19.12.22

O tempo relativamente barato flui para o conforto daqueles cujo tempo é relativamente caro.

Miguel Esteves Cardoso, opinião, in Público

Não é preciso ser marxista para pensar que os ricos compram o tempo dos pobres. Ou será?

Acabo de ser ajudado por alguém que me atendeu na Índia. Era inteligente, rápido, competente, bem-educado. Até fez uma boa piada sobre a selecção portuguesa, pedindo-nos que perdêssemos de vez em quando, para não desmoralizar tanto os países grandes, como o dele.

O tempo pode ser comprado de maneiras muito diferentes, mas a essência da transacção é sempre a mesma: os mais ricos compram o tempo dos mais pobres.

A pressa compra o vagar a quem tem muito tempo porque tem pouco dinheiro

Digo “mais ricos” para realçar a relatividade, porque pode-se ser bastante pobre e encontrar facilmente quem seja mais pobre ainda.

Basta comprar uma T-shirt barata.

Dá mais jeito comprar o tempo — o trabalho — no estrangeiro. Não é só por ser mais barato. É porque o tempo — a mão-de-obra — parece muito mais bem pago num país muito mais pobre.

Os trabalhadores estão mais satisfeitos e, caso não estejam, é mais difícil protestar. A distância protege o comprador do tempo deles, não só em termos físicos como em termos legais e culturais: a realidade sindical e política é outra, muito mais favorável ao contratante.

É este o significado do imperialismo na idade da Internet: podem estar perto, estando longe.

Podem servir em países ricos a receber ordenados de países pobres. Em caso de revolta, não há minas que possam ocupar ou encomendas que possam interromper. Os capatazes locais sabem dar conta do recado — e é mais fácil substituir os trabalhadores que dão problemas.

Outro nome para este imperialismo seria colonialismo por interposto país.

O império já não é territorial — até porque os territórios e as populações causam os problemas que se sabem — mas é fácil de detectar pelo sentido das comunicações. A potência colonial é aquela para onde os serviços se dirigem.

O tempo relativamente barato flui para o conforto daqueles cujo tempo é relativamente caro.

A pressa compra o vagar a quem tem muito tempo porque tem pouco dinheiro.