7.9.20

Doentes não urgentes regressam em força aos hospitais. “São dezenas e dezenas por dia”

Alexandra Campos e Rui Barros, in Público on-line

A procura das urgências está a aumentar numa altura em que se aproxima a época em que estes serviços são habitualmente sujeitos a grande pressão. Em alguns hospitais tenta-se que os doentes ligeiros sejam encaminhados para consultas nos centros de de saúde, mas muitos não aceitam.

“Erupção cutânea na região anal com um ano de evolução”, “escabiose [sarna] diagnosticada há duas semanas e que não melhorou”, “dores de pescoço há meses”, “ardência a urinar”. Estes são alguns dos casos que vão desaguando em catadupa no serviço de urgência do hospital de São João (Porto), numa altura em que a situação ainda está calma mas em que o número de atendimentos, mais de 400, se aproxima já da média diária anterior à pandemia. “É isto todos os dias. São dezenas e dezenas de doentes com queixas deste tipo e não podemos deixar de os receber”, relata Nelson Pereira, coordenador deste que é um dos maiores serviços de urgência do país, enquanto observa o monitor do computador onde a percentagem de doentes triados com pulseiras verdes, azuis e brancos (não prioritários) está a aumentar. Somando todas as regiões do país, em Agosto os doentes não prioritários nas urgências dos hospitais representavam 45% do total, quando em 2019, em média, rondavam 42%.

A pressão destes casos na urgência do São João “até tem sido um bocadinho superior” à que se verificava noutros anos, lamenta a directora do serviço, Cristina Marujo. E neste Outono e Inverno, à sobrecarga habitual dos serviços de urgência pela gripe sazonal e outros vírus respiratórios juntar-se-á a necessidade de abordar os doentes com sintomas similares como potenciais infectados pelo novo coronavírus. Os casos suspeitos de covid-19 deverão aumentar já com o regresso dos alunos às escolas e de muitas pessoas aos locais de trabalho. “De todas as áreas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), os serviços de urgência são os que mais vão sofrer a pressão porque não será possível distinguir sintomas. Mesmo que haja menos casos de gripe graças ao uso de máscaras e ao distanciamento físico, se tiverem sintomas ligeiros, como febre, as pessoas não vão poder ficar em casa. Não vai ser legítimo fazer de conta que não se passa nada. Se tiver sintomas, a sociedade exige-me e merece que eu seja testado”, enfatiza Nelson Pereira, que advoga o reforço dos cuidados de saúde primários e da linha SNS 24.

Um principais problemas identificados no São João tem sido a incapacidade de alguns centros de saúde darem resposta aos utentes, apesar de esta não ser a única explicação para o regresso em massa, em números absolutos, dos casos ligeiros. “Pergunto aos enfermeiros na triagem e eles respondem: os doentes dizem que vão aos centros de saúde e não são recebidos ou que telefonam para lá e ninguém atende”. À semelhança de outros hospitais, o São João tem protocolos com agrupamentos de centros de saúde (como os de Maia e Valongo) para que os casos não prioritários possam ser encaminhados para lá. “Explicamos às pessoas que podem ir a uma consulta com hora marcada, almoçar com calma, descansar”, descreve Cristina Marujo. Não adianta, porém. “Muitos não aceitam.”


Quando se olha para o portal da Monitorização Diária dos Serviços de Urgência do SNS, que já inclui dados de Agosto, ainda provisórios e que necessitam de ser rectificados, observa-se um ligeiro aumento das percentagens de verdes, azuis e brancos em todas as regiões do país, à excepção de Lisboa e Vale do Tejo, onde se verifica uma tendência inversa. Uma das explicações para este acréscimo tem sido a falta de resposta de alguns centros de saúde do país – um fenómeno muito assimétrico, porque alguns estão já a funcionar bem e outros mal – agravada pelo problema, que se arrasta há anos, do não atendimento dos telefones, que já levava muitas pessoas ao desespero antes da pandemia. Basta consultar o Portal da Queixa: está recheado de protestos de pessoas que garantem ter estado horas e por vezes dias a fio a telefonar para os centros de saúde sem que ninguém atenda. Reconhecendo um problema que já está identificado há anos, o Ministério da Saúde adianta agora que vai disponibilizar 30 mil telemóveis e 30 mil telefones fixos aos centros de saúde. Resta saber se chegarão a tempo do desafio deste Outono e Inverno.


FotoCristina Marujo e Nelson Pereira já notam as diferenças nos casos que chegam à urgência NELSON GARRIDO
Onde estão os casos graves?

Recuemos uns meses. Quando os primeiros casos de covid-19 foram anunciados em Portugal e a população ficou fechada em casa, a afluência aos serviços de urgência caiu a pique. O confinamento e o medo do contágio combinaram-se para produzir um a quebra sem paralelo, um fenómeno que os especialistas interpretaram como positivo, por um lado, e como preocupante, por outro. Se o desaparecimento, em números absolutos, de milhares e milhares de doentes triados com pulseiras verdes, azuis e brancas (os tais casos pouco e não urgentes que poderiam ser vistos noutros locais) aliviou estes serviços de elevada complexidade e vocacionados para receber doentes graves, a quebra da procura dos urgentes e muito urgentes (amarelo e laranja) deixou os especialistas deveras preocupados. Onde estão os casos graves, como os enfartes e os AVC?, questionavam.

Os meses foram passando, o desconfinamento foi decretado e a procura dos serviços de urgência começou de novo a crescer, de mês para mês. Em Julho, segundo os últimos dados disponíveis no portal da transparência do SNS, a afluência ainda estava longe da média dos anos anteriores. Em Julho, 382.499 pessoas recorreram aos serviços de urgência do SNS, mais 57% do que em Abril, mês em que o número de episódios atingiu um valor mínimo nunca antes registado (o portal da transparência tem dados desde 2013). Mas em Agosto já se estava a aproximar dos valores habituais em vários hospitais, sobretudo no Norte do país.

No topo da lista das unidades hospitalares em que os atendimentos mais estão a crescer, sete são do Norte. O Hospital de Vila Franca de Xira (da região de Lisboa e Vale do Tejo) que na semana passada se viu obrigado a reencaminhar doentes urgentes para outros hospitais por causa de um surto de covid-19, é a excepção, surge em sexto lugar. À cabeça desta lista surge a Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos (que inclui o hospital e os centros de saúde do concelho), onde a diferença entre o total de urgências em Agosto deste ano era de apenas 926 — 30 por dia — em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo os dados provisórios.

Para o presidente do conselho de administração da ULS de Matosinhos, Taveira Gomes, o problema não se justificará aqui pela falta de resposta dos centros de saúde, uma vez que mais de metade dos doentes que procuraram a urgência entre Maio e Julho deste ano tinham tido consultas nos cuidados de saúde primários na semana anterior ou mesmo na semana em que vieram ao serviço, numa percentagem até superior à registada em 2019. “Não parece tanto ser um problema de acesso aos cuidados de saúde primários. Isto pode decorrer mais do efeito da suspensão da actividade programada em muitos casos e do facto de [o doente] sentir que o seu problema não ficou resolvido [nos centros de saúde]. As pessoas estão à procura de uma resposta [consulta] de especialidade e fazem batota, até porque confiam nas urgências, onde fazem radiografias e outros exames. No Reino Unido se o doente não tiver uma carta do médico de família não entra na urgência, a não ser que desmaie à porta. Mas não podemos julgar as pessoas de imediato, isto está muito interiorizado na nossa cultura”, observa.
Ministra manda encaminhar para centros de saúde

A percentagem de verdes e azuis também terá crescido porque em Maio, alarmadas com a quebra dramática da afluência, as autoridades de saúde fizeram questão de enfatizar que estes serviços locais são muito seguros, recorda Taveira Gomes. O médico lamenta que haja obstáculos à alteração do modelo actual. Em Matosinhos, foi criado um circuito próprio para aliviar o serviço destes casos. “Tínhamos duas internas de medicina geral e familiar que aceitaram fazer seis horas de urgência por dia e que só viam verdes e azuis. Mas, quando acabaram o internato, propusemos a sua contratação e o pedido veio indeferido.” Quanto ao encaminhamento de casos ligeiros para os centros de saúde, metade não aceita.

Outro hospital em que as urgências estão a crescer é o de Santo António (Centro Hospitalar e Universitário do Porto), que, em Agosto, de acordo com os dados fornecidos pela direcção clínica, estava ainda fazer menos 17% dos atendimentos do que no mesmo mês do ano anterior. Mas observa-se uma tendência para o aumento de “verdes” (23% em Agosto contra uma média de apenas 17% em todo o ano passado) e dos azuis (que são agora de 3%, mais 1% do que em 2019), que “poderá ter alguma relação com dificuldades de acesso aos centros de saúde ou aos consultórios privados, mas [isso] não é certo”, interpreta o director clínico, José Barros, com esperança de que “o respeito pelo conceito de verdadeira urgência hospitalar adquirido por muitos cidadãos durante a pandemia” ajude a atenuar um Outono e Inverno mais complicados.

No serviço de urgência geral do hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde os atendimentos oscilam entre os 400 e os 500 diários, mas que já chegou a ter picos de 700 casos, os números ainda estão muito longe do habitual. “Sabemos que há muitas urgências que são desnecessárias. O aumento da procura dos verdes e azuis é o tipo de recuperação que não gostaríamos que acontecesse”, assume Luís Pinheiro, director clínico do Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Norte (que inclui o Santa Maria e o Pulido Valente). Mas muitos “são quadros respiratórios, potenciais casos de covid-19 e têm que ser testados”, nota. De resto, a epidemia potenciou a articulação com os centros de saúde de Lisboa Norte, com marcação e agendamento de consultas, assegura.

Em Maio, no despacho em que determinou que as instituições do SNS tinham que retomar a actividade por fazer durante o início da pandemia, a ministra da Saúde deu ordem para que os triados com cor branca, azul ou verde nas urgências fossem referenciados para os centros de saúde ou “outras respostas hospitalares programadas, com agendamento directo por hora marcada”. Mas muitas pessoas não aceitam e os médicos de família, assoberbados por várias tarefas, acentuam que não têm capacidade para receber tantos casos.