Samuel Silva, in Público on-line
Resultados são mais positivos no 2.º e 3.º ciclos. Programa lançado pela Fundação Gulbenkian envolveu 1300 estudantes. Intenção é mantê-lo em funcionamento e alargá-lo a 50 mil nos próximos cinco anos.
Os alunos que trabalharam, durante o 2.º e 3.º períodos do último ano lectivo com os mentores de um programa lançado pela Fundação Calouste Gulbenkian melhoraram significativamente os seus resultados. O impacto deste acompanhamento das crianças por jovens com formação superior, mas que não são professores, foi sobretudo sentido no 2.º e 3.º ciclo, permitindo a cerca de um terço dos estudantes transformar as negativas com que tinham terminado o 1.º ciclo em notas positivas no final do ano.
De acordo com o relatório final do projecto GAP, os impactos mais significativos do trabalho dos alunos com os seus mentores foram conseguidos a Inglês. Nesta disciplina, 38,5% dos estudantes que tinham tido negativa no 1.º período (nota inferior a 2), concluíram o ano com nota positiva.
A progressão dos alunos envolvidos no programa da Fundação Gulbenkian foi também evidente às outras duas disciplinas que integram o projecto, Português (33,4% das negativas passaram a positivas) e Matemática (redução de 30% nas notas inferiores a 2).
A avaliação feita por um grupo de especialistas que inclui investigadores da Universidade do Minho e da Universidade do Porto, que acompanhou a implementação do programa, permitiu também avaliar a “progressão do desempenho médio” dos beneficiários do GAP – uma avaliação quantitativa das notas das várias disciplinas. Esse resultado foi depois comparado com o que foi conseguido pelos restantes alunos do mesmo agrupamento escolar.
A Português, os resultados dos estudantes que passaram pelo programa de mentoria melhoraram 45%, bem acima (19%) dos restantes colegas. As diferenças são menos expressivas nas restantes disciplinas, mas sempre favoráveis a quem esteve envolvido no programa: um ponto percentual na Matemática, onde o desempenho médio dos alunos aumentou 37% do 1.º para o 3.º período; e dois pontos percentuais a Inglês, onde os resultados evoluíram positivamente em 42%.
O impacto positivo do projecto surpreendeu até quem o coordena. “Não estávamos à espera de resultados tão bons”, confessa Pedro Cunha, director do programa Gulbenkian Conhecimento. Desde logo porque as experiências anteriores – tanto a nível nacional como internacional – em que o GAP bebeu influências, “não tinham conseguido diferenças tão grandes” nos resultados dos alunos num período tão curto, explica o mesmo responsável. Mas também porque o programa foi atingido pela pandemia logo na sua fase de lançamento.
O GAP iniciou-se em Janeiro, no arranque do 2.º período lectivo e, semanas depois, as escolas encerraram novamente, dando início ao segundo período de confinamento a que a covid-19 obrigou o país. O projecto foi pensado para ajudar na recuperação das matérias perdidas no ano lectivo anterior, devido aos impactos do primeiro período de ensino à distância. Foi desenhado para ser implementado em modo presencial.
No entanto, as novas circunstâncias levaram a que tivessem que ser redesenhado para que o contacto entre alunos e mentores fosse possível em formato digital. “Nessa altura, baixámos as expectativas”, revela Pedro Cunha, da Gulbenkian. Das 9700 horas de mentoria, cerca de um terço aconteceu à distância. Mas, dos 1300 alunos directamente envolvidos no GAP, cerca de 50 receberam apoio permanente de modo presencial, em escolas de acolhimento.
1.º ciclo com resultados mais modestos
Os resultados escolares tiveram também uma evolução positiva para os alunos do 1.º ciclo, mas numa dimensão bem menor do que a registada entre os alunos mais velhos, mostra o relatório de avaliação a que o PÚBLICO teve acesso. O número de negativas entre os estudantes envolvidos no GAP baixou, do 1.º para o 3.º período do ano lectivo passado, 6,8% a Português e 2,6% a Matemática.
A avaliação do projecto concluiu que, para crianças mais pequenas, como as que frequentam o primeiro nível da escolaridade obrigatória, o contacto com os mentores tem que ser mais permanente para ser eficaz – “no mínimo tri-semanal, mas idealmente até devia ser diário”, explica Pedro Cunha.
“Enquanto com um jovem de 15 anos bastará um encontro que aconteça uma ou duas vezes por semana, de modo a estabelecer um programa semanal, com uma criança de 7 anos, para quem a aprendizagem é muito baseada na relação, é mais difícil fazê-lo sem um contacto mais permanente”, acrescenta o director do programa Gulbenkian Conhecimento.
Essa será uma das alterações a fazer à próxima geração do projecto, que tem continuidade assegurada e a intenção de chegar a 50 mil alunos por ano, até 2026.
O programa vai ter, porém, mudanças. A mais significativa destas prende-se com o perfil dos mentores. O GAP funcionou, durante o último ano lectivo, com 42 jovens licenciados, recrutados e formados pela Teach for Portugal, uma Organização Não Governamental. Estes eram contratados para trabalhar nas escolas.
A partir do próximo ano lectivo, os mentores serão jovens que ainda estão a frequentar a sua formação superior, num regime de voluntariado. O projecto arrancará desde já, em fase piloto, com alunos da Universidade do Porto. A Fundação Gulbenkian está a trabalhar em parcerias com outras instituições de ensino superior nacionais para alargar ao resto do país. O início dessa segunda fase está dependente do sucesso de uma candidatura ao apoio do programa de financiamento Portugal Inovação Social.
3.9.21
“Se tens um sonho, por favor vai concretizá-lo”
Isabel Moura, in Público on-line
É tímido mas há um regresso às aldeias. E como são “as pessoas que chamam as pessoas”, o mapa do interior centro é feito com rostos. Um projecto dentro de um outro mais vasto, o Mapas Natureza, da INature, que de Julho até 17 de Outubro propõe uma programação multidisciplinar para dinamizar as áreas naturais da região centro.
Contrariando a tendência da desertificação, a pandemia empurrou os portugueses para os meios rurais. O interior foi, subitamente, o destino favorito dos que fugiam dos aglomeramentos. Jasper e Anthonia escolheram, há um ano, a aldeia de Faia, na Serra da Estrela, como casa. Os holandeses são duas das caras que integram o Pessoas-Mapas, um “projecto dentro do projecto Mapas Natureza”, como menciona Miguel Vasco, coordenador da iniciativa. Os mentores partiram da premissa de que para se falar de um território, nada melhor do que ouvir as suas gentes. De entre outras iniciativas, destacam-se, além do Pessoas-Mapas, o Rostografia por darem, literalmente, cara ao projecto.
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O projecto Mapas Natureza, da INature, cujo lema é “Paisagens em vez de paredes”, pretende, desde 30 de Julho e até 17 de Outubro, em dez áreas naturais do interior centro de Portugal, ser um “roteiro artístico que estabelece pontes de diálogo entre a natureza e a paisagem colectiva que é parte indissociável da vida comunitária de todas as cidades, vilas e aldeias que fazem parte do percurso”, pode ler-se no site do projecto. A programação iniciou-se em Sicó/Alvaizére, passou pelas Serras da Estrela e da Lousã e pelo Geopark NaturTejo. Passará ainda pelo Vouga - Caramulo, Serra do Açor, Serras de Aires e Candeeiros, Serra da Malcata, Vale de Foz Côa e terminará na Serra da Gardunha. A viagem pelas dez áreas naturais pretende dinamizar a região, bem como “mudar o olhar que se tem sobre as terras do interior”, diz Miguel Vasco.
O Pessoas-Mapas é uma série de 40 mini-documentários que retrata as múltiplas experiências de habitar os territórios abrangidos pelo projecto. Na primeira pessoa, os habitantes falam da forma como vivem naquelas terras, como viviam, o que anseiam, porque vieram. E ainda “como se relacionam com a comunidade, as suas ambições, os seus sonhos”, acrescenta o porta-voz da iniciativa.
Viver o agora, procurar a paz, apreciar o silêncio, viver em comunhão com a natureza parecem ser os lemas de vida de quem, por ali, decide viver. Foi o caso de Jasper e Anthonia, cujo sonho sempre foi criar um espaço ligado ao turismo. A pandemia antecipou o sonho do casal holandês. Ambos decidiram que era tempo de mudança. Optaram por não esperar pela reforma e avançaram para o sonho. É, aliás, a mensagem que passam no documentário que lhes é dedicado pela INature. “Se tens um sonho, por favor vai concretizá-lo, porque é mais fácil do que pensas”, recomenda Anthonia. Face ao medo que se possa sentir, Jasper incentiva defendendo que é preciso “quebrar o padrão. É pensar: eu consigo!”.
Como confidenciaram ao PÚBLICO, quando se depararam com a beleza da paisagem da Serra da Estrela, sabiam que o sonho deles estava ali, naquele lugar. Tudo fizeram para concretizá-lo. Venderam os bens no país de origem, fecharam os seus negócios, convenceram os pais a alinharem no projecto e, hoje, a Quinta da Portela é o magic place do casal. Com seis estúdios renovados, Jasper e Anthonia vivem essencialmente do turismo, embora também se venham dedicando à agricultura para consumo próprio. Jasper espera, no entanto, poder tirar um rendimento extra dessa actividade no futuro. O casal está mais feliz do que nunca, nesta aldeia com cerca de 200 moradores, que já consideram amigos. Jasper e Anthonia realçam a forma como foram acolhidos pelos habitantes da aldeia e a facilidade com que conseguiram criar uma rede de amigos em tão pouco tempo. “Algo impensável nas grandes cidades”, atira Jasper.
E o projecto do INature aproximou ainda mais os habitantes. À volta de uma programação multidisciplinar, desde música, caminhadas, workshops, conversas, a iniciativa pretende ser “um momento de encontro e partilha”, diz Miguel Vasco. É um convite à criação de novas memórias.
Isilda Mendes, habitante de Ferraria de S. João, concelho de Penela, é, também ela, uma das protagonistas do Pessoas-Mapa. É, sem dúvida, uma das “embaixadoras do território”, como Miguel Vasco qualificou todos os actores dos 40 documentários. “Mais do que embaixadores formais, procuraram-se pessoas comuns com predisposição para falar”, diz o coordenador do projecto. Isilda, com 61 anos, sempre viveu naquela aldeia da Serra da Lousã, “uma aldeia simples mas onde é bom viver porque existe paz”, adianta a sexagenária.
Com pouco mais de 40 habitantes, a aldeia sofre com a desertificação humana. A própria Isilda sente, na pele, as consequências desse fenómeno. Para além das saudades dos filhos que migraram, refere, com nostalgia, as tradições que se vão perdendo e a socialização que é cada vez menor, por falta de gente. Porém, o turismo rural que foi surgindo tem animado um pouco a aldeia. Aos visitantes, Isilda tem dado workshops de pão e de queijo para, como diz, “que as crianças da cidade saibam que o pão que vêem na mesa não nasceu ali. Nasceu da terra, tudo vem da terra”.
E foi pela terra, pela montanha, pela natureza e pela tranquilidade que Pedro Pedrosa decidiu, há dez anos, instalar-se em Ferraria de S. João. O vizinho de Isilda é um dos promotores do turismo rural na aldeia. Aos 40 anos, após 20 anos a viver em Leiria e 20 em Lisboa, Pedro “queria sair da cidade. Era o momento, não adiava mais”, confessa ao PÚBLICO. Foram vários os motivos que o levaram a tomar essa decisão. “Na cidade tinha cada vez pior qualidade de vida”, adianta Pedro. A actividade profissional também permitia ao empresário trabalhar fora da cidade, “como permite a muitas pessoas, mas a maioria não dá o passo”, refere o próprio. Considera que existiu também uma “abertura das zonas do interior para receber novas pessoas, com incentivos económicos para a criação de empregos.” Em termos pessoais, Pedro salienta o facto de “querer que os filhos crescessem num lugar como aquele”.
“As estrelas alinharam-se no céu para vir para a aldeia. Foi uma sucessão de acontecimentos”, menciona o empresário. Comprara umas ruínas em Ferraria, tempos antes, sem sequer ter intenção de ir para lá viver. Quando decidiu sair da cidade, Pedro, que já trabalhava na área do turismo e viu na aldeia de xisto uma possibilidade. Sem quaisquer raízes familiares, foi em Ferraria que decidiu fixar-se. Pedro e a mulher transformaram a ruína para habitação própria, com a valência de Bed & Breakfast. Mais tarde, recuperaram mais três casas, tiveram os filhos e estabeleceram ali as raízes. Porém, o casal não vive apenas do turismo rural. A mulher é professora e Pedro tem uma empresa ligada ao turismo. Porém, o empresário acredita existirem muitas oportunidades de negócio no interior, “para não falar da possibilidade de, actualmente, se poder trabalhar remotamente”, argumenta. Os confinamentos foram a prova disso. Várias pessoas optaram por trabalhar, durante esses períodos, nas aldeias do interior.
As pessoas puxam pessoas
Para combater o despovoamento, Pedro considera que é necessário atrair gente com gente, porque as “pessoas puxam pessoas”, defende. Desvaloriza os incentivos financeiros e preconiza, “desde já, a criação de uma comunidade, com um número mínimo de pessoas. Essas pessoas, dentro dessa comunidade, vão criar sinergias, tanto económicas como sociais, que permitem que se ultrapassem os obstáculos naturais de sair de uma cidade e vir para o campo. Desde logo, a vida social, mas também a própria entre-ajuda. O próprio nível cultural - que as pessoas trazem e muitas vezes não existe no local - que permite interacções culturais, vida social, vida cultural, que de outro modo é impossível porque não há massa crítica.” Achou, por isso, o projecto Mapas-Pessoas interessante. Para Pedro, “tiveram o dom de vir ter com as pessoas e fazer coisas que costumam fazer nas cidades. Trabalharam a proximidade. As pessoas sentiram-se ouvidas, acompanhadas”.
Sentiram-se também vistas e retratadas. O programa Rostografia do Mapas-Natureza está a cartografar e documentar as gentes das aldeias do interior centro de Portugal. Tratam-se de “retratos a preto e branco, acompanhados por textos na primeira pessoa que lançam a debate ideias, projectos e esperanças de crianças, jovens e adultos residentes numa zona onde a beleza natural se preenche com a manutenção de práticas de vida em harmonia com o território”, refere o site do projecto. Miguel Vasco confere ao Rostografia uma filosofia mais casual do que ao Pessoas-Mapas já que é fruto de “breves encontros que registam os habitantes da comunidade.”
Tanto os documentários como os retratos têm sido apresentados, em primeira mão, nos lugares onde foram realizados. Os documentários “só vão para o site (do Mapas-Pessoas) e para as plataformas digitais (facebook, instagram e youtube) depois de projectados ao ar livre, no local”, revela Miguel Vasco. Já os retratos ficam afixados apenas nas localidades os fotografados habitam. “A ideia da proposta era também de podermos ir ali, àquela rua, e percebermos um pouco as caras que estão por detrás daquelas paredes, daquelas portas”, admite o coordenador do projecto. Para além dessa instalação fotográfica, são distribuídos postais com uma frase do retratado.
Quanto ao futuro do projecto, como confidenciou Miguel Vasco, a organização está a “equacionar formas de o poder levar mais além, explorar novos mapas, novos caminhos”.
O Mapas-Natureza contou com financiamento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder), através do Centro 2020 – Programa Operacional Regional do Centro.
De 3 a 5 de Setembro, a próxima paragem do Mapas-Pessoas é em Vouga - Caramulo.
Texto editado por Ana Fernandes
É tímido mas há um regresso às aldeias. E como são “as pessoas que chamam as pessoas”, o mapa do interior centro é feito com rostos. Um projecto dentro de um outro mais vasto, o Mapas Natureza, da INature, que de Julho até 17 de Outubro propõe uma programação multidisciplinar para dinamizar as áreas naturais da região centro.
Contrariando a tendência da desertificação, a pandemia empurrou os portugueses para os meios rurais. O interior foi, subitamente, o destino favorito dos que fugiam dos aglomeramentos. Jasper e Anthonia escolheram, há um ano, a aldeia de Faia, na Serra da Estrela, como casa. Os holandeses são duas das caras que integram o Pessoas-Mapas, um “projecto dentro do projecto Mapas Natureza”, como menciona Miguel Vasco, coordenador da iniciativa. Os mentores partiram da premissa de que para se falar de um território, nada melhor do que ouvir as suas gentes. De entre outras iniciativas, destacam-se, além do Pessoas-Mapas, o Rostografia por darem, literalmente, cara ao projecto.
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O projecto Mapas Natureza, da INature, cujo lema é “Paisagens em vez de paredes”, pretende, desde 30 de Julho e até 17 de Outubro, em dez áreas naturais do interior centro de Portugal, ser um “roteiro artístico que estabelece pontes de diálogo entre a natureza e a paisagem colectiva que é parte indissociável da vida comunitária de todas as cidades, vilas e aldeias que fazem parte do percurso”, pode ler-se no site do projecto. A programação iniciou-se em Sicó/Alvaizére, passou pelas Serras da Estrela e da Lousã e pelo Geopark NaturTejo. Passará ainda pelo Vouga - Caramulo, Serra do Açor, Serras de Aires e Candeeiros, Serra da Malcata, Vale de Foz Côa e terminará na Serra da Gardunha. A viagem pelas dez áreas naturais pretende dinamizar a região, bem como “mudar o olhar que se tem sobre as terras do interior”, diz Miguel Vasco.
O Pessoas-Mapas é uma série de 40 mini-documentários que retrata as múltiplas experiências de habitar os territórios abrangidos pelo projecto. Na primeira pessoa, os habitantes falam da forma como vivem naquelas terras, como viviam, o que anseiam, porque vieram. E ainda “como se relacionam com a comunidade, as suas ambições, os seus sonhos”, acrescenta o porta-voz da iniciativa.
Viver o agora, procurar a paz, apreciar o silêncio, viver em comunhão com a natureza parecem ser os lemas de vida de quem, por ali, decide viver. Foi o caso de Jasper e Anthonia, cujo sonho sempre foi criar um espaço ligado ao turismo. A pandemia antecipou o sonho do casal holandês. Ambos decidiram que era tempo de mudança. Optaram por não esperar pela reforma e avançaram para o sonho. É, aliás, a mensagem que passam no documentário que lhes é dedicado pela INature. “Se tens um sonho, por favor vai concretizá-lo, porque é mais fácil do que pensas”, recomenda Anthonia. Face ao medo que se possa sentir, Jasper incentiva defendendo que é preciso “quebrar o padrão. É pensar: eu consigo!”.
Como confidenciaram ao PÚBLICO, quando se depararam com a beleza da paisagem da Serra da Estrela, sabiam que o sonho deles estava ali, naquele lugar. Tudo fizeram para concretizá-lo. Venderam os bens no país de origem, fecharam os seus negócios, convenceram os pais a alinharem no projecto e, hoje, a Quinta da Portela é o magic place do casal. Com seis estúdios renovados, Jasper e Anthonia vivem essencialmente do turismo, embora também se venham dedicando à agricultura para consumo próprio. Jasper espera, no entanto, poder tirar um rendimento extra dessa actividade no futuro. O casal está mais feliz do que nunca, nesta aldeia com cerca de 200 moradores, que já consideram amigos. Jasper e Anthonia realçam a forma como foram acolhidos pelos habitantes da aldeia e a facilidade com que conseguiram criar uma rede de amigos em tão pouco tempo. “Algo impensável nas grandes cidades”, atira Jasper.
E o projecto do INature aproximou ainda mais os habitantes. À volta de uma programação multidisciplinar, desde música, caminhadas, workshops, conversas, a iniciativa pretende ser “um momento de encontro e partilha”, diz Miguel Vasco. É um convite à criação de novas memórias.
Isilda Mendes, habitante de Ferraria de S. João, concelho de Penela, é, também ela, uma das protagonistas do Pessoas-Mapa. É, sem dúvida, uma das “embaixadoras do território”, como Miguel Vasco qualificou todos os actores dos 40 documentários. “Mais do que embaixadores formais, procuraram-se pessoas comuns com predisposição para falar”, diz o coordenador do projecto. Isilda, com 61 anos, sempre viveu naquela aldeia da Serra da Lousã, “uma aldeia simples mas onde é bom viver porque existe paz”, adianta a sexagenária.
Com pouco mais de 40 habitantes, a aldeia sofre com a desertificação humana. A própria Isilda sente, na pele, as consequências desse fenómeno. Para além das saudades dos filhos que migraram, refere, com nostalgia, as tradições que se vão perdendo e a socialização que é cada vez menor, por falta de gente. Porém, o turismo rural que foi surgindo tem animado um pouco a aldeia. Aos visitantes, Isilda tem dado workshops de pão e de queijo para, como diz, “que as crianças da cidade saibam que o pão que vêem na mesa não nasceu ali. Nasceu da terra, tudo vem da terra”.
E foi pela terra, pela montanha, pela natureza e pela tranquilidade que Pedro Pedrosa decidiu, há dez anos, instalar-se em Ferraria de S. João. O vizinho de Isilda é um dos promotores do turismo rural na aldeia. Aos 40 anos, após 20 anos a viver em Leiria e 20 em Lisboa, Pedro “queria sair da cidade. Era o momento, não adiava mais”, confessa ao PÚBLICO. Foram vários os motivos que o levaram a tomar essa decisão. “Na cidade tinha cada vez pior qualidade de vida”, adianta Pedro. A actividade profissional também permitia ao empresário trabalhar fora da cidade, “como permite a muitas pessoas, mas a maioria não dá o passo”, refere o próprio. Considera que existiu também uma “abertura das zonas do interior para receber novas pessoas, com incentivos económicos para a criação de empregos.” Em termos pessoais, Pedro salienta o facto de “querer que os filhos crescessem num lugar como aquele”.
“As estrelas alinharam-se no céu para vir para a aldeia. Foi uma sucessão de acontecimentos”, menciona o empresário. Comprara umas ruínas em Ferraria, tempos antes, sem sequer ter intenção de ir para lá viver. Quando decidiu sair da cidade, Pedro, que já trabalhava na área do turismo e viu na aldeia de xisto uma possibilidade. Sem quaisquer raízes familiares, foi em Ferraria que decidiu fixar-se. Pedro e a mulher transformaram a ruína para habitação própria, com a valência de Bed & Breakfast. Mais tarde, recuperaram mais três casas, tiveram os filhos e estabeleceram ali as raízes. Porém, o casal não vive apenas do turismo rural. A mulher é professora e Pedro tem uma empresa ligada ao turismo. Porém, o empresário acredita existirem muitas oportunidades de negócio no interior, “para não falar da possibilidade de, actualmente, se poder trabalhar remotamente”, argumenta. Os confinamentos foram a prova disso. Várias pessoas optaram por trabalhar, durante esses períodos, nas aldeias do interior.
As pessoas puxam pessoas
Para combater o despovoamento, Pedro considera que é necessário atrair gente com gente, porque as “pessoas puxam pessoas”, defende. Desvaloriza os incentivos financeiros e preconiza, “desde já, a criação de uma comunidade, com um número mínimo de pessoas. Essas pessoas, dentro dessa comunidade, vão criar sinergias, tanto económicas como sociais, que permitem que se ultrapassem os obstáculos naturais de sair de uma cidade e vir para o campo. Desde logo, a vida social, mas também a própria entre-ajuda. O próprio nível cultural - que as pessoas trazem e muitas vezes não existe no local - que permite interacções culturais, vida social, vida cultural, que de outro modo é impossível porque não há massa crítica.” Achou, por isso, o projecto Mapas-Pessoas interessante. Para Pedro, “tiveram o dom de vir ter com as pessoas e fazer coisas que costumam fazer nas cidades. Trabalharam a proximidade. As pessoas sentiram-se ouvidas, acompanhadas”.
Sentiram-se também vistas e retratadas. O programa Rostografia do Mapas-Natureza está a cartografar e documentar as gentes das aldeias do interior centro de Portugal. Tratam-se de “retratos a preto e branco, acompanhados por textos na primeira pessoa que lançam a debate ideias, projectos e esperanças de crianças, jovens e adultos residentes numa zona onde a beleza natural se preenche com a manutenção de práticas de vida em harmonia com o território”, refere o site do projecto. Miguel Vasco confere ao Rostografia uma filosofia mais casual do que ao Pessoas-Mapas já que é fruto de “breves encontros que registam os habitantes da comunidade.”
Tanto os documentários como os retratos têm sido apresentados, em primeira mão, nos lugares onde foram realizados. Os documentários “só vão para o site (do Mapas-Pessoas) e para as plataformas digitais (facebook, instagram e youtube) depois de projectados ao ar livre, no local”, revela Miguel Vasco. Já os retratos ficam afixados apenas nas localidades os fotografados habitam. “A ideia da proposta era também de podermos ir ali, àquela rua, e percebermos um pouco as caras que estão por detrás daquelas paredes, daquelas portas”, admite o coordenador do projecto. Para além dessa instalação fotográfica, são distribuídos postais com uma frase do retratado.
Quanto ao futuro do projecto, como confidenciou Miguel Vasco, a organização está a “equacionar formas de o poder levar mais além, explorar novos mapas, novos caminhos”.
O Mapas-Natureza contou com financiamento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder), através do Centro 2020 – Programa Operacional Regional do Centro.
De 3 a 5 de Setembro, a próxima paragem do Mapas-Pessoas é em Vouga - Caramulo.
Texto editado por Ana Fernandes
Governo propõe aumentar bolsas de estágio dos jovens licenciados para 878 euros
Pedro Crisóstomo, in Público on-line
Actualização prevista para 2022. Ministra do Trabalho leva hoje proposta à concertação social para subir bolsas dos jovens trabalhadores e aumentar tecto mínimo salarial dos estágios profissionais.
O Governo quer aumentar o valor das bolsas de estágio dos jovens licenciados abrangidas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) dos actuais 790 euros para 878 euros no próximo ano, disse ao PÚBLICO a ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho. São mais 88 euros.
É com essa proposta que a governante chega à mesa das negociações com as centrais sindicais e as confederações patronais, com quem se reunirá na manhã desta sexta-feira na Concertação Social para voltar a discutir a “agenda do trabalho digno”.
As bolsas que o IEFP tem de pé para promover a entrada de jovens no mercado de trabalho – o programa “Estágios Activar.PT” — duram nove meses, têm como condição que os licenciados estejam inscritos nos centros de emprego, existindo, em regra, uma comparticipação do IEFP de 65% (neste momento, é de 75% de forma transitória para candidaturas apresentadas até ao fim do ano; há três circunstâncias em que é de 80%).
Em declarações ao PÚBLICO, Ana Mendes Godinho afirmou que a proposta que coloca “em cima da mesa” é a de aumentar as bolsas dos licenciados de um valor equivalente a 1,8 Indexante dos Apoios Sociais (IAS) para dois IAS (o que significa, aos valores actuais, os 878 euros).
Com a actualização prevista, sublinha, a diferença em relação ao ano de 2019, antes da pandemia, é de 159 euros, porque nesse ano a bolsa era de 719 euros (ainda no anterior programa de estágios profissionais, antecessor do Activar).
Além desta medida, Mendes Godinho reafirma a intenção do Governo em revogar uma norma de um diploma laboral de 2011 que fixa o tecto mínimo do salário dos trabalhadores em estágios profissionais ao Indexante dos Apoios Sociais (438,81 euros neste momento).
A ideia, já prevista na lista das 64 prioridades na área laboral entregue aos parceiros sociais na última reunião da concertação social, em Julho, passa por voltar a plicar a regra geral do Código do Trabalho segundo a qual a retribuição mensal dos estagiários deve corresponder a pelo menos 80% do salário mínimo nacional.
A ministra do Trabalho adianta que o objectivo do Governo é ter as novas regras no terreno logo no início do próximo ano, entrando em vigor a 1 de Janeiro. Abrangerá tanto os estágios profissionais que comecem nessa altura como aqueles que já se encontrem em curso.
A norma que o Governo de António Costa quer ver revogada está prevista no Decreto-Lei n.º 66/2011, um diploma aprovado na recta final do executivo de José Sócrates em Março de 2011, um mês antes do pedido de resgate financeiro que levaria à chegada a troika a Portugal. Na altura, Helena André era a ministra do Trabalho. José António Vieira da Silva (antecessor de Mendes Godinho na pasta do Trabalho) era então o ministro da Economia.
Ainda não é possível dizer qual será o valor exacto do patamar salarial dos estagiários, porque ele dependerá do valor do salário mínimo de 2022, que ainda não foi definido pelo Governo.
Como neste momento a retribuição mínima é de 665 euros, os 80% colocariam o tecto mínimo para os estágios profissionais nos 532 euros, o que significa que o nível remuneratório será sempre acima deste montante. O programa do Governo prevê que o salário mínimo chegue aos 750 euros em 2023.
“A nossa opção é valorizar a entrada dos jovens no mercado de trabalho, revogando esta possibilidade de terem uma remuneração abaixo da que está [definida] no Código do Trabalho e, a par disso, aumentar as bolsas IEFP”, afirma Ana Mendes Godinho, sem abrir o jogo sobre a margem de negociação com os parceiros.
Equiparar estatuto
A ministra diz que, desde Julho, o Governo recebeu as posições das centrais sindicais e das confederações patronais sobre as várias prioridades elencadas pelo executivo na “agenda do trabalho digno”.
O documento é uma espécie de roteiro de medidas a concretizar na área laboral durante a legislatura. Ainda na área dos jovens trabalhadores, o Governo quer alargar a “dispensa do período experimental a situações de estágios de avaliação positiva na mesma actividade” mesmo que a pessoa, depois de terminar o estágio, comece a trabalhar noutra empresa nessa área.
O Governo quer “uniformizar regras sobre os regimes de estágios profissionais existentes na lei no sentido de conferir uma maior protecção dos direitos e dos rendimentos dos estagiários, nomeadamente equiparando o regime de protecção social dos estágios não apoiados ao dos estágios apoiados, de modo a que os estagiários passem a ter estatuto idêntico ao de trabalhadores por conta de outrem no que toca a contribuições e quotizações para a Segurança Social”.
Ao mesmo tempo, o executivo diz pretender reforçar os mecanismos de controlo para impedir que o mesmo trabalhador vá rodando na mesma empresa, muitas vezes na mesma função, entre recibos verdes, contratos a prazo e contratos temporários.
O documento inclui propostas para aumentar a regulação da actividade das empresas de trabalho temporário (ETT). Neste campo, pretende reforçar os requisitos para a manutenção das licenças de actividade destas empresas, fazendo uma avaliação de idoneidade dos donos e dos gestores das sociedades de ETT, à semelhança do que acontece com os administradores dos bancos e seguradoras. A ideia é criar um enquadramento que obriga à “verificação da idoneidade dos sócios, gerentes, administradores e demais membros dos órgãos sociais”, de uma forma “mais aproximada ao que é actualmente exigido a administradores de sociedades seguradoras, ou bancárias e financeiras”.
Outro tema que entra em discussão passa pelo reforço dos direitos dos trabalhadores que exercem uma actividade através das plataformas digitais (como os estafetas que entregam refeições ou produtos).
Segundo o documento entregue aos parceiros sociais em Julho, o Governo pretende que se crie uma “presunção de existência de contrato de trabalho com a plataforma ou com a empresa que nela opere, afastável apenas mediante demonstração com base em indícios objectivos por parte do beneficiário de que o prestador da actividade não é trabalhador subordinado, salvaguardando regimes legais específicos”.
Notícia corrigida às 10h32 de 3 de Setembro de 2021:
Rectificado o valor da comparticipação do IEFP, que, em regra, é de 65% (e não de 80%; só é de 80% em três circunstâncias específicas, como por exemplo, quando a entidade promotora é uma pessoa colectiva de natureza privada sem fins lucrativos).
Actualização prevista para 2022. Ministra do Trabalho leva hoje proposta à concertação social para subir bolsas dos jovens trabalhadores e aumentar tecto mínimo salarial dos estágios profissionais.
O Governo quer aumentar o valor das bolsas de estágio dos jovens licenciados abrangidas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) dos actuais 790 euros para 878 euros no próximo ano, disse ao PÚBLICO a ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho. São mais 88 euros.
É com essa proposta que a governante chega à mesa das negociações com as centrais sindicais e as confederações patronais, com quem se reunirá na manhã desta sexta-feira na Concertação Social para voltar a discutir a “agenda do trabalho digno”.
As bolsas que o IEFP tem de pé para promover a entrada de jovens no mercado de trabalho – o programa “Estágios Activar.PT” — duram nove meses, têm como condição que os licenciados estejam inscritos nos centros de emprego, existindo, em regra, uma comparticipação do IEFP de 65% (neste momento, é de 75% de forma transitória para candidaturas apresentadas até ao fim do ano; há três circunstâncias em que é de 80%).
Em declarações ao PÚBLICO, Ana Mendes Godinho afirmou que a proposta que coloca “em cima da mesa” é a de aumentar as bolsas dos licenciados de um valor equivalente a 1,8 Indexante dos Apoios Sociais (IAS) para dois IAS (o que significa, aos valores actuais, os 878 euros).
Com a actualização prevista, sublinha, a diferença em relação ao ano de 2019, antes da pandemia, é de 159 euros, porque nesse ano a bolsa era de 719 euros (ainda no anterior programa de estágios profissionais, antecessor do Activar).
Além desta medida, Mendes Godinho reafirma a intenção do Governo em revogar uma norma de um diploma laboral de 2011 que fixa o tecto mínimo do salário dos trabalhadores em estágios profissionais ao Indexante dos Apoios Sociais (438,81 euros neste momento).
A ideia, já prevista na lista das 64 prioridades na área laboral entregue aos parceiros sociais na última reunião da concertação social, em Julho, passa por voltar a plicar a regra geral do Código do Trabalho segundo a qual a retribuição mensal dos estagiários deve corresponder a pelo menos 80% do salário mínimo nacional.
A ministra do Trabalho adianta que o objectivo do Governo é ter as novas regras no terreno logo no início do próximo ano, entrando em vigor a 1 de Janeiro. Abrangerá tanto os estágios profissionais que comecem nessa altura como aqueles que já se encontrem em curso.
A norma que o Governo de António Costa quer ver revogada está prevista no Decreto-Lei n.º 66/2011, um diploma aprovado na recta final do executivo de José Sócrates em Março de 2011, um mês antes do pedido de resgate financeiro que levaria à chegada a troika a Portugal. Na altura, Helena André era a ministra do Trabalho. José António Vieira da Silva (antecessor de Mendes Godinho na pasta do Trabalho) era então o ministro da Economia.
Ainda não é possível dizer qual será o valor exacto do patamar salarial dos estagiários, porque ele dependerá do valor do salário mínimo de 2022, que ainda não foi definido pelo Governo.
Como neste momento a retribuição mínima é de 665 euros, os 80% colocariam o tecto mínimo para os estágios profissionais nos 532 euros, o que significa que o nível remuneratório será sempre acima deste montante. O programa do Governo prevê que o salário mínimo chegue aos 750 euros em 2023.
“A nossa opção é valorizar a entrada dos jovens no mercado de trabalho, revogando esta possibilidade de terem uma remuneração abaixo da que está [definida] no Código do Trabalho e, a par disso, aumentar as bolsas IEFP”, afirma Ana Mendes Godinho, sem abrir o jogo sobre a margem de negociação com os parceiros.
Equiparar estatuto
A ministra diz que, desde Julho, o Governo recebeu as posições das centrais sindicais e das confederações patronais sobre as várias prioridades elencadas pelo executivo na “agenda do trabalho digno”.
O documento é uma espécie de roteiro de medidas a concretizar na área laboral durante a legislatura. Ainda na área dos jovens trabalhadores, o Governo quer alargar a “dispensa do período experimental a situações de estágios de avaliação positiva na mesma actividade” mesmo que a pessoa, depois de terminar o estágio, comece a trabalhar noutra empresa nessa área.
O Governo quer “uniformizar regras sobre os regimes de estágios profissionais existentes na lei no sentido de conferir uma maior protecção dos direitos e dos rendimentos dos estagiários, nomeadamente equiparando o regime de protecção social dos estágios não apoiados ao dos estágios apoiados, de modo a que os estagiários passem a ter estatuto idêntico ao de trabalhadores por conta de outrem no que toca a contribuições e quotizações para a Segurança Social”.
Ao mesmo tempo, o executivo diz pretender reforçar os mecanismos de controlo para impedir que o mesmo trabalhador vá rodando na mesma empresa, muitas vezes na mesma função, entre recibos verdes, contratos a prazo e contratos temporários.
O documento inclui propostas para aumentar a regulação da actividade das empresas de trabalho temporário (ETT). Neste campo, pretende reforçar os requisitos para a manutenção das licenças de actividade destas empresas, fazendo uma avaliação de idoneidade dos donos e dos gestores das sociedades de ETT, à semelhança do que acontece com os administradores dos bancos e seguradoras. A ideia é criar um enquadramento que obriga à “verificação da idoneidade dos sócios, gerentes, administradores e demais membros dos órgãos sociais”, de uma forma “mais aproximada ao que é actualmente exigido a administradores de sociedades seguradoras, ou bancárias e financeiras”.
Outro tema que entra em discussão passa pelo reforço dos direitos dos trabalhadores que exercem uma actividade através das plataformas digitais (como os estafetas que entregam refeições ou produtos).
Segundo o documento entregue aos parceiros sociais em Julho, o Governo pretende que se crie uma “presunção de existência de contrato de trabalho com a plataforma ou com a empresa que nela opere, afastável apenas mediante demonstração com base em indícios objectivos por parte do beneficiário de que o prestador da actividade não é trabalhador subordinado, salvaguardando regimes legais específicos”.
Notícia corrigida às 10h32 de 3 de Setembro de 2021:
Rectificado o valor da comparticipação do IEFP, que, em regra, é de 65% (e não de 80%; só é de 80% em três circunstâncias específicas, como por exemplo, quando a entidade promotora é uma pessoa colectiva de natureza privada sem fins lucrativos).
Professores saltimbancos à espera de colocação. "É uma ansiedade enorme, nunca sabemos o que vai acontecer
Hélio Carvalho, in RR
Em agosto, o Ministério da Educação anunciou a colocação de 6.500 professores contratados e mais de 5800 na primeira reserva. Muitos mais ficaram sem colocação, à espera de mudar de vida em cima do joelho.
Sem colocação e o regresso às aulas está à porta. Outra vez a reserva. Daniela é professora e ainda aguarda por uma vaga numa escola. Não sabe se vai ficar perto da casa ou se terá de mudar de vida, novamente, a centenas de quilómetros de distância. Cristina está na mesma situação e, no último ano, Ana não ganhou para os gastos e teve de recorrer a poupanças para trabalhar. A "ansiedade" e a incerteza são denominadores comuns.
Como estas três professoras muitos milhares de docentes nas reservas de recrutamento, sem saber para onde vão, se ficam perto ou se terão de procurar um alojamento em poucos dias, quando serão colocados e que tipo de contrato e horário terão.
A duas semanas do novo ano letivo, muitos professores já sabem onde vão lecionar no próximo ano letivo, depois da primeira lista de colocações ter sido lançada a 13 de agosto e a primeira reserva de recrutamento ser anunciada no dia 1 de setembro. Segundo o Ministério da Educação (ME), mais de 13 mil professores mudaram de escola, cerca de 6.500 professores contratados foram colocados na contratação inicial e cerca de 5.800 foram colocados na primeira reserva.
E, em julho, o ME anunciou que 2.455 professores cumpriram os critérios para a vinculação.
No entanto, para os docentes na reservas de recrutamento que não viram o seu nome nas listas, as incertezas mantêm-se.
Daniela Neto é professora desde 2003, nunca conseguiu vincular e tem "andado a fazer substituições há quase 20 anos". A vinculação através da chamada 'norma-travão' é "uma luz muito longe ao fundo do túnel" e a docente de 40 anos fala de mais uma época, mais um concurso à contratação inicial e mais uma espera desgastantes.
"Só a questão do concurso é um desgaste incrível, porque nós ficamos muito ansiosos por saber se estamos a concorrer bem, se é a melhor forma de concorrer, se as opções que estamos a ter vão ser as melhores. Depois, até saírem as listas, é uma ansiedade enorme porque nunca sabemos o que vai acontecer. Como não ficamos logo colocadas, temos aquela ansiedade semanal de estarmos sempre à espera das reservas de recrutamento para saber se é nessa reserva ou não que vamos ter sorte", conta à Renascença a professora residente em Paredes, no distrito do Porto.
Na situação de Daniela estão centenas de professores que passam uma carreira longa a fazer contas à vida. Cristina Araújo, também ela com 40 anos e quase 20 anos a dar aulas, explica que "para quem é contratado e anda nisto, é uma ansiedade tremenda, porque tu pensas: 'se não ficaste colocada no dia 13, quando é que vais ficar e para onde vais?'"
Cristina, com residência em Famalicão, no Minho, já foi colocada no Algarve de um dia para o outro. Diz que ficar na bolsa das reservas é um situação extremamente difícil, especialmente pela volta que a vida pode dar, mas para quem fica nas reservas é "comum" o ter de fazer malas à pressa.
"As bolsas normalmente saem à sexta-feira e os professores têm de se apresentar numa terça-feira. Quem ficou agora em agosto, já teve todo o tempo de reajustar a vida nesta primeira colocação. Quando fiquei colocada no Algarve, fiquei colocada em Lagos. Eu soube numa sexta-feira e tive de ir logo no fim de semana para arranjar casa. A gente tem de se preparar e tem ali dois, três dias para orientar a vida de um ano. É acabar por ter de fazer as malas sem contar", recorda.
Já Ana Marta Couto, de 30 anos, repete a palavra "ansiedade" e conta que, depois de viajar do Porto para Lisboa no ano letivo anterior, pode estar a contar com a mesma volta para ensinar.
"Tenho uma ideia para onde irei, porque nas manifestações de preferências coloquei mais ou menos 50 concelhos para onde eu estou disposta a ir e pode ser que fique em Viana do Castelo, em Ovar ou então em Amarante."
Mas a incerteza é o nome do jogo. Ana Marta Couto conta que há também "a hipótese de, de um momento para o outro, ficar colocada em Lisboa e ter que viver para lá".
Foi o que aconteceu no último ano letivo. "Estava a trabalhar no Porto, numa sexta-feira à tarde soube que fiquei colocada e na terça-feira apresentei-me ao serviço. Tive um dia útil para poder organizar, para poder avisar a escola onde trabalhava que não podiam contar mais comigo, de forma a que, no dia seguinte, pudesse apresentar-me na escola", recorda a jovem docente natural de Paços de Ferreira, que dá aulas ao 3.º ciclo e ao Ensino Secundário.
"Os meus filhos sofrem imenso"
Cristina Araújo já deu aulas de Norte a Sul do país. Em 2012/2013, lecionou em Lagos, o que a obrigava a viajar recorrentemente daquela cidade até ao aeroporto de Faro (uma distância de quase 100 quilómetros), para depois ter de viajar do Porto para Famalicão (mais uns 30 quilómetros). Passou também pela Amadora e um pouco por todo o Baixo Minho.
Agora, com um filho de cinco anos, diz que não pode "correr o risco de me afastar dele e concorrer para Lisboa ou para o Algarve, onde aí há falta de professores".
"Foi há cinco anos que deixei de concorrer a todo o país. A partir do momento em que ele nasce, a vida muda e a prioridade passa a ser ele".
Em Paredes, Daniela Neto também tem dois filhos, um com 12 e uma com três. E admite que "esta instabilidade e esta mudança constante de nunca sabermos como vai ser o nosso futuro ano após ano" complica a gestão da vida pessoal e familiar.
"Eles têm os horários deles, eles dependem de nós e, muitas vezes, tenho de organizar a escola, os horários, o ATL de um dia para o outro, o que é uma coisa difícil, porque temos de procurar sítios para eles ficarem quando nós não podemos ir buscá-los. A nossa maior dificuldade tem sido essa. Eu nunca sei como é que vai ser a minha vida daqui a dois ou três dias".
Além disso, a possibilidade de ficar num contrato temporário e ter de mudar de escola a meio do ano letivo pode obrigar a começar tudo de novo. "Os meus filhos sofrem imenso com isso porque passam a vida a mudar de forma de viver o dia", lamenta.
"As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, fica tudo à espera"
Marta é a mais jovem das três professoras, mas já viu a sua quota parte de curvas e contracurvas no concurso das colocações. Em 2020/2021, deu aulas de Português nos Olivais, em Lisboa, e conta também com formação para dar Espanhol (Língua Não-Materna).
Com a vida toda no Porto, fala de uma experiência que a deixa menos disposta a voltar a viajar para longe. Falta "vontade, facilidade e disposição para ir para um horário temporário", onde as condições dificultam a vida social e familiar.
"Tenho todo um historial pessoal suspenso e à espera que eu tenha uma vida organizada e estável. Há imensa coisa que fica pendente. As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, a relação com a cultura, com a diversão, fica tudo à espera."
Durante a semana, Marta vivia em Lisboa. Todos os fins de semana, ia para o Porto, onde partilha casa com o namorado. O tempo perdido em viagens, fator que partilha com muitos professores que lecionam longe da sua área de residência - mesmo os que já foram colocados a 13 de agosto - é outra condicionante.
"Senti que estava em piloto-automático, que tinha de estar com o namorado ao fim de semana e à semana preparava as aulas. Foi um ano difícil, um ano em que passava grande parte do tempo em transportes públicos. Olho para o último ano letivo e vejo-me em transportes públicos."
Não só não se "sentia em casa em nenhuma das duas casas que tinha, porque não conseguia criar raízes de proximidade", como confessa que o esforço não compensou os gastos de viver em duas cidades.
"Economicamente, não foi nada estável. Eu tive de ir buscar dinheiro à minha conta-poupança para poder estar bem e continuar a vida que tinha. Eu saí do Porto, mas partilho um espaço com alguém. Portanto, ao ir viver em Lisboa, tinha que pagar duas casas, duas contas, duas Internets... Era tudo a dobrar. Na verdade, não compensou muito economicamente", disse.
Vinculação é caminho longo e exaustivo a percorrer
Para um professor poder efetivar contrato, tem de cumprir três anos seguidos em horário completo ou anual no mesmo Quadro de Zona Pedagógica, segundo o sistema de vinculação extraordinário, ou a chamada "norma-travão". No entanto, segundo as alterações recentes à legislação - fortemente criticadas pelos sindicatos - os professores elegíveis têm de concorrer na mesma a todo o país, sob pena de não poderem assinar um novo contrato.
São muitas as dificuldades para um professor efetivar contrato com uma escola ou agrupamento, a começar pelo facto de ser necessário cumprir um ano completo até ao dia 31 de agosto.
Cristina Araújo diz que esteve perto de passar aos quadros: esteve dois anos seguidos a substituir uma professora, começando sempre antes do dia 14 de setembro e indo sempre até ao dia 31 de agosto. No terceiro ano, Cristina tinha de ser colocada na contratação inicial, mas acabou por fazer uma nova substituição. Perdeu-se a oportunidade.
"Foram três anos que não foram contabilizados. Se por acaso fosse anual no meu contrato, já me contavam os dois para trás como sendo anuais. Aí conseguia efetivar. Nesses três anos, estive três anos consecutivos, 365 dias a trabalhar. No ano seguinte, como fui substituir uma professora de licença de maternidade, eu perdi os três anos para trás. Tenho de fazer novamente três anos para conseguir efetivar", explica.
E há ainda a questão de apenas os contratos até à segunda reserva de recrutamentos, anuais, poderem ser contados. Quem entrar numa escola mais tarde, estará a trabalhar o ano inteiro sem esse ano contar para uma possível vinculação.
Ana Marta Couto acredita que é "impensável" ser efetivada no Norte do país, onde há muitos mais professores, pelo que levará muito tempo a conseguir fazer três anos completos, seguidos. "É impossível acontecer isso. E só, eventualmente, poderia acontecer se eu me candidatasse para Lisboa, Algarve ou Alentejo, e para o interior, que é algo para o qual não estou disposta nem tenho de estar disposta a fazer, porque já percebi pela experiência que tive que não me compensa economicamente e pessoalmente tomar esse tipo de decisão".
Marta conta uma "má" experiência no ano transato. Entrou numa escola em outubro, com horário completo e temporário. Devia ter ficado até dezembro, mas acabou por continuar. Em vez de terminar o contrato a 31 de agosto, como tinha garantido a escola, foi dispensada em julho por não haver mais atividades letivas. "Pareceu-me pouco ético porque, havendo serviço e imensa coisa para tratar na escola, reuniões para organizar o próximo ano letivo, pessoalmente achei bastante incorreto por parte da escola de dispensar um professor a partir do momento em que as avaliações do terceiro período estão concluídas", critica a professora natural de Paços de Ferreira.
Efetivar só perto dos 50
As três professoras concordam que um professor só consegue imaginar uma possível vinculação definitiva já perto dos 50 anos. Daniela Neto, de Paredes, não se vê a efetivar de todo, por nunca tentar ficar longe dos dois filhos e da família, da qual é "muito agarrada".
"Costumo dizer que vou sair da carreira contratada, porque o tempo de serviço não corresponde aos 20 anos que eu trabalho. Tenho muito menos tempo de serviço, porque tenho andado em substituições, vou perdendo sempre dias e muitas vezes não fico até ao final do ano letivo. Por isso não tenho grandes esperanças", lamenta.
Marta também acredita que só ficará efetiva "aos 40 e muitos, 50 anos". Já Cristina, que diz contabilizar mais de 5000 dias de trabalho, que se traduzem em 15 anos de serviço (apesar de lecionar há quase 17), diz, esperançosa: "acredito que a minha vez esteja quase a chegar!"
"Isto para nós é uma angústia. Uma professora vai para uma empresa no setor privado, está dois, três anos, tem de efetivar. Aqui estão a tentar fazê-lo, mas criam ali uma alínea que causa um entrave enorme. Se tens o azar que eu tive de ficar a substituir uma professora que estava de licença de maternidade e se apresentou, aqueles três anos foram em vão. Não sei se isso é justo", questiona a professora famalicense.
Em agosto, o Ministério da Educação anunciou a colocação de 6.500 professores contratados e mais de 5800 na primeira reserva. Muitos mais ficaram sem colocação, à espera de mudar de vida em cima do joelho.
Sem colocação e o regresso às aulas está à porta. Outra vez a reserva. Daniela é professora e ainda aguarda por uma vaga numa escola. Não sabe se vai ficar perto da casa ou se terá de mudar de vida, novamente, a centenas de quilómetros de distância. Cristina está na mesma situação e, no último ano, Ana não ganhou para os gastos e teve de recorrer a poupanças para trabalhar. A "ansiedade" e a incerteza são denominadores comuns.
Como estas três professoras muitos milhares de docentes nas reservas de recrutamento, sem saber para onde vão, se ficam perto ou se terão de procurar um alojamento em poucos dias, quando serão colocados e que tipo de contrato e horário terão.
A duas semanas do novo ano letivo, muitos professores já sabem onde vão lecionar no próximo ano letivo, depois da primeira lista de colocações ter sido lançada a 13 de agosto e a primeira reserva de recrutamento ser anunciada no dia 1 de setembro. Segundo o Ministério da Educação (ME), mais de 13 mil professores mudaram de escola, cerca de 6.500 professores contratados foram colocados na contratação inicial e cerca de 5.800 foram colocados na primeira reserva.
E, em julho, o ME anunciou que 2.455 professores cumpriram os critérios para a vinculação.
No entanto, para os docentes na reservas de recrutamento que não viram o seu nome nas listas, as incertezas mantêm-se.
Daniela Neto é professora desde 2003, nunca conseguiu vincular e tem "andado a fazer substituições há quase 20 anos". A vinculação através da chamada 'norma-travão' é "uma luz muito longe ao fundo do túnel" e a docente de 40 anos fala de mais uma época, mais um concurso à contratação inicial e mais uma espera desgastantes.
"Só a questão do concurso é um desgaste incrível, porque nós ficamos muito ansiosos por saber se estamos a concorrer bem, se é a melhor forma de concorrer, se as opções que estamos a ter vão ser as melhores. Depois, até saírem as listas, é uma ansiedade enorme porque nunca sabemos o que vai acontecer. Como não ficamos logo colocadas, temos aquela ansiedade semanal de estarmos sempre à espera das reservas de recrutamento para saber se é nessa reserva ou não que vamos ter sorte", conta à Renascença a professora residente em Paredes, no distrito do Porto.
Na situação de Daniela estão centenas de professores que passam uma carreira longa a fazer contas à vida. Cristina Araújo, também ela com 40 anos e quase 20 anos a dar aulas, explica que "para quem é contratado e anda nisto, é uma ansiedade tremenda, porque tu pensas: 'se não ficaste colocada no dia 13, quando é que vais ficar e para onde vais?'"
Cristina, com residência em Famalicão, no Minho, já foi colocada no Algarve de um dia para o outro. Diz que ficar na bolsa das reservas é um situação extremamente difícil, especialmente pela volta que a vida pode dar, mas para quem fica nas reservas é "comum" o ter de fazer malas à pressa.
"As bolsas normalmente saem à sexta-feira e os professores têm de se apresentar numa terça-feira. Quem ficou agora em agosto, já teve todo o tempo de reajustar a vida nesta primeira colocação. Quando fiquei colocada no Algarve, fiquei colocada em Lagos. Eu soube numa sexta-feira e tive de ir logo no fim de semana para arranjar casa. A gente tem de se preparar e tem ali dois, três dias para orientar a vida de um ano. É acabar por ter de fazer as malas sem contar", recorda.
Já Ana Marta Couto, de 30 anos, repete a palavra "ansiedade" e conta que, depois de viajar do Porto para Lisboa no ano letivo anterior, pode estar a contar com a mesma volta para ensinar.
"Tenho uma ideia para onde irei, porque nas manifestações de preferências coloquei mais ou menos 50 concelhos para onde eu estou disposta a ir e pode ser que fique em Viana do Castelo, em Ovar ou então em Amarante."
Mas a incerteza é o nome do jogo. Ana Marta Couto conta que há também "a hipótese de, de um momento para o outro, ficar colocada em Lisboa e ter que viver para lá".
Foi o que aconteceu no último ano letivo. "Estava a trabalhar no Porto, numa sexta-feira à tarde soube que fiquei colocada e na terça-feira apresentei-me ao serviço. Tive um dia útil para poder organizar, para poder avisar a escola onde trabalhava que não podiam contar mais comigo, de forma a que, no dia seguinte, pudesse apresentar-me na escola", recorda a jovem docente natural de Paços de Ferreira, que dá aulas ao 3.º ciclo e ao Ensino Secundário.
"Os meus filhos sofrem imenso"
Cristina Araújo já deu aulas de Norte a Sul do país. Em 2012/2013, lecionou em Lagos, o que a obrigava a viajar recorrentemente daquela cidade até ao aeroporto de Faro (uma distância de quase 100 quilómetros), para depois ter de viajar do Porto para Famalicão (mais uns 30 quilómetros). Passou também pela Amadora e um pouco por todo o Baixo Minho.
Agora, com um filho de cinco anos, diz que não pode "correr o risco de me afastar dele e concorrer para Lisboa ou para o Algarve, onde aí há falta de professores".
"Foi há cinco anos que deixei de concorrer a todo o país. A partir do momento em que ele nasce, a vida muda e a prioridade passa a ser ele".
Em Paredes, Daniela Neto também tem dois filhos, um com 12 e uma com três. E admite que "esta instabilidade e esta mudança constante de nunca sabermos como vai ser o nosso futuro ano após ano" complica a gestão da vida pessoal e familiar.
"Eles têm os horários deles, eles dependem de nós e, muitas vezes, tenho de organizar a escola, os horários, o ATL de um dia para o outro, o que é uma coisa difícil, porque temos de procurar sítios para eles ficarem quando nós não podemos ir buscá-los. A nossa maior dificuldade tem sido essa. Eu nunca sei como é que vai ser a minha vida daqui a dois ou três dias".
Além disso, a possibilidade de ficar num contrato temporário e ter de mudar de escola a meio do ano letivo pode obrigar a começar tudo de novo. "Os meus filhos sofrem imenso com isso porque passam a vida a mudar de forma de viver o dia", lamenta.
"As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, fica tudo à espera"
Marta é a mais jovem das três professoras, mas já viu a sua quota parte de curvas e contracurvas no concurso das colocações. Em 2020/2021, deu aulas de Português nos Olivais, em Lisboa, e conta também com formação para dar Espanhol (Língua Não-Materna).
Com a vida toda no Porto, fala de uma experiência que a deixa menos disposta a voltar a viajar para longe. Falta "vontade, facilidade e disposição para ir para um horário temporário", onde as condições dificultam a vida social e familiar.
"Tenho todo um historial pessoal suspenso e à espera que eu tenha uma vida organizada e estável. Há imensa coisa que fica pendente. As relações de proximidade ficam pendentes, as relações sociais também, a relação com a cultura, com a diversão, fica tudo à espera."
Durante a semana, Marta vivia em Lisboa. Todos os fins de semana, ia para o Porto, onde partilha casa com o namorado. O tempo perdido em viagens, fator que partilha com muitos professores que lecionam longe da sua área de residência - mesmo os que já foram colocados a 13 de agosto - é outra condicionante.
"Senti que estava em piloto-automático, que tinha de estar com o namorado ao fim de semana e à semana preparava as aulas. Foi um ano difícil, um ano em que passava grande parte do tempo em transportes públicos. Olho para o último ano letivo e vejo-me em transportes públicos."
Não só não se "sentia em casa em nenhuma das duas casas que tinha, porque não conseguia criar raízes de proximidade", como confessa que o esforço não compensou os gastos de viver em duas cidades.
"Economicamente, não foi nada estável. Eu tive de ir buscar dinheiro à minha conta-poupança para poder estar bem e continuar a vida que tinha. Eu saí do Porto, mas partilho um espaço com alguém. Portanto, ao ir viver em Lisboa, tinha que pagar duas casas, duas contas, duas Internets... Era tudo a dobrar. Na verdade, não compensou muito economicamente", disse.
Vinculação é caminho longo e exaustivo a percorrer
Para um professor poder efetivar contrato, tem de cumprir três anos seguidos em horário completo ou anual no mesmo Quadro de Zona Pedagógica, segundo o sistema de vinculação extraordinário, ou a chamada "norma-travão". No entanto, segundo as alterações recentes à legislação - fortemente criticadas pelos sindicatos - os professores elegíveis têm de concorrer na mesma a todo o país, sob pena de não poderem assinar um novo contrato.
São muitas as dificuldades para um professor efetivar contrato com uma escola ou agrupamento, a começar pelo facto de ser necessário cumprir um ano completo até ao dia 31 de agosto.
Cristina Araújo diz que esteve perto de passar aos quadros: esteve dois anos seguidos a substituir uma professora, começando sempre antes do dia 14 de setembro e indo sempre até ao dia 31 de agosto. No terceiro ano, Cristina tinha de ser colocada na contratação inicial, mas acabou por fazer uma nova substituição. Perdeu-se a oportunidade.
"Foram três anos que não foram contabilizados. Se por acaso fosse anual no meu contrato, já me contavam os dois para trás como sendo anuais. Aí conseguia efetivar. Nesses três anos, estive três anos consecutivos, 365 dias a trabalhar. No ano seguinte, como fui substituir uma professora de licença de maternidade, eu perdi os três anos para trás. Tenho de fazer novamente três anos para conseguir efetivar", explica.
E há ainda a questão de apenas os contratos até à segunda reserva de recrutamentos, anuais, poderem ser contados. Quem entrar numa escola mais tarde, estará a trabalhar o ano inteiro sem esse ano contar para uma possível vinculação.
Ana Marta Couto acredita que é "impensável" ser efetivada no Norte do país, onde há muitos mais professores, pelo que levará muito tempo a conseguir fazer três anos completos, seguidos. "É impossível acontecer isso. E só, eventualmente, poderia acontecer se eu me candidatasse para Lisboa, Algarve ou Alentejo, e para o interior, que é algo para o qual não estou disposta nem tenho de estar disposta a fazer, porque já percebi pela experiência que tive que não me compensa economicamente e pessoalmente tomar esse tipo de decisão".
Marta conta uma "má" experiência no ano transato. Entrou numa escola em outubro, com horário completo e temporário. Devia ter ficado até dezembro, mas acabou por continuar. Em vez de terminar o contrato a 31 de agosto, como tinha garantido a escola, foi dispensada em julho por não haver mais atividades letivas. "Pareceu-me pouco ético porque, havendo serviço e imensa coisa para tratar na escola, reuniões para organizar o próximo ano letivo, pessoalmente achei bastante incorreto por parte da escola de dispensar um professor a partir do momento em que as avaliações do terceiro período estão concluídas", critica a professora natural de Paços de Ferreira.
Efetivar só perto dos 50
As três professoras concordam que um professor só consegue imaginar uma possível vinculação definitiva já perto dos 50 anos. Daniela Neto, de Paredes, não se vê a efetivar de todo, por nunca tentar ficar longe dos dois filhos e da família, da qual é "muito agarrada".
"Costumo dizer que vou sair da carreira contratada, porque o tempo de serviço não corresponde aos 20 anos que eu trabalho. Tenho muito menos tempo de serviço, porque tenho andado em substituições, vou perdendo sempre dias e muitas vezes não fico até ao final do ano letivo. Por isso não tenho grandes esperanças", lamenta.
Marta também acredita que só ficará efetiva "aos 40 e muitos, 50 anos". Já Cristina, que diz contabilizar mais de 5000 dias de trabalho, que se traduzem em 15 anos de serviço (apesar de lecionar há quase 17), diz, esperançosa: "acredito que a minha vez esteja quase a chegar!"
"Isto para nós é uma angústia. Uma professora vai para uma empresa no setor privado, está dois, três anos, tem de efetivar. Aqui estão a tentar fazê-lo, mas criam ali uma alínea que causa um entrave enorme. Se tens o azar que eu tive de ficar a substituir uma professora que estava de licença de maternidade e se apresentou, aqueles três anos foram em vão. Não sei se isso é justo", questiona a professora famalicense.
Pandemia e stress pós-traumático. “Preparem-se para a incerteza” no regresso ao trabalho
Sandra Afonso, in RR
Com cerca de 70 artigos científicos publicados e uma vasta experiência na melhoria da performance no desporto de alto rendimento e em ambiente corporativo, o professor de fisiologia José Soares alerta que não há fórmulas mágicas para escapar aos efeitos da pandemia, que se podem traduzir em stress pós-traumático. As vitaminas e os banhos de sol só servem para fazer figura nas redes sociais.
“Preparem-se para a incerteza!”. O aviso é feito aos trabalhadores pelo professor catedrático José Soares, neste regresso ao trabalho e às empresas para quem tem estado em teletrabalho.
Em entrevista à Renascença, o professor de fisiologia da Universidade do Porto diz que, de uma forma geral, as empresas estão hoje mais empenhadas no bem-estar dos funcionários. Mas ainda existem as que só se interessam pelos resultados, enquanto outras não têm capacidade para fazer melhor.
O professor critica ainda os empresários que fazem figura à custa da exploração dos colaboradores, mas não alinha em queixas de “bullying” corporativo, um termo que não reconhece. Habituado a dar “workshops” e implementar programas em grandes empresas, deixa ainda dicas para quem quer melhorar o desempenho profissional.
Setembro, para a maioria das pessoas, é o mês do regresso ao trabalho, este ano para muitos é também o regresso às empresas, depois do teletrabalho imposto pela pandemia. Tem sugestões para facilitar esta transição?
Tenho trabalhado com inúmeras empresas das mais diferentes áreas e, neste momento, aquilo que se percebe é a incerteza. A minha sugestão é: preparem-se para a incerteza, para quando chegarem ao trabalho, principalmente aqueles que podem fazer teletrabalho.
Preparem-se para não saberem quantos dias é que vão ter que ir ao escritório, não saber qual é a sucessão desses dias, não saber se é possível fazer o trabalho todo remoto, não saber se é possível fazer o trabalho todo presencial, e talvez este seja o maior fator perturbador.
Ainda ontem estive num grande grupo económico português e estávamos a falar exatamente sobre isto. Ninguém tem certezas de como é que isto vai ser, podem ter trabalho para a próxima semana ou para as próximas duas semanas e de um momento para o outro mudar outra vez.
Qual é o impacto desta incerteza nos trabalhadores?
O impacto é o que se está a ver. É o aumento da ansiedade, dos fenómenos depressivos, é o aumento do consumo de substâncias aditivas. É o que já está descrito. A incerteza que hoje vivemos não vem apenas do trabalho, é também a incerteza relativamente à pandemia, sobre o estado de saúde dos familiares, o ambiente económico, etc…
Nós estamos a pagar e vamos continuar a pagar durante algum tempo um preço muito alto e, por isso, não se tem falado de mais nada, que não seja da saúde mental. O que acontece, e particularmente nos mais vulneráveis e nos que têm problemas adicionais (porque uma coisa é trabalhar em casa com uma divisão exclusiva para esse efeito, outra é estar em teletrabalho no mesmo espaço que o resto da família), há pessoas que sofrem muito mais do que outras. Hoje, o consenso geral é que isto está a ter um impacto muito grande na saúde mental.
"Não há fórmulas mágicas. Há pessoas que vão, e que já estão, a sofrer. Já se fala muito do stress pós-traumático quando sairmos deste ambiente"
Como é que os trabalhadores se podem proteger?
Essa é a pergunta "one million dolars", se soubesse estava milionário! Ontem pediram-me para arranjar um psiquiatra para uma pessoa amiga, as consultas dos profissionais que conheço, as mais próximas, são para novembro!
Não há fórmulas mágicas, essa ideia de que vou fazer isto, vou fazer aquilo, são coisas para o Facebook, Linkedin, Instagram ou qualquer outra rede social. A realidade é muito mais dura. Há pessoas que vão, e que já estão, a sofrer com isto. Já se fala muito do stress pós-traumático quando sairmos deste ambiente, que é uma coisa que acontece em ambientes altamente traumáticos, como a guerra. Pessoas que vão sentir o impacto ao longo da vida.
Isto não é: “tome vitaminas ou apanhe muito sol que vai resistir a tudo!” Não há nenhuma fórmula que não seja tentar mitigar o impacto dos efeitos negativos, através das estratégias que cada um pode encontrar. Eu tenho as minhas: estar o mais possível com pessoas que conheço, com a família, estar fisicamente ativo. Mas o ambiente é altamente disfuncional.
Os trabalhadores que se mantiveram nas empresas estão igualmente vulneráveis?
Restringirmos tudo isto ao trabalho remoto até é um bocadinho ofensivo, porque há muita gente para quem este tema não existe, sequer, e são essas pessoas que nos mantêm a todos. Estão nos supermercados, na logística, nas construções, na indústria. Sem elas não tínhamos sobrevivido a isto!
Muitas vezes não nos apercebemos de que há muitas empresas que têm um nível de diferenciação muito grande, mas depois há ali um conjunto de colaboradores, e é uma mancha relativamente grande, a quem o trabalho remoto não lhes diz respeito porque não o podem fazer, ganham um salário muito baixo, têm muito más condições, não têm condições, têm problemas familiares e nós estamos praticamente a falar do trabalho remoto. Claro que o trabalho remoto é um problema, mas não é transversal à sociedade.
E como podem as empresas ajudar os trabalhadores nesta fase?
Eu divido as empresas em três grupos. Umas estão significativamente preocupadas com o bem-estar dos colaboradores, e essas estão a fazer coisas: estão a discutir o melhor modelo para a pessoa, se é o modelo remoto completo, se é ir à empresa todos os dias, se é ir uma vez por mês, estão preocupados em ter meios de apoio à saúde mental, dar cursos às pessoas para gerirem melhor a sua vida do ponto de vista económico.
Depois há o que chamo de empresas indulgências: não se interessam nada com os colaboradores, exigem cada vez mais, as pessoas já não sabem distinguir a vida pessoal da vida profissional, são emails às 18h00, às 22h30, são reuniões intermináveis e depois fazem “workshops” sobre saúde mental, como se fosse uma indulgência!
O terceiro grupo de empresas estão a titubear, estão a ver o que é que isto vai dar, vão experimentando, muitas vezes não têm recursos suficientes para dar estes benefícios aos colaboradores, e nestas enquadram-se também empresas que não podem fazer trabalho remoto.
O tecido empresarial nacional segue uma cultura protetora para com os funcionários?
Tenho que ser otimista, porque quem me contrata está no primeiro grupo. São pessoas que fazem parte de organizações que genuinamente estão preocupadas com as pessoas e pedem-me ajuda, seja para formações ou implementar programas de bem-estar, saúde mental, o que quer que seja.
Também já contactei com outras empresas que a única coisa que fazem é contratar um “workshop”, sobre a saúde mental, o impacto do stress e da fadiga na performance ou na produtividade das pessoas e pronto, cumpriram com o seu dever.
Percentagens não sei. Tenho trabalhado mais diretamente com empresas do primeiro grupo, perceberam que a produtividade do colaborador vai muito para além disso.
Ainda subsiste muito no país a ideia de que quanto mais tarde o funcionário sai, mais bem visto fica perante as chefias?
De uma forma geral ainda temos muito essa cultura, mas não somos só nós! Não é só em Portugal! Não vou agora estar a referir, mas qualquer pessoa saberá de quem é que eu estou a falar, há muitos conhecidos, líderes, que escrevem livros, que são referências internacionais, que os trabalhadores trabalham em condições péssimas! Em condições praticamente desumanas, para terem lucros verdadeiramente vertiginosos.
Aliás, veja o que aconteceu a todo o nosso online e para acontecer esse boom houve pessoas que tiveram que trabalhar incessantemente.
Eu tenho uma boa ideia dos portugueses, não acho que sejam menos respeitosos relativamente aos colaboradores. Claro que há pessoas menos respeitosas, como há em todo o mundo. É só abrir o jornal e ver o que acontece a grandes empresas que são consideradas referência e vejam como tratam os trabalhadores mais desqualificados.
Antes desta crise um estudo de uma consultora mundial sobre o mercado laboral português (Hays, 2019) concluiu que uma percentagem significativa dos trabalhadores não estava satisfeita no emprego e queria mudar. Esta percentagem poderá ser agora maior?
A minha impressão é que as coisas melhoraram significativamente. Porquê? Porque as pessoas perceberam, em situação de crise, que há pessoas que estão muito desprotegidas. Eu estou sistematicamente a receber convites para falar nesta perspetiva: nunca como agora é necessário apoiar os nossos colaboradores, nunca como agora é importante que as pessoas percebam a importância da empresa ter uma elevada capacidade produtiva, mas isto só é possível se as pessoas estiverem equilibradas e nós temos que lhes dar ferramentas.
Se me perguntar, da minha experiência, isto está melhor. As pessoas estão a sofrer mais, mas, por causa disso, as empresas estão a fazer mais para que as pessoas sofram menos.
ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO
Por outro lado, têm sido notícia episódios de “bullying” corporativo e funcionários que se dizem perseguidos e pressionados pelas chefias.
Eu tenho muita dificuldade em definir o que é “bullying”, ainda não percebi, sinceramente, o que é, numa definição. Por exemplo, há uma definição para o “burnout”. Mas pode ser ignorância minha, admito isso.
Tudo o que seja maltratar as pessoas, falta de respeito, desconsiderar, não estou a ver que seja de agora! Não é de descartar a hipótese de termos um chefe imbecil! Ou um tipo completamente “workaholic” que acha que na vida o único objetivo é o trabalho e obrigar que todos os outros, que estão abaixo dele, tenham exatamente a mesma perspetiva da vida.
Admite, assim, que possa existir este chamado “bullying” no trabalho?
Acredito que haja isso que se chama “bullying”, que presumo que seja qualquer coisa relacionado com tratar mal as pessoas e esse tratar mal é uma coisa qualitativa, não é quantitativa. Para mim "tratar mal" pode ser uma coisa completamente diferente do que é para si. Mas não consigo balizar exatamente o que é o “bullying”.
Acho que se vulgarizaram muito os termos. Mesmo o “burnout”, que de um momento para o outro foi completamente vulgarizado! Se perguntar, a maioria das pessoas não sabe dizer nem o que é o “burnout”. “Ah, estou cansado!” Cansado, não é “burnout”!. As pessoas falam de “bullying”, então o que é “bullying” e o que não é “bullying”?
Se me diz que há maus tratos aos colaboradores das empresas, claro que há! Mas, não sei se é de agora. Da minha experiência, nunca vi tanta preocupação com os funcionários como agora.
Fala muito de performance, já utilizou o termo nesta entrevista. Como se distingue da produtividade?
Ao ouvirem esta entrevista, as pessoas vão dizer: "este tipo disse umas coisas que têm interesse", ou não, "foi uma perda de tempo estar a ouvir o José Soares a falar". Isso mede a minha produtividade nesta entrevista.
Outra coisa é a performance, é muito mais global. Eu, para falar consigo, tenho que estar bem, senão não vão sair as palavras adequadas, vou-me esquecer de alguns exemplos, se calhar, se estiver com um nível de stress muito alto vou ser demasiado agressivo nas expressões, vou ser demasiado assertivo, menos paciente. Tudo isto são sinais e sintomas de stress.
"Da minha experiência, nunca vi tanta preocupação com os funcionários como agora"
No livro "RELOAD - Menos stress. Melhor performance.", desconstrói a performance em 4 “Rs”.
O primeiro R é o da Recuperação ("Recover"): um dos segredos da performance elevada é eu conseguir recuperar. Pedi para termos esta entrevista a esta hora, porque tive uma reunião antes e vou ter outra exatamente a seguir. O que é que vai condicionar a minha performance? É a rapidez com que vou recuperar desta conversa e da reunião que vou ter a seguir, que é para mim importantíssima, e depois tenho outra. A recuperação faz-se ainda entre os dias: é eu estar aqui a falar consigo depois de ter tido uma noite péssima. A recuperação é um fator decisivo entre os atletas, doentes e mundo corporativo.
O segundo R é aquilo que chamei o Reabastecer (“Refuel”): conseguirmos utilizar melhor o combustível durante o dia, e isso passa muito por uma alimentação equilibrada, adequada, sem exagero nem dietas exageradas. As pessoas não podem estar 5, 6, 7 horas sem comer, ainda que haja dietas que sugerem esse tipo de padrão alimentar, do qual eu discordo.
O terceiro é Repensar ("Rethink”): repensar a forma como nós encaramos, inclusivamente, a nossa personalidade. Com esta ideia de que tudo é possível mudar, que podemos ser mais felizes, mais positivos, etc… é relativamente mais tranquilizador se olharmos para isto e repensarmos que, muito provavelmente, a chamada neurodivergência é muito mais comum. Há pessoas que são intrinsecamente pessimistas, ou individualistas, e não é por isso que deixam de ser úteis. Vale a pena pensar este modo que adotámos de que tudo é possível mudar, eu não oiço amanhã um orador motivacional e deixo de ser pessimista, isso não é possível!
O último é Reenergizar (“Reenergize”): vem de diferentes coisas, pode ser as pessoas terem tempo para si, para relaxar, o que quer que seja. No meu caso, o que valorizo mais é o exercício, é ser fisicamente ativo. Gasto energia para depois ter mais energia.
Com a pandemia há agora ainda mais necessidade de aplicar estes 4 “Rs”?
O que é que a pandemia trouxe? As pessoas começaram a dormir mal, começam a recuperar pouco. Começam-se a alimentar mal, porque ou têm reuniões incessantes ou não têm tempo para se alimentar. Começam a ter uma perspetiva muito negativa da vida, nesta questão do repensar. E tornaram-se mais sedentárias, e isso acaba por ter um impacto muito grande, não só na performance, mas também no bem-estar das pessoas.
Nesta altura ainda há muitos portugueses de férias, que conselhos tem para aproveitarem da melhor forma esta pausa?
Cada um tem que encontrar aquilo que lhe agrada mais e aquilo que é mais adequado ao seu estado de espírito, à sua personalidade, às condições em que está, por isso é impossível fazer uma fórmula para toda a gente.
Para mim, por exemplo, aquilo que eu mais gosto de fazer nas férias é o que normalmente se chama o "dolce fare niente". Oscilo entre o não fazer nada, o direito à preguiça, com coisas que me agradam, sendo fisicamente ativo, o exercício para mim é o melhor coadjuvante terapêutico para a minha saúde mental. Mas admito que há pessoas que é exatamente o contrário, tempo de férias é o direito à preguiça total e inclui não me preocupar com alimentação ou correr, quero é estar de papo para o ar, a carregar as baterias para o ano que aí vem.
As pessoas têm que encontrar a fórmula mais adequada para o seu estilo de vida, mas há aqui uma regra que considero decisiva: as pessoas têm que encontrar tempo para cuidar delas. É aquilo que eu chamo o princípio da máscara de oxigénio, ou seja, para cuidar dos outros tenho primeiro que cuidar a mim. No avião, quando há uma despressurização, primeiro colocamos a máscara em nós e só depois na criança! Muitas vezes o que acontece é que nas férias as pessoas acabam mais cansadas do que quando estão a trabalhar, porque não respeitaram o princípio da máscara de oxigénio. Respeitar este princípio parece uma coisa jocosa, mas não é, nem tão pouco egoísta, é muito altruísta!
Com cerca de 70 artigos científicos publicados e uma vasta experiência na melhoria da performance no desporto de alto rendimento e em ambiente corporativo, o professor de fisiologia José Soares alerta que não há fórmulas mágicas para escapar aos efeitos da pandemia, que se podem traduzir em stress pós-traumático. As vitaminas e os banhos de sol só servem para fazer figura nas redes sociais.
“Preparem-se para a incerteza!”. O aviso é feito aos trabalhadores pelo professor catedrático José Soares, neste regresso ao trabalho e às empresas para quem tem estado em teletrabalho.
Em entrevista à Renascença, o professor de fisiologia da Universidade do Porto diz que, de uma forma geral, as empresas estão hoje mais empenhadas no bem-estar dos funcionários. Mas ainda existem as que só se interessam pelos resultados, enquanto outras não têm capacidade para fazer melhor.
O professor critica ainda os empresários que fazem figura à custa da exploração dos colaboradores, mas não alinha em queixas de “bullying” corporativo, um termo que não reconhece. Habituado a dar “workshops” e implementar programas em grandes empresas, deixa ainda dicas para quem quer melhorar o desempenho profissional.
Setembro, para a maioria das pessoas, é o mês do regresso ao trabalho, este ano para muitos é também o regresso às empresas, depois do teletrabalho imposto pela pandemia. Tem sugestões para facilitar esta transição?
Tenho trabalhado com inúmeras empresas das mais diferentes áreas e, neste momento, aquilo que se percebe é a incerteza. A minha sugestão é: preparem-se para a incerteza, para quando chegarem ao trabalho, principalmente aqueles que podem fazer teletrabalho.
Preparem-se para não saberem quantos dias é que vão ter que ir ao escritório, não saber qual é a sucessão desses dias, não saber se é possível fazer o trabalho todo remoto, não saber se é possível fazer o trabalho todo presencial, e talvez este seja o maior fator perturbador.
Ainda ontem estive num grande grupo económico português e estávamos a falar exatamente sobre isto. Ninguém tem certezas de como é que isto vai ser, podem ter trabalho para a próxima semana ou para as próximas duas semanas e de um momento para o outro mudar outra vez.
Qual é o impacto desta incerteza nos trabalhadores?
O impacto é o que se está a ver. É o aumento da ansiedade, dos fenómenos depressivos, é o aumento do consumo de substâncias aditivas. É o que já está descrito. A incerteza que hoje vivemos não vem apenas do trabalho, é também a incerteza relativamente à pandemia, sobre o estado de saúde dos familiares, o ambiente económico, etc…
Nós estamos a pagar e vamos continuar a pagar durante algum tempo um preço muito alto e, por isso, não se tem falado de mais nada, que não seja da saúde mental. O que acontece, e particularmente nos mais vulneráveis e nos que têm problemas adicionais (porque uma coisa é trabalhar em casa com uma divisão exclusiva para esse efeito, outra é estar em teletrabalho no mesmo espaço que o resto da família), há pessoas que sofrem muito mais do que outras. Hoje, o consenso geral é que isto está a ter um impacto muito grande na saúde mental.
"Não há fórmulas mágicas. Há pessoas que vão, e que já estão, a sofrer. Já se fala muito do stress pós-traumático quando sairmos deste ambiente"
Como é que os trabalhadores se podem proteger?
Essa é a pergunta "one million dolars", se soubesse estava milionário! Ontem pediram-me para arranjar um psiquiatra para uma pessoa amiga, as consultas dos profissionais que conheço, as mais próximas, são para novembro!
Não há fórmulas mágicas, essa ideia de que vou fazer isto, vou fazer aquilo, são coisas para o Facebook, Linkedin, Instagram ou qualquer outra rede social. A realidade é muito mais dura. Há pessoas que vão, e que já estão, a sofrer com isto. Já se fala muito do stress pós-traumático quando sairmos deste ambiente, que é uma coisa que acontece em ambientes altamente traumáticos, como a guerra. Pessoas que vão sentir o impacto ao longo da vida.
Isto não é: “tome vitaminas ou apanhe muito sol que vai resistir a tudo!” Não há nenhuma fórmula que não seja tentar mitigar o impacto dos efeitos negativos, através das estratégias que cada um pode encontrar. Eu tenho as minhas: estar o mais possível com pessoas que conheço, com a família, estar fisicamente ativo. Mas o ambiente é altamente disfuncional.
Os trabalhadores que se mantiveram nas empresas estão igualmente vulneráveis?
Restringirmos tudo isto ao trabalho remoto até é um bocadinho ofensivo, porque há muita gente para quem este tema não existe, sequer, e são essas pessoas que nos mantêm a todos. Estão nos supermercados, na logística, nas construções, na indústria. Sem elas não tínhamos sobrevivido a isto!
Muitas vezes não nos apercebemos de que há muitas empresas que têm um nível de diferenciação muito grande, mas depois há ali um conjunto de colaboradores, e é uma mancha relativamente grande, a quem o trabalho remoto não lhes diz respeito porque não o podem fazer, ganham um salário muito baixo, têm muito más condições, não têm condições, têm problemas familiares e nós estamos praticamente a falar do trabalho remoto. Claro que o trabalho remoto é um problema, mas não é transversal à sociedade.
E como podem as empresas ajudar os trabalhadores nesta fase?
Eu divido as empresas em três grupos. Umas estão significativamente preocupadas com o bem-estar dos colaboradores, e essas estão a fazer coisas: estão a discutir o melhor modelo para a pessoa, se é o modelo remoto completo, se é ir à empresa todos os dias, se é ir uma vez por mês, estão preocupados em ter meios de apoio à saúde mental, dar cursos às pessoas para gerirem melhor a sua vida do ponto de vista económico.
Depois há o que chamo de empresas indulgências: não se interessam nada com os colaboradores, exigem cada vez mais, as pessoas já não sabem distinguir a vida pessoal da vida profissional, são emails às 18h00, às 22h30, são reuniões intermináveis e depois fazem “workshops” sobre saúde mental, como se fosse uma indulgência!
O terceiro grupo de empresas estão a titubear, estão a ver o que é que isto vai dar, vão experimentando, muitas vezes não têm recursos suficientes para dar estes benefícios aos colaboradores, e nestas enquadram-se também empresas que não podem fazer trabalho remoto.
O tecido empresarial nacional segue uma cultura protetora para com os funcionários?
Tenho que ser otimista, porque quem me contrata está no primeiro grupo. São pessoas que fazem parte de organizações que genuinamente estão preocupadas com as pessoas e pedem-me ajuda, seja para formações ou implementar programas de bem-estar, saúde mental, o que quer que seja.
Também já contactei com outras empresas que a única coisa que fazem é contratar um “workshop”, sobre a saúde mental, o impacto do stress e da fadiga na performance ou na produtividade das pessoas e pronto, cumpriram com o seu dever.
Percentagens não sei. Tenho trabalhado mais diretamente com empresas do primeiro grupo, perceberam que a produtividade do colaborador vai muito para além disso.
Ainda subsiste muito no país a ideia de que quanto mais tarde o funcionário sai, mais bem visto fica perante as chefias?
De uma forma geral ainda temos muito essa cultura, mas não somos só nós! Não é só em Portugal! Não vou agora estar a referir, mas qualquer pessoa saberá de quem é que eu estou a falar, há muitos conhecidos, líderes, que escrevem livros, que são referências internacionais, que os trabalhadores trabalham em condições péssimas! Em condições praticamente desumanas, para terem lucros verdadeiramente vertiginosos.
Aliás, veja o que aconteceu a todo o nosso online e para acontecer esse boom houve pessoas que tiveram que trabalhar incessantemente.
Eu tenho uma boa ideia dos portugueses, não acho que sejam menos respeitosos relativamente aos colaboradores. Claro que há pessoas menos respeitosas, como há em todo o mundo. É só abrir o jornal e ver o que acontece a grandes empresas que são consideradas referência e vejam como tratam os trabalhadores mais desqualificados.
Antes desta crise um estudo de uma consultora mundial sobre o mercado laboral português (Hays, 2019) concluiu que uma percentagem significativa dos trabalhadores não estava satisfeita no emprego e queria mudar. Esta percentagem poderá ser agora maior?
A minha impressão é que as coisas melhoraram significativamente. Porquê? Porque as pessoas perceberam, em situação de crise, que há pessoas que estão muito desprotegidas. Eu estou sistematicamente a receber convites para falar nesta perspetiva: nunca como agora é necessário apoiar os nossos colaboradores, nunca como agora é importante que as pessoas percebam a importância da empresa ter uma elevada capacidade produtiva, mas isto só é possível se as pessoas estiverem equilibradas e nós temos que lhes dar ferramentas.
Se me perguntar, da minha experiência, isto está melhor. As pessoas estão a sofrer mais, mas, por causa disso, as empresas estão a fazer mais para que as pessoas sofram menos.
ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO
Por outro lado, têm sido notícia episódios de “bullying” corporativo e funcionários que se dizem perseguidos e pressionados pelas chefias.
Eu tenho muita dificuldade em definir o que é “bullying”, ainda não percebi, sinceramente, o que é, numa definição. Por exemplo, há uma definição para o “burnout”. Mas pode ser ignorância minha, admito isso.
Tudo o que seja maltratar as pessoas, falta de respeito, desconsiderar, não estou a ver que seja de agora! Não é de descartar a hipótese de termos um chefe imbecil! Ou um tipo completamente “workaholic” que acha que na vida o único objetivo é o trabalho e obrigar que todos os outros, que estão abaixo dele, tenham exatamente a mesma perspetiva da vida.
Admite, assim, que possa existir este chamado “bullying” no trabalho?
Acredito que haja isso que se chama “bullying”, que presumo que seja qualquer coisa relacionado com tratar mal as pessoas e esse tratar mal é uma coisa qualitativa, não é quantitativa. Para mim "tratar mal" pode ser uma coisa completamente diferente do que é para si. Mas não consigo balizar exatamente o que é o “bullying”.
Acho que se vulgarizaram muito os termos. Mesmo o “burnout”, que de um momento para o outro foi completamente vulgarizado! Se perguntar, a maioria das pessoas não sabe dizer nem o que é o “burnout”. “Ah, estou cansado!” Cansado, não é “burnout”!. As pessoas falam de “bullying”, então o que é “bullying” e o que não é “bullying”?
Se me diz que há maus tratos aos colaboradores das empresas, claro que há! Mas, não sei se é de agora. Da minha experiência, nunca vi tanta preocupação com os funcionários como agora.
Fala muito de performance, já utilizou o termo nesta entrevista. Como se distingue da produtividade?
Ao ouvirem esta entrevista, as pessoas vão dizer: "este tipo disse umas coisas que têm interesse", ou não, "foi uma perda de tempo estar a ouvir o José Soares a falar". Isso mede a minha produtividade nesta entrevista.
Outra coisa é a performance, é muito mais global. Eu, para falar consigo, tenho que estar bem, senão não vão sair as palavras adequadas, vou-me esquecer de alguns exemplos, se calhar, se estiver com um nível de stress muito alto vou ser demasiado agressivo nas expressões, vou ser demasiado assertivo, menos paciente. Tudo isto são sinais e sintomas de stress.
"Da minha experiência, nunca vi tanta preocupação com os funcionários como agora"
No livro "RELOAD - Menos stress. Melhor performance.", desconstrói a performance em 4 “Rs”.
O primeiro R é o da Recuperação ("Recover"): um dos segredos da performance elevada é eu conseguir recuperar. Pedi para termos esta entrevista a esta hora, porque tive uma reunião antes e vou ter outra exatamente a seguir. O que é que vai condicionar a minha performance? É a rapidez com que vou recuperar desta conversa e da reunião que vou ter a seguir, que é para mim importantíssima, e depois tenho outra. A recuperação faz-se ainda entre os dias: é eu estar aqui a falar consigo depois de ter tido uma noite péssima. A recuperação é um fator decisivo entre os atletas, doentes e mundo corporativo.
O segundo R é aquilo que chamei o Reabastecer (“Refuel”): conseguirmos utilizar melhor o combustível durante o dia, e isso passa muito por uma alimentação equilibrada, adequada, sem exagero nem dietas exageradas. As pessoas não podem estar 5, 6, 7 horas sem comer, ainda que haja dietas que sugerem esse tipo de padrão alimentar, do qual eu discordo.
O terceiro é Repensar ("Rethink”): repensar a forma como nós encaramos, inclusivamente, a nossa personalidade. Com esta ideia de que tudo é possível mudar, que podemos ser mais felizes, mais positivos, etc… é relativamente mais tranquilizador se olharmos para isto e repensarmos que, muito provavelmente, a chamada neurodivergência é muito mais comum. Há pessoas que são intrinsecamente pessimistas, ou individualistas, e não é por isso que deixam de ser úteis. Vale a pena pensar este modo que adotámos de que tudo é possível mudar, eu não oiço amanhã um orador motivacional e deixo de ser pessimista, isso não é possível!
O último é Reenergizar (“Reenergize”): vem de diferentes coisas, pode ser as pessoas terem tempo para si, para relaxar, o que quer que seja. No meu caso, o que valorizo mais é o exercício, é ser fisicamente ativo. Gasto energia para depois ter mais energia.
Com a pandemia há agora ainda mais necessidade de aplicar estes 4 “Rs”?
O que é que a pandemia trouxe? As pessoas começaram a dormir mal, começam a recuperar pouco. Começam-se a alimentar mal, porque ou têm reuniões incessantes ou não têm tempo para se alimentar. Começam a ter uma perspetiva muito negativa da vida, nesta questão do repensar. E tornaram-se mais sedentárias, e isso acaba por ter um impacto muito grande, não só na performance, mas também no bem-estar das pessoas.
Nesta altura ainda há muitos portugueses de férias, que conselhos tem para aproveitarem da melhor forma esta pausa?
Cada um tem que encontrar aquilo que lhe agrada mais e aquilo que é mais adequado ao seu estado de espírito, à sua personalidade, às condições em que está, por isso é impossível fazer uma fórmula para toda a gente.
Para mim, por exemplo, aquilo que eu mais gosto de fazer nas férias é o que normalmente se chama o "dolce fare niente". Oscilo entre o não fazer nada, o direito à preguiça, com coisas que me agradam, sendo fisicamente ativo, o exercício para mim é o melhor coadjuvante terapêutico para a minha saúde mental. Mas admito que há pessoas que é exatamente o contrário, tempo de férias é o direito à preguiça total e inclui não me preocupar com alimentação ou correr, quero é estar de papo para o ar, a carregar as baterias para o ano que aí vem.
As pessoas têm que encontrar a fórmula mais adequada para o seu estilo de vida, mas há aqui uma regra que considero decisiva: as pessoas têm que encontrar tempo para cuidar delas. É aquilo que eu chamo o princípio da máscara de oxigénio, ou seja, para cuidar dos outros tenho primeiro que cuidar a mim. No avião, quando há uma despressurização, primeiro colocamos a máscara em nós e só depois na criança! Muitas vezes o que acontece é que nas férias as pessoas acabam mais cansadas do que quando estão a trabalhar, porque não respeitaram o princípio da máscara de oxigénio. Respeitar este princípio parece uma coisa jocosa, mas não é, nem tão pouco egoísta, é muito altruísta!
Demência vai mais que duplicar em 30 anos e já é sétima causa de morte no mundo
in RR
Estimativas são da Organização Mundial de Saúde. Com mais de 14 milhões, Europa é atualmente a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência.
A demência, a sétima causa de morte no mundo em 2019, afeta 55 milhões de pessoas, um número que deve aumentar para os 139 milhões em 2050, alertou esta quinta-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Apenas um quarto dos países de todo o mundo tem uma política, uma estratégia ou um plano nacional para apoiar as pessoas com demência e as suas famílias”, salienta o relatório da OMS que analisa resposta global de saúde pública à demência hoje divulgado.
Segundo a organização com sede em Genebra, apesar de cerca de metade destes países se situar na Europa, muitos planos e estratégias nacionais para a demência necessitam de ser atualizados e renovados por parte dos respetivos governos europeus.
A demência é uma síndrome geralmente de natureza crónica ou progressiva, que leva à deterioração da função cognitiva - a capacidade de processar o pensamento - para além do esperado em circunstâncias normais de envelhecimento.
Resultante de lesões ou de doenças que afetam o cérebro, como a Alzheimer, esta condição afeta a memória, o pensamento, a orientação, a compreensão, a capacidade de aprendizagem e a linguagem, entre outras funções.
Segundo o relatório da OMS, o número de pessoas com demência está a crescer em todo o mundo, estimando-se que atualmente 55 milhões de pessoas com mais de 65 anos sofram desta síndrome, valor que deve aumentar para os 78 milhões em 2030 e para os 139 milhões em 2050.
Com mais de 14 milhões, Europa é a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência, atrás da região do Pacífico Ocidental (20,1 milhões).
“O crescimento populacional e a maior longevidade, combinados com o aumento de certos fatores de risco de demência, levaram a um crescimento dramático no número de mortes causadas por demência nos últimos 20 anos. Em 2019, 1,6 milhão de mortes ocorreram em todo o mundo devido à demência, tornando-se a sétima causa de morte”, sublinha o documento.
O relatório alerta ainda que as pessoas com doenças neurológicas, incluindo demência, são mais vulneráveis à infeção pelo vírus SARS-CoV-2, correndo maior risco de internamentos prolongados e de sofrerem uma forma agravada de covid-19 e de morte.
De acordo com a OMS, é assim urgente reforçar o apoio a nível nacional, tanto às pessoas com demência, ao nível dos cuidados primários e especializados de saúde, de serviços sociais, de reabilitação e de cuidados a longo prazo e paliativos, mas também no apoio aos seus cuidadores formais e informais.
“Em países de rendimento médio e baixo, a maioria dos custos do tratamento da demência são atribuíveis aos cuidados informais (65%). Em países mais ricos, os custos informais e de assistência social chegam a aproximadamente 40% cada um”, refere o relatório.
Em 2019, os cuidadores, na sua maioria membros da família, gastavam em média cinco horas por dia no apoio às pessoas de quem cuidavam com demência, sendo cerca de 70% desse acompanhamento realizado por mulheres.
“Dada a pressão financeira, social e psicológica enfrentada pelos cuidadores, o acesso à informação, formação e serviços, bem como o apoio social e financeiro, é particularmente importante. Atualmente, 75% dos países relatam que oferecem algum nível de apoio aos cuidadores, embora, novamente, estes sejam principalmente países de alto rendimento”, indica.
De acordo com a OMS, uma série de ensaios clínicos mal sucedidos para o tratamento da demência e os elevados custos de pesquisa e desenvolvimento levaram ao “declínio do interesse em desenvolver novos esforços” científicos nesta matéria.
“No entanto, houve um aumento recente no financiamento de pesquisas sobre demência, principalmente em países de alto rendimento, como o Canadá, o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Este último aumentou seu investimento anual na pesquisa da doença de Alzheimer de 631 milhões de dólares (cerca de 532 milhões de euros) em 2015 para uma estimativa de 2,8 mil milhões (cerca de 2,3 mil milhões de euros) em 2020”, adiantou a organização.
Este relatório sobre a situação global da doença faz um balanço do progresso feito para atingir as metas globais de 2025 estabelecidas no Plano de Ação Global para a Demência da OMS, publicado em 2017.
Estimativas são da Organização Mundial de Saúde. Com mais de 14 milhões, Europa é atualmente a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência.
A demência, a sétima causa de morte no mundo em 2019, afeta 55 milhões de pessoas, um número que deve aumentar para os 139 milhões em 2050, alertou esta quinta-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Apenas um quarto dos países de todo o mundo tem uma política, uma estratégia ou um plano nacional para apoiar as pessoas com demência e as suas famílias”, salienta o relatório da OMS que analisa resposta global de saúde pública à demência hoje divulgado.
Segundo a organização com sede em Genebra, apesar de cerca de metade destes países se situar na Europa, muitos planos e estratégias nacionais para a demência necessitam de ser atualizados e renovados por parte dos respetivos governos europeus.
A demência é uma síndrome geralmente de natureza crónica ou progressiva, que leva à deterioração da função cognitiva - a capacidade de processar o pensamento - para além do esperado em circunstâncias normais de envelhecimento.
Resultante de lesões ou de doenças que afetam o cérebro, como a Alzheimer, esta condição afeta a memória, o pensamento, a orientação, a compreensão, a capacidade de aprendizagem e a linguagem, entre outras funções.
Segundo o relatório da OMS, o número de pessoas com demência está a crescer em todo o mundo, estimando-se que atualmente 55 milhões de pessoas com mais de 65 anos sofram desta síndrome, valor que deve aumentar para os 78 milhões em 2030 e para os 139 milhões em 2050.
Com mais de 14 milhões, Europa é a segunda região do mundo com maior número de pessoas com demência, atrás da região do Pacífico Ocidental (20,1 milhões).
“O crescimento populacional e a maior longevidade, combinados com o aumento de certos fatores de risco de demência, levaram a um crescimento dramático no número de mortes causadas por demência nos últimos 20 anos. Em 2019, 1,6 milhão de mortes ocorreram em todo o mundo devido à demência, tornando-se a sétima causa de morte”, sublinha o documento.
O relatório alerta ainda que as pessoas com doenças neurológicas, incluindo demência, são mais vulneráveis à infeção pelo vírus SARS-CoV-2, correndo maior risco de internamentos prolongados e de sofrerem uma forma agravada de covid-19 e de morte.
De acordo com a OMS, é assim urgente reforçar o apoio a nível nacional, tanto às pessoas com demência, ao nível dos cuidados primários e especializados de saúde, de serviços sociais, de reabilitação e de cuidados a longo prazo e paliativos, mas também no apoio aos seus cuidadores formais e informais.
“Em países de rendimento médio e baixo, a maioria dos custos do tratamento da demência são atribuíveis aos cuidados informais (65%). Em países mais ricos, os custos informais e de assistência social chegam a aproximadamente 40% cada um”, refere o relatório.
Em 2019, os cuidadores, na sua maioria membros da família, gastavam em média cinco horas por dia no apoio às pessoas de quem cuidavam com demência, sendo cerca de 70% desse acompanhamento realizado por mulheres.
“Dada a pressão financeira, social e psicológica enfrentada pelos cuidadores, o acesso à informação, formação e serviços, bem como o apoio social e financeiro, é particularmente importante. Atualmente, 75% dos países relatam que oferecem algum nível de apoio aos cuidadores, embora, novamente, estes sejam principalmente países de alto rendimento”, indica.
De acordo com a OMS, uma série de ensaios clínicos mal sucedidos para o tratamento da demência e os elevados custos de pesquisa e desenvolvimento levaram ao “declínio do interesse em desenvolver novos esforços” científicos nesta matéria.
“No entanto, houve um aumento recente no financiamento de pesquisas sobre demência, principalmente em países de alto rendimento, como o Canadá, o Reino Unido e os Estados Unidos da América. Este último aumentou seu investimento anual na pesquisa da doença de Alzheimer de 631 milhões de dólares (cerca de 532 milhões de euros) em 2015 para uma estimativa de 2,8 mil milhões (cerca de 2,3 mil milhões de euros) em 2020”, adiantou a organização.
Este relatório sobre a situação global da doença faz um balanço do progresso feito para atingir as metas globais de 2025 estabelecidas no Plano de Ação Global para a Demência da OMS, publicado em 2017.
Município de Alijó promove formação na área do voluntariado
in Notícias de Vila Real
O Município de Alijó vai desenvolver o projeto formativo “Geração V_Projeto de Capacitação para o Voluntariado”, a partir de setembro, no âmbito do Aviso POISE-35-2019-16, relativo à Tipologia de Intervenção: 35 ‐ Promoção do voluntariado, cujo organismo intermédio é a CASES. Com esta iniciativa, o Município reforça a sua adesão a esta causa e assume o compromisso de dinamizar políticas locais de promoção do voluntariado de continuidade..
O projeto formativo visa o desenvolvimento de ações de formação e de sensibilização para um voluntariado de continuidade nas áreas promotoras de inclusão social, como garantia de informação referente aos direitos e deveres de um voluntário, bem como para a sensibilização de diferentes entidades da economia social sobre a importância e as vantagens, na sua atividade diária, de saber potenciar o apoio voluntário.
Esta iniciativa tem como parceiros: Escola de Voluntariado Pista Mágica, Entrajuda Apoio a Instituição de Solidariedade Social, Alzheimer Portugal, Liga Portuguesa Contra o Cancro, EAPN Portugal e Ana Marques Coaching de Alta Performance. O programa formativo e as inscrições estão disponíveis em www.cm-alijo.pt ou nos Serviços de Ação Social do Município de Alijó.
O Município de Alijó vai desenvolver o projeto formativo “Geração V_Projeto de Capacitação para o Voluntariado”, a partir de setembro, no âmbito do Aviso POISE-35-2019-16, relativo à Tipologia de Intervenção: 35 ‐ Promoção do voluntariado, cujo organismo intermédio é a CASES. Com esta iniciativa, o Município reforça a sua adesão a esta causa e assume o compromisso de dinamizar políticas locais de promoção do voluntariado de continuidade..
O projeto formativo visa o desenvolvimento de ações de formação e de sensibilização para um voluntariado de continuidade nas áreas promotoras de inclusão social, como garantia de informação referente aos direitos e deveres de um voluntário, bem como para a sensibilização de diferentes entidades da economia social sobre a importância e as vantagens, na sua atividade diária, de saber potenciar o apoio voluntário.
Esta iniciativa tem como parceiros: Escola de Voluntariado Pista Mágica, Entrajuda Apoio a Instituição de Solidariedade Social, Alzheimer Portugal, Liga Portuguesa Contra o Cancro, EAPN Portugal e Ana Marques Coaching de Alta Performance. O programa formativo e as inscrições estão disponíveis em www.cm-alijo.pt ou nos Serviços de Ação Social do Município de Alijó.
2.9.21
Bruxelas já adiantou 48,7 mil milhões do plano de recuperação a 10 países europeus
in Público on-line
A Comissão Europeia desembolsou esta quinta-feira 201 milhões de euros à Dinamarca em pré-financiamento das verbas da recuperação pós-crise da covid-19, elevando para 48,7 mil milhões o total de pagamentos iniciais feitos a 10 países da União Europeia (UE).
“A Comissão Europeia desembolsou hoje 201 milhões de euros para a Dinamarca em pré-financiamento, o que equivale a 13% da dotação financeira do país ao abrigo do Mecanismo de Recuperação e Resiliência”, anunciou o porta-voz da Comissão Europeia Daniel Ferrie.
Falando na conferência de imprensa diária do executivo comunitário, em Bruxelas, Daniel Ferrie acrescentou que, “incluindo os pagamentos de hoje, a Comissão desembolsou até agora 48,7 mil milhões de euros para 10 Estados-membros em pré-financiamento”. “E esperamos continuar com o desembolso de pré-financiamento a outros Estados-membros ao longo do mês de Setembro”, adiantou.
No início de Agosto, a Comissão Europeia desembolsou 2,2 mil milhões de euros a Portugal referente ao pré-financiamento de 13% do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num montante global de 16,6 mil milhões de euros, aprovado no mês anterior. Portugal, Bélgica e Luxemburgo foram os Estados que receberam os primeiros adiantamentos, a 3 de Agosto.
Desde aí, a lista aumentou. Além de Portugal, os outros Estados-membros que já dispõem de verbas iniciais para suportar a recuperação pós-crise da covid-19 através dos seus PRR, são: Luxemburgo (12,1 milhões), Bélgica (770 milhões), Grécia (quatro mil milhões), Itália (24,9 mil milhões), Lituânia (289 milhões), Espanha (nove mil milhões), França (5,1 mil milhões), Alemanha (2,25 mil milhões) e Dinamarca (201 milhões).
Portugal foi o primeiro Estado-membro a entregar formalmente em Bruxelas o seu PRR para aceder aos fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência – elemento central do pacote “NextGenerationEU” acordado na UE para superar a crise da covid-19 – e o primeiro a vê-lo aprovado, sendo também dos primeiros países a receber verbas.
Na altura, o executivo comunitário sublinhou que “este pagamento contribuirá para lançar a aplicação das medidas essenciais em matéria de investimento e de reforma delineadas no plano de recuperação e resiliência de Portugal”, representando um “momento histórico na execução do PRR” português.
O PRR português, que recebeu ‘luz verde’ da Comissão em 13 de Junho e foi formalmente aprovado pelo conselho Ecofin exactamente um mês depois, tem um valor global de 16,6 mil milhões de euros, designadamente 13,9 mil milhões de euros em subvenções a fundo perdido e 2,7 mil milhões empréstimos em condições favoráveis.
Até ao final do ano, a Comissão tenciona mobilizar um montante total máximo de 80 mil milhões de euros, sob a forma de financiamentos a longo prazo a ser complementados por obrigações a curto prazo da UE, com vista a financiar os primeiros desembolsos aos Estados-membros.
As verbas vão financiar o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, avaliado em 672,5 mil milhões de euros (a preços de 2018) e elemento central do “NextGenerationEU”, o fundo de 750 mil milhões de euros aprovado pelos líderes europeus em Julho de 2020 para a recuperação económica da UE da crise provocada pela pandemia de covid-19.
Economia
Plano de Recuperação e Resiliência
União Europeia
Comissão Europeia
Covid-19
Coronavírus
Conjuntura
A Comissão Europeia desembolsou esta quinta-feira 201 milhões de euros à Dinamarca em pré-financiamento das verbas da recuperação pós-crise da covid-19, elevando para 48,7 mil milhões o total de pagamentos iniciais feitos a 10 países da União Europeia (UE).
“A Comissão Europeia desembolsou hoje 201 milhões de euros para a Dinamarca em pré-financiamento, o que equivale a 13% da dotação financeira do país ao abrigo do Mecanismo de Recuperação e Resiliência”, anunciou o porta-voz da Comissão Europeia Daniel Ferrie.
Falando na conferência de imprensa diária do executivo comunitário, em Bruxelas, Daniel Ferrie acrescentou que, “incluindo os pagamentos de hoje, a Comissão desembolsou até agora 48,7 mil milhões de euros para 10 Estados-membros em pré-financiamento”. “E esperamos continuar com o desembolso de pré-financiamento a outros Estados-membros ao longo do mês de Setembro”, adiantou.
No início de Agosto, a Comissão Europeia desembolsou 2,2 mil milhões de euros a Portugal referente ao pré-financiamento de 13% do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num montante global de 16,6 mil milhões de euros, aprovado no mês anterior. Portugal, Bélgica e Luxemburgo foram os Estados que receberam os primeiros adiantamentos, a 3 de Agosto.
Desde aí, a lista aumentou. Além de Portugal, os outros Estados-membros que já dispõem de verbas iniciais para suportar a recuperação pós-crise da covid-19 através dos seus PRR, são: Luxemburgo (12,1 milhões), Bélgica (770 milhões), Grécia (quatro mil milhões), Itália (24,9 mil milhões), Lituânia (289 milhões), Espanha (nove mil milhões), França (5,1 mil milhões), Alemanha (2,25 mil milhões) e Dinamarca (201 milhões).
Portugal foi o primeiro Estado-membro a entregar formalmente em Bruxelas o seu PRR para aceder aos fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência – elemento central do pacote “NextGenerationEU” acordado na UE para superar a crise da covid-19 – e o primeiro a vê-lo aprovado, sendo também dos primeiros países a receber verbas.
Na altura, o executivo comunitário sublinhou que “este pagamento contribuirá para lançar a aplicação das medidas essenciais em matéria de investimento e de reforma delineadas no plano de recuperação e resiliência de Portugal”, representando um “momento histórico na execução do PRR” português.
O PRR português, que recebeu ‘luz verde’ da Comissão em 13 de Junho e foi formalmente aprovado pelo conselho Ecofin exactamente um mês depois, tem um valor global de 16,6 mil milhões de euros, designadamente 13,9 mil milhões de euros em subvenções a fundo perdido e 2,7 mil milhões empréstimos em condições favoráveis.
Até ao final do ano, a Comissão tenciona mobilizar um montante total máximo de 80 mil milhões de euros, sob a forma de financiamentos a longo prazo a ser complementados por obrigações a curto prazo da UE, com vista a financiar os primeiros desembolsos aos Estados-membros.
As verbas vão financiar o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, avaliado em 672,5 mil milhões de euros (a preços de 2018) e elemento central do “NextGenerationEU”, o fundo de 750 mil milhões de euros aprovado pelos líderes europeus em Julho de 2020 para a recuperação económica da UE da crise provocada pela pandemia de covid-19.
Economia
Plano de Recuperação e Resiliência
União Europeia
Comissão Europeia
Covid-19
Coronavírus
Conjuntura
Voltar à rua não é opção numa Casa Partilhada feita para devolver a autonomia
André Borges Vieira e Nelson Garrido, in Público on-line
Mais de duas dezenas de concelhos aderiram a programas de casas provisórias partilhadas por pessoas em situação de sem-abrigo. Em Matosinhos o projecto arrancou em Março. Nos quatro apartamentos disponíveis, com capacidade para dez pessoas, estão oito, num universo de 40 pessoas do concelho que não têm um tecto.
Até há seis meses, José Almeida, de 56 anos, já não se lembrava de como era pernoitar debaixo de um tecto. Morava há 15 anos na rua, mas desde Abril deste ano voltou a sentir o conforto de viver num lar, graças ao projecto Casas Partilhadas, criado no âmbito da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), com adesão de mais de duas dezenas de concelhos de Norte a Sul do país.
Vivia debaixo de uma ponte, na zona de Sendim, à entrada do centro de Matosinhos. Agora, mora num rés-do-chão do Bairro da Biquinha, onde existem mais três casas destinadas a pessoas que passaram por situação semelhante.
Não vive sozinho. A morada provisória é partilhada com Manuel Raimundo, que tem apenas menos um ano do que ele. Mais do que colegas de casa, consideram-se já dois “irmãos” - há um passado ao qual não querem regressar que os une. Num T3 com cerca de 70 metros quadrados partilham uma cozinha e uma sala. Para cada um, têm um quarto e uma casa de banho. O terceiro quarto está desocupado, mas já lá dormiu outra pessoa que não se adaptou à nova realidade e optou por voltar à rua.
Para a rua não querem voltar nem José nem Manuel. Há muito que ambicionavam poder tornar a ter quatro paredes à sua volta. Não querem desperdiçar a oportunidade de se reerguerem. Este, sonham os dois, é um passo na direcção do próximo objectivo. Querem garantir um emprego que lhes devolva a autonomia. Só depois disso é que podem procurar residência definitiva.
Já antes tinham tentado pôr em prática o mesmo plano. Mas sem um tecto e sem todas as condições básicas para qualquer ser humano poder viver condignamente tornou-se mais difícil de concretizar. Em situações de entrevistas de emprego, assim que o potencial empregador tomava conhecimento da inexistência de uma morada, tanto num caso como no outro, as hipóteses de ficarem com o lugar tornavam-se mais reduzidas.
Manuel já teve uma vida “normal”, conta. “Tinha emprego, tinha carro, motas e uma boa casa”, recorda. De “um dia para o outro”, há 15 anos, tudo mudou, quando a sua esposa faleceu. O desgosto arrastou-o para as drogas. “Depois disso foi bater no fundo”, atira. Ficou sem nada. Perdeu a casa, o carro, as motas e deixou de ter condições de cuidar da filha, que foi morar com os avós.
Passou muitos dos últimos anos a viver nas ruas do Porto. Os mais recentes passou-os na Senhora da Hora, onde ficou a saber que o programa Casas Partilhadas ia arrancar, através de uma equipa que acompanha pessoas em situação de sem-abrigo. “Faltava pouco para o Natal” do ano passado quando pediu para ser um dos contemplados. Em Abril, um mês depois do projecto arrancar, mudou-se para o Bairro da Biquinha.
No mesmo dia, a 6 de Abril, mudava-se para a mesma casa José, que tem uma história semelhante. Também tinha uma casa, trabalho e jamais pensaria que um dia estaria a viver na rua. Trabalhou vários anos na Suíça, na construção civil. “Era trabalho casa, para poupar dinheiro”, recorda. Pouco depois de chegar a Portugal, um “problema familiar” levou-o a ficar “sem nada”. Todo o dinheiro que diz ter ganho “desapareceu”. Durante uns tempos, com o dinheiro que juntava a arrumar carros, conseguia alugar um pequeno apartamento no Porto. Pagava 270 euros. “Hoje nem um quarto consigo arrendar com esse dinheiro”, diz.
Mudou-se para a cidade vizinha por sentir-se mais seguro lá. Foi também em Matosinhos que ficou a conhecer o projecto que lhe permite agora viver numa casa.
Seis meses passaram desde que os dois receberam a chave do apartamento. Tiveram alguma dificuldade em adaptar-se a uma terceira pessoa com quem partilharam o espaço durante pouco tempo. Depois, “foi mais fácil”, diz José.
Conseguiram criar um sistema de forma a partilhar tarefas. Um faz as limpezas às terças-feiras e o outro aos sábados. “A casa está sempre assim limpa como está hoje”, garante Manuel. Já as refeições cada um prepara as suas. “O José cozinha mesmo. Eu como mais comida embalada já preparada”, atira, sublinhando ter sido um hábito com origem numa fase em que chegou a viver numa garagem abandonada. “Não é porque ele cozinha mal”, graceja.
Os dois têm os objectivos bem definidos. A prioridade de Manuel é voltar ao mercado de trabalho: “Envio vários currículos, mas ainda não tive respostas. Devem achar que sou velho demais para trabalhar, mas também sou novo demais para me reformar”. José faz “uns biscates” de construção civil, mas não tem emprego fixo. Actualmente, passa por um período de pouca actividade. “O empreiteiro para quem trabalhava tem as obras paradas”, explica. Outra meta traçada é conseguir construir uma vida a dois. “Conheci uma senhora e gostava de conseguir arranjar um espaço para viver com ela”, conta.
Voltar à rua não é opção
A preocupá-los está o facto de saberem que a casa onde vivem é provisória. Os primeiros seis meses (tempo mínimo definido para a estadia) estão a chegar ao fim. Conseguiram já garantir mais seis meses no mesmo apartamento (prazo máximo), mas a partir daí, de acordo com as regras, deixam de estar elegíveis para continuar a fazer parte do projecto. Porém, ainda estão longe de estar em condições de seguir a vida sem este apoio. A única fonte de rendimento de José são 180 euros que recebe do RSI, para o qual Manuel não está elegível por receber todos os meses 190 euros de subsídio de viuvez. Mas desse montante ainda subtraem cerca de 30 euros pelo valor da renda do espaço.
“Cada dia que passa fico preocupado”, afirma Manuel, que diz continuar a sonhar ainda viver na rua. José, como o colega com quem divide casa, diz ter o foco apontado para o dia em que voltará a ser autónomo. Mas teme chegar ao final de um ano de estadia sem conseguir atingir a meta. “Depois vou para onde?”, questiona.
“Acredito que no final do ano previsto para cada um dos utentes não deixaremos ninguém voltar à rua. Não é esperado que isso aconteça”, afirma Cláudia Nunes, assistente social do projecto. Apesar de em Matosinhos já existir um programa semelhante, mas não em exclusivo para pessoas em situação de sem-abrigo, este com início em Março ainda está em “afinação”.
Todas as situações, garante, serão articuladas com a MatosinhosHabit, empresa de habitação municipal que cedeu os apartamentos no Bairro da Biquinha. “Pretendemos que os utentes estejam sinalizados na empresa para que seja analisada a hipótese de lhes ser dada uma habitação permanente”, acrescenta. “Nalguns casos em que os utentes tenham boa convivência até se poderá equacionar no futuro arrendamento partilhado [em habitação social]”, sublinha.
Em Matosinhos há cerca de 40 pessoas em situação de sem-abrigo sinalizadas. No âmbito deste programa, oito pessoas estão alojadas em dois T2 e dois T3 com capacidade total para dez pessoas.
Ao fim de seis meses, Cláudia Nunes, que trabalha com uma equipa multidisciplinar de acompanhamento aos utentes, faz um balanço: “Alguma coisa foi acontecendo e algumas pessoas melhoraram a sua situação. Mas, efectivamente, talvez seja um prazo curto para desenvolvimento de algumas competências necessárias em pessoas que ficaram muito tempo em situação de sem-abrigo”.
Cerca de 300 pessoas sem abrigo ganharam um tecto em casas partilhadas
Como em Matosinhos, há mais 21 concelhos com os quais o Governo firmou um protocolo para garantir um tecto a quem há muito não tem um. A meta deste programa, que integra a Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, é tirar das ruas 1100 pessoas até ao final do ano. Como? Alojando-as em casas Housing First — para quem está há mais tempo na rua — ou em habitações partilhadas.
Até ao momento, esta resposta chegou a cerca de 300 pessoas, um número ainda longe da meta traçada até ao fim do ano.
Estas respostas de habitação são financiadas pela Segurança Social, às quais as instituições que trabalham na área se podem candidatar, ficando depois com a gestão das casas e acompanhamento dos utentes. A ideia é que quem ali é alojado seja seguido por equipas das áreas sociais, que apoiem na reintegração no mercado de trabalho ou mesmo nas tarefas mais simples da vida diária, entretanto perdidas pela vivência na rua.
Os últimos dados conhecidos, referentes a 2019, mostram que há cerca de 7100 pessoas em situação de sem-abrigo no país — um número que agrega as pessoas que estão sem tecto, que vivem nas ruas, e as que estão alojadas em albergues ou outras instituições. Mais de metade concentra-se no Porto e em Lisboa, ganhando ainda mais dimensão se alargarmos a busca às áreas metropolitanas.
Lisboa tem também um projecto semelhante às casas partilhadas de Matosinhos, mas de responsabilidade municipal. A câmara arrancou, no início do ano, com um projecto-piloto de apartamentos partilhados “de transição”, que se dirigem a pessoas que estão há pouco tempo na rua, ou na iminência de lá ir parar, e ali são acolhidas enquanto procuram emprego. A ideia é que não passem demasiado tempo na rua para que não percam hábitos e rotinas, de modo a não dificultar a sua reintegração.
Em Abril, o PÚBLICO visitou um dos quatro apartamentos deste projecto, para os quais havia já mais de 40 pessoas sinalizadas. Não foi possível conseguir um balanço deste programa até à publicação deste artigo.
É à associação Ares do Pinhal que compete a gestão destas casas, que são financiadas pela Câmara de Lisboa, no âmbito do Plano Municipal para a Pessoa em Situação de Sem Abrigo. Para chegarem a esta resposta, os utentes têm de estar referenciados pela rede social existente na cidade, passando depois pela “triagem” das equipas da Ares do Pinhal.
A ideia é que permaneçam neste apartamento por cerca de seis meses, passando depois para outras casas onde vão ganhando mais autonomia. Enquanto vivem nos apartamentos de transição, estas pessoas são acompanhadas pelas equipas técnicas da associação, que vão trabalhando com eles a sua autonomização e reintegração na sociedade, seja no acesso a cuidados de saúde, a direitos de cidadania, ou na procura de emprego.
Já no âmbito do programa Housing First, destinado a quem está há mais tempo na rua, a Câmara de Lisboa diz que há 300 casas que estão “efectivamente” ocupadas. Entre Janeiro e Agosto de 2021, foram encaminhadas 41 pessoas em situação de sem abrigo, provenientes dos centros de alojamento de emergência municipais, para apartamentos partilhados, a maior parte financiados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, diz a autarquia em resposta ao PÚBLICO.
No Porto, o reforço do alojamento de longa duração é também uma das apostas na estratégia municipal para integração de pessoas em situação de sem-abrigo até 2023. No ano passado existiam no Porto oito habitações deste tipo – duas geridas pela Associação Benéfica e Previdente e seis pela Santa Casa da Misericórdia –, com capacidade para 17 pessoas. Até 2023, é objectivo do município duplicar a resposta e criar tecto para mais 17 utentes. Cristiana Faria Moreira
Mais de duas dezenas de concelhos aderiram a programas de casas provisórias partilhadas por pessoas em situação de sem-abrigo. Em Matosinhos o projecto arrancou em Março. Nos quatro apartamentos disponíveis, com capacidade para dez pessoas, estão oito, num universo de 40 pessoas do concelho que não têm um tecto.
Até há seis meses, José Almeida, de 56 anos, já não se lembrava de como era pernoitar debaixo de um tecto. Morava há 15 anos na rua, mas desde Abril deste ano voltou a sentir o conforto de viver num lar, graças ao projecto Casas Partilhadas, criado no âmbito da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), com adesão de mais de duas dezenas de concelhos de Norte a Sul do país.
Vivia debaixo de uma ponte, na zona de Sendim, à entrada do centro de Matosinhos. Agora, mora num rés-do-chão do Bairro da Biquinha, onde existem mais três casas destinadas a pessoas que passaram por situação semelhante.
Não vive sozinho. A morada provisória é partilhada com Manuel Raimundo, que tem apenas menos um ano do que ele. Mais do que colegas de casa, consideram-se já dois “irmãos” - há um passado ao qual não querem regressar que os une. Num T3 com cerca de 70 metros quadrados partilham uma cozinha e uma sala. Para cada um, têm um quarto e uma casa de banho. O terceiro quarto está desocupado, mas já lá dormiu outra pessoa que não se adaptou à nova realidade e optou por voltar à rua.
Para a rua não querem voltar nem José nem Manuel. Há muito que ambicionavam poder tornar a ter quatro paredes à sua volta. Não querem desperdiçar a oportunidade de se reerguerem. Este, sonham os dois, é um passo na direcção do próximo objectivo. Querem garantir um emprego que lhes devolva a autonomia. Só depois disso é que podem procurar residência definitiva.
Já antes tinham tentado pôr em prática o mesmo plano. Mas sem um tecto e sem todas as condições básicas para qualquer ser humano poder viver condignamente tornou-se mais difícil de concretizar. Em situações de entrevistas de emprego, assim que o potencial empregador tomava conhecimento da inexistência de uma morada, tanto num caso como no outro, as hipóteses de ficarem com o lugar tornavam-se mais reduzidas.
Manuel já teve uma vida “normal”, conta. “Tinha emprego, tinha carro, motas e uma boa casa”, recorda. De “um dia para o outro”, há 15 anos, tudo mudou, quando a sua esposa faleceu. O desgosto arrastou-o para as drogas. “Depois disso foi bater no fundo”, atira. Ficou sem nada. Perdeu a casa, o carro, as motas e deixou de ter condições de cuidar da filha, que foi morar com os avós.
Passou muitos dos últimos anos a viver nas ruas do Porto. Os mais recentes passou-os na Senhora da Hora, onde ficou a saber que o programa Casas Partilhadas ia arrancar, através de uma equipa que acompanha pessoas em situação de sem-abrigo. “Faltava pouco para o Natal” do ano passado quando pediu para ser um dos contemplados. Em Abril, um mês depois do projecto arrancar, mudou-se para o Bairro da Biquinha.
No mesmo dia, a 6 de Abril, mudava-se para a mesma casa José, que tem uma história semelhante. Também tinha uma casa, trabalho e jamais pensaria que um dia estaria a viver na rua. Trabalhou vários anos na Suíça, na construção civil. “Era trabalho casa, para poupar dinheiro”, recorda. Pouco depois de chegar a Portugal, um “problema familiar” levou-o a ficar “sem nada”. Todo o dinheiro que diz ter ganho “desapareceu”. Durante uns tempos, com o dinheiro que juntava a arrumar carros, conseguia alugar um pequeno apartamento no Porto. Pagava 270 euros. “Hoje nem um quarto consigo arrendar com esse dinheiro”, diz.
Mudou-se para a cidade vizinha por sentir-se mais seguro lá. Foi também em Matosinhos que ficou a conhecer o projecto que lhe permite agora viver numa casa.
Seis meses passaram desde que os dois receberam a chave do apartamento. Tiveram alguma dificuldade em adaptar-se a uma terceira pessoa com quem partilharam o espaço durante pouco tempo. Depois, “foi mais fácil”, diz José.
Conseguiram criar um sistema de forma a partilhar tarefas. Um faz as limpezas às terças-feiras e o outro aos sábados. “A casa está sempre assim limpa como está hoje”, garante Manuel. Já as refeições cada um prepara as suas. “O José cozinha mesmo. Eu como mais comida embalada já preparada”, atira, sublinhando ter sido um hábito com origem numa fase em que chegou a viver numa garagem abandonada. “Não é porque ele cozinha mal”, graceja.
Os dois têm os objectivos bem definidos. A prioridade de Manuel é voltar ao mercado de trabalho: “Envio vários currículos, mas ainda não tive respostas. Devem achar que sou velho demais para trabalhar, mas também sou novo demais para me reformar”. José faz “uns biscates” de construção civil, mas não tem emprego fixo. Actualmente, passa por um período de pouca actividade. “O empreiteiro para quem trabalhava tem as obras paradas”, explica. Outra meta traçada é conseguir construir uma vida a dois. “Conheci uma senhora e gostava de conseguir arranjar um espaço para viver com ela”, conta.
Voltar à rua não é opção
A preocupá-los está o facto de saberem que a casa onde vivem é provisória. Os primeiros seis meses (tempo mínimo definido para a estadia) estão a chegar ao fim. Conseguiram já garantir mais seis meses no mesmo apartamento (prazo máximo), mas a partir daí, de acordo com as regras, deixam de estar elegíveis para continuar a fazer parte do projecto. Porém, ainda estão longe de estar em condições de seguir a vida sem este apoio. A única fonte de rendimento de José são 180 euros que recebe do RSI, para o qual Manuel não está elegível por receber todos os meses 190 euros de subsídio de viuvez. Mas desse montante ainda subtraem cerca de 30 euros pelo valor da renda do espaço.
“Cada dia que passa fico preocupado”, afirma Manuel, que diz continuar a sonhar ainda viver na rua. José, como o colega com quem divide casa, diz ter o foco apontado para o dia em que voltará a ser autónomo. Mas teme chegar ao final de um ano de estadia sem conseguir atingir a meta. “Depois vou para onde?”, questiona.
“Acredito que no final do ano previsto para cada um dos utentes não deixaremos ninguém voltar à rua. Não é esperado que isso aconteça”, afirma Cláudia Nunes, assistente social do projecto. Apesar de em Matosinhos já existir um programa semelhante, mas não em exclusivo para pessoas em situação de sem-abrigo, este com início em Março ainda está em “afinação”.
Todas as situações, garante, serão articuladas com a MatosinhosHabit, empresa de habitação municipal que cedeu os apartamentos no Bairro da Biquinha. “Pretendemos que os utentes estejam sinalizados na empresa para que seja analisada a hipótese de lhes ser dada uma habitação permanente”, acrescenta. “Nalguns casos em que os utentes tenham boa convivência até se poderá equacionar no futuro arrendamento partilhado [em habitação social]”, sublinha.
Em Matosinhos há cerca de 40 pessoas em situação de sem-abrigo sinalizadas. No âmbito deste programa, oito pessoas estão alojadas em dois T2 e dois T3 com capacidade total para dez pessoas.
Ao fim de seis meses, Cláudia Nunes, que trabalha com uma equipa multidisciplinar de acompanhamento aos utentes, faz um balanço: “Alguma coisa foi acontecendo e algumas pessoas melhoraram a sua situação. Mas, efectivamente, talvez seja um prazo curto para desenvolvimento de algumas competências necessárias em pessoas que ficaram muito tempo em situação de sem-abrigo”.
Cerca de 300 pessoas sem abrigo ganharam um tecto em casas partilhadas
Como em Matosinhos, há mais 21 concelhos com os quais o Governo firmou um protocolo para garantir um tecto a quem há muito não tem um. A meta deste programa, que integra a Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, é tirar das ruas 1100 pessoas até ao final do ano. Como? Alojando-as em casas Housing First — para quem está há mais tempo na rua — ou em habitações partilhadas.
Até ao momento, esta resposta chegou a cerca de 300 pessoas, um número ainda longe da meta traçada até ao fim do ano.
Estas respostas de habitação são financiadas pela Segurança Social, às quais as instituições que trabalham na área se podem candidatar, ficando depois com a gestão das casas e acompanhamento dos utentes. A ideia é que quem ali é alojado seja seguido por equipas das áreas sociais, que apoiem na reintegração no mercado de trabalho ou mesmo nas tarefas mais simples da vida diária, entretanto perdidas pela vivência na rua.
Os últimos dados conhecidos, referentes a 2019, mostram que há cerca de 7100 pessoas em situação de sem-abrigo no país — um número que agrega as pessoas que estão sem tecto, que vivem nas ruas, e as que estão alojadas em albergues ou outras instituições. Mais de metade concentra-se no Porto e em Lisboa, ganhando ainda mais dimensão se alargarmos a busca às áreas metropolitanas.
Lisboa tem também um projecto semelhante às casas partilhadas de Matosinhos, mas de responsabilidade municipal. A câmara arrancou, no início do ano, com um projecto-piloto de apartamentos partilhados “de transição”, que se dirigem a pessoas que estão há pouco tempo na rua, ou na iminência de lá ir parar, e ali são acolhidas enquanto procuram emprego. A ideia é que não passem demasiado tempo na rua para que não percam hábitos e rotinas, de modo a não dificultar a sua reintegração.
Em Abril, o PÚBLICO visitou um dos quatro apartamentos deste projecto, para os quais havia já mais de 40 pessoas sinalizadas. Não foi possível conseguir um balanço deste programa até à publicação deste artigo.
É à associação Ares do Pinhal que compete a gestão destas casas, que são financiadas pela Câmara de Lisboa, no âmbito do Plano Municipal para a Pessoa em Situação de Sem Abrigo. Para chegarem a esta resposta, os utentes têm de estar referenciados pela rede social existente na cidade, passando depois pela “triagem” das equipas da Ares do Pinhal.
A ideia é que permaneçam neste apartamento por cerca de seis meses, passando depois para outras casas onde vão ganhando mais autonomia. Enquanto vivem nos apartamentos de transição, estas pessoas são acompanhadas pelas equipas técnicas da associação, que vão trabalhando com eles a sua autonomização e reintegração na sociedade, seja no acesso a cuidados de saúde, a direitos de cidadania, ou na procura de emprego.
Já no âmbito do programa Housing First, destinado a quem está há mais tempo na rua, a Câmara de Lisboa diz que há 300 casas que estão “efectivamente” ocupadas. Entre Janeiro e Agosto de 2021, foram encaminhadas 41 pessoas em situação de sem abrigo, provenientes dos centros de alojamento de emergência municipais, para apartamentos partilhados, a maior parte financiados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, diz a autarquia em resposta ao PÚBLICO.
No Porto, o reforço do alojamento de longa duração é também uma das apostas na estratégia municipal para integração de pessoas em situação de sem-abrigo até 2023. No ano passado existiam no Porto oito habitações deste tipo – duas geridas pela Associação Benéfica e Previdente e seis pela Santa Casa da Misericórdia –, com capacidade para 17 pessoas. Até 2023, é objectivo do município duplicar a resposta e criar tecto para mais 17 utentes. Cristiana Faria Moreira
269 municípios pediram apoio do fundo europeu destinado às medidas anti-covid
Patrícia Carvalho, in Público on-line
87% dos municípios portugueses candidataram-se ao FSUE, com despesas globais que chegam aos 65,7 milhões de euros. Primeiros pagamentos devem ser feitos em Outubro.
Do total de municípios portugueses, 269 candidataram-se aos apoios do Fundo de Solidariedade da União Europeia (FSUE), criado para ajudar com as despesas directamente relacionadas com o combate à pandemia e que em Portugal o Governo decidiu que seria usado exclusivamente pelas autarquias. Foram apresentadas despesas no valor global de 65,7 milhões de euros, para uma dotação disponível de 55,5 milhões do FSUE. O Ministério do Planeamento prevê fazer os primeiros pagamentos em Outubro.
Em causa estavam despesas realizadas entre 13 de Março e 12 de Julho que estivessem relacionadas com a assistência à população afectada pela covid-19 (incluindo médica), a prevenção, vigilância ou controlo da pandemia e o combate aos riscos graves de saúde pública ou a atenuação do seu impacto. Os municípios poderiam assim candidatar-se a ver comparticipadas, por exemplo, as despesas feitas com a aquisição de equipamentos e dispositivos médicos ou com a instalação de hospitais de campanha.
O PÚBLICO questionou o Ministério do Planeamento sobre o valor solicitado por cada município e qual o fim a que se destinava, mas a resposta chegou sob a forma de um comunicado com indicação sobre o número geral de municípios que se candidatou ao FSUE por regiões e o valor global solicitado em cada uma dessas zonas.
Zona Centro com mais candidaturas
A Área Metropolitana de Lisboa, com 18 candidaturas, no valor global de 19,1 milhões de euros, representando 29% dos custos apresentados, foi a região com mais verba solicitada. Mas o Centro, com 90 candidaturas, aparece como a região com mais municípios a pedirem o apoio de emergência, ainda que em termos financeiros fique apenas no 3.º lugar: 16,6 milhões (25% dos custos apresentados). Em segundo lugar, em número de candidaturas (79) e em verba solicitada (quase 17 milhões) está a região Norte, com custos apresentados que representam 26% do total.
As restantes candidaturas surgiram do Alentejo (54, para cerca de seis milhões de euros), Algarve (14, para 5,8 milhões), Açores (10 municípios pediram um apoio de 623 mil euros) e Madeira (quatro municípios e 397 mil euros solicitados). O comunicado do gabinete do ministro Nelson de Souza salienta que 87% dos municípios nacionais concorreram ao FSUE, o que representa uma “elevada adesão”, e com um valor total solicitado que se adequa às verbas disponibilizadas pelo fundo de emergência.
O prazo para as candidaturas ao FSUE terminou no final de Agosto. Os pedidos apresentados pelos municípios deverão ser agora analisados e o ministério conta ter “as primeiras decisões” sobre a atribuição dos apoios durante o mês de Outubro, altura em que deverão ser feitos os primeiros pagamentos.
As regras do fundo europeu definiam que o apoio a ser prestado ao abrigo desta medida de emergência corresponde a 100% da despesa elegível, até ao limite máximo de 150 mil euros por candidatura. Valores superiores a esse só seriam contemplados caso sobrasse verba, depois de serem garantidos aqueles casos.
87% dos municípios portugueses candidataram-se ao FSUE, com despesas globais que chegam aos 65,7 milhões de euros. Primeiros pagamentos devem ser feitos em Outubro.
Do total de municípios portugueses, 269 candidataram-se aos apoios do Fundo de Solidariedade da União Europeia (FSUE), criado para ajudar com as despesas directamente relacionadas com o combate à pandemia e que em Portugal o Governo decidiu que seria usado exclusivamente pelas autarquias. Foram apresentadas despesas no valor global de 65,7 milhões de euros, para uma dotação disponível de 55,5 milhões do FSUE. O Ministério do Planeamento prevê fazer os primeiros pagamentos em Outubro.
Em causa estavam despesas realizadas entre 13 de Março e 12 de Julho que estivessem relacionadas com a assistência à população afectada pela covid-19 (incluindo médica), a prevenção, vigilância ou controlo da pandemia e o combate aos riscos graves de saúde pública ou a atenuação do seu impacto. Os municípios poderiam assim candidatar-se a ver comparticipadas, por exemplo, as despesas feitas com a aquisição de equipamentos e dispositivos médicos ou com a instalação de hospitais de campanha.
O PÚBLICO questionou o Ministério do Planeamento sobre o valor solicitado por cada município e qual o fim a que se destinava, mas a resposta chegou sob a forma de um comunicado com indicação sobre o número geral de municípios que se candidatou ao FSUE por regiões e o valor global solicitado em cada uma dessas zonas.
Zona Centro com mais candidaturas
A Área Metropolitana de Lisboa, com 18 candidaturas, no valor global de 19,1 milhões de euros, representando 29% dos custos apresentados, foi a região com mais verba solicitada. Mas o Centro, com 90 candidaturas, aparece como a região com mais municípios a pedirem o apoio de emergência, ainda que em termos financeiros fique apenas no 3.º lugar: 16,6 milhões (25% dos custos apresentados). Em segundo lugar, em número de candidaturas (79) e em verba solicitada (quase 17 milhões) está a região Norte, com custos apresentados que representam 26% do total.
As restantes candidaturas surgiram do Alentejo (54, para cerca de seis milhões de euros), Algarve (14, para 5,8 milhões), Açores (10 municípios pediram um apoio de 623 mil euros) e Madeira (quatro municípios e 397 mil euros solicitados). O comunicado do gabinete do ministro Nelson de Souza salienta que 87% dos municípios nacionais concorreram ao FSUE, o que representa uma “elevada adesão”, e com um valor total solicitado que se adequa às verbas disponibilizadas pelo fundo de emergência.
O prazo para as candidaturas ao FSUE terminou no final de Agosto. Os pedidos apresentados pelos municípios deverão ser agora analisados e o ministério conta ter “as primeiras decisões” sobre a atribuição dos apoios durante o mês de Outubro, altura em que deverão ser feitos os primeiros pagamentos.
As regras do fundo europeu definiam que o apoio a ser prestado ao abrigo desta medida de emergência corresponde a 100% da despesa elegível, até ao limite máximo de 150 mil euros por candidatura. Valores superiores a esse só seriam contemplados caso sobrasse verba, depois de serem garantidos aqueles casos.
Saúde, condições de habitação ou horários de trabalho. Como se compara Portugal com os países da UE?
in Mutinews
Bruxelas atualizou a plataforma interativa onde os cidadãos europeus podem comparar as suas condições de vida com os dos restantes estados-membros.
Nesta ferramenta, os cidadãos podem avaliar indicadores como condições de habitação, rendimentos, horas trabalhadas por semana, estado de saúde, segurança, ambiente ou confiança no governo.
Além de se conseguir avaliar individualmente o retrato de cada país, pode comparar os dados com os restantes países europeus e com a média europeia.
Os dados relativamente a Portugal não são muito animadores e, em muitos deles, Portugal mantém-se abaixo da média europeia, como nos índices de satisfação com o emprego ou com a confiança no sistema.
Já na satisfação com as suas relações pessoais, os portugueses estão acima da média europeia.
Todos os indicadores podem ser consultados aqui
Bruxelas atualizou a plataforma interativa onde os cidadãos europeus podem comparar as suas condições de vida com os dos restantes estados-membros.
Nesta ferramenta, os cidadãos podem avaliar indicadores como condições de habitação, rendimentos, horas trabalhadas por semana, estado de saúde, segurança, ambiente ou confiança no governo.
Além de se conseguir avaliar individualmente o retrato de cada país, pode comparar os dados com os restantes países europeus e com a média europeia.
Os dados relativamente a Portugal não são muito animadores e, em muitos deles, Portugal mantém-se abaixo da média europeia, como nos índices de satisfação com o emprego ou com a confiança no sistema.
Já na satisfação com as suas relações pessoais, os portugueses estão acima da média europeia.
Todos os indicadores podem ser consultados aqui
População empregada atinge máximo em mais de duas décadas
Isabel Patrício, in EcoOnline
Havia 4.842,7 mil pessoas empregadas, em Portugal, em julho, valor que não só representa uma subida em cadeia e e em termos homólogos, como corresponde a um marco histórico.
À medida que o país desconfina e a pandemia perde força, o mercado laboral dá sinais de retoma. Em julho, a população empregada voltou a aumentar, passando a corresponder a 4.842,7 mil pessoas. Tal número é, segundo os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, o mais alto desde, pelo menos, 1998.
De acordo com a nota estatística divulgada esta terça-feira, no sétimo mês de 2021, a população empregada cresceu 0,8% face ao mês anterior e 5,3% face ao período homólogo de 2020. Dito de outro modo, há agora mais 39,5 mil pessoas com trabalho em Portugal do que em junho e mais 238,2 mil do que em julho de 2020.
Tal reflete o efeito do processo de desconfinamento progressivo do país na economia, com a generalidade dos empregadores (exceto aqueles aos quais se continuam a aplicar restrições mais severas, como as discotecas) a aproximarem-se, passo a passo, da “normalidade”.
Esse número é, além disso, sinónimo de um marco histórico já que é o mais alto desde, pelo menos, 1998. Em mais de 20 anos de dados, nunca a população empregada tinha atingido um nível tão elevado. Aliás, o segundo valor mais expressivo nesse histórico foi registado também este ano (em junho de 2021) e o terceiro também (em maio de 2021). É, depois, preciso recuar a setembro de 2019 para encontrar o próximo valor nessa tabela.
É importante salientar que, no início de agosto, aquando da publicação dos dados trimestrais do emprego, o Ministério do Trabalho destacou, precisamente, a evolução recordista da população empregada. Isto já que, entre abril e junho de 2021, Portugal atingiu um total de 4,81 milhões pessoas empregadas, valor mais alto desde, pelo menos, 2011.
No caso dos dados trimestrais, é esse o ano mais antigo para o qual há dados disponíveis (2011). Já quanto aos dados mensais, o INE vai mais longe e mostra a evolução desde 1998, daí que seja agora possível indicar que a população empregada está em máximos de mais de duas décadas.
Para os anos mais longínquos, o gabinete de estatística português disponibiliza, por outro lado, os dados da população empregada por anos e também em comparação com esses valores julho de 2021 brilha. Por exemplo, em 1992 (ano mais remoto para o qual há dados disponíveis), havia 4.340,7 mil pessoas empregadas em Portugal, menos meio milhão do que agora.
De notar, por outro lado, que a crise pandémica fez a população empregada emagrecer, mas apenas nos períodos de confinamento mais intensivo, isto é, só se verificaram quebras em cadeia em março, abril e maio de 2020, dezembro desse ano e janeiro de 2021. Nos demais meses, à boleia do alívio das restrições, a população empregada conseguiu ir recuperando, o que contribuiu para o recorde agora verificado.
Além de na população empregada, os sinais positivos também se fazem sentir no desemprego e na subutilização do trabalho.
Em julho, a taxa de desemprego situou-se em 6,6%, tendo caído em cadeia pelo segundo mês consecutivo. Apesar da retoma sinalizada, há ainda mais 6,8 mil pessoas desempregadas do que em fevereiro de 2020, último mês que o país viveu sem o impacto da pandemia.
Também na subutilização do trabalho — que agrupa desempregados, subemprego, inativos à procura de trabalho, mas não disponíveis e inativos disponíveis, mas que não procuram trabalho — julho foi sinónimo de um recuo, tanto em cadeia (menos 0,3 pontos percentuais) como em termos homólogos (menos 3,2 pontos percentuais). No início da pandemia, a passagem de empregados diretamente a inativos (à boleia do impacto das restrições à mobilidade na procura por emprego) levou a que o desemprego ficasse “escondido”, pelo que a melhoria também deste indicador é agora importante para a recuperação do mercado laboral.
Desde o início da pandemia que o Governo tem disponibilizado uma série de medidas extraordinárias para evitar um disparo do desemprego. Esses apoios, tem insistido o Executivo, foram e continuam a ser fundamentais para o cenário positivo que as estatísticas pintam agora do mercado de trabalho português.
Em entrevista, o primeiro-ministro, António Costa, garantiu recentemente que essa “rede de segurança” se irá manter em 2022, mas esses apoios têm conquistado contornos diferentes, nos últimos meses, tornando-se mais difícil, por exemplo, o acesso a eles.
Havia 4.842,7 mil pessoas empregadas, em Portugal, em julho, valor que não só representa uma subida em cadeia e e em termos homólogos, como corresponde a um marco histórico.
À medida que o país desconfina e a pandemia perde força, o mercado laboral dá sinais de retoma. Em julho, a população empregada voltou a aumentar, passando a corresponder a 4.842,7 mil pessoas. Tal número é, segundo os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, o mais alto desde, pelo menos, 1998.
De acordo com a nota estatística divulgada esta terça-feira, no sétimo mês de 2021, a população empregada cresceu 0,8% face ao mês anterior e 5,3% face ao período homólogo de 2020. Dito de outro modo, há agora mais 39,5 mil pessoas com trabalho em Portugal do que em junho e mais 238,2 mil do que em julho de 2020.
Tal reflete o efeito do processo de desconfinamento progressivo do país na economia, com a generalidade dos empregadores (exceto aqueles aos quais se continuam a aplicar restrições mais severas, como as discotecas) a aproximarem-se, passo a passo, da “normalidade”.
Esse número é, além disso, sinónimo de um marco histórico já que é o mais alto desde, pelo menos, 1998. Em mais de 20 anos de dados, nunca a população empregada tinha atingido um nível tão elevado. Aliás, o segundo valor mais expressivo nesse histórico foi registado também este ano (em junho de 2021) e o terceiro também (em maio de 2021). É, depois, preciso recuar a setembro de 2019 para encontrar o próximo valor nessa tabela.
É importante salientar que, no início de agosto, aquando da publicação dos dados trimestrais do emprego, o Ministério do Trabalho destacou, precisamente, a evolução recordista da população empregada. Isto já que, entre abril e junho de 2021, Portugal atingiu um total de 4,81 milhões pessoas empregadas, valor mais alto desde, pelo menos, 2011.
No caso dos dados trimestrais, é esse o ano mais antigo para o qual há dados disponíveis (2011). Já quanto aos dados mensais, o INE vai mais longe e mostra a evolução desde 1998, daí que seja agora possível indicar que a população empregada está em máximos de mais de duas décadas.
Para os anos mais longínquos, o gabinete de estatística português disponibiliza, por outro lado, os dados da população empregada por anos e também em comparação com esses valores julho de 2021 brilha. Por exemplo, em 1992 (ano mais remoto para o qual há dados disponíveis), havia 4.340,7 mil pessoas empregadas em Portugal, menos meio milhão do que agora.
De notar, por outro lado, que a crise pandémica fez a população empregada emagrecer, mas apenas nos períodos de confinamento mais intensivo, isto é, só se verificaram quebras em cadeia em março, abril e maio de 2020, dezembro desse ano e janeiro de 2021. Nos demais meses, à boleia do alívio das restrições, a população empregada conseguiu ir recuperando, o que contribuiu para o recorde agora verificado.
Além de na população empregada, os sinais positivos também se fazem sentir no desemprego e na subutilização do trabalho.
Em julho, a taxa de desemprego situou-se em 6,6%, tendo caído em cadeia pelo segundo mês consecutivo. Apesar da retoma sinalizada, há ainda mais 6,8 mil pessoas desempregadas do que em fevereiro de 2020, último mês que o país viveu sem o impacto da pandemia.
Também na subutilização do trabalho — que agrupa desempregados, subemprego, inativos à procura de trabalho, mas não disponíveis e inativos disponíveis, mas que não procuram trabalho — julho foi sinónimo de um recuo, tanto em cadeia (menos 0,3 pontos percentuais) como em termos homólogos (menos 3,2 pontos percentuais). No início da pandemia, a passagem de empregados diretamente a inativos (à boleia do impacto das restrições à mobilidade na procura por emprego) levou a que o desemprego ficasse “escondido”, pelo que a melhoria também deste indicador é agora importante para a recuperação do mercado laboral.
Desde o início da pandemia que o Governo tem disponibilizado uma série de medidas extraordinárias para evitar um disparo do desemprego. Esses apoios, tem insistido o Executivo, foram e continuam a ser fundamentais para o cenário positivo que as estatísticas pintam agora do mercado de trabalho português.
Em entrevista, o primeiro-ministro, António Costa, garantiu recentemente que essa “rede de segurança” se irá manter em 2022, mas esses apoios têm conquistado contornos diferentes, nos últimos meses, tornando-se mais difícil, por exemplo, o acesso a eles.
1.9.21
Portugal confirma que está disponível para acolher “várias centenas” de refugiados afegãos
Rita Siza, Bruxelas, in Público on-line
Ministros da UE protelam discussão sobre quotas para o acolhimento e a redistribuição de refugiados. Eduardo Cabrita informou os parceiros europeus das condições de Portugal para receber populações vulneráveis: mulheres e crianças, jornalistas, magistrados e activistas dos direitos humanos perseguidos pelos taliban.
O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, confirmou aos seus parceiros europeus que Portugal está disponível para acolher de imediato “várias centenas” de refugiados vindos do Afeganistão, com prioridade para os grupos que a União Europeia designou como os mais vulneráveis: mulheres e crianças, activistas dos direitos humanos, jornalistas e magistradas e juristas, que correm um risco acrescido com o retorno dos taliban ao poder naquele país.
No final de uma reunião extraordinária do Conselho de Justiça e Assuntos Internos da União Europeia, convocada para discutir a situação no Afeganistão, esta terça-feira em Bruxelas, o ministro português garantiu que o país tem a capacidade financeira, no quadro do Fundo de Asilo e Migrações gerido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, para assegurar a instalação de “algumas centenas de pessoas” — e acrescentou que o Governo não deixará de ponderar qual pode ser a “capacidade adicional” para receber mais pessoas com estatuto de protecção internacional, através dos mecanismos europeus.
No encontro desta terça-feira, que coincidiu com o encerramento oficial da operação militar dos Estados Unidos da América e da NATO no Afeganistão, nem os Estados-membros, nem o executivo comunitário, quiseram discutir quotas de redistribuição ou comprometer-se com o acolhimento de um determinado número de refugiados afegãos: todos concordaram que é demasiado cedo para abordar um tema que é politicamente sensível e divide os governos da UE.
Aliás, nas declarações proferidas pelos vários responsáveis políticos, à entrada e à saída da reunião, ficou clara a divisão entre os países que estão disponíveis para apoiar a instalação de refugiados do Afeganistão no seu território, e os que defendem que os cidadãos que estão a ser perseguidos pelas novas autoridades e tentam fugir do país “não devem vir para a Europa, mas sim permanecer na região”, como insistiram vários ministros, nomeadamente o dinamarquês Mattias Tesfayer, filho de um imigrante etíope.
O ministro do Luxemburgo, Jean Asselborn, criticou abertamente esta posição, e defendeu a abertura de um programa europeu de reinstalação semelhante ao que foi anunciado pelo Reino Unido, que prometeu atribuir 20 mil vistos de residência a cidadãos em risco no Afeganistão. “Não podemos aceitar todos, já sabemos isso. Mas somos a região mais rica do mundo, onde a democracia e o primado da lei são valores fundamentais. Temos a obrigação de dar esperança àqueles que estão a ser perseguidos e deixaram de poder viver normalmente”, considerou,
No fim do dia, a questão do acolhimento de refugiados acabou por ser protelada. Segundo a comissária com a pasta dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, o executivo vai promover um fórum de alto nível para a reinstalação de cidadãos afegãos no próximo mês de Setembro, altura em que poderá já estar concluído um “exercício de redistribuição” que os serviços de Bruxelas já iniciaram.
Esse exercício poderá até nem terminar com a fixação de numerus clausus: como notou a comissária, nem a UE nem nenhuma organização internacional está em condições de garantir a saída de afegãos do seus país, pelo que não faz muito sentido definir um valor absoluto. “Ao contrário de outros países, como por exemplo o Canadá, a União Europeia também está a receber muita gente que chega de forma irregular. No último ano demos asilo a 300 mil pessoas”, apontou Johansson.
A mensagem politica que a comissária procurou passar foi a de que a União Europeia não pode esperar que os candidatos a asilo cheguem às suas fronteiras externas. “Não podemos esperar que as pessoas cheguem aqui para agir. Temos de ter uma resposta abrangente, e trabalhar com a comunidade e as organizações internacionais, no Afeganistão e nos países da região, para prevenir uma crise humanitária, uma crise migratória e uma crise de segurança, como aconteceu em 2015”, sublinhou. Mas Ylva Johansson fez questão de clarificar que “nem a Convenção de Genebra, nem o Tratado da UE ou o acervo comunitário, que reconhecem o direito de pedir de asilo, significam que todos aqueles que necessitam de protecção internacional podem vir para a Europa”.
Numa declaração conjunta aprovada pelo Conselho da UE, os Estados-membros pedem à Comissão para desenhar um plano de acção, em colaboração com os países vizinhos do Afeganistão, para “responder ao impacto das deslocações na região”. Segundo Eduardo Cabrita, todos os participantes na reunião (os 27 países da UE e os três países associados da zona Schengen) concordaram que deve ser dada “prioridade absoluta à dimensão humanitária, como melhor e única forma de prevenir o risco para a segurança da Europa” — o que necessariamente implica o diálogo e a cooperação com os países vizinhos, em particular o Irão e o Paquistão, onde já existem comunidades significativas de afegãos.
“Há uma predisposição da UE para trabalhar em conjunto com os países vizinhos de forma a estabelecer mecanismos que permitam a salvaguarda dos direitos de quem foi forçado a fugir, mas não há um modelo definido”, afirmou o ministro da Administração Interna.
Questionada no final da reunião, a comissária excluiu a hipótese de replicar o acordo que Bruxelas assinou com a Turquia no auge da crise migratória provocada pela guerra da Síria. “Não faremos copy paste do acordo com a Turquia, teremos soluções específicas para cada país em função das necessidades”, declarou Ylva Johansson. “Neste momento, não vemos um grande aumento do número de afegãos nos países vizinhos. Se esse movimento se verificar, veremos com esses países qual o tipo de apoio mais relevante para atender as pessoas em necessidade”, concluiu.
Ministros da UE protelam discussão sobre quotas para o acolhimento e a redistribuição de refugiados. Eduardo Cabrita informou os parceiros europeus das condições de Portugal para receber populações vulneráveis: mulheres e crianças, jornalistas, magistrados e activistas dos direitos humanos perseguidos pelos taliban.
O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, confirmou aos seus parceiros europeus que Portugal está disponível para acolher de imediato “várias centenas” de refugiados vindos do Afeganistão, com prioridade para os grupos que a União Europeia designou como os mais vulneráveis: mulheres e crianças, activistas dos direitos humanos, jornalistas e magistradas e juristas, que correm um risco acrescido com o retorno dos taliban ao poder naquele país.
No final de uma reunião extraordinária do Conselho de Justiça e Assuntos Internos da União Europeia, convocada para discutir a situação no Afeganistão, esta terça-feira em Bruxelas, o ministro português garantiu que o país tem a capacidade financeira, no quadro do Fundo de Asilo e Migrações gerido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, para assegurar a instalação de “algumas centenas de pessoas” — e acrescentou que o Governo não deixará de ponderar qual pode ser a “capacidade adicional” para receber mais pessoas com estatuto de protecção internacional, através dos mecanismos europeus.
No encontro desta terça-feira, que coincidiu com o encerramento oficial da operação militar dos Estados Unidos da América e da NATO no Afeganistão, nem os Estados-membros, nem o executivo comunitário, quiseram discutir quotas de redistribuição ou comprometer-se com o acolhimento de um determinado número de refugiados afegãos: todos concordaram que é demasiado cedo para abordar um tema que é politicamente sensível e divide os governos da UE.
Aliás, nas declarações proferidas pelos vários responsáveis políticos, à entrada e à saída da reunião, ficou clara a divisão entre os países que estão disponíveis para apoiar a instalação de refugiados do Afeganistão no seu território, e os que defendem que os cidadãos que estão a ser perseguidos pelas novas autoridades e tentam fugir do país “não devem vir para a Europa, mas sim permanecer na região”, como insistiram vários ministros, nomeadamente o dinamarquês Mattias Tesfayer, filho de um imigrante etíope.
O ministro do Luxemburgo, Jean Asselborn, criticou abertamente esta posição, e defendeu a abertura de um programa europeu de reinstalação semelhante ao que foi anunciado pelo Reino Unido, que prometeu atribuir 20 mil vistos de residência a cidadãos em risco no Afeganistão. “Não podemos aceitar todos, já sabemos isso. Mas somos a região mais rica do mundo, onde a democracia e o primado da lei são valores fundamentais. Temos a obrigação de dar esperança àqueles que estão a ser perseguidos e deixaram de poder viver normalmente”, considerou,
No fim do dia, a questão do acolhimento de refugiados acabou por ser protelada. Segundo a comissária com a pasta dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, o executivo vai promover um fórum de alto nível para a reinstalação de cidadãos afegãos no próximo mês de Setembro, altura em que poderá já estar concluído um “exercício de redistribuição” que os serviços de Bruxelas já iniciaram.
Esse exercício poderá até nem terminar com a fixação de numerus clausus: como notou a comissária, nem a UE nem nenhuma organização internacional está em condições de garantir a saída de afegãos do seus país, pelo que não faz muito sentido definir um valor absoluto. “Ao contrário de outros países, como por exemplo o Canadá, a União Europeia também está a receber muita gente que chega de forma irregular. No último ano demos asilo a 300 mil pessoas”, apontou Johansson.
A mensagem politica que a comissária procurou passar foi a de que a União Europeia não pode esperar que os candidatos a asilo cheguem às suas fronteiras externas. “Não podemos esperar que as pessoas cheguem aqui para agir. Temos de ter uma resposta abrangente, e trabalhar com a comunidade e as organizações internacionais, no Afeganistão e nos países da região, para prevenir uma crise humanitária, uma crise migratória e uma crise de segurança, como aconteceu em 2015”, sublinhou. Mas Ylva Johansson fez questão de clarificar que “nem a Convenção de Genebra, nem o Tratado da UE ou o acervo comunitário, que reconhecem o direito de pedir de asilo, significam que todos aqueles que necessitam de protecção internacional podem vir para a Europa”.
Numa declaração conjunta aprovada pelo Conselho da UE, os Estados-membros pedem à Comissão para desenhar um plano de acção, em colaboração com os países vizinhos do Afeganistão, para “responder ao impacto das deslocações na região”. Segundo Eduardo Cabrita, todos os participantes na reunião (os 27 países da UE e os três países associados da zona Schengen) concordaram que deve ser dada “prioridade absoluta à dimensão humanitária, como melhor e única forma de prevenir o risco para a segurança da Europa” — o que necessariamente implica o diálogo e a cooperação com os países vizinhos, em particular o Irão e o Paquistão, onde já existem comunidades significativas de afegãos.
“Há uma predisposição da UE para trabalhar em conjunto com os países vizinhos de forma a estabelecer mecanismos que permitam a salvaguarda dos direitos de quem foi forçado a fugir, mas não há um modelo definido”, afirmou o ministro da Administração Interna.
Questionada no final da reunião, a comissária excluiu a hipótese de replicar o acordo que Bruxelas assinou com a Turquia no auge da crise migratória provocada pela guerra da Síria. “Não faremos copy paste do acordo com a Turquia, teremos soluções específicas para cada país em função das necessidades”, declarou Ylva Johansson. “Neste momento, não vemos um grande aumento do número de afegãos nos países vizinhos. Se esse movimento se verificar, veremos com esses países qual o tipo de apoio mais relevante para atender as pessoas em necessidade”, concluiu.
Pandemia do Norte, pandemia do Sul: as várias divisões da Europa que a covid mostrou
Maria João Guimarães, in Público on-line
Relatório do ECFR alerta para consequências do modo como cada país viveu a pandemia, e também para a diferenças dentro dos próprios países.
Em alguns países da Europa, a maioria viveu a pandemia da covid-19 com dificuldade, doenças graves, mortes de familiares ou amigos, e angústia económica. Outros não foram assim tão afectados. A diferença é clara entre os países do Sul e Leste europeu, por um lado, e da Europa Ocidental e do Norte, por outro, diz um relatório apoiado pela sondagem do European Council on Foreign Relations (ECFR), feita em 12 Estados-membros da União Europeia.
A divisão em relação ao que a pandemia provocou não é só geográfica, mas também geracional. Os jovens sentem-se mais afectados pela pandemia. E tendem a atribuir mais responsabilidades a terceiros por ela.
Estas são as duas grandes conclusões do relatório de Ivan Krastev e Mark Leonard, do ECFR, intitulado Europe’s invisible Divides: How covid-19 is polarising European politics (Divisões invisíveis da Europa: como a covid-19 está a polarizar a política europeia). Os dois especialistas em política externa sugerem que estas diferenças marcadas no modo como foi vivida a pandemia podem ter implicações duradouras em vários projectos centrais para a União Europeia: a liberdade de circulação, o futuro do plano de recuperação pan-europeu do bloco, e as suas relações com o resto do mundo (por exemplo com a diplomacia das vacinas), ou ajuda externa.
A maioria dos europeus (54%) sente que não foi “de todo” afectada pela pandemia do novo coronavírus, mas a média esconde as diferenças. Por exemplo, 72% dos dinamarqueses ou 65% dos alemães não foram “de todo” afectados pela covid-19, enquanto 61% dos inquiridos portugueses foram (31% apontaram consequências apenas económicas, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
Os autores classificaram como preocupante o fosso geracional que a sondagem revelou. Quase dois terços (64%) das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos não sentiram que a crise as tenha afectado pessoalmente, enquanto a maioria dos menores de 30 anos (57%) disse ter tido problemas (económicos ou de saúde) por causa da pandemia.
A ideia de liberdade é também responsável por mais uma divisão. Questionados sobre quão livres se sentiam hoje, e quão livres se sentiam antes da pandemia, 22% disseram sentir-se livres hoje, e 64% antes da pandemia – ao contrário, 27% dos inquiridos disseram não se sentir livres (e apenas 7% disseram que não se sentiam livres há dois anos). Os autores afirmam que a questão pode ter relevância política quando muitos partidos ao centro têm defendido acção do governo e muitos populistas se tornaram libertários. Hungria e Espanha têm a maior percentagem de inquiridos que se sentem livres (41% e 31%), enquanto a Alemanha regista a maior percentagem dos que não se sentem livres, 49% – um caso interessante porque apesar de várias restrições, o confinamento no país (embora diferente em cada estado federado) não foi tão estrito como em outros.
Quanto à responsabilização pelo impacto que a crise tem, e pelos limites à liberdade, o relatório diz que há pessoas a apontar em várias direcções, mas que se notam dois grupos distintos entre quem tem um culpado definido. Num dos grupos, 43% dos que indicam um culpado, diz que a ameaça à liberdade vem sobretudo de governos e instituições, da China à Comissão Europeia, passando pelas multinacionais, ou pelo seu próprio governo. Noutro grupo, 48% de quem indica um culpado, acha que a ameaça vem do comportamento individual das outras pessoas (que não seguem as regras, que regressam de viagens por exemplo): Países Baixos (67%), Áustria (62%) e Portugal (61%) são aqueles em que esta perspectiva é maioritária.
O relatório divide os inquiridos em três grupos em relação ao que acham que são os motivos dos confinamentos. Os que confiam acham que a razão é limitar a disseminação do vírus, os acusadores acham que a maior motivação é dar ao Governo controlo sobre o público, e os desconfiados pensam que a razão é fazer crer que o governo está a controlar a situação.
A maioria dos inquiridos pertence ao grupo dos que confiam (64%), enquanto 19% são desconfiados e 17% acusadores. Há grandes diferenças em alguns países, como a Polónia, o único em que os que confiam são uma minoria (38%), seguindo-se com números baixos a Bulgária (50%) e França (56%). Inversamente, estes países têm um grande número quer de desconfiados (34% na Polónia, 24% na Bulgária) e de acusadores (cerca de um quarto na Bulgária, Polónia e França).

Quem confia que o motivo foi impedir a circulação do vírus tende a ser quem foi afectado por doença ou morte de familiar, e ainda quem não foi afectado de nenhum modo. Na maioria dos países os que foram afectados apenas economicamente pela covid-19 são os que mais mostram cepticismo sobre as intenções do Governo – com excepções na Dinamarca, Portugal e Suécia.
O relatório termina com a ideia de que três países podem estar a emergir como arquétipos para a política pós-pandémica: Alemanha, Polónia, e França.
A Polónia é um exemplo de uma “democracia polarizada”, dizem os autores do relatório. A crise aumentou a divisão que já existia entre grupos. O país é que o tem a maior percentagem de inquiridos a achar que o Governo está a usar as restrições da pandemia para criar ilusão de controlo ou como justificação para controlo. E também que o Governo e outras instituições são responsáveis pelo impacto da pandemia nas suas vidas.
Já na Alemanha, uma “democracia de consenso”, não há oposição pública às restrições nem desconfiança sobre os seus motivos. “Mas o consenso superficial esconde grandes níveis de descontentamento”, dizem os autores: uma grande parte da população não se sente livre.
Finalmente, em França, na “democracia não-binária”, os principais partidos mudaram de modo marcado a sua filosofia política: o partido do Presidente Emmanuel Macron teve uma acção de intervenção e 89% dos seus apoiantes, que são sobretudo liberais, disseram que as restrições não foram suficientemente estritas. Ao contrário, apoiantes de Marine Le Pen, em geral mais autoritários, acham que não devia ter havido tantas restrições.
Ivan Krastev e Mark Leonard deixam uma nota de alerta: a próxima fase da crise pode levar a mais divisões tanto dentro dos países como entre os vários países europeus, que viveram a pandemia de modo muito diferente. Em termos de perspectiva futura, os autores chamam a atenção para a diferença que pode ser mais problemática: a divisão entre gerações. “Os governos por toda a Europa fizeram bem em salvar as vidas dos mais velhos”, escreveram os autores. “Mas chegou a altura de se focarem nos problemas dos mais novos.”
Portugal: inquiridos confiam no Governo e culpam comportamento individuais
Portugal destaca-se por estar no topo de países em que mais pessoas se sentiram afectadas pela pandemia: 61% dos inquiridos portugueses afirmam ter enfrentado desafios pessoais (31% económicos, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
O país está ainda entre os que mais confiam na motivação das medidas de confinamento, em 4.º lugar com 71% – logo a seguir à Dinamarca (77%), Suécia (76%, o país destacou-se por ter menos medidas mas ainda assim teve restrições, incluindo algumas bastantes estritas nos lares de idosos), e Países Baixos (76%).
Portugal está em quarto lugar entre os países que pensam que as restrições impostas foram proporcionais, embora já com uma maioria mais pequena, de 56% (o mesmo que a Bulgária e atrás da Dinamarca e da Hungria, onde 62% e 71% dos inquiridos acharam as medidas certas). Por outro lado, há uma percentagem muito significativa – 32% – que consideram que as medidas não foram suficientemente estritas – e o país está ainda entre os três com menos inquiridos a acharem que foram demasiado estritas (12%, atrás da Hungria, 9%, e Suécia, 6%).
Portugal é ainda um dos países que culpa claramente indivíduos pela crise da covid – 57% –, enquanto 37% culpam instituições ou governos, incluindo o do próprio país.
Relatório do ECFR alerta para consequências do modo como cada país viveu a pandemia, e também para a diferenças dentro dos próprios países.
Em alguns países da Europa, a maioria viveu a pandemia da covid-19 com dificuldade, doenças graves, mortes de familiares ou amigos, e angústia económica. Outros não foram assim tão afectados. A diferença é clara entre os países do Sul e Leste europeu, por um lado, e da Europa Ocidental e do Norte, por outro, diz um relatório apoiado pela sondagem do European Council on Foreign Relations (ECFR), feita em 12 Estados-membros da União Europeia.
A divisão em relação ao que a pandemia provocou não é só geográfica, mas também geracional. Os jovens sentem-se mais afectados pela pandemia. E tendem a atribuir mais responsabilidades a terceiros por ela.
Estas são as duas grandes conclusões do relatório de Ivan Krastev e Mark Leonard, do ECFR, intitulado Europe’s invisible Divides: How covid-19 is polarising European politics (Divisões invisíveis da Europa: como a covid-19 está a polarizar a política europeia). Os dois especialistas em política externa sugerem que estas diferenças marcadas no modo como foi vivida a pandemia podem ter implicações duradouras em vários projectos centrais para a União Europeia: a liberdade de circulação, o futuro do plano de recuperação pan-europeu do bloco, e as suas relações com o resto do mundo (por exemplo com a diplomacia das vacinas), ou ajuda externa.
A maioria dos europeus (54%) sente que não foi “de todo” afectada pela pandemia do novo coronavírus, mas a média esconde as diferenças. Por exemplo, 72% dos dinamarqueses ou 65% dos alemães não foram “de todo” afectados pela covid-19, enquanto 61% dos inquiridos portugueses foram (31% apontaram consequências apenas económicas, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
Os autores classificaram como preocupante o fosso geracional que a sondagem revelou. Quase dois terços (64%) das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos não sentiram que a crise as tenha afectado pessoalmente, enquanto a maioria dos menores de 30 anos (57%) disse ter tido problemas (económicos ou de saúde) por causa da pandemia.
A ideia de liberdade é também responsável por mais uma divisão. Questionados sobre quão livres se sentiam hoje, e quão livres se sentiam antes da pandemia, 22% disseram sentir-se livres hoje, e 64% antes da pandemia – ao contrário, 27% dos inquiridos disseram não se sentir livres (e apenas 7% disseram que não se sentiam livres há dois anos). Os autores afirmam que a questão pode ter relevância política quando muitos partidos ao centro têm defendido acção do governo e muitos populistas se tornaram libertários. Hungria e Espanha têm a maior percentagem de inquiridos que se sentem livres (41% e 31%), enquanto a Alemanha regista a maior percentagem dos que não se sentem livres, 49% – um caso interessante porque apesar de várias restrições, o confinamento no país (embora diferente em cada estado federado) não foi tão estrito como em outros.
Quanto à responsabilização pelo impacto que a crise tem, e pelos limites à liberdade, o relatório diz que há pessoas a apontar em várias direcções, mas que se notam dois grupos distintos entre quem tem um culpado definido. Num dos grupos, 43% dos que indicam um culpado, diz que a ameaça à liberdade vem sobretudo de governos e instituições, da China à Comissão Europeia, passando pelas multinacionais, ou pelo seu próprio governo. Noutro grupo, 48% de quem indica um culpado, acha que a ameaça vem do comportamento individual das outras pessoas (que não seguem as regras, que regressam de viagens por exemplo): Países Baixos (67%), Áustria (62%) e Portugal (61%) são aqueles em que esta perspectiva é maioritária.
O relatório divide os inquiridos em três grupos em relação ao que acham que são os motivos dos confinamentos. Os que confiam acham que a razão é limitar a disseminação do vírus, os acusadores acham que a maior motivação é dar ao Governo controlo sobre o público, e os desconfiados pensam que a razão é fazer crer que o governo está a controlar a situação.
A maioria dos inquiridos pertence ao grupo dos que confiam (64%), enquanto 19% são desconfiados e 17% acusadores. Há grandes diferenças em alguns países, como a Polónia, o único em que os que confiam são uma minoria (38%), seguindo-se com números baixos a Bulgária (50%) e França (56%). Inversamente, estes países têm um grande número quer de desconfiados (34% na Polónia, 24% na Bulgária) e de acusadores (cerca de um quarto na Bulgária, Polónia e França).
Quem confia que o motivo foi impedir a circulação do vírus tende a ser quem foi afectado por doença ou morte de familiar, e ainda quem não foi afectado de nenhum modo. Na maioria dos países os que foram afectados apenas economicamente pela covid-19 são os que mais mostram cepticismo sobre as intenções do Governo – com excepções na Dinamarca, Portugal e Suécia.
O relatório termina com a ideia de que três países podem estar a emergir como arquétipos para a política pós-pandémica: Alemanha, Polónia, e França.
A Polónia é um exemplo de uma “democracia polarizada”, dizem os autores do relatório. A crise aumentou a divisão que já existia entre grupos. O país é que o tem a maior percentagem de inquiridos a achar que o Governo está a usar as restrições da pandemia para criar ilusão de controlo ou como justificação para controlo. E também que o Governo e outras instituições são responsáveis pelo impacto da pandemia nas suas vidas.
Já na Alemanha, uma “democracia de consenso”, não há oposição pública às restrições nem desconfiança sobre os seus motivos. “Mas o consenso superficial esconde grandes níveis de descontentamento”, dizem os autores: uma grande parte da população não se sente livre.
Finalmente, em França, na “democracia não-binária”, os principais partidos mudaram de modo marcado a sua filosofia política: o partido do Presidente Emmanuel Macron teve uma acção de intervenção e 89% dos seus apoiantes, que são sobretudo liberais, disseram que as restrições não foram suficientemente estritas. Ao contrário, apoiantes de Marine Le Pen, em geral mais autoritários, acham que não devia ter havido tantas restrições.
Ivan Krastev e Mark Leonard deixam uma nota de alerta: a próxima fase da crise pode levar a mais divisões tanto dentro dos países como entre os vários países europeus, que viveram a pandemia de modo muito diferente. Em termos de perspectiva futura, os autores chamam a atenção para a diferença que pode ser mais problemática: a divisão entre gerações. “Os governos por toda a Europa fizeram bem em salvar as vidas dos mais velhos”, escreveram os autores. “Mas chegou a altura de se focarem nos problemas dos mais novos.”
Portugal: inquiridos confiam no Governo e culpam comportamento individuais
Portugal destaca-se por estar no topo de países em que mais pessoas se sentiram afectadas pela pandemia: 61% dos inquiridos portugueses afirmam ter enfrentado desafios pessoais (31% económicos, e 30% de saúde). Apenas Espanha e Hungria (64% e 65%) têm uma percentagem mais alta do que Portugal.
O país está ainda entre os que mais confiam na motivação das medidas de confinamento, em 4.º lugar com 71% – logo a seguir à Dinamarca (77%), Suécia (76%, o país destacou-se por ter menos medidas mas ainda assim teve restrições, incluindo algumas bastantes estritas nos lares de idosos), e Países Baixos (76%).
Portugal está em quarto lugar entre os países que pensam que as restrições impostas foram proporcionais, embora já com uma maioria mais pequena, de 56% (o mesmo que a Bulgária e atrás da Dinamarca e da Hungria, onde 62% e 71% dos inquiridos acharam as medidas certas). Por outro lado, há uma percentagem muito significativa – 32% – que consideram que as medidas não foram suficientemente estritas – e o país está ainda entre os três com menos inquiridos a acharem que foram demasiado estritas (12%, atrás da Hungria, 9%, e Suécia, 6%).
Portugal é ainda um dos países que culpa claramente indivíduos pela crise da covid – 57% –, enquanto 37% culpam instituições ou governos, incluindo o do próprio país.
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