22.2.21

“Há famílias a passar já bastante mal em função da pandemia”. Os indicadores da pobreza vistos por Carlos Farinha Rodrigues

Raquel Albuquerque, in Expresso

O professor e especialista em pobreza e desigualdades esperava já ver efeitos da pandemia no indicador de privação material de 2020 que, segundo o Instituto Nacional de Estatística, desceu. Medidas como as moratórias estão a ajudar as famílias e a “empurrar” o impacto na pobreza mais para a frente no tempo, explica

Ainda sem dados oficiais sobre o efeito da pandemia na evolução da pobreza em Portugal, o inquérito sobre as condições de vida da população divulgado esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) revela que a percentagem de portugueses em privação material em 2020 diminuiu. Carlos Farinha Rodrigues, professor e especialista em pobreza e desigualdades, esperava já ver refletido neste indicador o impacto que a pandemia teve nos “milhares e milhares de famílias que viram os seus rendimentos diminuir”. Contudo, esses efeitos podem só estar a ser “empurrados para a frente no tempo”, em resultado, por exemplo, da suspensão do pagamento de prestações da casa e de créditos.

Há, porém, um sinal importante: o ligeiro aumento da percentagem de portugueses que não conseguem ter uma refeição com carne ou peixe (ou equivalente vegetariano) de dois em dois dias. Em 2020, são 2,5%, cerca de 260 mil, no ano anterior eram 2,3%. O especialista e professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) não tem dúvidas de que os dados da pobreza de 2020 vão “traduzir” as dificuldades sentidas por muitos portugueses que os indicadores indiretos, como os pedidos de ajuda alimentar, já apontam.

A partir dos dados revelados pelo INE já se percebe o efeito da pandemia na pobreza?
Percebe-se muito pouco ainda, porque grande parte do inquérito tem por base os rendimentos de 2019. É muito ingrato, porque é descrita uma situação globalmente positiva mas que já não corresponde à realidade atual. Os poucos indicadores que poderiam já dar alguma ideia do que se passou em 2020, como a privação material, praticamente não refletem a crise provocada pela pandemia. A sua leitura é muito condicionada por esta décalage da publicação dos dados.

Segundo os dados recolhidos entre abril e setembro, há menos portugueses em privação material em 2020. Era expectável?
Eu antecipava que alguns dos sintomas claros da crise já se refletissem neste indicador, mas isso não aconteceu. Os indicadores de privação mantêm a tendência decrescente, o que nos leva a pensar no que terá acontecido. Provavelmente, na altura da realização do inquérito, os efeitos da crise ainda não se faziam sentir de forma direta. Apesar de termos milhares e milhares de famílias que viram os seus rendimentos a diminuir devido à pandemia, às medidas tomadas para a suster e à inatividade, mais até do que ao desemprego, temos sectores da população que não sentiram esses efeitos de forma direta. Os funcionários públicos e os reformados, por exemplo, não tiveram alteração dos rendimentos e pensões.



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E a isso junta-se o efeito que as medidas como as moratórias estão ainda a ter como ajuda às famílias?
Sim. Tudo o que referi conjugado com o efeito das políticas tomadas para minorar os efeitos da pandemia fizeram com que estes indicadores ainda não refletissem a crise que está já claramente a afetar muita gente. O impacto no pagamento de rendas ou despesas, menos visível por causa das moratórias, deverá ser empurrado mais para a frente. Há, no entanto, um aspeto curioso que pode vir a ser mais relevante. Entre os nove indicadores de privação material [que inclui pagamento de despesas, aquecimento da casa, ter automóvel ou conseguir ter férias], o único que se agrava em 2020 é a capacidade de as pessoas terem uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias. E eventualmente este é o indicador onde a crise tem um efeito mais rápido. Mas será preciso ver.

O ligeiro agravamento desse indicador coincide com o aumento de pedidos de ajuda alimentar a que temos assistido. Acha que é um sinal da crise que está por trás?
Sinais temos vários, dados oficiais é que não. É possível antecipar, sem dúvida nenhuma, que no próximo ano esta tendência de redução da pobreza terá um ponto de recuo. Não digo uma inversão da tendência. Mas os dados hão de traduzir o que os indicadores indiretos já apontam: há famílias a passar bastante mal em função desta pandemia. Claramente o que vai acontecer dependerá de fatores rodeados de muita incerteza, como a duração da pandemia e saber quando começamos a recuperar. Depende também da capacidade que houver para implementar políticas que permitam uma recuperação económica inclusiva, ou seja, que tente ir buscar as pessoas que foram mais penalizadas pela crise. E aí é importante considerarmos o combate à pobreza e exclusão social como um desígnio social. O Governo estabeleceu a comissão que está a definir essa estratégia de combate. E considero que agora, mais do que nunca, ela é muito necessária.