in Diário de Notícias
O sociólogo António Barreto considerou hoje que a atual crise económica vai deixar uma cicatriz nas estatísticas que já será visível dentro de quatro anos em indicadores como a escola, a imigração ou o rendimento per capita.
"Esta crise económica e social é tão profunda que vai deixar marca nas estatísticas. "s vezes não se nota, mas esta vai deixar [marcas]", disse o sociólogo, à margem da apresentação pública do PORDATA Municípios, uma base de dados com indicadores dos 308 municípios portugueses relativos, por exemplo, ao número de habitantes, às condições de vida e às finanças autárquicas.
Segundo o sociólogo, "daqui a três ou quatro anos" já será possível ver reduções ou aumentos em certos indicadores, como a escola, a imigração ou o rendimento per capita, "porque a crise tem sido muito profunda".
António Barreto salientou a grande evolução dos dados estatísticos disponíveis em Portugal nas últimas décadas, de forma que hoje os portugueses veem nos órgãos de comunicação dados estatísticos que não existiam há cinco anos.
"A imprensa faz bem em utilizar profundamente os dados, mas, ao mesmo tempo, também sinto que à imprensa basta muitas vezes um número para impressionar. É preciso também explicar, colocar a informação em contexto, perceber aquela informação e não nos ficarmos pelo choque inicial", afirmou.
Barreto criticou alguma tendência para a demagogia.
"Eu já ouvi que a crise está a aumentar os suicídios, porque há um indicador para 2011 que dava um número de suicídios superior a 2010. Mas estes fenómenos são sempre mais lentos e a primeira coisa a ver são os últimos 10 anos. Ora, em 2006 e 2007 existem mais suicídios do que em 2011, pelo que o raciocínio morre logo", exemplificou.
Saber quanto é que é gasto em cartões de crédito, como é que vai a insolvência pessoal e das famílias, o pagamento de créditos à banca e da prestação da casa são, segundo o sociólogo, dados essenciais para "saber o que se passa no país e como é que a crise vai afetar o país".
O PORDATA Municípios, hoje apresentado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, junta-se às bases de dados já disponíveis acerca de Portugal e da Europa.
Segundo a diretora da PORDATA, Maria João Valente Rosa, para já o projeto está completo e a próxima fase será de enriquecimento de dados.
Os mais de 530 gráficos, que permitem comparar informação entre diferentes tipos de indicadores, permitem sobretudo verificar que "Portugal é um país com fortes assimetrias e estas não são necessariamente as distâncias físicas, mas sim sociais, culturais e económicas", acrescentou.
A nova base de dados disponibiliza informação estatística oficial para os 308 municípios, agrupados em 12 temas: a população, a saúde, a educação, a proteção social, o emprego, as empresas, a justiça, a sociedade da informação, a habitação, cultura, ambiente e finanças autárquicas.
Os dados foram recolhidos junto de cerca de 50 organismos oficiais, entre os quais se destaca o INE.
Os números são os mais recentes, mas estão incluídos também os primeiros dados estatísticos disponíveis sobre o item a consultar e também dados de alguns períodos intermédios.


