30.7.20

“Enquanto [a ministra] bebe drinks e fala de arte contemporânea, a União dá ajuda espontânea”: as rimas de quem ajuda quem passa fome

João Diogo Correia, in Expresso

Se as relações entre a ministra da Cultura e o sector que tutela já não eram conhecidas pela amizade, esta terça-feira foi dado mais um passo para as azedar. “Muito obrigada e vamos beber o drink de fim de tarde” respondeu Graça Fonseca à jornalista da SIC que se preparava para fazer uma pergunta sobre um grupo de ajuda alimentar aos profissionais da cultura. A ministra anunciava a aquisição de 65 obras de arte contemporânea para a coleção do Estado, num investimento total de um milhão de euros até ao final da legislatura. “Hoje só falo da coleção de arte contemporânea”, disse ainda

 “Não é nada que me surpreenda, vindo de quem vem”, diz Marco Medeiros, diretor artístico da companhia de teatro Palco13, responsável por um desses grupos de auxílio, o nosSOS. Para o também encenador, a frase “é o reflexo de alguém que não tem perfil para o cargo que ocupa”, porque para se dirigir a Cultura, garante, não basta conhecer obras de arte. “Além de grande conhecimento no terreno, é preciso uma sensibilidade acima da média.”

Marco Medeiros exemplifica com o teatro: “Se acabar amanhã, a população não sente falta imediata, não é urgente. Mas é necessário. E sendo necessário, passa a ser urgente que alguém cuide hoje para criar correntes de público para amanhã”. Medeiros fecha o raciocínio com uma esperança que se faz lamento. “É a única forma de não ser um sector condenado, que é o que achamos que vai ser.”

A pergunta para a ministra era sobre outro grupo informal de ajuda, a União Audiovisual, que conta com mais de oito mil membros e cerca de uma dezena de coordenadores (os pedidos de ajuda começam AQUI). Iniciada em Lisboa, a corrente estendeu-se a Porto, Coimbra, zona Oeste (Peniche e Caldas da Rainha, sobretudo), Margem Sul, Alentejo, Algarve e Açores, e consiste na distribuição de cabazes “que dão para cerca de três semanas a um mês”, conta ao Expresso Ricardo Queluz.

Acabado de chegar de uma entrega em Lisboa — “não podemos fazer sempre isto, mas há quem não tenha forma de se deslocar ao armazém para levantar a comida” —, Ricardo Queluz explica que se pretende “manter a ideia original do grupo” e fugir de quaisquer conotações políticas, religiosas ou futebolísticas. “Houve pessoas da União a partilhar isso [a frase de Graça Fonseca], mas a nível individual. O grupo em si tenta abstrair-se do que a ministra diz. Ela lá sabe.”

Assim foi. Entre comentários mais ou menos agastados, vários elementos de grupos de apoio ao sector cultural têm reproduzido os comentários da ministra, alguns com recurso à rima — “enquanto bebe drinks e fala de arte contemporânea, a União dá ajuda espontânea” —, outros sem disfarçar a tensão que vem desde a primeira hora, já lá vão quase dois anos (outubro de 2018). “Desde que entrou, nada de novo nem de bom aconteceu”, resume Marco Medeiros.

Parados durante três meses, e a viver agora uma tímida retoma, não é possível precisar o número de profissionais ligados às artes e ao espetáculo para quem parar significa rendimento zero. Mas, agora que o cheque do Ministério da Cultura, no valor de 1,7 milhões de euros, chegou a todos os destinatários elegíveis, o número de cabazes de alimentos destes grupos informais dão uma ideia do estrago. Ricardo Queluz tinha apontado este domingo à agência Lusa que a União Audiovisual ajudava “entre 150 a 160 pessoas”, mas agora, ao telefone com o Expresso, faz as contas e vê o número subir. “Lisboa e Algarve são as regiões onde estamos a distribuir mais, uns 20 a 30 cabazes por semana em cada uma”. Tendo em conta que a maioria dá para um casal, significa alimentos para cerca de 60 pessoas em Lisboa e no Algarve. Falta juntar todas as outras regiões e perceber que há mais de duas centenas de pessoas a receber ajuda. Todas as semanas.

“Fazemos cabazes para três semanas, um mês, com arroz, massa, feijão, salsicha, atum, frutas, batatas, cenouras, cebolas, legumes (duas couves ou duas alfaces, por exemplo), frango, rissóis, croquetes”, conta Queluz. Mas não são raras as vezes em que a mesma família é obrigada a regressar, semana após semana. “Tentamos arranjar maneira de termos mais coisas para preencher o cabaz e neste momento já temos apoio dos supermercados.” A coordenação, que envolve reuniões virtuais mas garante a autonomia de cada núcleo, é chave. “Há pouco tempo recebemos um donativo de uma tonelada de tomate para o Algarve e foi preciso distribuí-lo pelo país.”

É uma lógica diferente da do nosSOS, que em vez de apoios em forma de alimentos recebe donativos em dinheiro que transforma em cabazes. “Até junho estávamos a receber uma média de 15 a 20 pedidos por semana, mas felizmente desceu nas últimas semanas. Acreditamos que vai voltar a subir”, lamenta Marcos Medeiros. A própria companhia Palco13, sediada em Cascais, concorreu a um apoio da Direção-Geral das Artes e não sabe como sobreviverá sem ele. Sem espetáculos até janeiro, porque atuar numa sala pequena — “estar aberto seria uma despesa”, confessa — , a companhia tem os 12 trabalhadores a colaborar com o projeto de solidariedade.

“A única ajuda que tivemos até agora foi da Câmara de Cascais, com um espaço que nos permite fazer toda a logística e recolha de alimentos.” Marco Medeiros e os colegas da Palco13 fazem compras semanais pela internet e utilizam as entregas ao domicílio dos supermercados para as distribuir pelo país, diretamente para as casas. Agora estão a fazer uma média de 10 entregas por semana, a maioria de cabazes familiares. “O nosso formulário pede sempre que se diga se a pessoa ou a família tem crianças, animais, etc, para adaptarmos o cabaz.”
Receber comida e não ter gás para a cozinhar

Para Marco Medeiros, os números não dizem tudo. Primeiro porque mentem: “Nós sabemos que estes pedidos não refletem a realidade. Já não digo que seja por vergonha, mas por falta de comunicação. Para isto chegar a toda a gente, teríamos de investir noutros meios publicitários e aí o Ministério da Cultura poderia ajudar, mas não ajuda.” Sobra a internet, onde tudo está a ser feito. Acontece que quem não tem o que comer “muito menos tem internet”. “Há pedidos que nos chegam através de amigos por causa disso. E são pedidos de grande carência.”

O objetivo agora é divulgar a iniciativa, cujas regras estão explicadas AQUI, e que agora se dirige mais aos profissionais e menos à sociedade. Por enquanto, com a diminuição dos pedidos de ajuda, as angariações estão a ser suficientes para os cobrir.

O que os números também não explicam é que não se fazem omeletes sem ovos. “Já nos pediram dinheiro para uma bilha de gás. Nós não podemos mesmo fazer esse tipo de entregas. Mas como é que essa pessoa vai cozinhar sem gás?”, pergunta o diretor artístico da Palco13.

Questionados sobre o perfil de profissionais e as regiões de onde surgem mais pedidos de ajuda, os responsáveis referem de imediato o Algarve. “Muitos artistas plásticos, muitos músicos. Tirando bandas profissionais que toda a gente conhece, o negócio dos músicos de bar deixou de existir”, lembra Ricardo Queluz.

Marco Medeiros olha para dentro. “O teatro é um sector débil neste momento. As produtoras independentes estão em muitas dificuldades, porque é muito difícil sustentar uma equipa com pelo menos 10 pessoas. E mesmo quem regressar vai ter menos afluência, porque as pessoas também não estão com grandes facilidades económicas”, prevê o encenador.

Em comum, os dois têm uma outra resposta. “Contactos do Ministério?”, pergunta Medeiros. “Zero, até agora nada.”