12.3.13

Nunca se consumiu tão pouco em Portugal desde a adesão ao euro

Por Bruno Faria Lopes, in iOnline

INE confirma 2012 negro para economia. Investimento bate mínimo de 1995, tal como o emprego


Foi o trimestre pós-anúncio da medida da Taxa Social Única, pós-anúncio do “enorme aumento de impostos”, pós-apresentação de mais um “Orçamento do Estado mais duro de sempre” e pós-impacto da recessão europeia - e acabou por ser um dos piores trimestres de sempre para a economia portuguesa, confirmou ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE). A economia contraiu 3,8% nos últimos três meses do ano passado, levando Portugal a uma contracção anual de 3,2%, a mais grave do pós-revolução, em 1975.

O colapso do mercado interno continua a ser o rombo por onde se vão esvaindo postos de trabalho e euros de produto interno bruto (PIB), um rombo menos compensado no final do ano pela dinâmica externa.

“Os números de hoje confirmam que no quarto trimestre de 2012 as exportações não tiveram o mesmo comportamento de trimestres anteriores, pelo que a evolução PIB foi muito influenciada pelos esperados recuos no consumo privado, gastos públicos e investimento”, explica o economista Filipe Garcia, da consultora financeira IMF, no Porto. “Este comportamento menos positivo das exportações estará relacionado com o mau desempenho da economia espanhola e com a greve dos portos, mas deve ser lido num contexto global de abrandamento económico”, junta.

No motor com maior peso na economia, o consumo privado, continua o recuo recorde nos gastos das famílias. No último trimestre de 2012 as despesas de consumo dos portugueses registaram o nível mais baixo desde o terceiro trimestre de 2001, meses antes da entrada em vigor do euro. Ao todo, em 2012 os portugueses gastaram praticamente o mesmo que em 2002, o ano em que estrearam os euros, num recuo de uma década no nível de consumo.

A travagem foi feita em 2012 de forma brutal nos bens duradouros (-23%), muito forte nos serviços (-4,9%) e moderada nos bens alimentares (-0,4%). O recuo a toda a linha é herói e vilão nos dois ajustamentos de Portugal: deu um contributo fulcral para a redução do défice externo (as importações caíram 6% em 2012, a par de uma subida de 3% das exportações), mas na frente orçamental afundou as previsões de receita fiscal do governo (um desvio superior a dois mil milhões de euros).

No outro motor da economia, o investimento, a contracção é também recorde, com 2012 a verificar o nível anual mais baixo investido desde o início da compilação da série, em 1995. No último trimestre do ano passado há sinais de que o colapso do investimento em rubricas relevantes - como maquinaria, por exemplo - abrandou de forma significativa, o que abre algumas perspectivas para uma recuperação ténue a prazo.

Na frente externa o final do ano trouxe o impacto da recessão na zona euro, que absorve mais de dois terços das exportações portuguesas - e moderou muito o contributo da procura externa para o PIB.

A principal consequência de mais um ano de recuo - desde 2009 a economia contraiu mais de 6% - é a destruição de emprego. Foram destruídos 92 mil postos de trabalho entre o terceiro e o quarto trimestre do ano passado e cerca de 203 mil quando se compara com os últimos três meses de 2011. No final do ano passado havia cerca de 4,56 milhões de pessoas empregadas, o valor mais baixo desde o último trimestre de 1995, revela a série compilada pelo INE - a diferença, contudo, é que em 1995 a população activa registava menos 700 mil pessoas.