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A pandemia colocou “pobreza” no dicionário de muitas famílias do Algarve Por Nuno Costa • 19 de Julho de 2021 - 7:00

Por Nuno Costa, in SulInformação

Dos cerca de 400 beneficiários da Re-food Faro, 150 são crianças ou adolescentes

Cerca de 1200 pessoas estão a receber ajuda do projeto Refood, no Algarve, divididas pelos núcleos de Faro, Albufeira, Almancil e Vila Real de Santo António. Cada uma destas pessoas tem uma história diferente e seria impossível contá-las todas, uma a uma. Ainda assim, quase todas elas têm um ponto em comum: a pandemia.

Quem estava numa situação financeira instável antes da chegada da Covid-19 e do primeiro confinamento, encontrou dificuldades acrescidas para se reerguer. E pessoas – e são muitas – que nunca tinham enfrentado dificuldades para colocar uma refeição em cima da mesa depararam-se com essa realidade pela primeira vez.

Com a pandemia, os aviões ficaram em terra e o turismo teve um travão a fundo. Muitas empresas foram obrigadas a aderir ao lay-off e outras fecharam portas.

Aqueles que não perderam o emprego – ou que não conseguiram encontrar colocação no mercado de trabalho para a época alta, como é costume no Algarve – tiveram quebras abruptas nos rendimentos e deixaram de conseguir pagar as contas.

Passou ano e meio desde que foi decretado o primeiro confinamento, a situação está difícil, segundo os responsáveis pela Refood Faro – que são também embaixadores dos núcleos do Algarve – e a expetativa é que se agrave ainda mais.

A história de vida de Nancy Goncalez, que recebe apoio alimentar da Refood Faro desde Fevereiro, nunca foi fácil, mas a pandemia veio tornar tudo mais difícil.

O marido teve um acidente de trabalho e está acamado. Recebe 635 euros por mês. Nancy, que nasceu na Venezuela, mas que se mudou para Portugal em 2002, também não pode trabalhar e recebe uma pensão de invalidez de 232 euros. A renda da casa, um T3, é de 450 euros. Sobram cerca de 200 euros para despesas como luz, água, internet e alimentos, sendo que o casal vive com três netos, com 19, 18 e 17 anos, todos em idade escolar.

Ou melhor vivia, porque o mais velho, que chegou a trabalhar em part-time, para ajudar a pagar as despesas, ficou sem emprego devido à pandemia e teve de arranjar uma alternativa.

«Deixou os estudos em design e alistou-se no exército. Assim, fica mais um prato de comida para os irmãos», conta Nancy ao Sul Informação.

Em todo o país, segundo um estudo da Universidade Católica, 400 mil pessoas foram “atiradas” para a pobreza devido à pandemia, sendo o Algarve a região mais afetada. É o caso desta família que, até há alguns meses, «não tinha problemas».

Paula Matias, coordenadora voluntária da Refood Faro, dá outro exemplo: «temos cá uma família, com duas crianças. Os pais trabalhavam no Aeroporto, com um rendimento de 1300 euros. Com esta situação do lay-off o rendimento baixou para os 600 e tal, o que obrigou a família a sair da sua casa e a voltar para a casa dos pais».

Carlos Reis, também ele coordenador voluntário desta IPSS que, só em Faro, presta auxílio a cerca de 400 pessoas, diz que «o perfil de quem nós apoiamos mudou substancialmente com a pandemia. Temos professores, assistentes sociais, temos até um arquiteto. Depois, há as pessoas do setor do turismo, do Aeroporto, do Fórum Algarve» e até estudantes da Universidade do Algarve.

O responsável pela ReFood Faro diz que, antes da Covid-19, «se apoiávamos algum estudante, era um número muito residual e agora tivemos vários casos. Jovens a tirar a licenciatura, outros a tirar o mestrado. Ninguém está livre».

Paula Matias acha que isto acontece porque «os pais têm dificuldades em pagar as rendas, que são caras. Temos aqui jovens que não são de cá, dois deles que trabalhavam na restauração e ficaram sem trabalho».

Esta realidade nova para muitas pessoas e famílias não é, obviamente, fácil de aceitar. No entanto, «quando há filhos envolvidos, as pessoas acabam por perder um bocado a vergonha e vir pedir ajuda», segundo Paula Matias.

Ultrapassado este passo, há outra vergonha ainda mais difícil de superar, aquela que é relativa aos outros.

«Há casos de famílias que pedem para mudar o dia a que vêm buscar comida, porque têm cá colegas de trabalho a fazer voluntariado», conta Paula Matias.

Nestas situações, as máscaras até ajudam. «Há muitas pessoas que sentem desconforto em estar numa fila, à espera de alimentos. Há gente que vem com as máscaras, óculos e chapéu, com o objetivo de esconder a identidade. Há também pessoas que, quando veem a fila muito grande, vão dar uma volta, vêm mais tarde», acrescenta Carlos Reis.

Esse passo de assumir a dificuldade perante os outros «é muito complicado para quem nunca esteve numa situação semelhante. Estamos a falar de pessoas que tinham a sua vida completamente estruturada ao longo de muitos anos. Com ordenados que permitiam pagar as suas despesas e ter comida sem grandes dificuldades e que, de um momento para outro, se viram nesta situação, que nunca imaginaram. A nível psicológico é muito difícil».

E não é só difícil para os pais. Também para os filhos não é fácil de aceitar esta nova realidade. «Há muitos adolescentes que sempre viveram numa realidade oposta. Os pais sempre tiveram condições para lhes proporcionar aquilo que todas as crianças devem ter. No entanto, de um momento para outro, esses pais estão numa fila da Refood para vir buscar comida. Também os filhos se revoltam e sentem vergonha», segundo Paula Matias.

Há mesmo casos de «adolescentes que pedem aos pais para não virem aqui e eles têm que lhes explicar que é a única forma».

Dos cerca de 400 beneficiários da Refood Faro, 150 são crianças ou adolescentes.

Carina Ataíde, com 38 anos, vive com os dois filhos, de 7 e 11 anos. Carina até já recebia apoio antes da pandemia, mas «no momento que tencionava reduzir as vindas à Refood, porque pensei que estava a melhorar e queria fazer tudo por mim, começou a situação da Covid-19 foi tudo ao fundo. Tudo aquilo que tinha conquistado quebrou tudo e, se não fosse a Refood, seria muito, mas mesmo muito complicado», conta ao Sul Informação.

Carina dá aulas de Atividades de Enriquecimento Curricular (AECS) e é terapeuta. Como não tem contrato, se não trabalhar não ganha e, com duas crianças em casa, devido ao encerramento das escolas, durante os períodos de confinamento, a situação ainda se complicou mais.

«Eu tentei arranjar um part-time, mas é muito complicado, por causa dos horários, por causa deles. Eles ou têm aulas de manhã ou à tarde. Mesmo que arranjasse um emprego a meio tempo, seria apenas para pagar o ATL dos dois. Assim, ao menos, consigo dar-lhes apoio no que posso», explica.

A situação, antes do início do Verão, «estava a melhorar. Estava a fazer mais terapias, porque as pessoas estão mais à vontade, com a diminuição das infeções, mas agora, com o aumento de casos, voltou tudo para trás», lamenta.

O Estado, para fazer face à quebra de rendimentos das famílias, lançou medidas de apoio, mas Paula Matias diz que «umas não têm direito e as que têm dizem-nos que são insuficientes para fazer face às despesas».

«Há muita gente que trabalhava, mas que estava em situações de precariedade e, por isso, não têm possibilidade de aceder a apoios, como o subsídio desemprego», acrescenta Carlos Reis.

O número de pedidos de ajuda na Refood, de certa forma, tem acompanhado a evolução da pandemia.

«Nós, antes da Covid-19, estávamos a apoiar 114 pessoas. Em Março de 2020, quando houve o primeiro confinamento, ali nos primeiros 2/3 meses passámos logo para o dobro. Depois, veio o Verão e houve algumas pessoas que conseguiram estabilizar. Depois, a partir de meio de Setembro, começamos novamente a sentir um grau de aumento nos pedidos. Em Novembro, Dezembro, houve um aumento muito grande e chegámos às 350 pessoas e foi-se mantendo».

Mas essa estabilização não vai durar muito tempo, na opinião de Paula Matias. A experiência que temos diz-nos que, ao caminharmos para os dois anos de pandemia, a situação não vai estabilizar, mas sim vai piorar. Agora estamos na altura do Verão e melhora um pouco, mas teremos um Inverno muito complicado o que nos leva a pensar em alternativas. Se tivermos um aumento de pedidos de ajuda, temos que aumentar também a capacidade de resposta na comida e também nos voluntários».

Mas nem tudo é mau. E se há algo que esta pandemia mostrou é a capacidade de mobilização das pessoas para ajudar quem precisa.

«O concelho de Faro tem sido muito unido, não podemos dizer o contrário. Temos pessoas que cozinham nas suas casas e que doam as refeições às famílias, temos pessoas a fazer donativos de bens alimentares não perecíveis. Temos tido o apoio do Banco Alimentar, que tem sido importante, especialmente quando não havia os excedentes nos hipermercados, mas temos tido também a população muito unida. Passámos de 130 para 300 voluntários e sempre que fazemos um apelo, temos tido resposta por parte da comunidade. Ainda assim, continuamos a precisar de voluntários, por incrível que pareça», conclui Paula Matias.