ser acompanhadas por um familiar.

E, de repente, o desemprego jovem escalou para os níveis de há três anos

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Em três meses, a taxa de desemprego dos jovens regressou ao patamar dos 25%. Com pouco investimento e baixas expectativas, a recuperação ainda é uma incógnita.

Bastaram três meses para a pandemia esbater a dinâmica do mercado de trabalho e colocar o desemprego dos jovens acima de 25%. O efeito disruptivo do confinamento fez escalar esta taxa para os níveis de há três anos. Uma subida que é como um recuo no tempo.

Um em cada quatro jovens da população activa dos 15 aos 24 está sem trabalho (25,6%). Em Junho, estimou o Instituto Nacional de Estatística (INE), havia 81,2 mil jovens fora do mercado de trabalho — sem trabalho, activamente à procura, disponíveis para trabalhar. A estes juntam-se outros enquadrados no subemprego.

Não é um regresso aos anos da troika, mas é um agravamento para níveis idênticos aos de alguns meses de 2009 e 2017, dois anos distintos na economia, mas parecidos num indicador: a taxa de desemprego dos jovens andava na ordem dos 23-24-25%.

No entanto, se em 2017 o crescimento da economia embalava a descida do desemprego, hoje, como em 2009, o momento é de retracção económica. Com as empresas em layoff, as horas trabalhadas em queda e o indicador de investimento empresarial em baixa, é difícil esperar uma melhoria do mercado de trabalho pelo menos até à Primavera do próximo ano, considera o economista Francisco Madelino, antigo presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Por um lado, não havendo investimento das empresas, há menos ofertas de trabalho; por outro, poderá haver menos jovens à procura activa de emprego nos próximos meses, “quer pela [falta de] expectativas, quer pela situação sanitária”, admite o economista, lembrando que o próprio INE tem chamado a atenção para o facto de o encerramento parcial ou total das empresas e a situação sanitária estarem a interromper os canais de informação normais das ofertas de trabalho.

O agravamento vê-se também no número dos que acorrem aos centros de emprego: em Julho havia 45 mil jovens até aos 24 anos inscritos no IEFP, um aumento de 58% face a Julho do ano passado (28,5 mil).

A faixa etária abaixo dos 25 anos é aquela que estatisticamente se usa a nível internacional para fazer o retrato do desemprego jovem (15-24 anos). Os dados mensais evidenciam uma subida significativa a partir de Abril: de 18,3% em Março, a taxa passou para 20,6% no mês seguinte, para 21,4% em Maio e para 25,6% em Junho (valor provisório ainda sujeito a revisão nos dados que o INE deverá divulgar nesta segunda-feira).

Ao mesmo tempo, a população empregada dessa faixa etária está a diminuir: de 295,1 mil jovens em Março para 271,6 mil em Abril, de 243,7 mil em Maio para 235,8 mil em Junho.

Um indicador importante neste momento é o da taxa de subutilização do trabalho, porque inclui não apenas a população desempregada, mas também o subemprego (trabalhadores involuntariamente a tempo parcial) e ainda os inactivos à procura de emprego mas não disponíveis para trabalhar, bem como os inactivos disponíveis para trabalhar mas que não procuraram emprego. Só que este indicador mensal não permite saber o número exacto da população jovem.

Ao mesmo tempo, para se perceber como é que o mercado laboral tem evoluído na pandemia entre a população da faixa etária imediatamente a seguir (dos 25 aos 34 anos) é possível olhar para dados do segundo trimestre (de Abril a Junho). Como as estatísticas trimestrais permitem ver mais patamares de idade, neste caso é possível verificar que a taxa de desemprego entre as pessoas dos 25 aos 34 anos era de 7,7% nesse trimestre (73,2 mil pessoas).

Já a taxa dos jovens (com idade entre os 15 e os 34 anos) que não estão nem empregados nem a estudar, os chamados “nem-nem”, está nos 12,8% (segundo trimestre), um valor superior àquele em que se encontrava há três anos (segundo trimestre de 2017) e semelhante à dimensão de há quatro anos (segundo trimestre de 2016). Essa taxa é um pouco mais alta quando se desdobra o indicador em dois e se concentra a atenção nos jovens dos 25 aos 34 anos. Aí, a taxa está nos 16,2%.

Francisco Madelino admite a possibilidade de surgirem ofertas de emprego ancoradas no teletrabalho e, com isso, haver jovens que possam trabalhar para empresas internacionais a partir de Portugal. Esse, diz, é um factor que pode ajudar, mas não compensar totalmente o aumento do desemprego, nem substituir outros empregos que exigem a presença no local de trabalho, mesmo que pontualmente.

O teletrabalho, avisa, cria “novas dimensões” a que é preciso estar atento, também pelo impacto nas relações de trabalho da população jovem e com vínculos precários. “O teletrabalho pode levar a uma desregulação da organização do tempo de trabalho” e, sublinha o professor do ISCTE-IUL​, implica uma maior complexidade quando estão em causa empresas que têm sede noutros países (seja no que toca ao cumprimento de horários e das horas de trabalho, seja se for preciso dirimir matérias laborais ou mesmo determinar as sedes judiciais para a resolução de litígios).




Taxa de desemprego de Junho revista em alta para 7,3%

Luís Villalobos, in Público on-line

Dados mensais do INE mostram subida da taxa de desemprego e também ligeiro aumento do emprego, com redução do cálculo dos inactivos.

O INE reviu em alta a taxa de desemprego para Junho em 0,3 pontos percentuais, passando de 7% para 7,3%. Este valor, de acordo com as estimativas mensais de emprego e desemprego divulgadas esta segunda-feira, representa mais 1,4 pontos percentuais (p.p.) do que em Maio, “mais 1,1 p.p que há três meses [Março, quando se declarou a pandemia] e mais 0,7 p.p. que há um ano”.

Os dados definitivos de Junho (os provisórios foram publicados há um mês), que estão ajustados de sazonalidade, dão assim conta de 370,3 mil pessoas desempregadas (mais 80,7 mil face a Maio). É preciso ter em conta que este foi não só um mês em que as empresas puderam contar ainda com o apoio do layoff simplificado (quem aderiu logo em Abril podia beneficiar até Julho), medida que tem evitado o aumento do desemprego, mas também que há questões metodológicas a envolver os cálculos do INE.

Mesmo com estes factores, é preciso recuar a Março de 2018 para encontrar uma taxa de desemprego superior ao valor oficial de 7,3% -- e, em termos homólogos, o recuo vai até Junho de 2017. Até agora, os mais afectados pelo desemprego têm sido os que tinha contratos a prazo e vínculos precários.

“A informação” recolhida, diz o Instituto Nacional de Estatística (INE), é influenciada “pela natural perturbação associada ao impacto da pandemia na obtenção de informação primária”, e “pelas alterações comportamentais decorrentes das medidas de salvaguarda da saúde pública adoptadas”, pelo que é preciso “especial cuidado a ter na análise das estimativas provisórias” apresentadas.

Neste caso, os resultados provisórios para Julho dão conta de uma subida do desemprego, com a taxa a chegar aos 8,1% (mais 1,6 p.p. face ao que se tinha registado em idêntico período do ano passado).
Por outro lado, os dados do INE mostram uma subida dos empregos em Junho, com mais 13,3 mil postos de trabalho face a Maio (0,3%), chegando a população empregada às 4668,6 mil pessoas. Já em termos homólogos verifica-se uma descida de -3,4% (equivalente a 163,6 mil empregos) e, olhando para Março deste ano, contabilizam-se menos 143,8 mil postos de trabalho desde o início do surto de covid-19.

Pelo meio, entre mais desempregados e empregados, há a taxa de inactividade, que desceu de 36,4% para 35,2% em Junho (cerca de 94 mil pessoas). Os dados sugerem que maior parte dos inactivos que deixaram de estar assim registados passou para a categoria de desempregados.

Durante a pandemia, diz o INE, “pessoas anteriormente classificadas como desempregadas e pessoas que efectivamente perderam o seu emprego podem ser classificadas como inactivas se não fizeram uma procura activa de emprego, devido às restrições à mobilidade, à redução ou mesmo interrupção dos canais normais de informação sobre ofertas de trabalho em consequência do encerramento parcial ou mesmo total de uma proporção muito significativa de empresas”.

Além disso, “pessoas anteriormente classificadas como empregadas podem agora não cumprir os critérios” necessários, como os que estiveram “ausentes do trabalho por uma duração prevista superior a três meses e que, simultaneamente, aufiram um salário inferior a 50% do habitual”. Essa realidade parece começar agora a mudar, com o aliviar das restrições e a reabertura da economia, esperando-se os dados definitivos de Julho para uma melhor percepção do quadro do emprego.

Há também a taxa de subutilização de trabalho, um conceito mais alargado de desemprego, que inclui o trabalho parcial indesejado e as pessoas desencorajadas a procurar emprego, e que subiu 0,9 p. p. face a Maio, para os 15,5% (mais 2,5 p.p. face a idêntico período de 2019).

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, afirmou hoje em Coimbra, na conferência de dirigentes nacionais e regionais do PS, que “os próximos tempos serão de ressaca” e que “muitas empresas não conseguirão sobreviver e muitos empregos se perderão”. O desemprego, disse, citado pela Lusa, “vai crescer, mas ficará abaixo da crise anterior”.

No boletim económico de Junho, o Banco de Portugal estimou que a taxa de desemprego chegue aos 10,1% este ano, contra os 6,5% do ano passado.

Gastos das famílias caem a pique, mas atingem recorde com a comida

Tiago Varzim, in Ecoonline

Num trimestre em que quase tudo na economia registou quedas históricas, o consumo de bens alimentares foi a única componente do consumo privado que aguentou. Nos setores, o resistente é a construção.

No início da pandemia, em março, foram várias as notícias de açambarcamento nos supermercados, apesar dos apelos das autoridades, com as lojas online também a esgotarem o stock de vários produtos. Os números divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam que este comportamento continuou em abril e revelam que o consumo de bens alimentares foi a única componente da procura interna a crescer no segundo trimestre, atingindo um máximo histórico.
Ao todo, a despesa em bens alimentares situou-se nos 6.255 milhões de euros entre abril e junho, quase mais 280 milhões de euros (+4,7%, a maior subida de sempre) do que no mesmo trimestre do ano passado. Este é o valor mais elevado desde, pelo menos, 1995, quando arranca a série do INE. Já no primeiro trimestre o consumo de bens alimentares tinha crescido de forma expressiva, então ao maior ritmo desde 1999.

O aumento desta componente permitiu amparar, ainda que muito parcialmente, a queda abrupta do consumo de outros bens, como os duradouros, e de serviços, que levou o consumo privado a contrair 15% no segundo trimestre. O consumo de bens duradouros contraiu 27,6%, “refletindo principalmente uma quebra abrupta das aquisições de veículos automóveis”, segundo o INE. Os números das vendas de automóveis em abril, maio e junho já deixavam antecipar este cenário.

Não existe uma desagregação maior dos dados para perceber onde é que os cidadãos deixaram de consumir, mas presume-se que os serviços com atendimento ao público, como os restaurantes, foram dos mais afetados, levando os consumidores a fazerem mais refeições em casa (e a comprar mais bens alimentares).
Apesar do consumo de bens alimentares ter resistido, isso não impediu uma quebra histórica da procura interna — que conjuga o consumo privado, o investimento e o consumo público –, levando esta componente a dar um contributo negativo de 11,9 pontos percentuais para o PIB, que caiu 16,3%.

Os restantes 4,4 pontos percentuais devem-se à procura externa líquida (exportações descontadas das importações), que caiu menos uma vez que esta crise afetou tanto as vendas como as compras ao exterior, ainda que de forma mais expressiva as exportações por causa da interrupção quase total do turismo.
Construção foi a única a aguentar. Investimento no setor em máximos de 2011

Além dos bens alimentares, houve algo mais que tenha sobrevivido à crise pandémica? Sim, a construção, pelo menos para já. Tanto o VAB (valor acrescentado bruto de um setor) como o investimento do setor da construção resistiram, continuando a expansão que se registava na economia portuguesa até ao primeiro trimestre de 2019, um percurso que foi interrompido de forma violenta pela Covid-19 nos restantes setores de atividade.

Enquanto o investimento total (privado e público) na economia portuguesa caiu 10,8% no segundo trimestre, o investimento na construção — que é a maior componente do investimento — cresceu 7,5%, em termos homólogos, permitindo amparar a quebra das restantes componente. O investimento em construção situou-se nos 4.744 milhões de euros, subindo mais de 300 milhões face ao segundo trimestre de 2019 e alcançando o valor mais elevado desde 2011.

Este desempenho é particularmente notável dado que contrasta “com o verificado em vários países da União Europeia, onde o setor da construção terá também sido muito afetado pelo impacto negativo da pandemia Covid-19″, nota o INE.

Ao contrário do que aconteceu na anterior crise em que a construção foi dizimada, este setor, que não parou por causa do vírus, foi ajudado nesta fase inicial da pandemia pelos concursos das obras públicas e pelas vendas de cimento. Isso também é visível no VAB da construção que aumentou 5,1% no segundo trimestre, dando um contributo positivo de 0,2 pontos percentuais para o VAB total. Todos os restantes setores, exceto o da agricultura (+1,7%) que é o que pesa menos, registaram fortes quedas, principalmente o comércio, alojamento e restauração e as outras atividades de serviços.

Orientações da DGS violam direitos fundamentais das crianças e jovens em acolhimento residencial

Manuel Carvalho (opinião), in Público on-line

Na prática, levada à letra a orientação, se uma criança tiver de se deslocar uma vez por mês ao hospital para fazer tratamentos (não sendo a doença relacionada com o vírus), terá de cumprir 42 dias de isolamento num período de três meses, mesmo em caso de inexistência de teste positivo.

A orietação n.º 009/2020 da DGS de 23 de Julho, relativa a procedimentos a cumprir pelas casas de acolhimento de crianças e jovens em perigo no sentido de conter a propagação do vírus SARS-Cov-2, constitui um dos maiores ataques aos direitos e ao bem-estar das crianças e jovens nas últimas décadas em Portugal e tem gerado uma justificada indignação da opinião pública nos últimos dias, desde que foi noticiada no PÚBLICO a queixa feita pela Comissão Instaladora da AjudAjudar à Provedoria de Justiça.

Na sequência desta orientação, as crianças e jovens em acolhimento residencial estão sujeitas às seguintes medidas:


1) Após a retirada à família para sua proteção ou no caso de transferência de outra instituição, as crianças e os jovens entram na casa de acolhimento sem a presença de um familiar ou do técnico que os acompanha, sendo obrigados a ficar isolados, sozinhos num quarto, por 14 dias, mesmo que o seu teste à covid-19 seja negativo e não apresentem qualquer sintoma da doença;

2) Sempre que se ausentem da casa de acolhimento para realizar tratamentos ou por precisarem de assistência médica terão de cumprir um período de isolamento de 14 dias, mesmo que a saída seja por um período inferior a 24 horas, sem que neste caso façam teste. No caso da saída da casa de acolhimento com tal finalidade ser por mais tempo, a criança ou jovem tem de fazer o teste da zaragatoa e ficar em isolamento por 14 dias, ainda que o resultado do teste seja negativo e não apresentem sintomas, atendendo a que lhes são aplicadas as mesmas medidas restritivas da liberdade de movimento impostas aos residentes em Lares de Idosos [1].

Sobre a primeira situação de isolamento já muito se falou nos últimos dias, mas a segunda passou praticamente despercebida na discussão pública, sendo igualmente gravíssima.

Na prática, levada à letra a orientação, se uma criança tiver de se deslocar uma vez por mês ao hospital para fazer tratamentos (não sendo a doença relacionada com o vírus), terá de cumprir 42 dias de isolamento num período de três meses, mesmo em caso de inexistência de teste positivo e de ausência de sintomas da doença covid-19. No aludido exemplo, a criança perderia seis semanas de aulas nesse período, ficando irremediavelmente prejudicada no seu percurso educativo relativamente às demais crianças que não se encontram em acolhimento residencial, já para não falar nos gravíssimos problemas de saúde mental que tal cenário implicaria.

E, neste ponto, pergunta-se: que sentido faz aplicar o isolamento às crianças recém-chegadas à casa de acolhimento ou ainda àquelas que, por razões de força maior, se tenham de deslocar ao hospital se as demais crianças da instituição continuam a sair da casa para ir à escola, conviver com familiares nos termos autorizados pela CPCJ ou pelo Tribunal ou para atividades de lazer, correndo riscos de infeção? Que sentido faz que o isolamento seja aplicado à criança que, quando na instituição, se tenha de deslocar ao hospital e não quando regresse de casa dos pais que foi visitar num fim-de-semana ou nas férias em que, por qualquer infortúnio, também tenha tido de ir ao serviço de urgências sem o conhecimento da casa de acolhimento? Nenhum sentido, obviamente.

Por isso, a orientação — a qual não prevê visitas a familiares ou outras figuras de referência no exterior da instituição, só as autorizando no interior da casa nos termos restritivos definidos na Orientação 011/2020 — tem sido interpretada (embora, felizmente, não aplicada pela maioria das casas de acolhimento) como proibindo quaisquer deslocações das crianças ao exterior da instituição, na medida em que tais deslocações implicariam, nesse entendimento, o isolamento da criança ou do jovem pelo período de 14 dias.

Eis por que razão a Orientação da DGS exige o isolamento de 14 dias, não apenas às crianças e jovens que dão entrada numa casa de acolhimento e àqueles que tenham de se deslocar ao hospital, mas também ameaça com o confinamento social no interior da instituição todas as crianças e jovens aí residentes, impedidas que ficariam, nesse entendimento, de ter aulas presenciais no início do ano letivo, de irem a casa nos termos autorizados pela CPCJ ou pelo tribunal, de brincarem no exterior da casa de acolhimento e de conviverem com os amigos [2].

Só nesse entendimento o objetivo desta Orientação da DGS — proteger os cuidadores e assegurar o regular funcionamento da Instituição (ponto 1) do diploma — seria alcançado e as diretrizes fariam sentido. Um sentido sinistro que impossibilitaria as crianças e jovens em acolhimento residencial de manter um estilo de vida comparável, na medida do possível, ao de outras crianças, impedindo-as de passear, brincar no exterior, ir à praia, praticar desporto, estar com amigos, visitar a família ou mesmo ir à escola.

Como a última versão da orientação da 009/2020 assume, as crianças e jovens não são população de risco, logo estas medidas extremas não se destinam a proteger os próprios, mas a minimizar, como, de resto, admitido pela DGS — em absoluta contradição com o artigo 3.º da Convenção sobre os Direitos das Crianças [3] — a possibilidade das crianças e jovens funcionarem como agentes transmissores do vírus. Sublinhe-se neste ponto que os cuidadores entram e saem diariamente da casa de acolhimento, sem necessidade de fazer teste à presença do vírus ou cumprir 14 dias de isolamento.

Estas medidas de isolamento aplicadas às crianças e jovens em acolhimento residencial, mostram-se absolutamente desproporcionadas, sendo manifestamente prejudiciais para as crianças e jovens em situação de particular vulnerabilidade.

Estas medidas de isolamento aplicadas às crianças e jovens em acolhimento residencial, mostram-se absolutamente desproporcionadas, sendo manifestamente prejudiciais para as crianças e jovens em situação de particular vulnerabilidade, aplicando-se, para mais, indiscriminadamente a bebés, crianças com défices desenvolvimentais, problemas de saúde mental, perturbações comportamentais... Por outro lado, ao poderem impossibilitar um contato presencial, normalizado e regular com as famílias, estas medidas comprometem seriamente a concretização do projeto de vida/projeto de promoção e proteção destas crianças e jovens, quando este pressupõe a reintegração familiar. Ao dificultarem a possibilidade de avaliar de forma eficaz a qualidade da relação da criança com a família de origem e as suas competências parentais, atrasam uma eventual constatação da necessidade de encaminhamento para adoção/apadrinhamento civil. Finalmente, ao impedirem na prática, as saídas da casa de acolhimento e uma vivência normalizada em comunidade, dificultam o processo de autonomização no sentido de uma melhor integração progressiva na vida adulta e na comunidade.

Respeitando os direitos fundamentais das crianças e jovens, outros países não estão a aplicar estas medidas de isolamento em caso de teste negativo à covid-19. Assinale-se, também, que o Tribunal Constitucional, já em diversas decisões, declarou a inconstitucionalidade das normas que impunham o isolamento em situação análoga a passageiros que aterrassem nos Açores, declarando, por exemplo, no acórdão 424/2020 de 31/7, que, nos casos de teste com resultado negativo, tal medida, “constituindo uma pena curta de prisão”, não era autorizada fora do contexto de estado de emergência e sem Lei de autorização da Assembleia da República.

Atendendo que as medidas definidas nesta orientação constituem uma violação flagrante e grosseira dos direitos à liberdade, ao convívio com a família, à educação, ao brincar e ao acesso à Justiça [4] das crianças e jovens em acolhimento residencial, discriminando-os negativamente relativamente aos restantes cidadãos, a comissão instaladora da futura associação AjudAjudar — Associação para a Promoção dos Direitos das Crianças e Jovens, continua empenhada em trazer a público as preocupações que nos levanta a Orientação da DGS 009/2020 de 23 de Julho, no que diz respeito à sua aplicação às casas de acolhimento e à salvaguarda dos direitos constitucionais destas crianças e jovens, tendo endereçado uma queixa à Provedora de Justiça da qual se aguardam as consequentes recomendações.

Pretendemos que tais orientações garantam o respeito absoluto pelos direitos das crianças em acolhimento residencial, o que implica envolver outras entidades e organizações, bem como especialistas na área do acolhimento residencial, no processo de elaboração das mesmas, como forma de acautelar a salvaguarda de tais direitos.

[1] A referida segunda situação de isolamento em caso de deslocação ao hospital encontra-se prevista no ponto 4) da orientação, sendo aplicável às casas de acolhimento de crianças e jovens em perigo por força do seu ponto 10), de acordo com o qual: “Em relação às instituições de crianças e jovens em risco, aplicam-se as recomendações desta orientação descritas para as instituições que recebem pessoas idosas.”

[2] Note-se que as casas de acolhimento em Portugal são em regime aberto, podendo as crianças e jovens em acolhimento residencial sair da instituição de acordo com as regras de funcionamento da mesma, bem como com as decisões da CPCJ e do tribunal (nomeadamente, quanto a convívios aos fins-de-semana e nas férias com os familiares ou outras figuras de referência).

[3] Segundo o qual, quaisquer decisões administrativas ou judiciais relativas a crianças terão de atender primacialmente ao seu superior interesse.

[4] A orientação não prevê qualquer comunicação obrigatória ao processo de promoção e proteção da colocação em isolamento das crianças e jovens em acolhimento residencial, o que impede as CPCJ ou o Ministério Púbico e o Juiz de sindicarem tal decisão, bem como de garantirem o direito de defesa de tais crianças e jovens perante tal medida restritiva da sua liberdade.

Pela Comissão instaladora da AjudAjudar: Sónia Rodrigues, Tito de Morais, João Pedro Gaspar, Tânia Mealha, Márcia Lemos, Eduarda Castro, Luís Pinho Fernandes, Vânia Pinto, Sofia Neves, Joana Antão, Francisca Pimentel, Pedro Teixeira, Catarina Ribeiro e Alfredo Sá Cunha​

Estamos no “começo de uma crise muito profunda”, diz Presidente da República

Filipa Almeida Mendes, in Público on-line

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que “estamos ainda na ponta do icebergue” e que a crise causada pela pandemia da covid-19 terá um impacto profundo “sobretudo nos menos jovens com dificuldade de reajustamento ao mercado de trabalho e nos mais jovens que vêem os seus projectos adiados”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu esta segunda-feira que “atravessamos o começo de uma crise muito profunda”. “Já várias vezes a qualifiquei como brutal. Estamos ainda na ponta do icebergue”, afirmou, em declarações aos jornalistas à margem de uma visita às veredas da serra de Monchique, no distrito de Faro.

Marcelo Rebelo de Sousa lembrou, porém, que têm sido implementadas medidas como o “lay-off simplificado, os complementos, o regime de sucessão do lay-off simplificado e outros apoios sociais que têm amortecido o aumento do desemprego”. “É um amortecimento de uma realidade social que corresponde à paragem brutal que houve na economia portuguesa, como nas economias europeias e muitas economias mundiais”, acrescentou.

A crise vai ter impacto profundo em muitas famílias, disse o Presidente da República, “sobretudo nos menos jovens com dificuldade de reajustamento ao mercado de trabalho e nos mais jovens que tinham projectos e que vêem adiados esses projectos e que, em muitos casos, porque tinham empregos precários são dos primeiros a serem dispensados”.


O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou esta segunda-feira que o Produto Interno Bruto de Portugal registou, entre Abril e Junho deste ano, uma diminuição em cadeia de 13,9% em termos reais face ao primeiro trimestre de 2020, e de 16,3% em termos homólogos, face aos mesmos três meses de 2019.

Face ao período homólogo, as exportações de bens e serviços recuaram 39,5%, mais do que a queda de 29,9% nas importações, “devido em grande medida à quase interrupção do turismo de não residentes”.

O INE explica que a “forte contracção da actividade económica reflectiu o impacto da pandemia covid-19 que se fez sentir de forma mais intensa nos primeiros dois meses do segundo trimestre”.

Marcelo Rebelo de Sousa termina esta segunda-feira uma visita de dois dias ao concelho de Monchique, onde tem contactado com a população nas zonas das Caldas de Monchique das veredas da serra. No final da visita, o Presidente da República desloca-se também para Faro, onde vai visitar o Museu Municipal e receber a Chave de Honra da cidade, antes de participar num jantar com os autarcas do Algarve, no âmbito dos contactos que tem mantido com os municípios da região para acompanhar a evolução da economia depois de levantadas as restrições impostas pela pandemia de covid-19.

Segurança Social e Saúde mandam médicos para os lares de idosos

Alexandra Campos, in Público on-line

Médicos do centro de saúde do Barreiro foram escalados para ir todos os dias ao lar da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Ana Mendes Godinho decidiu avançar com equipas de intervenção rápida geridas pela Cruz Vermelha

Na mesma semana em que a ministra da Saúde mandou médicos de família ir todos os dias prestar assistência aos idosos infectados com o novo coronavírus no lar da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, suspendendo consultas de vigilância se necessário, a ministra da Segurança Social anunciou a criação de 18 brigadas de emergência para apoiar lares das misericórdias, das instituições particulares de solidariedade social e até de privados afectados com surtos graves de covid-19 . Segundo o último balanço, há em todo o país surtos de covid-19 em 60 lares de idosos, onde estão infectados 523 residentes e 224 funcionários.​

As brigadas de intervenção rápida da Segurança Social vão ser compostas não só por médicos, mas também enfermeiros e auxiliares e serão geridas pela Cruz Vermelha, revelou Ana Mendes Godinho ao jornal Eco. Estas equipas vão ser destacadas consoante as necessidades pontuais das instituições que se encontrem “numa situação de fragilidade na resposta a surtos covid-19”, especificou. São 18 brigadas, uma por distrito, e o Instituto da Segurança Social vai assinar já na próxima semana um protocolo com a Cruz Vermelha, adiantou ao PÚBLICO o gabinete da ministra.

Estas equipas serão destacadas não só para lares com falta de recursos humanos “para a manutenção das actividades decorrente de baixas ou ausências por doença covid-19, quarentena e ou isolamento profiláctico”, mas também para instituições onde ocorram surtos de covid-19 que impliquem separar os utentes dos que não estão infectados. Os lares nessas condições devem remeter o pedido para os centros distritais, que avaliarão os requerimentos e definirão o número de profissionais necessários. Caberá, de seguida, à Cruz Vermelha constituir e accionar uma brigada em resposta.
Consultas de vigilância em risco

Noutra frente, mais discreta, a ministra da Saúde deu esta semana orientações para que médicos de família do agrupamento de centros de saúde do Barreiro fossem escalados para prestar apoio diário no lar São José, da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, onde um surto de covid-19 infectou mais de meia centena de pessoas e causou quatro mortes.

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, disse na segunda-feira que “médicos do centro de saúde” do Barreiro se teriam “recusado a dar apoio” à instituição, à saída de uma reunião com o bastonário da Ordem dos Médicos convocada na sequência da polémica gerada pela auditoria no lar de idosos de Reguengos de Monsaraz. Mas a Administração regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo desmentiu esta acusação, garantindo que os idosos foram acompanhados presencialmente por um médico e uma enfermeira do Agrupamento dos Centros de Saúde (ACES) Arco Ribeirinho “nos dias solicitados” pela provedora da instituição.

Desde quarta-feira, médicos de família de unidades de saúde familiar do Barreiro têm estado a ser escalados para prestar apoio clínico aos idosos infectados. As escalas foram marcadas até à próxima segunda-feira e os médicos, que vão da parte da tarde para o lar no seu horário normal, foram avisados de que, caso seja necessário e por falta de recursos, serão canceladas consultas de vigilância — que incluem atendimentos a grávidas, crianças, diabéticos ou hipertensos.

Foi a ministra da Saúde, que, na terça-feira – no mesmo dia em que, com o primeiro-ministro, se reuniu com o bastonário da Ordem dos Médicos –, pediu à responsável clínica pelo Agrupamento de Centros de Saúde que inclui o do Barreiro que esclarecesse se estava ser cumprido o seu despacho de Abril, lê-se num email a que o PÚBLICO acesso. Neste despacho, Marta Temido determinou que os médicos de família têm que acompanhar diariamente os residentes em lares de idosos infectados com covid-19 que não necessitam de internamento hospitalar. Os lares de idosos não são obrigados, por lei, a ter médicos, apenas têm que ter enfermeiros – um por cada 40 residentes e um por cada 20, no caso de estes serem dependentes. O PÚBLICO pediu esclarecimentos ao gabinete da ministra da Saúde que confirmou apenas que “tem mantido o acompanhamento do cumprimento” do despacho, “face a dificuldades pontuais suscitadas quanto à sua observância”.

Os dirigentes do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) e a Federação Nacional dos Médicos já contestaram este “desvio” dos médicos dos centros de saúde para os lares de idosos da Santa Casa da Misericórdia. O presidente da FNAM, Noel Carrilho, diz que uma unidade de saúde familiar foi mesmo obrigada a deixar de atender utentes durante a tarde porque os dois médicos disponíveis tiveram que ir para o lar de idosos do Barreiro. Lamentando que os clínicos do SNS estejam a ser “obrigados a substituir os médicos do lar que foram de férias”, o secretário-geral do SIM, Roque da Cunha, defende que o despacho da ministra não se sobrepõe juridicamente ao que está definido no acordo colectivo de trabalho. A Ordem dos Médicos também está a estudar esta questão. O conflito ainda está longe de acabar.


“Muitas crianças vão chegar à escola psicologicamente doentes”

Clara Viana, in Público on-line

Alerta é de psicóloga escolar que também chama a atenção para “malefícios” de medidas que estão a ser preparadas pelas escolas e sugere que o Ministério da Educação avance para uma revisão dos currículos.

Decidir com base em cada caso, só aplicar orientações como a da distância social que sejam adequadas à realidade de cada aluno, fazerem uso da sua autonomia para darem prioridade aos alunos que vão chegar mais frágeis ao próximo ano lectivo. Estas são algumas das prioridades apontadas pela psicóloga Vanessa Neves, que também adverte contra os perigos de se adoptarem medidas que já estão a ser anunciadas por algumas escolas, como os intervalos de cinco minutos. E aconselha as autoridades competentes a tomarem decisões que possam evitar este tipo de soluções como por exemplo, avançarem para uma revisão dos currículos.

Com 37 anos e 11 de profissão, sempre na área das necessidades educativas especiais, tem trabalhado com vários agrupamentos das áreas de Sintra, Loures e Odivelas. Muitos dos alunos que foi apoiando estão entre os que mais ficaram para trás nestes tempos de pandemia, seja devido a problemas cognitivos ou por falta de recursos económicos que os privaram do acesso às tecnologias. Estes alunos, e não só, vão chegar às aulas psicologicamente doentes e as escolas têm de intervir logo desde o início, alerta.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e não só, tem alertado que muitas crianças e jovens vão regressar às aulas, depois desta experiência de confinamento, em situações similares à do stress pós-traumático e que por isso é preciso que as escolas estejam muito atentas aos sintomas….
E intervir logo desde o início em vez de ficar à espera que aconteça. E isto não é estar a fazer futurologia, é basearmo-nos naquilo que a investigação nos tem mostrado, que esta situação terá consequências a médio e longo prazo para as crianças e jovens. Vai haver imensos comportamentos disruptivos seja por parte de crianças com alguma necessidade específica, como da parte de outras. Estaria por isso menos preocupada com a recuperação do currículo e mais com a estabilização do estado emocional dos alunos.

É certo que em primeiro lugar estancamos o sangue, tratamos da ferida, mas depois temos de perceber que marca deixou essa ferida. E é isso que a investigação já feita nos tem mostrado. Há pessoas que estão muito preocupadas, que consideram que as escolas não deveriam abrir. Mas eu diria que em termos da saúde psicológica, porque não existe só saúde física, é essencial que os alunos regressem à escola. Há mesmo uma necessidade extrema de que regressem.

Mas as escolas não podem ficar paradas à espera de que surjam mais orientações ou recomendações, têm de trabalhar com a massa de que dispõem neste momento para se prepararem para diferentes possibilidades e têm excelentes profissionais para o fazerem. O desafio será muito mais do que recuperar aprendizagens. Os alunos que aprendem de forma regular, que estão dentro da norma, não vão ter grandes dificuldades em fazê-lo e aprenderem as novas regras das escolas. Em relação aos outros é que vamos precisar de ter grande atenção. Há crianças que vão voltar à escola com a preocupação extrema de poderem ficar doentes fisicamente, mas desconfio que muitas delas vão chegar à escola psicologicamente doentes.

Normas como o distanciamento social ou o uso permanente de máscaras são adequadas para estas crianças?
Penso que estas normas, quando estão em causa crianças com mais dificuldades ou com patologias mais pesadas, têm mesmo de ser avaliadas escola a escola e caso a caso. Para mim, enquanto profissional, não fazem sentido. Temos de saber pesar, pôr nos pratos da balança, e medir o risco. Pode ser muito arriscado, mas também o é o malefício que traz a estas crianças a falta de um contacto mais próximo, de um toque.
Em relação a estes alunos vão acontecer coisas muito distintas. Vai ser preciso muito cuidado a analisar caso a caso. Terá de ser sempre um acompanhamento individual. Porque há alunos que vão-se ressentir imenso com este afastamento. Estamos a falar de crianças que estiveram seis meses afastadas do ambiente escolar. E seis meses é muito tempo em termos de desenvolvimento destes alunos.

É com estes alunos que temos efectivamente de nos preocupar. E não me refiro só aos que tenham algum problema cognitivo ou de desenvolvimento, mas também aos que não têm o mesmo acesso à Internet, ao computador, do que alunos de famílias mais estruturadas e com mais capacidades. Pela minha experiência e pelo que me foi relatado por colegas meus, sei que muitos alunos ficaram à parte porque não tinham esses meios e, portanto, ficaram mais para trás ainda. Neste regresso à escola o nosso mote tem de ser o de individualizar o trabalho, através da análise caso a caso, e não o de criar uma bolsa de estratégias universais.

E as escolas têm autonomia para seguir esse caminho?
Todas as orientações que têm saído, seja da Direcção-Geral da Saúde, seja do Ministério da Educação, mesmo o recente manual para recuperação das aprendizagens, são isso mesmo: orientações. Percebo que causem alguma ansiedade, ainda há muitos ‘se for possível’ mas considero que tem mesmo de ser assim: ‘se for possível’. E termos a consciência de que as escolas têm uma enorme autonomia para tomar decisões e fazer as suas próprias regras em função da realidade escolar que vivem, dos alunos que têm, do número de estudantes que têm e da cultura escolar que têm.

É importante que as escolas se rodeiem de profissionais de diferentes áreas para ir tomando decisões concertadas. Já existe uma grande articulação com os centros de saúde, com a saúde escolar, e é essencial que esta seja agora reforçada.

As escolas têm estado a apresentar medidas, como por exemplo a de os alunos terem apenas intervalos de cinco minutos ou só terem um intervalo ao longo do tempo lectivo, para evitar que se cruzem. É possível aguentar o trabalho escolar com intervalos de cinco minutos?
Não, de todo. Os níveis de concentração e de atenção vão baixar brutalmente. Mas é bom que se deixe claro que não há nenhuma orientação nesse sentido neste momento, e mesmo que houvesse seria apenas isso, uma orientação. Ou seja, a menos que esteja legislado que as escolas têm de ter intervalos de cinco minutos ou que as escolas têm de ter os alunos todos separados, não há necessidade de isso acontecer.

Percebo que há escolas que se vejam muito atrapalhadas com o número de alunos e que esta seja vista como uma solução. Mas eu não a recomendaria enquanto profissional porque acredito que os níveis de atenção e de concentração vão baixar bastante. E se nós não tivermos alunos predispostos a aprender, depois também não vamos ter o currículo atingido.

Há mais fazer na escola do que aprender. Existe por exemplo essa recomendação para os alunos se cruzarem o menos possível, só que é essencial para o seu desenvolvimento que eles se cruzem, façam amizades. Mais uma vez, é preciso ponderar.

E aulas com 100 minutos são uma solução? Depende das idades?
Sim, depende muito das idades. Mas em qualquer idade 100 minutos são muitos minutos para o tempo de concentração dos alunos a menos que nesse tempo o professor tenha capacidade para fazer pequenas pausas para poderem descansar a mente. Literalmente, descansar a mente. E não estou a ver que tal seja muito possível tendo em conta que os alunos não podem circular, nem sair da mesma sala ou até da mesma cadeira.

Não creio que as aulas com esta duração sejam benéficas para os alunos, como também não creio que o seja o aumento dos horários com uns alunos a iniciarem aulas às oito horas e outros a terminarem às sete da tarde. Os adolescentes deveriam começar um bocadinho mais tarde e não é porque gostem de fazer noitadas, é mesmo porque o cérebro deles necessita, é neurológico. No caso dos alunos mais novos não é tão preocupante iniciar ligeiramente mais cedo, mas será muito preocupante terminar mais tarde.

Não me parece uma solução válida porque os alunos não vão conseguir manter os níveis de concentração e de energia necessários. Por uma questão de cansaço. Porque mesmo que iniciem as aulas às 13h39 muitos deles já estão levantados desde as sete horas para ir para centros de estudo ou ATL uma vez que os pais continuam a ter os seus horários de trabalho. E por isso já estarão extremamente cansados ao final do dia. Mais uma vez precisamos de pôr em cima dos pratos da balança o que queremos priorizar e o que para nós, comunidade escolar, é importante.

Então o que será possível fazer?
Não sei se alguém conseguirá apresentar a fórmula perfeita. Cada escola tem de ter capacidade para parar e reflectir sobre a sua própria realidade. Deixaria uma recomendação que aliviaria o trabalho das escolas: rever os conteúdos curriculares, que são extensíssimos. Mas a revisão curricular é uma decisão para entidades superiores. Mas as aprendizagens que ganhámos no último período do ano lectivo passado ajudam a que esteja optimista quanto a este novo ano.

Tem filhos em idade escolar?
Sim, dois gémeos com sete anos. Iniciaram o 1.º ano no ano passado. Estão muito ansiosos, com muitas saudades e com muita vontade de aprender. Enquanto encarregada de educação não estou preocupada como regresso, acho que a escola vai dar uma boa reposta. Mas o meu conselho enquanto encarregada de educação para outros encarregados de educação é que vão às escolas e vejam como se estão a organizar e que não deixem de estar em cima do que for sendo feito.

Faltam duas semanas para o início das aulas, as escolas estão preparadas? É essa a imagem que tem?
Quero acreditar que sim. Conheço diferentes realidades: escolas que estão à espera de mais orientações, mas também escolas em que as coisas estão minimamente organizadas. O resto será um desafio. Já temos alguma noção de como as coisas foram correndo com o regresso do secundário, a abertura dos jardins de infância, dos ATL, embora todos com poucos alunos. E felizmente na maioria dos casos correram bem. Eu sou uma optimista em relação ao próximo ano lectivo. É um desafio, mas tirámos muitas aprendizagens deste último período do ano lectivo que passou. O professor não é substituível.